a coleção folha havia anunciado que publicaria pensamentos de pascal na antiga tradução de paulo m. oliveira. por alguma razão que desconheço e nem creio que venha ao caso, optou-se por uma outra tradução, cuja autoria é identificada na ficha catalográfica da obra em nome de isolina bresolin vianna, para a editora edipro, que licenciou seu copyrigth [sic] para a coleção "livros que mudaram o mundo".
a edição francesa adotada para a tradução é de 1671, em publicação a cargo de eric dubreucq. encontra-se disponível aqui.
esperar-se-ia de uma nova tradução de pascal - existem tantas traduções de seus pensamentos em português! - que pudesse talvez contribuir para a fortuna crítica do pensador em terra brasilis.
infelizmente, não parece ser este o caso. a bem da verdade, temo que essa tradução publicada pela coleção folha até constitua um retrocesso em relação às traduções anteriores dos pensamentos. digo "retrocesso", pois desde as primeiras linhas da obra é possível notar deficiências no domínio do francês que comprometem o entendimento até mesmo de coisas muito simples.
assim temos logo na primeira frase de "Contra a indiferença dos ateus":
Que ceux qui combattent la Religion apprennent au moins quelle elle est avant que de la combattre.
isto é, ao pé da letra: "Que aqueles que combatem a Religião aprendam pelo menos o que ela é antes de combatê-la". um conselho sensato, diga-se de passagem, que se aplica não só à religião.
estranhamente temos na edição edipro/folha: "Aqueles que combatem a Religião mais fazem que ela siga avante do que a combatem".
ou S'ils parlaient de la sorte, ils combattraient à la vérité une de ses prétentions como "Se eles falassem da sorte, combateriam a verdade única de suas pretensões" (Se falassem dessa maneira, na verdade estariam combatendo uma de suas pretensões).
ou Ainsi notre premier intérêt et notre premier devoir est de nous éclaircir sur ce sujet d'où dépend toute notre conduite como "Assim, nosso primeiro interesse e nosso primeiro dever é nos esclarecer sobre que assunto deve depender toda nossa conduta" (...nos esclarecer sobre esse assunto, do qual depende toda nossa conduta).
não tenho o menor interesse em tripudiar ninguém, nem a menor intenção de lesar honras e ferir sensibilidades, e não estou disposta a ficar sendo acionada, processada etc. por editoras insatisfeitas com minhas críticas, que julgo serem bastante objetivas e fundamentadas. aqui estou falando de um livro em sua materialidade física e concreta, com sua respectiva identificação bibliográfica, posto à venda no mercado e com respaldo numa ampla campanha de divulgação comercial.
é extensa a lista de equívocos e erros presentes nessa edição, mas creio que bastam esses rápidos exemplos extraídos da primeira página da obra (p. 13). a meu ver, ilustram claramente a precariedade da tradução, seus erros palmares: entendo que a coleção folha pisou mais uma vez na bola oferecendo esse produto medíocre a seus leitores.
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7 de fev. de 2011
28 de dez. de 2010
a febre de voltaire
o caso do voltaire ressurreto na coleção "sacode a poeira" da folha me levou a procurar outras traduções dos anos 1930-1950. encontrei coisas interessantes, e minha listinha ficou assim:
1. cândido, ou o otimista, na já citada tradução de jorge silva, pela editora athena, 1938;
1.
2.
3.

4.

5.
interessou-me bastante a edição rosadinha da martins, em sua coleção excelsior. já há o caso muito bizarro do zadig de voltaire, envolvendo galeão coutinho e mario quintana, ambos assinando traduções absolutamente idênticas, fato que atribuí a algum lapso da editora itatiaia. veja aqui. por outro lado, é interessante que um livro chamado candide, ou le optimisme encontre duas traduções diferentes com o título cândido, ou o otimista. como essa tradução do cândido pela atena parece ser filha única de mãe viúva, como diziam antigamente, do tal "jorge silva", quero dar uma checada. vai que é algum pseudônimo do galeão?
obs.: romances e contos da martins aparece na ilustr. 2 na edição de 1951.
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1. cândido, ou o otimista, na já citada tradução de jorge silva, pela editora athena, 1938;
2. cândido ou o otimismo, tradução de lívio teixeira, pela livraria martins, no volume o pensamento vivo de voltaire, 1940;
3. cândido, ou o otimista, tradução de galeão coutinho, pela livraria martins, 1943;
4. cândido, tradução de mario quintana, pela editora globo, num volume chamado contos e novelas, 1951;
5. cândido ou o otimismo, tradução de lívio teixeira, num volume pela difel com o título romances e contos, 1959.
quatro traduções do cândido entre 1938 e 1951! devia estar uma febre danada de voltaire naqueles anos.
3. cândido, ou o otimista, tradução de galeão coutinho, pela livraria martins, 1943;
4. cândido, tradução de mario quintana, pela editora globo, num volume chamado contos e novelas, 1951;
5. cândido ou o otimismo, tradução de lívio teixeira, num volume pela difel com o título romances e contos, 1959.
quatro traduções do cândido entre 1938 e 1951! devia estar uma febre danada de voltaire naqueles anos.
2.
3.

4.

5.
interessou-me bastante a edição rosadinha da martins, em sua coleção excelsior. já há o caso muito bizarro do zadig de voltaire, envolvendo galeão coutinho e mario quintana, ambos assinando traduções absolutamente idênticas, fato que atribuí a algum lapso da editora itatiaia. veja aqui. por outro lado, é interessante que um livro chamado candide, ou le optimisme encontre duas traduções diferentes com o título cândido, ou o otimista. como essa tradução do cândido pela atena parece ser filha única de mãe viúva, como diziam antigamente, do tal "jorge silva", quero dar uma checada. vai que é algum pseudônimo do galeão?

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27 de dez. de 2010
coleção poeira
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Acho que a Coleção Folha "Livros que Mudaram o Mundo" devia mudar de nome e passar a se chamar Coleção Poeira. Vendo o Cândido, ou o otimista, de Voltaire, que sai nesses dias, fiquei mais uma vez decepcionada.
A tradução de Voltaire feita por Jorge Silva foi publicada de início pela editora Atena em 1938, lá se vão mais de setenta anos.
Quem visita o nãogostodeplágio sabe que sou enérgica defensora da preservação de nosso patrimônio tradutório, o qual entre 1995 e 2009 andou sofrendo saques desenfreados. Mas daí até achar que o tempo parou e que desde os anos 1930-1940 não surgiram novas traduções quiçá mais meritórias vai uma grande distância.
Recapitulemos. Nos volumes lançados pela Coleção Poeira, temos:
- um descarado plágio de uma antiquésima tradução lusitana de 1908: Darwin, A origem das espécies, ainda por cima feita por interposição do francês e crivada de erros grotescos;
- um lançamento francamente enganoso: o livro de Gabriel Deville, O capital de Karl Marx, resumido e acompanhado de um estudo sobre o socialismo científico, apresentado como se fosse o próprio O capital de Marx em edição condensada, e como se o Estudo sobre o socialismo científico fosse de sua autoria, também em vetusta tradução;
- uma edição de Descartes que dá vontade de chorar de tão ruinzinha que é;
- Maquiavel, O príncipe, tradução de Lívio Xavier, 1933
- Maquiavel, Escritos políticos, tradução de Lívio Xavier, 1940
- Platão, A república, tradução de Albertino Pinheiro, s/d (em 1950 já era a 4a. ed.)
- Thomas Morus, Utopia, tradução de Luís de Andrade, 1937
- Aristóteles, A política, tradução de Nestor Silveira Chaves, 1944
- Voltaire, Cândido ou o otimista, tradução de Jorge Silva, 1938
A Coleção Poeira tinha anunciado que a obra de Pascal, Pensamentos, sairia na tradução de Paulo M. Oliveira, também do baú de nossas avós. Mas aparentemente mudou de ideia, pois substituiu em seu site o nome de Paulo Oliveira pelo de outro tradutor. Apenas notei a troca de nomes, mas não cheguei a comprar o exemplar nessa outra tradução.
Não entendi muito bem a razão para reeditar esses títulos, em tradução seja espúria, medíocre ou ultrapassada, em tiragens tão grandes e com tanto aparato de marketing.
- sobre darwin, a origem das espécies, veja aqui
- sobre gabriel deville, o capital de karl marx, veja aqui
- sobre descartes, discurso sobre o método e princípios de filosofia, veja aqui
aqui na edição de 1950, em volume duplo
.6 de dez. de 2010
coleção folha, ainda descartes
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dediquei dois posts à edição de descartes na coleção folha: aqui e aqui.para ninguém achar que é implicância minha: "a edição capenga de descartes", no jornal opção
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coleção folha, o capital de gabriel deville III
estabelecido que le capital de karl marx é uma obra de divulgação de gabriel deville, montada em 1883 a partir da tradução francesa de j. roy do das kapital, entendo que a apresentação correta desse resumo em português seria: gabriel deville, o capital de karl marx, como fez, por exemplo, a editora cultura nos anos 1940:
ou:
todavia, vimos que não é o que tem ocorrido: mencionei as edições da melso, da ediouro, da edipro e da coleção folha.
abro a edição da coleção folha: não bastasse ter marx virado o autor do aperçu sobre o socialismo científico e do resumo de deville, vejo lá um "prefácio do tradutor".
qual tradutor?, pergunto-me eu. e vejo ali que se trata do prefácio de gabriel deville, de 1883, onde justamente ele explica que montou seu apanhado seguindo a tradução francesa existente, feita por joseph roy.
como o préface do original se transformou em prefácio da tradução é mais um daqueles mistérios que só acontecem no brasil, e que não consigo desvendar. outra curiosidade é como a data do prefácio original - 10 de agosto de 1883 - se transformou no "prefácio da tradução" em 10 de outubro de 1883. e engraçado também como a remissão original de deville, em seu pós-escrito, às páginas 24-25 e 59-60 de le capital de karl marx, é mantida literalmente na edição da folha (p. 18), sem qualquer correspondência de fato no volume brasileiro.
o prefácio e o pós-escrito de deville não constam na edição melso. a tradução deles nessa edição da folha é sofrível: tenta-se um decalque que acaba se tornando ininteligível. por exemplo, ce que j'ai écrit dans d'autres conditions d'âge et par suite de connaissance é dado como "o que escrevi em outras condições de idade e após aprendizado" [p. 17; seria algo como "o que escrevi em outras condições de idade e, portanto, de conhecimento"].
já a tradução do aperçu e do resumo na edição folha/edipro, em nome de murilo coelho, é praticamente idêntica à tradução revista por gesner de wilton morgado, na edição que saiu pela melso 50 anos atrás. ambas guardam a mesma razoável distância e as mesmas discrepâncias em relação ao original em francês:
em verdade, marx teria autorizado vários resumos:
restam algumas dúvidas: quem é murilo coelho? quando foi feita essa sua tradução? onde e quando foi inicialmente publicada? por que a ediouro, em suas várias edições, não havia lhe dado os créditos de tradução? por que a melso, em sua edição, preferiu apenas apontar que se tratava de uma "tradução revista por gesner de wilton azevedo"? e por que a folha em sua coleção "livros que mudaram o mundo" escolheu uma tradução, seja de quem for, tão fraquinha e com algumas informações aparentemente tão erradinhas?
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ou:
todavia, vimos que não é o que tem ocorrido: mencionei as edições da melso, da ediouro, da edipro e da coleção folha.
abro a edição da coleção folha: não bastasse ter marx virado o autor do aperçu sobre o socialismo científico e do resumo de deville, vejo lá um "prefácio do tradutor".
qual tradutor?, pergunto-me eu. e vejo ali que se trata do prefácio de gabriel deville, de 1883, onde justamente ele explica que montou seu apanhado seguindo a tradução francesa existente, feita por joseph roy.
como o préface do original se transformou em prefácio da tradução é mais um daqueles mistérios que só acontecem no brasil, e que não consigo desvendar. outra curiosidade é como a data do prefácio original - 10 de agosto de 1883 - se transformou no "prefácio da tradução" em 10 de outubro de 1883. e engraçado também como a remissão original de deville, em seu pós-escrito, às páginas 24-25 e 59-60 de le capital de karl marx, é mantida literalmente na edição da folha (p. 18), sem qualquer correspondência de fato no volume brasileiro.
o prefácio e o pós-escrito de deville não constam na edição melso. a tradução deles nessa edição da folha é sofrível: tenta-se um decalque que acaba se tornando ininteligível. por exemplo, ce que j'ai écrit dans d'autres conditions d'âge et par suite de connaissance é dado como "o que escrevi em outras condições de idade e após aprendizado" [p. 17; seria algo como "o que escrevi em outras condições de idade e, portanto, de conhecimento"].
já a tradução do aperçu e do resumo na edição folha/edipro, em nome de murilo coelho, é praticamente idêntica à tradução revista por gesner de wilton morgado, na edição que saiu pela melso 50 anos atrás. ambas guardam a mesma razoável distância e as mesmas discrepâncias em relação ao original em francês:
I
COLLECTIVISME OU COMMUNISME
Il y a six ans, la classe ouvrière qui n'était pas encore remise de l'épouvantable saignée de 1871, avait abandonné la tradition révolutionnaire et n'attendait plus son affranchissement que des associations coopératives généralisées. Les mots parti ouvrier et collectivisme, aujourd'hui passés dans notre langue politique, étaient, peut-on dire, inconnus ; les idées qu'ils représentent ne comptaient plus en France que de rares partisans, sans lien, sans possibilité d'action commune.
C'est le journal l'Égalité fondé, à la fin de 1877, sur l'initiative de Jules Guesde et dirigé par lui, qui a seul donné l'impulsion au mouvement socialiste révolutionnaire actuel. Tel est le fait que ne réussiront pas à effacer les personnalités envieuses empressées à le masquer, ou tout au moins à l'amoindrir, ayant bien soin, dans leurs prétendues histoires, de cacher les dates qui ne laissent aucun doute à cet égard.
A ce moment, il y avait utilité à distinguer le communisme scientifique sorti de la savante critique de Marx, du vieux communisme utopique et sentimental français. La même dénomination pour deux théories différentes aurait favorisé une confusion d'idées qu'il était essentiel d'éviter ; aussi avons-nous alors exclusivement employé le mot collectivisme.
Maintenant, nous écrivons collectivisme ou communisme indifféremment. Au point de vue de leur dérivation, ces deux termes sont également exacts; au point de vue usuel, ils ont les mêmes inconvénients. S'il y a eu un communisme dont nous devions nous distinguer, il y a des formes de collectivisme, les diverses contrefaçons belges par exemple, que nous répudions. L'important est de connaître non pas l'étiquette que chacun prend, mais ce que chacun met sous son étiquette.edição melso, tradução revista por gesner de wilton azevedo (1961)
edição coleção folha, tradução de murilo coelho (2010)
contribuindo de passagem para a hipótese de que a tradução revista por gesner era lusitana, note-se na edição da melso a grafia de "carlos", "empregámos", "teem", "diferençar", e adiante "póde", "quasi", "jámais", "gráu", "sólo", ou as construções "em frança" e "facilidades que se irão aumentando". mas a questão, aqui neste contexto, é quase secundária. o que quero apontar é que essa tradução publicada pela folha é reedição, apenas com a ortografia atualizada, de uma tradução bastante antiga, que nas edições brasileiras anteriores não trazia créditos indicando sua autoria.
outra não pequena desinformação é a que consta na página de divulgação da coleção folha: essa obra de deville seria o "único resumo autorizado por Karl Marx, com o intuito de popularizar suas ideias na camada operária".
em verdade, marx teria autorizado vários resumos:
Versões resumidas para operários também apareceram em fins do decênio de 1870 em sérvio e inglês (esta publicada nos Estados Unidos). A edição italiana, feita por Carlo Cafiero, foi autorizada por Marx e publicada em 1879. No ano seguinte, Marx autorizou o anarquista Domela Nieuwenhuis a publicar um resumo popular em holandês. A obra saiu em 1881 (Ferdinand Domela Nieuwenhuis. Karl Marx. Kapital en Arbeid, s´Gravenhage, 1881). Na mesma época ele colaborou com Johannes Most numa edição resumida em alemão. No ano da morte de Marx foi editado o resumo francês (Gabriel Deville. Le Capital de Karl Marx, resumé et accompangé d´un aperçu sur le socialisme scientifique, Paris, 1883).
in Lincoln Secco, Leitura e Difusão de O Capital de Karl Marx, p. 12ainda no mesmo release da coleção folha, consta que a obra de deville foi "publicada em 1883 e revista em 2010". o que significa "revista em 2010"? a antiga tradução revista por gesner, sim, pode ter sido re-revista em 2010 para essa edição da folha, e só.
restam algumas dúvidas: quem é murilo coelho? quando foi feita essa sua tradução? onde e quando foi inicialmente publicada? por que a ediouro, em suas várias edições, não havia lhe dado os créditos de tradução? por que a melso, em sua edição, preferiu apenas apontar que se tratava de uma "tradução revista por gesner de wilton azevedo"? e por que a folha em sua coleção "livros que mudaram o mundo" escolheu uma tradução, seja de quem for, tão fraquinha e com algumas informações aparentemente tão erradinhas?
atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.
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coleção folha, o capital de gabriel deville II
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recapitulando: em 1883, o socialista francês gabriel deville publica um resumo das ideias centrais de marx, num volume chamado le capital de karl marx, résumé et accompagné d'un aperçu sur le socialisme scientifique, para fins de divulgação entre o operariado e a militância socialista na frança.essa introdução ao pensamento marxiano é traduzida para o português por albano de moraes e é publicada pela typographia de francisco luiz gonçalves em 1912, como: carl [sic] marx, o capital: resumido e acompanhado de um estudo sobre o socialismo scientifico, estudo de gabriel deville. outra tradução portuguesa dessa época, porém menos conhecida, é a de maria emilia de araújo pereira, publicada pela guimarães editora também em 1912, que utiliza a grafia "karl".
no post anterior, citei algumas fontes para acompanhar a divulgação da obra de deville no brasil a partir dos anos 1930. é um percurso interessante, que talvez alguma hora eu explore melhor. mas, com referência a nossos objetivos, tenho em mãos o exemplar publicado pela editora melso em 1961, e é dessa edição que eu gostaria de tratar, para chegarmos ao volume publicado na coleção folha "livros que mudaram o mundo".
na edição da melso sumiu qualquer referência a gabriel deville. dá-se a obra como da autoria pura e simples de marx, com o título o capital. na página de rosto consta "edição condensada" e "tradução revista por gesner de wilton morgado". o livro começa diretamente com socialismo científico: o leitor desavisado pensará que é um texto de marx que integra o começo do suposto capital condensado.
pois muito que bem. agora chegamos à edição da folha, em tradução atribuída a alguém de nome "murilo coelho", licenciada da edipro, a qual consta na página de créditos como detentora do copyright da referida tradução. não consegui encontrar referências a qualquer tradução de murilo coelho, nem mesmo do próprio suposto capital condensado de marx, a não ser as divulgadas pela folha de s. paulo anunciando a publicação e do nãogostodeplágio dando a lista dos títulos da coleção folha.
PESQUISA NO CADASTRO DO ISBN
ISBN: 978-85-7283-597-8
TÍTULO: O CAPITAL
COLEÇÃO: CLÁSSICOS EDIPRO
AUTOR: KARL MARX
TRADUTOR: GABRIEL DEVILLE
EDIÇÃO: 3
ANO DE EDIÇÃO: 2008
LOCAL DE EDIÇÃO: SÃO PAULO
TIPO DE SUPORTE: PAPEL
PÁGINAS: 224
EDITORA: EDIPRO
puxa vida, que história. espero que o leitor tenha entendido que, digam o que disserem as editoras, esse capital de karl marx pouco tem a ver com o capital de karl marx. é um apanhado, uma "apostila", digamos assim, montada por deville a partir da tradução francesa de joseph roy (cuja revisão, aliás, teria comentado marx que lhe deu "um trabalho dos diabos").
num próximo post, pretendo comparar a tradução revista por gesner morgado (melso; ediouro), a tradução em nome de murilo coelho (coleção folha; edipro) e o original de gabriel deville.
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5 de dez. de 2010
coleção folha, o capital de gabriel deville I
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a coleção folha "livros que mudaram o mundo" lançou um volume com o título o capital, que seria da autoria de karl marx, em tradução de murilo coelho da tradução condensada francesa de gabriel deville. vamos a ele.Gabriel Deville, Le capital de Karl Marx, resumé et accompagné d'un aperçu sur le socialisme scientifique, Paris, Ernest Flammarion Éditeur, 1883.
essa introdução às ideias de marx se encontra disponível para download em diversos sites, por exemplo aqui, na biblioteca da universidade de toronto.
sob todos os pontos de vista, o autor dessa pequena obra de divulgação do pensamento marxista é gabriel deville. é tão descabido atribuir le capital de karl marx a marx como seria atribuir diretamente a hegel ou a tomás de aquino qualquer introdução, em qualquer língua que seja, aos conceitos da fenomenologia do espírito ou da suma teológica.
curiosamente, porém, le capital de karl marx veio a ser publicado desde 1912 em portugal e nos anos 30 no brasil dando a entender que fosse o próprio das kapital de marx, que teria sido traduzido e condensado por gabriel deville. aliás, não me admiraria muito se até mesmo o devilleano aperçu sur le socialisme scientifique, que precede seu resumo do livro I d'o capital, tivesse passado no brasil e em portugal por peça da lavra de marx.*
* quem se interessar pela divulgação inicial das ideias de marx nos países de língua portuguesa, há alguns levantamentos disponíveis na rede, que dão uma breve noção da coisa:
lincoln secco, leitura e difusão de o capital de marx
idem, notas para a história editorial de o capital
carlos bastien, os primeiros leitores portugueses de marx economista
denilson azevedo, a história da publicação das obras de marx e engels
referências mais completas para o brasil se encontram em dois livros de leandro konder:
a derrota da dialética: a recepção das idéias de marx e engels no brasil até o começo dos anos trinta (campus, 1988) e as idéias socialistas no brasil (moderna, 1995)
a coisa se torna ainda mais bizarra, pois o então jovem militante socialista gabriel deville em momento algum sugeriu que sua súmula se baseasse no original de marx. muito pelo contrário, ele esclareceu com todas as letras, no prefácio de seu opúsculo, que utilizara a tradução francesa: Quant au résumé, [...] il a été fait d'après l'édition française, dernière édition revue par l'auteur.
a tradução de das kapital tinha sido feita por joseph roy a partir da 1a. edição alemã, e foi publicada em fascículos entre 1872 e 1875, pelo editor maurice lachâtre. marx, ao ler a tradução e acompanhar os fascículos, procedeu a várias modificações que foram incorporadas à obra em francês. a primeira edição desses fascículos em formato livro saiu em 1875, entièrement revisée par l'auteur. em c. 1878, lachâtre lança uma segunda edição pelo selo da librairie du progrès. muito provavelmente é a esta edição de c. 1878 que se refere deville, quando cita a dernière édition revue par l'auteur.
a propósito das modificações feitas por marx, ver seu posfácio à edição francesa de 1875:
O Sr. J. Roy empenhou-se em apresentar uma tradução tão exacta, até literal, quanto possível; cumpriu escrupulosamente a sua missão. Mas estes mesmos escrúpulos obrigaram-me a modificar a redacção, a fim de a tornar mais acessível ao leitor. Estas alterações, feitas sem continuidade, pois que o livro se publicava em fascículos, foram objecto de atenção desigual, o que havia de produzir incoerências de estilo.(tradução de teixeira martins e vital moreira, karl marx, o capital, capítulo I.)
Uma vez empreendido esse trabalho de revisão, fui levado a aplicá-lo também no conteúdo do texto original (a segunda edição alemã), simplificando alguns tópicos, completando outros, incluindo material histórico ou estatístico adicional, acrescentando observações críticas, etc. Sejam quais forem as imperfeições literárias desta edição francesa, ela possui um valor científico independente do original e deve ser consultada mesmo pelos leitores que dominam a língua alemã.
retomando o tema central: gabriel deville, então membro do parti ouvrier francês, queria apresentar um painel sintético e simplificado dos principais conceitos de marx para a divulgação do marxismo entre o operariado. assim, fez um apanhado das ideias centrais presentes n'o capital, conforme a tradução de roy, revista por marx, antepondo a essa introdução aos conceitos marxistas um artigo seu sobre o socialismo científico, em que expõe também pontos programáticos da linha socialista a que então se filiava. marx (que, diga-se de passagem, era sogro de paul lafargue, um dos fundadores do partido operário francês a que pertencia deville) tinha conhecimento da iniciativa e, segundo algumas fontes, dava seu apoio a ela. mas jamais chegou a vê-la impressa, morrendo meses antes de seu lançamento.
tal é a obra que se chama o capital de karl marx. não é de marx, e não é uma tradução, nem mesmo condensada, de das kapital.
em outro post, comentarei um pouco a fortuna lusobrasileira dessa introdução de gabriel deville às ideias de marx.
imagens: google images.
29 de nov. de 2010
coleção folha, descartes II
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em coleção folha,
descartes I, comentei minha surpresa quanto à [falta de]
qualidade da tradução do discurso sobre o método, de norberto de
paula lima, licenciada pela editora hemus para a coleção folha "livros que
mudaram o mundo".
além do discurso sobre o método, o volume de descartes nesta coleção traz princípios de filosofia, em tradução de torrieri guimarães, também licenciada pela hemus para a coleção folha.
além do discurso sobre o método, o volume de descartes nesta coleção traz princípios de filosofia, em tradução de torrieri guimarães, também licenciada pela hemus para a coleção folha.

a tradução de princípios de filosofia não é tão trôpega, mal revista e truncada como a do discurso sobre o método de norberto de paula lima. é verdade que não se destaca pela clareza nem é propriamente bonita ou contextualizada - traz um "estapafúrdias" para um simples "extravagantes", p.ex. [II, art. 7] -, mas à primeira vista não seria letal.
no entanto, não me pareceu muito justificável encontrar, no primeiro artigo do texto (I, 1), plusieurs jugements ... nous préviennent de telle sorte como "diversos juízos ... de tal modo nos fazem confiantes", numa solução não muito evidente, e não sei até que ponto correta. aliás, este deslize eu também conhecia na tradução de alberto ferreira, pela portuguesa guimarães editores, dos anos 60: "vários juízos ... de tal maneira nos tornam confiantes".
outra passagem de tradução que me pareceu injustificável foi I, 3. aqui transcrevo o trecho original para mostrar melhor a questão (destacada em negrito):
en ce qui regarde la conduite de notre vie nous sommes obligés de suivre bien souvent des opinions qui ne sont que vraisemblables, à cause que les occasions d’agir en nos affaires se passeraient presque toujours avant que nous pussions nous délivrer de tous nos doutes; et lorsqu’il s’en rencontre plusieurs de telles sur un même sujet, ... la raison veut que nous en choisissions une, et qu’après l’avoir choisie nous la suivions constamment, de même que si nous l’avions jugée très certaine.
... em tudo quanto diz respeito à orientação de nossa existência, encontramo-nos, muitas vezes, obrigados a seguir opiniões somente verossímeis, visto que as oportunidades de agir nos negócios passariam em geral antes que pudéssemos nos livrar de todas as dúvidas. E quando se acham diversas dessas oportunidades de agir a propósito de um mesmo tema, ... a razão requer que façamos a escolha de uma delas e que, depois de feita a escolha, a sigamos com firmeza como se a tivéssemos considerado muito certa.
... em tudo aquilo que respeita à orientação da nossa vida, nos achamos, muitas vezes, forçados a seguiropiniões apenas verosímeis, dado que as ocasiões de agir nos negócios se escoariam quase sempre antes de nos libertarmos de todas as dúvidas. E quando se encontram várias dessas ocasiões de agiracerca de um mesmo assunto ... a razão exige que escolhamos uma delas e que, após tê-la escolhido, a sigamos firmemente como se a tivéssemos julgado certíssima.
[secundariamente, note-se uma inflexão
interessante, em que se passa de constamment para
"firmemente" e "com firmeza".]
descartes continua (I, 4): Mais, d’autant que nous n’avons point maintenant d’autre dessein que de vaquer à la recherche de la vérité, nous douterons en premier lieu... ele tinha dito logo antes: na condução de nossos afazeres, a gente não tem tempo de ficar avaliando todas as opiniões, a gente escolhe uma delas e manda bala. mas aqui (quer dizer, filosofando) nosso único objetivo é buscar a verdade, sem precisar sair correndo para atender à pressão do momento e se baseando numa opinião meio duvidosa; então não faz mal levar o maior tempo para ficar pensando, avaliando, duvidando etc. - ou seja: "mas, dado que [visto que] agora não temos nenhum outro desígnio a não ser nos dedicar à busca da verdade etc." - simples, claro, evidente, não?
torrieri guimarães nos dá: "contudo, a fim de que outro propósito agora não nos ocupe, senão aquele de nos entregarmos à pesquisa da verdade, etc." - tsc, tsc... aliás, alberto ferreira também já tinha nos dado: "mas, para queoutro desígnio agora nos não ocupe a não ser o de nos aplicarmos à investigação da verdade, etc."
pois, retomando a cadeia argumentativa, descartes tinha dito que não ia se pôr a duvidar sem mais de tudo e de todos, e sim apenas quando começasse a contemplar a verdade pra valer: "je n’entends point que nous nous servions d’une façon de douter si générale, sinon lorsque nous commençons à nous appliquer à la contemplation de la vérité" (ainda em I, 3). entendre - e mesmo "entender" em português - também significa "intentar", "tencionar", "ter a intenção de".
alberto ferreira: "de modo nenhum entendo eu que nos sirvamos de forma tão geral de duvidar, etc."; torrieri: "de nenhum modo compreendo que nos sirvamos desse modo tão generalizado de duvidar, etc."
ou: recevoir en notre croyance (I, 6); "receber, em nossa convicção" (a. ferreira); "receber, em nossa convicção" (torrieri)
ou: nous ne saurions nous empêcher de croire que cette conclusion: Je pense, donc je suis, ne soit vraie (I, 7); "não poderíamos impedir-nos de acreditar que esta inferência EU PENSO, LOGO EXISTO, não seja verdadeira" (a. ferreira); "não poderíamos obstar-nos de crer que esta inferência EU PENSO, LOGO EXISTO, não seja exata" (torrieri).
um exemplo final (III, 12): Ceux qui n’ont pas philosophé par ordre ont eu d’autres opinions sur ce sujet, parce qu’ils n’ont jamais distingué assez soigneusement leur âme... foi inexplicavelmente [in]vertido como "Os que filosofaram por ordem, colocaram outras opiniões a respeito deste assunto, razão pela qual jamais distinguiram, com suficiente cuidado, a sua alma", ademais invertendo também a relação causal expressa em parce que. diga-se de passagem que alberto ferreira também incide nesse surpreendente equívoco: "Aqueles que filosofaram por ordem, formularam outras opiniões sobre este assunto pelo que nunca distinguiram, com bastante cuidado, a sua alma".
resumindo: o vocabulário usado nas duas traduções apresenta várias diferenças; alberto ferreira tenta manter um registro próximo ao do original; torrieri parece se afastar com maior frequência, mesmo em termos simples (nous empêcher = obstar-nos, p.ex.), preferindo se mover num registro mais, digamos, empolado. o que chama a atenção são os erros ou desvios do original que aparecem nas duas traduções. não digo que torrieri guimarães tenha copiado literalmente alberto ferreira, mas não me parece muito provável que o mesmo tipo de estruturação sintática, os mesmos erros e inflexões similares se repitam em duas traduções diferentes.
ao mostrar alguns dentre vários exemplos de equívocos presentes na tradução de torrieri, meu intuito é sustentar que, mesmo que fosse legítimo e normal recorrer a traduções anteriores (no caso, a de alberto ferreira), supostamente procurando amparo em sua autoridade, nem por isso tais erros deixariam de ser erros capazes de comprometer gravemente a leitura e o bom entendimento do texto de descartes.
fica, de novo, uma chamada para o grupo folha: os leitores merecem mais.
descartes continua (I, 4): Mais, d’autant que nous n’avons point maintenant d’autre dessein que de vaquer à la recherche de la vérité, nous douterons en premier lieu... ele tinha dito logo antes: na condução de nossos afazeres, a gente não tem tempo de ficar avaliando todas as opiniões, a gente escolhe uma delas e manda bala. mas aqui (quer dizer, filosofando) nosso único objetivo é buscar a verdade, sem precisar sair correndo para atender à pressão do momento e se baseando numa opinião meio duvidosa; então não faz mal levar o maior tempo para ficar pensando, avaliando, duvidando etc. - ou seja: "mas, dado que [visto que] agora não temos nenhum outro desígnio a não ser nos dedicar à busca da verdade etc." - simples, claro, evidente, não?
torrieri guimarães nos dá: "contudo, a fim de que outro propósito agora não nos ocupe, senão aquele de nos entregarmos à pesquisa da verdade, etc." - tsc, tsc... aliás, alberto ferreira também já tinha nos dado: "mas, para queoutro desígnio agora nos não ocupe a não ser o de nos aplicarmos à investigação da verdade, etc."
pois, retomando a cadeia argumentativa, descartes tinha dito que não ia se pôr a duvidar sem mais de tudo e de todos, e sim apenas quando começasse a contemplar a verdade pra valer: "je n’entends point que nous nous servions d’une façon de douter si générale, sinon lorsque nous commençons à nous appliquer à la contemplation de la vérité" (ainda em I, 3). entendre - e mesmo "entender" em português - também significa "intentar", "tencionar", "ter a intenção de".
alberto ferreira: "de modo nenhum entendo eu que nos sirvamos de forma tão geral de duvidar, etc."; torrieri: "de nenhum modo compreendo que nos sirvamos desse modo tão generalizado de duvidar, etc."
ou: recevoir en notre croyance (I, 6); "receber, em nossa convicção" (a. ferreira); "receber, em nossa convicção" (torrieri)
ou: nous ne saurions nous empêcher de croire que cette conclusion: Je pense, donc je suis, ne soit vraie (I, 7); "não poderíamos impedir-nos de acreditar que esta inferência EU PENSO, LOGO EXISTO, não seja verdadeira" (a. ferreira); "não poderíamos obstar-nos de crer que esta inferência EU PENSO, LOGO EXISTO, não seja exata" (torrieri).
um exemplo final (III, 12): Ceux qui n’ont pas philosophé par ordre ont eu d’autres opinions sur ce sujet, parce qu’ils n’ont jamais distingué assez soigneusement leur âme... foi inexplicavelmente [in]vertido como "Os que filosofaram por ordem, colocaram outras opiniões a respeito deste assunto, razão pela qual jamais distinguiram, com suficiente cuidado, a sua alma", ademais invertendo também a relação causal expressa em parce que. diga-se de passagem que alberto ferreira também incide nesse surpreendente equívoco: "Aqueles que filosofaram por ordem, formularam outras opiniões sobre este assunto pelo que nunca distinguiram, com bastante cuidado, a sua alma".
resumindo: o vocabulário usado nas duas traduções apresenta várias diferenças; alberto ferreira tenta manter um registro próximo ao do original; torrieri parece se afastar com maior frequência, mesmo em termos simples (nous empêcher = obstar-nos, p.ex.), preferindo se mover num registro mais, digamos, empolado. o que chama a atenção são os erros ou desvios do original que aparecem nas duas traduções. não digo que torrieri guimarães tenha copiado literalmente alberto ferreira, mas não me parece muito provável que o mesmo tipo de estruturação sintática, os mesmos erros e inflexões similares se repitam em duas traduções diferentes.
ao mostrar alguns dentre vários exemplos de equívocos presentes na tradução de torrieri, meu intuito é sustentar que, mesmo que fosse legítimo e normal recorrer a traduções anteriores (no caso, a de alberto ferreira), supostamente procurando amparo em sua autoridade, nem por isso tais erros deixariam de ser erros capazes de comprometer gravemente a leitura e o bom entendimento do texto de descartes.
fica, de novo, uma chamada para o grupo folha: os leitores merecem mais.
atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas
alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito
entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.
26 de nov. de 2010
coleção folha, descartes I
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por desencargo de consciência, fui ver o descartes da coleção folha: discurso sobre o método, tradução de norberto de paula lima, e princípios da filosofia, tradução de torrieri guimarães, ambas licenciadas da editora hemus.quanto ao discurso sobre o método, fiquei surpresa com a quantidade de erros de revisão, de construções trôpegas e frases sem sentido: "criei um método que, parece-me, proporcionou-me os meios para o gradativo aumento de meu conhecimento, e a levá-lo, gradualmente, ao máximo de grau que a mediocridade de meu espírito e a breve duração de minha vida lhe permitiu atingir"; "os que caminham muito vagarosamente podem adiantar muito mais ... do que os que correm"; "a memória tão dilatada e tão presente quanto a muitos outros"; "os exercícios com que nos entrelinhamos na escola", "o que apelidam com tão lindo nome não e senão insensibilidade"; "sempre houveram funcionários"; "ficar-se-á conhecendo que trabalhando"; "não se deveu o fato a excelência de suas leis cada qual por si mesma, muitas de cujas leis eram bem estranhas"; "as ciências dos livros, ao menos as cujas razões são apenas prováveis"; "essas longas cadeias ... deu-me motivo" etc.
não entendi como uma frase tão simples em francês como "les peuples qui, ... ne s’étant civilisés que peu à peu" foi traduzida como "os povos que, ... apenas se tendo civilizado há pouco" [seria "aos poucos"].
ou "Que si mon ouvrage m'ayant assez plu, je vous en fais voir ici le modèle, ce n'est pas, pour cela, que je veuille conseiller à personne de l'imiter" como "Por estar contente de meu trabalho, pretendo ter aqui o modelo, não quero dizer que vá aconselhar alguém a imitá-lo" ["pois se, tendo minha obra me agradado bastante, mostro-vos aqui seu modelo, nem por isso pretendo aconselhar ninguém a imitá-lo"].
ou "la pluralité des voix" como "a pluralidade dos votos" [em vez de "pluralidade das vozes", isto é, das opiniões].
ou "En quoi je ne vous paroîtrai peut-être pas être fort vain, si vous considérez que..." como "E isso não parecerá, talvez, em excesso inútil, se for considerado que..." ["Nisso não vos parecerei talvez demasiado vaidoso, se considerardes que..."]
ou "fazer estoque de arquitetos" em vez de "providenciar arquitetos"; "trocar com cuidado a planta" em vez de "desenhar cuidadosamente a planta"; "nós mesmos fazermos exercícios de arquitetura" para "nós mesmos sermos os construtores"...
estranhei um pouco que, numa obra que faz rigorosa distinção entre opinião e conhecimento, croyance fosse a certa altura traduzido por "entendimento", além de algumas outras diluições conceituais, um "parlapatice" que parece um tanto deslocado no contexto, um certo atropelo nos tempos verbais e o uso um tanto repetitivo do verbo "achar" para um amplo leque: penser, juger, considérer, trouver, être, rencontrer...
quem estiver lendo o discurso do método pela primeira vez terá de fazer, penso eu, um certo esforço para acompanhar o texto de descartes, e não só pelas dificuldades intrínsecas da obra.
quanto aos princípios de filosofia, cuja tradução em nome de torrieri guimarães me surpreendeu por outra ordem de razões, talvez eu comente em outro post.
de qualquer forma, fiquei com pena, pois a folha (ou a empresa que organizou a coleção para a folha) dispunha de outras opções para licenciar uma tradução mais confiável do discurso do método, por exemplo de jacó guinsburg e bento prado jr., de maria ermantina galvão, de paulo neves. provavelmente a folha estaria zelando melhor por seu histórico de boas coleções, e demonstraria maior apreço por seus leitores.
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24 de nov. de 2010
o maquiavel de lívio xavier
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o segundo volume lançado pela coleção folha "livros que mudaram o mundo" é maquiavel, o príncipe e escritos políticos, em tradução de lívio xavier (1900-1988).quanto a o príncipe, a tradução de lívio saiu originalmente em 1933 pela editora unitas e a partir de c.1938 passou a ser publicada pela athena editora, onde teve várias reedições. também foi publicada por outras editoras inúmeras vezes e atualmente está nos catálogos da ediouro, nova fronteira (agir), escala, edipro e fundação braille. é a tradução d'o príncipe de maquiavel mais conhecida no brasil: em pesquisa maquiavel, você encontra vários dados a respeito.
já dei minha opinião geral sobre a coleção "livros que mudaram o mundo". se agora comento a de maquiavel, é porque um detalhe me deixou um pouco desorientada: na página de créditos e no site da coleção consta que o copyright da tradução de lívio xavier pertence à editora edipro.
até onde sei, a ediouro tem publicado essa tradução pelo menos desde 1966, declarando ser a detentora dos direitos sobre ela.*
* ver, por exemplo, a recente edição pocket dessa obra pela nova fronteira mencionando "copyright da tradução: Ediouro Publicações Ltda".
a questão me parece relevante, não pelo aspecto empresarial, que não me diz respeito, e sim pelo aspecto do acesso à obra.
em nossa atual lei de direito autoral, obras abandonadas de autores falecidos que não tenham deixado sucessores pertencem ao domínio público (artigo 45, lei 9610/98).
daí minha dúvida: a quem de fato pertencem os direitos desta tradução, à ediouro ou à edipro? porventura não estaria ela em domínio público?
conversei no departamento de contratos da ediouro, ficaram de verificar em seus arquivos. transcorrido quase um mês, entrei em contato de novo: continuavam a verificar...
a mesma dúvida me surgiu em relação à obra de thomas morus, utopia, na tradução de luís de andrade, publicada pela atena em 1937 e várias reedições até 1959, depois pela ediouro desde os anos 60 até a data de hoje e também pela edipro a partir de 1994, a qual por sua vez teria licenciado agora em 2010 os direitos para a coleção folha.
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- a atena, detentora original dos direitos dessa tradução, fechou as portas nos anos 1960;
- desconheço que lívio xavier tenha recuperado seus direitos com o fechamento da atena ou que algum sucessor tenha constituído espólio após sua morte;
- se a ediouro adquiriu formalmente os direitos sobre o catálogo da atena por ocasião de seu fechamento, é evidente que eles pertencem a ela;
- no entanto, o volume da coleção folha informa que o copyright da tradução pertence não à ediouro, e sim à edipro.
em nossa atual lei de direito autoral, obras abandonadas de autores falecidos que não tenham deixado sucessores pertencem ao domínio público (artigo 45, lei 9610/98).
daí minha dúvida: a quem de fato pertencem os direitos desta tradução, à ediouro ou à edipro? porventura não estaria ela em domínio público?
conversei no departamento de contratos da ediouro, ficaram de verificar em seus arquivos. transcorrido quase um mês, entrei em contato de novo: continuavam a verificar...
a mesma dúvida me surgiu em relação à obra de thomas morus, utopia, na tradução de luís de andrade, publicada pela atena em 1937 e várias reedições até 1959, depois pela ediouro desde os anos 60 até a data de hoje e também pela edipro a partir de 1994, a qual por sua vez teria licenciado agora em 2010 os direitos para a coleção folha.
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21 de set. de 2010
coleção folha: opinião pessoal
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com a relação oficial (quase completa) dos tradutores das obras que compõem a coleção folha "livros que mudaram o mundo", fica mais fácil ter uma visão geral. retomando o que eu havia dito num dos posts anteriores, a seleção não me encantou especialmente, sem contar o escabroso episódio d'a origem das espécies.
explico-me: o fato de serem, em sua maioria, obras de facílimo acesso talvez não constitua objeção, pois afinal vinte, cinquenta ou cem obras "que mudaram o mundo" geralmente são mesmo de fácil acesso, e sempre é legal ter novas edições, principalmente quando são de boa qualidade.
o que acho mais relevante é que obras tão conhecidas costumam ser traduzidas e retraduzidas com uma certa frequência, muitas vezes com tratamento mais cuidadoso, traduções feitas por especialistas da área, diretamente do original e assim por diante. pois traduções mais modernas não se resumem a uma linguagem mais contemporânea: em muitos casos, sobretudo dos clássicos, elas costumam trazer um ganho, uma contribuição adicional para a compreensão da obra.
por isso fiquei um pouco decepcionada ao ver traduções dos anos 1930-1950 reeditadas pela enésima vez: é o caso de nestor silveira chaves, luís de andrade, lívio xavier, albertino pinheiro, todos publicados naquelas décadas pela editora atena e depois, à exceção deste último, reeditados pela ediouro por mais algumas décadas a fio. a produção de paulo m. oliveira, embora eu não tivesse notícia dessa sua tradução de pascal* antes de sair pela edipro em 1996, também é de 60-80 anos atrás. então acho que faltou renovação, faltou arejar um pouco.
* vim a saber que saiu em 1936, pela athena.
quanto às traduções de jorge silva (cândido de voltaire) e de murilo coelho (o capital, edição condensada), confesso minha ignorância. pesquisei os respectivos nomes na internet, mas não encontrei referências a nenhum dos dois, seja nestas ou em outras obras de tradução. aguardarei o lançamento.
muito bem-vindos e de não tão fácil acesso: newton e tocqueville. bíblia e alcorão não podem faltar em nenhuma estante. quem não tem as confissões, não perca a oportunidade, e o livro vermelho também tem um certo interesse bibliográfico.
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com a relação oficial (quase completa) dos tradutores das obras que compõem a coleção folha "livros que mudaram o mundo", fica mais fácil ter uma visão geral. retomando o que eu havia dito num dos posts anteriores, a seleção não me encantou especialmente, sem contar o escabroso episódio d'a origem das espécies.
explico-me: o fato de serem, em sua maioria, obras de facílimo acesso talvez não constitua objeção, pois afinal vinte, cinquenta ou cem obras "que mudaram o mundo" geralmente são mesmo de fácil acesso, e sempre é legal ter novas edições, principalmente quando são de boa qualidade.
o que acho mais relevante é que obras tão conhecidas costumam ser traduzidas e retraduzidas com uma certa frequência, muitas vezes com tratamento mais cuidadoso, traduções feitas por especialistas da área, diretamente do original e assim por diante. pois traduções mais modernas não se resumem a uma linguagem mais contemporânea: em muitos casos, sobretudo dos clássicos, elas costumam trazer um ganho, uma contribuição adicional para a compreensão da obra.
por isso fiquei um pouco decepcionada ao ver traduções dos anos 1930-1950 reeditadas pela enésima vez: é o caso de nestor silveira chaves, luís de andrade, lívio xavier, albertino pinheiro, todos publicados naquelas décadas pela editora atena e depois, à exceção deste último, reeditados pela ediouro por mais algumas décadas a fio. a produção de paulo m. oliveira, embora eu não tivesse notícia dessa sua tradução de pascal* antes de sair pela edipro em 1996, também é de 60-80 anos atrás. então acho que faltou renovação, faltou arejar um pouco.
* vim a saber que saiu em 1936, pela athena.
quanto às traduções de jorge silva (cândido de voltaire) e de murilo coelho (o capital, edição condensada), confesso minha ignorância. pesquisei os respectivos nomes na internet, mas não encontrei referências a nenhum dos dois, seja nestas ou em outras obras de tradução. aguardarei o lançamento.
muito bem-vindos e de não tão fácil acesso: newton e tocqueville. bíblia e alcorão não podem faltar em nenhuma estante. quem não tem as confissões, não perca a oportunidade, e o livro vermelho também tem um certo interesse bibliográfico.
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18 de set. de 2010
coleção folha, tradutores
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Coleção Folha "Livros que mudaram o mundo" e respectivos tradutores:
parabéns à folha por atender rapidamente às solicitações de leitores e apresentar os devidos créditos no site da coleção.
quanto a mao tsé-tung, a china disponibilizava o facsímile da tradução para o português pelas Edições em Línguas Estrangeiras de Pequim, sem nome de tradutor. vou aguardar para ver o volume e checar se é essa edição chinesa. no geral, tirando três ou quatro títulos, a seleção não me encantou especialmente.
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Coleção Folha "Livros que mudaram o mundo" e respectivos tradutores:
- Darwin, A Origem das Espécies, trad. Eduardo Nunes Fonseca (Hemus)
- Maquiavel, O Príncipe e Escritos Políticos, trad. Lívio Xavier (Edipro)
- Freud, A Interpretação dos Sonhos, trad. Walderedo Ismael de Oliveira (Imago)
- Adam Smith, Riqueza das Nações (ed. condensada), trad. Norberto de Paula Lima (Hemus)
- Platão, Apologia de Sócrates, O Banquete e Fedro, trad. Edson Bini e Albertino Pinheiro (Edipro)
- Descartes, Discurso sobre o Método e Princípios de Filosofia, trad. Norberto de Paula Lima e Torrieri Guimarães (Hemus)
- Thomas More, A Utopia, trad. Luís de Andrade (Edipro)
- Kant, A Metafísica dos Costumes, trad. Edson Bini (Edipro)
- Newton, Principia - Princípios Matemáticos de Filosofia Natural (livro III), trad. André Koch Torres Assis (Edusp)
- Mao Tsé-Tung, O Livro Vermelho, não consta
- Aristóteles, A Política, trad. Nestor Silveira (Edipro)
- Santo Agostinho, Confissões, trad. Oliveira Santos e Ambrósio de Pina (Vozes)
- Marx, O Capital (ed. condensada), trad. Murilo Coelho (Edipro)
- Rousseau, Do Contrato Social, trad. Edson Bini (Edipro)
- Pascal, Pensamentos, trad. Paulo M. Oliveira (Edipro)
- Tocqueville, A Democracia na América, trad. Neil Ribeiro da Silva (Villa Rica)
- Voltaire, Cândido ou O Otimista, trad. Jorge Silva (Edipro)
- Bíblia Sagrada, trad. Frei Ludovico Garmus (Vozes)
- Alcorão Sagrado, trad. Samir el Hayek
- Vários autores, Discursos que mudaram o Mundo, não consta
parabéns à folha por atender rapidamente às solicitações de leitores e apresentar os devidos créditos no site da coleção.
quanto a mao tsé-tung, a china disponibilizava o facsímile da tradução para o português pelas Edições em Línguas Estrangeiras de Pequim, sem nome de tradutor. vou aguardar para ver o volume e checar se é essa edição chinesa. no geral, tirando três ou quatro títulos, a seleção não me encantou especialmente.
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coleção folha: variedades
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murilo bussab, diretor da folha e responsável pela coleção "livros que mudaram o mundo", explicou que foi contratada uma empresa luso-espanhola especializada em coleções, chamada levoir, para esse projeto. o site http://www.levoir.pt/ está em construção, mas na net encontra-se a notícia de que a levoir (ou ad astra et ultra marketing e conceitos multimédia s/a), de oeiras, portugal, havia desenvolvido o projeto dessa coleção para o jornal o público de lisboa, que a lançou em fevereiro, em comemoração a seus 20 anos de existência. o projeto para a coleção folha segue o mesmo perfil e conceito, com algumas diferenças de títulos (p.ex., a versão portuguesa traz hamlet, mas não a metafísica dos costumes). ver também aqui.
hoje comprei o volume inaugural, a origem das espécies, de darwin, acompanhado pelo segundo volume: maquiavel, o príncipe e outros escritos.
sobre o volume de darwin, o que eu tinha a dizer já disse: veja aqui. é uma pena. admira-me e lamento que a ad astra ou levoir tenha escolhido para o público uma tradução de portugal (pois suponho que a tenha licenciado junto à lello, que continua a publicá-la até hoje) e outra no brasil para a folha, licenciando-a da hemus, sem se dar conta da fraude. imagino que esse lançamento da folha seja de alta tiragem, o que é meio assustador, em se tratando de uma edição tão ruim e ilegítima.
a título de curiosidade, fui verificar num volume aqui em casa os créditos da "biblioteca folha", ótima coleção lançada em 2003: foi idealizada pela espanhola m.e.d.i.a.s.a.t. e pela brasileira mifano comunicações. por ora, as duas estão dando de mil a zero na levoir/ ad astra.
ao volume de maquiavel dedicarei outro post.
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murilo bussab, diretor da folha e responsável pela coleção "livros que mudaram o mundo", explicou que foi contratada uma empresa luso-espanhola especializada em coleções, chamada levoir, para esse projeto. o site http://www.levoir.pt/ está em construção, mas na net encontra-se a notícia de que a levoir (ou ad astra et ultra marketing e conceitos multimédia s/a), de oeiras, portugal, havia desenvolvido o projeto dessa coleção para o jornal o público de lisboa, que a lançou em fevereiro, em comemoração a seus 20 anos de existência. o projeto para a coleção folha segue o mesmo perfil e conceito, com algumas diferenças de títulos (p.ex., a versão portuguesa traz hamlet, mas não a metafísica dos costumes). ver também aqui.
hoje comprei o volume inaugural, a origem das espécies, de darwin, acompanhado pelo segundo volume: maquiavel, o príncipe e outros escritos.
sobre o volume de darwin, o que eu tinha a dizer já disse: veja aqui. é uma pena. admira-me e lamento que a ad astra ou levoir tenha escolhido para o público uma tradução de portugal (pois suponho que a tenha licenciado junto à lello, que continua a publicá-la até hoje) e outra no brasil para a folha, licenciando-a da hemus, sem se dar conta da fraude. imagino que esse lançamento da folha seja de alta tiragem, o que é meio assustador, em se tratando de uma edição tão ruim e ilegítima.
a título de curiosidade, fui verificar num volume aqui em casa os créditos da "biblioteca folha", ótima coleção lançada em 2003: foi idealizada pela espanhola m.e.d.i.a.s.a.t. e pela brasileira mifano comunicações. por ora, as duas estão dando de mil a zero na levoir/ ad astra.
ao volume de maquiavel dedicarei outro post.
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17 de set. de 2010
coleção folha: oropa e brasil
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nunca me canso de repetir que, além das denúncias de saulo von randow jr., foram as matérias da folha de são paulo em 2007 que me levaram a pesquisar esse terrível problema dos plágios e contrafações de traduções no brasil. além disso, o caderno ilustrada tem dado ampla cobertura ao problema nesses últimos anos. assim, é tanto maior e mais triste a ironia de que a coleção folha "os livros que mudaram o mundo" inclua uma franca e ridícula cópia atamancada de uma antiquésima, quase secular tradução portuguesa que, em si mesma, já era muito ruim. falo d'a origem das espécies, de darwin, que inaugura a referida coleção.
as coleções da folha, até onde me lembro e pelo que tenho em casa, sempre foram muito boas, bonitas, bem selecionadas, bem editadas, com belas capas e, sobretudo, boas traduções. desta vez, como gentilmente explicou murilo bussab, diretor de circulação e marketing da folha e responsável pelo lançamento da coleção:
eu sugeriria humildemente que, para a próxima coleção, a folha escolhesse uma empresa com um pouco mais de familiaridade com a história editorial brasileira e a qualidade de catálogo das várias editoras, ou que a própria levoir, antes de fechar qualquer contrato de licenciamento, avaliasse com mais cuidado e atenção os produtos que está negociando.
acompanhe o caso:
nunca me canso de repetir que, além das denúncias de saulo von randow jr., foram as matérias da folha de são paulo em 2007 que me levaram a pesquisar esse terrível problema dos plágios e contrafações de traduções no brasil. além disso, o caderno ilustrada tem dado ampla cobertura ao problema nesses últimos anos. assim, é tanto maior e mais triste a ironia de que a coleção folha "os livros que mudaram o mundo" inclua uma franca e ridícula cópia atamancada de uma antiquésima, quase secular tradução portuguesa que, em si mesma, já era muito ruim. falo d'a origem das espécies, de darwin, que inaugura a referida coleção.
as coleções da folha, até onde me lembro e pelo que tenho em casa, sempre foram muito boas, bonitas, bem selecionadas, bem editadas, com belas capas e, sobretudo, boas traduções. desta vez, como gentilmente explicou murilo bussab, diretor de circulação e marketing da folha e responsável pelo lançamento da coleção:
No caso de "Livros Que Mudaram O Mundo" compramos o conceito da coleção e os direitos da empresa luso-espanhola Levoir ... A Levoir, por sua vez, é quem previamente negociou com cada editora a compra dos diversos direitos envolvidos numa produção como esta.bom, talvez nas oropa seja diferente, mas no brasil, muito infelizmente, não dá para sair por aí confiando na primeira edição que aparece pela frente.
eu sugeriria humildemente que, para a próxima coleção, a folha escolhesse uma empresa com um pouco mais de familiaridade com a história editorial brasileira e a qualidade de catálogo das várias editoras, ou que a própria levoir, antes de fechar qualquer contrato de licenciamento, avaliasse com mais cuidado e atenção os produtos que está negociando.
acompanhe o caso:
- a falta de referência à tradução: assim fica difícil
- tentando adivinhar, mais do mesmo: que tédio
- bingo; resposta da folha: coleção da folha, comunicado
coleção da folha, comunicado
Cara Denise,
sou diretor de circulação e marketing da Folha e o responsável pelo lançamento desta coleção. Vi seus comentários no blog "não gosto de plágio" e gostaria de apresentar nosso lado da história.
As coleções da Folha têm por princípio disponibilizar obras de conteúdo relevante, com boa qualidade de produção, a preços muito menores do que os usualmente praticados no mercado. Foi assim com "Grandes Escritores Brasileiros", "Mestres da Pintura", "Raízes da MPB", "Clássicos do Jazz" e muitas outras....
Para nos ajudar neste processo, a cada projeto novo costumamos contratar empresas especializadas em organização de coleções, uma vez que nossa especialidade é a produção e distribuição de jornais/notícias. No caso de "Livros Que Mudaram O Mundo" compramos o conceito da coleção e os direitos da empresa luso-espanhola Levoir (que trabalha para diversos jornais da Península Ibérica e da França). A Levoir, por sua vez, é quem previamente negociou com cada editora a compra dos diversos direitos envolvidos numa produção como esta.
Pelo histórico da Levoir, e pelo que temos em acordo, acreditamos estar comprando traduções legais e de primeira linha. Por isso mesmo, muito me preocupou quando vi seu "post" no blog. A tradução que estamos usando para "Origem das Espécies" é realmente a da Hemus. Eu não tinha ideia das citadas falhas desta edição, mas, baseado em seus comentários, garanto que a Folha irá rever apuradamente a situação dos próximos volumes (embora alguns deles já estejam produzidos).
Seguindo outra sugestão colhida no "não gosto de plágio", a partir da semana que vem colocaremos no site da coleção www.folha.com.br/livrosmundo informações técnicas sobre cada obra (editora, tradutor, datas,...). Assim, esperamos tornar mais claro para os leitores que produto está sendo oferecido.
Atenciosamente,
Murilo Bussab
16 de set. de 2010
que tédio
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A Folha de S.Paulo hoje divulgou novamente o lançamento de sua coleção “Livros que mudaram o mundo”. A obra que inaugura a coleção é A origem das espécies, de Darwin. Várias pessoas têm estranhado a total ausência de qualquer informação sobre a tradução dessas obras. Nessa matéria de hoje, a Folha apresenta a frase final com que Darwin conclui sua introdução:
imagino que a Folha tenha adquirido licença de uso para publicá-la em sua coleção.
Bom, já dediquei inúmeros posts ao problema d'A origem das espécies no Brasil. Resumindo a história, essa pretensa tradução publicada pela Hemus e pela Ediouro não passa de uma franca e risível apropriação da provectíssima tradução de Joaquim Dá Mesquita Paul (1913, Lello & Irmãos, reeditada até hoje), aliás bastante capenga, feita a partir do francês, com pérolas como "canários selvagens" e "canários domésticos" em vez de "patos selvagens" e "patos domésticos", "espécie distinta" em vez de "espécie extinta" e inúmeras outras preciosidades.
Aliás, desde 2008 alertei a Ediouro várias vezes sobre essa fraude que ela vinha publicando desde 1985, e o Ministério Público do Rio de Janeiro determinou apuração dos fatos. O sr. Paulo Roberto Pires, editor da Ediouro, indagado pelo jornal Correio Braziliense sobre a irregularidade, apenas reiterou que a editora havia licenciado a tradução junto à Hemus.
Se a edição da Folha for essa, que péssima escolha! E os distintos canários continuarão a nos tolher o acesso a uma boa tradução de Darwin!
veja o darwin da ediouro com a posição da editora e consulte os posts arquivados sob a rubrica darwin, onde trato detalhadamente do assunto.
tradução portuguesa:
Estou plenamente convencido que as espécies não são imutáveis; estou convencido que as espécies que pertencem ao que chamamos o mesmo género derivam directamente de qualquer outra espécie ordinariamente distinta, do mesmo modo que as variedades reconhecidas de uma espécie, seja qual for, derivam directamente desta espécie; estou convencido, enfim, que a selecção natural tem desempenhado o principal papel na modificação das espécies, posto que outros agentes tenham nela partilhado igualmente.
tradução francesa:
Je suis pleinement convaincu que les espèces ne sont pas immuables ; je suis convaincu que les espèces qui appartiennent à ce que nous appelons le même genre descendent directement de quelque autre espèce ordinairement éteinte, de même que les variétés reconnues d'une espèce quelle qu'elle soit descendent directement de cette espèce ; je suis convaincu, enfin, que la sélection naturelle a joué le rôle principal dans la modification des espèces, bien que d'autres agents y aient aussi participé.
original:
I am fully convinced that species are not immutable; but that those belonging to what are called the same genera are lineal descendants of some other and generally extinct species, in the same manner as the acknowledged varieties of any one species are the descendants of that species. Furthermore, I am convinced that natural selection has been the most important, but not the exclusive, means of modification.
imagens: istockphoto; gifmania
atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.
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A Folha de S.Paulo hoje divulgou novamente o lançamento de sua coleção “Livros que mudaram o mundo”. A obra que inaugura a coleção é A origem das espécies, de Darwin. Várias pessoas têm estranhado a total ausência de qualquer informação sobre a tradução dessas obras. Nessa matéria de hoje, a Folha apresenta a frase final com que Darwin conclui sua introdução:
Estou plenamente convencido de que as espécies não são imutáveis; convenci-me de que as espécies pertinentes ao que denominamos de o mesmo gênero derivam diretamente de qualquer outra espécie ordinariamente distinta, do mesmo modo que as variedades reconhecidas de uma espécie, seja qual for, derivam diretamente desta, convicto estou, enfim, de que a seleção natural tem desempenhado o principal papel na modificação das espécies, embora outros agentes tenham-na igualmente partilhado.Como a Hemus e a Ediouro trazem idêntico trecho em suas edições, com créditos de tradução em nome de Eduardo Fonseca:
Estou plenamente convencido que as espécies não são imutáveis; convenci-me de que as espécies pertinentes ao que denominamos de o mesmo gênero derivam diretamente de qualquer outra espécie ordinariamente distinta, do mesmo modo que as variedades reconhecidas de uma espécie, seja qual for, derivam diretamente desta, convicto estou, enfim, de que a seleção natural tem desempenhado o principal papel na modificação das espécies, embora outros agentes tenham-na partilhado igualmente.
Bom, já dediquei inúmeros posts ao problema d'A origem das espécies no Brasil. Resumindo a história, essa pretensa tradução publicada pela Hemus e pela Ediouro não passa de uma franca e risível apropriação da provectíssima tradução de Joaquim Dá Mesquita Paul (1913, Lello & Irmãos, reeditada até hoje), aliás bastante capenga, feita a partir do francês, com pérolas como "canários selvagens" e "canários domésticos" em vez de "patos selvagens" e "patos domésticos", "espécie distinta" em vez de "espécie extinta" e inúmeras outras preciosidades.
Aliás, desde 2008 alertei a Ediouro várias vezes sobre essa fraude que ela vinha publicando desde 1985, e o Ministério Público do Rio de Janeiro determinou apuração dos fatos. O sr. Paulo Roberto Pires, editor da Ediouro, indagado pelo jornal Correio Braziliense sobre a irregularidade, apenas reiterou que a editora havia licenciado a tradução junto à Hemus.
Se a edição da Folha for essa, que péssima escolha! E os distintos canários continuarão a nos tolher o acesso a uma boa tradução de Darwin!
veja o darwin da ediouro com a posição da editora e consulte os posts arquivados sob a rubrica darwin, onde trato detalhadamente do assunto.
tradução portuguesa:
Estou plenamente convencido que as espécies não são imutáveis; estou convencido que as espécies que pertencem ao que chamamos o mesmo género derivam directamente de qualquer outra espécie ordinariamente distinta, do mesmo modo que as variedades reconhecidas de uma espécie, seja qual for, derivam directamente desta espécie; estou convencido, enfim, que a selecção natural tem desempenhado o principal papel na modificação das espécies, posto que outros agentes tenham nela partilhado igualmente.
tradução francesa:
Je suis pleinement convaincu que les espèces ne sont pas immuables ; je suis convaincu que les espèces qui appartiennent à ce que nous appelons le même genre descendent directement de quelque autre espèce ordinairement éteinte, de même que les variétés reconnues d'une espèce quelle qu'elle soit descendent directement de cette espèce ; je suis convaincu, enfin, que la sélection naturelle a joué le rôle principal dans la modification des espèces, bien que d'autres agents y aient aussi participé.
original:
I am fully convinced that species are not immutable; but that those belonging to what are called the same genera are lineal descendants of some other and generally extinct species, in the same manner as the acknowledged varieties of any one species are the descendants of that species. Furthermore, I am convinced that natural selection has been the most important, but not the exclusive, means of modification.
imagens: istockphoto; gifmania
atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.
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