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3 de dez. de 2024

uau!

 uma emocionante e incrível iniciativa da dirce waltrick do amarante, marlova assef e myllena lacerda: a revista qorpus, da pglit/ufsc, lançou um número especial dedicado a mim (a mim!!) septuagenando.

disponível aqui



18 de ago. de 2024

entrevistas, debates etc.

 transmitidos no youtube, disponíveis aqui.



14 de jul. de 2021

entrevista

 "minha história", na biblioteca mário de andrade, disponível aqui.


28 de jun. de 2021

entrevista

 "enquadrando o tradutor", pela pget-ufsc, disponível aqui.




21 de jun. de 2021

entrevista

  "tradução refletida", uma conversa com anderson lucarezi e eliakim oliveira, no youtube, aqui 




26 de abr. de 2021

ainda sobre a fazenda dos animais

 aqui excertos de uma entrevista minha ao site da bienal do livro.


21 de mar. de 2021

matérias, entrevistas e palestras

 

matérias, entrevistas e palestras


2 de mar. de 2021

conversa

conversa pela biblioteca mário de andrade: aqui.



17 de mar. de 2019

entrevista

agradeço a josé nunes pelo gentilíssimo convite. disponível aqui.



Como escreve Denise Bottmann


Denise Bottmann é historiadora e tradutora.

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?
Tenho uma espécie de rotina, sim, um pouco flexível. Levanto, preparo o café da manhã [meu querido amor, que é um madrugador, já deixa a mesa preparada, tudo no jeito], tomamos café, conversamos do mais e do menos, fazemos festa nos cachorros e nos gatos e vamos ver as orquídeas. Aí cada qual vai para seu escritório e seu computador, e começo a traduzir.
Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?
De dia mesmo. Entre as 9 ou 10 da manhã e as 3 ou 4 da tarde, com os devidos intervalos – conversar, comer, espairecer, andar pelo jardim, ver alguma coisa aqui ou ali.
Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?
Tradução é basicamente uma questão de método e rotina, creio eu. Então traduzo de segunda a sexta, com uma meta de dez a quinze laudas por dia. Às vezes vai que é um raio, e até dá para fazer mais. Outros dias a coisa fica mais devagar e sai um pouco menos. Mas, entre uma variação e outra, ao final acaba tendo uma média relativamente constante.
Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?
Tem gente que faz uma série de preparações prévias antes de começar a traduzir. Lê o original inteiro ou boa parte dele, assinala e consulta as dúvidas, faz pesquisas de antemão e assim por diante. Já eu não. Tenho uma concepção da coisa que é meio assim: entendo melhor a estrutura compositiva do texto se eu for traduzindo à medida que o leio, pois então, ao traduzir, preciso ir pegando os vários aspectos presentes, desde as escolhas vocabulares do autor, os recursos linguísticos de que lança mão, as figuras de estilo que adota, até a construção gradual e cumulativa de um ou mais sentidos que constroem o conjunto da coisa. Numa leitura corrida prévia, creio que eu perderia boa parte da construção do texto, que, a meu ver, capta-se melhor num acompanhamento mais denso, mais próximo, que é o que procuro fazer nesse processo concomitante de leitura/tradução.
Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?
Felizmente, não tenho esses problemas mais peculiares a um escritor de obra própria.
Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?
Ah, ler, reler, treler tradução é indispensável! Sempre mudando uma coisinha aqui, outra ali. Até a hora em que a gente precisa dar um basta, senão nunca para.
Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?
No mundo da tradução, sou o que chamam de “dinossauro”. Enquanto boa parte dos tradutores e tradutoras de áreas técnicas, comerciais e até mesmo acadêmicas e literárias emprega programas e ferramentas de auxílio à tradução, utiliza glossários montados a partir de memórias de tradução e assim por diante, fico só com meu computadorzinho. E claro que o buscador do Google é uma imensa mão na roda para consultas das mais variadas questões, pois cobre quase a totalidade dos dicionários e enciclopédias mais importantes e oferece uma grande variedade de outras fontes de consulta, bem como traz uma profusão de links para textos e pesquisas sobre o tema em que estou trabalhando naquele momento.
De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativa?
“Ideias” nesse sentido, em tradução, imagino que significa basicamente pensar, avaliar e definir o partido tradutório (o tom, o tratamento, o tipo de costura, os níveis de registro da linguagem, o tipo e grau de aderência ao texto de origem, os recursos a adotar em ocorrências de difícil solução, e assim por diante) que emprego no trabalho que estou fazendo naquele momento. Mas, como disse, visto que meu processo de tradução é praticamente simultâneo à leitura do texto, essa reflexão, essa avaliação e essa definição do partido tradutório vão se fazendo e se configurando ao longo desse mesmo processo, sobretudo em suas fases iniciais. Conforme a gente caminha, as ideias quanto aos procedimentos mais cabíveis vão se fazendo mais claras e se consolidando melhor.
O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesma se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?
Ah, a gente adquire mais segurança, sente a palavra, a formulação das palavras de maneira mais correta e mais escorreita, a gente fica mais à vontade no e com o texto. Acho que não diria nada; ou, talvez, agradeceria àquela pessoinha das primeiras traduções, sempre tão bem-disposta, a despeito dos erros e das inseguranças que nem percebia serem erros e inseguranças.
Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?
Projetos profissionais e próprios não faltam. Que os deuses permitam que eu os vá executando dia a dia, vez a vez.

2 de mar. de 2019

podcast

"lugar da mulher é onde ela quiser", edição especial de a voz do tradutor, ano II, n. 33, com organização e coordenação de damiana rosa de oliveira, disponível aqui.


A VOZ DO TRADUTOR - ano II - nº33 - O podcast da Escola de Tradutores! - Edição Especial "O podcast é delas" de 02 de março de 2019

Nesta edição, você vai ouvir: mensagem da presidente do Sintra,  Luisa Lamas; Hora do café com a tradutora literária Denise Bottmann; relatos emocionantes das colegas tradutoras Rane Souza, Carol Pimentel, Andressa Gatto e Ligia Ribeiro.


21 de jun. de 2018

entrevista

saiu no digestivo cultural uma entrevista minha a jardel filho, a quem agradeço o convite. 

trato de vários temas, e o resumo da história é: "tradutor nunca está sozinho e tradução nunca ninguém faz sozinho".  

disponível aqui.

Leitores da área de ciências humanas com certeza conhecem Denise Bottmann, cujo nome aparece na primeira página de um grande número de livros como a tradutora de áreas como a história da arte, teoria e história literária, ensaios sobre cultura, biografias e romances. Nomes como os de Argan, Longhi, Edward Said, Arendt, Thoreau, Thompson, George Steiner, Eagleton, Matisse, Virginia Woolf, Duras, Sam Shepard, dentre tantos outros, tiveram suas obras traduzidas para o português graças ao excelente trabalho como tradutora que Denise Bottmann desenvolve desde 1985, em línguas como o inglês, francês e italiano.

A tradutora Denise Bottmann é graduada em História pela Universidade Federal do Paraná e mestre em Teoria da História pela UNICAMP. Foi por um período docente de filosofia da Unicamp.

Desde 2008 mantém o blog Não Gosto de Plágio, em que denuncia a publicação, por editoras brasileiras, de plágios de traduções de autores clássicos. Ganhou em 2013 o Prêmio Paulo Rónai pela sua tradução de Mrs Dalloway, de Virginia Woolf, e no ano seguinte o Prêmio Jabuti, terceiro lugar, por uma outra tradução de Woolf, Ao Farol. Em 2015, recebeu o Prêmio ABL de Tradução por Aguapés, de Jhumpa Lahiri.

Na entrevista, que gentilmente deu por e-mail para o Digestivocultural, Denise Bottmann comenta questões que envolvem seu trabalho como tradutora e as especificidades do ato de tradução.



JARDEL: O que a levou a abandonar a área de sua formação acadêmica (História) para se tornar uma tradutora profissional?

DENISE BOTTMANN: Ah, a vida é sempre meio engraçada, com tantas voltas e reviravoltas que fica até difícil traçar retrospectivamente um percurso mais ou menos coerente, quem dirá linear. Na verdade, entre me formar em História e virar tradutora profissional, como atividade principal, passaram-se bem uns 25 anos. Mas mesmo isso precisa de uns grãos de sal: comecei a traduzir profissionalmente, isto é, recebendo a encomenda de uma tradução e sendo paga para isso, em 1984. Mas minha atividade principal na época era a docência. Depois, nos meados dos anos 90, deixei a tradução e, logo depois, também a universidade. Para a universidade não voltei, mas a tradução retomei em 2005, aí já como atividade principal, embora não exclusiva, e nela me mantenho até hoje, agora em caráter exclusivo. O que me levou a isso, como formula a pergunta, foi um oceano de coisas, que nem vale muito a pena detalhar. O que foi legal nesses últimos cinco ou seis anos foi também a retomada de uma atividade propriamente historiográfica, pesquisando – de forma independente, sem vínculos profissionais – a história da tradução no Brasil. Como essas minhas pesquisas vêm sendo publicadas em vários periódicos acadêmicos, é como se todos esses aspectos, a formação, a vivência acadêmica e a paixão pela tradução, se reunissem numa coisa só.



JARDEL: Como é feito um contrato de tradução entre você e a editora? Quem escolhe a obra a ser traduzida, que tempo se exige do tradutor, como é pago o trabalho?

DENISE BOTTMANN: Aí vou falar mais por mim, embora algumas coisas possam ter caráter geral, aplicável à maioria dos profissionais em tradução editorial. Os contratos entre a editora e mim são de transferência dos direitos autorais sobre a obra de tradução. Ou seja, segundo nossa legislação autoral, o que faço não é uma prestação de serviços, mas sim uma obra portadora de direitos autorais, que são de dois tipos, os patrimoniais (os direitos de explorar economicamente a obra, publicá-la, vendê-la etc.) e os morais (os direitos referentes à autoria dela, isto é, que traga meu nome, não seja alterada sem minha autorização e coisas do gênero). Então assinamos, a editora e eu, um contrato pelo qual transfiro meus direitos patrimoniais a ela, para que possa utilizá-la comercialmente. Os direitos morais permanecem comigo. Quem escolhe a obra é a editora: é ela que negocia com o autor ou a editora do autor os direitos para traduzi-la aqui no Brasil (salvo as obras em domínio público, que dispensam essa etapa), e aí ela me encomenda a tradução dessa obra. Claro que eu poderia sugerir algum livro a alguma editora, sem dúvida. Mas, se fiz isso uma ou duas vezes, foi muito.

Quanto ao prazo, há aquelas obras em que é um verdadeiro perereco, uma correria, mas isso é meio raro, bastante raro, eu diria – e, quando a pressa é muita, a editora divide a obra entre dois ou mais tradutores, para agilizar o processo. Naturalmente, se há uma urgência urgentíssima, a própria editora é que tem a iniciativa de oferecer um “adicional” no pagamento em vista dessa urgência. Mas o habitual – ufa, ainda bem, tal seria! – é que os prazos sejam razoáveis, tranquilos, sem maiores pressões. E não é bem que “se exige” um prazo: conversa-se, oferece-se, propõe-se, conversa-se. É tudo muito decente e civilizado.

E como se paga, você pergunta? Bom, a editora costuma ter uma tabela ou uma faixa de preços com que remunera esse trabalho de tradução. Os valores, sei que variam muito entre as centenas de editoras existentes no Brasil. Mas, nas editoras com que trabalho, essa faixa é mais ou menos parecida e não é nada que possa te levar a morrer de fome. E, se alguém procura você para algum trabalho oferecendo valores a que você não está acostumada, você explica, diz que sua faixa é outra; se houver acordo, muito que bem; se não, fica para outra oportunidade. Quando ao modo de pagamento, como às vezes são obras grandes, com oitocentas, mil laudas, vou retirando um tanto por mês até a entrega do trabalho, e depois recebo o saldo.

JARDEL: Existe um gênero específico em que você se sente mais à vontade para traduzir ou que graças à sua prática nesse gênero você o domina melhor e que também lhe interessa mais profundamente traduzir? Por quê?

DENISE BOTTMANN: Minha área são as ciências humanas ou, mais amplamente, as humanidades em geral. É do que mais gosto e em que tenho mais facilidade. Como trabalho, vai que é uma beleza. Como interesse e estímulo intelectual, é também o que prefiro. Mas é um leque razoavelmente amplo, desde história da arte (adorei traduzir os livros do Roberto Longhi, por exemplo) a estudos literários variados, com o amplo recheio de obras de história, sociologia, filosofia, teoria política, teoria econômica, ensaios de diversos tipos e assim por diante. E claro que o tema por si só não garante que a obra seja interessante ou agradável ou fácil ou difícil de fazer. Mas é a área por onde trafego com mais frequência. Curiosamente, outro dia me dei conta da quantidade de biografias (individuais e familiares) que traduzi: Freud, Van Gogh, a rainha Vitória, Mandela, Salinger, Chanel, Oliver Sacks, a dinastia americana dos Stein, os Románov, Steve Jobs, Frank Sinatra, imagine só! (Se bem que os três últimos foram naquele esquema de dividir o trabalho por causa dos prazos.) O Van Gogh eu adorei. Por literatura ando me aventurando um pouco nos últimos anos, e tenho feito coisas que acho fascinantes – por exemplo, esse romance autobiográfico do Sam Shepard, Aqui de dentro, que saiu recentemente.



JARDEL: Existe no Brasil o reconhecimento do tradutor como deveria, com prêmios e tudo o mais, reconhecimento à altura do resultado do trabalho que realiza não só da tradução em si, mas como introdutor de importantes obras literárias, filosóficas e científicas de outras culturas em um país como o nosso, praticamente monolíngue?

DENISE BOTTMANN: Hahaha, imagino que nenhuma profissão acha que é reconhecida “como deveria”. Mas sim, o que você levanta é importante. Não, não há. E nos últimos anos os prêmios – que já não eram muitos – andaram diminuindo bastante: o Oceanos parou de contemplar a categoria Tradução; a ABL acabou com todos os seus prêmios (e não só o de tradução), mantendo apenas o Machado de Assis pelo conjunto da obra; o União Latina (para obras técnicas e científicas) deixou de existir. Restaram o Jabuti da CBL, apenas para tradução de obras literárias, o da FNLIJ, para tradução de obras infantis e juvenis, o da APCA, também para tradução literária, e sem sistema formal de inscrição e julgamento, mas por avaliação interna, e o Paulo Rónai da FBN, que acaba sendo o mais abrangente. E nem de longe passa muito a ideia disso que você comenta: o papel da tradução como a grande, a única maneira de estabelecer contato, criar laços, fazer parte do mundo para além de nossas fronteiras. Mas esse mérito, creio eu, cabe mais à tradução concebida em termos amplos, como atividade que se processa social e historicamente, envolvendo um grande número de agentes, contando na linha de frente, claro, com um setor editorial que tenha um mínimo de pujança dentro da economia geral de um país.

JARDEL: Quando comecei a ler a biografia de Van Gogh, de mais de mil páginas, e descobri que você a traduziu, pensei e me interroguei: meu Deus, que trabalheira traduzir tantas páginas, quanto tempo deve ter demorado esse trabalho? Então, quanto tempo, quanta dificuldade e quanto suor foi necessário para esse trabalho todo?

DENISE BOTTMANN: Ah, até comentei mais acima (não tinha ainda visto essa pergunta) que adorei fazer o Van Gogh. Sim, foi uma delícia. Trabalheira é, claro, mas trabalheira da boa, gostosa. De tanto que me envolvi com aquilo, até criei um blog de acompanhamento da tradução, que se chamava A biografia do Van Gogh – enquanto vou fazendo, vou falando [https://abiografiadovangogh.blogspot.com/]. Não foi difícil, de forma alguma, e aprendi muito. Foram quatro meses, quatro meses e meio talvez. Mas é isso o que eu faço, entende? Tanto faz que o livro tenha cem ou mil páginas; traduzo todos os dias, de segunda a sexta, antigamente umas seis a oito horas por dia; hoje, que ando mais vagabunda, são umas quatro, cinco horas por dia. Então tanto faz; se não for uma coisa, é outra. E é muito gostoso, ótimo mesmo, quando o livro é legal e é comprido. Ruim é quando o livro é irritante ou tristíssimo ou medonho. Aí, sim, você sofre, aquilo, mesmo que não seja imenso, parece que não acaba mais.

JARDEL: No livro “Poética do traduzir”, Henri Meschonnic diz que “traduzir põe em jogo a representação da linguagem na íntegra, não se limitando a ser o instrumento de comunicação e de informação, de uma cultura a outra, considerado inferior à criação original, sendo a tradução o melhor posto de observação sobre as estratégias de linguagem”. O que você acha dessa afirmação?

DENISE BOTTMANN: Sim, sim, concordo. Gosto de uma imagem da Rachel de Queiroz (que foi ótima tradutora e durante uns dez anos teve a tradução como seu ganha-pão), que dizia: “Eu lembro que, na época em que traduzia, eu me sentia como se estivesse desmanchando a costura, desmanchando o crochê de certos escritores, descobrindo os pontos, os truques prediletos deles”. Você como que decompõe o trabalho feito e tem de reconstituí-lo em português levando em conta esses procedimentos compositivos, que você só consegue sacar num nível mais estrutural, analisando as “estratégias de linguagem”, como diz o Meschonnic. Daí tanta gente dizer, inclusive os próprios autores, que o melhor leitor é o tradutor – pois claro, tem que ser mesmo, pelo menos o mais detalhista e minucioso; senão, como fica?

JARDEL: Em “Além do bem e do mal”, Nietzsche diz que a maior obra de prosa alemã é a tradução da Bíblia por Lutero. Nesse sentido, a valorização da tradução supera o conteúdo específico do livro sagrado, tornando-o uma obra exemplar de prosa. O tradutor pode ser também, nesse sentido, um bom prosador? Como?

DENISE BOTTMANN: A história do Lutero tradutor é interessante, mas também meio complicada, e a afirmação talvez um tanto demagógica do Nietzsche também tem um pouco desse lado de querer desmistificar um eruditismo pedante que não lhe agradava – embora o elogio da tradução luterana não fosse original; pelo contrário, já era algo corrente. Mas, pegando o cerne da questão, sim, claro, o tradutor pode – e até deve – ser um bom prosador. Não precisa ser autor de obra própria, mas precisa ter domínio e desenvoltura na escrita. E tantos livros, tantos tradutores têm uma prosa tão maravilhosa que dá gosto de ler. O mais recente a me despertar grande encanto pelo texto tão agradável e envolvente foi a tradução do Rubens Figueiredo para os Contos de Odessa, do Isaac Bábel.

JARDEL: No seu trabalho de tradução já ocorreu de você ter que melhorar um texto que julgasse ruim, tornando-o não só mais claro, mas mais bem escrito?

DENISE BOTTMANN: Hmm, não, não que eu me lembre. Posso não gostar, achar dogmático, trivial, repetitivo, ensandecido, qualquer coisa assim, mas isso quem acha é a Denise leitora, não a Denise tradutora. O que às vezes ocorre – mas é meio raro, devido ao tipo de obras que traduzo com mais frequência, que costumam ter razoável rigor e coerência – é encontrar algum pequeno lapso, algum equívoco, algum problema de continuidade. Aí marco a passagem traduzida conforme o original, ponho um destaque em amarelo por cima da passagem e acrescento entre colchetes, também em destaque para o editor ver, a retificação que me parece cabível. Aí o editor decide, às vezes consulta o autor ou a editora do original, e procede como julgar mais conveniente. Porém, como disse, é algo raro de acontecer. Mas, pegando a deixa, tem autor que não é claro, deliberadamente; é equívoco, é ambíguo, é contraditório, é elíptico. Aí, evidentemente, você vai manter a obscuridade pretendida, não vai “esclarecer”, não vai aplainar nem facilitar. Mas isso também é detalhe, é uma questão mais técnica, meio difícil de explicar sucintamente, e que ocorre mais em literatura do que em bibliografia acadêmica.

JARDEL: O tradutor de poesia é visto como traidor, dadas as especificidades da poesia, que são praticamente impossíveis de serem reproduzidas em outra língua. Como você vê as ideias de Augusto de Campos e Haroldo de Campos, que na tradução de poesia propõem, como resposta a essa impossibilidade, uma espécie de “transcriação” do poema (e até “transluciferação”), exigindo do tradutor de poesia a “recriação” do poema original e não apenas uma tradução do “conteúdo”? Exigência essa que pede atenção sobre todos os planos da linguagem: o fonético, o sintático, o semântico, o prosódico. (NOTA: Formulei essa questão a partir da leitura do texto “Augusto de Campos como tradutor”, de Paulo Henriques Britto).

DENISE BOTTMANN: Cá entre nós, não me derreto de amores pelo Augusto de Campos – há belas traduções dele, claro; penso sobretudo nas de trinta, quarenta anos atrás, de poesia provençal, mas sempre preferi o Haroldo, tanto em suas teorizações quanto em suas traduções. A grande alavancada da coisa foi, sem dúvida, a inspirada iniciativa de Haroldo em se abeberar no Pound, trazendo brisas renovadoras à nossa paisagem. A sensação que tenho, às vezes, é que o termo se trivializou um pouco – o próprio Haroldo foi, até onde consigo entender, modificando um pouco o conceito e ficou um tanto fluido: o que, aliás, me parece mais uma prova de sua altíssima qualidade de tradutor, de tal forma que a dinâmica, a práxis tradutória se mostra muito mais fundamental e determinante do que a elaboração teórica; para manter alguma validade efetiva, esta se adequa, se molda àquela. Em termos mais gerais, porém, as dificuldades mais específicas da tradução de poesia, pelo que vejo, estão relacionadas sobretudo a questões de rima e metro (e/ou também distribuição tônica). Pois os planos da linguagem que você cita, “o fonético, o sintático, o semântico, o prosódico”, encontram-se também a todo vapor em qualquer prosa literária dotada de alguma densidade. Você não consegue sequer imaginar um romance de, sei lá, Virginia Woolf dissociado de sua elaboração linguístico-estilística: não existe um “conteúdo” pairando espectralmente por cima ou em volta da estrutura compositiva da obra. Este, aliás, acho que é um problema que às vezes ocorre em certas concepções da tradução poética: no frenesi em tanto afirmar a unidade do poema, e talvez até como forma de compensação de um suposto tradicional conteudismo, enfatiza-se de tal modo um dos lados (digamos, a não-mais-chamada “forma”) que sua própria matéria, o não-mais-chamado “conteúdo”, acaba ficando um pouco mutilada. À força de, digamos, tentar fazer caber os versos dentro de uma moldura métrica, rímica e rítmica, vê-se em alguns casos o cruento e implacável sacrifício de imagens e figuras de linguagem que, não raro, têm peso maior do que o enquadramento adotado para a transposição. E você fica com a impressão de que, em alguns casos, aquilo vira quase uma espécie de fetichismo. Mas digo isso mais como leitora do que como tradutora de poesia, embora, de vez em quando, eu também tenha de me aventurar pela tradução de alguns poemas.

JARDEL: Citando Paul Valéry: “O poeta é uma espécie singular de tradutor que traduz o discurso comum, modificado por uma emoção, em ‘linguagem dos deuses`”. Invertendo a questão, podemos falar em uma poética da tradução?

DENISE BOTTMANN: Hm, não creio que tenha entendido bem a pergunta.

JARDEL: Talvez eu queira saber se a tradução pode operar um milagre diante do original. Mas deixemos essa questão para lá. Rs

JARDEL: Traduzir uma obra a partir de uma tradução já existente em outra língua (por exemplo, Kafka e Dostoievski traduzidos do inglês e francês, como aconteceu no Brasil) é um mal menor (afinal, pode-se ler, mesmo assim, aquilo que não se leria no original), ou apenas um desastre?

DENISE BOTTMANN: Imagina, desastre! De maneira nenhuma. E “mal menor” em termos, também, não é? De todo modo, a pergunta me parece um pouco ambígua: “traduzir uma obra” e “pode-se ler” – estamos falando do tradutor ou do leitor final? O leitor, suponho eu, há de agradecer, claro, pois, como você diz, apesar da ressalva “mesmo assim”, ele pode ler aquilo que não leria no original. Já o tradutor há de fazer o que lhe é possível fazer. Isso falando em termos gerais. Falando em termos mais concretos, o surgimento de um efetivo setor editorial no Brasil, com alguma capacidade de autossustentação, é fenômeno bastante recente, que não chega a um século de existência, e sua consolidação não foi instantânea e sim gradual, embora, em vista das circunstâncias, até relativamente rápida. Então até podia haver um ou outro editor que se empenhasse em publicar traduções diretas, por exemplo, do russo, e podia haver um ou outro tradutor capacitado a fazer traduções diretas, ainda por exemplo, do russo. E não era só uma questão de conhecimento ou domínio de línguas menos usuais no Brasil – o tema é longo e complexo, envolvendo outras variáveis, talvez até mais importantes. Em todo caso, o que quero dizer é que se traduzia como dava: direta ou indiretamente do francês, do espanhol e, a partir de certa altura, diretamente do inglês – e nisso foi fundamental o papel do Monteiro Lobato (pois, não sei se você sabe, mas até o Oliver Twist o Machado de Assis traduziu do francês e, por lindo que seja O corvo dele, não sei como ficaria sem suas consultas também ao Baudelaire). Repito, sempre havia aquele classicista oitocentista que traduzia do latim ou do grego (Odorico Mendes, p.ex.), ou aquela descendente de algum imigrante germânico que conhecia a língua e traduzia do alemão (Carolina von Koseritz, p.ex.), ou aquele refugiado da Revolução soviética (Georges Selzoff, p.ex.) ou aquele comunista que fora viver algum tempo na URSS e dominava o russo (Moacir Werneck de Castro, p.ex.) – mas eram de se contar nos dedos. Já era fantástico, a meu ver, que, na esteira da grande crise de 1929, inviabilizadas as importações de livros estrangeiros e da maciça quantidade de traduções publicadas em Portugal, começasse a se desenvolver uma indústria editorial brasileira, inclusive vigorosamente fomentada pela política nacionalista de Vargas. Então, falar em desastre, em mal menor, isso e aquilo, me parece – com desculpas pela expressão – coisa de criança manhosa. Fazia-se o que se podia – e até, penso eu, freneticamente. E hoje em dia, sendo o cenário muito diferente nesses últimos cinquenta anos, ainda pode haver casos de tradução por interposição, mas são cada vez mais raros. Aliás, por falar nisso, recentemente fiz uma tradução interposta (talvez a primeira na minha vida profissional), a Utopia, de Thomas More, a partir do inglês. Por sorte, como não sou totalmente ignorante em latim, deu para acompanhar linha a linha pelo original neolatino (e até encontrei uma frase do original que o grandíssimo tradutor inglês, Dominic Baker-Smith, havia pulado, acredita numa coisa dessas? Achei divertido!). Mas, em suma, o que quero dizer é que, mesmo que ainda se faça, vez por outra, alguma tradução por interposição, qualquer tradutor, imagino eu, vai buscar amparo no original e/ou no aparato crítico que cerca aquela obra.

JARDEL: É famoso o caso das traduções de Freud, onde alguns conceitos-chave de sua obra são precariamente traduzidos colocando o sentido de suas ideias em risco, e há muita literatura sobre os equívocos das traduções das obras do pai da psicanálise. Como um tradutor pode evitar criar problemas em uma obra tão exigente como a de Freud ou outro pensador?

DENISE BOTTMANN: Nisso há um pouco de mitologia também, não? Quase cem anos depois, fica fácil falar qualquer coisa. Há décadas criticam-se tremendamente as traduções do James Strachey, que até hoje formam a Standard Edition das obras completas de Freud. Mas se a gente lembrar que o Freud estava ciente, a par, acompanhando as publicações, que foi a própria associação internacional de psicanálise em sua seção britânica que criou uma parceria com a Hogarth Press nos anos 1920 (editora, aliás, de Leonard e Virginia Woolf), que o Strachey fazia parte daquele círculo, você vai dizer o quê? Que o Freud foi “traído”? Que o Strachey era um desleixado? Complicado, né? Ou a história da turma francesa oscilando entre instinct e o neologismo pulsion para o Trieboriginal (que no inglês ficou como drive)? Quer dizer, isso para mim fala mais do aprofundamento, complexificação e diversificação de uma área de estudos do que propriamente de “problemas de tradução”. E essa abrupta afirmação, “precariamente traduzidos colocando o sentido de suas ideias em risco”, que hoje em dia faz parte do senso comum, às vezes talvez sirva também como uma espécie de slogan, como acompanhamento de uma pretensão de grande avanço qualitativo de tal ou tal estudo ou de tal ou tal tradução. Então eu iria com mais calma na hora de avaliar esse tipo de questão, antes de enunciar juízos muito bombásticos.

Mas, respondendo mais diretamente à pergunta, com autor vivo (como Freud naquela época), não há muito problema. É só conversar com ele – e, mesmo assim, depois pode dar um tremendo bafafá (exemplos: Freud, mais uma vez, ou, mais próximo de nós, o Guimarães Rosa, apesar da extensa e minuciosa correspondência com seu tradutor alemão, Curt Meyer-Clason, que depois virou saco de pancadas). O bafafá faz parte. As coisas não param, e sempre vai ter gente criticando, retificando, aprimorando etc., até que alguma hora, décadas ou séculos depois, aquilo vai ser resgatado com grandes pompas e fanfarras. Normal. Agora, com autor clássico, o grande arrimo com que o tradutor pode contar é a fortuna histórico-crítica de muitas décadas ou de séculos, às vezes até milênios, de análises, estudos, interpretações em torno da obra, do autor, da época, da inserção dentro de tal ou tal panorama, de seu impacto e desdobramentos, e assim por diante.

Resumindo, tradutor nunca está sozinho e tradução nunca ninguém faz sozinho. Você está no mundo, dos vivos e dos mortos, e vai dialogando. Pode evitar alguns problemas, mas certamente criará (ou criarão por você) outros. E é bom que assim seja. 


Jardel Dias Cavalcanti .

disponível aqui.




1 de abr. de 2017

entrevista com ivo barroso

uma excelente conversa de ivo barroso com gilberto cruvinel e emmanuel santiago, disponível aqui.



2 de mar. de 2017

entrevista de flávio r. kothe


uma bela entrevista do admirável ensaísta e tradutor flávio r. kothe a jorge henrique bastos, "celan e a barbárie", disponível aqui.


10 de fev. de 2017

entrevista

saiu uma matéria com entrevistas com vários tradutores (eu incluída) no primeiro número da revista deriva, disponível aqui. chama-se "do copo para o quase-copo".




30 de set. de 2015

entrevista com maurício santana dias

em homenagem ao dia dos tradutores, o peixe-elétrico publicou em seu site a entrevista com maurício santana dias, sobre suas traduções dos poemas de pasolini e pavese. disponível aqui.

Maurício Santana Dias fala de Pasolini e Pavese


1 de abr. de 2015

entrevista

o jornal cândido, da biblioteca pública do paraná, fez uma entrevista comigo, que publico aqui na íntegra.


Entrevista a Cândido, 3 de fevereiro de 2015

1. Em primeiro lugar, quem é o tradutor? Ou melhor, quem pode traduzir? Alguém que conheça a língua do livro a ser traduzido e também o idioma para o qual o texto será vertido? É isso? O que mais?
Sim, creio que o conhecimento das duas línguas, a de partida e a de chegada, são um bom começo - um excelente domínio sobretudo da língua de chegada, em nosso caso o português. Acredito também que o tradutor deve traduzir da língua estrangeira para sua língua materna, e não vice-versa. São raros, raríssimos os casos de estrangeiros que venham a conhecer tão bem o português que consigam autonomia completa na língua - os exemplos que me ocorrem são os de estrangeiros imigrantes ou de famílias imigrantes que acabaram se estabelecendo no Brasil, como Elias Davidovich, Tatiana Belinky, Paulo Rónai, Boris Schnaiderman e poucos mais.
Além do conhecimento do par de línguas, creio ser quase indispensável um conhecimento pelo menos geral dos assuntos tratados no texto. No caso de obras literárias, isso significa um mínimo de conhecimento de história da literatura, de estilos e escolas, bem como de técnicas literárias.
E, por fim, prática e experiência. Mas, para começar, creio que bastam, sim, os requisitos acima citados.

2. Há uma discussão, talvez superada, não sei, a respeito do tradutor respeitar o texto original ou então reescrever com liberdade. Qual a sua opinião sobre o assunto? Pode citar algum exemplo?
Ah, essa é uma discussão infindável, interminável, em particular na tradução literária. Pessoalmente, não conheço ninguém que defenda integralmente a ideia de "reescrever com liberdade", em termos estritos. No caso, isso seria mais uma paráfrase ou uma adaptação, e não tanto uma "tradução". Mas, tirando esses dois extremos - uma reescrita livre e descolada do texto ou uma adesão servil ao literalismo (que, no limite, nem faria sentido) -, há um extenso campo de variações e modulações possíveis. O praticante mais radical de uma reescrita livre seria, talvez, Ana Cristina César, a tal ponto que suas chamadas traduções são, a rigor, textos apenas inspirados por um original, digamos assim. Quanto ao literalismo mais colado ao original, há também o peso da experiência: um exemplo são as duas traduções de Josely Vianna Baptista  para Paradiso, de Lezama Lima, onde é possível ver seu amadurecimento desde aquela que foi sua primeira tradução profissional, em 1987, e a reelaboração a que procedeu na edição lançada agora em 2014.

3. Você tem vários livros traduzidos, da língua inglesa, francesa e do italiano. É isso mesmo? De qual idioma mais traduziu? 
Acrescento que traduzi também algumas coisas do espanhol. Gosto muito das línguas neolatinas e adoraria poder traduzir mais do francês e do italiano, mas, como a demanda por traduções do inglês é muito maior, acabo traduzindo bem mais do inglês do que de outras línguas.

4. Quanto tempo demora, em média, para traduzir uma lauda ou uma página? Você se programa, no caso de uma tradução já acertada, para trabalhar determinado número de páginas por dia ou pensa em caracteres ou traduz até o seu limite de energia naquele dia? 
Varia muito, muitíssimo, de tradutor para tradutor e também em função do texto e de suas dificuldades. Em meu caso pessoal, e em termos esquemáticos, foi assim: no começo eu me estabelecia uma jornada de 44 horas semanais, rendessem o que rendessem. Para livros de complexidade média, naquela época isso rendia cerca de dez páginas ou doze laudas por dia, resultando numa faixa de trezentas laudas ao mês, mais ou menos. Com o tempo, a experiência e sobretudo a facilidade proporcionada pela internet, para consultas e pesquisas, minhas horas de trabalho passaram a render mais laudas ou, dito de outra maneira, passei a precisar dedicar menos horas para chegar àquele tanto de laudas diárias. Hoje em dia, sou meio anárquica a esse respeito: às vezes, num surto inesperado qualquer, chego a fazer 20, 25 laudas num dia, sobretudo com textos fáceis, trabalhando oito, dez horas, e depois passo alguns dias sem fazer nada ou apenas duas ou três laudas, conforme vem a vontade. Tudo isso, naturalmente, supondo um texto não especialmente difícil. Para textos de maior dificuldade linguística, estilística ou temática, o rendimento é outro, cerca de metade ou dois terços disso. 

5. Quando realizou a sua primeira tradução? 
A primeira tradução profissional, digamos assim, ou seja, formalmente contratada e devidamente remunerada, foi em 1984, para a Editora Brasiliense. Era um livrinho do Perry Anderson, que saiu em português com o título de A crise da crise do marxismo. Já antes disso, eu gostava de traduzir artigos que achava interessantes (principalmente do Guy Debord, então pouco conhecido no Brasil), que eram publicados em alguns veículos da imprensa libertária (lembro-me dos baianos O inimigo do rei e Barbárie).

6. Até março de 2015, data da publicação da matéria, qual o número de obras que você traduziu? 
Hmmm, não sei dizer com certeza. Uns 120 livros, talvez, e uns vinte ou trinta artigos avulsos. Eu até mantinha uma listagem atualizada, mas nos últimos dois anos ando meio relapsa nisso.

7. Você vive das traduções? Paga-se bem ao tradutor? Quanto? As casas editoriais respeitam o tradutor? 
Sim, vivo exclusivamente de traduções. Olha, o preço de lauda que as editoras pagam aos tradutores varia incrivelmente, desde níveis vergonhosos até níveis que, para mim, são satisfatórios. Fica difícil dizer quanto. Mas creio que qualquer pessoa sensata só se dedicaria à atividade de tradução como única fonte de renda se a remuneração fosse suficiente para suas expectativas. No meu caso, com certeza é razoavelmente acima ou até bastante acima do salário de um professor universitário nos anos iniciais de carreira. Então, para mim está bom. Agora, para um pai ou mãe de família de classe média, com filhos para sustentar, com financiamento da casa para pagar etc., não creio que fosse tão satisfatório assim.
E sim, claro, as casas editoriais com as quais trabalho costumam respeitar bastante o tradutor. Bom, do contrário complica, não é mesmo? Quer dizer, a gente está na atividade porque é bem remunerada, é bem tratada, sente-se satisfeita, não é mesmo? Do contrário, por que se faria algo mal remunerado, sendo desrespeitado e se sentindo insatisfeito? Não faria sentido.

8. Considera o mercado editorial brasileiro profissional no que diz respeito a traduções? Pode apontar algum caso de profissionalismo? 
Ah, sim, altamente profissional! Estou acostumada a trabalhar para algumas editoras em caráter relativamente constante: Companhia das Letras, L&PM, Intrínseca, Objetiva, Zahar. São, todas elas, exemplos de alto profissionalismo na área de tradução, com excelentes editores. Não me lembro de ter trabalhado para alguma que pecasse por flagrante falta de profissionalismo - essas mal se sustentariam no mercado, imagino eu. Ademais, editoras que não zelam pela qualidade das traduções que publicam acabam fazendo um péssimo negócio, seja a curto, médio ou longo prazo. A maior bobagem que pode fazer uma editora é pagar mal ou desrespeitar seus profissionais.

9. O que é o maior problema para um tradutor? Pode citar algum caso seu, o qual foi difícil superar algum problema? 
Hmm, problemas sempre há: seja na tradução, com dificuldades que não consigo superar ou cujas soluções não me satisfazem plenamente; na preparação do texto, quando o revisor não entende bem o partido adotado na tradução ou mesmo falha em entender alguma coisa e faz intervenções desastradas; na divulgação da obra, quando cai na mão de algum resenhista de juízos demasiado rápidos ou desatentos, criticando infundadamente alguma coisa ou deixando de citar o nome do responsável pela tradução, e assim por diante. Mas faz parte.

10. Quais as suas traduções de que mais gosta? 
Ah, várias! Gosto muito de Piero della Francesca, de Roberto Longhi; de Walden, do Thoreau; de Mrs. Dalloway e Ao farol, ambas de Virginia Woolf (aliás, ambas premiadas). Recentemente tive uma experiência fabulosa, não nessa área mais lítero-humanística, e sim de ensaio de tipo jornalístico, que foi traduzir um livro sobre beisebol, de Michael Lewis, chamado Moneyball - foi sensacional, pois contratei um especialista para me orientar na área, visto que não entendo nada de beisebol e foi até meio imprudente de minha parte aceitar fazer essa tradução. Mas foi uma relação tão legal, tão séria, tão enriquecedora e ao mesmo tempo tão discreta e pouco invasiva que agora fico sonhando em desenvolver um novo tipo de trabalho, numa parceria assim. E o texto, achei que ficou ótimo - então estou adorando essa tradução também, por essa faceta inédita para mim.

11. Quem são os mais importantes tradutores em atividade no Brasil? 
Pergunta difícil, e inevitavelmente incorrerei em muitas injustiças, pois existe um grande número de bons, ótimos e excelentes tradutores em atividade no Brasil. Mas vamos lá: entre os grandes tradutores profissionais, sem dúvida destacam-se Ivo Barroso, Ivone Benedetti, Leonardo Fróes, Paulo Henriques Britto, Josely Vianna Baptista. Há outros grandes tradutores que não têm a tradução como atividade exclusiva e sequer principal, mas que são quase que uma espécie de "sal da terra" em nossa seara. Penso, por exemplo, em Marco Lucchesi, Jorio Dauster, Paulo Bezerra, Mamede Jarouche. Há um pessoal mais jovem, que começa a se consolidar e se destacar na área com trabalhos de alto nível, como Alípio Corrêa e Débora Landsberg. Mas, como disse, este é um exercício de injustiças, pois certamente há outros nomes de grande valor.

12. O que faz uma tradução ser considerada ruim? 
Bem formulada a questão, pois concede espaço para abrigar um fenômeno infelizmente não muito raro: pode ser desde a má vontade e - lamento dizer - eventual obtusidade de críticos e resenhistas até uma edição malfeita, com erros de revisão, má diagramação etc., que obscurecem a qualidade efetiva da tradução, até os casos mais triviais de incompetência do próprio tradutor, que leu, não entendeu e traduziu errado mesmo - e nenhum preparador ou revisor se deu conta dos erros e deixou passar. Em tempo: erramos, viu? Difícil encontrar alguma tradução que não contenha algum erro de entendimento ou de modulação.

13. O que eu não perguntei, deveria ter perguntado e você quer dizer sobre o assunto? 
Traduzir é uma delícia! Além de ser a coisa mais importante que existe. Já pensou um mundo sem acesso às línguas, obras e realizações de outras pessoas, de outras terras, culturas e épocas diferentes das nossas? Não dá nem para imaginar.




aqui "reconstruir um texto original", matéria de marcio renato dos santos utilizando excertos das entrevistas que vários tradutores demos.


19 de ago. de 2014

dicas

em conversa com zaqueu fogaça, da saraiva conteúdo, "dez dicas de denise bottmann para quem deseja ser tradutor", aqui.

DEZ dicas de Denise Bottmann para quem deseja ser tradutor19. 08. 2014
Literatura
A tradutora Denise Bottmann
Por Zaqueu Fogaça

São incontáveis as obras estrangeiras publicadas no Brasil todos os anos em língua portuguesa. Isso só é possível graças ao esforço de um profissional que às vezes escapa aos olhos apressados da maioria dos leitores: o tradutor, aquele sujeito que se debruça por meses, e até mesmo anos, no texto original para entregar a obra em português, pronta para ser lida.

O ofício do tradutor requer muita paciência para decifrar o labiríntico processo de composição de uma obra, como explica a tradutora Denise Bottmann: “O grande desafio é entender de fato o texto. Entender uma frase não significa entender as palavras e o sentido visível em determinada construção. Significa entender as articulações daquela frase dentro da construção geral da obra, princípios estruturais e compositivos utilizados pelo autor. Traduzir é basicamente decifrar o texto original, seguindo uma ou mais chaves de leitura, e reconstituir essa decifração num outro texto e em outra língua”.

Graduada em História e mestra em Teoria da História, a curitibana lecionou Filosofia na Unicamp; posteriormente, em 1985, direcionou seus esforços ao campo da tradução, trabalho que executa até hoje como tradutora de inglês, francês e italiano.

Entre os autores que verteu para o português figuram nomes como Hannah Arendt, Marguerite Duras, Henry David Thoreau e Virginia Woolf. Desta última, Denise traduziu o livro Mrs. Dalloway (L&PM), trabalho agraciado, em 2013, com o Prêmio Paulo Rónai da Biblioteca Nacional.

Em face das possibilidades e complexidades que cada obra apresenta, faz-se necessário definir uma linha tradutória. “Perante tal complexidade, o tradutor opta por uma determinada abordagem, um determinado ‘partido tradutório’. Assim, o principal objetivo de uma tradução em relação ao texto original é manter a coerência do partido adotado, checando constantemente sua validade em relação ao original”, diz a tradutora, que também é autora do blog Não Gosto de Plágio, no qual expõe ao público os plágios de traduções no país.

A pedido do SaraivaConteúdo, Denise Bottmann elencou dez componentes que considera importantes para quem ambiciona se aventurar pelo campo da tradução. Confira a relação abaixo.

1. DOMÍNIO DO PORTUGUÊS

Ter um domínio muito bom do português. E não se trata apenas de conhecer a língua. Trata-se de ter uma familiaridade lógica com estruturas linguísticas. Se a pessoa não tem pleno domínio linguístico de sua língua materna, dificilmente conseguirá ter uma percepção das estruturas lógicas de outra língua.

2. DOMÍNIO DA OUTRA LÍNGUA

Ter um domínio pelo menos bom da outra língua. O mais importante é o domínio das estruturas linguísticas; nesse sentido, eventuais e inevitáveis lacunas vocabulares podem ser preenchidas com o recurso a dicionários.
 
Alguns dos títulos traduzidos por Denise Bottmann

3. CONHECIMENTO DO ASSUNTO

Ter um domínio pelo menos razoável da área a que pertence a obra. Não é preciso ser um especialista no assunto, mas é indispensável um mínimo de conhecimentos gerais que permitam ao tradutor trafegar com relativa familiaridade pelos temas tratados.

4. MATERIAL DE APOIO

Dispor de ampla variedade de materiais de consulta e pesquisa: dicionários, enciclopédias, glossários, estudos sobre aquela área, outros livros relacionados ao tema. Com a Internet, tudo isso fica muito mais fácil.

5. CONTEXTO DA OBRA

Ter noção do quadro literário, teórico ou científico em que se insere a obra. Para quem traduz literatura, é indispensável ter noções de recursos estilísticos e literários em geral. Em humanidades em geral, é indispensável ter noção da linhagem a que se filia a obra e dos debates em torno do tema.

6. CONTEXTO HISTÓRICO

Ter noção do quadro histórico e cultural em que se insere a obra. É indispensável que se tenha noção da inserção histórica da obra e de suas relações com a época, seja uma obra de literatura ou de humanidades em geral.

7. AUTODISCIPLINA E CONCENTRAÇÃO

Com o instrumental dado nos seis itens anteriores, o tradutor põe mãos à obra. É um tipo de atividade intelectual que demanda muita concentração, por horas a fio, ao longo de semanas e meses. Requer bastante esforço continuado e disciplina para atender satisfatoriamente às exigências do texto.

8. DECISÃO E RESPONSABILIDADE

Capacidade de tomar decisões, adotar soluções conscientes e poder responder por elas. A responsabilidade do tradutor consiste em ser capaz de explicar a si e a outrem as razões de suas escolhas. Como traduzir envolve escolhas constantes, qualquer eventual alegação de que “É assim que está no original” simplesmente não faria o menor sentido.

9. RELEITURA E REVISÃO

Proceder a constantes releituras e revisões do texto em tradução.Traduzir é uma atividade extremamente dinâmica, e nada garante a priori a qualidade do resultado. Tropeços, deslizes, inconsistências, vaguezas nos afligem constantemente e muitas vezes escapam à nossa atenção. Daí a necessidade de reler e retrabalhar várias vezes o texto traduzido.

10. CALMA E PONTUALIDADE

Tradutores profissionais costumam dispor de prazos estabelecidos pelas editoras. Proficiência linguística, materiais de apoio, boa bagagem geral, dedicação e responsabilidade de pouco adiantam se não respeitarmos prazos e não cumprirmos o combinado com a editora. Mas o mais importante, acima de tudo, é manter a calma. Keep calm and translate on!
 
Revisão do livro Mrs. Dalloway