30 de abr de 2009

os 200 anos de darwin, hemus/ediouro

em le deuil, citei algumas supostas traduções de eduardo nunes fonseca que a editora hemus licenciou para a ediouro. faço agora uma retificação: além de a cidade antiga, de fustel de coulanges, uma outra dita "tradução" da hemus que está na ediouro e que, a meu ver, consiste num flagrante atentado à boa-fé do leitor é a origem das espécies, de darwin.

a tradução da hemus licenciada para a ediouro está em nome de eduardo fonseca, e tem tido inúmeras reedições e reimpressões nas duas editoras. salta à vista a inequívoca semelhança com a tradução do médico português joaquim dá mesquita paul, publicada em 1913 pela livraria chardron, lello & irmão editores, no porto. aliás, para quem se interessar, o portal da ediouro disponibiliza uma prévia do livro no googlebooks e a tradução de joaquim paul está disponível para download gratuito na web.


seguem-se, a título comparativo, apenas dois parágrafos, o primeiro e o último do livro:

1. joaquim dá mesquita paul:
Proponho-me noticiar a largos traços o progresso da opinião relativamente à origem das espécies. Até há bem pouco tempo, a maior parte dos naturalistas supunha que as espécies eram produções imutáveis criadas separadamente. Numerosos sábios defenderam habilmente esta hipótese. Outros, pelo contrário, admitiam que as espécies provinham de formas preexistentes por intermédio de geração regular. Pondo de lado as alusões que, a tal respeito, se encontram nos autores antigos,1 Buffon foi o primeiro que, nos tempos modernos, tratou este assunto de um modo essencialmente científico. Todavia, como as suas opiniões variavam muito de época para época, e não trata nem das causas, nem dos meios de transformação da espécie, é inútil entrar aqui em maiores minudências a respeito dos seus trabalhos.
(1) Aristóteles, nas suas «Physicae Auscultationes» (lib. II, cap. VIII, 2), depois de ter notado que a chuva não cai para fazer crescer o trigo como não cai para o deteriorar quando o rendeiro o bate nas eiras, aplica o mesmo argumento aos organismos e acrescenta (foi M. Clair Grece que me notou esta passagem): «Qual a razão por que as diferentes partes (do corpo) não teriam na natureza estas relações puramente acidentais? Os dentes, por exemplo, crescem necessariamente incisivos na parte anterior da boca, para dividir os alimentos; os maiores, planos, servem para mastigar; portanto não foram feitos para este fim, e esta forma é o resultado de um acidente. O mesmo se diz para os outros órgãos que parecem adaptados a
determinado acto. Por toda a parte, pois, todas as coisas reunidas (isto é, o conjunto das partes de um todo) são constituídas como se tivessem sido feitas com vista em algum desiderato; estas formas de uma maneira apropriada, por uma espontaneidade interna, são conservadas, enquanto que, no caso contrário, têm desaparecido e desaparecem ainda». Encontra-se aqui um esboço dos princípios da selecção natural; mas as observações sobre a conformação dos dentes indicam quão pouco Aristóteles compreendia estes princípios.

2. eduardo nunes fonseca:
Proponho-me noticiar a largos traços o progresso da opinião referente à origem das espécies. Até há bem pouco tempo, a maioria dos naturalistas admitia que as espécies eram produções imutáveis criadas separadamente. Numerosos cientistas defenderam habilmente esta possibilidade. Outros, pelo contrário, admitiam que as espécies provinham de formas preexistentes através de geração regular. Deixando de lado as alusões que, a tal respeito, se encontram nos autores antigos,1 Buffon foi o primeiro nos tempos modernos, a tratar este assunto de maneira essencialmente científica. Contudo, como as suas opiniões variavam muito de época para época, e não trata nem das causas, nem dos meios de transformação da espécie, é inútil entrar aqui em minúcias com referência aos seus trabalhos.
(1) Aristóteles nas suas Physicae Auscultationes (lib. II, cap. VIII, 2), depois de ter observado que a chuva não cai para fazer crescer o trigo como não cai para o deteriorar quando o rendeiro o bate nas eiras, aplica o mesmo argumento aos organismos e acrescenta (foi M. Clair Grece que me anotou esta passagem): «Qual a razão por que as diferentes partes (do corpo) não teriam na natureza estas relações puramente acidentais? Os dentes, por exemplo, crescem necessariamente incisivos na parte anterior da boca, para dividir os alimentos; os maiores, planos, servem para mastigar; portanto não foram feitos para este fim, e esta forma é o resultado de um acidente. O mesmo se diz para os outros órgãos que parecem adaptados a determinado ato. Por toda parte, pois, todas as coisas reunidas (isto é, o conjunto das partes de um todo) são constituídas como se tivessem sido feitas com vista em algum desiderato; estas formas de uma maneira apropriada, por uma espontaneidade interna, são conservadas, enquanto que, no caso contrário, desapareceram e desaparecem ainda». Encontra-se aqui um esboço dos princípios da seleção natural; mas as observações sobre a conformação dos dentes indicam quão pouco Aristóteles compreendia estes princípios.

1. joaquim dá mesquita paul:
É interessante contemplar uma ribeira luxuriante, atapetada com numerosas plantas pertencentes a numerosas espécies, abrigando aves que cantam nos ramos, insectos variados que volitam aqui e ali, vermes que rastejam na terra húmida, se se pensar que estas formas tão admiravelmente construídas, tão diferentemente conformadas, e dependentes umas das outras de uma maneira tão complexa, têm sido todas produzidas por leis que actuam em volta de nós. Estas leis, tomadas no seu sentido mais lato, são: a lei do crescimento e reprodução; a lei da hereditariedade que implica quase a lei de reprodução; a lei de variabilidade, resultante da acção directa e indirecta das condições de existência, do uso e não uso; a lei da multiplicação das espécies em razão bastante elevada para trazer a luta pela existência, que tem como consequência a selecção natural, que determina a divergência de caracteres, a extinção de formas menos aperfeiçoadas. O resultado directo desta guerra da natureza que se traduz pela fome e pela morte, é, pois, o facto mais admirável que podemos conceber, a saber: a produção de animais superiores. Não há uma verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida, com os seus poderes diversos atribuídos primitivamente pelo Criador a um pequeno número de formas, ou mesmo a uma só? Ora, enquanto que o nosso planeta, obedecendo à lei fixa da gravitação, continua a girar na sua órbita, uma quantidade infinita de belas e admiráveis formas, saídas de um começo tão simples, não têm cessado de se desenvolver e desenvolvem-se ainda!

2. eduardo nunes fonseca:
É interessante contemplar uma ribeira exuberante, atapetada com numerosas plantas pertencentes a numerosas espécies, abrigando aves que cantam nos galhos, insetos variados que saltitam aqui e ali, vermes que rastejam na terra úmida, se se pensar que estas formas tão admiravelmente construídas, tão diferentemente conformadas, e dependentes umas das outras de uma maneira tão complicada, foram todas produzidas por leis que atuam ao nosso redor. Estas leis, tomadas no seu sentido mais amplo, são: a lei do crescimento e reprodução; a lei da hereditariedade de que implica [] a lei de reprodução; a lei de variabilidade, resultante da acção direta e indireta das condições de vida, do uso e não-uso; a lei da multiplicação das espécies em razão bastante elevada para provocar a luta pela sobrevivência, que tem como consequência a seleção natural, que determina a divergência de caracteres, a extinção de formas menos aperfeiçoadas. O resultado direto desta guerra da natureza que se traduz pela fome e pela morte, é, pois, o fato mais admirável que podemos conceber, a saber: a produção de animais superiores. Não há uma verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida, com os seus poderes diversos atribuídos primitivamente pelo Criador a um pequeno número de formas, ou mesmo a uma só? Ora, enquanto que o nosso planeta, obedecendo à lei fixa da gravitação, continua a girar na sua órbita, uma quantidade infinita de belas e admiráveis formas, originadas de um começo tão simples, não cessou de se desenvolver e desenvolve-se ainda!

escolhi este último parágrafo também por uma interessante observação adicional, relatada pelo físico carlos fiolhais, no blog coletivo de rerum natura, e que reproduzo aqui:

O Dr. José Feijó, Comissário da Exposição sobre Darwin, na Fundação Gulbenkian, chamou-me a atenção para o facto de na edição original não haver esta referência ao Criador, na penúltima frase... O leitor poderá verificar isso mesmo, lendo o original inglês:

It is interesting to contemplate an entangled bank, clothed with many plants of many kinds, with birds singing on the bushes, with various insects flitting about, and with worms crawling through the damp earth, and to reflect that these elaborately constructed forms, so different from each other, and dependent on each other in so complex a manner, have all been produced by laws acting around us. These laws, taken in the largest sense, being Growth with Reproduction; inheritance which is almost implied by reproduction; Variability from the indirect and direct action of the external conditions of life, and from use and disuse; a Ratio of Increase so high as to lead to a Struggle for Life, and as a consequence to Natural Selection, entailing Divergence of Character and the Extinction of less-improved forms. Thus, from the war of nature, from famine and death, the most exalted object which we are capable of conceiving, namely, the production of the higher animals, directly follows. There is grandeur in this view of life, with its several powers, having been originally breathed into a few forms or into one; and that, whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being, evolved.

a ediouro está ciente do fato desde dezembro de 2008, quando enviei um e-mail alertando-a do problema. espero de todo o coração que ela tome providências junto a nós leitores, pois esse descaso em relação ao público consumidor e a toda a sociedade é realmente contristador.

imagem: http://dererummundi.blogspot.com

atualização feita em 18 de outubro de 2009:

um leitor me informa que apenas a primeira edição da origem das espécies não trazia a referência ao Criador. assim, o motivo pelo qual eu tinha escolhido o último parágrafo como exemplo da identidade entre a secular tradução de joaquim dá mesquita paul e a pretensa tradução de eduardo nunes fonseca perde sua razão de ser.

apresento, então, outros trechos para ilustrar o tema deste post. usarei como fonte do original a edição da universidade da pensilvânia, disponível em http://www2.hn.psu.edu/faculty/jmanis/darwin/originspecies.pdf

conforme dito acima a edição de joaquim dá mesquita paul se encontra em: http://www.4shared.com/get/23646920/1962dc99/Charles_Darwin_-_A_Origem_das_Espcies.html;jsessionid=D1A6327C7C1707E18F50FF2F8625DFCA.dc156

a edição da hemus que tenho em mãos não traz data, e a edição citada da ediouro se encontra em:
http://books.google.com.br/books?id=WYOwnMq3x9MC&pg=PA3&dq=origem+das+esp%C3%A9cies+ediouro&ei=Sah4Sq2LNqbAygTw7q2TAw#v=onepage&q=&f=false

Dá Mesquita Paul:
É na excelente história de Isidore Geoffroy Saint-Hilaire (”Hist. Nat. Générale”, 1859, t. II, p. 405) que encontrei a data da primeira publicação de Lamarck; esta obra contém também um resumo das conclusões de Buffon sobre o mesmo assunto. É curioso ver quanto o Dr. Erasmo Darwin, meu avô, na sua «Zoonomia» (vol. I, p. 500-510), publicada em 1794, antecedeu Lamarck nas suas ideias e seus erros. Segundo Isidore Geoffroy, Goethe partilhava completamente as mesmas ideias, como prova a introdução de uma obra escrita em 1794 e 1795, mas publicada muito mais tarde. Insistiu sobre este ponto («Goethe als Naturforscher», pelo Dr. Karl Meding, p. 34), que os naturalistas terão de procurar, por exemplo, como os bois e carneiros adquiriram os cornos, e não para que servem, É um caso bastante singular a aparição quase simultânea de opiniões semelhantes, porque se vê que Goethe na Alemanha, o Dr. Darwin na Inglaterra, e Geoffroy Saint-Hilaire em França, chegam, nos anos de 1794-1795, à mesma conclusão sobre a origem das espécies.

Eduardo Nunes Fonseca:
É na excelente história de Isidore Geoffroy Saint-Hilaire (Hist. Nat. Générale, 1859, t. II, p. 405) que encontrei a data da primeira publicação de Lamarck; esta obra contém também um resumo das conclusões de Buffon sobre o mesmo assunto. É curioso ver quanto o Dr. Erasmo Darwin, meu avô, na sua «Zoonomia» (vol. I, p. 500-510), publicada em 1794, antecedeu Lamarck nas suas idéias e seus erros. Segundo Isidore Geoffroy, Goethe partilhava completamente as mesmas idéias, como prova a introdução de uma obra escrita em 1794 e 1795, mas publicada muito mais tarde. Insistiu sobre este ponto (Goethe als Naturforscher, pelo Dr. Karl Meding, p. 34), que os naturalistas terão de procurar, por exemplo, como os bois e carneiros adquiriram os cornos, e não para que servem.* É um caso bastante singular a aparição quase simultânea de opiniões semelhantes, porque se vê que Goethe na Alemanha, o Dr. Darwin na Inglaterra, e Geoffroy Sant[sic]-Hilaire na França, chegam, nos anos de 1794-1795, à mesma conclusão sobre a origem das espécies.
* curiosamente, na edição da ediouro, está "como os bois e carneiros adquiriram os cornos, e para que servem".

Joaquim Dá Mesquita Paul:
Na sua obra Nature of Limbs, p. 86, o professor Owen escrevia em 1849: «A ideia arquétipo está encarnada no nosso planeta por manifestações diversas, muito tempo antes da existência das espécies animais de que são actualmente a expressão. Mas, até agora, ignoramos inteiramente a que leis naturais ou a que causas secundárias têm sido submetidas a sucessão regular e a progressão destes fenómenos orgânicos». No seu discurso na Associação Britânica, em 1858, fala (p. 51) do «axioma da contínua potência criadora, ou do destino preordenado das coisas vivas». Mais adiante, a propósito da distribuição geográfica, acrescenta: «Estes fenómenos abalam a crença em que estávamos de que o aptérix da Nova Zelândia e o “tetras urogallus L.” da Inglaterra tenham sido criações distintas feitas numa ilha e só para ela. É útil, além disso, lembrar sempre que o zoólogo atribui o nome de criação ao processo sobre o qual nada se conhece». Desenvolve esta ideia acrescentando que todas as vezes que um «zoólogo cita exemplos, como o precedente, para provar uma criação distinta numa ilha e para ela, quer dizer somente que não sabe como o “tetras urogallus L.” se encontra exclusivamente neste lugar, e que esta maneira de exprimir a sua ignorância implica ao mesmo tempo a crença numa grande causa criadora primitiva, à qual a ave, assim como as ilhas, devem a sua origem». Se nós relacionarmos as frases pronunciadas no seu discurso umas com as outras, parece que em 1858 o célebre naturalista não estava convencido que o aptérix e o “tetras urogallus L.” tenham aparecido pela primeira vez nos seus países respectivos, sem que se possa explicar como e porquê.

Eduardo Nunes Fonseca:
Na sua obra Nature of Limbs, p. 86, o professor Owen escrevia em 1849: «A idéia arquétipo está encarnada no nosso planeta por manifestações diversas, muito tempo antes da existência das espécies animais de que são atualmente a expressão. Mas, até agora, ignoramos inteiramente a que leis naturais ou a que causas secundárias têm sido submetidas a sucessão regular e a progressão destes fenômenos orgânicos». No seu discurso na Associação Britânica, em 1858, fala (p. 51) do «axioma da contínua potência criadora, ou do destino preordenado das coisas vivas». Mais adiante, a propósito da distribuição geográfica, acrescenta: «Estes fenômenos abalam a crença em que estávamos de que o aptérix da Nova Zelândia e o tetras urogallus L. da Inglaterra tenham sido criações distintas feitas numa ilha e só para ela. É útil, com efeito, lembrar sempre que o zoólogo atribui o nome de criação ao processo sobre o qual nada se conhece». Explana esta idéia acrescentando que todas as vezes que um «zoólogo cita exemplos, como o precedente, para provar uma criação distinta numa ilha e para ela, quer dizer apenas que não sabe como o tetras urogallus L. se encontra exclusivamente neste lugar, e que esta maneira de exprimir a sua ignorância implica, ao mesmo tempo, a crença numa grande causa criadora primitiva, à qual a ave, assim como as ilhas, devem a sua origem». Se [] relacionarmos as frases pronunciadas no seu discurso umas com as outras, parece que em 1858 o eminente naturalista não estava convencido que o aptérix e o tetras urogallus L. tenham aparecido pela primeira vez nas suas respectivas regiões, sem que se possa explicar como e porquê.

vale a pena ver o original:
Professor Owen, in 1849 ("Nature of Limbs", page 86), wrote as follows: "The archetypal idea was manifested in the flesh under diverse such modifications, upon this planet, long prior to the existence of those animal species that actually exemplify it. To what natural laws or secondary causes the orderly succession and progression of such organic phenomena may have been committed, we, as yet, are ignorant." In his
address to the British Association, in 1858, he speaks (page li) of "the axiom of the continuous operation of creative power, or of the ordained becoming of living things." Further on (page xc), after referring to geographical distribution, he adds, "These phenomena shake our confidence in the conclusion that the Apteryx of New Zealand and the Red Grouse of England were distinct creations in and for those islands respectively. Always, also, it may be well to bear in mind that by the word 'creation' the zoologist means 'a process he knows not what.'" He amplifies this idea by adding that when such cases as that of the Red Grouse are "enumerated by the zoologist as evidence of distinct creation of the bird in and for such islands, he chiefly expresses that he knows not how the Red Grouse came to be there, and there exclusively; signifying also, by this mode of expressing such ignorance, his belief that both the bird and the islands owed their origin to a great first Creative Cause." If we interpret these sentences given in the same address, one by the other, it appears that this eminent philosopher felt in 1858 his confidence shaken that the Apteryx and the Red Grouse first appeared in their respective homes "he knew not how," or by some process "he knew not what."

ou ainda, joaquim dá mesquita paul:
Entrevejo num futuro afastado caminhos abertos a pesquisas muito mais importantes ainda. A psicologia será solidamente estabelecida sobre a base tão bem definida já por M. Herbert Spencer, isto é, sobre a aquisição necessariamente gradual de todas as faculdades e de todas as aptidões mentais, o que lançará uma viva luz sobre a origem do homem e sua história. Certos autores eminentes parecem plenamente satisfeitos com a hipótese de cada espécie ter sido criada de uma maneira independente. A meu ver, parece-me que o que nós sabemos das leis impostas à matéria pelo Criador concorda melhor com a hipótese de que a produção e a extinção dos habitantes passados e presentes do Globo são o resultado de causas secundárias, tais como as que determinam o nascimento e a morte do indivíduo. Quando considero todos os seres, não como criações especiais, mas como os descendentes em linha recta de alguns seres que viveram muito tempo antes que as primeiras camadas do sistema cambriano tivessem sido depositadas, parecem-me enobrecidos. Julgando assim pelo passado, podemos concluir com exactidão que nenhuma das espécies actualmente vivas transmitirá a sua semelhança intacta a uma época futura muito afastada, e que só um pequeno número delas terá descendentes nas idades por vir, Porque o modo de agrupamento de todos os seres organizados nos prova que, em cada género, o maior número de espécies, e que todas as espécies em muitos géneros, não deixaram descendente algum, mas estão totalmente extintas. Podemos mesmo lançar ao futuro um volver de olhos profético e predizer que são as espécies mais comuns e as mais espalhadas, pertencendo aos grupos mais consideráveis de cada classe, que prevalecerão ulteriormente e que procriarão espécies novas e preponderantes.
Como todas as formas actuais da vida descendem em linha recta das que viviam muito tempo antes da época cambriana, podemos estar certos de que a sucessão regular das gerações jamais foi interrompida e que nenhum cataclismo subverteu o mundo por completo. Podemos, pois, contar, com alguma confiança, sobre um futuro de incalculável comprimento. Ora, como a selecção natural actua apenas para o bem de cada indivíduo, todas as qualidades corporais e intelectuais devem tender a progredir para a perfeição.

eduardo nunes fonseca:
Entrevejo, num futuro remoto, caminhos abertos a pesquisas muito mais importantes ainda. A psicologia será solidamente estabelecida sobre a base tão bem definida [] por Mr. Herbert Spencer, isto é, sobre a aquisição necessariamente progressiva de todas as faculdades e de todas as aptidões mentais, o que lançará uma nova luz sobre a origem do homem e sua história.
Certos autores abalizados parecem plenamente satisfeitos com a possibilidade de cada espécie ter sido criada de uma maneira independente. A meu ver, parece-me que o que nós sabemos das leis impostas à matéria pelo Criador concorda melhor com a hipótese de que a produção e a extinção dos habitantes passados e presentes do globo sejam o resultado de causas secundárias, tais como as que determinam o nascimento e a morte do indivíduo. Quando considero todos os seres, não como criações especiais, mas como os descendentes em linha reta de alguns seres que viveram muito tempo antes que as primeiras camadas do sistema cambiano [sic] tivessem sido depositadas, parecem-me enobrecidos. Analisando assim pelo passado, podemos concluir com certeza que nenhuma das espécies atualmente vivas transmitirá a sua semelhança intacta a uma época futura muito afastada, e que só um pequeno número delas terá descendentes nas idades por vir, porque o modo de agrupamento de todos os seres organizados nos prova que, em cada gênero, o maior número de espécies, e que todas as espécies em muitos gêneros, não deixaram nenhum descendente, porém, estão totalmente extintas. Podemos mesmo lançar no futuro um olhar profético e dizer que são as espécies mais comuns e as mais disseminadas, pertencendo aos grupos mais consideráveis de cada classe, que prevalecerão posteriormente e que procriarão espécies novas e predominantes.
Como todas as formas atuais da vida descendem em linha reta das que viviam muito tempo antes da época cambriana, podemos estar certos de que a sucessão regular das gerações jamais foi interrompida e que nenhum cataclismo subverteu totalmente o mundo. Podemos, pois, contar, com alguma confiança, sobre um futuro de incalculável comprimento. Ora, como a seleção natural atua apenas para o bem de cada indivíduo, todas as qualidades corporais e intelectuais devem tender a progredir para a perfeição.

original:
In the future I see open fields for far more important researches. Psychology will be securely based on the foundation already well laid by Mr. Herbert Spencer, that of the necessary acquirement of each mental power and capacity by gradation. Much light will be thrown on the origin of man and his history.
Authors of the highest eminence seem to be fully satisfied with the view that each species has been independently created. To my mind it accords better with what we know of the laws impressed on matter by the Creator, that the production and extinction of the past and present inhabitants of the world should have been due to secondary causes, like those determining the birth and death of the individual. When I view all beings not as special creations, but as the lineal descendants of some few beings which lived long before the first bed of the Cambrian system was deposited, they seem to me to become ennobled. Judging from the past, we may safely infer that not one living species will transmit its unaltered likeness to a distinct futurity. And of the species now living very few will transmit progeny of any kind to a far distant futurity; for the manner in which all organic beings are grouped, shows that the greater number of species in each genus, and all the species in many genera, have left no descendants, but have become utterly extinct. We can so far take a prophetic glance into futurity as to foretell that it will be the common and widely spread species, belonging to the larger and dominant groups within each class, which will ultimately prevail and procreate new and dominant species. As all the living forms of life are the lineal descendants of those which lived long before the Cambrian epoch, we may feel certain that the ordinary succession by generation has never once been broken, and that no cataclysm has desolated the whole world. Hence, we may look with some confidence to a secure future of great length. And as natural selection works solely by and for the good of each being, all corporeal and mental endowments will tend to progress towards perfection.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



7 comentários:

  1. Anônimo15.10.09

    Ola.
    No link: http://darwin-online.org.uk/contents.html#origin

    Onde poderemos ver diversos trabalhos de Charles Darwin (que por sinal são excelentes), lá tem 8 edições completas de a Origem das Especies. E somente na primeira edição de 1859 NÃO aparece a mensão ao criador. Nas demais edições de 1860 até 1876 na versão inglesa aparece a mensão do criador. Em uma versão em espanhol aparece a palavra criador. Eu tenho o livro dos autores James Moore e Adrian Desmond, com o titulo em portugues "Darwin - A Vida De Um Evolucionista Atormentado" é informado que o próprio Charles Darwin colocou nas edições posteriores esta mensão ao criador.
    Agora os autores não é divulgam se foi contra a vontade "forçada" de Darwin ou foi por arrependimento.

    Abraços

    Julio

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  2. prezado julio, que interessantíssima informação! e fundamental em relação ao contexto do post, esclarecendo a questão e tirando a pertinência de minha escolha específica deste último parágrafo. avisarei também carlos fiolhais.
    agradeço-lhe!
    denise

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  3. Anônimo2.5.10

    aécio de paula pereira

    olá, gostaria de saber se as traduções de Eduardo nunes fonseca são boas, ou são mais ou menos, ou pessimas. porque eu baixei uma obra de Emile zola, a besta humana, e queria saber de antemão, antes de Lê, se vale a pena lê essa tradução.

    obrigado.

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  4. prezado aécio, em http://naogostodeplagio.blogspot.com/2009/05/zola-na-babilonia.html
    você encontra uma interessante análise comparada de traduções portuguesas da besta humana.
    interpolei em vermelho os trechos correspondentes na tradução em nome de eduardo nunes fonseca.
    creio que a conclusão salta aos olhos.

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  5. Olá! você indica alguma editora que tenha feito um trabalho decente traduzindo Darwin?

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  6. Minha dúvida é a mesma da Marina Carvalho: podemos confiar em alguma edição nacional?

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  7. a de eugênio amado é honesta e boa.

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