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19 de out. de 2019

a ver

o facebook me relembra que quatro anos atrás comentei o seguinte, numa postagem lá:

ontem, a título de curiosidade, eu perguntava qual a primeira coisa que vinha à mente dos amiguinhos ao verem o nome de gustavo barroso. sim, como bem lembraram Danilo NogueiraÉder Silveira, Thiago Alves e outros mais, gustavo barroso foi um dos principais nomes do integralismo, lá com suas divergências com plínio salgado por ser, mais do que fascista, um convicto e militante antissemita e filonazista. 
foi, como bem lembrou a Amelina de Aquino, o primeiro diretor do museu histórico nacional; muito culto, autor prolífico, foi também dicionarista, como mencionou o Braulio Tavares. e foi também fundador e dono da civilização brasileira, depois vendida para a nacional, mantendo ligações com a editora, mesmo quando já era de ênio silveira, até sua morte. 
depois de vender a civilização para a nacional, ele teve uma pequena editora por alguns anos, a agência minerva. mas bem antes disso já tinha sido tradutor da h. garnier por alguns anos, infelizmente sem assinar suas traduções para a casa, exceto nossa primeira tradução do fausto de goethe, que fez em 1913, mas que, devido à guerra, só saiu em 1920, com os devidos créditos em seu nome.ando rastreando a fortuna histórica d'"a mulher de trinta anos" de balzac no brasil. 
ela saiu inicialmente pela h. garnier em 1914, bem na época em que barroso andava trabalhando para a editora, e foi reeditada em 1922 pela agora livraria garnier. gustavo barroso funda a civilização brasileira em 1929 e exatamente o mesmíssimo texto de balzac reaparece lá em 1931. entre 1914 e 1929, a h. garnier já tinha sofrido várias vicissitudes, estava devagar-quase-parando, e não duvido nem um pouco que gustavo barroso pudesse ter-se sentido suficientemente à vontade para levar consigo sua tradução (e tradução em termos: na verdade, um copidesque de uma tradução portuguesa anterior). 
depois que a civilização foi vendida para a nacional (em 1932), mantendo o nome como selo editorial da c.e.n, sai outra edição d'"a mulher de trinta anos", em 1937, a mesma que vinha lá desde 1914.é por isso que estou bem achando que aquela edição lá de 1914 fora preparada pelo gustavo barroso - pois, do contrário, como explicar que trafegasse com tanta lepidez e lampeirice da garnier para a civilização? e - note-se - sempre anônima. 
acho sempre muito interessantes essas coisas. mas ainda tenho de pesquisar mais e melhor, para ver até que ponto vai essa hipótese.

20 de jul. de 2012

ilusões perdidas II

continuando o post anterior: pois é, perdeu-se nas brumas do tempo e da desmemória, entre os mofos dos baús abandonados, a primeira tradução brasileira de ilusões perdidas. chegamos a ela, everton grison e eu, numa gostosa e informal conversa facebuquiana hoje à tarde.

havia uma edição das ilusões de 1960, pela extinta livraria martins, em tradução de silvia (também sylvia) mendes cajado. afinal descobrimos que a primeira edição tinha saído em 1945:



o que me deixou curiosa foi o parentesco que ela teria com octavio (também otávio) mendes cajado, um seriíssimo tradutor dos anos 50 a 80, mais ou menos, que certamente todos nós já lemos em alguma de suas traduções, desde melville e dickens a rex stout e imre lákatos! alguma hora vou montar uma listagenzinha das traduções de mendes cajado.

voltando ao tema, pesquisa vai, pesquisa vem, afinal silvia era mãe de otávio, ela também tradutora entre os anos 30 e 50 - há alguns dados simpáticos aqui na wiki. dada a pista, deve ter bastante material sobre suas atividades culturais de esquerda (mas cunhada de adhemar de barros?).

em suma, é de si(y)lvia mendes cajado a primeira tradução de ilusões perdidas no brasil. a martins publicou uma segunda edição em 1960 e depois a obra caiu no esquecimento. uma pena. quem sabe não valeria um resgate?


atualização em 18/7/2018 - ver aqui::

"Dr. Octávio Mendes (1869-1931) foi eminente professor catedrático de Direito Comercial na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Era pai de Dª Leonor Mendes de Barros, nascida em 21 de julho de 1905. Em 1927, DªLeonor se casou com Dr. Adhemar Pereira de Barros, que foi Interventor (1938), Prefeito e Governador do Estado de São Paulo em duas ocasiões (1947-1951 e 1963-1966).

A biblioteca do CEDOM cópias do “Centenário de Octavio Mendes”, de Cajado,Sylvia Mendes ,Cajado Octavio Mendes, de 1969 (980 C139c 1969) com uma boa biografia. A conversão e a disponibilização deste documento em formato eletrônico pode ser de interesse."


ilusões perdidas I

interessante: (as) ilusões perdidas, pelo visto, é um dos favoritos balzaquianos no brasil, com nada menos de seis traduções diferentes, além de uma adaptação infantojuvenil e uma provável contrafação. até a distribuição temporal delas é interessante, com destaque para o surto de retraduções entre 2007 e 2011.

I.
a tradução mais conhecida e divulgada é a de ernesto pelanda e mário quintana, que saiu pela editora globo como sétimo volume da monumental comédia humana, coordenada por paulo rónai. o volume foi lançado em 1951, e a distribuição da tradução é a seguinte: pelanda fez "os dois poetas" e "um grande homem da província de paris"; quintana fez "os sofrimentos do inventor".



ao longo das décadas, ela teve várias reedições na globo (1955, 1956, 1958, 1959, 1969), além de diversos licenciamentos - para a abril cultural (1978, 1981), círculo do livro (1982, 1983, 1986), nova cultural (1993, 2000):

Livro Ilusões Perdidas=honoré De Balzac=700 Pag Circulo D Li

II.
passados mais de quarenta anos, em 1994 sai uma nova tradução, agora de maria lúcia autran dourado, pela ediouro:



III.
em 2002, a companhia das letras lança uma edição voltada para o segmento de didáticos, com tradução condensada e adaptada para o público infanto-juvenil por silvana salerno:



IV.
em 2007, sai pela l&pm a tradução de ivone benedetti:

A Comédia Humana – Ilusões Perdidas – Col. L&pm Pocket

V.
no mesmo ano de 2007, a estação liberdade publica a tradução de leila de aguiar costa:



que é licenciada em 2010 para a coleção clássicos abril, em dois volumes:



VI.
em 2011, pela penguin-companhia, temos a tradução de rosa freire d'aguiar:



VII.
sobre a provável fraude, trata-se do misteriosíssimo e certamente fantasmagórico k. d'avellar, que assombrou várias edições da h. garnier no começo do século XX. há uma exposição detalhada do caso aqui. no caso dessas illusões perdidas, o caso é tanto mais ridículo, pois continua a ser reeditado na livraria garnier, após o falecimento de hyppolite garnier. 



aqui c. 1908:

Autor:Balzac, Honoré de, 1799-1850.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Ilusões perdidas.
Imprenta:Rio de Janeiro, H. Garnier. 
Descrição física:2 v.
Notas:Registro Pré-MARC
Entradas secundárias:Avellar, K. d'.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 
Classificação Dewey:
Edição:
843
Indicação do Catálogo:843/B198il7 


VIII. sem dúvida, a tradução mais conhecida é a de pelanda e quintana, e muitos pensam que foi a primeira tradução de illusions perdues no brasil. pois é, não foi. para completar a apresentação das seis traduções mencionadas no começo do post, falta justamente a primeira delas - é uma história bonitinha, que segue no próximo post, aqui.