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28 de jun. de 2015

hermann hesse traduzido no brasil

transcrevo o excelente levantamento de gunther gottschalk, por ordem cronológica, disponível aqui, reproduzido também aqui:

Traduções das obras de Hermann Hesse no Brasil

1935 O lobo da estepe. (Der Steppenwolf). Trad. Augusto de Souza. São Paulo: Cultura Brasileira. (Coleção literatura moderna). [Reed. 1943. Rio de Janeiro: O Cruzeiro - DB]
1964 Demian. História da juventude de Emil Sinclair. Trad. Augusto de Souza. Rio de Janeiro: Cultura Brasileira. - sobre o equívoco deste título, ver minhas dúvidas aqui.
1965 Demian. História da juventude de Emil Sinclair. Trad. Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
1965 Sidarta. (Siddhartha). Trad. Herbert Caro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
1968 O lôbo da estepe. (Der Steppenwolf). Trad. Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
1969 Contos. (Märchen). Trad. Angelina Peralva. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
1969 Narciso e Goldmund. (Narziß und Goldmund). Trad. Myriam Moraes Spiritus. Rio de
Janeiro: Distribuidora Record.
1969 O jôgo das contas de vidro. Ensaio de biografia do magister Ludi José Servo, acrescida
de suas obras póstumas. (Das Glasperlenspiel). Trad. Lavínia Abranches Viotti, Flávio Vieira
de Souza. Rio de Janeiro: Distribuidora Record.
1970 Knulp. Trad. Eglê Malheiros. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
1970 O livro das fábulas. (Fabulierbuch). Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
1971 Debaixo das rodas. (Unterm Rad). Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Reed. em 1983 com o título Menino prodígio.
1971 Gertrud. Trad. Mário da Silva. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
1971 Pequeno mundo. (Kleine Welt). Trad.. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
1971 Rosshalde. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
1971 Viagem ao Oriente. (Die Morgenlandfahrt). Trad. Lêda Maria Gonçalves Maia. Rio de
Janeiro: Editora Record.
1972 Este lado da vida. (Diesseits). Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
1972 Peter Camenzind. Trad. Myriam Moraes Spiritus. São Paulo: Brasiliense.
1972 Rosshalde. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
1972 O lôbo de estepe. (Der Steppenwolf). Trad. Ivo Barroso. Rio de Janeiro:Civilização Brasileira (Biblioteca do leitor moderno, 95).
1974 Sobre a guerra e a paz. (Krieg und Frieden). Trad. Lya Luft. Rio de Janeiro:
Distribuidora Record.
1974 Hermann Lauscher. Trad. Eloísa Breda Ferreira. São Paulo: Brasiliense.
1976 Andares. Antologia poética. (Stufen. Ausgewählte Gedichte). Trad. Geir Campos. Rio
de Janeiro: Nova Fronteira.
1976 Minha Vida. (Erzählungen). Trad. Affonso Blacheyre. Rio de Janeiro: Arte Nova.
1976 O último verão de Klingsor. (Klingsors letzter Sommer. Klein und Wagner.
Kinderseele). Trad. Pinheiro de Lemos. Rio de Janeiro: Distribuidora Record.
1976 Para ler a pensar. Pensamentos extraidos de seus livros e cartas. (Lektüre für Minuten).
Trad. Bélchior Cornelio da Silva. Rio de Janeiro: Distribuidora Record.
1977 A arte dos ociosos. (Die Kunst des Müßiggangs). Trad. Paul Schenetzer, Mathilde Latja.
Rio de Janeiro: Distribuidora Record.
1977 Minha Fé. (Mein Glaube). Trad. Luiza L. Leite Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora Record.
1977 Obstinacao. (Eigensinn). Trad. Bélchior Cornelio da Silva. Rio de Janeiro: Editora
Record.
1977 Pequenas alegrias. (Kleine Freuden). Trad. Lya Luft. Rio de Janeiro: Editora Record.
1977 Vivências. Trechos escolhidos. (Erzählungen). Trad. Lya Luft. Rio de Janeiro: Editora
Record.
1978 Caminhada. (Wanderung). Trad. Ildikó Maria Jávor. Rio de Janeiro: Editora Record.
1978 Para ler e guardar. (Lektüre für Minuten, Neue Folge.) Trad. Belchior Cornelio da Silva.
Rio de Janeiro: Editora Record.
1980 Correspondência entre amigos. (Hermann Hesse, Thomas Mann, Briefwechsel.) Trad. Lya
Luft. Rio de Janeiro: Editora Record.
1980 [1976?] Histórias medievais, compiladas por Hermann Hesse. (Geschichten aus dem Mittelalter, hrsg. von Hermann Hesse.) Trad. Lya Luft. São Paulo: Distribuidora Record.
1980 Narrativas. Textos escolhidos. (Erzählungen). Trad. und Vorwort: Lya Luft. Rio de
Janeiro: Distribuidora Record.
1982 ersch. Demian. (Demian). Ber. Brasilien. Trad. Ivo Barroso. Distribuidora Record.
1982 ersch. O jogo das contas de vidro. (Ber. Brasilien). (Das Glasperlenspiel). Trad. Lavinia
Abranches Viotti e Flavio Vieira de Souza. Distribuidora Record.
1983 Este lado da vida. (Diesseits.) Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Distribuidora Record.
1983 Viagem ao oriente. (Die Morgenlandfahrt.) Trad. Leda Maria Conçalves Maia. Rio de
Janeiro: Distribuidora Record.
1983 Sonho de uma flauta; e outros contos. (Märchen). Trad. Angelina Peralva. Rio de
Janeiro: Editora Record.
1983 Transformaçoes. (Piktors Verwandlungen. Ausgewählte Gedichte). Nachwort von
Volker Michels. Trad. Lya Luft. Rio de Janeiro. Editora Record.
1984 ersch. Este lado da vida. (Diesseits). Ber. Brasilien. Trad. Alvaro Cabral. Distribuidora
Record.
1987 O caderno de Sinclair. (Sinclairs Notizbuch). Com aquarelas do autor. Trad. Marija
Cesar Mendes Bezerra. Rio de Janeiro: Editora Record.
1999 ersch. Felicidade. (Glück). Trad. Lya Luft. Editora Record.


obs.: acrescentem-se os seguintes títulos:

1986 Quem pode amar é feliz. Trad Luis Montez. Rio de Janeiro: Record.
2010 A infância do mago. Trad. Samuel Titan Jr. Coleção Sabor Literário. Rio de Janeiro: José Olympio.
[notícia de uma nova tradução de O lobo da estepe feita por Otto Schneider para a editora carioca O Cruzeiro, aqui - não encontrei registro de que tenha sido lançada]

atualização: encontram-se diversas retificações bibliográficas nos comentários ao post, feitas pelo leitor murilo.


o problema da crítica de fontes: um exemplo de hermann hesse no brasil

sempre nesse intuito de reconstituir o passado tradutório que compõe nossa formação cultural e nosso patrimônio bibliográfico, eis um dado que, a meu ver, não procede:

1935 O lobo da estepe. (Der Steppenwolf). Trad. Augusto de Souza. São Paulo: Cultura brasileira. (Coleção literatura moderna).
1964 Demian. História da juventude de Emil Sinclair. Trad. Augusto de Souza. Rio de Janeiro: Cultura Brasileira. 
1965 Demian. História da juventude de Emil Sinclair. Trad. Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Ed. civilização brasileira.

encontrei essa referência num ótimo estudo sobre a recepção crítica de hermann hesse no brasil (1935-2005), de joão paulo francisco de souza, disponível aqui, à p. 293, dando como fonte o site de gunther gottschalk, professor emérito de letras germânicas na universidade da califórnia, um trabalho incrivelmente exaustivo e magnífico sobre hermann hesse, http://www.gss.ucsb.edu/projects/hesse/.

pequenos lapsos, sobretudo em projetos de tal envergadura como o do prof. gunther, são inevitáveis. pesquisadores que recorrem a quaisquer fontes secundárias - e mesmo primárias - nunca farão mal em cotejar a veracidade das informações e buscar outras referências corroboradoras. esse procedimento, chamado de "crítica das fontes", é uma regra metodológica básica para qualquer trabalho historiográfico.

no caso presente, não foi o que aconteceu, e assim temos reproduzido um dado inverossímil, qual seja, que a primeira tradução de demian teria sido feita por augusto de souza e teria sido publicada pela cultura brasileira em 1964. ora, ocorre que a editora cultura brasileira encerrou suas atividades em 1938 (e, ademais, era de são paulo e não do rio de janeiro) e, portanto, não teria como publicar nada em 1964, ainda por cima uma misteriosa tradução que jamais fora publicada em lugar nenhum antes de 1964, sendo que augusto de souza, se ainda estava em vida, já há algum tempo não traduzia mais nada, acrescendo-se ainda que a única referência a tal edição é esse mesmo arrolamento, que foi utilizado sem a necessária crítica da fonte.

minha impressão é que houve um empastelamento involuntário nas linhas referentes aos verbetes de 1964 e 1965 no site do prof. gunther - que no entanto, repito, tem servido de fonte para pesquisadores brasileiros sem apuração ulterior. essa hipótese tornaria compreensível a troca entre Cultura Brasileira e Civilização Brasileira, entre São Paulo e Rio de Janeiro, bem como a manutenção do mesmo título exato para as duas aparentes edições - na verdade sendo apenas uma, a de 1965, esta sim a primeira tradução de demian no brasil, na lavra de ivo barroso.

augusto de souza traduziu hermann hesse, sim, para a paulista cultura brasileira, sim, em 1935: o lobo da estepe. foi a primeira obra de hesse traduzida e publicada em livro entre nós. mas, até onde sei e até prova em contrário, este foi o único hesse que a editora de galeão coutinho publicou, e foi o único hesse que augusto de souza traduziu.