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17 de nov. de 2009

kafka anônimo-borgiano-torrieriano

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para finalizar, eu concluiria este tópico sobre kafka afirmando que a metamorfose na tradução de torrieri guimarães foi feita não do francês, conforme alega ele, e sim com toda probabilidade a partir de uma tradução anônima do espanhol, publicada em 1925 na revista de occidente.

quanto à edição utilizada, é mais difícil de determinar. não me parece muito improvável que eli behar, o proprietário da editora livraria exposição do livro que incumbiu torrieri guimarães de verter a obra de Kafka para sua casa editorial, tenha-lhe fornecido a edição portenha em nome de jorge luis borges. tanto mais porque, antes de chegar ao brasil em 1955, consta que behar teria passado algum tempo na argentina, onde a edição da losada já era extremamente difundida naquela época. mas esta é uma simples hipótese.

seja como for, via edição espanhola anônima, via edição castelhana atribuída a borges, creio ser esta a única maneira capaz de explicar a profunda identidade morfológica e estrutural entre o texto da tradução espanhola e o da tradução brasileira.

quero ressaltar que não se trata de plágio, e tampouco estou sugerindo que tradução indireta seja algo ilícito, de maneira alguma. meu único propósito é contribuir para aclarar as incertezas sobre a fonte d'a metamorfose de torrieri guimarães. em se tratando de uma tradução das mais reproduzidas no brasil, desde 1965 até a data de hoje, julgo importante tentar estabelecer com a maior segurança possível dados que fazem parte da história da difusão de kafka no brasil.

seguem abaixo mais alguns trechos comparativos.

Eran las seis y media, y las manecillas seguían avanzando tranquilamente. Es decir, ya era más. Las manecillas estaban casi en menos cuarto. ¿Es que no había sonado el despertador?. Desde la cama podía verse que estaba puesto efectivamente en las cuatro; por lo tanto, tenía que haber sonado. Mas ¿era posible seguir durmiendo impertérrito, a pesar de aquel sonido que conmovía hasta a los mismos muebles?. Su sueño no había sido tranquilo. Pero, por lo mismo, probablemente tanto más profundo. Y ¿qué hacía él ahora?. El tren siguiente salía a las siete; para alcanzarlo era preciso darse una prisa loca. El muestrario no estaba aún empaquetado, y, por ultimo, él mismo no se sentía nada dispuesto. Además, aunque alcanzara el tren, no por ello evitaría la filípica del amo, pues el mozo del almacén, que habría bajado al tren de las cinco, debía de haber dado ya cuenta de su falta. Era el tal mozo una hechura del amo, sin dignidad ni consideración.

Eram seis e meia, e os ponteiros continuavam avançando tranquilamente. Quer dizer, já era mais. Os ponteiros estavam quase em sete menos um quarto. Não teria tocado o despertador? Da cama podia ver que estava realmente posto nas quatro horas; portanto, tinha de tocar. Mas era possível continuar dormindo indiferente, apesar daquele som que fazia vibrar até os móveis? Seu sono não tinha sido tranquilo. Mas, por isso mesmo, provavelmente tanto mais profundo. E que faria agora? O trem seguinte saía às sete; para tomá-lo, era preciso dar-se uma pressa louca. O mostruário ainda não estava empacotado, e, por último, ele mesmo não se sentia nada disposto. Além disso, ainda que alcançasse o trem, nem por isso evitaria a cólera do patrão, pois o empregado do armazém, que teria descido do trem das cinco, devia já ter dado pela sua falta. Era o tal moço uma cópia do patrão, sem dignidade nem consideração.

Mas cuando, después de realizar a la inversa los mismos esfuerzos, subrayándolos con hondísimos suspiros, hallóse de nuevo en la misma posición y tornó a ver sus patas presas de una excitación mayor que antes, si era posible, comprendió que no disponía de medio alguno para remediar tamaño absurdo, y volvió a pensar que no debía seguir en la cama y qye lo más cuerdo era arriesgarlo todo, aunque sólo le quedase una ínfima esperanza.

Mas quando, depois de realizar de modo inverso os mesmos esforços, sublinhando-os de profundíssimos suspiros, encontrou-se de novo na mesma posição e tornou a ver suas patas tomadas de uma excitação maior do que antes, se era possível, compreendeu que não dispunha de meio algum para remediar tamanho absurdo, e tornou a pensar que não devia continuar na cama e que o mais sensato era arriscar tudo, embora apenas lhe restasse uma ínfima esperança.

Y en tal estado de apacible meditación e insensibilidad, permaneció hasta que el reloj de la iglesia dio las tres de la madrugada. Todavía pudo vivir aquel cominezo del alba que despuntaba destrás de los cristales. Luego, a pesar suyo, su cabeza hundióse por completo, y su hocico despidió débilmente su postrer aliento.
A la manãna siguiente, cuando entró la asistenta - daba tales portazos que, en cuanto llegaba, ya era imposible descansar en la cama, a pesar de las infinitas veces que se le habían rogado otras maneras - para hacer a Gregorio la breve visita de costumbre, no hallé en él, al principio, nada de particular. Supuso que permanecía así inmóvil con toda intención, para hacerse el enfadado, pues le consideraba capaz del más completo discernimiento.

E em tal estado de aprazível meditação e insensibilidade, permaneceu até que o relógio da igreja deu as três horas da madrugada. Ainda pôde viver aquele começo de madrugada que despontava por trás das vidraças. Depois, contra sua vontade, sua cabeça tombou por completo, e seu focinho despediu debilmente seu último alento.
Na manhã seguinte, quando a criada entrou - batia tanto as portas que, quando chegava, era já impossível ficar na cama, apesar das infinitas vezes que lhe tinham pedido que adotasse outras maneiras - para fazer a Gregório a breve visita do costume, não encontrou nele, a princípio, nada de particular. Supôs que permanecia assim imóvel com toda intenção, para fazer-se de aborrecido, pois considerava-o capaz do mais completo discernimento.

edições: editorial losada, [1938] 2001, em tradução atribuída a jorge luís borges;* livraria exposição do livro, 1965, tradução de torrieri guimarães.

* ainda sobre a relutância da losada em aceitar o desmentido do próprio borges, em 1970, sobre a autoria dessa tradução: a edição consultada (2001), que traz apenas a novela la metamorfosis, na coleção "biblioteca clásica y contemporánea", destaca na capa: "Traducción y prólogo de Jorge Luis Borges", e na contracapa: "Jorge Luis Borges lo dio a conocer en nuestra lengua, con esta magnífica e insuperable traducción de 'La metamorfosis' que muestra plenamente las características tan poderosas, tan singulares y turbadoras que posee la escritura de Kafka".

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16 de nov. de 2009

kafka anônimo-borgiano

sobre o divertido e importante debate sobre as traduções borgianas de kafka, ver em especial a polêmica entre pestaña e sorrentino.

Alejandro Toledo, Samsa en un pestañeo, 2004
Carlos Correas, K, conferência CAF, s/d
Carlos García, Borges y Kafka, 2005
Celso Cruz, Metamorfoses de Kafka, Fapesp/Annablume, 2007
Cristina Pestaña Castro, Intertextualidad de F. Kafka en J.L. Borges, 1997
Cristina Pestaña Castro, ¿Quién tradujo por primera vez "La Metamorfosis" de Franz Kafka al castellano?, 1999
Ezequiel Martínez, Los disparates de Kafka, 2009
Fernando Sorrentino, El kafkiano caso de la Verwandlung que Borges jamás tradujo, 1998; também em hispanista
Fernando Sorrentino, No le deis al César lo que no es del César, 2000
Fernando Sorrentino, Borges y Die Verwandlung: algunas precisiones adicionales, 1999
Fernando Sorrentino, Borges: traductor y traducido, 2000-2005
Francisco Ynduráin, Leer a Kafka, 2008

cabe lembrar que a famosa edição da losada, em 1938, inaugurando a coleção "la pajarita de papel" com uma coletânea de contos de kafka, com prólogo e tradução atribuída a jorge luís borges, trazia os seguintes textos: La metamorfosis, La edificación de la Muralla China, Un artista del hambre, Un artista del trapecio, Una cruza, El buitre, El escudo de la ciudad, Prometeo e Una confusión cotidiana. Hoje se sabe, graças às pesquisas de Sorrentino, que os três contos assinalados em vermelho não foram traduzidos por borges, e sim reproduzidos de uma tradução anônima publicada na Revista de Occidente.




imagens: kafka sorridentehttps://www.abebooks.co.uk/metamorfosis-1%C2%AA-edici%C3%B3n-Franz-Kafka-Losada/31949757927/bd 
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13 de nov. de 2009

kafka em espanhol

recapitulando: a história da difusão de kafka no brasil se depara há décadas com um ponto pouco claro. torrieri guimarães, nos idos dos anos 60, e por incumbência da extinta livraria exposição do livro (posterior hemus), verteu para o português uma grande parte da obra de kafka, por tradução indireta. nunca ficou muito claro qual teria sido a língua de interposição.

a partir de uma pista sugerida por celso donizete cruz, em relação a a metamorfose, apresentei como hipótese plausível que a língua utilizada na origem teria sido o espanhol, e que ademais não se trataria de alguma obscura edição, e sim da famosa tradução atribuída a jorge luís borges.

como assinalei em kafka borgiano, acontece que, no final das contas, nem foi borges quem a fez. o pesquisador fernando sorrentino, que em 1974 obtivera essa revelação de borges, afirma que naquela época estava interessado apenas em confirmar sua intuição de que borges não havia feito aquela tradução, e não em desvendar seu verdadeiro autor. apenas em 1997 sorrentino veio a pesquisar a origem da tradução que borges não havia feito. afinal tratava-se de uma tradução espanhola anônima, publicada em duas partes no periódico trimestral dirigido por ortega y gasset, a famosa revista de occidente, no segundo e no terceiro números de 1925 - idêntica, sem tirar nem pôr, à que passou a ser publicada pela losada argentina, atribuindo-a a jorge luis borges, desde 1938 até a data de hoje.*

* interessante notar que a alianza editorial, da espanha, publica essa mesma tradução anônima até hoje, sem jamais tê-la atribuído a jorge luis borges.

para concluir o tema do kafka supostamente borgiano, cabe lembrar que, além d'a metamorfose, tampouco um artista da fome e um artista do trapézio em espanhol foram traduzidos por borges. sorrentino estabeleceu definitivamente as origens dessas traduções:

1) “La metamorfosis”, de Franz Kafka (1ª parte), Revista de Occidente, tomo viii, abril-maio-junho de 1925, nº xxiv, pp. 273-306.

2) “La metamorfosis”, de Franz Kafka (2ª parte), Revista de Occidente, tomo ix, julho-agosto-setembro de 1925, nº xxv, pp. 33-79.

3) “Un artista del hambre”, de Franz Kafka, Revista de Occidente, tomo xvi, abril-maio-junho de 1927, nº xlvii, pp. 204-219.

4) “Un artista del trapecio”, de Franz Kafka, Revista de Occidente, tomo xxxviii, outubro-novembro-dezembro de 1932, nº cxiii, pp. 209-213.


já a identidade do verdadeiro tradutor para o espanhol continua indeterminada. uma das hipóteses, aventada pelo filho de ortega y gasset e seu sucessor na direção da revista de occidente, é que a tradução poderia ter sido feita por margarita nelken. o certo é que, "Con estas precisiones, tan fáciles de verificar, ya no será razonable seguir diciendo que Borges tradujo al español Die Verwandlung, Ein Hungerkünstler y Erstes Leid, afirmación errónea que se repite, con inmerecido éxito, desde 1938 hasta el día de hoy" (idem, ibidem).

imagem: presentimento

11 de nov. de 2009

kafka no brasil III - inglês, francês, espanhol...

outra preciosidade no estudo de celso donizete cruz sobre as várias edições d'a metamorfose de kafka no brasil é a trajetória da tradução de torrieri guimarães.

a metamorfose torrieriana tem uma história movimentada, que começa em 1965 na livraria exposição do livro, a qual poucos anos depois se tornaria a hemus, onde prossegue a referida obra, em inúmeras edições. essa tradução de torrieri sai também pelo clube do livro, pela publifolha e em duas coleções da ediouro, a "clássicos de ouro" e a "biblioteca de babel", para finalmente desembocar na martin claret, aqui porém atribuída ora à sua "equipe de tradutores", ora a "pietro nassetti".

torrieri guimarães nunca pretendeu tê-la traduzido do alemão. tenho nítida lembrança, mas não a cópia, de um depoimento seu, muitos e muitos anos atrás, dizendo que havia feito a tradução a partir do inglês. vejo confirmada essa lembrança em rápidas alusões de josé pedro antunes e euler de frança belém.

mas, numa entrevista dada em 2003 ao pesquisador eduardo manoel de brito, torrieri afirma que utilizou uma versão francesa. toda a história é meio engraçada: eli behar, dono da livraria exposição do livro [futura hemus], teria conhecido pessoalmente max brod em israel, e teria negociado diretamente com ele os direitos de tradução da obra de kafka no brasil. brod os teria cedido a título de cortesia a behar, e assim teria se iniciado o intenso contato de torrieri guimarães com os textos de kafka,"visto ser ele [torrieri] quem estava à frente do projeto formal de traduzir toda a obra de Kafka para o português do Brasil pela editora Livraria Exposição do Livro" (pp. 125-6). eli behar então teria fornecido os exemplares em francês a torrieri - o qual, porém, não lembra pormenores a respeito deles -, para fazer sua tradução (p. 160).

bem, a impressão que eu tenho, à primeira vista, é que sua fonte não foi o inglês nem o francês... o que me parece é que torrieri guimarães teria usado para sua tradução uma versão publicada na argentina, a qual por sua vez é toda uma novela à parte, que deixarei para um próximo post. concentremo-nos por ora na misteriosa origem das traduções de kafka feitas por torrieri guimarães. vejamos, pois:

Quando, certa manhã, Gregório Samsa despertou, depois de um sono intranquilo, achou-se em sua cama convertido em um monstruoso inseto. Achava-se deitado sobre a dura carapaça de suas costas, e, ao erguer um pouco a cabeça, viu a figura convexa de seu ventre escuro, sulcado por pronunciadas ondulações, cuja proeminência a colcha mal podia aguentar, que estava visivelmente a ponto de escorrer até o solo. Inúmeras patas, lamentavelmente esquálidas em comparação com a grossura comum de suas pernas, ofereciam a seus olhos o espetáculo de uma agitação sem consistência. - torrieri guimarães

celso cruz tinha chamado a atenção para a oração "ofereciam a seus olhos o espetáculo de uma agitação sem consistência", totalmente ausente do original e de todas as traduções consultadas, e que "permanece inexplicável, derivada talvez de um arroubo de criatividade do tradutor" (p. 201). mas veio-lhe a cair em mãos uma versão peruana, sem data, sem créditos, que lhe pareceu muito similar à de torrieri guimarães, inclusive com a mesma bizarra passagem.*

* o pesquisador teve a cautela de alertar que "a notável semelhança, contudo, não quer dizer que a tradução peruana seja a verdadeira fonte da tradução de torrieri. Pode até ter se dado o contrário, a primeira ter sido feita com base na segunda" (id.).

Ao despertar Gregorio Samsa una mañana, tras un sueño intranquilo, encontróse en su cama convertido en un monstruoso insecto. Hallábase echado sobre el duro carapazón de su espalda y, al alzar un poco la cabeza, vio la figura convexa de su vientre oscuro, surcado por curvadas callosidades, cuya prominencia apenas si podía aguantar la colcha, que estaba visiblemente a punto de escurrirse hacia el suelo. Innumerables patas, lamentablemente escuálidas en comparación con el grosor ordinario de sus piernas, ofrecían a sus ojos el espectáculo de una agitación sin consistencia.

ora, esta é a tradução que a editorial losada vem publicando ininterruptamente desde 1938, em nome de jorge luis borges!

achei tão divertida a história que encomendei um exemplar da losada para um cotejo completo. em todo caso, eu não acharia inteiramente descabido aventar a hipótese provisória de que torrieri guimarães teria utilizado pura e simplesmente a edição portenha da losada, com a tradução atribuída a borges.*

* é com esta edição de 1938 que a losada inaugura sua famosa coleção "la pajarita de papel".

a novela que mencionei acima é que borges, por sua vez, nega ter feito essa tradução. será tema de um próximo post.



à esquerda, a edição de la metamorfosis de 1943. não encontrei imagem de capa da edição de 1938, mas achei o logo da pajarita de papel tão bonitinho que pus à direita um outro volume da coleção, também de 1938.








3 de nov. de 2009

kafka no brasil II - a germanização das fontes

retomando as metamorfoses de kafka,* celso donizete cruz desvenda uma daquelas infelizes brasilices na história das traduções em nossa terra.

a primeira metamorfose no brasil saiu em tradução de brenno silveira, em 1956, pela civilização brasileira. na edição consta devidamente o nome do texto de partida: tradução da edição americana metamorphosis. em 1963, a mesma tradução sai numa pequena edição popular pela bup, efêmera editora também de ênio silveira. desta feita a imprenta traz apenas o título do original em alemão, die verwandlung, sem qualquer referência à fonte usada para a tradução. o mesmo se repete em reedições d'a metamorfose pela civilização nas décadas seguintes. já não é um tipo de procedimento muito desejável, pela ampla margem de ambiguidade, dando o título do original, mas não o título da fonte para a tradução - de qualquer modo, porém, omissão de dados é uma coisa e falsificação de dados é outra.

acontece que, conforme levantou celso cruz, a fonte americana da tradução de brenno silveira, de uma hora para outra, adquiriu cidadania germânica. assim é que, na edição da civilização de 1997, "a ficha catalográfica não deixa dúvidas, ao anotar: 'tradução de: Die Verwandlung'" (p. 194).

bom, aí complica. há várias reedições até 1999, todas esgotadas. a record comprou a civilização em 2000 e nunca mais reeditou essa tradução. segundo a valiosa constatação de celso cruz, desde 1997 a civilização passou a falsificar as informações em seus exemplares, e dificilmente alguém vai corrigi-las. leitores e pesquisadores vão sempre tropeçar nessas incongruências, e a história da tradução no brasil fica com mais essa nodoazinha de negligência ou má fé.

* celso donizete cruz, metamorfoses de kafka. são paulo, annablume, 2007.

2 de nov. de 2009

kafka no brasil I


metamorfoses de kafka, dissertação de mestrado de celso donizete cruz publicada pela annablume/ fapesp (2007), é uma minuciosa análise comparada das diversas edições d'a metamorfose de kafka no brasil.

o autor se concentra nos paratextos, isto é, nos elementos acompanhantes da obra propriamente dita: capa, dizeres de capa e contracapa, formato do livro, dados de imprenta, orelhas, prefácios, introduções. há também um item sobre os tradutores e traduções das edições analisadas.

as traduções mencionadas no estudo são, em ordem cronológica de lançamento, as de brenno silveira, torrieri guimarães, marques rebelo, syomara cajado, modesto carone, erlon josé paschoal, dora del mercato, lourival holt, regina régis junqueira, marcelo backes, calvin carruthers, e a inefável "equipe de tradutores da martin claret", posteriormente substituída pelo não menos inefável pietro nassetti.

num post chamado trivia I, apresentei alguns fatos e algumas hipóteses sobre o processo de geração de nomes fictícios nas traduções espúrias da nova cultural. reproduzo aqui o trecho referente ao suposto tradutor d'a metamorfose na coleção "obras-primas":

"já no nível do puro escárnio foi a utilização do nome 'calvin carruthers'. [...] calvin carruthers aparece como tradutor de a metamorfose do kafka nessas obras covaculturais. aviso que não fui atrás dessa tradução, não sei se é plágio ou deixa de ser, mas o uso do nome de fantasia por si só já dá um certo pano para a manga.
bom, qualquer criança sabe que o protagonista do livro se chama gregor samsa. e de que rincão do mundo algum desinfeliz resolveu desenterrar o nome de 'calvin carruthers' como tradutor das vicissitudes de gregor samsa?
aí, por mero acaso, você sabe que um ator chamado vic tayback fez em 1971 um filme de horror chamado blood and lace, onde representava o papel de um detetive chamado 'calvin carruthers'. e sabe também que no último filme do tayback antes de morrer, em 1990, seu personagem se chamava george samsa. (quem gostar dessas curiosidades, pode ver aqui a filmografia dele.)"*

* embora sem mencionar o personagem de tayback em horseplayer, justamente george samsa, celso cruz também comenta essa conexão calvin carruthers/ vic tayback.

como disse, metamorfoses de kafka se debruça sobre os paratextos, e apenas marginalmente sobre as traduções. mesmo assim, traz coisas muito divertidas sobre elas, que podem interessar de perto aqui ao nãogostodeplágio. em breve voltarei a esse estudo.

imagem: annablume