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19 de fev. de 2020

arquivo


FUNDAÇÃO GULBENKIAN X MARTIN CLARET
A República da Pirataria

A editora brasileira Martin Claret pirateia A República, de Platão, da Fundação Calouste Gulbenkian, de Portugal

O ideário da Editora Martin Claret, de São Paulo, está exposto no prefácio de todos os livros da coleção A Obra-Prima de Cada Autor: "Nosso objetivo principal é oferecer, em formato de bolso, a obra mais importante de cada autor, satisfazendo o leitor que procura qualidade. (...) ´A Obra-Prima de Cada Autor´ é uma série de livros composta de mais de 300 volumes, formato de bolso, com preço altamente competitivo e encontrável em centenas de pontos de venda. (...) Nossa proposta é a de uma coleção aberta quantitativamente. (...) Nós acreditamos na função do livro". Os textos foram extraídos das páginas 9 e 10 do prefácio da edição de A República, do grego Platão. As edições da Martin Claret têm um mérito, talvez o principal: preço bem inferior aos praticados por outras editoras. Ao lado da gaúcha L±, a paulista Martin Claret certamente é a principal responsável por outras editoras, como Companhia das Letras, primeiro, e Record, em seguida, terem lançado edições de bolso com preços acessíveis, na faixa de 13 a 31 reais. O romance O Processo, de Franz Kafka, custa 13 reais pela L± e 21 reais na versão da Companhia das Letras. Com esmeradas traduções diretas do alemão. A qualidade das edições de bolso da Martin Claret em geral não compromete. O papel é bom, as capas são chamativas, talvez até demais. O corpo (tamanho) das letras é pequeno, mas nada que impeça a leitura. Entretanto, há um problema, e grave, pelo menos na edição de A República.

A Martin Claret publicou A República, livro basilar de Platão, em 2001. A tradução é do “misterioso” Pietro Nassetti, mas não há referência a respeito do ponto-de-partida. Ou seja, não há nenhuma informação se a tradução foi feita a partir do original grego ou se teve como base alguma tradução inglesa, alemã ou francesa. Sobretudo em livros de filosofia, assim como de poesia, as editoras costumam fazer questão de explicitar que a tradução foi feita a partir da língua de origem. Leitores mais dedicados, principalmente professores de filosofia, certamente vão optar por uma tradução, no caso de Platão, feita diretamente do grego. Estudantes, não apenas de filosofia, preferem em geral edições mais em conta, como a da Martin Claret, que tem 320 páginas e custa apenas 10,50 reais. A edição portuguesa custa impraticáveis 87 reais.

Como se trata de edição popular, supostamente não dedicada a especialistas, embora mantenha notas de rodapé relativamente detalhadas, a tradução da Martin Claret é fluente e chamou a atenção do professor Gonçalo Armijos Palácios, do curso de Filosofia da Universidade Federal de Goiás. Ao confrontar a edição de A República da Fundação Calouste Gulbenkian (localizada em Lisboa, Portugal), celebrada pela qualidade e requinte, com a da Martin Claret, o doutor em filosofia, que sabe grego, ficou estupefato. As duas traduções eram idênticas. Ou melhor, só existia uma tradução, a da Fundação Calouste Gulbenkian. A Martin Claret é responsável por uma edição pirata (leia no box que o proprietário da editora admite a pirataria).

Maria Helena da Rocha Pereira é responsável pela tradução, notas e introdução de A República, na edição da Fundação Caloustre Gulbenkian. A versão tem como ponto de partida o grego e a primeira edição é de 1972. A versão examinada pelo Jornal Opção é a 7ª edição, de 1993. Trata-se de uma edição muito bem-cuidada. No final da introdução, Maria Helena — o que prova que se trata de uma especialista, não de uma mera tradutora (obras filosóficas costumam exigir tradutores que conheçam filosofia, senão terão de passar por uma revisão técnica acurada) — anota: "Para a versão que agora se apresenta, seguiu-se escrupulosamente o texto estabelecido por J. Burnet, no quarto volume da sua edição dos Platonis Opera para a Scriptorum Classicorum Bibliotheca, Oxford University Press, reimpressão de 1949". Maria Helena ressalva, mostrando seriedade e respeito ao trabalho alheio, que serviu-se, ao traduzir Platão, de outras versões, aparentemente do grego para o inglês. Além da detalhada introdução, a tradutora oferece uma bibliografia sobre Platão, notas detalhadas e, ao final, um "índice de assuntos principais".

O que fez a Martin Claret? A editora brasileira, que está sendo comprada por uma editora de outro país, tão-somente jogou fora o aparato crítico, a introdução, resumiu as notas e republicou, sem citar a fonte, o texto integral da versão da Fundação Caloustre Gulbenkian (na página 4, o destemido editor escreveu: “Copyright Editora Martin Claret, 2001). O "tradutor" sequer teve o cuidado de fazer as adaptações de praxe para o português escrito e falado no Brasil. Ele (um fantasma?) faz apenas mudanças ligeiras —como a troca de efectivamente por efetivamente. Observe o leitor que, no início da "versão" brasileira, da Martin Claret, tenta-se disfarçar o plágio, com uma ou duas mudanças cosméticas, mas, em seguida, não se altera uma vírgula. É possível desconfiar que não há um tradutor "brasileiro", e sim um datilógrafo brasileiro, e, provavelmente, um revisor brasileiro. O leitor poderá identificar, facilmente, que há mudanças, bem leves, só no início dos capítulos; depois, a tradução é a mesma.

Um jornalista-historiador como Eduardo Peninha Bueno, que inventou a história como pilhéria, diria que o Brasil, ao pilhar Portugal, finalmente se vingou do colonialismo? É provável. Mas esse tipo de "vingança", uma antropofagia celerada, em nada engrandece o Brasil.

Trechos

Trechos do Livro I/Fundação Gulbenkian

"Ontem fui até ao Pireu com Gláucon, filho de Aríston, a fim de dirigir as minhas preces à deusa, e, ao mesmo tempo, com o desejo de ver de que maneira celebravam a festa, pois era a primeira vez que a faziam. Ora a procissão dos habitantes dessa terra pareceu-me linda; contudo, não me pareceu menos aprimorada a que os Trácios montavam. Depois de termos feito preces e contemplado a cerimónia, íamos regressar à cidade". (Página 1.)

"— Ouve então. Afirmo que a justiça não é outra coisa senão a conveniência do mais forte. Mas porque não aprovas? Não quererás fazê-lo?" (Página 23.)

Trechos do Livro I/Martin Claret

"Fui ontem ao Pireu com Glauco [note, leitor, que há um pequena mudança de "Ontem fui" para "Fui ontem" e a grafia de Gláucon passa a ser Glauco], filho de Aríston, com o objetivo de fazer minhas orações à [até aqui, talvez para disfarçar, há também uma ligeira alteração] deusa, e, ao mesmo tempo, com o desejo de ver de que maneira celebravam a festa, pois era a primeira vez que a faziam. Ora a procissão dos habitantes dessa terra pareceu-me linda; contudo, não me pareceu menos aprimorada a que os Trácios montavam. Depois de termos feito preces e contemplado a cerimônia [aqui, a editora adaptou para o português escrito no Brasil, que usa o acento circunflexo no lugar do agudo], íamos regressar à cidade". (Página 11.)

"— Ouve então. Afirmo que a justiça não é outra coisa senão a conveniência do mais forte. Mas por que não aprovas? Não quererás fazê-lo?" Neste trecho (página 25), só uma alteração (“porque”, na portuguesa, e “por que”, na brasileira). O tradutor nem tenta adaptar o português luso para o português patropi.

Trechos do Livro II/Fundação Gulbenkian

"Ditas, portanto, estas palavras, julgava eu que estava livre da discussão. Mas, de facto, era apenas o prelúdio, ao que parece. Efectivamente, Gláucon, que é sempre o mais destemido em tudo, também nessa altura não aceitou a retirada de Trasímaco, e disse: — Ó Sócrates, queres aparentar que nos persuadiste ou persuadir-nos, de verdade, de que de toda a maneira é melhor ser justo do que injusto?" (página 53)

"— Eu, por mim, concordo em tudo com esse padrões — declarou —, e seria capaz de os tomar como leis." (Final do livro II, página 100.)

Trechos do Livro II/Martin Claret

"Pronunciadas estas palavras [note, leitor, que a mudança é só início do texto], julgava eu que estava livre da discussão. Mas, de fato [aqui, o revisão trocou facto por fato], era apenas o início [trocou-se prelúdio para início], ao que parece. Efetivamente [retirou-se o c], Glauco, que é sempre o mais destemido em tudo, também nessa altura não aceitou a retirada de Trasímaco, e disse: — Sócrates, queres aparentar que nos persuadiste ou persuadir-nos de verdade, de que toda maneira é melhor é melhor ser justo do que injusto?" (página 44)

"— Eu, por mim, concordo em tudo com esse padrões — declarou —, e seria capaz de os tomar como leis". (Final do livro II, página 73.)

Trechos do Livro III/Fundação Gulbenkian

"— Quanto aos deuses, aqui temos, pois — disse eu — aquilo que, em meu entender, aqueles que hão-de honrar as divindades e os pais, e que hão-de ter em não pequena conta a amizade uns dos outros, devem ouvir desde a infância, e aquilo que não devem." (Página 101.)

"Portanto, por todos estes motivos — prossegui eu — diremos que é necessário prover deste modo os guardas de habitação e do resto, e legislaremos sobre o assunto ou não?

"— Absolutamente — confirmou Gláucon." (Página 160.)

Trechos do Livro III/Martin Claret

"— Em relação aos deuses, aqui temos, pois — disse eu — aquilo que, em meu entender, aqueles que hão de honrar as divindades e os pais, e que hão de ter em não pequena conta a amizade uns dos outros, devem ouvir desde a infância, e aquilo que não devem." (Página 74. As pequenas mudanças, com o suposto objetivo de esconder a pirataria, não alteram fundamentalmente a tradução da Fundação Gulbenkian.)

"Portanto, por todos estes motivos — prossegui eu — diremos que é necessário prover deste modo os guardas de habitação e do resto, e legislaremos sobre o assunto ou não?

"— Certamente — confirmou Glauco." (Página 111.)

O "tradutor" — ou o revisor, ou o datilógrafo — tão-somente trocou "absolutamente" por "certamente". O restante do texto é idêntico. Até a nota de rodapé é a mesma.

Leia mais no site do Jornal Opção na Internet (www.jornalopcao.com.br).

Editor admite plágio

O editor Martin Claret, dono da Editora Martin Claret, admite que "sua" edição de A República, de Platão, é plágio da edição da Fundação Calouste Gulbenkian. Em contato telefônico com o Jornal Opção na quarta-feira, 10, Martin Claret disse que encomendou a tradução ao italiano Pietro Nassetti e só ficou sabendo "há quatro ou cinco meses" que ele apenas "copiou" a tradução portuguesa. "O italiano Pietro Nassetti, tradutor do inglês e do italiano, faleceu há dois anos." Ele existe mesmo?, pergunta o Jornal Opção. "Ele morreu", insistiu.

Martin Claret diz que está providenciando nova tradução. "Nossa versão será feita a partir do inglês, porque fica mais barato do que traduzir do grego. Pedimos desculpas aos leitores." O editor diz que também estuda entrar em contato com a editora portuguesa, para tentar obter a autorização legal da tradução. O fato é que pode ser processado.

A Martin Claret pôs no mercado 500 títulos. "Somos uma editora de médio para pequeno porte." Ele diz que o grupo espanhol Santillana quer comprar a Martin Claret. "É impossível resistir ao assédio dos espanhóis. Eles compraram a Editora Objetiva, do Robert Feith; quem não vender pode quebrar", disse ao Jornal Opção.

https://web.archive.org/web/20080523082905/http://www.jornalopcao.com.br/index.asp?secao=Imprensa&subsecao=Colunas&idjornal=259


7 de set. de 2017

artigo sobre crime e castigo

americana, 1930 - capa de di cavalcanti


neste último número dos cadernos de tradução da ufsc, saiu meu artigo sobre as bizarras circunvoluções em que, durante mais de oitenta anos, esteve metido o pobre do "crime e castigo" de dostoiévski no brasil. disponível aqui.


24 de jun. de 2017

o drama da coisa - e aí, como faz?


hoje recebi o depoimento de um amigo, sério e dedicado bibliotecário, que reproduzo abaixo - quando a gente diz que livro não é produto perecível e que os efeitos deletérios das edições fraudadas se contam por décadas e décadas a fio, é mais ou menos isso.

Como você sabe, trabalho numa Biblioteca Pública.
No mês passado, uma jovem usuária que começou a fazer Ciências Sociais veio me pedir algumas orientações sobre diferenças de edições de um mesmo livro, editoras etc.
Expliquei o que é edição / impressão e a alertei sobre a editora Martin Claret.
Ela comentou que iam estudar um clássico do liberalismo - LOCKE -, e levou o exemplar da Biblioteca - coleção os Pensadores.
Durante a aula, a colega que estava sentada ao lado com um exemplar da editora Martin Claret não conseguiu acompanhar a aula, pois o trecho havia sido interrompido/omitido por uma frase extremamente/porcamente resumida. Uma frase para terminar o parágrafo, mas que omitia toda uma argumentação do autor (era o x da aula - a argumentação do autor) que ocupava algo em torno de 2 páginas. Olhe só, 2 páginas de um texto de ciência política sintetizadas em uma frase sem muito sentido...
Realmente a editora Martin Claret continua provocando sérios problemas para os compradores dos seus livros.
Tenho alertado todos os usuários para que não usem /comprem livros desta editora.
Repassei para todas as Bibliotecas da rede da Prefeitura de São Paulo um aviso sobre esses e outros problemas que tenho visto. A grande maioria dos meus colegas desconhecia esses problemas. Acho que é natural que isto aconteça. Acabamos ficando presos na rotina do dia-a-dia na biblioteca do bairro e não prestamos atenção a esse tipo de problema. Tenho a impressão de que nosso setor de seleção e aquisição sabia dos problemas (tanto que nunca comprou nada da editora), mas não emitiu nenhum aviso para não aceitarmos doações de usuários desta editora. 

11 de mai. de 2017

flores roubadas do jardim alheio


Ivo Barroso



Flores roubadas do jardim alheio


“As Flores do Mal” – Charles Baudelaire – texto integral – Tr. Pietro Nassetti - Editora Martin Claret (São Paulo, 2001) – 192 págs. R$19,00
Já tivemos aqui a oportunidade de mostrar como algumas obras literárias estão sendo criminosamente “apropriadas” por editores inescrupulosos e reeditadas sob o nome de falsos tradutores. No caso anterior, vimos como a tradução genial do “Cyrano de Bergerac”, de Edmond Rostand, devida ao falecido professor pernambucano Carlos Porto Carreiro, foi simplesmente “clonada” e atribuída a um desconhecido Sr. Fábio M. Alberti, que já devia ficar contente se seu nome aparecesse como autor das notas de pé de página que figuram na edição. Nelas há esclarecimentos sobre personagens e fatos um tanto ou quanto incomuns, pelo menos para a classe de leitores desses livros ditos “populares”, vendidos em bancas de jornal. Apressamo-nos em esclarecer que nada temos conta esse tipo de venda e achamos mesmo que se trata de um serviço prestado ao leitor médio, que pode assim adquirir livros de grandes autores a preços inegavelmente convidativos. O que não nos parece ético é o escamoteio e a usurpação do nome dos tradutores originais desses livros, seja pela prática da sua atribuição a outrem, seja pelo artifício vergonhoso do plágio disfarçado.
Nessa última categoria podemos incluir, consistentemente, a edição de “As Flores do Mal”, o clássico livro de poemas de Charles Baudelaire, lançada “no verão de 2001” pela Martin Claret, de S. Paulo, em tradução ali atribuída a Pietro Nassetti, que, não se tratando de um pseudônimo de Jamil Almansur Haddad, responde certamente pelo nome de seu plagiário indecoroso, tal a maneira inequívoca com que se apropria da obra alheia.
É sabido que temos no Brasil pelo menos duas edições integrais de “As Flores do Mal”. A mais conhecida e, a nosso ver, a mais bem realizada, a de Ivan Junqueira, foi editada pela Nova Fronteira, sendo de 1985 a última reimpressão, com o texto original de face à tradução. Foi essa a escolhida para figurar no volume “Charles Baudelaire – Poesia e Prosa”, que organizamos para a Editora Nova Aguilar e que foi editado em 1995, em papel bíblia, reunindo em português praticamente toda a obra do Poeta. A outra, mais antiga, de 1958, editada pela Difusão Européia do Livro na coleção Clássicos Garnier, é de Jamil Almansur Haddad, poeta paulista, autor de “A lua do remorso” (1951), que além de Baudelaire traduziu também “As Líricas”, de Safo, “O Cântico dos cânticos”, de Salomão, o “Rubaiyat”, de Omar Khayyam, o “Cancioneiro” de Petrarca, o “Decamerão” de Boccaccio e as “Odes” de Anacreonte. O leitor, ainda que não versado no assunto, pode bem imaginar o que representa de tempo e esforço a tarefa de traduzir poesia, principalmente no caso de um autor como Haddad que respeita a métrica e a rima existentes no original. Mas hoje parece estar se generalizando a prática certamente recriminável de se tomar um texto preexistente e maquiá-lo, mudando aqui uma palavra mais difícil, ali uma construção mais arrevesada, e, passando por cima dos ditames métricos e rímicos, apresentá-lo ao leitor numa “nova” edição popular, supostamente feita por outro tradutor.
No presente caso a contrafação é tão explícita que chega a ser vergonhosa. Tomemos por exemplo o poema “Hino à Beleza”, dos mais característicos do estilo baudelairiano, com seus termos específicos e construções originais. As três primeiras quadras são iguais, ipsis litteris, coincidência que seria impossível de obter-se mesmo no caso de uma prova de tradução à qual se habilitassem centenas de candidatos. “Infernal et divin” é traduzido por ambos como “celestial e daninho”; “le couchant et l´aurore” por “matutina e noturna” e o verso “Qui font le héros lâche et l´enfant courageux” é impressionantemente resolvido da mesma forma: “Se à criança dão valor, tornam o herói covarde”. E naquele que encerra o terceiro quarteto: “Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien” – o copiador chegou a incidir no mesmo erro de interpretação do seu modelo, traduzindo “réponds” por “respondes”, quando a construção francesa “réponds de rien” equivale a “submeter-se a nada”. “Bénissons ce flambeau!” é “Bendito lampadário” em ambos e “tombeau” (túmulo) é transformado também por ambos em “sudário”. Há momentos, no entanto, em que o copiador servil resolve “melhorar” (como talvez pense) o texto saqueado. Em geral isso ocorre diante de palavras que ele julga “difíceis” ou pouco atuais. Assim, onde Jamil escreveu “O amoroso anelante a pender sobre a bela”, o tradutor-xerox reescreve: “O namorado ofegante a pender sobre a bela”, não se importando com isso de sacrificar a métrica do verso. Neste mesmo poema há inúmeros exemplos dessa espécie: “Pisando mortos vais, com ar de desacato” (Jamil) e “Caminhas sobre os mortos, com ar de desacato” ( pseudo tradutor). O “papel carbono” parece ter achado que o “vão” (adjetivo) de “Sobre teu ventre vão dança amorosamente” poderia ser entendido pelos seus leitores como verbo e “conserta” para “Sobre teu ventre orgulhoso dança amorosamente”, conseguindo o fenômeno de um alexandrino de 14 versos. Outro: “Beleza! monstro ingênuo e de feição adunca!” lhe soa muito precioso e ele emenda para: “Beleza! monstro ingênuo, assustador e horrendo!” Mas pasmem que temos no início da quinta quadra o que se poderia chamar de dupla coincidência: No verso “Uma efêmera vai ao teu encontro, ó vela”, tanto na tradução de Jamil quanto na de seu “vampiro” Pietro Nassetti há uma nota de pé de página dizendo exatamente o mesmo: “Efêmera: substantivo comum, espécie de inseto”, que, se não fosse cópia servil seria um caso de duplicidade até na indigência definidora. Estender a amostragem seria recair ad infinitum na certeza que desde já se patenteia de que os poemas apresentados nesta edição de “As Flores do mal” foram subtraídos do berço alheio e criados por pais adotivos em proveito próprio.
Essa prática inescrupulosa da apropriação de traduções alheias – pela cópia deslavada ou enganosa maquiagem – parece estar se ampliando junto a editores de livros em série ou coleções ditas populares. Há muitos títulos de obras clássicas que circulam por aí que, se examinados com cuidado, revelariam – como um triste palimpsesto – o nome apagado e explorado do tradutor original. 

in http://www.jornaldepoesia.jor.br/ibarroso3.html 

30 de abr. de 2016

emerson, levantamento atualizado

Ralph Waldo Emerson (1803-1882)

Anos 1930 

1. O mestre do transcendentalismo americano chegou ao Brasil com sete palestras que havia apresentado entre 1845 e 1847, e que saíram em livro em 1850 enfeixadas sob o título de Representative Men. Esses ensaios eram: "Uses of Great Men"; "Plato; or, the Philosopher"; "Swedenborg; or, the Mystic"; "Montaigne; or, the Skeptic"; "Shakspeare; or, the Poet"; "Napoleon; or, the Man of the World"; "Goethe; or, the Writer".

Esse volume surgiu inicialmente entre nós com o nome de Os super-homens. Foi lançado pela editora paulista Cultura Moderna, numa edição sem data, que calculo por volta de 1936. [Note-se que o ensaio inicial, "Uses of Great Men", não consta na listagem da página de rosto. Não consultei fisicamente o exemplar; é provável que o texto venha como ensaio introdutório.]


Como se vê acima, trata-se de uma edição revista por A. Roitman, sem citar o nome do tradutor. Como em 1913 saíra em Portugal a tradução de Domingos Guimarães com o mesmo peculiar título de Os super-homens (Porto, Magalhães & Moniz), eu não excluiria a possibilidade de que tenha sido ela a ser revista e publicada pela Cultura Moderna. A avaliação e eventual confirmação dessa hipótese, aliás, poderia ser objeto de algum TCC.

2. Em 1938, uma pequena editora carioca chamada Multum in Parvo (razão social J. Botkin) publica Trechos de Emerson, em seleção de Robert James Botkin, em sua Coleção Portátil, v. 4. Embora não constem créditos de tradução, suponho que terá sido feita pelo próprio organizador e editor, Botkin. Agradeço à imensa gentileza de Saulo von Randow Jr. pela imagem de capa. 




Anos 1940

1. Em 1940, a Livraria Martins, de São Paulo, publica em sua coleção Pensamento Vivo o volume de excertos organizado por Edgar Lee Masters, O pensamento vivo de Emerson, em tradução de Ida Goldstein. Traz excertos de "Natureza", "Ensaios - primeira e segunda séries 1841-1844", "Poemas", "Homens representativos", "Traços Britanicos", "A conduta da Vida", "Dia de maio e Outros Trechos", "Sociedade e solidão", "Cartas e Objetivos Sociais".



2. Ainda em 1940, a Edições e Publicações Brasil Editora, também de São Paulo, publica A conduta da vida, em tradução de C. M. Fonseca. Aqui tampouco localizei imagem de capa. Em 2003, essa tradução foi reeditada pela editora paulista Martin Claret, com o título de A conduta para a vida. 

3. Em 1941, a mesma Brasil Editora lança Homens representativos da humanidade, também em tradução anônima revista, agora por Alfredo Gomes, responsável pelo prefácio e notas. Em 1960, a Edigraf lança essa mesma tradução revista, com o título de Homens representativos


Com o encerramento da Edigraf, a obra se transfere a  partir de 1967 para o catálogo da Tecnoprint, em suas Edições de Ouro, porém com a tradução atribuída diretamente a Alfredo Gomes, e não mais apenas "revista" por ele. E assim permanece até hoje, na atual Ediouro. Fica aí uma segunda sugestão de pesquisa para um TCC - quem terá sido o legítimo tradutor dessa obra de Emerson?




4. Em 1948, a Livraria Editora Progresso, de Salvador, publica English Traits com o título de Inglaterra e sua gente, em tradução de Acácio França. É uma edição muito difícil de se encontrar, e nem mesmo nossa Biblioteca Nacional dispõe de qualquer exemplar.


Anos 1950

1. Em 1953, temos o ensaio “Caráter”, presente na coletânea Ensaístas americanos, em tradução de Sarmento de Beires e José Duarte, pela W. M. Jackson, do Rio de Janeiro, em sua coleção Clássicos Jackson, vol. XXXIII. 


Ainda que Sarmento de Beires fosse português, exilara-se no Brasil desde 1928, após a implantação da ditadura em Portugal, retornando ao país de origem apenas após a Revolução dos Cravos, em 1974. Por esta razão, julgo legítimo considerá-la uma tradução brasileira de direito próprio. A tradução de Sarmento de Beires e José Duarte será indevidamente apropriada pela editora Martin Claret a partir de 2001, num volume chamado Ensaios, copiada na íntegra e atribuída a um ser de ficção de nome “Jean Melville”. Veja aqui.

2. Em 1955, a soteropolitana Progresso, de Pinto de Aguiar, lança outro volume com o título de Os super-homens, sem qualquer indicação sobre a tradução. Parece-me muito provável que se trate da tradução portuguesa de Domingos Guimarães ou da tradução revista por A. Roitman, pela Cultura Moderna, já comentadas mais acima. Tal hipótese, porém, demanda comprovação. 




Anos 1960

1. Em 1961, temos um volume de Ensaios, com seleção, nota introdutória e tradução de José Paulo Paes, pela paulista Cultrix, em sua coleção Clássicos Cultrix, contendo “O Letrado Norte-Americano”, “A Confiança em si Próprio”, “Compensação”, “Amizade”, “A Supra-Alma”, “O Poeta”, “A Natureza” e “Política”. 



Anos 1970

1. Em 1976, aparecem “Brama”, “Os dias”, “Moderação” e “Fábula” em Poetas norte-americanos, antologia bilíngue com organização e tradução de Paulo Vizioli, pela Lidador, como “Edição comemorativa do bicentenário da independência dos Estados Unidos da América, 1776-1976”. Infelizmente, só encontrei essa imagem: 



Anos 1980

Não localizei nenhum lançamento na década de 1980.


Anos 1990

1. Em 1994, sai outro volume de Ensaios, este correspondendo à coletânea original de Essays (First Series), em tradução de Carlos Graieb e José Marcos Mariani de Macedo, na coleção Lazúli da editora Imago, do Rio de Janeiro. 


É a este volume que a editora Martin Claret recorrerá para os demais ensaios de sua edição espúria de 2001, citada mais acima, em nome de “Jean Melville”, em cópia adulterada e bastante atamancada (vide aqui). 

2. Em 1996, também pela Imago, em sua coleção Lazúli, sai uma nova edição de Homens representativos, agora em tradução de Sônia Régis. 



3. Em 1997, temos "Experiência", ensaio de Emerson publicado em apêndice a Esta América nova, ainda inabordável, de Stanley Cavell, em tradução de Heloísa Toller Gomes, pela editora 34, de São Paulo.



Anos 2000

1. Em 2001, tem-se o volume Ensaios na edição espúria da editora Martin Claret, já citada, em nome de “Jean Melville”, que nem merece imagem de capa e dispensa maiores comentários (vide aqui).

2. Em 2004 é lançada uma miscelânea de excertos de vários autores, entre eles Emerson, num volume chamado Inspirações positivas: a chave do sucesso, com organização e tradução de Adriana Toledo de Almeida, pela editora paulista Vergara & Riba.



Anos 2010

1. Em 2010, a L&PM, de Porto Alegre, publica em apêndice a Walden, de Henry D. Thoreau, o necrológio de Emerson a ele, com o título “Thoreau”, em tradução minha. 



2. Em 2011, a editora Dracaena, de Içara, SC, publica Natureza, em tradução de Davi Araújo. 



3. Em 2013, sai Amor e amizade, também pela Dracaena, em tradução de Bianca Carvalho. 



Para 2016, está previsto o lançamento de dois ensaios, “Independência” e “Amizade”, pela L&PM, em tradução minha.


Vide também "O quinteto da Renascença Americana no Brasil", in Cadernos de Tradução, UFSC, vol. 35 (2015), aqui

Agradeço a Sérgio Tadeu Guimarães e Kim Abreu pelas contribuições em Poetas norte-americanos e Esta América nova.

8 de ago. de 2015

da americana à martin claret, passando pela pongetti e pelas edições de ouro

mais uma breve comparação entre "ivan petrovitch"/"irina wisnik" e "luiz cláudio de castro":

Compreendia agora que passara o tempo de sofrer passivamente, e das lamentações que nada resolvem; agora cumpria fazer fosse o que fosse, o mais depressa possível. Era necessário tomar desde já uma resolução qualquer ou...
“Ou renunciar à vida!”, exclamou ele subitamente, “aceitar, de uma vez por todas, o destino como ele é, sufocar todas as aspirações, abdicar definitivamente ao direito de ser livre, de viver, de amar!" 
Compreendia agora que passara o tempo das lamentações que nada remediam e que, em vez de increpar a sua imprudência, cumpria-lhe fazer qualquer coisa o mais depressa possível. Era necessário tomar desde já uma resolução qualquer ou...
“Ou renunciar à vida!”, exclamou subitamente, “aceitar, duma vez para sempre, o destino como ele é, abafar todas as aspirações, abdicar definitivamente ao direito de ser livre, de viver, de amar!"

resumindo minha hipótese: em 1930, saiu pela ed. americana uma tradução de crime e castigo em nome de um improbabilíssimo "ivan petrovitch", que já em 1931 some do horizonte. em 1936, a pongetti lança algo que supostamente seria uma nova tradução, em nome de jorge jobinski. "ivan petrovitch" ressurge em 2002 pela editora claret, com uma tal "irina wisnik". minha hipótese é que a tradução de 1930 pela americana foi republicada em 1936 pela pongetti sob outro nome e que ela tem circulado faz mais de oitenta anos entre várias editoras, com um monte de gente mexendo no texto (desde aurélio pinheiro e marques rebelo até luiz cláudio de castro, que acabou sendo erigido em 1998 como seu tradutor).

ver também aqui

16 de mai. de 2013

excelente notícia


recebi poucos dias atrás um ofício do gabinete da procuradoria da república no estado de são paulo.

finalmente saiu a determinação do ministério público federal sobre as fraudes cometidas pela editora martin claret contra duas obras de tradução de monteiro lobato - a saber, o lobo do mar, de jack london, e o livro da jângal, de rudyard kipling - que foram objeto de inquérito civil público instaurado pelo mpf em 2010, a partir de um pedido de representação que fiz àquela instância em 2009.

a decisão da dra. adriana da silva fernandes, procuradora da república, foi pelo arquivamento do inquérito, devido ao parecer técnico informando que a gestora dos direitos da obra lobatiana, nesse meio tempo, passara a tomar as providências legais contra a usurpação dessas traduções feitas por monteiro lobato. ótimo!

vale notar que o parecer técnico realizado pelo perito do ministério publico concluiu pela efetiva existência de "similitude evidente" entre as traduções de monteiro e as pretensas traduções em nome de pietro nassetti e alex marins, pela referida editora martin claret.

ademais, o que foi de precípua importância, a procuradora da república transcreveu e ressaltou em sua decisão a recomendação do perito técnico do mpf para que seu parecer fosse encaminhado às instâncias competentes:
a fim de que se possam propor novos aprimoramentos e instrumentos jurídicos de fiscalização das obras traduzidas e editadas e dos direitos dos tradutores no âmbito das políticas públicas de aquisição de livros como o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), a Política Nacional do Livro e Leitura (PNL - Lei 10.753/03) ou até mesmo de projetos de Leis importantes como o Projeto de Lei 4534;12, que altera o PNL e tramita no Senado, mas, sobretudo, a Lei de Direitos Autorais, objeto de longo processo de audiências, seminários, reuniões e consulta pública iniciada em 2007 e que estaria, atualmente, em fase de formatação de anteprojeto de lei pelo Ministério da Cultura.
só podemos aplaudir a sensibilidade do perito do mpf e da procuradora da república em encaminharem parecer e decisão a outras esferas, para que possam proceder a uma mais efetiva proteção das obras de tradução.

  • para a determinação de instauração de inquérito civil público, ver aqui
  • para o cotejo de o livro da jângal, ver aqui
  • para o cotejo de o lobo do mar, ver aqui

imagem: m. kajiya, aqui

30 de nov. de 2012

tentando entender

às vezes, lendo alguma coisa, encontro passagens cujo sentido não me parece imediatamente claro e fico querendo entender melhor. por exemplo, leio no fundamental artigo de júnia barreto que vim comentando nos últimos posts:
Algumas das obras de Hugo receberam traduções e/ou reedições brasileiras neste início do século XXI, como os romances O último dia de um condenado (Estação Liberdade, 2002, trad.  de  Dominique Kalifa;* 2010, trad.  de Joana Canedo);  Notre-Dame de Paris (Estação Liberdade, 2011, trad.  de  Ana de Alencar e Marcelo Diniz),  O Corcunda de Notre-Dame (Ediouro, 2003, trad.  de Uliano Tevoniuc; Martin Claret, 2006, trad. de Jean Melville); Os trabalhadores do mar (Martin Claret, 2004, reedição da tradução de Machado de Assis); Os Miseráveis (Martin Claret, 2007, trad. de Regina Célia de Oliveira). Nesse levantamento, não foram consideradas as adaptações ou as edições paradidáticas. 
Entretanto, algumas das traduções atuais preservam parte das traduções feitas para as obras completas nos anos 1950, pelos tradutores Frederico Ozanam Pessoa de Barros (Os miseráveis) e Hilário Correia. Nesses casos, constata-se que tais traduções se prendem a transposições majoritariamente linguísticas e semânticas, comportando, muitas vezes, erros crassos de forma e/ou conteúdo e, por vezes, transfigurando o texto literário ou o próprio projeto do autor. [aqui, p. 86; negrito meu]
o que o trecho em negrito significa concretamente? 1. que a tradução de regina célia de oliveira, pela martin claret, reproduz trechos da tradução de ozanam? 2. como notre dame de paris é a única obra em comum entre as traduções de victor hugo feitas por hilário correia e as traduções atuais citadas por júnia barreto, deduzo que a autora se refere à tradução em nome de jean melville, pela martin claret. então isso significa que o corcunda de notre dame pela claret  tem trechos copiados da tradução de hilário correia pela edameris?

quanto ao item 2., não chega a surpreender, pois é fato sabido que todas as traduções atribuídas pela martin claret ao fictício "jean melville" são espúrias. de todo modo, é interessante a sugestão - se entendi corretamente o trecho citado - de que a fonte pelo menos parcial de mais essa contrafação da claret teria sido a tradução de hilário. agora, que a tradução d'os miseráveis feita por regina célia de oliveira "preserva parte" da tradução de ozanam - e repito: se é que entendi corretamente o trecho citado - me surpreendeu e, a meu ver, é uma afirmação, ainda que um tanto elíptica, que demandaria maiores esclarecimentos.

* estranhei um pouco a menção ao historiador francês dominique kalifa como tradutor d'o último dia de um condenado. até onde sei, a tradução dessa obra por joana canêdo saiu pela estação liberdade já em 2002.

atualização em 17/2/2013: joana canêdo avisa em comentário abaixo que os créditos de suas traduções foram corrigidos pela profa. júnia barreto em seu artigo supracitado.

19 de nov. de 2012

teimosia

quanto à utopia de thomas morus, fiz um cotejo mostrando a tradução espúria publicada pela rideel - e já tirada de circulação - aqui. nunca cheguei a cotejar a pretensa tradução que saiu pela martin claret em nome de pietro nassetti, pois esse nome em si já me parecia suficiente para não confiar muito nela. a edição da claret começou a ser lançada em 2000, com reedições em 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 e 2008.


Autor:More, Thomas,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes Sir, Santo, 1478-1535.
Título original:[De optimo publicae statu deque nova insula utopia. Português]
Título / Barra de autoria:A utopia / Thomas More ; tradução: Pietro Nasseti. -
Imprenta:São Paulo : M. Claret, 2005. 
Descrição física:127p. ; 19cm. -
Série:(A obra-prima de cada autor ; 40)
Notas:Tradução de: De optimo publicae statu deque nova insula utopia.
ISBN:8572323651 (broch.)
Assuntos:Utopias.clique aqui para ver as obras sob este assunto no Catálogo de Autoridades de Assuntos 
Classificação Dewey:
Edição:
335.02
22 
Indicação do Catálogo:VI-411,5,41 
Registro Patrimonial:1.134.945 DL 24/02/2006

hoje ana cláudia informa em comentário aqui:
Estou aqui com duas edições da Utopia publicadas pela Martin Claret. A primeira é de 2004. Na primeira página está escrito "Tradução: Pietro Nassetti". Na segunda, de 2008, lemos "Tradução e notas: Maria Isabel Gonçalves Tomás". Acontece que a primeira edição reproduz ipsis litteris o texto da tradução de Maria Isabel Gonçalves Tomás, cuja tradução da Utopia foi publicada pela portuguesa Publicações Europa-América... Ironia: as duas edições da Martin Claret trazem aquele selinho da ABDR, na mesma página em que a gente lê o nome do tradutor: "Respeite o direito autoral. Cópia não autorizada é crime." 
 a informação de ana cláudia é preciosa. não sei se a claret chegou a licenciar a tradução legítima junto à europa-américa ou apenas passou a reproduzi-la a partir de 2008 sem maiores pudores - o que sei é que, em pleno 2012, a editora inscreveu a tradução espúria em nome de pietro nassetti no programa nacional do livro de baixo preço, destinado a abastecer 2.700 bibliotecas públicas de norte a sul do país. veja aqui.

9 de set. de 2012

a dobradinha FBN/Martin Claret IV

eis o que a fbn aceitou cadastrar e oferecer em seu programa nacional do livro de baixo preço, para abastecer 2.700 bibliotecas públicas de norte a sul do país, à livre escolha delas:


reproduzo abaixo o que venho divulgando faz anos e que apresentei à presidência e à coordenação da fundação biblioteca nacional, quando eu soube das irregularidades em seu programa de abastecimento das bibliotecas públicas (e com verba pública, claro): 



02/03/2009



οιδιποθσ

sófocles, rei édipo (j. b. de mello e souza, jackson)
sófocles, édipo rei (jean melville, martin claret)

além de plagiada, a edição usa "chapa fria". sobre o termo "chapa fria", veja aqui.

este parece ser mais um caso de montagem de edições diferentes. a jackson teve surripiadas todas as notas de autoria de mello e souza.

a. notas de mello e souza:
1. conforme antigo costume grego, os que tinham alguma súplica a fazer aos deuses acercavam-se dos altares trazendo ramos de louros, ou de oliveira, enfeitados com fitas de lã.
2. havia em tebas dois templos dedicados a minerva (palas) e um a apolo, junto do ismênio, no qual, segundo heródoto (viii, 134), se colhiam bons oráculos.
3. ter à cabeça uma coroa de louros significava ter ganho um prêmio, ou ser portador de uma notícia auspiciosa.
4. os gregos supunham que, por intermédio da sacerdotisa de delfos, falava pelo oráculo o próprio deus apolo.
5. "causa o sangue o flagelo sobre a cidade" diz, literalmente, sófocles.
6. os interpretadores assinalam esta passagem como sendo das mais notáveis da tragédia, pois édipo vai fazer o contrário do que diz, em uma anfibologia trágica, usada com frequência por sófocles.
7. literalmente: "às plagas do deus ocidental" porque, para os gregos, o hades, região dos mortos, ficava na zona escura do mundo, isto é, no ocidente, visto que a luz vinha do oriente.
8. justifica-se essa alegoria, visto que marte, além de ser deus da guerra, era-o também da peste, a que se refere o sumo sacerdote, em sua primeira fala.
9. um dos títulos conferidos ao deus apolo, por ter nascido na lícia (cf. horácio, iii, ode iv).
10. segundo a lenda a que se refere heródoto, (l. v., 59), agenor era um rei da fenícia. seu filho cadmo fundou tebas, dando seu nome à colina principal, e ao recinto fortificado da cidade (cadméia). de cadmo foi filho polidoro, pai de lábdaco. a este rei sucedeu o infeliz laio.
11. tirésias tinha, com efeito, o tratamento de rei, prova de que o sacerdócio o igualava aos reis de fato, se não o punha acima deles. isso explica a altivez e o desassombro com que, por vezes, falava tirésias a édipo.
12. "este dia te dará o nascimento e a morte" - diz o original, literalmente, mas a idéia evidente é a de que édipo iria descobrir na mesma ocasião os dois terríveis lances de sua trágica existência.
[...]
27. que édipo se houvesse ferido com um simples colchete do manto real, não admira, visto que essa peça do vestuário grego era muito maior que os atuais colchetes, e bastante forte para ser assim utilizada. heródoto conta em suas histórias, (v, 87) que as atenienses mataram um covarde, servindo-se dos próprios colchetes de suas roupas como punhais. para isso bastava forçar a fita metálica, dando-lhe a forma de um gancho ou de um estilete pontiagudo.

b. notas de mello e souza pirateadas pela martin claret:
1. conforme antigo costume grego, os que tinham alguma súplica a fazer aos deuses acercavam-se dos altarestrazendo ramos de louros ou de oliveira, adornados com fitas de lã.
2. havia em tebas dois templos dedicados a minerva (palas) e um a apolo, junto do ismênio, onde, segundo heródoto (viii, 134), se colhiam bons oráculos.
3. os gregos supunham que, por intermédio da sacerdotisa de delfos, falava pelo oráculo ali existente o próprio deus apolo. [vasta trapalhada, a claret trocou a nota 3 pela 4]4. ter à cabeça uma coroa de louros significava ter ganho um prêmio ou ser portador de uma notícia auspiciosa.
5. "causa o sangue o flagelo sobre a cidade" diz, literalmente, sófocles.
6. os comentadores assinalam esta passagem como sendo das mais notáveis da tragédia, pois édipo fará o contrário do que diz, em uma anfibologia trágica, usada com frequência por sófocles. 7. literalmente: "às plagas do deus ocidental" porque, para os gregos, o hades, região dos mortos, ficava na zona escura do mundo, isto é, no ocidente, visto que a luz vinha do oriente.
8. justifica-se essa alegoria, visto que marte, além de ser deus da guerra, era-o também da peste, a que se refere o sacerdote em sua primeira fala.
9. um dos títulos conferidos ao deus apolo, por ter nascido na lícia (cf. horácio, iii, ode iv).
10. segundo a lenda a que se refere heródoto, (1. v., 59), agenor era um rei da fenícia. seu filho cadmo fundou tebas, dando seu nome à colina principal e ao recinto fortificado da cidade (cadméia). de cadmo foi filho polidoro, pai de lábdaco. a esse rei sucedeu o infeliz laio.
11. tirésias tinha, com efeito, o tratamento de rei, prova de que o sacerdócio o igualava aos reis de fato, se não o punha acima deles. isso explica a altivez e o desassombro com que, por vezes, falatirésias a édipo.
12. "este dia te dará o nascimento e a morte" - diz o original, literalmente, mas a idéia evidente é a de que édipo iria descobrir na mesma ocasião os dois terríveis lances de sua trágica existência.
[...]
27. que édipo se houvesse ferido com um simples colchete do manto real, não admira, visto que essa peça do vestuário grego era muito maior que os atuais colchetes, e bastante forte para ser assim utilizada. heródoto conta em suas histórias (v, 87), que as atenienses mataram um covarde, servindo-se dos próprios colchetes de suas roupas como punhais. para isso bastava forçar a fita metálica, dando-lhe a forma de um gancho ou de um estilete pontiagudo.

se, conforme reza a lei 9610/98, "quem vender, expuser a venda, ocultar, adquirir, distribuir, tiver em depósito ou utilizar obra ou fonograma reproduzidos com fraude, com a finalidade de vender, obter ganho, vantagem, proveito, lucro direto ou indireto, para si ou para outrem, será solidariamente responsável com o contrafator, nos termos dos artigos precedentes", então algumas solidárias responsáveis são, por exemplo, a saraiva, a fnac, a cultura, a travessa, a curitiba.

imagem: http://www.interney.net/

24/05/2010

"ó labuta infecunda"

artigo de alfredo monte sobre antígona, que indiquei como leitura de sábado, traz um trecho comparativo das quatro traduções da tragédia de sófocles existentes no brasil: a compilada por j.b. de mello e souza (jackson), a de mário da gama khoury (zahar), a de domingos paschoal cegalla (difel) e a de donald schüler (l&pm). muito instrutivo, para quem gosta de comparar soluções e também para quem não tem muita ideia do grau de irrepetibilidade e irredutibilidade entre elas.

a editora martin claret apresenta em seu catálogo um pastiche em nome de "jean melville", calcado na tradução compilada por mello e souza, incluindo a cópia fiel e integral das notas elaboradas pelo mestre para a edição da jackson.

para exemplificar o que chamo de "pastiche", reproduzo aqui o trecho apresentado por alfredo monte. assim, o leitor poderá avaliar o tipo de cosmético aplicado na edição em nome de "jean melville" e poderá também consultar no link dado acima as outras três soluções (gama khoury, cegalla e schüler).

j.b. de mello e souza, jackson, disponível para download aqui:
http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/antigone.pdf

O CORIFEU
Oh! Agora é tarde! Parece-me que o que estás vendo é a justiça dos deuses!

CREONTE
Ai de mim – agora sei – que sou um desgraçado! Sobre mim paira um deus vingador que me feriu! Ele me arrasta por uma via de sofrimentos cruéis… ele destruiu toda a alegria de minha vida! Ó esforços inúteis dos homens!

(entra um MENSAGEIRO que vem do Palácio)

O MENSAGEIRO
Senhor! Que desgraças caem sobre ti! De uma tens a prova em teus braços… as outras estão no teu palácio… creio que tu deves ver!

CREONTE
Que mais me poderá acontecer? Poderá haver desgraça maior do que a fatalidade que me persegue?

O MENSAGEIRO
Tua esposa acaba de morrer… a mãe que tanto amava este infeliz jovem.. Ela feriu-se voluntariamente para deixar a vida.

CREONTE
Hades, que a todos nós esperas, Hades que não perdoas, nem te comoves… dize: por que, por que me esmagas por essa forma? Mensageiro das desgraças, que nova desgraça me vens anunciar? Ai de mim! Eu já estava morto, e tu me deste mais um golpe ainda…

 "jean melville", martin claret:

CORIFEU

Oh! Agora é tarde! Talvez o que agora vemos seja a justiça dos deuses!

CREONTE
Ai de mim, agora sei que sou um desgraçado! Paira sobre mim um deus vingador que me feriu e me arrasta por uma senda de atrozes sofrimentos… ele destruiu toda a alegria de minha vida! Ó labuta infecunda dos homens!

Entra um Mensageiro que vem do palácio.

MENSAGEIRO
Senhor! Mais desgraças caem sobre ti! De uma tens a prova em teus braços… a outra está no teu palácio… creio que deves ver!

CREONTE
Que mal ainda poderá se abater sobre mim? Haverá maior infortúnio do que a fatalidade que me persegue?

MENSAGEIRO
Eurídice acaba de morrer… a mãe que tanto amava este infeliz jovem... Ela voluntariamente se feriu, para abandonar este mundo...

CREONTE
Hades, que a todos nós esperas, Hades implacável, dize: por que, por que me esmagas assim? Mensageiro agourento, que novas desgraças me vens anunciar? Ai de mim! A quem já estava morto, feriste de novo…

segue-se um exemplo de apropriação das notas de mello e souza na edição da ed. martin claret:

mello e souza:
(28) Segundo a lenda citada nas Fenícias, de Eurípedes, Tirésias teria dito a Creonte que só reinaria, vitorioso, em Tebas, se sacrificasse o seu filho Megareu. Creonte não queria tal sacrifício; mas, por sua própria vontade, ou por acidente, o jovem morreu nas fortalezas da cidade. Como se vê, Eurídice considerou o marido culpado também por esta morte.

"jean melville":
28 Segundo a lenda citada nas Fenícias, de Eurípedes, Tirésias teria dito a Creonte que só reinaria, vitorioso, em Tebas, se sacrificasse o seu filho Megareu. Creonte não queria tal sacrifício; mas, por sua própria vontade ou por acidente, o jovem morreu nas fortalezas da cidade. Como se vê, Eurídice considerou o marido culpado também por essa morte.