16 de mar. de 2010

de plágios e processos



de plágios e processos: entrevista minha a bruno dorigatti, no portal literal.

imagem: montagem

atualização: como o portal literal encerrou suas atividades e saiu da rede, reproduzo aqui a revista banzeiro:

Por ser de UTILIDADE PÚBLICA, reproduzo aqui a entrevista que a TradutoraDenise Bottmann, editora do blog Não gosto de Plágio, concedeu ao Jornalista Bruno Dorigatti, do Portal Literal, em 15/03/2010.

De plágios e processos


Por Bruno Dorigatti*

A notícia estourou no fim de fevereiro e a repercussão tem sido considerável. Motivada por matérias publicadas em dezembro de 2007 pelo jornal Opção, de Goiânia, e pela Folha de S. Paulo, a tradutora e historiadora Denise Bottmann criou no mesmo mês blog Não gosto de plágio, onde vem denunciando casos de plágio em obras clássicas de nomes como Goethe, Tolstói, Dante, DH Lawrence, entre dezenas de outros autores. Na época, as denúncias caíram sobre as editoras Martin Claret e Nova Cultural. O dono da primeira, cujo nome é o mesmo da editora, entrou na Justiça contra Bottmann e a ação está em andamento. A tradutora, porém, não se intimidou e segue com o seu trabalho de levantar e apurar “coincidências” que ultrapassam o limite do tolerável em traduções. O caso mais recente envolve a editora Landmark e ganhou repercussão por conta de outro processo movido contra Bottmann e também contra Raquel Sallaberry, que mantém o site Jane Austen em Português. No blog, Bottmann apresentou provas de plágio na tradução dePersuasão, de Jane Austen, e O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë, publicadas pela Landmark em 2007. “O método é sempre o mesmo. Mantém-se a estrutura da tradução e muda-se uma ou outra palavra antes que o texto seja publicado sob pseudônimo ou assinado por um tradutor desconhecido”, escreve Nahima Maciel, em matéria para o Correio Braziliense

“Entre as 15 editoras com problemas de catálogo, referentes a plágios e contrafações de tradução, a Landmark é a única a negar as evidências”, informa Bottmann. Segundo Alberto J. Marchi Macedo, advogado da editora, “a Landmark propôs a ação competente em face da blogueira Denise Bottmann por entender que as denúncias por ela apresentadas encontram-se totalmente desgarradas da realidade fática, razão pela qual não existe qualquer cabimento quanto a acusação de plágio. Nesse momento a Editora Landmark acredita ser prudente aguardar a tutela jurisdicional que irá por um termo a esse assunto”.

Em entrevista exclusiva ao Portal Literal, a tradutora se defende: “Sustento o que afirmei e vou apresentar todas as provas em juízo. Imagino que a prática processual determinará que se proceda a uma perícia”. Desde que a notícia se tornou pública, divulgada pela tradutora e seu blog, há mais ou menos duas semanas, quase 250 posts, artigos e matérias foram publicados na rede sobre o tema. Foi criado o blogApoio a Denise Bottmann, onde um Manifesto de apoio à tradutora, inicialmente assinado pelos tradutores Heloisa Jahn, Jorio Dauster, Ivo Barroso e Ivone C. Benedetti, já conta com mais de 2.500 adesões. O texto pede mobilização para desmascarar uma prática que “1.Fere a Lei de Direitos Autorais, que considera o tradutor como autor de obra derivada e salvaguarda seus direitos morais e patrimoniais; 2. Configura concorrência desleal, pois as editoras de má-fé, não arcando com os custos dos direitos de tradução ou não pagando por uma retradução, põem em desvantagem as editoras que, pautando-se pela idoneidade, assumem tais custos; e 3. Atenta contra nosso patrimônio cultural, ao disseminar a cópia fraudulenta de obras muitas vezes assinadas originalmente por nomes reconhecidos e estimados de nossa literatura”.

Uma das maiores críticas à Landmark foi a tentativa de censura ao blog, solicitando “a remoção do blogueNão gosto de plágio da internet, invocando o ‘direito de esquecimento’; antecipação dos efeitos da tutela de mérito (ou seja, determinação da remoção imediata do blog antes do exame do mérito da ação impetrada)”. Segundo o advogado da Landmark, em nota enviada ao Blog do Galeno, “em nenhum momento, a Editora está pretendendo cercear o direito de liberdade de expressão, mas tão somente está solicitando a prestação jurisdicional para colocar fim às acusações infundadas que a prejudicam no mercado editorial”.

A seguir, Denise Bottmann recapitula a história de plágios no Brasil, arrisca uma resposta para a proliferação de casos de plágios recentemente, e fala sobre o seu ofício, que – apesar destes casos que mancham um trabalho árduo, sério e nada simples – vem se profissionalizando cada vez mais no país, onde as editoras sérias têm investido em traduções diretamente da língua original em que as obras foram escritas. Confira.

Por que criar um blog para denunciar o plágio nas traduções?


Denise Bottmann. Na verdade, tudo começou em dezembro de 2007, na esteira de matérias do jornalOpção, de Goiânia, e da Folha de S. Paulo, denunciando plágios da editora Martin Claret e da editora Nova Cultural. O e-group Litterati, que reúne tradutores, começou a discutir o problema e um dos participantes, Fábio Said, teve a idéia de montar um blog onde apresentaríamos um abaixo-assinado de protesto contra tais procedimentos editoriais e divulgaríamos notícias, tentaríamos angariar apoio etc. O blog se chamava Assinado-Tradutores. Depois, por divergências internas entre os colaboradores do blog, preferi me retirar e criar um blog pessoal, que é o Não gosto de plágio.

Você falou em pressão e intimidação nestes dois anos. Mas agora a ameaça é judicial. Aposta o que teria motivado a editora?

Bottmann. Já há uma ação judicial do Sr. Martin Claret, como pessoa física, em andamento contra mim. O juiz havia rejeitado de plano as alegações do Sr. Claret, seus advogados entraram com recurso, meu advogado entrou com as chamadas contra-razões, e agora estamos aguardando a decisão da junta recursal.

Realmente, não sei o que pode ter motivado a editora Landmark. Entre as 15 editoras com problemas de catálogo, referentes a plágios e contrafações de tradução, a Landmark é a única a negar as evidências. Então não entendi a razão da ação. Numa declaração dada ao jornalista Guilherme Freitas, de O Globo, "a editora Landmark afirmou, através de seu advogado, que entrou com a ação contra Denise 'por entender que as denúncias por ela apresentadas encontram-se totalmente desgarradas da realidade fática, razão pela qual não existe qualquer cabimento quanto a acusação de plágio'." Bom, eu sustento o que afirmei e vou apresentar todas as provas em juízo. Imagino que a prática processual determinará que se proceda a uma perícia.

Ao que se deve a essa proliferação de plágios recentemente? A descoberta é que só se deu agora, ou a prática começou mesmo recentemente?

Bottmann. Olha, Bruno, esta é uma questão muito, muito importante. Plágio aqui, plágio ali, localizei um de 1903! Mas eram coisas muito avulsas e esporádicas, não chegavam, a meu ver, a configurar um procedimento sistemático no setor editorial. Não mesmo.

Bom, tenho a mais profunda convicção de que, enquanto fenômeno sociocultural em escala significativa, é algo recente. Embora eu sempre repita que o pioneirismo cabe à Nova Cultural, com o franco e deslavado recurso a essa prática a partir de 1995, foi um caso que hoje em dia considero até atípico. Em termos de volume, de escala, de abrangência, o caso da Nova Cultural foi brutal: calculo por baixo uns 2 milhões de exemplares.Considero atípico porque certamente a motivação, digamos assim, ou melhor, o contexto em que se desencadeou isso na Nova Cultural foi muito peculiar, em decorrência dos termos da partilha entre os dois irmãos e da extinção da Abril Cultural.

Bom, mas historicamente eu situo o início desse fenômeno nos plágios publicados pelo Círculo do Livro (que na época abrigava a recém-criada Nova Cultural) e pela própria Nova Cultural, tanto na coleção dos Imortais da Literatura Universal quanto na coleção d' Os Pensadores.

Mas a coisa realmente assume outro feitio a partir de 1999, em decorrência, em meu entender, da malfadadaLei do Direito Autoral (LDA), de 1998, a Lei n. 9.610. O que houve com essa lei? Em termos muitos resumidos, ela pura e simplesmente proibiu todo e qualquer tipo de xerox, cópia etc., e reduziu drasticamente as exceções anteriormente previstas pela lei de 1973.

Então, veja só, todo o ensino deste país, com o recurso maciço a xerox de capítulos de livros ou de livros inteiros, mesmo porque muitos são esgotados e não se encontram à venda, ficou refém dessa criminalização absurda.

Você deve lembrar das invasões policiais em tantos campi e faculdades de norte a sul do país, quando máquinas xérox foram lacradas, ações judiciais da Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR), com o apoio do Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel) contra os próprios reitores das universidades.

Bom, mas me diga: você dá aula de filosofia, ou de estética, ou de teoria literária, ou de artes cênicas, ou de cultura geral, quer falar sobre o conceito de unidade de ação, tempo e espaço, ou sobre a diferença entre tragédia e comédia, quer indicar aos alunos, sei lá, a leitura da Poética de Aristóteles. Meu deus, era pela coleção Os Pensadores, da Abril Cultural, vendida em bancas de revistas, livro esgotadíssimo, e agora não pode mais tirar xerox, e só há, sei lá, dois ou três exemplares na biblioteca da faculdade. Multiplique isso por milhares de cursos e estabelecimentos de ensino, imagine a demanda medonha pela obra, que não existe, que não se encontra em circulação, e você não pode xerocar.

Falei no Aristóteles. Ponha aí Platão, Descartes, Hobbes, Maquiavel, Thomas More, Campanella, Marx, Ihering, Rousseau, Locke, Weber e quantos mais você lembrar como bibliografia obrigatória da graduação de todo o país, sem falar nos clássicos da literatura, de Homero até o século XX.

Aí, em 1999 começa o primeiro esperto a ver essa imensa demanda sem ser atendida, a ver que a lei realmente proíbe o xerox e a ABDR realmente persegue policial e judicialmente as oficinas de xerox, os professores, os alunos, os reitores etc. – e num estalar de dedos, revirando em sebos, você tem um enorme catálogo de obras fundamentais, com mercado garantido, demanda constante, a custo praticamente de banana. Editoras fechadas, por exemplo, Vecchi, Pongetti, Atena e tantas outras; tradutores mortos, por exemplo, Lívio Xavier, Godofredo Rangel, Leonidas Hegenberg; e por aí vai.

Então, em meu entender, esse fenômeno se funda, em primeiro lugar, no absurdo período de tempo necessário para que uma obra entre em domínio público: 70 anos APÓS A MORTE do autor (e tradutor, perante a lei, tem todos os direitos de autor). Vem uma nova conjuntura, com uma nova legislação, proibindo o acesso à obras esgotadas por xerox, digitalização etc., as escolas continuam a indicar Aristóteles, Platão etc. O que que resulta? Nesse nicho extremamente próspero e perverso de algumas editoras que recorrem maciçamente a tais procedimentos.

Poderia falar um pouco mais sobre a Nova Cultural, e o que significa essa volta dos clássicos pela Abril , 32 anos depois?

Bottmann. Eis os fatos que conheço sobre a questão:

Em 1982, houve a partilha da Abril entre os dois filhos de Victor Civita. Os fascículos e coleções de banca couberam a Richard Civita. Em 1984, a Abril Cultural é extinta. Coleções importantes da antiga Abril Cultural, como Imortais da Literatura Universal, Obras-Primas, Os Pensadores, Os Economistas, passaram para a Ed. Nova Cultural, como empresa de início pertencente ao Círculo do Livro e depois ao grupo CLC (Comunicação Lazer e Cultura). Em 1995, é publicado o primeiro plágio da Nova Cultural: Os irmãos Karamazov, na tradução de Natália Nunes, surge em nome de "Enrico Corvisieri", como primeiro volume inaugurando sua Coleção Imortais da Literatura Universal, com 20 títulos. Veja aqui.

Na mesma coleção, os volumes 3 (Balzac, A mulher de trinta anos), 4 (Tolstói, Ana Karênina), 8 (Stendhal, O vermelho e o negro), 10 (Zola, Germinal), 11 (Scott Fitzgerald,Suave é a noite), 15 (Dumas, Os três mosqueteiros) e 16 (Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray) são cópias mais ou menos disfarçadas de traduções anteriores. Veja aqui.

Em 1999, começam a surgir edições fraudadas na coleção Os Pensadores. Veja, por exemplo, a calamidade da edição do Discurso do método [de Descartes], também em pretensa tradução de "Enrico Corvisieri", o grau de infiltração nas escolas etc. Em 2002-2003, é lançada a coleção Obras-Primas, com o patrocínio da Suzano Celulose e do Instituto Ecofuturo, com 50 títulos, dentre os quais nada menos de 20 são plagiados de traduções anteriores.


Naturalmente, não faço idéia das razões que podem ter levado a Editora Abril a criar umanova coleção de clássicos da literatura. Posso ter lá minhas opiniões a respeito, mas não vêm ao caso. O que sei é que é uma coleção nova – embora muitos títulos também tenham sido publicados pela antiga Abril Cultural e pela Nova Cultural, agora são outras traduções, ao que sei, pela relação divulgada pela Editora Abril. Segundo a sra. Marta Medeiros, com quem conversei na Editora Abril, essas traduções foram licenciadas junto às editoras e/ou herdeiros de tradutores falecidos detentores dos direitos patrimoniais sobre elas. É uma operação editorial absolutamente normal e corrente. Quanto ao conteúdo propriamente dito, a única coisa que lamento é que a tradução de Crime e castigo seja por interposição do francês, e não direta do russo.

O que acha que os advogados da editora querem dizer quando afirmam que a ação foi movida contra você "por entender que as denúncias por ela apresentadas encontram-se totalmente desgarradas da realidade fática, razão pela qual não existe qualquer cabimento quanto a acusação de plágio"?

Bottmann. Boa pergunta. Não sei te dizer. De minha parte, eu digo que as denúncias estão totalmente agarradas à realidade fática, razão pela qual existe todo o cabimento quanto à acusação de plágio.

Em que circunstâncias você começou a traduzir livros?

Bottmann. Olha só, que interessante. Naquela época (1985), eu dava aula na Unicamp, e um dia alguém da Brasiliense, meio de ponto em branco, por intermédio de uma amiga jornalista, me propôs fazer a tradução de um livrinho chamado O capitalismo histórico, de Immanuel Wallerstein. Como sou historiadora, achei interessante e topei. A Brasiliense gostou, e me passou logo a seguir A crise da crise do marxismo, de Perry Anderson. Então, de 1985 a 1995, mais ou menos, fiquei fazendo um pouco de tradução, sempre nessa área mais acadêmica, geralmente ligada à história, à historiografia, teoria da história etc. Mas depois parei, por uns dez anos, e em 2005 resolvi tentar de novo. Deu certo, e hoje em dia me dedico bastante a traduções. Mas sempre nessa área mais, digamos, acadêmica, ligada à ciências humanas e humanidades em geral.

Traduzir é sua ocupação integral? É possível dedicar-se só a ela no Brasil?

Bottmann. Quer dizer, atualmente é minha única ocupação, embora não em tempo integral. As pesquisas de história da tradução no Brasil, dos plágios, que faço por conta própria, me tomam um tempo danado. Dedicar-se só a ela, você diz em termos monetários? Olha, quando eu me afastei da Unicamp, foi por razões de ordem pessoal, e nunca cheguei a me aposentar. Então minha renda atual provém única e exclusivamente das traduções. Como vivemos, meu marido e eu, meio retirados, numa cidade pequena, não faço muita idéia do que são salários, remunerações etc., hoje em dia. O que posso te dizer é que é mais do que eu recebia como docente universitária. Não sei, Bruno, realmente não sei se é feio falar essas coisas ou se eu vivo muito defasada das faixas de remuneração dessa classe média-média à qual me sinto integrada, mas acho que, para mim, está de bom tamanho. Então acho que sim, é possível viver bem razoavelmente apenas com o trabalho de tradução.

O que lhe instiga nas traduções?

Bottmann. Ah, eu adoro. Não sei dizer. É tipo charada, são pequenos desafios constantes e ininterruptos. É algo que realmente envolve a mente. Sempre tive a impressão de que é um tipo de atividade que demanda alguns traços obsessivos de caráter: aquela coisa meio maníaca de muita concentração e persistência, e senso de desafio. É algo meio competitivo, de você consigo mesmo.

Para o que um tradutor deve atentar quando mergulha na tradução de uma obra?

Bottmann. Ih, não sei. Como não faço tradução literária, e sim mais teórica e conceitual, as principais preocupações são com os conceitos, o fio da argumentação e a estruturação "lógica", digamos assim, da obra. Claro, não estou falando da língua, das estruturas sintáticas, frasais, pois ça va sans dire.

Você traduz prosa, poesia, ficção e não-ficção, ensaios etc.? O que muda de um gênero para outro?

Bottmann. Vide acima. Não faço tradução literária. Fiz apenas O amante, de Marguerite Duras, para a Cosac Naify, acho que ficou bem razoável, recebeu boas críticas e uma boa tese de análise comparada. No momento, excepcionalmente, até estou fazendo um romance, mas não é muito minha praia. Talvez algum dia... Muda, muda muito. Não tem nada uma coisa a ver com a outra. Traduzir, sei lá, Hannah Arendt, cuja língua materna é o alemão, mas que escreveu muita coisa em inglês, num inglês aliás bem arrevesado, discorrendo sobre Dilthey ou sobre o conceito de compreensão ou de causalidade em Kant, é muito diferente da mocinha contemplando o Mekong conforme a barca vai descendo o rio, no francês ébrio e semissussurrado de uma Duras. São paixões diferentes. Pessoalmente, gosto mais da paixão arendtiana. Bem ou mal, uma teórica apaixonada acaba tendo uma passionalidade mais concreta do que uma literata apaixonada, pois esta até pode projetar e transpor essa paixão para os personagens, enquanto uma teórica apaixonada dificilmente projetará suas paixões sobre Santo Agostinho, por exemplo. Sua paixão se executará na escrita, num outro registro, num outro nível, na reflexão, não sei bem como dizer.

O que lhe deu mais prazer ao traduzir?

Bottmann. Olha, há vários livros de que gosto muito. Um que foi muito importante para mim foi Piero della Francesca, de Roberto Longhi, que foi minha efetiva retomada do ofício, já em 2006. O primeiro Longhi, o da juventude, mesmo para os italianos é considerado um desafio estilístico. E aprendi muitíssimo, é uma obra linda, e fiquei muito, muito feliz quando soube que a tradução foi apreciada por gente que respeito muito, como Jorge Coli, Luiz Marques, Marco Lucchesi...

E o que lhe deu mais dificuldade?

Bottmann. Além do Longhi, que foi difícil e muito prazeroso, fiquei assombrada com o grau de dificuldade que tive, você não acredita com quem: Thoreau, Walden Pond !!! A quantidade de referências ocultas, implícitas, cruzadas, entrecruzadas, sobrecruzadas, de trocadilhos, aliterações, assonâncias, dissonâncias, metáforas, um tratamento alegórico forte, sua concepção da correspondência entre micro e macrocosmo não só na natureza, mas também envolvendo as sociedades humanas, jogos de palavras, registros diferentes do oral ao mais formal e até o lírico, com poemas do próprio Thoreau, as classificações zoológicas e botânicas e outros, fiquei perplexa. Não fazia idéia. Tomou-me o triplo do tempo que eu imaginava que levaria. Cheguei a fazer uma edição anotada, com umas cinqüenta páginas, mas a editora teve por bem não usar as notas. Ainda não saiu, deve sair em julho. Sinceramente não sei como ficou em português, tomara que preste. Mas é um texto muito difícil, quase hermético, e boa parte das referências vai passar batido para o leitor, e talvez o texto em português possa vir a parecer inexplicavelmente opaco, mas é porque não tinha como ficar parafraseando, cortando ou simplificando demais aquela carga absurda de referências. Fiquei orgulhosinha porque, naturalmente, consultei edições anotadas de vários comentadores abalizados, e trechos que nem eles próprios conseguiam desvendar eu consegui! Não digo a língua, o inglês, mas o sentido da coisa, o sentido da inserção daquele trecho naquela passagem, sua relação interna e suas referências externas, esse tipo de coisa. Mas, como lhe disse, a edição não vai sair anotada. Talvez algum dia eu publique um voluminho,Lendo Thoreau :-)

Como vê a situação da tradução no Brasil, comparada com outros países, não só da Europa e os Estados Unidos, mas também com o restante da América Latina, Ásia e Leste europeu?

Bottmann. Não sei dizer. Mas o Paulo Werneck [editor da Cosac Naify] diz uma coisa interessante: o Brasil é o país no mundo com os melhores tradutores literários no mais amplo leque de línguas, devido às inúmeras migrações para o país, desde poloneses, húngaros, chineses, japoneses, russos, árabes ao que mais você imaginar. Ele coloca a coisa de forma mais elaborada, mas é algo meio por aí.

O que esses casos de plágios revelam sobre essa situação?

Bottmann. Os casos de plágios de tradução, a meu ver, mostram o absurdo e o despropósito da atual Lei n. 9610/98 e a necessidade premente de uma reformulação de alguns dispositivos da lei, no que refere ao direito de reprodução para fins de ensino e uso privado, sem fim lucrativo, mas principalmente a liberação, mesmo para fins comerciais, dos direitos de publicação das obras esgotadas, órfãs e abandonadas, que são o grande alvo dos saques. Os EUA traduzem tão pouco, a Europa idem, seus capítulos sobre o acesso a obras órfãs e abandonadas, e uso didático e privado, são de modo geral tão mais flexíveis do que os nossos que nem há termo de comparação possível. De fato, acho que esse terreno tão fértil para a avalanche dos plágios em escala industrial resulta de uma conjuntura muito específica: o tremendo avanço das tecnologias digitais e uma reforma extremamente retrógrada da lei de 1973, que resultou no espantalho da de 1998, justamente num momento de salto tecnológico na área digital. Fica patético: e-books a torto e a direito, cópias xerox proibidas, livros de baixa qualidade gráfica e editorial com conteúdo roubado. Tenho pena das turmas que ingressaram nas universidades a partir de 1999...

O que pensa sobre a autoria e o direito autoral do tradutor? Como equacionar essa questão delicada?

Bottmann. Não entendi bem. Mas o que eu gostaria de comentar é a bizarríssima situação jurídica criada pela malfadada Lei n. 9610/98, nossa atual Lei do Direito Autoral (LDA). Já comentei que houve um brutal estreitamento dos capítulos que dispunham sobre o acesso às obras. Além disso, segundo a LDA, quanto às violações de seus dispositivos, a eventuais lesões dos direitos ali regulamentados, as únicas partes que poderiam reclamar e ir a juízo seriam os "diretamente" envolvidos, ou seja, no setor editorial, o autor/tradutor ou seus sucessores, e a editora lesada. Como se não existissem leitores, como se não existissem cidadãos, como se não existissem entidades, instituições públicas e privadas, bibliotecas idem idem, que pudessem se sentir lesadas, por exemplo, com o problema do plágio editorial. O único recurso que restava justamente ao destinatário mais importante deste bem cultural que é o livro – a saber, o cidadão leitor – seria reclamar ao Ministério Público... Imagine só! Se você lembrar, de mais a mais, a gradual extinção de qualquer instância pública regulatória na seara autoral a partir de 1990, a situação realmente ficou um descalabro. Veja, com a LDA de 1973 foi criado o Conselho Nacional do Direito Autoral (CNDA). Em 1990, ele foi praticamente desativado, e na lei de 1998 foi simplesmente extinto. Então ficou apenas aLei n. 9610/98, dispondo sobre os direitos autorais exclusivamente entre as partes, sem levar minimamente em conta as necessidades sociais de acesso aos bens culturais (de novo, repito, proibição de xerox, microfilmes, todo e qualquer tipo de reprodução sem fins lucrativos, para acervos públicos, ensino, uso privado etc.), nem a possibilidade de ação judicial no caso dos destinatários finais, os próprios usuários, que eventualmente se sentissem lesados, nem a existência de qualquer instância oficial, pública, a que pudéssemos recorrer. Não é um absurdo? Ficou uma lei totalmente patrimonialista, a indústria cultural de um lado, as pessoas físicas dos autores do outro, e ponto. Então, saudei com grande alegria a recente criação daDiretoria dos Direitos Intelectuais (DDI), no Ministério da Cultura (MinC), que prevê também o atendimento e defesa dos interesses do LEITOR! Ainda é muito recente, não sei como está operando, mas acho que é um grande avanço. Afinal, quem compra os livros são os cidadãos (e o governo, para escolas, bibliotecas etc.), e não vai poder reclamar quando vê algum problema? Complicado. Além disso, também nesse debate em curso para a revisão de alguns aspectos demasiado restritivos da atual LDA, estou vendo a inclusão da figura do cidadão, do usuário, justamente, e acho isso muito positivo.

Mas foi em virtude dessa falta de dispositivos jurídicos na atual LDA para a defesa dos interesses dos leitores cidadãos que me vi obrigada a entrar com mais de uma dúzia de pedidos de representação junto ao Ministério Público Federal e aos Ministérios Públicos estaduais de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Paraná, para pedir providências nesses descalabros.

Outra coisa: diz-se "direito autoral". Bom, acontece que em grande parte dos debates, das discussões, do mero uso da expressão "direito(s) autoral(is)", o que está se mencionando é o direito autoral patrimonial, isto é, o direito econômico de exploração comercial daquela obra. Então você tem aquela situação bizarra de algumas editoras ou associações de editoras dizendo "respeite o direito autoral", mas silenciando ou fazendo vistas grossas sobre suas próprias práticas ou as práticas de alguns de seus associados que infringem rudemente os direitos autorais MORAIS, isto é, o direito a ter estampado seu nome, a reivindicar a qualquer momento a paternidade e exigir a integridade da obra de sua autoria etc. No caso dos plágios, repito, como a imensa maioria dos autores/tradutores é falecida, e muitas vezes nem se localizam seus sucessores, a coisa realmente fica meio descontrolada.

Ora, pessoalmente eu me recuso a engolir uma tradução de Monteiro Lobato ou de Odorico Mendes ou de Eça de Queiroz, copiada e estampada em nome de um fantasma inventado qualquer, e acho realmente um atentado contra os direitos morais desses autores/tradutores, e principalmente contra os direitos dos cidadãos em ter acesso a obras legítimas e os direitos da sociedade em ter preservado seu patrimônio imaterial. Pois imagine que empobrecimento de nossa cultura geral! Você está lendo a prosa de Eça tradutor, de Lobato tradutor, de Odorico tradutor, e nem sabe! E depois vai dizer: "Ai, mas que coisa difícil esse Homero", ou "Nossa, Monteiro Lobato traduzia? Eu não sabia..."

De qualquer maneira, temos visto surgir muitas e boas traduções nos últimos anos, diretamente da língua de origem dos livros, o que não acontecia até alguns anos atrás. O que, de fato, mudou para melhor? E o que ainda precisa melhorar, em se tratando das traduções no Brasil?

Bottmann. Sim, é verdade, ufa, que bom. Acho que é fruto de um amadurecimento gradual do setor editorial. Pois todos esses descalabros que me deixam doente, e imagino que deixem muita gente doente, são praticados por uma pequena minoria de casas editoriais. Seus efeitos são medonhos, já comentei isso antes, e a impunidade que tem cercado esse vicejamento dos plágios a partir de 1999 é também um dos principais elementos a contribuir para esse fenômeno. Já disse também: acho que a DDI pode ter aí um bom papel para dirimir esse tipo de conflito leitor lesado x editora lesiva; acho que o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e as promotorias da Justiça do Consumidor têm mostrado maior sensibilidade ao problema e assim por diante.

Posto isso, olha, sinceramente acho que as traduções no Brasil, graças aos bons praticantes do ofício, às editoras sérias e idôneas e aos leitores atentos e exigentes, estão indo bem, obrigado.

E uma última questão é: será que a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sindicato Nacional dos Editores do Livro (Snel) poderiam se manifestar claramente sobre a situação dos plágios no país?



*Bruno Dorigatti foi editor do Portal Literal entre setembro de 2009 e junho de 2010. Foi subeditor e repórter do Portal Literal de março de 2005 a março de 2009.

fonte: http://banzeirotextual.blogspot.com.br/2010/07/bruno-dorigatti-entrevista-denise.html

15 de mar. de 2010

abrates - III congresso

sem dúvida o evento tradutório do ano é a realização do III congresso internacional de tradução e interpretação da abrates, entre os dias 19 e 21 de março em porto alegre.

o prazo para inscrições online vai até quarta-feira, dia 17, mas você também pode se inscrever na hora. veja aqui a programação completa: http://www.abrates.com.br/congresso2010/


a turma dos painéis está pra lá de bacana. sinto-me honradíssima em poder participar!

os palestrantes serão:
Ângela Russo
Ayrton Farias
Beatriz Rodriguez
Bruno Murtinho
Carlos Ancêde Nougué
Carolina Alfaro de Carvalho
Claudia Chauvet
Cleci Bevilacqua
Cristina Carneiro Rodrigues
Daniel Argolo Estill
Daniela P. B. Dias
Danilo Nogueira
Denise Bottmann
Eliane Y. Abrão
Gabe Bokor
Heloisa Gonçalves Barbosa
João Roque Dias – Keynote Speaker
José Luis Sánchez
Liliana Bernardita Mariotto
Luiz Angélico da Costa
Marcia A. P. Martins
Maria Cristina Pires Pereira
Maria da Graça Krieger
Maria José B. Finatto
Mauro Bertuol
Moacyr Scliar
Mônica Koehler Sant’Anna
Nick Magrath
Patrícia Chittoni Ramos Reuillard
Reynaldo Pagura
Renato Beninatto
Roney Belhassof
Sabrina Lopes Martinez
Sandro Ruggeri Dulcet
Sergio Flaksman
Sérgio Molina
Tamara Barile
Vagner Fracassi

a turma do bem


















acompanhe mais algumas manifestações em apoio à luta contra o plágio: 
 conheça o blog apoiodenise
e visite o arquivo de declarações

DDI/ MinC


hoje no correr do dia darei entrada a uma petição junto à diretoria de direitos intelectuais (ddi) do minc. é um órgão bastante recente (criado em julho de 2009) que traz uma grande novidade e um tremendo avanço em seu perfil institucional: faz parte de suas competências atender ao usuário final dos bens culturais protegidos por direitos autorais. veja aqui.

esse aspecto me parece de fundamental importância. nesses casos de plágios de tradução, por exemplo, não sou a tradutora lesada, não sou sucessora guardiã dos direitos do tradutor lesado, não sou a editora lesada - pela legislação autoral atual, não posso fazer nada, a não ser protestar.

naturalmente, posso recorrer ao ministério público como leitora e consumidora, que é o que tenho feito.

e agora, com a ddi, vou poder recorrer a uma instância pública diretamente vinculada à seara autoral, criada para atender aos interesses não só de autores e empresas do setor cultural, mas também de todo e qualquer cidadão!

darei notícias.


imagem: matisse, google images

14 de mar. de 2010

leitura: sabático


ontem o jornal o estado de s. paulo deu início a seu novo caderno literário, o sabático. ótima iniciativa! e gostei também que o sabático trouxesse em seu primeiro número um artigo de sergio augusto, chamado "piratas da pena de pau", sobre plágio literário.

entre outras ótimas coisas, ele conta uma história divertida, e infelizmente também aplicável a alguns praticantes tupiniquins de plágios de tradução:


"nos anos 1980, um repórter da área de cultura de um jornal brasileiro de grande circulação apropriou-se da resenha de um livro sobre david bowie, editado pela rolling stone, e, flagrado o delito, amparou-se numa presuntiva jurisprudência pós-moderna: como nada é original, pois tudo deriva de criações anteriores, num processo de contaminação tautológica sem fim, o plágio não existe. alguém sugeriu que o jornalista fosse demitido do jornal, não pelo plágio em si mas por sua justificação, de um cinismo comparável ao 'chutzpah' (expressão iídiche, sinônimo de caradurismo), tal como a definiu jerry lewis: 'chutzpah é aquele sujeito que mata os pais e pede clemência ao juiz por ter ficado órfão'."

(agradeço a letícia pelo link)

imagem: oh no

13 de mar. de 2010

melhor dizendo


deu ontem no blog do galeno e no publishnews, dois dos principais veículos de comunicação entre o mundo do livro:
Sobre as denúncias de plágio
Acusada de tentar tirar do ar o blog Não Gosto de Plágio, da blogueira Denise Bottmann, a editora Landmark diz que não quer cercear a sua liberdade de expressão [...]
escrevi aos dois veículos de comunicação, pedindo a devida retificação:
em verdade, foi iniciativa da própria editora pedir a antecipação de tutela e remoção imediata dos blogs jane austen em português e não gosto de plágio, na ação movida contra raquel sallaberry e mim ... vale dizer que o requerimento da editora landmark foi indeferido pelo juiz em seu despacho, entre outras razões por se tratar de "discussão a respeito da liberdade de expressão e crítica na internet".
imagem: el mundo al reves

avaliação

em cerca de quinze dias, a propósito do processo landmark/cyrino x bottmann/sallaberry e do manifesto em apoio à luta contra o plágio:
  • quase 250 posts, artigos e matérias (ver aqui)
  • mais de 2.500 adesões ao manifesto (assine você também)
  • mais de um milhar de tweets, retweets e outros compartilhamentos 
  • dezenas e dezenas de blogs incluindo o nãogosto em seus links e blogrolls
  • centenas de e-mails pessoais de apoio e solidariedade
  • criação do blog apoiodenise, com listas e documentos relacionados
além da enorme solidariedade, essa repercussão parece apontar
para um fato simples e irrefutável:

que nós brasileiros estamos meio cansados
de espertezas e malandragens.

imagem: quino, mafalda, google images

12 de mar. de 2010

revisão da lda, consulta pública

Jotabê Medeiros

Em abril, o governo vai dispor para consulta pública o novo texto da Lei dos Direitos Autorais

ESGOTADOS: Também será permitida a cópia de livro ou disco com edições esgotadas (fora de catálogo e do mercado por no mínimo 5 anos)

''Direito do autor é precário no Brasil''
Jotabê Medeiros

Ministro Juca Ferreira: A legislação brasileira é muito ruim sob esse aspecto. Não reconhece a cópia privada, muitos escritores no Brasil têm sua obra esgotada e a editora não tem interesse em reeditar e a obra do autor cai no esquecimento.

imagem: dlivros

leopardo/hemus

a editora hemus, depois de mais de quatro décadas de existência (inicialmente com o nome de "livraria exposição do livro"), foi recentemente incorporada como selo editorial à editora leopardo.

o selo hemus conta com nove coleções, entre elas ficção & literatura e filosofia. os 26 títulos que compõem a coleção de ficção e literatura já eram publicados desde os anos 1970 pela antiga hemus. o mesmo se aplica aos 21 títulos constantes na coleção de filosofia apresentada no site.

fico um pouco ressabiada pois a antiga hemus andou praticando coisas que não são bonitas e até andou licenciando suas pseudotraduções para outras editoras, entre elas a ediouro e o círculo do livro.

aqui no nãogosto apresentei quatro edições complicadas da hemus, a saber: charles darwin, a origem das espécies; fustel de coulanges, a cidade antiga; émile zola, germinal, e émile zola, a besta humana. havia outras esquisitices em seu catálogo dos anos 70 e 80, mas, como a hemus tinha praticamente desaparecido de circulação, considerei que havia outras fraudes mais recentes e mais urgentes a combater.

no entanto, agora constato que pelo menos as obras de darwin e fustel permanecem no atual catálogo da leopardo, aliás com destaque na seção "hemus recomenda" do catálogo de 2010, disponível em pdf  (pp. 31-32). aí a coisa complica e obriga os leitores a redobrarem a atenção em relação às demais obras atualmente publicadas pelo selo hemus.


imagem: logo leopardo

10 de mar. de 2010

não me confundam


um pouco de leveza e voltando ao que realmente importa!

recomendo vivamente a leitura de singelo mundo, eu também não. há ali questões inteligentes e bem postas, com (quase sempre) elegância e humor.

ando um pouco cansada, mas retornarei com calma aos temas ali colocados. enquanto isso, peço que leiam a tag fnda e minha proposta para resgatar obras esquecidas no limbo editorial e no fundo do baú mofado das editoras em:
quanto ao velhíssimo e falso argumento do pretenso preço baixo das edições de obras plagiadas, basta ver quanto custam as edições apontadas da landmark, da madras, da ediouro, da jardim dos livros, da hemus e mesmo das edições pseudobaratas da rideel. quanto à fantasia de que as edições plagiadas da martin claret seriam baratas, ver:
recomendo também a carta de são paulo pelo acesso a bens culturais e o manifesto pelo domínio público.


imagem: calder, mobile, google images
 
visite também as matérias na mídia imprensa e digital
e as manifestações na blogosfera: arquivo

o darwin da ediouro

a extensa matéria do correio braziliense, num excepcional trabalho de levantamento e entrevistas feito por nahima maciel de souza, traz uma declaração da ediouro que não entendi muito bem.
A Ediouro também está citada [no blog nãogostodeplágio] com uma tradução suspeita de A origem das espécies, de Charles Darwin. Paulo Roberto Pires, editor da empresa, explica que a obra foi licenciada pela Hemus, outra editora citada frequentemente nos cotejos de Denise. "Agimos como todas as editoras: contratamos profissionais para traduzir cada um dos lançamentos. São profissionais de tradução, não editores. Comprar traduções já prontas pode ser um recurso, ao qual se lança mão em se tratando de textos clássicos em domínio público — é disso, principalmente, que trata a Denise. Quando contratamos traduções já prontas, obviamente pagamos aos tradutores", diz Pires.
desde dezembro de 2008 avisei várias vezes a ediouro sobre os vícios dessa pretensa tradução d'a origem das espécies. explicaram-me que o título fazia parte de um contrato de licenciamento celebrado com a editora hemus em 1985, e tem sido publicado pela ediouro em inúmeras reedições até o presente. está disponível no googlebooks, para visualização parcial, onde, aliás, consta copyright (e não licenciamento) da tradução desde 1987 em nome de ediouro publicações s/a.

o que não entendi muito bem é por que a ediouro, sabendo já há algum tempo que se trata de uma tradução fraudada, prefere mantê-la em catálogo.

itens relacionados:
diga-se de passagem que, em setembro de 2009, dei entrada a um pedido de representação no ministério público do rio de janeiro sobre a edição d'a origem das espécies pela ediouro, conforme noticiei no balanço de 2009. ele foi protocolado para distribuição em outubro. o promotor deferiu minha petição e em novembro foi enviada uma notificação à editora, a qual pediu um prazo de 120 dias para se manifestar, contado a partir de dezembro. a segunda promotoria do estado do rio de janeiro informa que o prazo finda agora em março, quando o caso retornará às vistas do promotor dele encarregado.

9 de mar. de 2010

editoras

deu no site da lpm:

Mais de 2 mil assinaturas apoiam tradutora que denuncia plágio
 Por L&PM Editores em 08/03/2010
O manifesto ancorado por Heloisa Jahn, Jorio Dauster, Ivo Barroso e Ivone C Benedetti, em defesa da tradutora Denise Bottmann bateu a marca de mais de 2 mil assinaturas. O abaixo-assinado teve início quando a tradutora divulgou que estava sendo processada, ao lado de Raquel Sallabery, do Jane Austen em português, por denunciar plágios nas traduções da Editora Landmark, em seu blog Não gosto de plágio.

O plágio nas traduções é um crime de direito autoral e torna a concorrência no mercado editorial desleal. Além disso, a Landmark pede que o blog de Denise seja retirado do ar, invocando o direito de esquecimento, antes mesmo do julgamento da ação.

O blog permanece no ar e atualizado com notícias sobre a repercussão do caso nos meios de comunicação. Vale a pena conferir as diversas questões que estão sendo debatidas, incluindo o código de ética da CLB e questões mais profundas sobre o mercado editorial, além, é claro, de links para todos os blogs e sites que estão apoiando a tradutora.

Confira abaixo o manifesto completo, e aqui, o link para apoiar Denise. [segue-se a íntegra do manifesto]*
* negritos meus, db.

entendo que a posição da lpm, bem como a da crisálida e da cosac naify, demonstra claramente que a luta contra o plágio interessa a todos, e diretamente às editoras íntegras e honestas que se veem acossadas por práticas de concorrência desleal no mercado.

torço vivamente para que outras editoras e as entidades do livro no país assumam a clara defesa da idoneidade do setor, manifestando também seu apoio à luta contra o plágio.

visite apoiodenise.wordpress.com

acompanhe também o arquivo atualizado de notícias e matérias

comunicado da madras

recebi um comunicado pela mala direta da editora madras. aqui transcrevo seu teor, com a autorização do sr. walter veneziani costa, responsável pela editora e membro integrante da atual diretoria da cbl.
Prezados clientes e parceiros, 
A pedido do nosso editor, Wagner Veneziani Costa, encaminho a seguinte nota que será inserida no site da Madras (http://www.madras.com.br/)*, no link de cada uma das obras mencionadas:
Nota do Editor:

A Madras Editora informa a seus clientes que excluiu do seu catálogo cinco títulos de obras, pois estas passarão por novo processo de tradução, revisão e produção editorial.

Aguardem, pois em breve estarão disponíveis para aquisição no mercado editorial.

São elas: A Origem das Espécies, de Charles Darwin; A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe; Seleções de Flavius Josephus, de Flávius Josephus; A Origem da Tragédia, de Friedrich Nietzsche; e Meditações de Marco Aurélio, de Marco Aurélio. [links meus, db]
*veja-se aqui a inclusão da nota supracitada

o nãogostodeplágio saúda a pronta disposição do sr. wagner veneziani em tomar tais providências.

não duvido que, tão logo saiam as edições legítimas dessas obras - seja em novas traduções, sejam as mesmas traduções, desadulteradas e devolvidas à sua forma original, com os devidos créditos a seus autores -, a editora madras se prontificará a substituir os exemplares espúrios que atualmente se encontram nas estantes de lares, escolas e instituições em geral.

por outro lado, espero que o setor livreiro poupe à editora madras o constrangimento de exigir intimação ou mandado judicial para cessar a venda dos títulos supracitados, como tem feito, por exemplo, a livraria cultura.

itens relacionados:

8 de mar. de 2010

comunicado internacional



Comunicato Stampa

La Sezione Traduttori in appoggio a Denise Bottmann

Roma, 8 Marzo 2010

È notizia di questi giorni il caso che riguarda una illustre quanto coraggiosa traduttrice brasiliana, Denise Bottmann, autrice del blog "Não gosto de plágio" (Il plagio non mi piace). La Bottmann si batte da anni contro la pratica del plagio delle traduzioni letterarie, di cui ha raccolto svariati e documentati esempi sul suo blog, tanto da conquistare l'attenzione di alcuni organi di stampa con servizi, reportage ed editoriali sul tema. Ciò che accade in Brasile, analogamente ad altri paesi del mondo in cui il diritto d'autore non sempre viene rispettato, è che alcuni editori si appropriano indebitamente di traduzioni ormai fuori catalogo e, dopo una superficiale operazione di editing-maquillage, le rimettono in commercio come se fossero opera di nuovi traduttori, a volte identificati da nomi di fantasia. Le denunce riguardano autori del calibro di Jane Austen (prima traduzione di Orgoglio e Pregiudizio risalente agli anni '40, ripubblicata in ben due diverse edizioni negli anni '80 e nel 2001) ed Emily Brontë, ma anche Nietszche, Darwin, Pirandello, Scott Fitzgerald e molti altri.

Nello scorso mese di febbraio la Bottmann è stata oggetto di una denuncia penale da parte della casa editrice Landmark, responsabile della pubblicazione di alcune delle opere le cui traduzioni sono state documentate come plagio. La denuncia è accompagnata dalla richiesta di: una somma ingente di danni materiali e morali; la chiusura e cancellazione del blog sul plagio in nome del "diritto all'oblio"; la celebrazione del processo a porte chiuse.

Un nutrito gruppo di traduttori letterari brasiliani, insieme a numerosi colleghi sparsi in tutto il mondo, si è mobilitato in favore di Denise Bottmann con un manifesto e una petizione a sostegno dei quali si è schierata anche la Sezione Traduttori del Sindacato Nazionale Scrittori.

Tale petizione risponde alla necessità di dare la più ampia eco possibile alla vicenda del plagio delle traduzioni letterarie, in considerazione del fatto che tale pratica è in palese contrasto con la Legge sul Diritto d'Autore, che considera il traduttore come autore di opera derivata salvaguardandone i diritti morali e patrimoniali. Inoltre, questo tipo di plagio configura il reato di concorrenza sleale in quanto le case editrici in malafede, non accollandosi i costi dei diritti di traduzione o non pagando una ritraduzione, mettono in posizione di svantaggio gli editori che, facendosi carico di questi costi, rispettano la legge e la deontologia. Infine, la pratica del plagio mette in pericolo il patrimonio culturale del paese, promuovendo la distribuzione di copie fraudolente di traduzioni che spesso, in origine, erano firmate da nomi riconosciuti e stimati della letteratura brasiliana.

Anche la Sezione Traduttori del Sindacato Nazionale Scrittori, nell'esprimere a Denise Bottmann la propria solidarietà, si unisce a tutti coloro che desiderano contrastare, con le parole e con i fatti, la pratica criminale del plagio, in difesa della cultura, dei lettori e del diritto al riconoscimento della paternità dell'opera di traduzione, senza mai dimenticare che anche il traduttore - come recita il motto della nostra Sezione - è "un autore a tutti gli effetti".

SEZIONE TRADUTTORI-SNS

o comunicado do sns-st está disponível para download.
clique aqui.