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17 de set. de 2015

mulherzinhas

quando a gente pensa que já deu, sempre aparece mais uma ou outra coisa.

louisa may alcott, mulherzinhas.

1. tradução de marcos bagno em bela edição ilustrada e comentada da melhoramentos, em sua coleção "obras-primas universais", de 1998.



2. tradução em nome de vera maria marques martins, pela editora nova cultural, em sua coleção "obras-primas", de 2003.


o curioso é que as duas traduções, nas primeiras páginas iniciais da obra, são totalmente distintas e independentes entre si. mas, de repente, ficam praticamente iguais, uma mera cópia da outra, até o final do primeiro capítulo; vejam-se alguns exemplos:

I.
1. marcos bagno (1998)
Amy obedeceu, mas esticou as mãos para a frente e pôs a caminhar como se fosse um boneco de corda. E seu "Oh!" dava mais a ideia de estar sendo vítima de um alfinete do que do medo e da angústia. Jo soltou um gemido de desespero, e Meg caiu na risada, enquanto Beth deixava seu pão queimar para observar a cena com interesse.
2. vera maria marques martins (2003)
Amy obedeceu, porém estendeu as mãos para a frente e pôs a andar feito um um boneco de corda. E o seu "Oh!" dava mais a ideia de estar sendo vítima de um alfinete do que do medo e da angústia. Jo soltou um gemido de desespero, e Meg caiu na risada, enquanto Beth deixava seu pão queimar para observar a cena com interesse.
3. original:
Amy followed, but she poked her hands out stiffly before her, and jerked herself along as if she went by machinery, and her "Ow!" was more suggestive of pins being run into her than of fear and anguish. Jo gave a despairing groan, and Meg laughed outright, while Beth let her bread burn as she watched the fun with interest.

II.
1. marcos bagno (1998)
- Nem tanto - replicou Jo, modesta. - Não acho que A Praga da Feiticeira, tragédia operística, seja coisa tão boa. Teria preferido encenar Macbeth, se tivéssemos um alçapão para Banquo. Sempre quis fazer a cena do assassinato. "É um punhal que vejo à minha frente?" - murmurou Jo, revirando os olhos e agarrndo o ar, como tinha visto fazer um ator famoso.
- Não é um punhal, é o espeto da lareira com o sapato de mamãe em vez do pão. Beth ficou enfeitiçada! - gritou Meg, e o ensaio terminou numa gargalhada geral.
2. vera maria marques martins (2003)
- Nem tanto - replicou Jô, modesta. - Não acho que A Praga da Feiticeira, tragédia operística, seja tão boa. Eu teria preferido encenar Macbeth, se tivéssemos um alçapão para Banquo. Sempre quis fazer a cena do assassinato. "É um punhal que eu vejo à minha frente?" - murmurou Jô, revirando os olhos e agarrando o ar, como vira fazer um famoso ator.
- Não é um punhal, é o atiçador da lareira com o sapato da mamãe em vez do pão. Beth ficou enfeitiçada! - gritou Meg, e o ensaio terminou numa gargalhada geral.
3. original
"Not quite," replied Jo modestly. "I do think The Witches Curse, an Operatic Tragedy is rather a nice thing, but I'd like to try Macbeth, if we only had a trapdoor for Banquo. I always wanted to do the killing part. 'Is that a dagger that I see before me?" muttered Jo, rolling her eyes and clutching at the air, as she had seen a famous tragedian do."No, it's the toasting fork, with Mother's shoe on it instead of the bread. Beth's stage-struck!" cried Meg, and the rehearsal ended in a general burst of laughter.

III.
1. marcos bagno (1998)
Enquanto fazia seu interrogatório materno, a sra. March tirou suas roupas úmidas, calçou as pantufas quentes e sentou-se na cadeira de balanço. Pôs Amy no colo, preparando-se para desfrutar da hora mais feliz de seu dia ocupado. As meninas se movimentavam, tentando organizar as coisas, cada uma a seu modo. Meg pôs a mesa para o chá. Jô trouxe lenha e dispôs as cadeiras, derrubando e deixando cair tudo o que tocava. Beth ia e vinha, da cozinha para a sala, quieta e atarefada, enquanto Amy dava ordens a todas, sentada de braços cruzados.
2. vera maria marques martins (2003)
Enquanto fazia seu interrogatório materno, a sra. March tirou suas roupas úmidas, calçou os chinelos quentes e se sentou na cadeira de balanço. Pôs Amy no colo, preparando-se para desfrutar da hora mais feliz de seu dia ocupado. As meninas se movimentavam, tentando organizar as coisas, cada uma do seu jeito. Meg pôs a mesa para o chá. Jô trouxe lenha e dispôs as cadeiras, derrubando e deixando cair tudo o que tocava. Beth ia e vinha, da cozinha para a sala, quieta e atarefada, enquanto Amy dava ordens a todas, sentada de braços cruzados.
3. original
While making these maternal inquiries Mrs. March got her wet things off, her warm slippers on, and sitting down in the easy chair, drew Amy to her lap, preparing to enjoy the happiest hour of her busy day. The girls flew about, trying to make things comfortable, each in her own way. Meg arranged the tea table, Jo brought wood and set chairs, dropping, over-turning, and clattering everything she touched. Beth trotted to and fro between parlor kitchen, quiet and busy, while Amy gave directions to everyone, as she sat with her hands folded.

por esses exemplos, pode-se constatar que, além das soluções idênticas, foram reproduzidos até mesmo pequenos lapsos de entendimento, omissões de palavras e mudanças de pontuação em relação ao original, e assim vai até o final do capítulo.

em vista do patente recurso a tradução alheia, valeria a pena cotejar os outros capítulos em que não se reproduz o texto de bagno com, talvez, a tradução de nair lacerda, publicada em 1953 pela saraiva e reeditada em 1973 pelo círculo do livro.


21 de jun. de 2015

louisa may alcott

criei o blog traduzindo mulherzinhas, aqui.



19 de jun. de 2015

louisa may alcott no brasil III

as postagens anteriores referente a alcott no brasil estão aqui.

I.
já vimos as traduções de little women. passemos, primeiramente, à sua continuação, good wives.

  • a nacional lançara mulherzinhas em 1934; em 1935 a editora lança boas esposas, em tradução de genolino amado, com ela inaugurando sua coleção biblotheca das moças. aqui a capa é da quarta edição, em 1960.


 genolino amado, 1935


  • esposas exemplares, tradução de nair lacerda, sai na coleção saraiva, 104, em 1957.


nair lacerda, 1957


  • pelas edições paulinas, em sua coleção primavera 3, temos em 1960 as mulherzinhas crescem 

  • como já dissemos no post anterior, aqui, mulherzinhas da ediouro é a única que traz as partes I e II num só volume. a tradução é de sônia coutinho, e foi lançada em 1968.

ou seja, enquanto little women recebeu sete diferentes traduções integrais no brasil, sua continuação recebeu quatro.



II.
as outras obras de alcott traduzidas entre nós são:

  • rose in bloom, que saiu em tradução de aldo della nina com o nome de alma em flor, pela saraiva, coleção rosa, em 1956, e pela edições paulinas em 1961 como rosa em flor (não ei quem traduziu)

  • os oito primos, pela paulinas, também em 1961

  • a rapaziada de jo (jo's boys), também pela paulinas, em 1962 

  • longa e fatal caçada amorosa, em tradução de vera maria marques martins, pela best-seller, em 1995
  • a herança, em tradução de vitória paranhos mantovani, também pela best-seller, em 1998, reeditada pela nova cultural em 2004


18 de jun. de 2015

louisa may alcott no brasil II

Preface

  “Go then, my little Book, and show to all
That entertain, and bid thee welcome shall,
What thou dost keep close shut up in thy breast;
And wish what thou dost show them may be blest
To them for good, may make them choose to be
Pilgrims better, by far, than thee or me.
Tell them of Mercy; she is one
Who early hath her pilgrimage begun.
Yea, let young damsels learn of her to prize
The world which is to come, and so be wise;
For little tripping maids may follow God
Along the ways which saintly feet have trod.”

Adapted from JOHN BUNYAN


prosseguindo nosso levantamento das obras de louisa may alcott traduzidas no brasil (veja o início aqui), eis as traduções de little women de que dispomos:
  • a primeira, como já dissemos aqui, é a de eduardo carvalho, pela nacional, em 1934
  • segue-se em 1953 a tradução de nair lacerda pela saraiva, volume 64 da coleção saraiva, com o título as quatro irmãs. essa tradução será reeditada em 1973 pelo círculo do livro, com o título mais conhecido de mulherzinhas.

  • em 1960, a paulinas inicia a publicação de alcott em sua coleção primavera, e será a editora com o maior número de títulos da autora: cinco livros ao todo. o primeiro a sair é, naturalmente, mulherzinhas. consta nos créditos que é uma "renarração" de josé alvisana. não sei o que significa; não uma condensação, pois tem quase 300 páginas.
josé alvisana, 1960

  • em 1968, temos a única edição que reúne no mesmo volume little women e good wives como as duas partes compondo little women como um todo. a tradução é de sônia coutinho, pela edições de ouro, com posteriores reedições na ediouro, em sua coleção clássicos de bolso.
sônia coutinho, 1968 (capa, 1995)

  • em 1998, temos a tradução de marcos bagno, publicada numa edição interessante da melhoramentos (coleção obras-primas universais), fartamente enriquecida com ilustrações nas margens, com dados históricos, fotos, imagens de época, e respectivos comentários e legendas. esse aparato complementar, traduzido por maria alice de sampaio doria, segue a edição da gallimard francesa (1994).
marcos bagno, 1998

  • também em 1998, a ática lança em sua coleção eu leio, de paradidáticos, a tradução de cláudia moraes:
cláudia moraes, 1998

  • em 2003, na coleção obras-primas, a nova cultural lança a tradução de vera maria marques martins:
vera m. marques martins, 2003

  • em 2005, temos a edição espúria lançada pela martin claret, já comentada no post anterior.

num balanço até o momento, teríamos então sete diferentes traduções de little women no brasil - sem contar a fraude claretiana e sem incluir adaptações e condensações. - entre 1934 e 2003. recapitulando, são as de: eduardo carvalho (posteriormente revista por godofredo rangel); nair lacerda; josé palisano; sônia coutinho; marcos bagno; cláudia moraes; vera maria marques martins.

conheço quatro delas: a revista por rangel, a de marcos bagno, a de sônia coutinho e a de vera martins. apenas a de sônia coutinho traz o prefácio acima reproduzido, e que constitui praticamente todo o programa da obra.



louisa may alcott no brasil I

a obra mais conhecida de louisa may alcott é little women. no brasil, teve várias traduções e inúmeras adaptações - as adaptações não incluirei neste levantamento. foi a primeira obra de alcott a ser publicada no brasil.

mas, antes de avançarmos, cabe notar um detalhe. little women foi originalmente publicada em 1868. devido ao grande e imediato sucesso, louisa logo a seguir escreveu a continuação, lançada em 1869, com o título de good wives (dado não pela autora, mas por seu editor na inglaterra). também fez sucesso. foi em 1880 que as duas partes, little women e good wives, foram reunidas como uma só obra, com o título geral de little women, parte I e parte II. mas, de modo geral, o que se publica no brasil corresponde apenas à parte I, isto é, a original little women de 1868. a única exceção, incluindo as duas partes, como veremos adiante, é a edição lançada pela ediouro.


eis, pois, a primeira alcott no brasil (como louise, em lugar de louisa
 - mas na página de rosto consta corretamente como louisa): 

Tradução de Eduardo Carvalho revista por Godofredo Rangel.
Coleção A Nova Biblioteca das Moças. Nacional, 1934


[vide abaixo atualização em 2019]

a partir de 1944, a nacional inclui a obra em sua coleção biblioteca das moças, 119, em dois volumes, de capas iguais. a tradução, porém, é submetida a extensa revisão, vindo a constar nos créditos "tradução revista por godofredo rangel". foi esta versão que acabou se consagrando em sucessivas reedições, desaparecendo qualquer menção a eduardo carvalho.
[atualização de 30/06/15: tais afirmações, feitas por inferência a partir das declarações equivocadas da editora musa em sua contracapa - ver abaixo -, não procedem. desde 1934, mulherzinhas foi publicada como "tradução revista por godofredo rangel". a tradução originalmente feita por eduardo carvalho, se é que de fato existiu, nunca veio à luz.]

 Tradução revista por Godofredo Rangel. Nacional, 1944

foi a editora musa que, em 1995, trouxe à tona o nome do tradutor inicial, eduardo carvalho, perdido nas brumas do tempo. na contracapa de sua edição da obra, a musa faz constar a seguinte informação:

[atualização em 30/6/15: incorreto - desde 1934, consta na página de créditos 
"Tradução revista por Godofredo Rangel", vide acima]

vale ainda informar que essa versão de rangel foi, em 2005, objeto de uma escancarada apropriação pela editora martin claret, que reproduziu o texto, atribuindo a tradução a um dos fantasmas da casa, "alex marins". essa fraude, muito infelizmente, continua em circulação, embaindo uma legião de leitores:


se a tradução de 1934, mesmo depois de revista por godofredo rangel, ainda continuava a soar com alguns vezos levemente arrebicados, imaginem-se as probabilidades de que qualquer ser, fantasmagórico ou não, consiga se sair com as mesmas soluções, vejam-se alguns exemplos:

1. rev. godofredo rangel
cap. VI, beth no palácio maravilhoso (nacional, 1969, p. 63):

A vasta casa era realmente um palácio maravilhoso embora precisasse de tempo para atingi-lo, pois Beth arreceava dos leões. O velho sr. Laurence era o maior de todos; depois, porém, de ter ele conversado - alguns gracejos ou palavras atenciosas ditos a cada uma das moças, algumas recordações dos antigos tempos à mãe - ninguém mais o temia exceto a tímida Beth. O outro leão era o fato de serem pobres e Laurie rico, pois tornava-as acanhadas receber favores que não podiam retribuir. Após algum tempo, contudo, elas compreenderam que o velho as considerava como benfeitoras, não sabendo como demonstrar sua gratidão pela maternal bondade da sra. March, pela companhia jovial e conforto que encontrava naquela humilde casa; por isso, esqueceram-se logo de seu orgulho de pobres, trocando atenções sem se deter a pensar em quais eram as maiores.

2. "alex marins"
cap. VI, beth no palácio maravilhoso (martin claret, 2005, p. 70):

A vasta casa era realmente um palácio maravilhoso embora precisasse de tempo para atingi-lo, pois Beth arreceava dos leões. O velho sr. Laurence era o maior de todos; depois, porém, de ter ele conversado - alguns gracejos ou palavras atenciosas ditos a cada uma das moças, algumas recordações dos antigos tempos à mãe - ninguém mais o temia exceto a tímida Beth. O outro leão era o fato de serem pobres e Laurie rico, pois tornava-as acanhadas receber favores que não podiam retribuir. Após algum tempo, contudo, elas compreenderam que o velho as considerava como benfeitoras, não sabendo como demonstrar sua gratidão pela maternal bondade da sra. March, pela companhia jovial e conforto que encontrava naquela humilde casa; por isso, esqueceram-se logo de seu orgulho de pobres, trocando atenções sem se deter a pensar em quais eram as maiores.

1. rev. godofredo rangel
cap. XIII, castelos no ar (nacional, 1969, p. 146):

Laurie embalava-se lentamente na rede em uma tarde cálida de setembro, perguntando-se o que seria feito de suas vizinhas, mas com preguiça suficiente para não ir saber notícias delas. Estava num de seus dias de mau humor; o dia fora-lhe inútil e aborrecido e bem quisera vivê-lo de novo. O calor tornara-o indolente; deixara de lado o estudo, apoquentara a mais não poder o sr. Brooke, aborrecera o avô, excitando-se em jogos grande parte do dia, assustara horrivelmente as criadas, fazendo-lhes crer, por maldade, que um dos cães ia ficar louco e, depois de dirigir palavras ásperas ao rapaz da estrebaria sob o pretexto imaginário de não ter tratado do seu cavalo, mergulhara finalmente na rede a pensar na estupidez do mundo até que, apesar de si próprio, o acalmara a placidez daquele belo dia.

2. "alex marins"
cap. XIII, castelos no ar (martin claret, 2005, p. 154):

A vasta casa era realmente um palácio maravilhoso embora precisasse de tempo para atingi-lo, pois Beth arreceava dos leões. O velho sr. Laurence era o maior de todos; depois, porém, de ter ele conversado - alguns gracejos ou palavras atenciosas ditos a cada uma das moças, algumas recordações dos antigos tempos à mãe - ninguém mais o temia exceto a tímida Beth. O outro leão era o fato de serem pobres e Laurie rico, pois tornava-as acanhadas receber favores que não podiam retribuir. Após algum tempo, contudo, elas compreenderam que o velho as considerava como benfeitoras, não sabendo como demonstrar sua gratidão pela maternal bondade da sra. March, pela companhia jovial e conforto que encontrava naquela humilde casa; por isso, esqueceram-se logo de seu orgulho de pobres, trocando atenções sem se deter a pensar em quais eram as maiores.


veja a continuação aqui.

atualização em 18/12/2019:
curiosamente, em algum momento - antes de 1944 - foi lançada uma edição em cuja capa constava o nome de godofredo rangel como tradutor:


agradeço a jonathas gonçalves pela referência e pela imagem.