16 de set de 2010

que tédio

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A Folha de S.Paulo hoje divulgou novamente o lançamento de sua coleção “Livros que mudaram o mundo”. A obra que inaugura a coleção é A origem das espécies, de Darwin. Várias pessoas têm estranhado a total ausência de qualquer informação sobre a tradução dessas obras. Nessa matéria de hoje, a Folha apresenta a frase final com que Darwin conclui sua introdução:
Estou plenamente convencido de que as espécies não são imutáveis; convenci-me de que as espécies pertinentes ao que denominamos de o mesmo gênero derivam diretamente de qualquer outra espécie ordinariamente distinta, do mesmo modo que as variedades reconhecidas de uma espécie, seja qual for, derivam diretamente desta, convicto estou, enfim, de que a seleção natural tem desempenhado o principal papel na modificação das espécies, embora outros agentes tenham-na igualmente partilhado.
Como a Hemus e a Ediouro trazem idêntico trecho em suas edições, com créditos de tradução em nome de Eduardo Fonseca:
Estou plenamente convencido que as espécies não são imutáveis; convenci-me de que as espécies pertinentes ao que denominamos de o mesmo gênero derivam diretamente de qualquer outra espécie ordinariamente distinta, do mesmo modo que as variedades reconhecidas de uma espécie, seja qual for, derivam diretamente desta, convicto estou, enfim, de que a seleção natural tem desempenhado o principal papel na modificação das espécies, embora outros agentes tenham-na partilhado igualmente.
imagino que a Folha tenha adquirido licença de uso para publicá-la em sua coleção.

Bom, já dediquei inúmeros posts ao problema d'A origem das espécies no Brasil. Resumindo a história, essa pretensa tradução publicada pela Hemus e pela Ediouro não passa de uma franca e risível apropriação da provectíssima tradução de Joaquim Dá Mesquita Paul (1913, Lello & Irmãos, reeditada até hoje), aliás bastante capenga, feita a partir do francês, com pérolas como "canários selvagens" e "canários domésticos" em vez de "patos selvagens" e "patos domésticos", "espécie distinta" em vez de "espécie extinta" e inúmeras outras preciosidades.

Aliás, desde 2008 alertei a Ediouro várias vezes sobre essa fraude que ela vinha publicando desde 1985, e o Ministério Público do Rio de Janeiro determinou apuração dos fatos. O sr. Paulo Roberto Pires, editor da Ediouro, indagado pelo jornal Correio Braziliense sobre a irregularidade, apenas reiterou que a editora havia licenciado a tradução junto à Hemus.

Se a edição da Folha for essa, que péssima escolha! E os distintos canários continuarão a nos tolher o acesso a uma boa tradução de Darwin!

veja o darwin da ediouro com a posição da editora e consulte os posts arquivados sob a rubrica darwin, onde trato detalhadamente do assunto.


tradução portuguesa:
Estou plenamente convencido que as espécies não são imutáveis; estou convencido que as espécies que pertencem ao que chamamos o mesmo género derivam directamente de qualquer outra espécie ordinariamente distinta, do mesmo modo que as variedades reconhecidas de uma espécie, seja qual for, derivam directamente desta espécie; estou convencido, enfim, que a selecção natural tem desempenhado o principal papel na modificação das espécies, posto que outros agentes tenham nela partilhado igualmente.

tradução francesa:
Je suis pleinement convaincu que les espèces ne sont pas immuables ; je suis convaincu que les espèces qui appartiennent à ce que nous appelons le même genre descendent directement de quelque autre espèce ordinairement éteinte, de même que les variétés reconnues d'une espèce quelle qu'elle soit descendent directement de cette espèce ; je suis convaincu, enfin, que la sélection naturelle a joué le rôle principal dans la modification des espèces, bien que d'autres agents y aient aussi participé.

original:
I am fully convinced that species are not immutable; but that those belonging to what are called the same genera are lineal descendants of some other and generally extinct species, in the same manner as the acknowledged varieties of any one species are the descendants of that species. Furthermore, I am convinced that natural selection has been the most important, but not the exclusive, means of modification.

imagens: istockphoto; gifmania



atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.




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7 comentários:

  1. Pois é, Denise, ao lhe dar o toque sobre o assunto temia coisas desse tipo. Mas o que causa espécie mesmo é o fato de o jornal do grupo ser sempre (corretamente) célere em publicar matérias criticando empreitadas do tipo. Estarão assim tão desconectados os braços do polvo empresarial?

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  2. que coisa essa tradução, denise! um polvo, aproveitando a imagem do bárbaro. dá um nó no entendimento. é claro que acompanho sempre seu trabalho sensacional: que determinação você tem, e quanto está contribuindo para mudar as coisas! grande abraço, e os agradecimentos, sempre, por tudo o que você faz.

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  3. Anônimo25.9.10

    Sendo o trecho literalmente identico, nao havia nenhuma nescessidade de reproduzi-lo, bastaria dizer identico ou copia e seguir. Pouparia o trabaho desnecessario de procurar qualquer suposta discrepancia.

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  4. Anônimo12.10.10

    Em Portugal, o livro foi também publicado numa colecção semelhante, através de um jornal.

    Aliás, o que me trouxe aqui foi uma pesquisa sobre o tradutor assumido no livro, Joaquim Dá Mesquita Paul. Logo na 4ª página somos brindados com "( determinado livro)prestou serviços chamando a atenção para o assunto, combatendo os prejuízos e preparando os espíritos(...)".

    Prejuízos??? Prejudices, preconceitos.

    Que pena...

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  5. prezado anônimo: se servir de algum consolo para o leitor português, pelo menos dr. dá mesquita paul existiu, médico do final do século XIX e começo do século XX.

    o que acho um requinte de absurdo é que no brasil essa tradução abaixo de crítica seja solenemente copiada, plagiada e, se possível, piorada, e vendida às centenas de milhares de exemplares há mais de 35 anos!

    e agora, na coleção folha, que a própria folha seja ludibriada e tenha de pagar royalties para usar uma tranqueira dessas!

    haja prejuízos e canários distintos!

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  6. Anônimo23.11.10

    Comecei a ler essa tradução de Joaquim Dá Mesquita Paul, mas ela é tão ruim que achei melhor parar para não ter um ataque cardíaco. Logo no último parágrafo da introdução ele usa um "por conseguinte" sem pé nem cabeça. Eu vinha lendo calmamente o parágrafo, mas fiquei imediatamente em alerta quando li o tal "por conseguinte" pois não via nenhuma relação causa-consequência entre o que vinha antes e depois da locução conjuntiva. Por um instante pensei que não estava entendendo bem o que Darwin dizia... Mas então reli com cuidado e mantive a convicção de que não havia realmente relação causa-consequência ali. Procurei o original e vi que lá estava escrito um claríssimo "Yet". Quando descobri esse blog e soube que Joaquim Dá traduzira de uma tradução francesa entendi que ele cometera um erro crasso: de "pourtant" (conjunção adversativa em francês) ele fez um "portanto" em português.

    Willamy Fernandes.

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  7. quaquá, essa é divertida! claro, o que mais seria um "pourtant" para nosso amigo? o que me espanta tb é que a lello de portugal mantém essa absurdidade em catálogo até hoje - deve andar na sesquincentésima edição!

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