8 de set de 2010

confissões, santo agostinho 2

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Cf. AGOSTINHO, Santo. Confissões. 2a. ed. Trad. de Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulinas, 1984, p. 29-30:
No entanto, nesse período da meninice, que a meu respeito suscitava menores apreensões do que o da adolescência eu não gostava do estudo e detestava ser obrigado a ele. No entanto, eu era a isso obrigado, e para o meu bem. Mas eu não agia bem, pois só estudava quando coagido. Contra a vontade, ninguém procede bem, ainda que a ação em si mesma seja boa.
Cf. AGOSTINHO, Santo. Confissões. 3a. ed. Trad. de J. Oliveira Santos, S.J. e A. Ambrósio de Pina, S.J. São Paulo: Abril Cultural, 1984, pp. 18-19:
Neste período da infância, cujo perigo temiam menos paramim do que o da adolescência, não gostava do estudo, e tinha horror de ser a ele obrigado. Por meio desta coação faziam-me um bem - embora eu procedesse mal -, pois não aprenderia se não fosse constrangido. Todavia, contra a vontade, ninguém procede bem, ainda que a ação em si mesma seja boa.
Cf. AGOSTINHO, Santo. Confissões. Trad. de Frederico Ozanam Pessoa de Barros. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d., p. 36:
Nessa minha meninice, na qual eu tinha menos que temer por mim do que em minha adolescência, eu não gostava dos estudos, e odiava que me obrigassem a estudar. Contudo, era coagido, e me faziam grande bem. Quem não fazia bem era eu, que não estudava a não ser obrigado, pois ninguém faz bem o que faz contra a vontade, mesmo que seja bom o que faz.
Cf. AGOSTINHO, Santo. Confissões. Trad. de Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2002, reimpr. 2008, p. 40:
Nesta minha infância, na qual eu tinha menos que temer por mim do que em minha adolescência, eu não gostava dos estudos, e odiava que a eles me obrigassem. Contudo, era coagido, e me faziam grande bem. Quem não procedia bem era eu, que não estudava a não ser constrangido, pois ninguém faz bem o que faz contra a vontade, mesmo que seja bom o que faz.
uma característica interessante da edição martin claret, com tradução atribuída a "alex marins", são as notas. a numeração delas segue corrida, acompanhando fielmente as notas de remissão bíblica que constam no volume da ediouro. mas de vez em quando surgem, na edição claret, outras notas acrescidas de uma letra, p.ex: 3a, 3b, 5a, 10a, 17a.

o leitor curioso vai consultar a edição de oliveira santos e ambrósio de pina: constata que as notas interpoladas da edição claret são cópias resumidas das notas explicativas ou de fundo teológico, elaboradas pelos dois sacerdotes. tem-se uma nítida impressão de que a editora claret copiou as notas numéricas de ozanam e intercalou algumas extraídas da tradução de santos/ pina, apenas acrescentando uma letra após o número, para não precisar alterar toda a numeração de ozanam ao longo do livro.

assim, por exemplo, no livro I 6, tem-se:
27: alusão ao problema da origem das almas: foram criadas  todas ao mesmo tempo ou Deus cria cada uma isoladamente? Santo Agostinho não aderiu a esta última hipótese, a mais provável, pois hesitou sempre até ao fim da vida. (N. do T.) [ed. abril cultural, p. 13]
17a: especulação sobre a origem das almas: foram criadas simultaneamente ou são criadas isoladamente? Agostinho não abraçou esta última hipótese, a mais provável, pois sempre hesitou sobre isso [ed. martin claret, pp. 34-5]
ou, no livro VI 13:
219: A idade núbil, para as mulheres, em Roma e no Império, era a de doze anos. (N. do T.) [ed. abril cultural, p. 102]
15a: A idade núbil para as mulheres, em todo Império Romano, era na época de doze anos. [ed. martin claret, p. 137]
outro curioso detalhe é a primeira nota do livro, com a referência à frase de abertura das confissões: santos/pina dão corretamente o salmo 95 (96), 4, ozanam indica o salmo 144, 5 e "marins" o salmo 114, 3, repetindo-o na nota 5!

quanto ao texto propriamente dito, vale a pena comparar santos/pina, ozanam e "marins", no capítulo de abertura da obra:

I. Oliveira Santos e Ambrósio de Pina
 Livro I, 1 - Invocação ou louvor?
1. "Sois grande, Senhor, e infinitamente digno de ser louvado1." "É grande o vosso poder e incomensurável a vossa sabedoria2." O homem, fragmentozinho da criação, quer louvar-Vos; - o homem que publica a sua mortalidade, arrastaqndo o tesemunho do seu pecado e a prova de que Vós resistis aos soberbos. Todavia, esse homem, particulazinha da criação, deseja louvar-Vos.Vós o incitais a que se deleite nos vossos louvores, porque nos cristes para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós3.
Concedei, Senhor, que eu perfeitamente saiba se primeiro Vos deva invocar ou encomiar, se, primeiro, Vos deva conhecer ou invocar4.
Mas quem é que Vos invoca se antes Vos não conhece? Esse, na sua ignorância, corre perigo de invocar a outrem. - Ou, porventura, não sois antes invocado para depois serdes conhecido? "Mas como invocarão Aquele em quem não acreditaram? Ou como hão de acreditar, sem que alguém lhes pregue?5" "Louvarão ao Senhor aqueles que O buscarem6." Na verdade, os que O buscam, encontrá-Lo-ão, e aqueles que O encontram hão de louvá-Lo.
Que eu Vos procure, Senhor, invocando-Vos; e que Vos invoque, crendo em Vós, pois nos fostes pregado. Senhor, invoca-Vos a fé que me destes, a fé que me inspirastes por intermédio da humanidade de vosso Filho e pelo ministério do vosso pregador7.

1 Sl 95, 4.
2. Sl 146, 5.
3. Esta frase é a síntese de todo o livro. A nostalgia de Deus habita no coração do homem. É um espinho cravado na sua carne... O homem, na sua angústia existencialista, como Kierkegaard, Jaspers, Marcel, grita perante o ser... (n. do T.)
4. Os cinco primeiros capítulos desenvolvem-se em oração laudatória a Deus, num lirismo vibrante de gênio. Eis o seu aspecto geral sistematizado: O homem, "fragmentozinho da criação", anseia louvar a Deus, centro e repouso da alma inquieta. Como procurá-Lo e conhecê-Lo? Invocando-O com fé e louvor.
Deus é imenso e está nos seres por presença (nada lhe éoculto), por substância (existe em todas as coisas), por potência (opera em todos os seres). Quais as suas perfeições?O que é a alma de Agostinho perante o único Bem? (N. do T.)
5. Rom. 10, 14.
6. Sl 21, 27.
7. Referência a Santo Ambrósio, que contribuiu para a conversão de Agostinho. (N. do T.)
II. Frederico Ozanam
Livro Primeiro, Capítulo 1 - Louvor e Invocação
Grande és, Senhor e infinitamente digno de ser louvado (1); grande é teu poder, e incomensurável tua sabedoria (2). Epretende louvar-te o homem, pequena parte de tua criação, e precisamente o homem que, revestido de sua mortalidade, leva consigo o testemunho do pecado e o testemunho de que resistes aos soberbos (3)? Contudo, o homem, pequena parte de tua criação, deseja louvar-te.Tu mesmo o excitas a isso, fazendo com que se deleite em te louvar, porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso.

Faze, Senhor, que eu entenda e conheça se é mais importante invocar-te e louvar-te, ou se devo antes conhecer-te, para depois te invocar. Mas, haverá alguém que te invoque antes de te conhecer? Porque, não te conhecendo, facilmente poderá enganar-se em suas invocações.Ou, porventura, deves antes ser invocado para depois ser conhecido? Mas como invocarão aquele em quem não crêem? Ou como haverão de crer sem pregador (4)?

Com certeza, louvarão ao Senhor os que o buscam (5), porque os que o buscam o encontram, e os que o encontram hão de louvá-lo.

Que eu, Senhor, te busque invocando-te, e te invoque crendo em ti, pois já me falaram de ti. Invoca-te, Senhor, minha fé, a fé que tu me deste e inspiraste pela humanidade de teu Filho e o ministério de teu pregador.
(1) Sl 144, 5.

(2) Sl 146, 5.
(3) Pdr, 1, 5.
(4) Rom 10, 14.
(5) Sl 21, 21.
III. "Alex Marins"
Livro Primeiro, Capítulo 1 - Louvor e Invocação
És grande, Senhor e infinitamente digno de ser louvado 1; grande é teu poder, e incomensurável tua sabedoria 2. E o homem, pequena parte de tua criação quer louvar-te, e precisamente o homem que, revestido de sua mortalidade, traz em si o testemunho do pecado e a prova de que resistes aos soberbos 3. Todavia, o homem, partícula de tua criação, deseja louvar-te. Tu mesmo o incitas ao deleite no teu louvor, porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso. 3a
Concede, Senhor, que eu bem saiba se é mais importante invocar-te e louvar-te, ou se devo antes conhecer-te, para depois te invocar. 3b Mas alguém te invocará antes de te conhecer? Porque, te ignorando, facilmente estará em perigo de invocar outrem.Ou, porventura, deves antes ser invocado para depois ser conhecido? Mas como invocarão aquele em quem não crêem? Ou como haverão de crer sem que alguém lhos pregue 4?
Com certeza, louvarão ao Senhor os que o buscam 5, porque os que o buscam o encontram, e os que o encontram hão de louvá-lo.
Que eu, Senhor, te procure invocando-te, e te invoque crendo em ti, pois me pregaram teu nome. Invoca-te, Senhor, a fé que tu me deste, a fé que me inspiraste pela humanidade de teu Filho e o ministério de teu pregador.
1 SL 114, 3.
2 Sl 146, 5.
3 Pdr 1, 5.
3a Tais expressões sintetizam o livro todo. A nostalgia de Deus mora no coração do homem.
3b Os cinco primeiros capítulos são uma vibrante louvação a Deus, lírica e genial. O homem, partícula da criação, busca louvar a Deus, repouso da sua alma inquieta

4 Rom 10, 14.
5 Sl 114, 3
5a Refere-se a Santo Ambrósio, que contribuiu para a conversão de Agostinho
ver também confissões, santo agostinho 1.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



7 comentários:

  1. Acho que já falei, mas acho muito importante reforçar, seu blog é de extrema utilidade pública! Sempre que vou comprar um livro em que houve a tradução para o português, gosto de verificar se há aqui alguma nota a respeito da editora ou até mesmo do tradutor. Confesso que antes de conhecer seu blog nunca imaginei que poderia ocorrer casos como estes que você relata.
    Excelente texto, como sempre!

    Excelente restinho de semana para você!

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  2. obrigada, two ways! fico feliz que seja útil - de fato, se a gente bobear, fica uma bandalheira!

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  3. Anônimo14.2.11

    Muito útil seu blog. Continue fazendo o bem sem olhar a quem.

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  4. boa tarde, denise.

    há alguma tradução direta do confissões? se sim, qual?

    uma curiosidade: por que escreve em minúsculo?


    obrigado.
    até mais.

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  5. sim, a dos sacerdotes J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina.
    excesso de cummings na adolescência ;-)
    até.

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  6. Seu blog é o melhor da internet. Obrigado!

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    1. opa, que belo afago no ego, obrigada!

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