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14 de dez. de 2010

a arte da (im)prudência

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retomo aqui a arte da prudência, de baltasar gracián, já comentada em post anterior.

esta, que é uma das obras-primas do barroco espanhol, acabou se tornando nos últimos vinte anos um guia de autoajuda e gestão de negócios, ao estilo, digamos, da arte da guerra de sun tzu.

trata-se de obra de difícil tradução. a edição da best-seller, tanto na época em que pertencia a richard civita quanto agora, no grupo record, segue a tradução em inglês, já moldada ao gosto dos manuais de aconselhamento. os créditos são claros e corretos, constando na página de rosto "tradução do inglês de ieda moriya", e no verso da página os dados sobre a edição utilizada, a saber, a tradução de christopher maurer, de 1992.



a eventuais interessados indico duas traduções de gracián para o inglês: a primeira de joseph jacobs (1892), disponível aqui, e a mais recente de christopher maurer (1992), supracitada e disponível aqui.

a tradução em nome de pietro nassetti, publicada pela editora martin claret, parece se abeberar exaustivamente na tradução de ieda moriya, inclusive nas notas. veja-se um exemplo:

ieda moriya:
3. Manter o suspense. O êxito inesperado ganha admiração. A obviedade excessiva não é nem útil, nem de bom gosto. Não se declarar de imediato desperta curiosidade, em especial se a posição é importante o bastante para causar expectativas. O mistério, por sua característica arcana, provoca a veneração. Mesmo ao se revelar, evite a franqueza total e não permita que todos venham a conhecer o seu íntimo. É no silêncio cauteloso que a prudência se refugia. As decisões, uma vez declaradas, nunca granjeiam estima e expõem à crítica. Se desacertadas, estará duplamente desgraçado. Se quiser atenção e desvelo, imite a divindade.
pietro nassetti:
3. Manter o suspense. O êxito inesperado ganha admiração. O que é óbvio não é nem útil, nem de bom gosto. Não se declarar de imediato atiça a curiosidade, em especial se a posição é importante o bastante para causar expectativas. O mistério, por sua característica arcana, provoca a veneração. Mesmo ao se revelar, evita a franqueza total e não permite que todos venham a franquear o seu íntimo. É no silêncio cauteloso que a sensatez se refugia. As decisões, uma vez declaradas, nunca granjeiam estima e expõem à censura. Se desacertadas, estará duplamente desgraçado. Se quiser atenção e desvelo, imite a divindade.
pode-se ver a cópia, levemente disfarçada - aliás, essas adulterações às vezes são bastante tolas e distorcem o sentido - como, aqui, o conselho de gracián ao leitor, no imperativo ("evite", "não permita"), que se torna ação ininteligivelmente atribuída ao sujeito "mistério". eis o original de gracián e a tradução de maurer:

3. Llevar sus cosas con suspensión. La admiración de la novedad es estimación de los aciertos. El jugar a juego descubierto ni es de utilidad ni de gusto. El no declararse luego suspende, y más donde la sublimidad del empleo da objecto a la universal expectación; amaga misterio en todo, y con su misma arcanidad provoca la veneración. Aun en el darse a entender se ha de huir la llaneza, assí como ni en el trato se ha de permitir el interior a todos. Es el recatado silencio sagrado de la cordura. La resolución declarada nunca fue estimada; antes se permite a la censura, y si saliere azar, será dos vezes infeliz. Imítese, pues, el proceder divino para hazer estar a la mira y al desvelo.
3. Keep matters in suspense. Successes that are novel win admiration. Being too obvious is neither useful nor tasteful. By not declaring yourself immediately you will keep people guessing, especially if your position is important enough to awaken expectations. Mystery by its very arcaneness causes veneration. Even when revealing yourself, avoid total frankness, and don't let everyone look inside you. Cautious silence is where prudence takes refuge. Once declared, resolutions are never esteemed, and they lie open to criticism. If they turn out badly, you will be twice unfortunate. If you want people to watch and wait on you, imitate the divinity.
poderia me estender ao longo dos trezentos aforismos do livro, apenas para reiterar a constatação.

além de me sentir injuriada com o logro, fico admirada que a best-seller compre os direitos de tradução da editora americana, pague uma tradutora, publique sua edição e pouco se importe que venha outra empresa colega de profissão, publique a contrafação em oito, dez reedições, e fique tudo por isso mesmo.



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



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2 de dez. de 2010

desmemórias desmioladas

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entre minhas pesquisas vêm aparecendo algumas ocorrências esdrúxulas: são obras de tradutores bastante conhecidos, mas que algumas editoras publicam em nome de outros tradutores também bastante conhecidos.


as notícias sobre essas surpreendentes trocas de nomes estão dispersas no blog. reúno-as aqui, com os links para seus respectivos posts. são elas:

- tradução feita por mário quintana e atribuída a galeão coutinho: zadig, de voltaire, pela itatiaia - link e link
- tradução feita por berenice xavier e atribuída a brenno silveira: william wilson, de edgar allan poe, pela bestbolso (grupo record) - link
- tradução feita por oscar mendes e milton amado e atribuída a brenno silveira: nunca aposte sua cabeça com o diabo, de edgar allan poe, pela civilização brasileira e pela bestbolso (ambas do grupo record) - link
- tradução feita por ruth guimarães e atribuída a isa silveira leal: o subsolo, a árvore de natal na casa de cristo, mujique marei, de dostoievski, pela martin claret - link e link

não são casos de plágio de tradução - seria inconcebível e nem faria sentido -, e sim atribuições grotescamente errôneas. entendo que as editoras estão pecando por irresponsabilidade, criando confusão e dando motivos para que algum leitor, em algum momento, seja levado a considerar mário quintana, brenno silveira e isa silveira leal como meros copistas de traduções alheias. fica aqui o alerta.

imagem: espirais
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4 de out. de 2010

menos mau

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jane austen em português noticia: um enrico corvisieri a menos no mercado!

explico-me: a editora best-seller, do grupo record, tem em seu catálogo um tristésimo orgulho e preconceito numa pretensa tradução em nome do fantasmagórico "enrico corvisieri".

"enrico corvisieri" foi o pietro nassetti da editora nova cultural entre os anos 1996 e 2005, isto é, em seu nome constavam traduções alheias do mais variado leque de obras das mais variadas línguas. a editora best-seller pertencia, junto com a nova cultural, ao grupo C.L.C. comandado por richard civita.

em 2003 a C.L.C. vendeu a editora best-seller ao grupo record, do rio de janeiro, que levou no catálogo orgulho e preconceito na pretensa tradução de "enrico corvisieri". na verdade, tratava-se de uma cópia adulterada da antiga tradução de lúcio cardoso (1940).


hoje em dia, a tradução legítima de lúcio cardoso é publicada pela civilização brasileira, que também faz parte do grupo record.

a best-bolso é a linha pocket da best-seller, do mesmo grupo record. então havia o risco de que a best-bolso perpetuasse a fraude de enrico corvisieri da best-seller. ufa, não! a best-bolso está publicando a tradução de lúcio cardoso, que está na civilização.

agora é torcer para que o monstrengo corvisieriano acabe de definhar na best-seller, e nunca mais seja reeditado. quanto aos leitores que leram esse copidesque atamancado da tradução de lúcio cardoso, é uma pena. como a bestbolso é da best-seller, ficaria bonito se a record oferecesse aos infelizes compradores da edição de orgulho e preconceito pela best-seller a nova edição da bestbolso, em tradução legítima.

acompanhe o caso em orgulho e preconceito da best seller.

imagem: albo.co.uk
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27 de jan. de 2010

o insidioso orgulho plagiado

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mais um caso de involuntária legitimação acadêmica do mais pernicioso delito intelectual, a saber, o plágio - aqui, com a referência a "enrico corvisieri" como pretenso autor da tradução de orgulho e preconceito, na verdade furtada a lúcio cardoso. clique na imagem para ampliar.


Genilda Azeredo,
Jane Austen, adaptação e ironia : uma introdução
(agradeço a ivo barroso pelo aviso e pela imagem)

quando cessará a infiltração das fraudes tradutórias entre os materiais de estudo na academia? e a memória cultural, como preservá-la?