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22 de abr. de 2023

"quem tem medo de traduzir virginia woolf?"

um breve comentário meu em "quem tem medo de traduzir virginia woolf?", 

na seção drops da vitruvius, disponível aqui.


em tempo: quem se interessar pela questão,
recomendo o blog de acompanhamento da tradução:
https://aofaroldewoolf.blogspot.com/ 


Essa coisa de tradução às vezes cansa: outro dia encontrei alguém reclamando que o título Ao farol (“To the Lighthouse”), da Virginia Woolf, é "muito vago", e melhor seria usar "passeio ao farol".

Suspiro... (na verdade, vários suspiros...)

O farol não é só nem principalmente o farol da ilha que se enxerga da casa do casal Ramsay. É sobretudo a grande, centralíssima, ponderosíssima metáfora do papel da senhora Ramsay como o “farol” da família, que ilumina, orienta e vitaliza as relações entre seus integrantes.

O “to” em To the Lighthouse nada tem de vago: é denso e até pode ser ambíguo – é não só nem principalmente uma ida de bote (um “passeio”) até o farol físico, mas sobretudo uma dedicatória!

Como diz Virginia Woolf, o livro nem seria propriamente um romance: ela diz que gostaria de chamá-lo de elegia, uma homenagem póstuma à sua finada mãe, e é a ela que a autora o dedica.

Como já disseram, “no dictionary can classify the most famous ‘to’ in twentieth-century literature: the title of To the Lighthouse, with its specially laden and layered meanings of orientation and dedication, energy and elegy” (1).

(Por isso também gosto da capa da edição da L&PM, em que o alterego de Virginia Woolf contempla o farol, em vez de apresentar algum barquinho indicando um aplainado passeio ao farol (2). E a contemplação entre nuvens pesadas, águas agitadas, rajadas de vento – quem leu o livro bem sabe quantos conflitos, quantas questões se agitam dentro e em torno da família, e o “farol” ali, sempre firme, forte e fiel, como dizem).

É até por essas e outras que certa vez meio que me exasperei em uma entrevista em que uma das entrevistadoras insistia freneticamente na importância como que fundadora [!] do que ela chamava de “crítica” – e tão freneticamente insistia, até mesmo invocando o mais perfunctório comentário de algum leitor (“aain, não gostei...”), e tanto me exasperei que fui curta e grossa: “bom, aí o problema é dele; meu problema é com a obra, a responsabilidade diante dela”. Ela fez uma cara... mas, no fundo, para mim, é isso mesmo.

nota

1
FOWLER, Rowena. Virginia Woolf: Lexicographer. English Language Notes, v. 39, n. 3, Durham (EUA), mar. 2002, p. 54-70. Disponível em pdf na página web da autora no website da Universidade de Oxford: <https://bit.ly/3mO1UZe>.

2
WOOLF, Virginia. Ao farol. Tradução de Denise Bottmann. Porto Alegre, L&PM, 2013.


14 de abr. de 2023

grandes começos: mrs. dalloway


"Este cartazete faz parte da Coleção Grandes Começos da Tipografia Quelônio, com inícios consagrados de obras da literatura brasileira e universal. Foi feito em processos artesanais de impressão, a partir de clichês tipográficos, tipos móveis e de linotipia, técnica que gera matrizes em chumbo para a composição do texto." disponível aqui.


23 de mar. de 2020

artigo

com várias contribuições inestimáveis, terminei meu artigo com o levantamento bibliográfico das traduções de obras das irmãs brontë, katherine mansfield e virginia woolf no brasil (c.1916-19 a 2019). disponível aqui.

14 de jan. de 2020

thoreau, por virginia woolf

Thoreau, por Virginia Woolf

Artigo publicado no Times Literary Supplement em 12 de julho de 1917, em homenagem ao centenário do nascimento de Henry David Thoreau.

disponível aqui, em tradução minha para a revista helena, da biblioteca pública do paraná.

11 de jun. de 2019

"thoreau", de virginia woolf

o artigo de woolf por ocasião do centenário de nascimento de thoreau saiu em tradução minha na revista helena, disponível aqui.




13 de set. de 2018

as ondas, 1946 (cont.)





  





agradeço a thiago dias da silva pelas imagens: página de rosto, verso da página de rosto, início da obra, nota da tradutora, primeiro interlúdio, colofão.


12 de set. de 2018

as ondas, 1946


incrível - sempre pensei que a primeira (e única) tradução de "as ondas" de virginia woolf no brasil era a de lya luft.
que nada: em 1946, a editora revista dos tribunais publica "as ondas" em tradução de uma desconhecida sylvia valladão azevedo. digo "desconhecida" nos meios editoriais, pois é até nome de rua no guarujá.
o interessante é que foi uma edição não comercial de 150 exemplares, lançada pela RT com autorização da globo de porto alegre, que era a detentora dos direitos de publicação da obra no brasil.
e mais interessante ainda é que foi a globo a primeira a publicar woolf no brasil, começando no mesmo ano de 1946 com "mrs. dalloway", na tradução de mário quintana [em circulação até a data de hoje], e prosseguindo em 1947 com o lançamento de "orlando", na tradução de cecília meirelles [idem idem].
estou agora procurando mais dados a esse respeito, e por enquanto não encontrei grande coisa. mas minha cabeça já começou a especular. p.ex., a globo teria contratado os direitos de tradução e publicação dessas três obras da woolf no brasil como um pacote; publicou "mrs. dalloway" e "orlando", e autorizou a RT a um uso não comercial de "as ondas" - mas jamais lançou "as ondas", seja na tradução da referida sylvia ou em qualquer outra. até aí sabemos [salvo a hipótese da contratação de um "pacote", que é especulação minha], e é tudo documentado. mas, pelo que vi até agora, foi relativamente ou até bastante pequena a repercussão de "mrs. dalloway" na imprensa da época, tanto é que levou décadas para ser reeditada; a de "orlando" não foi muito maior. terá a globo concluído que não valeria a pena lançar um terceiro livro da autora? a que se destinaria o uso não comercial dos 150 exemplares lançados pela RT? brinde para seus clientes, uma encomenda, um balão de ensaio para a própria globo?
devo esse dado interessantíssimo sobre a existência de "as ondas" em português desde 1946 a Thiago Dias da Silva. agora estou na maior curiosidade para conhecer essa edição, ver a capinha, a página de rosto, a declaração de autorização da globo que consta no livro (da qual fui informada também por Thiago).

dados que consegui localizar: sylvia valladão, nascida c.1900, filha do celebrado médico mathias valladão, pertencente à alta sociedade paulistana, casou-se em c.1921 com noé azevedo, advogado de grande fama futura. noé azevedo se tornou em 1923-24 o diretor responsável pela revista dos tribunais - esta, por sua vez, em 1933 passou a operar também como gráfica e a partir de 1955 como editora, atividade que mantém até hoje. 
a ligação matrimonial entre sylvia valladão e noé azevedo me parece suficiente para explicar por que sua tradução de as ondas foi publicada pela revista dos tribunais.

veja-se também as ondas, 1946 (cont.)aqui. 

atualização: de fato, o projeto da globo era ambicioso, como indica essa nota do diário paulistano, em 30 de junho de 1946, mencionando a intenção da editora em publicar as obras completas de VW. [vale notar que a tradução que seria feita por ligia junqueira nunca foi publicada; a primeira tradução de to the lighthouse que temos no brasil é a de luiza lobo, em 1968, pela gráfica record.]



esse dado, aliás, parece reforçar a plausibilidade da hipótese de um "pacote", acima aventada.


14 de jan. de 2018

ao farol, uma leitura

saiu na mais recente edição da revista luso-brasileira InComunidade um artigo sobre ao farol, de virginia woolf, a partir de anotações minhas durante a tradução da obra. disponível aqui.






18 de jun. de 2017

estudo comparado

franciele graebin dedicou sua dissertação de mestrado (unb, 2016) a uma análise comparada das quatro traduções brasileiras de mrs. dalloway: a de mario quintana, a de tomaz tadeu, a de claudio marcondes e a minha. disponível aqui.







agradeço a bento moura pela notícia sobre esse estudo.

2 de jul. de 2014

noemi jaffe sobre mrs. dalloway

a crítica noemi jaffe cita generosamente meu trabalho em mrs. dalloway, pela l&pm, e comenta também as dificuldades gerais do ofício de tradução, mais ou menos entre os 15,20 e 19,20 min. do vídeo abaixo:




agradeço a sérgio tadeu guimarães pelo link.

lembrando a capinha da edição:



















14 de dez. de 2013

prêmio paulo rónai de tradução 2013



fiquei muito contente com a escolha de mrs. dalloway, de virginia woolf para o prêmio paulo rónai de tradução, pela fundação biblioteca nacional, em 2013.




a relação completa dos ganhadores deste ano está aqui. parabéns, viva, a todos!




uma coisa muito interessante a se notar é o destaque que a tradução literária vem recebendo nos últimos anos. ainda quanto à premiação deste ano na biblioteca nacional, o escolhido na categoria de ensaios foi a tradução literária, de paulo henriques britto. creio que assim se vai firmando a consciência de que a tradução também faz parte do sistema literário do país.

3 de mar. de 2013

entrevista sobre tradução, mrs. dalloway e virginia woolf

o jornal opção de goiânia publicou hoje uma entrevista minha sobre virginia woolf e a tradução de mrs. dalloway, disponível aqui.


Edição 1965 de 3 de março a 9 de março de 2013
Entrevista
Virginia Woolf feminista é “uma invenção da tradição”
Denise Bottmann, uma das mais importantes tradutoras brasileiras, fala sobre a tradução de Virginia Woolf
Mestre em teoria da história e doutora em epistemologia da história, Denise Bottmann é uma das mais destacadas tradutoras brasileiras. Traduz do inglês, francês e italiano, e já realizou trabalhos para as mais importantes editoras do país, entre elas, Com­panhia das Letras, Cosac Naify, Objetiva e Nova Fronteira. Bott­mann é autora do livro “Padrões Explicativos da Historiografia Brasileira” e mantém o blog “Não Gosto de Plágio”, um canal que reúne farta documentação sobre traduções, plágios e contrafações. Na entrevista, Denise Bottmann fala sobre os desafios na tradução de “Mrs. Dalloway”, considerada a obra-prima de Virginia Woolf, que inovou “a arte romanesca de forma a um só tempo delicada e radical ao alternar o foco narrativo de um personagem para outro e ao lançar mão do fluxo de consciência como maneira de acompanhar seus sentimentos, suas sensações e suas reflexões”.  “E vários elementos de conteúdo, eu tinha de conseguir que cintilassem de leve, aqui e ali, discretamente, como pequenos presentinhos escondidos para o leitor, como Woolf faz, sem alardear”, afirma. A tradução de “Mrs. Dalloway”, o romance entrou para o domínio público em 2012 — foi encomendada pela editora L&PM. Bottmann também afirma que a “Virginia Woolf feminista é uma invenção da tradição. E, como uma tradição inventada, certamente tem sido útil para a construção de uma história do feminismo”.









Até 2012, havia apenas uma tradução de “Mrs. Dalloway”, a de Mario Quintana, de 1946. Com o ingresso da obra de Virginia Woolf em domínio público a partir de 2012, qual a importância de aparecerem novas traduções?

Há vários aspectos. O primeiro, e mais genérico, é que toda tradução autoral tem a marca pessoal do tradutor. O segundo, diretamente relacionado a esse primeiro aspecto, é que cada tradução vem muito marcada por sua época: toda tradução é, por definição, mais datada do que a obra original. Assim, é não só natural, mas desejável que periodicamente se renovem as traduções das principais obras do chamado cânone literário ocidental. Em terceiro lugar, e mais especificamente, há uma questão peculiar nessa tradução do Quintana: considero-a muito boa, e até admirável sob diversos ângulos. Há nela, porém, uma leve tendência de arredondar um pouco o texto. A modernidade de Woolf — as invenções estilísticas no plano da escrita e mesmo alguns recursos narrativos utilizados no texto — às vezes parece um pouco atenuada: penso na função muito peculiar da pontuação, na incansável repetição de termos que funcionam como marcadores não só do texto, como também do fluxo mental dos personagens, na estruturação sintática, no uso de uma linguagem muito, muito simples, mas ao mesmo tempo com uma grande elaboração das frases.

Veja um exemplo que acho bonitinho — há lá a certa altura, falando de Septimus, quando se mudou para Londres: “... there were experiences, again experiences, such as change a face in two years from a pink innocent oval to a face lean, contracted, hostile”. Você nota nos dois blocos de adjetivos como o uso das vírgulas é quase icônico, figurativo? Em “pink innocent oval”, os adjetivos correm, fluem como se quisessem mostrar como era liso, sem marcas, o rosto do jovem; então vem “lean, contracted, hostile” (que contraste, como pisa duro!), como se as vírgulas mimetizassem as marcas da experiência. Ninguém há de crer que isso seja por acaso; é de uma grande deliberação, e esse uso da pontuação como uma espécie de encenação visual e emocional desempenha uma função muito interessante em todo o texto, que entendo que deva ser mantida na tradução.

Ela levou três anos para escrever “Mrs. Dalloway”: um polimento constante, um esforço incessante em reproduzir no plano da linguagem o discurso mental e mesmo o tropel emocional que avassala os personagens. Não foi fácil. Então, digamos, a tradução do Quintana — que, repito, acho muito boa — se depara com esse “modernismo” dela e, em alguns momentos, prefere contorná-lo. A tradução resultante causa menos estranheza ao leitor — ainda mais pensando no leitor médio dos anos 1940. Mas isso significa que, para nós, uma obra que fazia parte da grande onda de renovação literária das primeiras décadas do século 20 chegou vazada numa escrita um pouco mais convencional, que não incorporava plenamente alguns de seus aspectos mais inovadores.  Mas também é claro que, 70 anos depois da tradução de Quintana e 90 anos depois do lançamento do original (estou arredondando as décadas), uma tradução mais respeitosa da letra do texto, mais atenta àquilo que era inovador naqueles tempos não vai despertar no leitor contemporâneo — que hoje em dia tem quase um estômago de avestruz — a surpresa que poderia ter despertado no passado.
O que você destacaria como o principal desafio que encontrou para traduzir este livro?

Foi encontrar o tom. A linguagem em si é muito simples. A questão é a seguinte: existem “n” maneiras de dizer qualquer coisa; acontece que aquela coisa está dita daquela e não de outra maneira — e ninguém, em especial o tradutor, pode considerar que seja algo fortuito ou mecânico. Então este é o ponto de partida: as escolhas do autor. E são essas escolhas incessantes ao longo das páginas que você tem de entender: não digo só o que está dado no texto; digo as razões de fundo (literárias, estilísticas) para a escolha de tal e tal montagem, desta e não daquela palavra, daquela imagem, daquela ordem dos termos e frases, o que for. Esse entendimento leva algum tempo, pelo menos para mim: assim como o pessoal da filosofia fala em “tempo lógico” do texto, penso numa espécie de “tempo literário” do texto. Então, digamos, a certa altura você até consegue reconstituir mais ou menos o quadro da coisa, você já discerne os procedimentos e suas correlações internas. Ótimo. Mas ainda não sente, está ainda no nível analítico, abstrato. Você até consegue prever quais as escolhas que vão vir, ou, quando vêm, já parecem bastante naturais, você bate na cabeça e diz, “mas claro!”. E aí você tem de conseguir infundir essa percepção de uma estrutura, que transparece apenas obliquamente na superfície do texto, no que você vai escrever em português, isto é, na sua tradução. É isso o que chamo de “encontrar o tom”. E vários elementos de conteúdo, eu tinha de conseguir que cintilassem de leve, aqui e ali, discretamente, como pequenos presentinhos escondidos para o leitor, como Woolf faz, sem alardear: e de repente pode aflorar à leitura alguma preciosidade, e é quando o leitor tem aquela — para usar um termo batido — epifania. Várias coisas ganham nova perspectiva; coisas que pareciam avulsas ou desconectadas se reúnem; fica uma espécie de prisma multifacetado.
Existem peculiaridades de época, de vocabulário, de costumes muito marcadas no romance? Como você enfrentou essa transposição temporal e cultural?

Aqui também há algumas or­dens de consideração. A primeira, e mais simples, é o baile que levei em alguns termos, em particular na descrição do jardim logo no começo do livro: até chegar na valeriana para “cherry pie” foi uma novela, partindo, devo confessar, da mais literal torta de cerejas! Nisso várias pessoas encantadoras me auxiliaram muito, tanto no nível vocabular quanto ajudando a explorar sutilezas de estilo — pois eu tinha montado um blog de trabalho, “Traduzindo Mrs. Dalloway”, como uma espécie de oficina aberta aos interessados, onde ia discorrendo sobre meus processos mentais, minhas dúvidas, as várias soluções possíveis. Então tive a colaboração fantástica de diversas pessoas, a quem agradeço de coração. A experiência durou pouco, mas houve uma interação valiosa, muito estimulante.

Agora, quanto às peculiaridades do vocabulário inglês no início do século 20, na  verdade, não tem muito isso. Woolf usa um vocabulário simples, que não é muito datado, não cria neologismos (o único é irreticences), não inventa muita moda. Onde ela se esbalda é na exploração idiossincrática da sintaxe — por exemplo, seu uso desenfreado do “for” como início de frase e mesmo de parágrafo, contrariando os manuais de gramática. É muito interessante — e claro que deliberado, não pelo gosto pueril de uma pequena excentricidade, mas, ao que entendo, como de fato uma espécie de rastreamento e reprodução de nossos processos mentais: como quando tentamos nos justificar, explicando o motivo de algo que fizemos ou dissemos, tipo “foi porque...”. O “for” como abertura de frase já aparece e se repete desde as primeiras linhas e vai até a última linha do livro. Acaba funcionando como um marcador da racionalização constante.  Mas isso não é terminologia de época; isso é recurso estilístico.

No texto, o mais complicado para nós, acho eu, são as diferenças culturais, e que são irredutíveis: por exemplo, o momento em que Clarissa, num de seus surtos de perfídia classista, desanca a pobre Evelyn Whitbread, repisando a forma de tratamento “Honoura­ble” (título abaixo de “Lady”, tipo uma nobrezinha de segunda categoria) — é uma ferroada que você fica até com pena da pobre mulher, a qual, aliás, só está ali naquele trecho meio de inocente útil, mais como recurso retórico. O leitor brasileiro vai perceber o grau de esnobismo, a malevolência da alfinetada? Duvido. Mas são dados culturais, e não dá para ficar pondo nota para explicar essas coisas. O leitor atento notará, claro, pois tais ocorrências se dão em passagens muito determinadas, dentro de um contexto bastante claro, mas afora isso... Sem contar a infinidade de referências culturais mais tácitas: a autora/narradora não precisa explicar a seu leitor inglês de 1925 ao que Richard, o marido de Clarissa, se referia ao dizer que “Nenhum homem decente deixaria a esposa visitar a irmã de uma esposa falecida”. Oh, Jesus, o que significa isso, e por que precisamente isso é apresentado como exemplo contundente do convencionalismo de Richard? Para nós, que nunca tivemos uma proibição legal do amasiamento ou do casamento entre um viúvo e sua cunhada, irmã de sua falecida esposa, e não vivemos a candente luta parlamentar contra essa lei, que só foi revogada em 1907 (Woolf já era bem adulta), o trecho fica quase críptico, penso eu. Assim como este, são incontáveis os exemplos de referências cristalinas para o leitor inglês da época e obscuras para o leitor brasileiro do século 21.

Você também traduziu a coletânea de ensaios “Profissões Para Mu­lheres e Outros Escritos”, de Woolf. Como você vê o papel de Virginia Woolf como feminista?

Talvez eu siga meio na contracorrente das interpretações usuais, mas a impressão que tenho é que “Woolf feminista” foi uma criação posterior do feminismo nos anos 1960, meio como uma espécie de símbolo, uma precursora a mais para invocar. Não consigo me persuadir de que ela fosse uma “feminista”. Ela era basicamente uma elitista torturada, e a questão de conseguir se desprender da fixação sobretudo paterna foi o grande drama de sua vida. O que vejo é que ela encontrava nas iniciativas e nas figuras feministas da época uma espécie de aceitação e respaldo para coisas pessoais bastante sofridas, que não conseguia resolver. Seus textos ditos feministas são essencialmente textos de circunstância, artigos, palestras, resenhas curtas; seu feminismo é, digamos, de segundo grau. E a reivindicação de uma independência feminina, a exortação a “matar o Anjo do Lar”, a ter “um quarto todo seu”, me parece mais uma defesa um pouco neurastênica de seu direito de ser infeliz, digamos assim, do que propriamente uma questão programática. Pois o cerne do problema é essa ambiguidade do “Anjo do Lar”, o papel feminino da esposa devotada ao marido e aos filhos, o fantasma que Woolf diz que teve de matar para conseguir se aceitar, para conseguir sentir uma identidade própria — mas ao mesmo tempo esse Anjo do Lar tinha sido a fonte da única felicidade e sensação de segurança que ela conhecera: a mãe, morta prematuramente, perda da qual nunca se recuperou por completo e pela qual culpou o pai pelo resto da vida. Então, em “Profissões Para Mulheres” (1931), um discurso em tom condescendente e de linhas muito esquemáticas, Woolf conta como matou o Anjo do Lar. O drama mesmo da coisa ela já tentara processar em “To the Lighthouse”, de 1927, que não à toa definiu como uma elegia. Nessa obra, onde a mãe se encarna metaforicamente no farol que une, ilumina e dá sentido à vida de todos, Woolf finalmente entendera que a fonte de sua felicidade perdida era, precisamente, um “Anjo do Lar”. Terrível isso. Como fazer? Aceitar que, afinal, teve de matar a figura da mãe, a pessoa a quem mais amou? Culpar o pai, ela sempre tinha culpado. E agora? Reconhecer sua cumplicidade com o pai na morte do ser tão amado por ambos? Poucas obras da dita alta literatura são tão diretamente calcadas na biografia do seu autor... Esses núcleos propriamente existenciais, Woolf reserva para a literatura. E na face mais pública, de circunstância, sinceramente será mesmo esta a solução — matar o Anjo do Lar — que ela advoga? Bom, como quem diz — em seus textos e discursos ditos feministas é nítida a extrema simplificação, talhada para as classes trabalhadoras, como dizia ela, pouco sensíveis às sutilezas de um espírito refinado...                                                                                                                  

Finalizando, uma vinheta que considero maravilhosa é a seguinte: nos anos 1920 e mesmo 30, Woolf sentia arrepios com Freud, imagino que até por uma espécie de resistência e autodefesa, e apenas em 1939, poucos meses antes da morte dele, é que ela vai lhe fazer uma visita de cortesia. O pobre do Freud, velhinho, já quase nem falava mais, por causa das dores do câncer na laringe em estágio muito avançado. Ao final da visita, ele presenteou Woolf com uma flor de narciso. Claro que Freud não era moralista, e “narcisismo” não era xingamento. Me parece um gesto quase galante: em todo caso, um diagnóstico percuciente. Então é isso que quero dizer: ela nem tinha espaço, disponibilidade psíquica para ser feminista; estava envolvida demais consigo mesma, com seus dramas pessoais. Em suma, a meu ver, Woolf feminista é “uma invenção da tradição”, como diz Hobs­bawm. E, como uma tradição inventada, certamente tem sido útil para a construção a posteriori de uma história do feminismo. Mas ela, ela mesma, feminista, não creio.

8 de mai. de 2012

mrs. dalloway

matéria de diogo guedes sobre mrs. dalloway, do dia 06/05 no jornal do commercio. veja também aqui.




como se vê, traduções e opiniões sempre variam. deixo registrada minha opinião sobre a clássica tradução de mário quintana: como já disse outras vezes, considero-a muito meritória e, sob vários aspectos, notável.

19 de abr. de 2012

coisas boas

quantas novidades!



a tordesilhas lança contos de imaginação e mistério, de edgar allan poe, na tradução do competentíssimo cássio de arantes leite, numa bela edição ilustrada por harry clarke. são 22 contos (o site da editora, porém, não fornece o índice nem os nomes dos contos...) para engrossar a poeana brasileira. (agradeço o toque de nilton resende.) aqui, uma canja com "a máscara da morte vermelha".




a revista língua portuguesa vai lançar nestes dias seu número especial, dedicado à tradução, com várias matérias e entrevistas (inclusive um depoimento meu).


Título do Livro

está saindo pela cosac a segunda mrs. dalloway neste ano, esta em tradução do caro amigo claudio marcondes. depois de um jejum de quase setenta anos, desde a primeira (e até 2011 a única) tradução brasileira, a de mário quintana, temos agora em 2012 as traduções de tomaz tadeu pela autêntica, a do claudio pela cosac e a minha (que deve sair em breve) pela l&pm.
longa vida à dama woolf.




a revista cult, em seu último número saindo também por esses dias, vai trazer uma matéria sobre a nova tradução de dalloway (qual delas, ainda não sei - atualização em 21/4: o pessoal da revista me avisa lá no facebook que é a tradução de tomaz tadeu, pela autêntica).




o número 2 da revista zum, do IMS, aqui saindo da gráfica, com fotos e entrevistas maravilhosas (e algumas traduções feitas por esta que vos fala; posso adiantar que a legenda desta foto é: "Soldado do Exército Nacional Afegão protegendo o rosto com um saco plástico durante tempestade de areia no Posto Avançado de Combate 7171, na Província de Helmand, Afeganistão, 28 de outubro de 2010").


17 de abr. de 2012



The Common Reader

There is a sentence in Dr. Johnson’s Life of Gray which might well be written up in all those rooms, too humble to be called libraries, yet full of books, where the pursuit of reading is carried on by private people. “. . . I rejoice to concur with the common reader; for by the common sense of readers, uncorrupted by literary prejudices, after all the refinements of subtilty and the dogmatism of learning, must be finally decided all claim to poetical honours.” It defines their qualities; it dignifies their aims; it bestows upon a pursuit which devours a great deal of time, and is yet apt to leave behind it nothing very substantial, the sanction of the great man’s approval.
The common reader, as Dr. Johnson implies, differs from the critic and the scholar. He is worse educated, and nature has not gifted him so generously. He reads for his own pleasure rather than to impart knowledge or correct the opinions of others. Above all, he is guided by an instinct to create for himself, out of whatever odds and ends he can come by, some kind of whole — a portrait of a man, a sketch of an age, a theory of the art of writing. He never ceases, as he reads, to run up some rickety and ramshackle fabric which shall give him the temporary satisfaction of looking sufficiently like the real object to allow of affection, laughter, and argument. Hasty, inaccurate, and superficial, snatching now this poem, now that scrap of old furniture, without caring where he finds it or of what nature it may be so long as it serves his purpose and rounds his structure, his deficiencies as a critic are too obvious to be pointed out; but if he has, as Dr. Johnson maintained, some say in the final distribution of poetical honours, then, perhaps, it may be worth while to write down a few of the ideas and opinions which, insignificant in themselves, yet contribute to so mighty a result.

16 de mar. de 2012

uma introdução a mrs. dalloway




Virginia Woolf nunca escrevia sobre sua própria obra. Exceção: o brevíssimo introito à primeira edição americana de Mrs. Dalloway, de 1928, pela Random House, em sua coleção Modern Library of the World's Best Books. Por uma ou outra razão, o texto não consta das edições posteriores da Random.

Ei-la:
Uma introdução a Mrs. Dalloway 
       É difícil - talvez impossível - a um escritor dizer qualquer coisa sobre sua obra. Tudo o que ele tem a dizer, já disse da maneira mais completa, da melhor maneira que lhe é possível, no corpo do próprio livro. Se não conseguiu deixar claro o que pretendia dizer, é pouco provável que consiga num prefácio ou num posfácio de algumas páginas. E a mente do autor tem outra característica que também é avessa a introduções. É inóspita para sua cria como uma pardoca com seus filhotes. Depois que as avezinhas aprendem a voar, têm de voar; quando saem do ninho, a mãe começa talvez a pensar em outra prole. Da mesma forma, depois de impresso e publicado, um livro deixa de ser propriedade do autor; este o confia ao cuidado dos outros; toda a sua atenção é demandada por algum novo livro, que não só expulsa o predecessor do ninho, como também costuma denegrir sutilmente o caráter do outro em comparação ao próprio.
       É verdade que o autor, se quiser, pode nos contar alguma coisa de si e de sua vida que não está no romance; e é algo que devemos incentivar. Pois não existe nada mais fascinante do que se enxergar a verdade por trás daquelas imensas fachadas de ficção - isso se a vida for de fato verdadeira e se a ficção for de fato fictícia. E provavelmente a ligação entre ambas é de extrema complexidade. Livros são flores ou frutas que pendem aqui e ali numa árvore com raízes profundas na terra de nossos primeiros anos, de nossas primeiras experiências. Mas, aqui também, para contar ao leitor alguma coisa que sua imaginação e percepção ainda não descobriu, seria necessário não um prefácio de uma ou duas páginas, e sim uma autobiografia em um ou dois volumes. Devagar, com cuidado, o autor se lançaria ao trabalho, desenterrando, desnudando, e, mesmo depois de trazer tudo à superfície, ainda caberia ao leitor decidir o que importaria e o que não importaria. Assim, quanto a Mrs. Dalloway, a única coisa possível no momento é trazer à luz alguns pequenos fragmentos, de pouca ou talvez nenhuma importância: por exemplo, que Septimus, que depois se torna o duplo dela, não existia na primeira versão; e que Mrs. Dalloway, originalmente, ia se matar ou talvez apenas morresse no final da festa. Esses fragmentos são humildemente oferecidos ao leitor, na esperança de que, como outras miudezas, possam ser úteis.
       Mas, se temos demasiado respeito pelo leitor puro e simples para lhe apontar o que deixou passar ou lhe sugerir o que deve procurar, podemos falar de modo mais explícito ao leitor que despiu sua inocência e se tornou crítico. Pois, ainda que se deva aceitar em silêncio a crítica, seja positiva ou negativa, como o legítimo comentário a que convida o ato da publicação, de vez em quando aparece alguma afirmação que não se refere aos méritos ou deméritos do livro e que o escritor sabe que é equivocada. É uma afirmação dessas que se tem feito sobre Mrs. Dalloway com frequência suficiente para merecer talvez uma objeção. Disseram que o livro era fruto deliberado de um método. Disseram que a autora, insatisfeita com a forma da ficção em voga na época, decidira pedir, tomar emprestado, roubar ou mesmo criar outra forma própria. Mas, até onde é possível ser honesto sobre o misterioso processo mental, os fatos são outros. Insatisfeita, a escritora podia estar; mas sua insatisfação se dirigia basicamente à natureza, por fornecer uma ideia sem lhe prover uma casa onde pudesse morar. Os romancistas da geração anterior não ajudaram muito - aliás, por que haveriam de ajudar? Evidentemente, a morada era o romance, mas ele parecia construído sobre o projeto errado. A essa ressalva, a ideia começou, como começa a ostra ou o caracol, a secretar uma casa própria. E assim procedeu sem nenhum rumo consciente. O caderninho que abrigava uma tentativa de montar um projeto logo foi abandonado e o livro cresceu dia a dia, semana a semana, sem projeto nenhum, exceto o que era determinado a cada manhã na atividade de escrever. Desnecessário dizer que a outra maneira - construir uma casa e depois morar nela, desenvolver uma teoria e então aplicá-la, como fizeram Wordsworth e Coleridge - é igualmente boa e muito mais filosófica. Mas, no presente caso, foi necessário antes escrever o livro e depois inventar uma teoria.
       Se, porém, assinalo este ponto específico dos métodos do livro para discussão, é pela razão citada: porque se tornou tema de comentário entre os críticos, e não porque mereça atenção em si. Pelo contrário, quanto mais bem sucedido o método, menos atenção ele atrai. O que se espera é que o leitor não dedique nenhum pensamento ao método ou à falta de método do livro. O que lhe diz respeito é apenas o efeito do livro como um todo em sua mente. Desta questão, a mais importante de todas, ele é um juiz muito melhor do que o escritor. Na verdade, tendo tempo e liberdade para moldar sua própria opinião, ao fim e ao cabo ele é um juiz infalível. É a ele, então, que a escritora entrega Mrs. Dalloway e sai do tribunal confiante de que o veredito, seja a morte imediata ou alguns anos mais de vida e liberdade, em qualquer dos casos será justo.
   LONDRES,

JUNHO DE 1928

Sigo aqui The Mrs. Dalloway Reader, organizado por Francine Prose, pela Harcourt, 2004, pp. 10-13.  A tradução foi publicada em 6 de março de 2012 em Traduzindo Mrs. Dalloway, aqui.

25 de fev. de 2012

mrs. dalloway



hoje, o prosa&verso do jornal o globo publicou uma ótima matéria sobre as novas traduções de mrs. dalloway. a íntegra da minha resposta à jornalista foi a seguinte:


A primeira e única versão de Mrs. Dalloway é de 1946 e foi traduzida por Mário Quintana. Qual a importância de Mrs. Dalloway ganhar uma nova tradução?

            Há vários aspectos. O primeiro, e mais genérico, é que toda tradução autoral tem a marca pessoal do tradutor. O segundo, diretamente relacionado a esse primeiro aspecto, é que cada tradução vem muito marcada por sua época: toda tradução é, por definição, mais datada do que a obra original. Assim, é não só natural, mas desejável que periodicamente se renovem as traduções das principais obras do chamado cânone literário ocidental. Em terceiro lugar, e mais especificamente, há uma questão peculiar nessa tradução do Quintana: considero-a muito boa, e até admirável sob diversos ângulos. Há nela, porém, uma leve tendência de arredondar um pouco o texto. A modernidade de Woolf - as invenções estilísticas no plano da escrita e mesmo alguns recursos narrativos utilizados no texto – às vezes parece um pouco atenuada: penso na função muito peculiar da pontuação, na incansável repetição de termos que funcionam como marcadores não só do texto, como também do fluxo mental dos personagens, na estruturação sintática, no uso de uma linguagem muito, muito simples, mas ao mesmo tempo com uma grande elaboração das frases.
            Veja um exemplo que acho bonitinho – há lá a certa altura, falando de Septimus, quando se mudou para Londres: “... there were experiences, again experiences, such as change a face in two years from a pink innocent oval to a face lean, contracted, hostile.” Você nota nos dois blocos de adjetivos como o uso das vírgulas é quase icônico, figurativo? Em pink innocent oval, os adjetivos correm, fluem como se quisessem mostrar como era liso, sem marcas, o rosto do jovem; então vem lean, contracted, hostile (que contraste, como pisa duro!), como se as vírgulas mimetizassem as marcas da experiência. Ninguém há de crer que isso seja por acaso; é de uma grande deliberação, e esse uso da pontuação como uma espécie de encenação visual e emocional desempenha uma função muito interessante em todo o texto, que entendo que deva ser mantida na tradução.
            Ela levou três anos para escrever Mrs. Dalloway: um polimento constante, um esforço incessante em reproduzir no plano da linguagem o discurso mental e mesmo o tropel emocional que avassala os personagens. Não foi fácil. Então, digamos, a tradução do Quintana - que, repito, acho muito boa - se depara com esse "modernismo" dela e, em alguns momentos, prefere contorná-lo. A tradução resultante causa menos estranheza ao leitor – ainda mais pensando no leitor médio dos anos 40. Mas isso significa que, para nós, uma obra que fazia parte da grande onda de renovação literária das primeiras décadas do século XX chegou vazada numa escrita um pouco mais convencional, que não incorporava plenamente alguns de seus aspectos mais inovadores.  Mas também é claro que, setenta anos depois da tradução de Quintana e noventa anos depois do lançamento do original (estou arredondando as décadas), uma tradução mais respeitosa da letra do texto, mais atenta àquilo que era inovador naqueles tempos não vai despertar no leitor contemporâneo – que hoje em dia tem quase um estômago de avestruz – a surpresa que poderia ter despertado no passado. 

a matéria está aqui.


30 de ago. de 2011

mais um blog

depois de mrs. dalloway, resolvi encarar to the lighthouse, com um novo blog, aqui, onde apresento "meu passeio" ao farol. os posts publicados até agora são:

26 de ago. de 2011

mrs. dalloway: no prelo

tendo terminado hoje a tradução de mrs. dalloway, deixo meu agradecimento a todos os que acompanharam, sugeriram, opinaram, contribuíram. agora, editoria.


12 de ago. de 2011

as flores de mrs. dalloway


"mrs. dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores."

retomo a tradução de mrs. dalloway, de virginia woolf, com comentários, dúvidas e exemplos no blog Traduzindo Mrs. Dalloway, aqui.

imagem: hinoshige, aqui.
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