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6 de nov. de 2014

nelson rodrigues "tradutor"



Traduções falsamente creditadas a Nelson Rodrigues (editora Record, anos 70)

Harold Robbins:
79 Park Avenue
A mulher só
Escândalo na sociedade
Ninguém é de ninguém
O garanhão
O indomável
O machão
O pirata
Os herdeiros
Os implacáveis
Os insaciáveis
Os libertinos
Os sonhos morrem primeiro
Stiletto
Uma prece para Danny Fischer

Frank G. Slaughter:
Consciência de médico
Dilema de médico
Médico astronauta
Médico e amante
Médicos em conflito
Missão de médico
Mulheres de médicos
O fim da viagem
Um médico diferente

Charles Webb:
A primeira noite de um homem

Henry Sutton:
A exibicionista

Hugh Atkinson:
Os jogos proibidos

Morton Cooper:
O rei devasso

Polly Adler:
Uma certa casa suspeita

Xaviera Hollander:
Xaviera

sobre a história dessa prática adotada na editora record, vide aqui.


2 de jun. de 2012

tradução e "perspectiva histórica"

em entrevista ao jornal o estado de são paulo, publicada na semana passada e que comentei aqui, sérgio machado tinha alardeado como demonstração de grande tino comercial e capacidade de se reinventar empresarialmente o fato de seu pai ter usado falsamente o nome de nelson rodrigues como tradutor de harold robbins (e outros) como isca para atrair compradores, e que este teria sido "o momento talvez fundamental" da história do grupo record.

ontem a coluna babel do mesmo jornal retomou o tema. transcrevo abaixo o texto, que se encontra aqui.
TRADUÇÃO
Polêmica declarada
Em sua última edição, o Sabático publicou uma longa entrevista com o publisher Sergio Machado, do Grupo Editorial Record. Nela, ele se referiu a um histórico episódio: a publicação de Os Insaciáveis, de Harold Robbins, em agosto de 1964. Na capa, o nome de Nelson Rodrigues constava como tradutor da obra. Mas Nelson não sabia inglês. Dois fatores levaram editora e “tradutor” a tomarem essa decisão: a Record queria chamar a atenção para o livro e Nelson precisava de dinheiro. A declaração causou polêmica entre os tradutores. Sonia Rodrigues, filha do escritor, e Sergio Machado comentam o caso:
“No livro Nelson Rodrigues por Ele Mesmo, meu pai se confessa um narcisista muito relapso na administração da própria fama. Em outra passagem, informa que suas crônicas são as mais saqueadas do País, que vários jornais publicam e poucos pagam. Ele conta também quanto se matava de trabalhar para bancar as várias manutenções dele. Talvez essas traduções estivessem nesse contexto. Aparentemente, a Record pagou ao meu pai para usar a imagem dele para referendar o texto de um autor norte-americano. Ninguém sabe se pagou apenas o direito de imagem ou se meu pai leu o texto traduzido e mexeu no texto, não é mesmo? Não tenho informações se os livros continuam sendo publicados e se os direitos de tradução estão sendo remunerados.”
“Estamos falando de uma outra época, do mercado editorial de 50 anos atrás, quando as regras e os procedimentos eram diferentes. É importante manter a perspectiva histórica. Evidentemente, este tipo de prática seria impensável nos dias de hoje.”
que sonia rodrigues simplesmente tenta desconversar alegando a mais ampla e vaga ignorância dos fatos, é evidente e suas declarações nem merecem maiores comentários.

agora, a segunda declaração, que suponho ser a de sergio machado, me parece um pouco falaciosa. concordo que "é importante manter a perspectiva histórica" e, exatamente por isso, cabe ressalvar que:
  • as regras autorais nos anos 1960 e 1970 não eram, em sua essência, diferentes das de hoje; os principais termos da convenção de berna, da qual o brasil era signatário desde o século XIX, continuam basicamente inalterados nos últimos cento e vinte anos. 
  • os procedimentos editoriais honestos, lídimos e transparentes já existem no brasil pelo menos há uns cento e setenta anos, estando firmemente implantados desde as primeiras décadas do século XX. até creio que, em boa medida, eram eles os predominantes no "mercado editorial de 50 atrás" a que se refere o publisher
  • e, por fim, a prática de falseamento das autorias de tradução, infelizmente, não só continua a ser louvada em termos retrospectivos (como demonstrou a cristalina entrevista do dono do maior grupo editorial do país), mas também a ser exercida sob diversas formas em algumas editoras, como o não gosto de plágio tem demonstrado constantemente nos últimos cinco anos.

acompanhe o caso em:

27 de mai. de 2012

"o momento talvez fundamental" III

outros embustes variados:











acompanhe o caso dessas fraudes de tradução em:

"o momento talvez fundamental" II

prosseguindo com outras amostras da capacidade da empresa "que sempre soube se reinventar", e nelson rodrigues assinando falsamente traduções para atrair vendas para a record, além de harold robbins - agora frank g. slaughter:





















veja aqui "o momento talvez fundamental" da record: fraudes de tradução.


26 de mai. de 2012

"o momento talvez fundamental" da record: fraudes de tradução

o mérito literário de harold robbins não vem ao caso. o que vem ao caso são as fraudes da record em suas traduções: nelson rodrigues? famoso por não saber nem como se dizia "gato" em inglês? que ostentava seu monoglotismo como uma coroa de pedras preciosas? e ruy castro relata, em o anjo pornográfico:
A ideia fora de [Alfredo] Machado,  para ajudar Nelson a faturar um dinheirinho fácil. Mas era também muito conveniente para sua editora: ao ler "Tradução de Nelson Rodrigues" com destaque na capa de livros de Harold Robbins, como "Os insaciáveis", "Os libertinos" e "Escândalo na sociedade", o comprador via naquilo uma garantia. Sabia que era literatura "pesada". Como poderia imaginar que Nelson era o mais acabado monoglota da língua portuguesa...? (p. 345)

Os Insaciáveis 2 Livros Harold Robbins

Harold Robbins - Os Libertinos - Nelson Rodrigues

Escândalo Na Sociedade - Harold Robbins



O Garanhão-harold Robbins, Tradução De Nelson Rodrigues

Livro Harold Robbins : O Indomável - Best-sellers



Uma Prece Para Danny Fisher - Harold Robbins

Livro Harold Robbins - Stiletto - Ótimo Estado!

Livro Harold Robbins : O Machão - Best-sellers

Harold Robbins - Os Herdeiros

Livro Ninguém É De Ninguém - Harold Robbins

A Mulher So - Harold Robbins

Os Sonhos Morrem Primeiro- Harold Robbins

e também:



alguém poderia alegar que são coisas do passado, que naqueles tempos (estamos falando de 1965 até anos bem entrados da década de 1970) não se respeitava muito a tradução e coisas do gênero. a isso, só posso responder duas coisas:

- em primeiro lugar e muito pelo contrário, bem antes de 1965, já fazia umas boas décadas que se dava bastante valor ao ofício de traduzir obras de língua estrangeira - basta ver, desde a primeira metade do século, as traduções da melhoramentos, nacional, globo, josé olympio e tantas outras.

- em segundo lugar, talvez alguém queira ver essa impostura da record como uma pequena malandragem inocente, uma jogada de marketing meio galhofeira que deu certo e vendeu milhões de exemplares numa quantidade espantosa de reedições. o fato é, porém, que o atual dono da editora, o sr. sérgio machado, ainda hoje parece achar esse embuste não só perfeitamente aceitável, mas também prova de grande inteligência empresarial, tino comercial e capacidade de "se reinventar". na verdade, esse eureka! constitui o "momento talvez fundamental" da história da empresa, segundo o que afirma o sr. sérgio machado, em entrevista publicada hoje no jornal o estado de são paulo:
Mas o momento talvez fundamental da nossa história foi quando meu pai perguntou ao meu tio: “Décio, por que a gente não faz livro que vende? ... Estou lendo um livro que me deram, Os Insaciáveis, do Harold Robbins. O negócio de conseguir direitos é comigo mesmo.” Comprou e publicou pela primeira vez um livro com o objetivo exclusivo de vender para o leitor. ... Veja o que fez para lançar esse livro, que era bem apimentado: pôs que a tradução era de Nelson Rodrigues. Nelson nunca aprendeu inglês! A cada tiragem, ele ia lá na editora pegar um dinheirinho. E a gente publicou, dele, naquela época, O Casamento. [destaque meu, db]
como vimos nas ilustrações acima, a intrujice parece ter dado tão certo que nada menos que catorze livros de robbins vêm com a tradução falsamente assinada por nelson rodrigues (além do bestseller de charles webb, a primeira noite de um homem). foram também feitos vários licenciamentos dessas fraudes para a abril cultural, o círculo do livro e a nova cultural pelo menos até 1987, a cada vez em altíssimas tiragens e várias reedições.

se este é o eixo da política empresarial do grupo record, que parece se orgulhar de ter como momento "talvez" fundamental de sua história uma descarada trapaça para embair os leitores, fico pensando... por outro lado, talvez não se possa esperar muito mais de um empresário que proclama não guardar nenhuma relação especial com sua empresa e que considera um filme sobre a máfia um excelente ícone (ou "metáfora fantástica") de sua maneira de conduzir os negócios.

para a entrevista completa do proprietário do maior grupo editorial do país, veja-se aqui.

veja-se a continuação das outras "traduções" da record em nome de nelson rodrigues:

11 de ago. de 2009

pragas



outro dia estava folheando escola de tradutores do rónai (1975), e lá ele já reclamava das fraudes e plágios de tradução, principalmente literária. não citava nomes, falava por cima, meio genericamente, e aventava algumas possíveis razões para o fenômeno. mas com certeza não achava aquilo muito bonito.

por exemplo, tenho um pouco de engulhos quando leio ruy castro, em sua biografia do nelson rodrigues, contando como se fosse algo muito divertido e sapeca o episódio arquiconhecido de que o alfredo machado da record dava um dinheirinho para o nelson, que não sabia nem como se dizia gato em inglês, para usar o nome dele como se tivesse traduzido o harold robbins, para vender mais, pois o povo associaria o nome do tradutor com sacanagem... !

e acho graça que nelson rodrigues tenha ficado assanhadíssimo numa certa época, quando lhe disseram que o vestido de noiva ia ser traduzido em vários países. as traduções esperadas naquela época não saíram - mas fico imaginando algum alfredo machado da tchecoslováquia pagando uns dinheirinhos por fora para seus anjos pornográficos de plantão darem seu nome à tradução do vestido de noiva e assim vender mais, enquanto algum pobre semitradutor que não gostava de dicionário e achava que michaelmas era nome de um lugar no interior da inglaterra inventava alguma coisa qualquer para o abacaxi em português que o chefe lhe passara... quem ia poder reclamar?

nem paulo rónai nem ninguém precisa ir muito longe para explicar nossa jequice monumental.

faço o nãogostodeplágio, vou continuar a fazer, porque acho que uma das maneiras de ajudar a controlar a praga é ir de um em um, dar os nomes aos bois, mostrar, documentar, e se for o caso recorrer à justiça contra essas baixarias. mas que às vezes dá um nojo, isso lá dá!