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7 de set. de 2017

artigo sobre crime e castigo

americana, 1930 - capa de di cavalcanti


neste último número dos cadernos de tradução da ufsc, saiu meu artigo sobre as bizarras circunvoluções em que, durante mais de oitenta anos, esteve metido o pobre do "crime e castigo" de dostoiévski no brasil. disponível aqui.


14 de jun. de 2017

cinco autores e suas respectivas estreias em livro no brasil


shakespeare, 1882 ou 1933? 

o caso de shakespeare envolve uma certa polêmica.

entre os estudiosos da shakespeariana brasileira, celuta gomes sustenta a primazia de josé antônio de freitas, maranhense "que se integrou nas letras portuguesas", com sua tradução de otelo, publicada em lisboa em 1882.

márcia peixoto martins, por seu lado, sustenta que o simples dado da nacionalidade não garante a inserção de um autor ou tradutor no sistema literário de seu país de origem: "por tradução brasileira entenda-se feita em português do brasil, levando-se em conta os aspectos sintáticos, lexicais e de registro, entre outros, e observando uma poética literária compatível com 'modos de escrever' adotados por nossos autores". neste sentido, a primeira tradução brasileira de shakespeare seria tragédia de hamleto, príncipe da dinamarca, feita por tristão da cunha e publicada pela editora schmidt em 1933. vide aqui.


goethe, 1877 (excerto), 1884 (íntegra)

vem do rio grande do sul a primeira tradução brasileira publicada em livro entre nós, um excerto de fausto. trata-se de fausto e margarida, poema dramático em XII quadros da tragédia de goethe, por múcio teixeira. porto alegre, 1877[8]. vem apresentada como "uma imitação de goethe", como diz seu autor, ou uma tradução em paráfrase, como dizem alguns comentadores. teve grande sucesso e várias reedições no prazo de poucos anos.

também em porto alegre temos a primeira publicação de uma obra integral de goethe, o poema hermann e dorothea, porém vazado em prosa. a tradução foi feita por carolina von koseritz, e saiu publicada em 1884 pela typographia de gundlach, de porto alegre.

encontro menções a uma tradução de werther que teria sido feita por eduardo laemmert (1808-1880; portanto, provavelmente teria sido anterior às traduções acima citadas), com o título de amorosas paixões do jovem werther. todavia, essas menções parecem derivar, todas elas, de uma vaga afirmação de laurence hallewell, que a apresenta explicitamente como mera hipótese em seu o livro no brasil, e não encontrei nenhuma notícia concreta da existência efetiva e eventual publicação dessa tradução. assim, como marcos introdutórios, fiquemos com as duas traduções de existência comprovada, a de múcio teixeira e a de carolina von koseritz.. ATUALIZAÇÃO: de fato, as amorosas paixões do jovem werther foi publicada em 1842 pela typographia universal dos irmãos laemmert, no rio de janeiro, em dois volumes in-8, sem créditos de tradução.


dostoiévski, 1896

também do rio grande do sul vem o primeiro volume de dostoiévski traduzido no brasil. foi o jogador, em tradução de alcides cruz, publicado pela livraria americana de pelotas, de costa pinto, em sua coleção "nova bibliotheca economica".

o livro saiu, calculo eu, por volta de 1895-6: avento essa data porque foi em 1896 que o almanak litterario e estatistico do rio grande sul publicou o anúncio de página inteira da livraria americana, com o jogador entre os três títulos já publicados em sua referida coleção. 



aliás, uma notícia interessante nos é dada por juremir machado, narrando os primórdios do jornal gaúcho correio do povo, no final do século XIX: "fez uma promoção de assinaturas. quem assinasse por ano, escolhia um livro numa lista de dez best-sellers, entre os quais o jogador de dostoievski". vide aqui.


freud, 1931

ao que tudo indica, a primeira tradução de freud saiu entre nós em 1931: tratava-se de cinco lições de psicanálise.

na verdade, houve uma tentativa anterior: o médico iago pimentel, com planos de traduzir a obra, chegou a publicar em 1926 um excerto de algumas páginas em a revista, uma efêmera publicação literária de carlos drummond, pedro nava e outros. com o encerramento da revista, porém, iago pimentel parece ter interrompido a tradução, e desde então não houve mais notícias de seu projeto.

assim, a tradução integral das cinco lições de psicanálise veio a sair apenas em 1931, pela cia. editora nacional, em sua coleção "biblioteca pedagogica brasileira". feita diretamente do alemão, a tradução foi realizada a quatro mãos: por josé barbosa corrêa e durval marcondes, este tido como o pioneiro da psicanálise no brasil. para mais efemérides freudianas entre nós, vide aqui.



baudelaire, 1872 (excerto), 1937 (íntegra)

o caso de baudelaire é interessante.

desde 1872, quando sai no brasil seu primeiro poema em livro - este também uma paráfrase, feita por carlos ferreira "sob inspiração de baudelaire" -, temos esporádicas publicações de poemas dispersos em coletâneas várias. essa situação perdura até 1937, 65 anos durante os quais se publicam, ao todo, meros dezesseis poemas avulsos, por diversos tradutores.

em 1937, finalmente surge a primeira publicação integral, em volume autônomo, pela athena editora: pequenos poemas em prosa, em tradução de um enigmático "paulo m. de oliveira". tratava-se de um pseudônimo utilizado por aristides lobo durante os períodos em que esteve preso durante a ditadura varguista e realizou diversas traduções. sobre baudelaire no brasil, vide aqui; sobre "paulo m. de oliveira", vide aqui.



25 de jul. de 2016

dostoiévski no brasil, 1900-1950


Dostoiévski, Fiódor M. (Fédor, Fiodor, Theodore, Teodoro, Dostoevsky, Dostoiewsky, Dostoyevski)




“A árvore de Cristo”. In: Livro de Natal – As mais lindas histórias de Natal dos maiores escritores do mundo. Tradução anônima. Seleção de Araújo Nabuco. São Paulo: Martins, 1947.
Ilustração de Zamboni.


“A mulher do outro – aventura extraordinária”. In: Três novelas russas
Tradução de Lúcio Cardoso. Rio de Janeiro: A Noite, 1947.


A órfã. Tradução de Adolfo Bezerra de Menezes Neto. Rio de Janeiro: Edições do Povo, 1947.



“Bobok (Recordações de alguém)”. In: Os colossos do conto da velha e da nova Rússia
Rio de Janeiro: Mundo Latino, 1944.



Crime e castigo, seguido do Diário de Raskolnikov. Tradução de Rosário Fusco. 
Coleção Fogos Cruzados. Rio de Janeiro: José Olympio, 1949.



Diário de um escritor. Tradução de Frederico dos Reys Coutinho. Rio de Janeiro: Vecchi, 1943.



“Ela era doce e humilde”. In: Os russos: antigos e modernos. Tradução de Valdemar Cavalcanti. Coleção Contos do Mundo. Rio de Janeiro: Leitura, 1944.



Ensaio sobre o burguez. Tradução de Elias Davidovich.
Rio de Janeiro: Collecção Minha Livraria, 1932.



Humilhados e ofendidos. Tradução de Rachel de Queiroz. Rio de Janeiro: José Olympio, 1944.


Netotchka. Tradução de Costa Neves. Rio de Janeiro: Brasil, 1937. 
Reed. como Nietotchka Niezvanova. Rio de Janeiro: José Olympio, 1947.



O embusteiro. Tradução de Carlos M. A. Bittencourt. São Paulo: Assunção, 1945.



O espírito subterrâneo. Tradução de Rosário Fusco. Rio de Janeiro: Panamericana [EPASA], c.1944.




O eterno marido. Tradução de Violeta Alcântara Carreira. São Paulo: Cultura Brasileira, 1935. 
Reed. São Paulo: Martins, 1944.



O eterno marido. Tradução de Costa Neves. Coleção Obras Completas de Dostoievski. 
Rio de Janeiro: José Olympio, 1944. 



O idiota. Tradução de José Geraldo Vieira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1949.



O jogador. Tradução de Otto Schneider. Rio de Janeiro: Panamericana, 1943.



O príncipe idiota. Tradução de Dermeval Café e Oswaldo Castro. 
Rio de Janeiro: Waissman, Reis & Cia., 1931.


“O sonho de um homem ridículo”. In: Contos russos. Tradução anônima.
Edições Colête, vol. 7.  São Paulo: A Bolsa do Livro, 1944.



“O sonho de um homem ridículo (Conto fantástico)”. In: Os mais belos contos russos dos mais famosos autores. 2ª. série. Tradução de Frederico dos Reys Coutinho. Rio de Janeiro: Vecchi, 1945.


O sonho do tio. Tradução anônima. Edições Colête. São Paulo: A Bolsa do Livro, 1945.



O sósia. Tradução de Corália Rego Lins. Rio de Janeiro: Vecchi, 1943.



O tyrano. Tradução de Elias Davidovich. Rio de Janeiro: Calvino, 1933.



Os irmãos Karamazoff. Tradução de Raul Rizinsky (pseud. de Leôncio Basbaum). 
Collecção de Obras Celebres. Rio de Janeiro: Americana, 1931.



Os irmãos Karamazov. Tradução de Paulo Mendes de Almeida.
Coleção Excelsior. São Paulo: Martins, 1944.



Os irmãos Karamazov. Tradução de Boris Solomonov (pseud. de Boris Schnaiderman). 
Coleção As Obras Eternas. Rio de Janeiro: Vecchi, 1944.



Os pobres diabos. Tradução de Elias Davidovich. Rio de Janeiro: Flores e Mano, 1932.



Os possessos. Tradução de Augusto Rodrigues. Rio de Janeiro: Panamericana [EPASA], 1943.


Recordação da casa dos mortos. Tradução de Fernão Neves (pseud. de Fernando Nery). 
Rio de Janeiro: Castilho, 1917.



Recordações da casa dos mortos. Tradução de Antônio de Oliveira Garcia. 
Coleção Excelsior. São Paulo: Martins, 1942.



Recordações da casa dos mortos. Tradução de Rachel de Queiroz. 
Rio de Janeiro: José Olympio, 1945.



Recordações da casa dos mortos. Tradução de José Geraldo Vieira. 
Coleção Saraiva, vol. 7. São Paulo: Saraiva, 1948.


Stepantchikovo. Tradução de D. Martins de Oliveira. Rio de Janeiro: Século XX, 1942.



Um jogador (das notas de um rapaz) – Igrok. Tradução anônima. [Georges Selzoff e Allyrio Meira Wanderley]. Bibliotheca de Auctores Russos. São Paulo: Cultura, 1931.



Um jogador (notas de um jovem). Tradução de Costa Neves. Rio de Janeiro: José Olympio, 1944.


“Um ladrão honrado”. In: Os mais belos contos russos dos mais famosos autores. 
Tradução de Manuel R. da Silva. Rio de Janeiro: Vecchi, 1944.


Existem vários outros registros de obras de Dosotiévski, inclusive em meu levantamento publicado aqui. Hoje, porém, eu não os incluiria mais numa dostoievskiana brasileira, por se tratarem comprovadamente ou, em alguns casos, muito provavelmente de traduções lusitanas. São eles:


  • Alma de creança. Tradução de Henrique Marques Junior. Collecção Chic. Rio de Janeiro: Azevedo & Costa, 1915 – Trata-se de uma trdução lusitana publicada em Lisboa em 1914, pela Guimarães. 
  • Alma de creança. Tradução anônima. Rio de Janeiro: Universal, 1932.
  • Alma de creança. Tradução anônima. Collecções Econômicas SIP, vol. 42. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936.
  • Alma de criança. Tradução de Henrique Marques Junior. Vide acima. São Paulo: Brasileira, 1936. 

  • Crime e castigo numa suposta tradução de Fernão Neves que teria saído pela Livraria Castilho por volta de 1920. Não existe. Trata-se de uma confusão ou lapso de memória de Brito Broca, em seu prefácio à tradução de Rosário Fusco (1949).
  • Crime e castigo. "Traducção integral do original russo de Ivan Petrovitch". Collecção de Obras Celebres.  Rio de Janeiro: Americana, 1930. Mentira. Trata-se de cópia da tradução portuguesa de Câmara Lima, 1901. Mas fique registrada a célebre capa de Di Cavalcanti para essa edição:

  • Crime e castigo. Tradução anônima, revista por Elias Davidovich. Rio de Janeiro: Guanabara, 1936. Trata-se da tradução portuguesa de Câmara Lima, 1901.
  • Crime e castigo. Tradução de J. Jobinsky, revista por Aurélio Pinheiro. Rio de Janeiro: Pongetti, 1936. Mentira. Trata-se de cópia da tradução portuguesa de Câmara Lima, 1901.
  • Crime e castigo.Tradução de J. Jobinsky revista por Marques Rebelo. Rio de Janeiro: Pongetti, 1941. Mentira. Trata-se de cópia da tradução portuguesa de Câmara Lima, 1901. 
  • Crime e castigo. Tradução anônima, revista por Marques Rebelo. Rio de Janeiro: Pongetti, 1943. Trata-se da tradução portuguesa de Câmara Lima, 1901.
  • Crime e castigo. Tradução anônima. Série O Livro de Bolso. São Paulo: O Livro de Bolso, 1941. Trata-se da tradução portuguesa de Câmara Lima, 1901.
  • Crime e castigo. Tradução anônima. [“Tradução da Editora”]. São Paulo: Cruzeiro do Sul, 1943. Trata-se da tradução portuguesa de Câmara Lima, 1901.

  • Humilhados e offendidos. Tradução revista por Bandeira Duarte. Rio de Janeiro: Marisa, 1931. Muito provavelmente trata-se de tradução portuguesa, como outras traduções revistas por Bandeira Duarte.
  • Humilhados e ofendidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1935. Segue a de Bandeira Duarte.

  • Noites brancas, Está morta, O grande inquisidor. Tradução anônima. São Paulo: Clube do Livro, 1948. Todas as traduções anônimas do Clube do Livro eram portuguesas ou apropriações de outras traduções nacionais.
  • O eterno marido. Tradução anônima. São Paulo: Clube do Livro, 1946. Vide acima.
  • O jogador. Tradução anônima. São Paulo: Clube do Livro, 1945. Vide acima.

  • Recordações da casa dos mortos. Tradução anônima. Bibliotheca de Romances Celebres. São Paulo: Moderna Paulistana, s/d (c. 1932-33).
  • Recordações da casa dos mortos. Tradução anônima. Coleção SIP. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936.
  • Recordações da casa dos mortos. Tradução revista por Joaquim Moura de Menezes. São Paulo: Cia. Brasil, c.1945.

Ver Bibliografia russa traduzida no Brasil (1900-1950), aqui.

24 de jul. de 2016

dostoiévski, diário de um escritor


vecchi, 1943. tradução de frederico dos reys coutinho.


23 de jul. de 2016

o dostoiévski de natália nunes

um equívoco por muito tempo perpetuado entre nós é o de que a tradutora portuguesa natália nunes, incumbida da tradução das obras completas de dostoiévski para a editora josé aguilar, teria trabalhado por interposição do inglês. esse equívoco, eu mesma o reproduzi aqui algumas vezes, baseando-me em informações não verificadas.

hoje constatei que natália nunes se baseou na tradução de rafael cansinos assens, publicada em 1961 pela aguilar espanhola (de propriedade dos irmãos de josé aguilar, proprietário da aguilar brasileira).

fique registrada a retificação.

15 de jul. de 2016

confusões de brito broca



é difícil bater de frente contra afirmações não verificadas que, com o tempo, acabam se tornando referências consagradas. só que, de vez em quando, é algo que se torna inevitável.

então aqui vou eu contra brito broca.

pode um de nossos grandes críticos literários ter afirmado o que bem quis (ou o que lhe sugeriu a memória talvez empanada pelo decurso das décadas) em seu famoso prefácio à edição de crime e castigo pela josé olympio, lançada em 1949 em tradução de rosário fusco:
A primeira tradução portuguesa do Crime e Castigo apareceu no Brasil por volta de 1920, assinada por Fernão Neves, em estilo meio precioso editada pela Livraria Castilho. Tudo nos leva a supor que o tradutor se tivesse valido de uma das versões francesas, que, segundo o conselho do próprio Vogüé, procuravam adaptar Dostoievski ao gosto do público gaulês. Em todo caso esse já foi um esforço louvável para vulgarizar o grande romancista entre nós.
sim, de fato fernão neves – pseudônimo que, curiosamente, brito broca não elucida para o leitor ser de fernando nery – havia feito “um esforço louvável para vulgarizar o grande romancista entre nós”. e sim, realmente ele se valeu de "uma das versões francesas". e sim, a obra foi mesmo "editada pela livraria castilho". e sim, isso se deu “por volta de 1920”. e sim, com efeito, fernão neves se entregava a um "estilo meio precioso”, até virulentamente criticado por seus resenhistas na época.

só que tudo isso se passou não com crime e castigo, mas com recordações da casa dos mortos, em sua primeira tradução brasileira, publicada em 1917.


resumindo: a afirmação de brito broca não procede. jamais surgiu em momento algum, antes ou depois de c.1920, qualquer tradução de fernão neves para crime e castigo, nem pela castilho nem por qualquer editora.


25 de jun. de 2016

primeiro dostoiévski em livro no brasil

até onde consegui apurar, o primeiro dostoiévski a ser lançado em livro no brasil foi o jogador, em tradução de alcides cruz. saiu pela livraria americana em sua "nova bibliotheca economica", em - calculo - 1896.

digo 1896 porque foi neste ano que o almanak litterario e estatistico do rio grande sul publicou o anúncio de página inteira da livraria americana, com o jogador entre os três títulos já publicados em sua biblioteca econômica. veja aqui e imagem abaixo.




uma notícia interessante nos é dada por juremir machado, que conta sobre o jornal correio do povo em seus primórdios, no final do século XIX: "Fez uma promoção de assinaturas. Quem assinasse por ano, escolhia um livro numa lista de dez best-sellers, entre os quais O Jogador de Dostoievski". veja aqui.

quantos crimes não desvendados!

a chegada de crime e castigo de dostoiévski ao brasil é um mistério.

brito broca, em sua introdução a crime e castigo na famosa tradução de rosário fusco (1949), cita lá que a primeira tradução da obra havia saído pela livraria castilho no começo dos anos 1920. a tradução, diz broca, era de fernão neves (pseudônimo de fernando nery, o mesmo que traduzira recordações da casa dos mortos, lançado em 1917 pela mesma castilho).

acontece que essa afirmação de brito broca é a única, unicíssima referência a tal tradução que encontrei em todos esses anos. estou quase desanimando e começando a achar que broca, passadas quase três décadas, foi é traído por sua memória.

aí, em 1930 sai crime e castigo - esse sai mesmo, comprovadamente - pela editora americana com tradução em nome de um improvável "ivan petrovitch", com projeto gráfico da capa feito por di cavalcanti.



bom, a americana é aquela mesma que publicou um irmãos karamazov em tradução de outro igualmente improvável "raul rizinsky", que veio a se revelar depois como pseudônimo que a editora impingiu ao tradutor, ninguém menos que leôncio basbaum. veja aqui.

em vista disso, não me parece absurdo supor que aquele tal "ivan petrovitch" fosse também mera invenção da casa para dar uma aura russificada à tradução. agora, quem seria, não faço ideia (imagino que não basbaum, porque sua primeira tradução para a americana - o irmãos de "rizinsky" - saiu em 1931, enquanto o crime de "petrovitch" sai em 1930).

anúncio em o correio da manhã, 29/10/1930

bom, que seja. pelo menos é fato comprovado que em 1930 sai essa tradução de crime e castigo, que não sabemos quem fez, pois é difícil acreditar nesse "ivan petrovitch".

ainda em 1931, a americana encerra a parte de literatura e seu catálogo literário é adquirido pela waissman, reis & cia., a qual por sua vez, a partir de 1934, passa a responder pelo nome de guanabara (ou guanabara koogan). com a aquisição do catálogo, ela passa a relançar títulos anteriores da americana, que agora são seus. crime e castigo sai em 1936, sem "petrovitch" nenhum e constando apenas "tradução revista por elias davidovich".

aí, também em 1936, a pongetti lança um crime e castigo com tradução em nome de um "j. jobinsky", revista por aurélio pinheiro. isso é meio esquisito. a pongetti e a guanabara tinham uma rivalidade meio bizarra, em que a pongetti vivia correndo atrás de publicar as mesmas coisas que a guanabara e inclusive garfando várias traduções dela, e esse seu lançamento me parece muita coincidência. bom, em 38 ou 39 aurélio pinheiro morre; em 1939, a pongetti lança uma segunda edição desse crime e castigo de jobinsky/pinheiro.

aí, em 1943 a mesma pongetti lança mais uma edição, mas agora - e com destaque na capa - como "tradução revista por marques rebelo". some qualquer referência a um tradutor qualquer que seja, inventado ou não, e a obra tem lá suas reedições durante uns bons anos, "revista por marques rebelo".

então, em 1960 sai mais uma edição da mesma pongetti, agora como "tradução revista por luiz cláudio de castro".

depois a pongetti fecha, seu catálogo vai para a ediouro, que relança crime e castigo nessa dita tradução revista e com um dito cotejo com o original russo de luiz cláudio de castro, e lá a obra permanece até hoje.

mas, quando a coleção biblioteca da folha publica uma edição dessa obra, em 1998, luiz cláudio de castro passa a constar na capa como se fosse o autor da tradução.

e assim ficamos sem saber, nessa sucessão de nomes arrussados e traduções revistas, quem terá sido de fato o tradutor "ivan petrovitch" que lançou aquela que me sinto propensa a considerar - em que pese a afirmação de brito broca - a primeira tradução de crime e castigo no brasil.

atualização: ah, santa ingenuidade! que tradução de "jobinsky" que nada! cópia pura e simples da tradução lusitana de câmara lima, de 1901.

veja aqui.

8 de ago. de 2015

da americana à martin claret, passando pela pongetti e pelas edições de ouro

mais uma breve comparação entre "ivan petrovitch"/"irina wisnik" e "luiz cláudio de castro":

Compreendia agora que passara o tempo de sofrer passivamente, e das lamentações que nada resolvem; agora cumpria fazer fosse o que fosse, o mais depressa possível. Era necessário tomar desde já uma resolução qualquer ou...
“Ou renunciar à vida!”, exclamou ele subitamente, “aceitar, de uma vez por todas, o destino como ele é, sufocar todas as aspirações, abdicar definitivamente ao direito de ser livre, de viver, de amar!" 
Compreendia agora que passara o tempo das lamentações que nada remediam e que, em vez de increpar a sua imprudência, cumpria-lhe fazer qualquer coisa o mais depressa possível. Era necessário tomar desde já uma resolução qualquer ou...
“Ou renunciar à vida!”, exclamou subitamente, “aceitar, duma vez para sempre, o destino como ele é, abafar todas as aspirações, abdicar definitivamente ao direito de ser livre, de viver, de amar!"

resumindo minha hipótese: em 1930, saiu pela ed. americana uma tradução de crime e castigo em nome de um improbabilíssimo "ivan petrovitch", que já em 1931 some do horizonte. em 1936, a pongetti lança algo que supostamente seria uma nova tradução, em nome de jorge jobinski. "ivan petrovitch" ressurge em 2002 pela editora claret, com uma tal "irina wisnik". minha hipótese é que a tradução de 1930 pela americana foi republicada em 1936 pela pongetti sob outro nome e que ela tem circulado faz mais de oitenta anos entre várias editoras, com um monte de gente mexendo no texto (desde aurélio pinheiro e marques rebelo até luiz cláudio de castro, que acabou sendo erigido em 1998 como seu tradutor).

ver também aqui

25 de mai. de 2014

dostoiévski e seu misterioso tradutor "raul rizinsky": uma hipótese

há um artigo muito interessante de dennys silva-reis sobre  "O romance hugoano L'homme qui rit: estudo crítico, tradução e retradução para o português brasileiro", disponível aqui.

chamou-me a atenção um trecho, transcrito no artigo, das memórias de leôncio basbaum:


já aqui eu comentava: "diga-se de passagem que aquele 'raul rizinsky' d'os irmãos karamazoff, pela americana, edição de bolso em papel jornal que saiu em 1931, parece irmão gêmeo do 'ivan petrovitch' da mesma americana, em 1930!" o trecho acima parece indicar que, de fato, aquele implausibilíssimo "raul rizinsky" seria um pseudônimo usado por ele, em sua primeira tradução para a editora americana.




visto que não se encontra nenhuma notícia de alguma edição de os irmãos karamazov publicada diretamente pela guanabara, sinto-me fortemente tentada a crer que a discrepância na referência ao nome da editora (americana, e não guanabara) se deve ao fato de que o catálogo literário da editora americana passou, em 1931, para a waissman, reis & cia., a qual por sua vez, a partir de 1934, passa a responder pelo nome de guanabara (e também guanabara koogan). essa hipótese é reforçada também pelo fato de que elias davidovich, o amigo e companheiro citado por leôncio basbaum, desde 1930 fazia traduções para a americana, bem como para a posterior guanabara. em resumo, suponho que leôncio basbaum, em suas memórias, referiu-se à americana pelo nome que, entre uma e outra fusão editorial, ela veio a adotar poucos anos depois e que mantém até a data de hoje.

devo a imagem da página de rosto à gentileza de alex quintas de souza.

26 de out. de 2012

o jogador de dostoiévski, uma elucidação

graças a mais uma contribuição de alex quintas de souza, a quem agradeço, foram solucionados dois mistérios de uma tacada só.

no levantamento das traduções de dostoiévski no brasil, fiz um post específico sobre o/um jogador, aqui, e mencionei duas edições que me deram um baile:
V. esta é um mistério. mas está lá em nosso acervo na biblioteca nacional:

Autor:Dostoievskii, Fedor Mikhailovich, 1821-1881.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:O jogador.
Imprenta:Rio, Ed. G. Carneiro [1953]. 
Descrição física:132 p.
Notas:Registro Pré-MARC


e
XIII. esta aqui é outro mistério. consegui apenas a imagem de capa; não localizei editora, ano, tradutor, nada. parece revistinha de banca de jornal.
O Jogador Fiódor Dostoiévski Clássico Da Literatura Russa 
alex informa que a editora é a gertum carneiro s/a, sem data nem crédito de tradução, e envia imagens preciosas:




 vendo-se a ficha catalográfica no acervo da biblioteca nacional, onde consta ed. g. carneiro, deduz-se que é a gertum carneiro. o uso de colchetes na data indica o ano de de integração ao acervo, não de publicação (neste caso, o ano vem dado diretamente, sem colchetes).

ou seja, o mistério V e o mistério XIII se esclarecem: trata-se da mesma edição d'o jogador pela gertum carneiro, c. 1953 (aí o circa é meu, indicando uma data limite).

mas quem era a gertum carneiro? nada menos que a atual ediouro, depois de passar pelos nomes de tecnoprint e edições de ouro.

a história é a seguinte: dois irmãos, antônio e jorge gertum carneiro, gaúchos, mudaram-se para o rio de janeiro, onde abriram em 1939 uma importadora de livros chamada publicações panamericanas. devido à guerra e às dificuldades de importação, a partir de 1940 passaram também a publicar obras, tanto brasileiras quanto traduzidas, com o nome de editora panamericana, sobretudo na área de literatura. a panamericana teve vida curta, até 1946, mais ou menos.

a partir de 1942, os dois irmãos e mais um sócio (fritz israel mannheimer) criam também a gertum carneiro, voltada basicamente para publicações técnicas na área de engenharia, mecânica, medicina etc.

se voltarmos ao post o/um jogador, lá encontraremos:
II. em 1943, otto schneider tem sua tradução publicada pela panamericana:
O Jogador - Fiodor Dostoiévski
ora, como a panamericana e a gertum carneiro eram dos mesmos donos, parece-me mais do que provável que a tradução d'o jogador pela gertum dos anos 50 seja a de otto schneider pela panamericana dos anos 40, cuja imagem de capa é mostrada acima.

com isso, além de resolvidos os dois mistérios, temos boas indicações também sobre a provável data de edição e a probabilíssima autoria da tradução d'o jogador na coleção "livros de bolso" da gertum.

10 de mai. de 2012

pendências



nesses levantamentos sobre traduções no brasil que ando fazendo, há três autores cuja bibliografia ainda preciso completar: são eles dostoiévski, dickens e jack london. a compilação de dados está praticamente completa, mas falta montar a apresentação para publicá-la aqui no blog. como ultimamente tenho passado para outros autores, fica o aviso: os três estão em andamento, e logo mais devo concluí-los.

imagem: drowning in paperwork

23 de mar. de 2012

zapiski iz podpolia

esta obra deve ser a de título mais variado entre nós. interessante notar que é, até agora, a obra com maior número de traduções feitas diretamente da língua original. vamos lá.

I.
aparentemente, a primeira tradução brasileira do "podpolia" foi feita por rosário fusco, publicada em c. 1944 pela epasa, com o título de o espírito subterrâneo:



trata-se certamente da tradução de l'esprit souterrain, uma tradução, adaptação e montagem de halpérine e morice, que saiu pela plon em 1886 e teve uma infinidade de reedições (e enorme impacto, aliás, sobre nietzsche). consiste numa montagem de dois textos independentes, "katia" e "lisa", costurados por alguns parágrafos extemporâneos, inventados pelos adaptadores para criar a sequência, além de várias mutilações em "lisa". vale pela curiosidade histórico-bibliográfica e pela lavra de rosário fusco. - aos interessados, a edição francesa está disponível aqui.

II.
a seguir, em 1960, vem a tradução de ruth guimarães, com o título de "o subsolo", muito provavelmente pelo francês, que saiu pela cultrix numa coletânea chamada histórias dramáticas:

 


essa tradução teve várias reedições em coletâneas com outros títulos, tanto pela cultrix quanto pela tecnoprint/ ediouro desde os meados dos anos 60. na ediouro, aliás, a novela passa a ser publicada com o nome de "notas do subsolo".



por outro lado, num daqueles escárnios de que apenas a martin claret parece capaz, essa tradução de ruth guimarães foi garfada pela referida editora, que alterou o título para "memórias do subsolo" e atribuiu a autoria da tradução a ninguém menos que isa silveira leal! sobre esse despropósito, ver aqui e aqui.

III.
em 1962, sai "memórias do subsolo" em tradução de boris schnaiderman, direta do russo, no volume X das obras completas da josé olympio:
OBRAS COMPLETAS E ILUSTRADAS DE  DOSTOIEVISKI - 10 volumes - Livros

esta tradução sai em várias reedições pela josé olympio, depois pela pauliceia (memórias do subsolo e outros escritos, 1992) e finalmente pela 34, desde 2000:



IV.
em 1963 sai a tradução de natália nunes (e oscar mendes), com o título de "memórias do subterrâneo", pela aguilar, pelo espanhol, no volume II da obra completa de dostoiévski.

Fiodor Dostoiévski: Obra Completa

essa tradução é licenciada para a bruguera em 1968, que com ela inaugura sua coleção "livro amigo", porém com o título a voz subterrânea:*

A Voz Subterrânea / Fedor Dostoievski

V.
em 1986, pela civilização brasileira, sai notas do subterrâneo em tradução de moacir werneck de castro, direta do russo:



VI.
em 2008, sai a tradução de maria aparecida botelho pereira soares, notas do subsolo, direta do russo, pela l&pm:



ainda neste ano deve sair a tradução de lucas simone, memórias do subsolo, também direta do russo, pela hedra.

* agradeço a henrique chaudon pela indicação. 
aliás, essa questão das traduções da aguilar é interessante: natália nunes (1921- ) é portuguesa, mas, até onde sei, a josé aguilar lhe encomendou as traduções da obra completa de dostoiévski expressamente para a edição brasileira. entendo que seu nome sempre vem acompanhado do de oscar mendes, pois este teria aclimatado vezos lusitanos à nossa língua e teria se incumbido das notas. ao que sei, essas traduções eram praticamente exclusivas da aguilar e apenas uma ou outra delas foi publicada em portugal. por isso considero razoável incluí-las entre as edições brasileiras de dostoiévski.

acompanhe a pesquisa sobre as traduções de dostoiévski no brasil aqui