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15 de jun. de 2016

o rubaiyat aloprado

incluí agora no levantamento da obra de omar khayyam traduzida no brasil o livro rubaiyat na tradução de milton lins, que saiu pela editora recifense bagaço em 2014, com visualização parcial disponível aqui.

milton lins foi o caso mais assombroso que conheci na área de tradução literária. veja aqui.

eis um exemplo do grau de surrealismo alcançado por milton lins num dos rubais traduzidos a partir da versão de fitzgerald:


3 de dez. de 2012

que são jerô nos proteja, II

aliás, já vi que presqu'île virou quase-ilha [sic], que um doubler que devia ser fazer as vezes de, substituir, virou dobrar; que o duque de lauzun virou nome de um lugar ("les dames aimées jadis de Lauzun", "amadas damas deviam visitar outrora em Lauzun"); que a covinha no queixo de baudelaire era como "um golpe final do polegar de um estatuário" (para "le coup de pouce final du statuaire"), e por aí vai.

não me importa nada o que dr. milton lins, eminente médico e beletrista nas horas vagas, faz ou deixa de fazer. o que não perdoo é que a academia brasileira de letras, nas pessoas de ivan junqueira, carlos nejar e evanildo bechara como membros da comissão julgadora, tenha-lhe atribuído o título de "melhor tradutor literário do brasil" em 2010.

veja aqui a saga da maior bofetada publicamente desferida no digno ofício da tradução.

1 de dez. de 2012

que são jerô nos proteja

li no indispensável blog de ivo barroso, a gaveta do ivo, que milton lins, o implacável átila das letras traduzidas, galardoado pela abl em 2010 com o prêmio odorico mendes (odorico, odorico, já conseguiste te recuperar de tão brutal choque no repouso de tua tumba?) por suas devastações tradutórias, ataca novamente os pobres mortais indefesos, desta vez com Prefácio para as obras completas de Charles Baudelaire, de théophile gautier, pela editora bagaço. oh céus, o que nos aguarda nessa nova investida?


sobre a irrefreável compulsão à chacina literária demonstrada por milton lins ao longo dos anos e sua ascensão aos céus tradutórios da academia brasileira das letras pelas mãos do imortal marcos vilaça, seu conterrâneo e então presidente da casa, com um empurrãozinho do imortal ivan junqueira e a conivência de carlos nejar e evanildo bechara, no maior escárnio a nosso digno ofício de que se tem notícia na história da tradução no brasil, veja aqui.

em tempo: continuo a defender o direito de qualquer um traduzir qualquer coisa de qualquer jeito que quiser em sua esfera privada. o que não defendo - pelo contrário, repudio e tanto mais vivamente depois do coroamento da abl - é que, sabe-se lá por qual gosto malicioso e perverso, se escarneça publicamente e tão ofensivamente dos autores, de nosso ofício e dos leitores.

19 de jul. de 2012

prêmio abl de tradução 2012

após o trauma cataclísmico que abalou todos os alicerces linguísticos do mundo e que foi a verdadeira causa da queda da torre de babel - a premiação da ABL a milton lins na categoria de tradução em 2010 (veja aqui) -, a distinta academia volta ao mundo real das traduções pelo segundo ano seguido: agora em 2012 o escolhido foi rubens figueiredo, com guerra e paz de tolstói, com entrega do prêmio hoje. viva, parabéns!


6 de jun. de 2011

por que quero premiações de verdade

aproxima-se a data do prêmio de tradução da abl para obras literárias publicadas em 2010.

gostaria de explicar por que acho importante que esse prêmio de fato premie boas traduções.

em primeiro lugar, creio ser inegável que as obras de tradução têm um peso considerável no brasil. se - segundo dados que vejo na internet - nos estados unidos as traduções literárias correspondem a menos de 4% da produção editorial e, na europa, a cerca de 12-14%, no brasil alguns pesquisadores como heloísa barbosa e lia wyler estimam uma proporção que chega aos 80%.

apesar dessa presença significativa de obras traduzidas no país, o reconhecimento do ofício de tradução está muito aquém do que se poderia esperar. uma das formas de reconhecimento público, em todo o mundo, é a outorga de prêmios a obras de destacada qualidade. no brasil, porém, conta-se nos dedos de uma das mãos o número de prêmios de tradução. e refiro-me apenas à tradução literária, pois a tradução não literária é ainda menos reconhecida.

veja-se como está a situação dos prêmios de tradução literária no brasil:
  • o prêmio açorianos deixou de existir desde o ano retrasado;
  • agora em 2011, a cbl eliminou uma das duas categorias de tradução no prêmio jabuti;
  • com isso, restam apenas o jabuti (em apenas uma categoria, câmara brasileira do livro), o paulo rónai (fundação biblioteca nacional) e o da abl (academia brasileira de letras). a fundação nacional de literatura infanto-juvenil mantém o monteiro lobato tradução criança e o monteiro lobato tradução jovem.
em tradução não literária, temos apenas um prêmio, o da união latina, a cada três anos!

é por isso que acho que temos tanto mais razão em esperar que esses poucos, minguados, rarefeitos prêmios de tradução de fato premiem os praticantes de um ofício que responde por grande parte das publicações e das leituras do país.

e é por isso que acho uma pena enorme que a abl tenha descarrilado totalmente no ano passado, ao conceder um desses raríssimos prêmios a uma obra que não tinha as qualidades mínimas necessárias para ser sequer indicada.

ademais, não podemos esquecer que, antes desse triste episódio na abl em 2010, seu histórico de premiações era digno e louvável. veja-se:
2003 – Boris Schnaiderman
2004 – Bruno Palma e Marcos Santarrita
2005 – Ivo Barroso e Eduardo Brandão
2006 – Geraldo de Holanda Cavalcanti
2007 – Bárbara Heliodora
2008 – Leonardo Fróes e Agenor Soares dos Santos
2009 – Paulo Bezerra
[2010:  Milton Lins]
quanto ao velho argumento de que a abl, sendo uma fundação de direito privado, premia quem ela bem quiser, já expus longamente minha opinião: resumindo, por seu papel institucional, ela tem, sim senhor, de dar algum tipo de satisfação pública pelas escolhas culturais que faz.
 
então, a quem considera tola e inglória essa minha briga para se ter uma premiação legítima na abl, eu respondo: não, muito pelo contrário! temos é de torcer para que a abl volte a reconhecer devidamente a importância das boas traduções.

a quem afirma que essa minha esperança na verdade seria uma cruzada em proveito próprio, só posso lembrar que não costumo fazer tradução literária e me sinto bastante tranquila para defender desinteressadamente prêmios para traduções literárias meritórias.
 
e por fim, a quem pensa que eu não deveria criticar premiações francamente equivocadas porque estaria ferindo colegas de ofício, bom, só posso dizer que o corporativismo nunca foi uma coisa muito saudável em qualquer ofício que seja.
 
atualização: ao que parece, a comissão de tradução da abl já se reuniu e já tem suas indicações para este ano. seria legal se divulgassem.

quem quiser se informar sobre os descaminhos da abl em sua premiação de 2010, ver aqui.
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5 de jun. de 2011

"se tirar nota zero, eu furo o céu": o shakespeare de milton lins

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o despropósito que é a tradução dos sonetos de shakespeare cometida por milton lins, aquele mesmo da acintosa premiação da abl em 2010, continua a espantar seus leitores. menos mau que esse crime de lesa-letras não passe em branco, como mostra uma lúcida resenha publicada recentemente: veja aqui.

entre maio e junho de 2010, este blog se manifestou longamente sobre o assunto: a bofetada pública que a abl desferiu simbolicamente contra o digno ofício de tradução ao premiar uma obra de tradução que apenas demonstrava a incompetência linguística de seu autor; o jogo de influências dentro da abl; o silêncio ou desconversa de vários imortais; a cobertura da imprensa sobre esse escândalo; a manifestação de muitos tradutores sérios e intelectuais probos, além de vários exemplos ilustrando os incríveis disparates perpetrados por milton lins. veja aqui os posts publicados a esse respeito.

imagem: voodoo pen-holder, google images
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22 de jul. de 2010

"os críticos têm razão"



já dei por encerrado o capítulo de demonstração do absurdo envolvendo a escolha da academia brasileira de letras da obra pequenas traduções de grandes poetas para o prêmio abl de tradução 2010.*

* aliás, pelo que eu soube, na cerimônia de entrega o prêmio foi atribuído ao "conjunto da obra" de milton lins.

mesmo assim, reproduzo aqui a recente contribuição que um leitor deixou no post a controvérsia, por se concentrar na tradução dos sonetos de shakespeare feita por milton lins, tão louvada por ivan junqueira, wilson martins, lêdo ivo e outros, conforme ilustrei no referido post.

pois a questão é, como diz o leitor: "Os críticos tem razão. Nós é que somos cegos".

Sonnet 26

To thee I send this written embassage,
To witness duty, not to show my wit.

Escrita te remeto esta mensagem,
Para testar tarefa, não ceder.

Sonnet 34

For no man well of such a salve can speak,
That heals the wound, and cures not the disgrace:

E para alguém parolear tu negues
Pensar o ferimento em meu desgosto:

Sonnet 72

My name be buried where my body is,
And live no more to shame nor me nor you.

Meu nome enterrará meu corpo inteiro,
Em nós toda vergonha é realidade.

Sonnet 96

How many lambs might the stern wolf betray,
If like a lamb he could his looks translate!

Quantas ovelhas vão trair o lobo, enfim,
Como o cordeiro trai mudando o seu olhar!

Sonnet 97

How like a winter hath my absence been
From thee, the pleasure of the fleeting year!

Como foi neste inverno a minha ausência
De ti, com que prazer o mês sumiu!

Sonnet 107

And thou in this shalt find thy monument,
When tyrants’ crests and tombs of brass are spent.

E tu encontrarás teu monumento,
Se em tumba de tirano houver alento.

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19 de jul. de 2010

prêmio abl de tradução 2010: a controvérsia

prêmio da abl recebe críticas, matéria de guilherme freitas, caderno prosa&verso, jornal o globo, de 17/07/10:
Com entrega marcada para dia 20, o prêmio literário de tradução da Academia Brasileira de Letras tem provocado polêmica entre os profissionais da categoria desde o anúncio, em junho, do vencedor: o pernambucano Milton Lins, pela série em três volumes “Pequenas traduções de grandes poetas”, com versões de originais em inglês, francês e espanhol. Elogiadas pelo júri formado pelos acadêmicos Carlos Nejar, Ivan Junqueira e Evanildo Bechara como “preciosas antologias da melhor poesia que se escreveu na literatura ocidental desde o século XVI”, as obras foram criticadas por tradutores, que apontam erros básicos em diversos textos da série, editada por conta própria por Lins.
Os primeiros protestos vieram da tradutora Denise Bottmann (foto ao lado), autora do blog “Não gosto de plágio” (), que listou uma série de erros básicos de vocabulário, como no poema “Zona”, de Apollinaire, no qual a expressão “les hangars de Port-Aviation” (os hangares [do aeroporto] de Port-Aviation) vira “o hangar de algum Porta-Avião”. Denise criticou também escolhas “infelizes” de Lins, como em “Vénus anadyomène”, de Rimbaud, onde o verso “Belle hideusement d’un ulcère à l’anus” é vertido como “Tem úlcera — que horror! — ao pé do fiofó”. As críticas foram endossadas por outros tradutores, como Jorio Dauster e Ivo Barroso.

— Entendo que o prêmio de tradução de 2010, concedido a uma obra que nada tem de plágio, mas que peca por falta de requisitos mínimos de qualidade tradutória, é um acinte. A ABL deu uma bofetada em público no ofício da tradução, perante toda a sociedade — diz Denise.
O prêmio de tradução da ABL, que confere R$ 50 mil ao vencedor, foi entregue desde 2003 a profissionais de renome, como Boris Schnaiderman, Eduardo Brandão e Bárbara Heliodora. Procurada pelo GLOBO, a ABL preferiu não comentar as críticas.

reproduzo abaixo outras opiniões.* sobre os sonetos de william shakespeare:
  • "notabilíssima tradução, "criação poética da mais alta qualidade", "meu caloroso aplauso" - mário gibson barbosa
  • "extraordinária façanha", "esplêndida versão" - ivan junqueira
  • "admiráveis traduções de shakespeare" - wilson martins
  • "primorosa tradução que o coloca entre os mais ... adestrados tradutores de shakespeare em nossa língua" - lêdo ivo
  • "ilustre tradutor ... inquieto e buscador ... lúcido e vário, nunca traditore" - nelson saldanha
  • "rememoremos suas traduções dos sonetos de shakespeare. não é fácil manter a métrica, o ritmo - como ele conseguiu", "trafega ..., com igual desenvoltura, pelo francês" - alvacir raposo
sobre pequenas traduções de grandes poetas:
  • "suas traduções não são 'pequenas', mas sim grandes obras. ... somente um poeta é capaz de fazê-lo - e um poeta que possua um profundo conhecimento da língua original" - mário gibson barbosa
  • "são traduções exemplares ... grande prazer estético" - sérgio paulo rouanet
  • "muitas vezes encontrei e encontro mais em suas traduções do que nos versos originais ... rara e muito valiosa contribuição à cultura, em nosso país" - jarbas maranhão
  • "suas 'pequenas traduções de grandes poetas' ... nada têm de pequenas" - anderson braga horta
  • "...'grandes poetas' que você traduziu, com tanta perícia e sensibilidade, para o nosso idioma" - ivan junqueira
  • "parabenizo-o pelo modo com que abraça a sua tarefa e não se dobra diante de cruciais desafios" - marco lucchesi
  • "dê-se por revogado o 'pequenas' da capa ... passando a ser ... 'grandes traduções de grandes poetas' por ser o trabalho de milton lins, em mais este livro, monumental" - josé paulo cavalcanti filho
  • "trabalho de ourivesaria e artesanato ... que muito honra e dignifica a cultura e a inteligência brasileiras" - murilo melo filho
  • "suas 'pequenas traduções' [III] atestam, mais uma vez, a sua perícia tradutória", com "renovada admiração" - ivan junqueira
* extraídas das orelhas e prefácios de pequenas traduções de grandes poetas II, III, IV.

acompanhe a controvérsia aqui.
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16 de jul. de 2010

para lembrar



PublishNews - 16/07/2010 - Redação

Será na próxima terça-feira (20) a festa de aniversário da Academia Brasileira de Letras. Na solenidade, que começa às 17h com José Murilo de Carvalho como orador, a ABL fará a entrega do Prêmio Machado de Assis ao crítico literário, professor, escritor, ensaísta e filósofo paraense Benedito Nunes. Concedido desde 1941, ele dá ao vencedor R$ 100 mil.

Neste dia em que comemora 113 anos, também serão premiados os vencedores dos “Prêmios ABL” que ganharão, além do diploma, R$ 50 mil. São eles: Outra vida (Alfaguara), de Rodrigo Lacerda, na categoria ficção (conto, romance, teatro); na infanto-juvenil, o livro Marginal à esquerda (RHJ), de Angela-Lago; Pequenas traduções de grandes poetas (edição do autor), do pernambucano Milton Lins (que gerou polêmica em blogs e afins)* na categoria tradução; em poesia, A máquina das mãos (7Letras), de Ronaldo Costa Fernandes; em história/ciências sociais, Escravismo em São Paulo e Minas Gerais (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Edusp), de Francisco Vidal Luna, Iraci Del Nero e Herbert S. Klein; em ensaio e crítica literária, O controle do imaginário & a afirmação do romance (Companhia das Letras), de Luiz Costa Lima, e cinema, para os filmes A erva do rato e Hotel Atlântico, dirigidos, respectivamente, por Júlio Bressane e Suzana Amaral.

A comemoração será no Petit Trianon (Av. Presidente Wilson 203 – Castelo - Rio de Janeiro/RJ. Tel.: 21 3974-2500)."

* incluir a folha de s.paulo, com duas extensas matérias a respeito, e o jornal o globo, com uma nota, num genérico "e afins" é de doer... tirando esse enorme understatement, é bom lembrar no que consiste a "polêmica": acompanhe aqui.

q.e.d.




Bien es verdad que tal vez,
Olalla, me hás dado indicio
que tienes de bronce el alma
y el blanco pecho de risco.

É verdade que talvez,
Eulália, me deste indício
que de bronze tens a alma
teu peito branco é de risco.


risco em espanhol quer dizer "rochedo": seria um peito, um coração de pedra. detalhe adicional: tal vez quer dizer "às vezes", "vez por outra".

Verdade é que tenho, Olaia/ Em ti descoberto indícios/ De teres a alma de bronze,/ E o peito de gelo frio - viscondes de castilho e azevedo

É bem verdade que, às vezes/ Olália, me deste indícios/ de teres alma de bronze/ e peito de alvo granito - eugênio amado.


essa outra quadra é muito bonitinha:

Si el amor es cortesia,
de la que tienes colijo
que el fin de mis esperanzas
ha de ser cual imagino.

[se o amor é cortesia,/ da que tens deduzo/ que o fim de minhas esperanças/ há de ser como imagino.]

Se o amor é cortesia,
daquela que tens colhido
que no fim das esperanças
há de ser como imagino.

Se amores têm cortesia/ Da que tu mostras colijo/ Que o fim das minhas esp'ranças/ Há de ser qual imagino. - viscondes de azevedo e castilho.

Se o amor for cortesia,/ deduzo, da que me exibes,/ que o fim destas esperanças/ há de ser como imagino. - eugênio amado

Miguel de Cervantes, Dom Quixote, Livro I, cap. XI. a tradução de milton lins se encontra em pequenas traduções de grandes poetas II, pp. 65-66.


meu objetivo até agora tem sido refutar concretamente, com exemplos minuciosos e bem documentados, as alegações do imortal ivan junqueira e o parecer da comissão de seleção (composta por evanildo bechara, carlos nejar e o mesmo junqueira). a abl, na figura destes imortais, apresentou publicamente razões que acredito serem incorretas e/ou inverídicas. repito mais uma vez que, em vista da importância histórica e cultural da academia brasileira de letras, seus atos têm uma ressonância na sociedade que não pode ser minimizada nem ignorada. neste sentido, a atribuição do prêmio ABL de tradução 2010 a uma obra carente de requisitos para aspirar ao título de tradução representa, a meu ver, um gesto certamente desrespeitoso a todos os intelectuais, leitores e tradutores do país.

com este post, encerro a série documental de citações, cuja finalidade é demonstrar a fragilidade dos critérios apresentados pela abl para a escolha do laureado. creio que essa finalidade já foi atendida à suficiência. 

até o dia 20 de julho, data da entrega pública do prêmio ABL de tradução 2010, continuarei a expor meu repúdio, concentrando-me sobre o tema da responsabilidade pública que entendo caber à academia brasileira de letras.

sobre os arremedos de tradução perpetrados por milton lins e sua premiação pela academia brasileira de letras, ver aqui

15 de jul. de 2010

o céu que se cuide!



o leitor thiago perguntava, em coup de grâce, de onde eu extraí a citação do inacreditável "se tirar nota zero, eu furo o céu" para were it aught to me i bore the canopy, o verso inicial do soneto 125 de shakespeare.

pois é, thiago: saiu do volume acima, o qual, acredite ou não, existe! é uma edição particular, custeada pelo próprio tradutor, de 2005, pela gráfica fac form, de recife. não está disponível no circuito comercial, pois, até onde consegui entender, são tiragens pequenas para distribuição entre amigos e conhecidos. mas há alguns exemplares à venda em sebos da rede estantevirtual.

fico até com dó de milton lins pela arapuca que os imortais marcos vilaça, ivan junqueira, carlos nejar e evanildo bechara lhe montaram. ao lhe darem um prêmio de imensa visibilidade pública, lançaram luz pública sobre obras que se destinavam à circulação restrita e privada. que constrangimento! e que constrangimento para nós brasileiros, em primeiro lugar, por termos de arcar com a presença e a memória desses despautérios da abl!

paródia bananêra


shakespeare, soneto 116, frase inicial.

Let me not to the marriage of true minds/ admit impediments.

[em prosa chã: não aceitarei impedimentos à união de espíritos (ou almas) sinceros.]

De almas sinceras a união sincera/ Nada há que impeça. - bárbara heliodora

Não há empecilhos quando mentes/ Verdadeiras se afeiçoam. - thereza christina motta



Ao casório não vou de homens sabichões,/ nem os tento impedir. - milton lins

[sonetos de william shakespeare, soneto cxvi. recife, fac form, 2005, p. 116]

14 de jul. de 2010

coup de grâce


o bardo assassinado




se tirar nota zero, eu furo o céu?



sonetos de william shakespeare, tradução de milton lins,
agraciado com o prêmio ABL de tradução 2010.


as asas ligeiras da poesia




voici l'heure où tombe le voile
qui, le jour, cache mes ennuis

eis a hora em que se extingue a vela
que o dia esconde os meus pernoites

[eis a hora em que cai o véu/ que de dia esconde meus desgostos]

oh! oui, c'est une amère joie
que de se jeter un moment,
comme une volontaire proie,
dans les serres de son tourment

sim, é amarga uma alegria,
de se jogar por um momento
como uma presa que se cria
por sobre as serras do tormento

[oh! sim, é amarga alegria/ lançar-se um momento,/ como presa voluntária,/ nas garras de seu tormento]

mme de girardin, la nuit, trad. milton lins, pequenas traduções II, pp. 219 e 221


13 de jul. de 2010

abl: o público e o privado

repito que, em minha opinião, qualquer um pode traduzir o que quiser do jeito que bem entender. nada tenho contra o sr. milton lins, e até admiro sua atitude intimorata, sua singeleza inabalável.

o que não pode e o que não admiro é uma entidade literária do porte de uma academia brasileira de letras - que, mesmo sendo fundação de direito privado, deve algum tipo de satisfação de seus atos à sociedade - coroar publicamente iniciativas que, estas sim, melhor fariam se continuassem nas sombras da privacidade.*

ao trazê-las à luz da opinião, a abl na verdade dá um chute público na dignidade do ofício e mostra público desrespeito para com tradutores, leitores e a sociedade em geral.

* diga-se de passagem que tais iniciativas foram lançadas apenas em restritas edições privadas do próprio autor. não estão à venda no circuito comercial, e nem sequer constam no catálogo das editoras que as imprimiram. apenas por acaso encontrei alguns volumes à venda em sebos da rede estantevirtual, com suas primeiras páginas visivelmente removidas (imagino que ali constavam as dedicatórias de milton lins aos amigos a quem distribuiu os exemplares).

prêmio abl de ligeireza 2010

o tradutor, poeta, acadêmico e imortal ivan junqueira declarou à imprensa que o Prêmio ABL de Tradução 2010 seria um reconhecimento de uma vida inteira dedicada à tradução.

ao ser informado de que milton lins se aventurou ao ofício há dez ou doze anos, ivan junqueira reagiu: "Pela quantidade de coisa que ele traduziu, eu imaginava que fosse mais tempo"...

já comentei essa reação do imortal tradutor ivan junqueira, pelo lado trocista da coisa. mas, se avaliarmos melhor, vemos que a surpresa do imortal é fundamentada. pois quem há de crer que é pouca coisa traduzir  rimbaud em metro e rima, todo o espólio poético de andré chénier, a totalidade dos 154 sonetos de william shakespeare, quatro volumes de pequenas traduções de grandes poetas, os álcoois de apollinaire, os versos do dom quixote, assim num estalar de dedos?

vejamos, pois:



será que milton lins realmente achou que o galho "retumba" em vez de pender ou recair sobre o banco? ou foi porque assim não precisava perder tempo procurando outra solução para a rima?
e o musgo? virou espuma porque era mais ligeiro e maneiro?

outra forma de ligeireza é a que se encontra no prefácio de pequenas traduções II, p. 13: "No translation would be possible [etc.], escreveu em inglês Walter Benjamin, filósofo e crítico literário alemão". ah, é mesmo? benjamin então escreveu o famoso prefácio à sua tradução de poemas de baudelaire, Die Aufgabe des Übersetzers ["a tarefa do tradutor"], em inglês?!

de qualquer forma, espero que a abl, que aliás conta com tantos tradutores entre seus membros, ao menos enrubesça pela injúria ao ofício e pelo insulto a seus praticantes.

imagem: vergonha

7 de jul. de 2010

non cotuca!

o imortal ivan junqueira declara que o Prêmio ABL de Tradução 2010 teria sido concedido a milton lins em reconhecimento à obra de uma vida inteira. bom, na verdade são apenas dez ou doze anos brincando de contar sílabas e desencavar rimas, mas vá lá, que seja. o que importa é que, pelo jeito, faz algum tempo que milton lins vem se preparando para o troféu juó bananère de rimas e imagens sugestivas. 


[José-Maria de Heredia, "La Dogaresse", tradução de Milton Lins, "A Dogaresa (esposa do Doge)" [sic], in Pequenas traduções de grandes poetas II, 2007, p. 183]

veja também:
atualizado em 13/07/10: eu havia grafado errado como "juó bananèro". graças ao alerta de um leitor, fica corrigido: juó bananère.

troféu juó bananère


outro dia, carlos alberto bárbaro deixou um comentário inspirador, lembrando a figura de juó bananère, autor de la divina increnca. em homenagem a ele, fica criado o troféu em seu nome, para rimas e imagens sugestivas.

I.
aqui alguns versos de sua tradução de cyrano de bergerac.

"Per San Gennàro, é quexo di sobra...
Apparece un repoglio ô una abobra.
...
Tuo quexo fatale, uguale d'una giaca,
Sará a tua eterna urucubacca."

[juó bananère, o quexo]

II.
milton, com sua picardia,
quis correr em seu encalço:
faltou, porém, galhardia
pr'evitar o passo em falso.

"A aveia apita
A sarça grita
...
As gares toam
Os olhos soam"

[verlaine, "charleroi", in milton lins, "carlos-rei" (sic), ptgp, pp. 403-4 - "L'avoine siffle/ Un buisson gifle/ ... Des gares tonnent,/ Les yeux s'étonnent]

III.
o pupilo não desacorçoa
e se atira ao jovem rimbaud:
transmuta uma bête à toa
em bicho digno de salambô.

"como de esquife verde em ferro branco, a fronte
da dona, de cocós assaz empomadados,
emerge da banheira, um lento mastodonte..."

[rimbaud, vénus anadyomène, ibid., p. 327 - "Comme d'un cercueil vert en fer blanc, une tête/ De femme à cheveux bruns fortement pommadés/ D'une vieille baignoire émerge, lente et bête...". aliás, não perca tempo o leitor imaginando como um caixão de ferro branco pode ser ao mesmo tempo verde. é que fer blanc não é ferro branco, e sim lata, ferro estanhado, folha-de-flandres...]

acompanhe a increnca ABL 2010.

imagem: brasão de juó bananère, non cotuca!

atualizado em 13/07/10: eu havia grafado errado como "bananèro" e agradeço a correção de um leitor no comentário. fica, portanto, corrigido: juó bananère.

2 de jul. de 2010

ih, sujou...




apollinaire, "le printemps" ("a primavera"), tradução de milton lins, in pequenas traduções de grandes poetas, p. 25, obra agraciada com o prêmio ABL de tradução 2010.



"o país dos lotófagos", isto é, a ilha dos comedores de lótus (odisseia) virou um lameiro danado onde o povo come lodo?! seu milton, seu milton...

30 de jun. de 2010

o parecer da abl

parecer dos imortais evanildo bechara, carlos nejar e ivan junqueira, membros da comissão de seleção que decidiu premiar pequenas traduções de grandes poetas, de milton lins:
«constituem preciosas antologias da melhor poesia que se escreveu na literatura ocidental desde o século XVI».



vêm alinhavados em ordem alfabética 29 poetas que compõem um painel heteróclito, sem critério visível que possa lhe dar alguma sustentação. exemplos preciosos da "melhor poesia da literatura ocidental desde o século XVI": adolphe retté? stuart merril? aloysius bertrand? mesmo jean moréas, émile verhaeren ou xavier de maistre dificilmente podem ser considerados tão excelsos poetas... e paul éluard!!!