plágio não tem defesa, tem cúmplice (fraudeurnas)

05/07/2009

julho


o nãogostodeplágio está saindo de férias.

voltamos em agosto!


imagem: indo passear

04/07/2009

para acompanhar


nesse material de arquivo você encontra notícias, artigos e comentários em jornais, revistas, sites e blogs sobre os plágios de tradução.

A vida de Tiago A., Pietro Nassetti, quem é você?
ABI, ABI recebe denúncia de plágio em obras literárias
Aletria, Nova Cultural é acusada de plágio
Amigos do livro, Editora plagiou traduções de clássicos
Amigos do livro, Ministério Público investiga plágios
Antonio Fernando Borges, "Histórias da Meia-Noite"

Às moscas, Tradução, sacação, traição
Blog da Rouanet, Artigo publicado no blog "não gosto de plágio"
Blog da Sheyla, Direito autoral do tradutor
Blog de maurorosso, Isso é grave
Blog do C.J., Chocalho e batuques, Martin Claret e o plágio
Blog do CineSemana, Acusações de plágio e muito deixa pra lá no mundo editorial brasileiro
Blog do Daniel, Kafkas
Blog do Galeno, Contra o plágio
Blog do Galeno,
Na justiça
Blog do Galeno, Os posts que mais repercutiram
Blog do Galeno,
Os posts que mais repercutiram 2
Blog do Vassil, O plágio da Martin Claret
Brasil que lê, Contra o plágio
Brasil que lê, Notícias interessantes
Cadê o revisor?,
Do desjejum à ceia
Cadê o revisor?, Escândalo
Café Arte & Ofício, Bulletin Board
Café Colombo, Tradutores fazem abaixo-assinado
Caixa de Pandora, Mulheres alencarinas
Caixa de Pandora, Um requisito de cidadania
Carbonno 14,
A divina comédia
CBL, Editora de SP é acusada de plagiar mais duas obras
Contraduções, Plágios e tradução
Cronópios, Peterso Rissatti, "Mãos ao alto, tradutor!"
De gustibus, Plágio, uma praga pior que a saúva?
Desciclopédia, Editora Martin Claret
Direito Penal, A arte de plagiar
Encontro cultural, Tradutores protestam contra plágios
Estante Virtual, Fórum
Estante Virtual, Todo livreiro deveria (2)
E-Zone online, Eu não gosto de plágio
Filisteu, Martin Claret
Filisteu, Martin Claret: bad publisher, very bad. No cookie for you.
Filisteu, Três perguntas sobre a Martin Claret

Flanela Paulistana, A vida deu pra trás? Abre uma editora
Flanela Paulistana, Plágios de tradução
Folha de Pernambuco, Plágio?
Folha de S.Paulo, Crítico literário notifica editora em caso de plágio
Folha de S.Paulo, Crítico vê plágio de versão de Quintana
Folha de S.Paulo, Editora Globo pede indenização em caso de plágio
Folha de S.Paulo, Editora plagiou traduções de clássicos
Folha de S.Paulo, Ministério Público investiga plágios
Folha de S.Paulo: Nova Cultural pagou indenização
Folha de S.Paulo, Painel do leitor
Folha de S.Paulo, Plágio leva L&PM a processar editora

Folha de S.Paulo, Tradutores protestam contra plágios
Futuro do jornalismo, Plágio editorial
Gaveta do autor, Martin Claret plagiou traduções de clássicos
Gaveta do autor, Pseudotraduções: dinamite pura
Hardmob, Traduziram um livro de Machado de Assis para o... português
I don't mind a rainy day, Nunca mais vou ver tv
Imprimis, Ivan Emilianovitch, uma denúncia
Ivo Barroso, Flores roubadas do jardim alheio
Ivo Barroso, Um Cyrano sem penacho
Jane Austen em português, A palavra é... A palavra deveria ser...
Jane Austen em português, Plágio de traduções de Jane Austen
Jornal A Tarde, Os autores ainda não conhecem seus direitos
Jornal A Tarde, Tradutores são vítimas de plágio
Jornal Caiçara, Assinado: Tradutores
Jornal O Comércio, Em favor da honestidade editorial
Jornal O Globo, Muito em comum
Jornal Opção, A República da pirataria
Jornal Opção, As traduções de O Leopardo
Jornal Opção, Editora de SP é acusada de plagiar mais duas obras
Jornal Opção, Editora plagia tradução antiga de clássico
Jornal Opção, Jornal Opção denunciou plágio em primeira mão
Jornal Opção, Jornal Opção na Piauí
Jornal Opção, Pirataria em série
L&PM,
Blog não gosto de plágio denuncia falsas traduções ;
L&PM, L&PM questiona Nova Cultural sobre traduções
L&PM, Tradutora apela ao Ministério Público contra plágios e fraudes em traduções
Leituras, Uma estadia no inferno
Lendo.org, E-books? Pirataria? Que nada, o problema está nas editoras
Lendo.org, Lista de plágios da Nova Cultural
Lendo.org, Memorial
Ler, pensar e escrever, Traduzir é criar
Li e guardei, O que foi e é notícia
Literatsi, Martin Claret na justiça de novo
Livraria 30porcento, Já ouvi falar de algumas péssimas traduções ... mas cópias... assim já é demais!
Livros e pessoas, Plagiadores
Marcelo Bueno de Paula, Assinado: Tradutores
Marconi Leal, Darwin 200 anos
Margarete de Toledo Ressurreição, Proteção autoral do tradutor ainda não é respeitada
Maria Clara Livros, Plágio em traduções
Meia Palavra, A Terra do Cópia-Cola e o Tradutor Ninja
Meia Palavra, Plágio de tradução
Meu Jornal, Ministério Público investiga plágios
Minimalidades, Sobre o Prefeito que Enfrentou os Poderosos

Mondolivro, Plágio cultural
Monitorando, Pseudotraduções da Martin Claret
Mosaico, "Crime e castigo", de Fiódor Dostoiévski
Na prática a teoria é outra, Guerra dos tradutores
Na prática a teoria é outra, Troféu "Clássico é clássico, e vice-versa" 2008: Pietro Nassetti
Newsletter.hette, Mais lenha na fogueira da Nova Cultural
Noves fora, Agradecimentos
Noves fora, Jane Austen em mãos erradas ,
O Comércio, Em favor da honestidade editorial
O Corvo, A indústria é pirata também
o horror, o horror
o pensador selvagem, a usucapião autoral
Observatório da imprensa, Ministério Público investiga plágios
Observatório da imprensa, O nome do tradutor
Observatório da imprensa, Plágio na Germinal
Oficina de teatro, Martin Claret
Papel de rascunho, Plágios em tradução
Para Sempre Poe,
O gato preto e suas aparições
Para Sempre Poe,
O gato preto e suas aparições 2
Para Sempre Poe,
Poe no Brasil
Penetralia,
Homenagem a Pietro Nassetti, um super-homem
Perfeição, Martin Claret: pura picaretagem editorial?
PoeBrasil, Poe na mídia
Poeta Salutor, "Não Gosto de Plágios"
Ponto de Tradução, Plágio
Portal Literal, Não gosto de plágio
Portal Vitruvius, Abaixo-assinado de profissionais da tradução
Portal Vitruvius, Tradutores fazem abaixo-assinado contra plágios em traduções literárias
Prosa online, A primeira tradução de Machado de Assis para o... português
Prosa online, Plágios, tradutores e índios
Publishnews, Clipping
Publishnews, Contra o plágio
Publishnews, Dia de comemoração para os tradutores
Publishnews,
Ministério Público investiga plágios
Recanto das palavras, Editora acusada de plágio
Recanto das palavras, Novo caso de plágio em tradução
Recomende-me um livro,
Atenção, leitores!
Revista Piauí, O pega-pega da Arte da Guerra
Simplicíssimo, Juventude, identidade e crise
Super Flumina, Do plágio em tradução a algumas leituras difíceis
Tal a fuga, A praga do plágio
Talqualmente, Por falar em debates interessantes
Taverna Fim do Mundo, Sobre traduções e por que eu fujo delas
The Spectacled Bear, Brazilian Translator of Jane Austen Accused of Plagiarism
Tradutor Profissional, A Denise e a metempsicose tradutória
Tradutor Profissional, Assim, não pode ficar!
Tradutor Profissional, O mistério de Ivanhoé
Tradutor Profissional, O mistério de Ivanhoé II
Tradutor Profissional, O mistério de Ivanhoé, cada vez mais misterioso
Tradutores e Intérpretes, Nosso apoio à nossa colega Denise
Tradutores e Intérpretes, Primeiros Frutos (Não Gosto de Plágio)
Traduzindo o juridiquês, Uma tradução do Bruxo do Cosme Velho? comentários

Tribuna Impressa, Da tradução: movida a malvadezas & escândalos
União Brasileira de Escritores, UBE, Movimento Assinado-Tradutores

Veja, Ladrões criativos
Vermelho.Carne, Hoje, nosso dia!
Véspera de nada, Como se portar em uma livraria
Véspera de nada, Este blogue está em campanha
Walter Cruz, Dia do tradutor
Wikipedia, Editora Martin Claret
Zero Hora, Entrevista: Jorio Dauster, Tradutor
Zero Hora, Mundo Livro, Tradutores, traidores (literalmente)



arquivo atualizado em 05/07/09
imagem:
www.sublackwell.co.uk

03/07/2009

hard facts

leio a folha de s.paulo online. aqui na minha cidade é difícil encontrar o jornal. então, no dia 29/6, ao ler online a matéria sobre os plágios, encomendei um exemplar impresso, que recebi ontem. e por isso só ontem vi que a matéria também trazia uma magnífica charge e uma vasta manchete de primeira página na ilustrada:

plágios em livros viram caso de polícia

notícia de jornal pode ser volátil, mas os fatos não são.
quem não viu a matéria, veja agora: não faz mal que saiu na semana passada - o fato é um marco histórico, e a coisa vai longe.

animais, irracionais

comentei antes que o dicionário filosófico de voltaire teve uma vida atribulada, e foi publicado na frança em sucessivas edições corrigidas e ampliadas, que variam de 73 a mais de 500 verbetes. mostrei também que a publicação dessa obra pela martin claret, como de hábito plagiando traduções anteriores, é além do mais uma montagem grotesca de diferentes traduções disponíveis em português, provenientes por sua vez de diferentes edições francesas.

uma das mais ridículas fraudes que a editora utilizou nesta obra foi o plágio do mesmo verbete em duas traduções distintas. assim, por exemplo, o artigo bêtes aparece na tradução de líbero rangel de tarso com o título de irracionais. já a tradução portuguesa de bruno da ponte e joão lopes alves usa o título animais. a editora martin claret tem o despudor de copiar ambas as traduções como se fossem dois verbetes independentes de voltaire.

o leitor de boa fé, que naturalmente confia no livro que está lendo, chega à conclusão de que "essa questão de crueldade contra os animais ... foi tão veementemente combatida por VOLTAIRE que nesse Dicionário Filosófico lhe são dedicados dois verbetes: o primeiro 'animais' e, o segundo, 'irracionais'".

com suas tortuosas e sinistras táticas de anular a obra e a figura do tradutor por trás de cópias e simulacros, fantasmas e vendilhões de carne e osso, a editora martin claret acaba por demonstrar cabalmente que cada obra de tradução tem uma identidade própria. diga-se de passagem que essa identidade é protegida pelo código civil e pela legislação dos direitos autorais. e é por isso que as práticas ilícitas maciçamente empregadas pela editora martin claret são "caso de polícia", valendo-lhe a instauração de inquérito policial por determinação do ministério público do estado.

seguindo o mote do duplo verbete no estropiado dicionário filosófico da editora martin claret, apresento sua própria demonstração prática da impossibilidade de existirem duas traduções iguais.

I.
ANIMAIS

Imbecilidade é afirmar que os animais são máquinas destituídas do conhecimento e de sentimentos, agindo sempre de igual modo, e que não aprendem nada, não se aperfeiçoam e daí por diante!
Talvez seja... Nesse caso esse pardalzinho que constrói o ninho em semicírculo quando o prende a uma parede, que o constrói num quarto de círculo quando o faz num ângulo e em círculo num ramo de árvore – faz sempre de maneira igual? O cão de caça amestrado, que ensinaste a obedecer-te durante três meses, porventura não estará sabendo mais ao término desse período do que sabia no início das lições? Dedicando-te a ensinar uma melodia a um canário, será que ele repete-a logo no mesmo instante? Por acaso não levarás um certo tempo até o animalzinho a decorar? Veja [sic] como ele se engana, com freqüência, e só vai se corrigindo com o tempo?
Apenas por eu ser dotado de fala é que julgas que tenho sentimentos, memória, idéias? Ora, nada te direi. No entanto, vês-me entrar em casa com um ar preocupado, aflito, andar a procurar um papel qualquer com nervosismo, abrir a secretária onde me recorda tê-lo guardado, encontrá-lo afinal, lê-lo jubilosamente. Imaginas que passei de um sentimento de aflição para outro de prazer, que sou possuidor de memória e conhecimento.
Agora, pegue [sic] esse teu raciocínio, por comparação, e transfere para aquele cão que se perdeu do dono, que o procura por todos os lados soltando latidos dolorosos, que entra em casa, agitado, inquieto, que sobe e que desce, percorre as casas, umas após outras, até que acaba, finalmente, por encontrar o dono de que tanto gosta no gabinete dele e ali lhe manifesta a sua alegria pela ternura dos latidos, em pródigas carícias.
Esse animal, que excede o homem em sentimentos de amizade, é pego por algumas criaturas bárbaras, que pregam-no numa mesa, dissecam-no vivo ainda, para te mostrar as veias mesentéricas. No corpo deste animal encontras todos os órgãos das sensações que também existem em ti. Acaso ainda atreve-te a argumentar, se fores capaz, que a natureza colocou todos estes instrumentos do sentimento no animal, para que ele não possa sentir? Dispõe de nervos para manter-se impassível? Será que não te ocorre ser por demais impertinente essa contradição da natureza?
Os mestres-escola perguntam todavia o que é e onde está a alma dos animais? Eu estranho tal pergunta. Pois que uma árvore tem a propriedade de receber nas suas fibras a seiva que nelas circula, de desabrochar os botões e criar os seus frutos, e ainda me haveis [sic] de perguntar o que é a alma dessa árvore? A árvore é beneficiária de alguns dons, como o animal é beneficiário de outros, dos do sentimento, da memória, de um certo número de idéias. Todavia, quem criou todos esses dons? Quem lhes concedeu todas essas faculdades? Só pode ser aquele que faz crescer a erva nos campos e gravitar a Terra em torno do Sol.
Aristóteles afirmou: As almas dos animais são formas substanciais. Posterior a Aristóteles, a escola árabe; depois da escola árabe, a escola angélica; e, depois da escola angélica, a Sorbonne, e, depois da Sorbonne, mais ninguém no mundo.
Outros filósofos proclamam: As almas dos animais são materiais. Sem, contudo, obter mais sucesso que os primeiros. Sempre em vão é que se lhes perguntou o que é uma alma material. Viram-se forçados a convir que é matéria passível de sensações. E quem foi que deu tal matéria? Trata-se de uma alma material, quer dizer, trata-se de matéria que dá sensações à matéria – e não saem deste círculo vicioso.
Agora, prestem [sic] atenção a outros animais discutindo a respeito de animais. A alma destes é um ser espiritual que morre com o corpo. Que provas tendes [sic] disto? Que idéia fazeis desse ser espiritual que, por conseguinte, experimenta sentimentos e sensações, memória, e a sua dose de idéias e de combinações de idéias, mas que nunca poderá vir a saber o que é uma criança de seis anos? De que forma imaginais que esse ser, que não tem corpo, pereça com o corpo? Entretanto, de todos, os maiores animais continuam sendo aqueles que afirmaram que a tal alma não é corpo nem espírito. Que sistema engenhoso! Nesse caso apenas podemos encarar como espírito algo de desconhecido que não é corpo. Logo, o sistema destes cavalheiros vem a concluir que a alma dos animais é uma substância que não é corpo nem outra coisa qualquer que seja ainda menos que um corpo.
De onde se originam tantos e tão contraditórios despautérios? Só pode ser do hábito que os homens sempre tiveram de examinar e definir o que é uma coisa, antes de saber se ela existe. É costume denominar-se à lingüeta, que é a válvula dum fole, a alma do fole. Que alma vem a ser esta? Simplesmente um nome que dei a essa válvula, que desce, sobe, deixa entrar o ar e impele-o para um canudo, quando aperto o fole. Pois que ali não há alma nenhuma distinta do instrumento. No entanto, quem faz mover a válvula dos animais? Isso eu já disse: é aquele que faz mover os astros. Deus est anima brutorum. O filósofo que fez tal afirmação tinha razão. Todavia, não devia ter considerado o assunto encerrado.

(martin claret, capítulo 8, pp. 30-32, em nome de pietro nassetti: em verdade, uma adulteração rude e atamancada - incapaz de se decidir entre o "tu", o "você", o "vós" e o "vocês" - da tradução de bruno da ponte e joão alves lopes, ed. presença, portugal, licenciada para ed. abril cultural, coleção "os pensadores", pp. 96-97)


II.
IRRACIONAIS

Que ingenuidade, que pobreza de espírito, dizer que os irracionais são máquinas privadas de conhecimento e sentimento, que procedem sempre da mesma maneira, que nada aprendem, nada aperfeiçoam!
Então aquela ave que faz seu ninho em semicírculo quando o encaixa numa parede, em quarto de círculo quando o engasta num ângulo e em círculo quando o pendura numa árvore, procede aquela ave sempre da mesma menira? Esse cão de caça que disciplinaste não sabe mais agora do que antes de tuas lições? O canário a que ensinas uma ária, repete-a ele no mesmo instante? Não levas um tempo considerável em ensiná-lo? Não vês como ele erra e se corrige?
Será porque falo que julgas que tenho sentimento, memória, idéias? Pois bem, calo-me. Vês-me entrar em casa aflito, procurar um papel com inquietude, abrir a escrivaninha, onde me lembro tê-lo guardado, encontrá-lo, lê-lo com alegria. Percebes que experimentei os sentimentos de aflição e prazer, que tenho memória e conhecimento.
Vê com os mesmos olhos esse cão que perdeu o amo e procura-o por toda parte com ganidos dolorosos, entra em casa agitado, inquieto, desce e sobe e vai de aposento em aposento e enfim encontra no gabinete o ente amado, a quem manifesta sua alegria pela ternura dos ladridos, com saltos e carícias.
Bárbaros agarram esse cão, que tão prodigiosamente vence o homem em amizade, pregam-no em cima de uma mesa e dissecam-no vivo para mostrar-te suas veias mesaraicas. Descobres nele todos os mesmos órgãos de sentimentos de que te gabas. Responde-me, maquinista, teria a natureza entrosado nesse animal todos os órgãos do sentimento sem objetivo algum? Terá nervos para ser insensível? Não inquines à natureza tão impertinente contradição.
Perguntam os mestres da escola o que é então a alma dos irracionais. Não entendo a pergunta. A árvore tem a faculdade de receber em suas fibras a seiva que circula, de desenvolver os botões das folhas e dos frutos: perguntar-me-eis o que é a alma das árvores? Ela recebeu estes dons. O animal foi contemplado com os dons do sentimento, da memória, de certo número de idéias. Quem criou esses dons? Quem lhes outorgou essas faculdades? Aquele que faz crescer a erva dos campos e gravitar a Terra em torno do Sol.
As almas dos brutos são formas substanciais, disse Aristóteles e depois de Aristóteles a escola árabe, depois da escola árabe a escola angélica, depois da escola angélica a Sorbonne e depois da Sorbonne ninguém.
As almas dos brutos são materiais, proclamaram outros filósofos, nem mais nem menos felizes que os primeiros. Em vão perguntou-se-lhes o que é alma material: precisam convir em que é a matéria que sente. Mas quem deu sensibilidade à matéria? Alma material... Quer dizer que é a matéria que dá sensibilidade à matéria. E não saem desse círculo.
Ouvi outra sorte de irracionais racionando [sic] sobre os irracionais: A alma dos brutos é um ser espiritual que morre com o corpo. Que prova tendes disso? Que idéia concebeis desse ser espiritual que em verdade tem sentimento, memória e sua medida de idéias e associações, mas que jamais poderá saber o que sabe uma criança de dez anos? Os maiores irracionais são os que aventarem não ser essa alma nem corpo nem espírito. Aí está um curioso sistema. Não podemos entender por espírito senão algo desconhecido e incorporal: a isso pois reduz-se o sistema desses senhores: a alma dos seres brutos é uma substância nem corporal nem incorporal.
A que atribuir tantos e tão contraditórios erros? Ao vezo que sempre tiveram os homens de querer saber o que seja uma coisa antes de saber se existe. Dizemos a lingüeta, o batoque do fole, a alma do fole. Que é essa alma? Um nome que dei à válvula que, quando toco o fole, baixa e sobe para dar entrada e saída ao ar.
O fole não tem alma de espécie alguma. É simplesmente uma máquina. Quem toca, porém, o fole dos animais? Já o disse: aquele que move os astros. Tinha razão o filósofo que disse: Deus est anima brutorum. Mas devia ter ido mais longe.

(martin claret, capítulo 78, pp. 319-21, em nome de pietro nassetti, mas na verdade uma cópia literal da tradução de líbero rangel de tarso, atena editora, pp. 219-21)

BÊTES
Quelle pitié, quelle pauvreté, d’avoir dit que les bêtes sont des machines privées de connaissance et de sentiment, qui font toujours leurs opérations de la même manière, qui n’apprennent rien, ne perfectionnent rien, etc.!
Quoi; cet oiseau qui fait son nid en demi-cercle quand il l’attache à un mur, qui le bâtit en quart de cercle quand il est dans un angle, et en cercle sur un arbre; cet oiseau fait tout de la même façon? Ce chien de chasse que tu as discipliné pendant trois mois n’en sait-il pas plus au bout de ce temps qu’il n’en savait avant tes leçons? Le serin à qui tu apprends un air le répète-t-il dans l’instant? n’emploies-tu pas un temps considérable à l’enseigner? n’as-tu pas vu qu’il se méprend et qu’il se corrige?
Est-ce parce que je te parle que tu juges que j’ai du sentiment, de la mémoire, des idées? Eh bien! je ne te parle pas; tu me vois entrer chez moi l’air affligé, chercher un papier avec inquiétude, ouvrir le bureau où je me souviens de l’avoir enfermé, le trouver, le lire avec joie. Tu juges que j’ai éprouvé le sentiment de l’affliction et celui du plaisir, que j’ai de la mémoire et de la connaissance.
Porte donc le même jugement sur ce chien qui a perdu son maître, qui l’a cherché dans tous les chemins avec des cris douloureux, qui entre dans la maison, agité, inquiet, qui descend, qui monte, qui va de chambre en chambre, qui trouve enfin dans son cabinet le maître qu’il aime, et qui lui témoigne sa joie par la douceur de ses cris, par ses sauts, par ses caresses.
Des barbares saisissent ce chien, qui l’emporte si prodigieusement sur l’homme en amitié; ils le clouent sur une table, et ils le dissèquent vivant pour te montrer les veines mésaraïques. Tu découvres dans lui tous les mêmes organes de sentiment qui sont dans toi. Réponds-moi, machiniste, la nature a-t-elle arrangé tous les ressorts du sentiment dans cet animal, afin qu’il ne sente pas? a-t-il des nerfs pour être impassible? Ne suppose point cette impertinente contradiction dans la nature.
Mais les maîtres de l’école demandent ce que c’est que l’âme des bêtes. Je n’entends pas cette question. Un arbre a la faculté de recevoir dans ses fibres sa sève qui circule, de déployer les boutons de ses feuilles et de ses fruits; me demanderez-vous ce que c’est que l’âme de cet arbre? Il a reçu ces dons; l’animal a reçu ceux du sentiment, de la mémoire, d’un certain nombre d’idées. Qui a fait tous ces dons? qui a donné toutes ces facultés? celui qui a fait croître l’herbe des champs, et qui fait graviter la terre vers le soleil.
Les âmes des bêtes sont des formes substantielles, a dit Aristote; et après Aristote, l’école arabe; et après l’école arabe, l’école angélique; et après l’école angélique, la Sorbonne; et après la Sorbonne, personne au monde.
Les âmes des bêtes sont matérielles, crient d’autres philosophes. Ceux-là n’ont pas fait plus de fortune que les autres. On leur a en vain demandé ce que c’est qu’une âme matérielle; il faut qu’ils conviennent que c’est de la matière qui a sensation mais qui lui a donné cette sensation? c’est une âme matérielle, c’est-à-dire que c’est de la matière qui donne de la sensation à la matière; ils ne sortent pas de ce cercle.
Écoutez d’autres bêtes raisonnant sur les bêtes; leur âme est un être spirituel qui meurt avec le corps: mais quelle preuve en avez-vous? quelle idée avez-vous de cet être spirituel, qui, à la vérité, a du sentiment, de la mémoire, et sa mesure d’idées et de combinaisons, mais qui ne pourra jamais savoir ce que sait un enfant de six ans? Sur quel fondement imaginez-vous que cet être, qui n’est pas corps, périt avec le corps? Les plus grandes bêtes sont ceux qui ont avancé que cette âme n’est ni corps ni esprit. Voilà un beau système. Nous ne pouvons entendre par esprit que quelque chose d’inconnu qui n’est pas corps ainsi le système de ces messieurs revient à ceci, que l’âme des bêtes est une substance qui n’est ni corps ni quelque chose qui n’est point un corps.
D’où peuvent procéder tant d’erreurs contradictoires? de l’habitude où les hommes ont toujours été d’examiner ce qu’est une chose, avant de savoir si elle existe. On appelle la languette, la soupape d’un soufflet, l’âme du soufflet. Qu’est-ce que cette âme? c’est un nom que j’ai donné à cette soupape qui baisse, laisse entrer l’air, se relève, et le pousse par un tuyau, quand je fais mouvoir le soufflet.
Il n’y a point là une âme distincte de la machine. Mais qui fait mouvoir le soufflet des animaux? Je vous l’ai déjà dit, celui qui fait mouvoir les astres. Le philosophe qui a dit, Deus est anima brutorum, avait raison; mais il devait aller plus loin.


agradeço a joana canêdo o material bibliográfico.

imagens: www.counterintuitivemarketing.com; flickr, litherland, un coup de dès

02/07/2009

os inesquecíveis

além da mais nova celebridade no hall of shame do plagiato nacional, eis a lista dos ectoplasmas ou de gente de carne e osso que assinam os plágios e outros embustes editoriais:

alberto maximiliano (nova cultural)
alex marins (martin claret)
alexandre boris popov (martin claret)
ana maria oliveira rosa (landmark)
carmen lia lomonaco (nova cultural)
eduardo nunes fonseca (hemus; ediouro)
enrico corvisieri (nova cultural)
fábio cyrino (landmark)
fábio m. alberti (nova cultural)
felipe padula borges (germinal)
fernando corrêa fonseca (nova cultural)
heloísa da graça burati (rideel)
irina wisnik ribeiro (martin claret)
ivan petrovitch (martin claret)
ivo de paula (pillares)
jean melville (martin claret)
john green (martin claret)
jonas camargo leite (hemus; ediouro)
jorge luís penha (martin claret)
jorge pádua conceição (nova cultural)
juan gonçalves (martin claret)
juliana borges (germinal)
leonardo codignoto (nova cultural)
leopoldo holzbach (martin claret)
marcellin talbot (martin claret)
maria cristina f. da silva (nova cultural)
mirtes ugeda coscodai (nova cultural)
nikko bushido (sapienza; jardim dos livros)
olívia bauduh (nova cultural)
pedro h. berwick (jardim dos livros)
pietro nassetti (martin claret)
roberto domênico proença (nova cultural)
roberto nunes whitaker (nova cultural)
roberto valeriano (nova cultural)
rodolfo schaefer (martin claret)
rubens eduardo ferreira frias (centauro)
silvana laplace (nova cultural)
wilson hilário borges (germinal)

imagem: http://tractatus.free.fr/

01/07/2009

a culpa é do diagramador

a mais recente contribuição à praga do plágio nacional parece ser a da jornalista cecília santos , vampirando marcelo hessel. não que a moça tenha se avexado muito: diante da cópia deslavada, ela retrucou que "houve um erro na diagramação" - ah, então tá bom.

em todo caso:

"Jornal fará retratação
Constrangido com a situação, o editor de O Estado, Antônio Téo, informa que irá publicar uma retratação na capa do caderno de Cultura da próxima quinta-feira (02/07) e pede desculpas aos leitores do jornal e para Hessel, autor da matéria.
'É uma situação chata. Eu nunca vi isso acontecer aqui no jornal. É um plágio, um roubo intelectual. Eu peço desculpas aos leitores e ao jornalista que escreveu a matéria. Não tenho o que falar. A gente não se sentiria cômodo de ter alguém copiando o nosso material', diz."
[...]
"Segundo o editor, numa situação como essa, perdem todos. O jornalista que escreveu o artigo, que tem o seu material roubado; a jornalista que copiou, que coloca uma mancha em sua carreira; e o jornal, que tem a credibilidade posta em xeque." é isso aí. e perdem os leitores também.

fonte: toque dado por rogério bettoni.

imagem: http://crizlai.blogspot.com

30/06/2009

e assim se desbota a memória

as edições fraudadas que temos apresentado aqui no blog surripiam traduções, notas, introduções de:

adolfo casais monteiro,
antónio ferreira marques,
antônio pinto de carvalho,
araújo nabuco,
artur morão,
bandeira duarte,
bento prado jr.,
blásio demétrio,
boris schnaiderman,
brenno silveira,
bruno da ponte,
cabral do nascimento,
carlos chaves,
carlos porto carreiro,
casimiro fernandes,
e. jacy monteiro,
eça de queiroz,
eudoro de souza,
éverton ralph,
fernando de aguiar,
fernando carlos de almeida cunha medeiros,
floriano de souza fernandes,
francisco inácio peixoto,
galeão coutinho,
godofredo rangel,
guilherme de almeida (reprodução não autorizada),
helga hoock quadrado,
henrique marques ("pandemónio"),
hernâni donato,
isabel sequeira,
ivan emilianovitch schawirin (reprodução nao autorizada),
jacó guinsburg,
jaime bruna,
jamil almansur haddad,
joão lopes alves,
joão ângelo oliva neto,
joão baptista de mello e souza,
joão paulo monteiro,
joaquim dá mesquita paul,
joaquim machado,
jorge camacho,
josé augusto drummond,
josé duarte,
josé tavares bastos,
leila v. b. gouvêa,
leonel vallandro,
leonidas hegenberg,
líbero rangel de andrade,
líbero rangel de tarso,
ligia junqueira,
liliana rombert soeiro,
lívio xavier,
luísa derouet,
luiz costa lima,
manuel odorico mendes,
marcílio marques moreira (reprodução nao autorizada),
margarida garrido esteves,
maria beatriz nizza da silva,
maria francisca ferreira de lima,
maria helena rocha pereira,
maria irene szmrecsányi,
mário quintana,
milton amado,
moacyr werneck de castro,
modesto carone,
monteiro lobato,
natália nunes,
octany silveira da mota,
octavio mendes cajado,
olinda gomes fernandes,
oscar mendes,
paulo m. oliveira,
paulo rónai,
péricles eugênio da silva ramos,
ricardo iglésias,
rodrigo richter,
sarmento de beires,
sérgio milliet,
silvio deutsch,
silvio meira,
sodré viana,
suely bastos,
tamás szmrecsányi,
vera pedroso,
wilson lousada,
ymaly salem chammas.

título inspirado em daniel piza, "cultura desbotada", toque de joana canêdo

imagem: lost memories

29/06/2009

para lembrar

segue-se uma listinha de livros com problemas de plágio e bizarrices tradutórias. entre parênteses consta o nome do pseudotradutor.

CENTAURO
a pedagogia e as grandes correntes filosóficas (rubens eduardo ferreira frias)

EDIOURO
a cidade antiga (jonas camargo leite e eduardo nunes fonseca)
a origem das espécies (eduardo nunes fonseca)

GERMINAL
oblomov (juliana borges)
mulheres apaixonadas (felipe padula borges)
os sonâmbulos (wilson hilário borges)

HEMUS
a cidade antiga (jonas camargo leite e eduardo nunes fonseca)
a origem das espécies (eduardo nunes fonseca)
a besta humana (eduardo nunes fonseca)

JARDIM DOS LIVROS
a arte da guerra (nikko bushido)
a vida secreta de laszlo, conde drácula (pedro h. berwick)
o essencial do alcorão (pedro h. berwick)
o essencial de jesus (pedro h. berwick)

LANDMARK
persuasão (fábio cyrino)
o morro dos ventos uivantes (ver retificação)

MARTIN CLARET - bizarrices tradutórias (fbn/isbn)
contos fluminenses (marcellin talbot)
o primo basílio (pietro nassetti)
a farsa de inês pereira (pietro nassetti)
a encarnação (pietro nassetti)
quincas borba (pietro nassetti)
papéis avulsos (marcellin talbot)
a língua e o estilo de rui barbosa (jean melville)
ressurreição (alex marins)
sonetos - bocage (pietro massetti)
o velho da horta (juan gonçalves)
marília de dirceu (pietro nassetti)
a carta de pero vaz de caminha, jaime cortesão (ed.) (pietro nassetti)
poesia de ricardo reis (marcellin talbot)

MARTIN CLARET - "tradutores" sortidos
memórias de sherlock holmes (john green)
lisístrata e as vespas (john green)
assim falava zaratustra (equipe de tradutores, 2000)
os irmãos karamazovi (alexandre boris popov)
crime e castigo (irina wisnik ribeiro e ivan petrovitch)
crítica da razão pura (rodolfo schaefer/alex marins/pietro massetti na fbn)
crítica da razão prática (rodolfo schaefer/leopoldo holzbach na fbn)
fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos (leopoldo holzbach)

MARTIN CLARET e o triunvirato tradutivo (cf. fbn/isbn)
cinco lições de psicanálise (pietro nassetti, fbn)
o corcunda de notre-dame (pietro nassetti)
a vida dos doze césares (pietro nassetti)
pensamentos - pascal (pietro nassetti)
eneida (pietro nassetti)
dicionário filosófico - voltaire (pietro nassetti)
o trovejar do silêncio (pietro nassetti)
o coração das trevas (pietro nassetti)
lorde jim (pietro nassetti)
a letra escarlate (pietro nassetti)
o pensamento de epicuro (pietro nassetti, fbn)
o caminho infinito (pietro nassetti)
gitanjali (pietro nassetti)
jesus, o filho do homem (pietro nassetti)
fábulas - esopo (pietro nassetti)
o profeta - gibran (pietro nassetti)
rubayat (pietro nassetti)
hipólito (pietro nassetti)
electra (pietro nassetti)
alceste (pietro nassetti)
arte poética - aristóteles (pietro nassetti)
belfagor (pietro nassetti)
mandrágora (pietro nassetti)
a arte de amar (pietro nassetti)
as aventuras de pinóquio (pietro nassetti)
do sofrimento do mundo (pietro nassetti)
metafísica do amor (pietro nassetti)
da morte (pietro nassetti)
o cão dos baskervilles (pietro nassetti)
as regras do método sociológico (pietro nassetti)
frankenstein (pietro nassetti)
rei lear (pietro nassetti)
cândido (pietro nassetti)
imitação de cristo (pietro nassetti)
a arte da guerra - sun-tzu (pietro nassetti)
ética a nicômaco (pietro nassetti)
as flores do mal (pietro nassetti)
werther (pietro nassetti)
o anticristo (pietro nassetti)
a ética protestante e o espírito do capitalismo (pietro nassetti)
a luta pelo direito (pietro nassetti)
do contrato social (pietro nassetti)
o discurso do método (pietro nassetti)
o manifesto comunista (pietro nassetti)
ecce homo (pietro nassetti)
o médico e o monstro (pietro nassetti)
a utopia - th. morus (pietro nassetti)
hamlet (pietro nassetti)
caninos brancos (pietro nassetti, fbn)
a república - platão (pietro nassetti)
bola de sebo e outros contos (pietro nassetti)
as aventuras de tom sawyer (pietro nassetti)
histórias extraordinárias - poe (pietro nassetti)
o jogador - dostoievski (pietro nassetti)
assim falou zaratustra (pietro nassetti, 1999)
artista da fome (pietro nassetti)
apologia de sócrates (pietro nassetti, 2001)
volta ao mundo em oitenta dias (pietro nassetti)
o retrato de dorian gry (pietro nassetti)
as viagens - marco polo (pietro nassetti)
a mulher de trinta anos (pietro nassetti)
a arte da prudência (pietro nassetti)
o lobo do mar (pietro nassetti)
o príncipe - maquiavel (pietro nassetti)
a sonata a kreutzer (jean melville)
dom quixote (jean melville, 2005)
grandes esperanças (jean melville)
germinal (jean melville)
o vermelho e o negro (jean melville)
paulo, o 13o. apóstolo (jean melville)
do espírito das leis (jean melville)
ética - spinoza (jean melville)
a cidade antiga (jean melville)
a dama de espadas (jean melville)
a filha do capitão (jean melville)
orgulho e preconceito (jean melville)
andrômaca (jean melville)
fedra (jean melville)
o tartufo (jean melville)
o sonho de uma noite de verão (jean melville)
vida nova - dante (jean melville)
da monarquia - dante (jean melville)
a gaia ciência (jean melville)
o tartufo (jean melville)
balada do cárcere de reading (jean melville)
de profundis (jean melville)
ensaios - emerson (jean melville)
otelo (jean melville)
a conduta para a vida (jean melville)
a arte da guerra - maquiavel (jean melville)
escritos políticos - maquiavel (jean melville)
as aventuras de sherlock holmes (jean melville)
antígona (jean melville)
édipo rei (jean melville)
macbeth (jean melville)
diário de um sedutor - kierkegaard (jean melville)
romeu e julieta (jean melville)
ciência e política: duas vocações (jean melville)
um estudo em vermelho (jean melville)
as minas do rei salomão (jean melville)
apologia de sócrates (jean melville, 2004)
acuso - gide (jean melville)
martin eden (jean melville)
o livro de jó (alex marins)
o livro de ouro da mitologia (alex marins)
ben-hur (alex marins)
moby dick (alex marins)
as aventuras de huckleberry finn (alex marins)
o suicídio - durkheim (alex marins)
crime e castigo (alex marins na fbn)
confissões - santo agostinho (alex marins)
crítica da razão pura (alex marins)
leviatã (alex marins)
tristão e isolda (alex marins)
thaïs (alex marins)
as mulherzinhas (alex marins)
discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (alex marins)
o livro da jângal (alex marins)
a megera domada (alex marins)
o último adeus de sherlock holmes (alex marins)
o príncipe e o mendigo (alex marins)
segundo tratado sobre o governo (alex marins)
a ilha do tesouro (alex marins)
para além do bem e do mal (alex marins)
desobediência civil e outros ensaios (alex marins)
satíricon (alex marins)
dos deveres (alex marins)
o desespero humano (alex marins)
eugênia grandet (alex marins)
meditações - marco aurélio (alex marins)
manuscritos econômico-filosóficos (alex marins)
fedro (alex marins)
elogio da loucura (alex marins)
assim falou zaratustra (alex marins, 2002)
a fenomenologia do espírito (alex marins)
a riqueza das nações (alex marins)
o último dos moicanos (alex marins)
comédia latina - plauto, terêncio (alex marins)

NOVA CULTURAL
obras-primas:
os irmãos karamazóvi (enrico corvisieri)
suave é a noite (enrico corvisieri)
a mulher de trinta anos (enrico corvisieri)
o retrato de dorian gray (enrico corvisieri)
madame bovary (enrico corvisieri)
a divina comédia (fábio m. alberti)
cyrano de bergerac (fábio m. alberti)
os três mosqueteiros (mirtes ugeda)
ana karênina (mirtes ugeda)
ivanhoé (roberto nunes whitaker)
uma vida, maupassant (roberto domenico proença)
lord jim (carmen lia lomonaco)
naná (roberto valeriano)
tom jones (jorge pádua conceiçao)
seis personagens à procura de autor (fernando corrêa fonseca)
o falecido mattia pascal (fernando corrêa fonseca)
o morro dos ventos uivantes (silvana laplace)
contos de voltaire (roberto domenico proença)
werther (alberto maximiliano)
fausto (alberto maximiliano)
o leopardo (leonardo codignoto)
o vermelho e o negro (maria cristina f. da silva)

pensadores:
apologia de sócrates, de platão (enrico corvisieri)
apologia de sócrates, de xenofonte (mirtes coscodai)
ditos e feitos memoráveis de sócrates (mirtes coscodai)
discurso do método (enrico corvisieri)
meditações (enrico corvisieri)
paixões da alma (enrico corvisieri)
o príncipe, maquiavel (olívia bauduh)
pensamentos, pascal (olívia bauduh)

PILLARES
a luta pelo direito (ivo de paula)

RIDEEL
a luta pelo direito (heloísa da graça buratti)
acerca da verdade e da mentira (heloísa da graça burati)
o anticristo (heloísa da graça burati)

SAPIENZA
a arte da guerra (nikko bushido)

imagem: www.comcrow.com

27/06/2009

novas edições

o jornal a folha de s.paulo, em sua matéria "Ministério Público investiga plágios", de 26/06, informa:

"Designada para responder pela editora, a advogada Maria Luiza de Freitas Valle Egea diz que a Martin Claret está ‘refazendo o seu catálogo, contratando tradutores para as novas publicações, e pagando os titulares dos direitos de todas as obras em que os problemas estão sendo detectados’. Segunda ela, a Martin Claret já reeditou mais de 80 títulos".

fico feliz que as novas publicações passem a ser de fato traduzidas, e não apenas copiadas. e realmente vi algumas reedições da martin claret em traduções agora aparentemente legítimas. cheguei a comentar aqui as alvíssaras, como leviatã, o discurso do método e elogio da loucura - embora, infelizmente, as edições anteriores das mesmas obras continuem à venda em diversas livrarias, e os exemplares já vendidos não tenham sido objeto de um recall, e sequer de errata ou retificação pública.

se de um lado a declaração da dra. maria luiza de freitas valle egea sugere que a editora está em processo de substituir as centenas de livros com problemas autorais, por outro lado, quanto aos "mais de 80 títulos" já reeditados - estou entendendo, naturalmente, que dra. maria luiza queira dizer reeditados de forma legítima, e não como simples reedição ou reimpressão da obra ilícita -, fiquei sinceramente interessada em saber quais seriam. consultei o site da martin claret, consultei a fundação biblioteca nacional, consultei vários sites de livrarias: espremendo todos os dados com o máximo de boa vontade, não consegui passar de 5.

a meu ver, seria de imensa utilidade para nós leitores que a editora martin claret nos fizesse saber quais são os títulos reeditados em novas traduções e nos informasse se os espúrios foram retirados de circulação.

imagem: http://henryfelippe.blogspot.com

26/06/2009

ministério público investiga plágios

deu hoje na folha de s.paulo: ministério público determina instauração de inquérito policial contra plágios editoriais. este link é para assinantes fsp ou uol. veja a matéria também no observatório da imprensa.

lacunas, poe XXI


a maior parte desse material sobre edgar allan poe apresenta os resultados de uma breve pesquisa: "o gato preto no brasil", apenas no formato livro. apresenta sua fortuna histórica editorial, mostra suas relações com as histórias extraordinárias e revela o equívoco que circula há mais de trinta anos entre nós: que histórias extraordinárias seriam a tradução do original tales of the grotesque and arabesque - com a consequente e inesperada descoberta de que as tga enquanto tal são inéditas no brasil.

o fecho da pesquisa traz a tradução do curto, mas importante prefácio de poe à sua coletânea de 1840. os posts subsequentes citam curiosidades, informações específicas e variedades em geral.

diversas pessoas têm pedido autorização para utilizar o material: naturalmente está ao dispor de todos os interessados, bastando mencionar a fonte. restaram lacunas que não cheguei a completar, embora não sejam dados de difícil acesso. registro abaixo o que deixei em aberto: peço que levem em conta essas falhas e, se possível, ajudem a corrigi-las.

1. falta verificar o conteúdo e a autoria da tradução de:
- novelas de edgar allan poe, brasil américa, edição maravilhosa n. 27, 1950;
- contos, editora três, 1974.

2. falta apurar a autoria da tradução de:
- o mistério do gato preto, tecnoprint, 1954;
- histórias extraordinárias, otto pierre, 1979.

3. falta saber quem são os "outros" e quais as respectivas traduções em:
- histórias extraordinárias, tradução de "brenno silveira e outros", menção que começa a surgir em 1972 na edibolso, e desde 1974 até 2003 nas edições licenciadas pela civilização brasileira para o círculo do livro, a abril cultural e a nova cultural.

4. falta verificar o conteúdo de:
- contos de horror, tradução de luiza lobo, bruguera, 1970;
- o gato preto e outras histórias, seleção, tradução e adaptação de clarice lispector, ediouro, c. 1975;
- histórias extraordinárias, seleção de carmen vera cirne lima, tradução de oscar mendes e milton amado, globo, 1987.

5. o levantamento das miscelâneas que incluem o gato preto é bastante incompleto. muito provavelmente são em número bem maior do que o apresentado.

em vista do tema restrito, alguns casos curiosos não receberam a atenção que mereceriam. por exemplo:

- histórias extraordinárias com tradução em nome de joão teixeira de paula, na edição da ordibra/inl (1972) sob licença do clube do livro: seria interessante localizar alguma referência sobre essa edição do clube do livro (que não é a de 1945);

- muitíssimo interessante também seria ver melhor o percurso das novelas extraordinárias dos anos 1920 até 1945, nas edições da garnier, o livro de bolso, cruzeiro do sul e clube do livro.
imagem: x, google images

25/06/2009

zumbi trapalhares IV

sobre o caso dos machados, alencares, eças etc. "traduzidos" por pietro nassetti e quejandos, conforme cadastro na fbn/isbn, sou informada de que a procuradoria enviou ofício ao minc pedindo esclarecimentos e recebeu resposta; enviou ofício à presidência da fbn e recebeu resposta; juntado o expediente, enviou requisição de esclarecimentos à editora martin claret. a ver.

em todo caso, minha petição foi contra o indiferentismo da fbn/isbn, não contra os despautérios da martin claret. a reação da agência brasileira do isbn, perante o problema, tinha sido simplesmente tascar uma ressalva nas fichas cadastrais: "todas as informações contidas neste cadastro foram fornecidas pelos editores no momento da solicitação do isbn".

ok, vá lá que os funcionários da agência tenham cadastrado roboticamente as pérolas enviadas pela editora martin claret. mas, constatado o fato, a agência brasileira do isbn, na fundação biblioteca nacional, teria que corrigir os dados. ela está subordinada à agência internacional do isbn, que determina entre as funções e responsabilidades de cada agência:

- registrar e manter dados corretos;
- corrigi-los quando estiverem errados
[cf. manual de uso, item 9.3, "isbn registration agencies"].

então tascar a frase supracitada eximindo-se de qualquer responsabilidade sobre os dados cadastrados e continuar a mantê-los lá, como fez a agência brasileira do isbn, parece estar em flagrante contradição com o que estabelece a agência internacional.

de mais a mais, como leitora e pesquisadora, acho esse ponciopilatismo da fbn/isbn inadmissível, capaz de constranger qualquer cidadão brasileiro.

imagem: lavando as mãos

o gato pálido, poe XX


edio
uro: sobre a bizarra remissão de suas histórias extraordinárias traduzidas e adaptadas por clarice lispector ao original tales of the grotesque and arabesque de poe, a coordenadora editorial sra. cristiane marinho informa que solicitou ao Arquivo Geral da empresa que "disponibilize todo o material utilizado para a produção do livro".

imagem: o gato pálido

cortesia da casa, poe XIX

como os cotejos costumam ser muito tediosos pela parca sinonímia usada pelos maquiadores de plantão e pelo escasso desafio que propõem à inteligência do leitor, ofereço para a família nassetti-corvisieri-burattiana alguns exercícios para treinar suas habilidades.


I. quando se pretende sugerir uma pátina de respeitabilidade, com um ar levemente arrebicado:

Eis-me a ponto de redigir uma narrativa de si fantástica ao extremo e, não obstante, de extremo desadorno, em prol da qual não antecipo e tampouco encareço qualquer crédito. Desarrazoado, deveras, seria da minha parte esperar tal penhor de confiança, numa instância em que o próprio testemunho dos meus sentidos é por eles mesmos rejeitado. E no entanto desarrazoado não sou – e com grande segurança afirmo não se tratar de um sonho. Porém amanhã hei de perecer, e hoje apraz-me descarregar o que minh'alma oprime. Meu imediato propósito é perante o mundo expor sem rebuços, sem delongas e sem comentários uma série de singelos eventos do meu espaço doméstico. Nas suas consequências, tais eventos trouxeram-me terror - tormento - destruição. Ainda assim não me abalançarei a uma explanação deles. A mim, pouco apresentaram além de Horror – a muitos afigurar-se-ão menos terríveis do que barrocos. Adiante encontrar-se-á porventura um intelecto com capacidade de reconduzir minha fantasmagoria ao lugar-comum – um intelecto de maior equanimidade, maior raciocínio lógico e muito menor suscetibilidade do que o meu, o qual saberá discernir, nas circunstâncias que assombrado aqui pormenorizo, nada além de uma ordinária sucessão de causas e efeitos muito naturais.


II. quando se pretende um certo tom neutro e relativamente escorreito, que não desperte grandes objeções quanto ao literalismo:

Quanto à narrativa profundamente estranha, e todavia despojada que estou em vias de escrever, não espero nem peço que me creiam. Louco realmente seria eu se o esperasse, num caso em que meus próprios sentidos rejeitam o que testemunham. No entanto, louco não estou – e certamente não sonho. Mas amanhã morrerei, e hoje gostaria de desabafar minha alma. Meu propósito imediato é colocar ao mundo, direta e sucintamente, sem comentários, uma série de meros eventos familiares. Em suas consequências, estes eventos me aterrorizaram – me torturaram – me destruíram. Mas não tentarei elucidá-los. Para mim, apresentaram pouco mais do que Horror – para muitos, eles parecerão não tanto terríveis quanto barrocos. No futuro talvez se possa encontrar alguma inteligência capaz de reduzir meu fantasma a uma banalidade – alguma inteligência mais serena, mais lógica, e muito menos excitável do que a minha, a qual perceberá, nas circunstâncias que detalho com espanto, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.


III. quando se pretende um certo ar mais solto, num tom de aparência mais direta:

Para a narrativa muito estranha e, ao mesmo tempo, muito simples que vou escrever, não peço nem espero crédito. Seria loucura minha esperar, ainda mais que nem mesmo eu acredito nos meus próprios sentidos. Mas não sou louco – e certamente não estou sonhando. Só que amanhã vou morrer, e hoje quero aliviar a alma. Meu objetivo imediato é apresentar ao mundo, de maneira direta, sucinta, sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Em suas consequências, esses acontecimentos me aterrorizaram – torturaram – destruíram. Mas não vou tentar explicá-los. Para mim, são praticamente o puro Horror – para muitos, mais do que terríveis vão parecer barrocos. Quem sabe algum dia possa surgir um intelecto que reduza meu fantasma ao corriqueiro – um intelecto mais calmo, mais lógico, muito menos excitável do que o meu, que veja, nas circunstâncias que detalho com pavor, apenas uma sucessão normal de causas e efeitos muito naturais.

imagens: dragon, orgão e simplicissimo.

cat/chat, poe XVIII

THE BLACK CAT

For the most wild, yet most homely narrative which I am about to pen, I neither expect nor solicit belief. Mad indeed would I be to expect it, in a case where my very senses reject their own evidence. Yet, mad am I not — and very surely do I not dream. But to-morrow I die, and to-day I would unburthen my soul. My immediate purpose is to place before the world, plainly, succinctly, and without comment, a series of mere household events. In their consequences, these events have terrified — have tortured — have destroyed me. Yet I will not attempt to expound them. To me, they have presented little but Horror — to many they will seem less terrible than barroques. Hereafter, perhaps, some intellect may be found which will reduce my phantasm to the common-place — some intellect more calm, more logical, and far less excitable than my own, which will perceive, in the circumstances I detail with awe, nothing more than an ordinary succession of very natural causes and effects.

LE CHAT NOIR

Relativement à la très étrange et pourtant très familière histoire que je vais coucher par écrit, je n’attends ni ne sollicite la créance. Vraiment, je serais fou de m’y attendre, dans un cas où mes sens eux-mêmes rejettent leur propre témoignage. Cependant, je ne suis pas fou, — et très certainement je ne rêve pas. Mais demain je meurs, et aujourd’hui je voudrais décharger mon âme. Mon dessein immédiat est de placer devant le monde, clairement, succinctement et sans commentaires, une série de simples événements domestiques. Dans leurs conséquences, ces événements m’ont terrifié, — m’ont torturé, — m’ont anéanti. Cependant, je n’essaierai pas de les élucider. Pour moi, ils ne m’ont guère présenté que de l’horreur; — à beaucoup de personnes ils paraîtront moins terribles que baroques. Plus tard peut-être il se trouvera une intelligence qui réduira mon fantôme à l’état de lieu commun, — quelque intelligence plus calme, plus logique, et beaucoup moins excitable que la mienne, qui ne trouvera dans les circonstances que je raconte avec terreur qu’une succession ordinaire de causes et d’effets très naturels.


From my infancy I was noted for the docility and humanity of my disposition. My tenderness of heart was even so conspicuous as to make me the jest of my companions. I was especially fond of animals, and was indulged by my parents with a great variety of pets. With these I spent most of my time, and never was so happy as when feeding and caressing them. This peculiarity of character grew with my growth, and, in my manhood, I derived from it one of my principal sources of pleasure. To those who have cherished an affection for a faithful and sagacious dog, I need hardly be at the trouble of explaining the nature or the intensity of the gratification thus derivable. There is something in the unselfish and self-sacrificing love of a brute, which goes directly to the heart of him who has had frequent occasion to test the paltry friendship and gossamer fidelity of mere Man.

Dès mon enfance, j’étais noté pour la docilité et l’humanité de mon caractère. Ma tendresse de cœur était même si remarquable qu’elle avait fait de moi le jouet de mes camarades. J’étais particulièrement fou des animaux, et mes parents m’avaient permis de posséder une grande variété de favoris. Je passais presque tout mon temps avec eux, et je n’étais jamais si heureux que quand je les nourrissais et les caressais. Cette particularité de mon caractère s’accrut avec ma croissance, et, quand je devins homme, j’en fis une de mes principales sources de plaisirs. Pour ceux qui ont voué une affection à un chien fidèle et sagace, je n’ai pas besoin d’expliquer la nature ou l’intensité des jouissances qu’on peut en tirer. Il y a dans l’amour désintéressé d’une bête, dans ce sacrifice d’elle-même, quelque chose qui va directement au cœur de celui qui a eu fréquemment l’occasion de vérifier la chétive amitié et la fidélité de gaze de l’homme naturel.


I married early, and was happy to find in my wife a disposition not uncongenial with my own. Observing my partiality for domestic pets, she lost no opportunity of procuring those of the most agreeable kind. We had birds, gold-fish, a fine dog, rabbits, a small monkey, and a cat.

Je me mariai de bonne heure, et je fus heureux de trouver dans ma femme une disposition sympathique à la mienne. Observant mon goût pour ces favoris domestiques, elle ne perdit aucune occasion de me procurer ceux de l’espèce la plus agréable. Nous eûmes des oiseaux, un poisson doré, un beau chien, des lapins, un petit singe et un chat.


This latter was a remarkably large and beautiful animal, entirely black, and sagacious to an astonishing degree. In speaking of his intelligence, my wife, who at heart was not a little tinctured with superstition, made frequent allusion to the ancient popular notion, which regarded all black cats as witches in disguise. Not that she was ever serious upon this point — and I mention the matter at all for no better reason than that it happens, just now, to be remembered. Pluto — this was the cat's name — was my favorite pet and playmate. I alone fed him, and he attended me wherever I went about the house. It was even with difficulty that I could prevent him from following me through the streets.

Ce dernier était un animal remarquablement fort et beau, entièrement noir, et d’une sagacité merveilleuse. En parlant de son intelligence, ma femme, qui au fond n’était pas peu pénétrée de superstition, faisait de fréquentes allusions à l’ancienne croyance populaire qui regardait tous les chats noirs comme des sorcières déguisées. Ce n’est pas qu’elle fût toujours sérieuse sur ce point, — et, si je mentionne la chose, c’est simplement parce que cela me revient, en ce moment même, à la mémoire. Pluton, — c’était le nom du chat, — était mon préféré, mon camarade. Moi seul, je le nourrissais, et il me suivait dans la maison partout où j’allais. Ce n’était même pas sans peine que je parvenais à l’empêcher de me suivre dans les rues.*


Our friendship lasted, in this manner, for several years, during which my general temperament and character — through the instrumentality of the Fiend Intemperance — had (I blush to confess it) experienced a radical alteration for the worse. I grew, day by day, more moody, more irritable, more regardless of the feelings of others. I suffered myself to use intemperate language to my wife. At length, I even offered her personal violence. My pets, of course, were made to feel the change in my disposition. I not only neglected, but ill-used them. For Pluto, however, I still retained sufficient regard to restrain me from maltreating him, as I made no scruple of maltreating the rabbits, the monkey, or even the dog, when by accident, or through affection, they came in my way. But my disease grew upon me — for what disease is like Alcohol ! — and at length even Pluto, who was now becoming old, and consequently somewhat peevish — even Pluto began to experience the effects of my ill temper.

Notre amitié subsista ainsi plusieurs années, durant lesquelles l’ensemble de mon caractère et de mon tempérament, — par l’opération du Démon Intempérance, je rougis de le confesser, — subit une altération radicalement mauvaise. Je devins de jour en jour plus morne, plus irritable, plus insoucieux des sentiments des autres. Je me permis d’employer un langage brutal à l’égard de ma femme. À la longue, je lui infligeai même des violences personnelles. Mes pauvres favoris, naturellement, durent ressentir le changement de mon caractère. Non seulement je les négligeais, mais je les maltraitais. Quant à Pluton, toutefois, j’avais encore pour lui une considération suffisante qui m’empêchait de le malmener, tandis que je n’éprouvais aucun scrupule à maltraiter les lapins, le singe et même le chien, quand, par hasard ou par amitié, ils se jetaient dans mon chemin. Mais mon mal m’envahissait de plus en plus, car quel mal est comparable à l’Alcool! — et à la longue Pluton lui-même, qui maintenant se faisait vieux et qui naturellement devenait quelque peu maussade, — Pluton lui-même commença à connaître les effets de mon méchant caractère.

* no texto de baudelaire consultado, a partir de "Pluton" inicia-se um novo parágrafo.

imagens: poe; baudelaire

24/06/2009

variedades, poe XVII

o porão da casa onde poe morou em 1843-44,
referência tão macabramente central em o gato preto.


poe e baudelaire

fascinante toque dado por joana canêdo: o primeiro contato de baudelaire com a obra de poe foi justamente o gato preto.

em janeiro de 1847, uma moça chamada isabelle meunier (uma inglesa casada com um periodista francês, e adepta de fourier) publicou sua tradução de the black cat no jornal fourierista la démocratie pacifique. baudelaire ficou fascinado, e quase quinze anos depois ainda descrevia a seu amigo armand fraisse "la commotion singulière" que se apossou dele. já em 1848 põe-se a traduzir poe, o que vai resultar em 1856 na publicação de suas histoires extraordinaires, que deram azo a tanta confusão de datas, títulos e obras de poe aqui no brasil.

depois da tradução de isabelle meunier, saíram:
- a tradução de william l. hugues, em journal des faits, em 18 de abril de 1851;
- um trecho do conto que baudelaire inseriu no artigo "edgar allan poe, sa vie et ses ouvrages", em la revue de paris, março-abril de 1852;
- a tradução de paul roger em chronique de france, 16 de novembro de 1853;
- sendo que dois dias antes tinha saído a tradução de baudelaire em le paris, em duas partes, em 13 e 14 de novembro de 1853;
- reeditada em le pays em 31 de julho e 01 de agosto de 1854;
- por fim compilada nas nouvelles histoires extraordinaires de edgar allan poe, pela michel lévy, em 1857. em sua tradução, baudelaire usou a versão definitiva do conto, de 1845.

veja toda a sequência da pesquisa poe/brasil clicando na coluna à direita, desde poe I a poe XVI.

aqui a fonte de referências. imagem: clique sobre ela.

I fórum cbl


dia 26 de junho, a câmara brasileira do livro (cbl) realiza seu primeiro fórum de debate permanente sobre questões relativas ao mercado editorial brasileiro. o tema é "políticas públicas de livro e leitura", em duas partes:

- programas federais de aquisição de livros
- a questão dos direitos autorais no brasil

em vista das barbaridades que andam acontecendo no setor editorial de nosso país, quanto a fraudes, contrafações e plágios de tradução, espero que a diretoria da cbl e os ilustres participantes do fórum lembrem que a direitos sempre correspondem deveres.

e que alguns dos deveres concomitantes à titularidade e exploração dos direitos patrimoniais sobre um livro são:
- o respeito à autoria da obra, conforme determinam a constituição federal e a lda 9610;
- o respeito ao leitor da obra, conforme determinam a constituição federal e o código de defesa do consumidor.

entendo, ademais, que ao setor editorial brasileiro, reunido em suas diversas associações, caberia defender como ponto de honra inarredável em seu código de ética profissional o cumprimento de tão elementares deveres.

deixo aqui meus votos de que a câmara brasileira do livro, neste seu primeiro fórum, aborde com franqueza os problemas que têm corroído o mundo do livro em anos recentes e, com sua política de transparência, faça por manter e aumentar sua credibilidade junto à sociedade.

imagem: cbl

23/06/2009

haroldo netto





in memoriam haroldo carvalho netto
(1932-2009).

nietzche [sic]


4 Publicações encontradas, distribuídas em 1 página

ISBN TÍTULO
978-85-377-0744-9
O ELOGIO DA LOUCURA (ALUNO)
978-85-377-0745-6
O ELOGIO DA LOUCURA (PROFESSOR)
978-85-377-0746-3
O PRÍNCIPE (ALUNO)
978-85-377-0747-0
O PRÍNCIPE (PROFESSOR)

o dicionário dos duplos verbetes

o dicionário filosófico de voltaire, em sua fabulosa versão nassetti-claretiana, comparece em programas de cursos universitários:
http://www.fafich.ufmg.br/~labfil/aulas/ciencia-e-verdade/
http://www1.capes.gov.br/estudos/dados/2002/15001016/035/2002_035_15001016011P4_Disc_Ofe.pdf

está presente em bibliotecas escolares:
http://esmac.phlnet.com.br/cgi-bin/wxis.exe?IsisScript=phl8/003.xis&cipar=phl8.cip&bool=exp&opc=decorado&exp=VOLTAIRE&code=&lang=
http://200.135.4.10/cgi/Demetrios.exe/show_exemplares?id_acervo=47868

em licitações e compras do governo para uso na rede pública de ensino:
http://www.saolourencodosul.rs.gov.br/arquivos/CC_73_2008.pdf
http://intranet.itajai.sc.gov.br/arquivos/compras_de_agosto_de_2008.txt

em dissertações de mestrado e teses de doutorado:
https://www.univem.edu.br/mestrado_dir/detalhe.asp?reg=7&lng=1
http://www.bibliotecadigital.ufba.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=173
http://www.uniplac.net/mestrado/dissertacoes/educacao/mailza.pdf
http://teses.ufrj.br/ip_d/fatimarochaluizvianna.pdf
http://libdigi.unicamp.br/document/?code=vtls000445520
http://www.ce.ufpb.br/ppge/Dissertacoes/dissert06/Ramses%20Nunes/DISSERTA%C7%C3O.pdf

em estudos e artigos acadêmicos ou especializados:
http://www.seer.furg.br/ojs/index.php/index/about
http://www.ajuris.org.br/sharerwords/?org=AJURIS&depto=Dep.%20de%20Publica%C3%A7%C3%B5es&setor=Revista%20da%20Ajuris%20Eletr%C3%B4nica%20-%20Artigos%20Internet&public=16190
http://www.fa7.edu.br/recursos/imagens/File/publicidade/midiademocracia/ARTIGO01.pdf
http://www.rumoatolerancia.fflch.usp.br/node/2186
http://www.amprs.org.br/arquivos/comunicao_noticia/sansroekelly.pdf
http://www.buscalegis.ufsc.br/revistas/index.php/buscalegis/article/viewPDFInterstitial/13617/13181
http://www.rc-pro.com.br/arquivos/DOUT/20081217_DOUT_004805.html

em artigos e posts de sites e blogs:
http://www.existencialismofilosofico.com.br/index.php?q=book/export/html/3
http://www.planetanews.com/produto/L/69650/problema-do-nexo-causal-na-responsabilidade-civil--o-gisela-sampaio-da-cruz.html
http://www.ejesus.com.br/exibe.asp?id=3173
http://www.praetorium.com.br/v2009/artigos/87
http://www.skoob.com.br/meus_livros/mostrar/20789/7921/9176

imagem: http://animusiquesdumonde.skynetblogs.be

22/06/2009

a mitologia tradutória

a edição centauriana de a pedagogia e as grandes correntes filosóficas, do educador polonês bogdan suchodolski, na mítica tradução de rubens eduardo ferreira frias, foi selecionada para as compras do governo paranaense para a biblioteca do professor:


http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/diaadia/diadia/arquivos/File/destaques/biblioteca_do_professor.pdf

ou para a biblioteca da unesp de bauru:
http://www.biblioteca.bauru.unesp.br/aquisicoes/FC_recebimento_2008_4.pdf

é utilizada com toda a boa fé em:
http://www.concepcionistas.com.br/revista_nova/revista18/PedagogiaDaEssenciaPedagogiaDaExistencia.pdf
http://www2.faculdadeatual.edu.br/prof_andre/pedagogia/quadro_das_concepcoess_pedagogicas.pdf
http://www.histedbr.fae.unicamp.br/acer_histedbr/jornada/jornada8/txt_compl/Leonardo%20Sacramento.doc
http://www.fasb.edu.br/revista/index.php/conquer/article/view/22/13
http://www.fasb.edu.br/revista/index.php/conquer/article/viewFile/24/15

e em programas de curso:
http://www.pucpr.br/cursos/programas/ppge/disciplinas.php

imagem: www.elfwood.com

suchodolski, centauro

lamentabilíssimo que a editora centauro pareça ter enveredado pelas sendas tortuosas do plagiato.

trata-se de sua edição d'a pedagogia e as grandes correntes filosóficas, de bogdan suchodolski, 2002 (meu exemplar é da 2a. ed., 2004).

o problema começa na página de créditos, que dá como "título original: la pedagogie [sic] et les grands courants philosophiques" e, logo abaixo, na ficha catalográfica apresenta o "título original: pädagogik am scheideweg". mas o grave mesmo diz respeito ao texto.

a editora centauro afirma a nós leitores que a obra foi traduzida por rubens eduardo frias. na fundação biblioteca nacional consta o nome completo de "rubens eduardo ferreira frias".

acontece, porém, que essa suposta tradução se revela fidelíssima cópia da tradução de liliana rombert soeiro, publicada em portugal pela livros horizonte (1978, 2a. ed.). o pretenso tradutor brasileiro não se peja: a literalidade vai do prefácio à última linha da obra.

1. liliana rombert soeiro

primeira parte - aspecto histórico do problema essência e existência, conflito fundamental do pensamento pedagógico

tentou-se variadíssimas vezes, como é sabido, efetuar uma classificação do rico patrimônio constituído pelo pensamento pedagógico moderno. utilizaram-se vários princípios de classificação, o que tornou possível agrupar de vários modos autores, pontos de vista, correntes e posições. delinearam-se assim quadros muito diversos da pedagogia moderna. esses quadros têm, sem dúvida, valor didático, pois ao classificá-los de modos distintos evidenciaram-se múltiplos aspectos das diferentes posições pedagógicas; isto pode contribuir para a compreensão de um fato histórico, a saber: que as posições pedagógicas defendidas nunca foram homogêneas; no entanto, quer pela genealogia, quer pelas suas repercussões, revelaram sempre numerosos elementos de contacto. assim, se percorrermos o extenso conjunto de pontos de vista e de posições pedagógicas tomando como referência princípios de classificação diferentes, dá-se uma boa lição de antiesquematismo e de pensamento analítico que mostra em que medida a realidade, aparentemente homogênea, é de fato variada.

2. rubens eduardo frias:

primeira parte - aspecto histórico do problema essência e existência, conflito fundamental do pensamento pedagógico

tentou-se variadíssimas vezes, como é sabido, efetuar uma classificação do rico patrimônio constituído pelo pensamento pedagógico moderno. utilizaram-se vários princípios de classificação, o que tornou possível agrupar de vários modos autores, pontos de vista, correntes e posições. delinearam-se assim quadros muito diversos da pedagogia moderna. esses quadros têm, sem dúvida, valor didático, pois ao classificá-los de modos distintos evidenciaram-se múltiplos aspectos das diferentes posições pedagógicas; isto pode contribuir para a compreensão de um fato histórico, a saber: que as posições pedagógicas defendidas nunca foram homogêneas; no entanto, quer pela genealogia, quer pelas suas repercussões, revelaram sempre numerosos elementos de contato. assim, se percorrermos o extenso conjunto de pontos de vista e de posições pedagógicas tomando como referência princípios de classificação diferentes, dá-se uma boa lição de antiesquematismo e de pensamento analítico que mostra em que medida a realidade, aparentemente homogênea, é de fato variada.

1. liliana rombert soeiro:

como é sabido, o próprio platão no seu sistema pedagógico pôs em relevo o papel da educação como factor que conduz o homem à descoberta da pátria verdadeira e ideal. a educação do pensamento, de acordo com platão, pode recorrer à observação sensível das
coisas e ao estudo dialético das opiniões; o que, todavia, não dá o conhecimento verdadeiro; o conhecimento do mundo imutável da Ideia só é possível como reminiscência da vida que o pensamento observou nesse mundo, antes de animar o corpo e de surgir entre os reflexos das coisas. de modo idêntico, a educação moral atinge os desejos, os hábitos, a vontade; mas as decisões definitivas, relativas ao bem e ao mal, provêm do mundo ideal, a que pertence o pensamento. e, tal como na educação do espírito não existe uma via que possa conduzir da observação sensível aos cumes do conhecimento, na educação moral não existe uma via que conduza das experiências da vida quotidiana ao pleno desenvolvimento da personalidade moral.

2. rubens eduardo frias:

como é sabido, o próprio platão no seu sistema pedagógico pôs em relevo o papel da educação como fator que conduz o homem à descoberta da pátria verdadeira e ideal. a educação do pensamento, de acordo com platão, pode recorrer à observação sensível das coisas e ao estudo dialético das opiniões; o que, todavia, não dá o conhecimento verdadeiro; o conhecimento do mundo imutável da Idéia só é possível como reminiscência da vida que o pensamento observou nesse mundo, antes de animar o corpo e de surgir entre os reflexos das coisas. de modo idêntico, a educação moral atinge os desejos, os hábitos, a vontade; mas as decisões definitivas, relativas ao bem e ao mal, provêm do mundo ideal, a que pertence o pensamento. e, tal como na educação do espírito não existe uma via que possa conduzir da observação sensível aos cumes do conhecimento, na educação moral não existe uma via que conduza das experiências da vida cotidiana ao pleno desenvolvimento da personalidade moral.

1. liliana rombert soeiro:

vii
educação virada para o futuro e perspectiva de um sistema social à escala humana

esta posição filosófica não se enquadra numa pedagogia que aceite o estado de coisas existente; não será respeitada senão por uma tendência que assinale o caminho do futuro, por uma pedagogia associada a uma atividade social que transforme o estado de coisas que tenda a criar ao homem condições tais que a sua existência se possa tornar fonte e matéria prima da sua essência. a educação virada para o futuro é justamente uma via que permite ultrapassar o horizonte das más opções e dos compromissos da pedagogia burguesa. defende que a realidade presente não é a única realidade e que, por conseguinte, não é o único critério de educação. o verdadeiro critério é a realidade futura. a necessidade histórica e a realização do nosso ideal coincidem na determinação desta realidade futura. esta necessidade permite-nos evitar a utopia, esta atividade protege-nos do fatalismo.
o feiticismo do presente, que não tolera a crítica da realidade existente e que, por esse motivo, reduz a atividade pedagógica ao conformismo, é destruído pela educação virada para o futuro.

2. rubens eduardo frias:

vii
educação virada para o futuro e perspectiva de um sistema social à escala humana

esta posição filosófica não se enquadra numa pedagogia que aceite o estado de coisas existente; não será respeitada senão por uma tendência que assinale o caminho do futuro, por uma pedagogia associada a uma atividade social que transforme o estado de coisas que tenda a criar ao homem condições tais que a sua existência se possa tornar fonte e matéria-prima da sua essência. a educação virada para o futuro é justamente uma via que permite ultrapassar o horizonte das más opções e dos compromissos da pedagogia burguesa. defende que a realidade presente não é a única realidade e que, por conseguinte, não é o único critério de educação. o verdadeiro critério é a realidade futura. a necessidade histórica e a realização do nosso ideal coincidem na determinação desta realidade futura. esta necessidade permite-nos evitar a utopia, esta atividade protege-nos do fatalismo.
o feiticismo do presente, que não tolera a crítica da realidade existente e que, por esse motivo, reduz a atividade pedagógica ao conformismo, é destruído pela educação virada para o futuro.

imagens: http://pedagogia.br.taringa.net; capas em google images.

21/06/2009

a divina comédia, editora nova cultural

em 2002/2003, a editora nova cultural, sob a coordenação editorial de janice florido, lançou a coleção "obras-primas", com o patrocínio da suzano celulose e sua ong ecofuturo. mais de vinte títulos desta coleção eram plágios, contrafações e apropriações indébitas de traduções anteriores, muitas vezes já esgotadas.

o segundo volume das coleção "obras-primas" era a divina comédia de dante. foi utilizada a tradução de hernâni donato, em prosa, levemente copidescada e com os créditos atribuídos a um "fábio m. alberti". circulando em algumas centenas de milhares de exemplares no país, fez um bom estrago na memória cultural dos brasileiros.

foi com imensa satisfação que recebi este convite abaixo.


a editora nova cultural recolheu e tirou de circulação a edição espúria, ressarciu a editora cultrix (detentora original dos direitos de tradução) e, principalmente, ressarciu o autor da tradução, hernâni donato, da melhor maneira que poderia agradar a um intelectual de seu porte: lançando uma edição comemorativa, totalmente restaurada à forma inicial dada pelo tradutor.

o mais importante: a editora nova cultural vem a público, perante os leitores e a sociedade, substituir abertamente, sem máscaras, sem inúteis tentativas de se justificar, a edição fraudada anterior.

mais uma vez se evidencia a diferença de conduta da nova cultural em relação à martin claret. se ambas plagiaram descaradamente dezenas e dezenas de antigas obras traduzidas, no caso da martin claret só sabemos por ouvir dizer que esta fez algum acordo "confidencial", entre quatro paredes, aqui e ali com alguma editora lesada em relação a algumas obras. nada se sabe sobre os exemplares espúrios, que continuam à venda, nada se sabe sobre as providências junto ao leitor, que continua desinformado e enganado sobre a verdadeira edição.

estão de parabéns a presidência e a atual coordenação editorial da nova cultural. tal como tiveram a desfaçatez de vir a público com uma coleção maciçamente fraudada, agora demonstram a lhaneza de vir a público reparar o malfeito. embora seja o mínimo que se espera, bem sabemos o quanto é raro que isso ocorra.

a hernâni donato, meus melhores votos de que sua tradução da divina comédia tenha o reconhecimento que merece e o lugar que lhe cabe na história da recepção literária no país.

aos leitores, minha viva recomendação: continuemos a defender nossa memória cultural. todos só temos a ganhar.

20/06/2009

as "deliciosas sandes de merda" de voltaire

a história engraçada que mencionei a propósito da tradução portuguesa do dicionário filosófico é a seguinte: por alguma dessas razões editoriais obscuras, bruno da ponte, encarregado de fazer a tradução, resolveu repassar uma parte do serviço para luiz pacheco, fosse para ajudá-lo financeiramente, fosse por qualquer outro motivo.

luiz pacheco, falecido no ano passado, era uma figura um tanto folclórica nos meios intelectuais e editoriais portugueses. pois bem, então ele pegou um dos volumes da tradução que cabia a bruno da ponte. recebeu o pagamento adiantado e, chegada a data de entrega do material, não tinha feito o serviço. depois de muita cobrança de bruno, luiz pacheco pegou o livro e foi datilografando conforme ia lendo. mas estava sem dicionário ao lado e as palavras que não sabia foi datilografando com uns palavrões em vermelho. pôs o texto no correio para o bruno, mas esqueceu de tirar as marcações. bruno entregou o material ao editor e, como o livro estava atrasadíssimo, foi direto da editora para a gráfica, sem passar pela revisão.
naturalmente a gráfica iria imprimir igualzinho, pondo em itálico tudo o que estava em vermelho. nesse meio tempo, o pacheco lembrou e foi correndo para lisboa avisar a editora e conseguiu suspender a impressão para fazer a revisão. mesmo assim passou uma nota de tradutor, e aqui transcrevo as palavras de luiz pacheco.

"Estava então a escrever como negro e a traduzir o Dicionário Filosófico (de Voltaire) para a Presença, mas quem assinava a tradução era o Bruno da Ponte. Eu tinha de o fazer porque era a única fonte de dinheiro, e numa parte ele refere-se a um daqueles malucos profetas da Bíblia que faziam uma espécie de pão com excremento de vaca. Eu estava chateado e o que é que fiz? Escrevi: 'Nota do tradutor: é o que chamaríamos hoje deliciosas sandes de merda.' (risos) Esqueci-me, e aquilo lá saiu em nota do tradutor, que era o Bruno da Ponte. Ele ficou um bocado magoado."

eis a anedota no youtube, contada por vitor tavares.




naturalmente muita gente deplora que o bruno da ponte nunca tenha dado os devidos créditos a luiz pacheco. por outro lado, essa edição não é tida em alta conta entre os interessados e leitores de voltaire. veio cá parar entre nós, com vários verbetes reproduzidos pela martin claret sob nome de pietro nassetti.

é engraçado ver algumas adaptações lusitanas, provavelmente pachequianas:

voltaire:
Médroso. — Quel est ce Tullius Cicero? Jamais je n’ai entendu prononcer ce nom-là la sainte Hermandad
Boldmind. — C’était un bachelier de l’université de Rome, qui écrivait ce qu’il pensait, ainsi que Julius Cesar, Marcus Aurelius, Titus Lucretius Carus, Plinius, Seneca, et autres docteurs
Médroso. — Je ne les connais point; mais on m’a dit que la religion catholique, basque et romaine, est perdue, si on se met à penser.

bruno da ponte:
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem; não se trata aqui de Cícero, trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.

pietro nassetti:
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem. Aqui não se trata de Cícero, trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.

claro que voltaire não falou em santo antônio de pádua, o principal santo português, e que o tradutor português quis ampliar o leque da crítica de voltaire eliminando a referência basca. o cômico é que a claret mantenha tais alterações. daqui a pouco algum acadêmico brasileiro vai dizer com ar muito douto: ah, aquela passagem em que voltaire menciona santo antônio...

[a propósito, essa história me lembrou a fama do monoglota nelson rodrigues como tradutor de harold robbins, enquanto era alfredo barcellos pinheiro de lemos, também falecido no ano passado, que fazia as traduções. mas se o acordo satisfazia a "todos"... e nós leitores dizemos: puxa vida, foi nelson rodrigues que traduziu!]

19/06/2009

dicionário filosófico, cotejo II

como disse, a martin claret, na curiosa montagem de seu dicionário filosófico de voltaire, copiou literalmente os 73 verbetes da tradução de líbero rangel de tarso, pela atena. conseguiu criar artificialmente uns dez verbetes inexistentes no original, e os demais catou de outra tradução.

nessa montagem, as outras vítimas são bruno da ponte e joão lopes alves, cuja tradução saiu pela editorial presença de portugal (1966)* e sob licença na coleção "os pensadores", da abril cultural (o que provavelmente explica as tentativas de maquiar a apropriação).

*aliás, há uma história engraçada sobre essa edição em portugal, que contarei em outra ocasião.

vejamos, por exemplo, o verbete "liberdade de pensamento".

1. bruno da ponte e joão lopes alves:

[...] Boldmind: Que horrível alternativa! Éreis cem vezes mais felizes sob o jugo dos mouros que vos deixaram estagnar livremente no meio das vossas superstições e que, embora vencedores, não se arrogavam o direito inaudito de pôr as almas a ferros.
Medroso: Que quereis? Não nos é permitido escrever, nem falar, nem mesmo pensar. Se falamos, torna-se fácil interpretar as nossas palavras e mais ainda os nossos escritos. Enfim, como não podem condenar-nos a um auto-de-fé pelos nossos pensamentos secretos, ameaçam-nos de sermos eternamente queimados por ordem do próprio Deus se não pensarmos como os dominicanos. Persuadiram o governo que se possuíssemos o senso comum todo o Estado ficaria em combustão e a nação tornar-se-ia a mais desgraçada da Terra.
Boldmind: Achais que somos assim desgraçados, nós, ingleses, que cobrimos os mares com os nossos barcos e viemos ganhar para vós batalhas nos confins da Europa? Vede os holandeses que vos desapossaram de quase todas as vossas descobertas na Índia e hoje se enfileiram entre os vossos protetores: pensais que sejam malditos de Deus por haverem concedido inteira liberdade à imprensa e por fazerem o comércio dos pensamentos humanos? Foi menos poderoso o império romano por Cícero haver escrito com liberdade?
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem; não se trata aqui de Cícero, trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.

2. pietro nassetti:

[...] Boldmind: Que horrível alternativa! Cem vezes mais felizes éreis sob o jugo dos mouros que vos deixaram estagnar livremente no meio das vossas superstições e que, conquanto vencedores, não se arrogavam o direito inaudito de pôr as almas a ferros.
Medroso: Que quereis? Escrever, nem falar, e nem mesmo pensar, nada disso nos é permitido. Se falamos, torna-se fácil interpretar as nossas palavras e mais ainda os nossos escritos. Em suma, como não podem condenar-nos a um auto-de-fé pelos nossos pensamentos secretos, ameaçam-nos de sermos eternamente queimados por ordem do próprio Deus se não pensarmos como os dominicanos. O governo foi persuadido a pensar que, se possuíssemos o senso comum, todo o Estado ficaria em combustão, e a nação tornar-se-ia a mais desgraçada da Terra.
Boldmind: Achais que nós, os ingleses, somos assim desgraçados, porque cobrimos os mares com os nossos barcos e viemos ganhar para vós batalhas nos confins da Europa? Vede os holandeses que vos desapossaram de quase todas as vossas descobertas na Índia e hoje se enfileiram entre os vossos protetores: pensais que sejam malditos de Deus por haverem concedido inteira liberdade à imprensa e por fazerem o comércio dos pensamentos humanos? Por acaso Cícero diminuiu o poder do império romano por haver escrito com liberdade?
Medroso: Quem é Cícero? Nunca ouvi falar desse homem. Aqui não se trata de Cícero, trata-se de nosso santo pai, o papa, e de Santo Antônio de Pádua, e sempre ouvi dizer que a religião romana está perdida se os homens começam a pensar.

1. bruno da ponte e joão lopes alves:

Boldmind: Não cabe a vós acreditá-lo, pois estais seguro que a vossa religião é divina e que as portas do inferno não podem prevalecer contra ela. Se assim é, nada poderá destruí-la.
Medroso: Não, mas pode ser reduzida a pouca coisa. E foi por terem pensado que a Suécia, a Dinamarca, toda a vossa ilha e metade da Alemanha gemem na pavorosa desgraça de não mais serem súditos do papa. Diz-se mesmo que se os homens continuassem a guiar-se pelas suas falsas luzes acabarão em breve por ater à simples adoração de Deus e à virtude. Se alguma vez as portas do inferno prevalecerem até esse ponto, em que se tornará o Santo Ofício?
Boldmind: Se os primeiros cristãos não tivessem a liberdade de pensar, não é verdade que não existiria cristianismo?
Medroso: Que quereis dizer? Não vos entendo.
Boldmind: Acredito. Quero dizer que se Tibério e os primeiros imperadores dispusessem de dominicanos que houvessem impedido os primeiros cristãos de usar penas e tinta; se durante tanto tempo não tivesse sido permitido pensar livremente no império romano, tornar-se-ia impossível aos cristãos estabelecer os seus dogmas. Portanto, se o cristianismo só se formou pela liberdade de pensamento, por que contradição, por que injustiça desejaria aniquilar hoje essa liberdade sobre a qual está fundado? Quando vos propõem algum negócio interessante, não o examinais demoradamente, antes de o concluirdes? Haverá no mundo maior interesse que o da nossa felicidade ou eterna desgraça? Existem sobre a Terra cem religiões e todas vos condenam à danação por acreditares nos vossos dogmas, que essas religiões consideram absurdos e ímpios; examinai, portanto, esses dogmas.

2. pietro nassetti:

Boldmind: A vós não cabe acreditá-lo, pois estais seguro que a vossa religião é divina e que as portas do inferno não podem prevalecer contra ela. Sendo assim, nada poderá destruí-la.
Medroso: Não mesmo, todavia pode ser bastante reduzida. Foi exatamente por terem pensado que a Suécia, a Dinamarca, toda a vossa ilha e metade da Alemanha gemem na pavorosa desgraça de não mais serem súditos do papa. Contam mesmo que se os homens continuam a guiar-se pelas suas falsas luzes acabarão em breve por ater à simples adoração de Deus e à virtude. Se alguma vez as portas do inferno prevalecerem até esse ponto, para que servirá o Santo Ofício?
Boldmind: Caso os cristãos primitivos não tivessem a liberdade de pensar, não é verdade que não existiria cristianismo?
Medroso: Que quereis dizer? Não consigo vos entender.
Boldmind: Acredito. Dir-vos-ei em outras palavras: se Tibério e os primeiros imperadores dispusessem de dominicanos que houvessem impedido os primeiros cristãos de usar penas e tinta; se durante tanto tempo não tivesse sido permitido pensar livremente no império romano, tornar-se-ia impossível aos cristãos estabelecer os seus dogmas. Por conseguinte, se o cristianismo só se formou pela liberdade de pensamento, por que contradição, por que injustiça desejaria aniquilar hoje essa liberdade sobre a qual está alicerçado? Sempre que alguém vos propõem [sic] algum negócio interessante, não o examinais demoradamente, antes de o concluirdes? Será que no mundo poderá haver maior interesse que o da nossa felicidade ou eterna desgraça? Sobre a Terra existem cem religiões, e todas vos condenam à danação por acreditares nos vossos dogmas, que essas religiões consideram absurdos e ímpios. Então examinai esses dogmas.

1. bruno da ponte e joão lopes alves:

Medroso: Como posso examiná-lo? Não sou dominicano.
Boldmind: Sois homem e isso basta.
Medroso: Ai de mim! Sois bem mais homem que eu.
Boldmind: A vós apenas cabe aprender a pensar; haveis nascido com espírito; sois uma ave na gaiola da Inquisição; o Santo Ofício aparou-vos as asas mas elas podem voltar a crescer. Quem não sabe geometria, pode aprendê-la; qualquer homem pode instruir-se: é vergonhoso que se deposite a alma nas mãos daqueles aos quais não se confiaria o dinheiro. Ousai pensar por vós mesmo.
Medroso: Há quem diga que, se toda a gente pensasse por si, a confusão seria prodigiosa.
Boldmind: Pelo contrário. Quando assistimos a um espetáculo, cada qual dá livremente a sua opinião e a paz não é perturbada; se, porém, algum insolente, protetor de algum mau poeta, quiser forçar todas as pessoas de gosto a considerarem bom o que lhes parece mau, os dois partidos podem acabar alvejando-se com maçãs, como já aconteceu em Londres. São estes tiranos dos espíritos que causaram parte das desgraças do mundo. Na Inglaterra, só somos felizes desde que cada qual goze livremente o direito de exprimir a sua opinião.

2. pietro nassetti:

Medroso: Mas como posso examiná-lo? Não sou dominicano.
Boldmind: Sois homem e isso é o bastante.
Medroso: Ai de mim! Sois bem mais homem que eu.
Boldmind: Somente a vós compete aprender a pensar. Porque nascestes com espírito. Vede que sois uma ave na gaiola da Inquisição. O Santo Ofício aparou-vos as asas mas elas podem voltar a crescer. Quem não sabe geometria, pode aprendê-la. Qualquer homem pode instruir-se. Vergonhoso é que se deposite a alma nas mãos daqueles aos quais não se confiaria o dinheiro. Deveis ter ousadia de pensar por vós mesmo.
Medroso: Dizem que, se toda a gente pensasse por si, a confusão seria danosa [sic].
Boldmind: Pelo contrário. No momento em que assistimos a um espetáculo, cada qual dá livremente a sua opinião, e a paz não é perturbada; porém, se algum insolente, protetor de algum mau poeta, quiser forçar todas as pessoas de bom senso [sic] a considerarem bom o que lhes parece mau, os dois partidos podem acabar alvejando-se com maçãs, como já aconteceu uma vez em Londres. Grande parte das desgraças do mundo foram causadas por esses tiranos []. Na Inglaterra, só somos felizes desde que cada qual goze livremente o direito de exprimir a sua opinião. [...]

imagem: http://tomarpartido.weblog.com.pt

martin claret e a boa fé do leitor

no exótico expediente de tentar preencher a cota dos "cento e trinta e qualquer coisa" verbetes duplicando o mesmo artigo em duas traduções diferentes, a martin claret conseguiu demonstrar cabalmente um ponto fundamental: cada tradução é única e irrepetível.

a tal ponto que leitores incapazes de colocar em dúvida a incorruptibilidade da natureza humana acreditam que voltaire realmente quis frisar tanto seus argumentos sobre les bêtes que escreveu dois verbetes diferentes sobre o mesmo tema: "essa questão de crueldade contra os animais ... foi tão veementemente combatida por VOLTAIRE que nesse Dicionário Filosófico lhe são dedicados dois verbetes: o primeiro 'animais' e, o segundo, 'irracionais'".

e naturalmente, ao transcrever a íntegra dos dois verbetes, o honesto leitor dá a devida referência:
"ANIMAIS - Voltaire (1596-1650) (in Dicionário Filosófico, São Paulo : Martin Claret, 2004. capítulo 8, P . 30-32)" e "IRRACIONAIS - Voltaire (1596-1650) (in Dicionário Filosófico, São Paulo : Martin Claret, 2004. capítulo 78, P. 319-321)".

a dona claret devia se envergonhar de se aproveitar tão descaradamente da confiança e boa fé das pessoas.

imagem: shunkosai, wikipedia

dicionário filosófico, cotejo I

quanto à bizarra montagem da martin claret em sua edição do dicionário filosófico de voltaire, duplicando verbetes iguais com traduções diferentes, picotando e criando artificialmente novos verbetes, copiando despudoradamente traduções anteriores, vejamos agora alguns exemplos.

trata-se do artigo sobre o caráter, com um fraseio bem peculiar em português, da lavra de líbero rangel de tarso:

[...] a idade amolenta o caráter. transforma-o em uma árvore que não dá senão um ou outro fruto abastardado, mas sempre da mesma natureza. enodoa-se, cobre-se de musgo, caruncha. jamais deixará de ser carvalho ou pereira, porém. se fosse possível alterar o caráter, a gente mesmo o plasmaria a bel prazer, seria senhor da natureza. podemos lá criar alguma cousa? não recebemos tudo. experimentai animar o indolente de contínua atividade, inspirar gosto à música a quem careça de gosto e de ouvido. não tereis melhor resultado do que se empreenderdes dar vista a cego de nascença. não aperfeiçoamos, esborcelamos, o que nos estereogravou a natureza. não há, porém, alterar-lhe a obra.
diríeis a um criador: - o senhor tem peixe demais nesse viveiro; assim eles não vingam. seus campos estão sobrelotados de gado; o capim não dá, os animais emagrecerão. - mas deixa o nosso homem que as solhas lhe comam metade das carpas, e os lobos metade dos carneiros. os restantes engordam. gabar-se-á ele dessa economia? este camponês é tu mesmo. uma de tuas paixões devorou as outras, e tu julgas haver triunfado sobre ti próprio. não parecemos quase todos nós com aquele velho general de noventa anos que, encontrando jovens oficiais mexendo com umas moças, perguntou-lhes colérico: "senhores, é esse o exemplo que lhes dou?" (atena, pp. 64-65)

pietro nassetti:

[...] a idade amolenta o caráter. transforma-o em uma árvore que não dá senão um ou outro fruto abastardado, mas sempre da mesma natureza. enodoa-se, cobre-se de musgo, caruncha. jamais deixará de ser carvalho ou pereira, porém. se fosse possível alterar o caráter, a gente mesmo o plasmaria a bel-prazer, seria senhor da natureza. podemos lá criar alguma coisa? não recebemos tudo. experimentai animar o indolente de contínua atividade, inspirar gosto à música a quem careça de gosto e de ouvido. não tereis melhor resultado do que se empreenderes [sic] dar vista a cego de nascença. não aperfeiçoamos, esborcelamos, o que nos estereogravou a natureza. não há, porém, alterar-lhe a obra.
diríeis a um criador: - o senhor tem peixe demais nesse viveiro; assim eles não vingam. seus campos estão sobrelotados de gado; o capim não dá, os animais emagrecerão. - mas deixa o nosso homem que as solhas lhe comam metade das carpas, e os lobos metade dos carneiros. os restantes engordam. gabar-se-á ele dessa economia? este camponês é tu mesmo. uma de tuas paixões devorou as outras, e tu julgas haver triunfado sobre ti próprio. não parecemos quase todos nós com aquele velho general de noventa anos que, encontrando jovens oficiais mexendo com umas moças, perguntou-lhes, colérico: "senhores, é esse o exemplo que lhes dou?" (martin claret, p. 69)

ou um trecho do verbete "china (da)":

- líbero rangel de tarso:

vamos à china à procura de terra, como se nos faltasse. tecidos, como se de tecidos carecêssemos. certa erva para infundir nágua, como se nossos climas não produzissem similares. em paga timbramos em querer conhecer os chineses. zelo plausibilíssimo. mas nem por isso precisamos contestar sua antiguidade e lançar-lhes a tacha de idólatras. que diríeis de um capuchinho que, depois de generosamente acolhido pelos montmorency em um de seus castelos, quisesse persuadi-los de que são nobres feitos da noite para o dia, como os secretários do rei, e os acusasse de idólatras, por encontrar no castelo duas ou três estátuas de condestáveis a quem os montmorency votassem profundo respeito? (atena, p. 106)

- pietro nassetti:

vamos à china à procura de terra, como se nos faltasse. tecidos, como se de tecidos carecêssemos. certa erva para infundir na água, como se nossos climas não produzissem similares. em paga timbramos em querer conhecer os chineses. zelo plausibilíssimo. mas nem por isso precisamos contestar sua antiguidade e lançar-lhes a tacha de idólatras. que diríeis de um capuchinho que, depois de generosamente acolhido pelos montmorency em um de seus castelos, quisesse persuadi-los de que são nobres feitos da noite para o dia, como os secretários do rei, e os acusasse de idólatras, por encontrar no castelo duas ou três estátuas de condestáveis a quem os montmorency votassem profundo respeito? (martin claret, p. 98)

imagem: plagiarius

18/06/2009

dicionário filosófico, voltaire

o dicionário filosófico de voltaire teve uma vida atribuladíssima, com direito até ao índex e à fogueira. em termos extremamente resumidos, podemos dizer que ele começou em 1764 com 73 artigos e a edição mais conhecida é a de 1767, a chamada "sexta edição", com 134 artigos. para quem se interessar, há o ótimo prefácio do editor beuchot, de 1829.

no brasil, a atena editora lançou em 1937 o dicionário filosófico de 73 artigos, em tradução de líbero rangel de tarso. teve várias edições e, depois do fechamento da atena, passou para o catálogo da ediouro, também em sucessivas edições.

em seu estilo inconfundível, a martin claret se saiu com um dicionário filosófico de voltaire realmente engraçado.


não sei bem como ela chegou a tal resultado, e só posso especular: deve ter visto dois exemplares diferentes e resolveu juntá-los. como sua familiaridade com qualquer tipo de original das obras não é propriamente muito grande, ela se saiu com 136 verbetes ou "capítulos".



esse dicionário filosófico claretiano traz os 73 artigos em cópia literal da tradução de líbero rangel de tarso. já os outros 63, a martin claret conseguiu acrescentar de várias maneiras.

uma delas é a multiplicação dos pães:

- pega-se um verbete só, por exemplo "economia", e desdobra-se em três: "economia" (43), "economia doméstica" (44) e "economia pública" (45).
- o mesmo ocorre com o verbete "preconceitos", mais prolífico, que rendeu cinco "capítulos": "preconceitos", "preconceitos sentidos" [sic], "preconceitos físicos", "preconceitos históricos" e "preconceitos religiosos" (114 a 118).
- ou ainda convertendo a seção "exame" do artigo sobre os ídolos (69) num "capítulo" independente (70), mesmo que fora da ordem alfabética.


outra maneira muito cômica de procurar preencher a cota dos "cento e trinta e qualquer coisa" é repetir o mesmo verbete em duas traduções diferentes.

- pegue-se, por exemplo, "bêtes" do original e duplique-se-o em "animais" (8) e "irracionais" (78).

- ou ainda "bornes de l'esprit humain", e ofereça-se-o ao leitor em dois verbetes diferentes: "fronteiras do espírito humano" (61) e "limites do espírito humano" (89).

segue abaixo o índice do dicionário filosófico da atena, na tradução de líbero rangel de tarso.

ÍNDICE
Apresentação
Biografia do autor
1. Abraão
2. Alma
3. Amizade
4. Amor
5. Amor Próprio
6. Amor Socrático
7. Anjo
8. Antropófagos
9. Apis
10. Apocalipse
11. Ateu, Ateísmo
12. Batismo
13. Belo, Beleza
14. Bem (Supremo)
15. Bem (Tudo Está)
16. Cadeia dos Acontecimentos
17. Caráter
18. Catecismo Chinês
19. Catecismo do Japonês
20. Catecismo do Pároco
21. Certo, Certeza
22. Céu dos Antigos (O)
23. China (Da)
24. Circuncisão
25. Convulsões
26. Corpo
27. Cristianismo
28. Crítica
29. Destino
30. Deus
31. Escala dos Seres
32. Estados, Governos
33. Ezequiel (De)
34. Fábulas
35. Falsidade das Virtudes Humanas
36. Fanatismo
37. Fim, Causas Finais
38. Fraude
39. Fronteiras do Espírito Humano
40. Glória
41. Graça
42. Guerra
43. História dos Reis Judeus e Paralipômenos
44. Ídolo, Idólatra, Idolatria
45. Igualdade
46. Inferno
47. Inundação
48. Irracionais
49. Jefté
50. José
51. Leis (Das)
52. Leis Civis e Eclesiásticas
53. Liberdade (Da)
54. Loucura
55. Luxo
56. Matéria
57. Mau
58. Messias
59. Metamorfose, Metempsicose
60. Milagres
61. Moisés
62. Pátria
63. Pedro
64. Preconceitos
65. Religião
66. Ressurreição
67. Salomão
68. Sensação
69. Sonhos
70. Superstição
71. Tirania
72. Tolerância
73. Virtude
Notas

as notas e a biografia do autor também foram integralmente copiadas na edição da martin claret, em nome de pietro nassetti.

agradeço a joana canêdo o material e grande parte da pesquisa.

imagens: http://espectorama.zipnet/; dicionário filosófico, índice ed. martin claret; capa, sebo messias.

abnt, consulta nacional II

a nbr 10526, cujo cancelamento está em processo de consulta nacional, trata da editoração de traduções. é uma norma pequena, e em direta dependência da nbr 6023 (referências bibliográficas) e da nbr 10524 (preparação de página de rosto de um livro).

basicamente ela:
- define o que é tradução integral, parcial e intermediária;
- estabelece os elementos de identificação de uma tradução (o nome do tradutor, se a tradução é integral ou parcial; a quem pertencem os direitos de tradução e os direitos de tradutor; e a referência bibliográfica do original, de acordo com a nbr 6023);
- define também onde devem ficar localizados os elementos de identificação, de acordo com a nbr 10524 (página de rosto, verso, retro);
- estabelece também meia-dúzia de coisas do tipo: datas não gregorianas no original devem vir acompanhadas pela data gregoriana respectiva entre parênteses; fazer conversão métrica quando necessário, e assim por diante.

[aliás, sabemos que editoras como a martin claret adoram estampar na capa os dizeres "texto integral", por mais anos-luz que se interponham entre essa afirmação e a realidade. o mesmo se pode dizer de editoras como a fundamento de curitiba que, ao arrepio da lei, adoram manter o anonimato da tradução em seus livros. essa delinquência existe, quaisquer que sejam as normas, e tem de ser combatida em outra esfera.]

nessa proposta de cancelamento que está em consulta nacional, a nbr 10526 não será substituída por outra. entendo que seus elementos já são ou serão contemplados em outras normas mais abrangentes.

por outro lado, a abnt já deu início aos estudos para a revisão da nbr 6023.
pessoalmente acho que essa consulta nacional sobre a nbr 10526 é uma boa ocasião para todos os interessados votarem e encaminharem suas sugestões, mesmo em caráter informal, como subsídios para a reforma da nbr 6023.

o ponto principal que me parece necessário é a adequação da nbr 6023 à lei 9610/98, sobre a responsabilidade da tradução: na normalização das referências bibliográficas, ela deve ser reconhecida como dado essencial e obrigatório, e não complementar e opcional como é hoje.

agradeço as informações de joana canêdo, eugenio hansen e carla castilho, da gerência do processo de normalização da abnt.

imagem: logo abnt

17/06/2009

abnt, consulta nacional I

eugenio hansen, ofs, avisa que a abnt colocou em consulta nacional a proposta de cancelamento da norma 10526/88, referente à editoração de traduções.

"EDITAL Nº. 06:2009
Período de 21 de maio de 2009 a 20 de junho de 2009

PROPOSTAS DE CANCELAMENTO DE NORMAS BRASILEIRAS

A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) torna público que as Propostas de Cancelamento das Normas Brasileiras a seguir relacionadas encontram-se disponíveis em Consulta Nacional no endereço www.abntnet.com.br/consultanacional.

A Consulta Nacional é realizada inteiramente on line, sem qualquer ônus, conforme instruções apresentadas no próprio site.

Ressaltamos que devem ser observados os respectivos prazos-limites indicados no site.
Esta relação também é publicada no Diário Oficial da União (D.O.U.).
[...]

ABNT/CB-14 – COMITÊ BRASILEIRO DE INFORMAÇÃO E DOCUMENTAÇÃO

ABNT NBR 10526:1988 Editoração de traduções Prazo-limite 14.07.2009
Justificativa: Esta norma não é mais utilizada pelo setor."

para participar da consulta, clicar em:
http://www.abntnet.com.br/consultanacional/projetos.aspx?ID=163&Projeto=ABNT/CB-14%20INFORMAÇÃO%20E%20DOCUMENTAÇÃO
selecionar "cancelamentos" e pedir visualização.

além de votar, você pode colocar seus comentários e/ou anexar sugestões no campo da votação. pronto, é só enviar. meio minuto depois você recebe em seu e-mail a cópia e número de autenticação de seu voto.

o meu, por exemplo, foi:
"Seu voto: Aprovado com observações de forma
Comentário: seria absolutamente necessário reformar a nbr 6023, nos modelos de referência, item 7. entre os elementos essenciais está nomeado o autor. desde a lei 9610/98, o tradutor é definido como autor de obra derivada. no entanto, a nbr 6023 indica a responsabilidade de tradução como dado complementar e não essencial. por exemplo: 8.1.1.4. seria preciso especificar entre os dados essenciais 'autor da obra originária' e 'autor da obra derivada', conforme estabelece a referida lei 9610/98. Com -1 arquivo(s) anexados".

amanhã volto ao tema.

prefácio, poe XVI


minha traduçãozinha do prefácio a tales of the grotesque and arabesque, de edgar allan poe, está disponível para download no scribd e no 4shared.

16/06/2009

brasilices, poe XV

desses dez dias de poe sobraram umas rabeiras de rascunho, que coloco aqui.

os erros de baudelaire

essa questão de atribuição pode parecer um detalhe, mas é uma coisa manhosa, a ponto, por exemplo, de induzir um intelectual brasileiro de certo renome a afirmar que, "ao traduzir tales of grotesque and arabesque para histoires extraordinaires, charles baudelaire errou duas vezes. a primeira, ao trair a vontade expressa do autor, de que o título de um livro deve mostrar tudo o que contém; e a segunda, por não perceber a enorme riqueza semântica do original".

é o tipo de deslize que só pode ocorrer a partir das atribuições displicentes e equivocadas das editoras. aliás, diga-se de passagem que baudelaire é o primeiro a reconhecer em seu prefácio a expressividade de "le titre Tales of the Grotesque and the Arabesque — titre remarquable et intentionnel".

toque de caixa

imagino uma cena assim, na hora do fechamento do livro:
- ih meu, tá faltando o nome do original! e como se chama essa coisa?
- procura aí na outra edição.
- pô, não tem. mas aqui na página da frente o pessoal tá falando de umas histórias extraordinárias em francês.
- francês????? mas o livro é do inglês!
- não, é que parece que um tal baú–de–láire, sei lá como se diz isso, pegou o pôu e traduziu em francês. que nome mais esquisito.
- que nome é, então? o inglês, o inglês, não o francês.
- peraí, peraí, tô lendo.
- vai logo, tem que botar o nome de algum original aí.
- ah, achei! téles ovi de grotéski endi arabéski, acho que é isso.
- tá, tá bom, se não é, fica sendo. mas bota por escrito aqui na prova.

outra sala:
- pronto, chefe. tá qui, tudo em cima.
- acharam o nome do tal livro?
- ah, foi moleza. eu até já conhecia.
- então tá bom. deixa aí na mesa que depois dou uma olhada. tá pronto pra rodar?
- ôôô, pode mandar bala.

e o resto virou história.

e a moda pega

dona ediouro, se faz mais de trinta anos que a sra. diz que foi a clarice lispector que escolheu os contos do poe que vocês publicam, como é que a antologia dela acabou virando tradução do original tales of the grotesque and arabesque?

agora, falando sério

este ano comemoram-se os duzentos anos de nascimento de edgar allan poe (1809-1849). a universidade federal de minas gerais está organizando um grande congresso internacional, para sempre poe, entre os dias 20 e 23 de setembro. vale a pena conferir. tomara que a gente consiga sair dessa brincadeira de roda e comece a se entender com as coisas.

nessa pesquisa foram muito úteis os artigos de carlos daghlian, a recepção de poe na literatura brasileira e obras de e sobre poe em português ou publicadas no brasil. agradeço de novo a saulo von randow jr. e a joana canêdo, que colaboraram com coisas magníficas.

imagens: o gato assustado; o gato apavorado; o gato pálido de susto

lendo, poe XIV




estas são algumas capas de vários livros de, com e sobre poe publicados no brasil.

contos do grotesco e arabesco, prefácio, poe XIII



Prefácio

Ver-se-á que os termos “grotesco” e “arabesco” indicam com bastante precisão o teor dominante dos contos aqui publicados. Mas, se durante dois ou três anos escrevi 25 histórias curtas cujo caráter geral pode ser definido com tanta brevidade, não é justo – ou, em todo caso, não é verdadeiro – inferir daí que alimento um especial ou enorme gosto ou propensão por esse tipo de texto. Posso ter escrito pensando em reeditá-los em forma de livro e, portanto, posso ter tido a intenção de preservar, pelo menos até certo ponto, uma certa unidade de concepção. Na verdade, é este o caso; e pode até acontecer que eu nunca mais componha nada dessa maneira. Menciono aqui essas coisas porque sou levado a pensar que foi este predomínio do “arabesco” em meus contos sérios que levou um ou dois críticos a me censurar, muito amigavelmente, por algo que lhes aprouve chamar de “germanismo” e soturnez. É uma acusação de mau gosto, e suas razões não estão bem fundamentadas. Admitamos por um momento que as “peças de fantasia” aqui apresentadas sejam mesmo germânicas, ou o que for. Neste caso, o germanismo é “o estado de espírito” de agora. Amanhã posso ser tudo menos germânico, tal como ontem fui qualquer outra coisa. Estes vários contos continuam a ser um livro só. Meus amigos teriam igual razão em censurar um astrônomo por excesso de astronomia ou um autor ético por tratar demais da moral. Mas a verdade é que, salvo uma única exceção, em nenhuma destas histórias o estudioso reconhecerá as características próprias daquela espécie de pseudohorror que aprendemos a chamar de germânico, sem outra razão melhor a não ser porque alguns dos nomes menores da literatura alemã passaram a ser identificados com sua tolice. Se o terror é a tese em muitas criações minhas, digo que o terror não é da Alemanha, e sim da alma – que eu deduzi este terror apenas de suas fontes legítimas e o conduzi apenas a seus legítimos resultados.

Aqui há um ou dois escritos (concebidos e executados no mais puro espírito de extravaganza) para os quais não espero uma atenção séria, e dos quais não falarei mais. Para os outros, porém, não seria consciencioso de minha parte pedir indulgência alegando que foram feitos às pressas. Creio que o melhor, portanto, é dizer que, se pequei, foi deliberadamente. Estas pequenas composições são, no principal, os resultados de um propósito maduro e de uma elaboração muito cuidadosa.

fonte: preface; trad. informal minha.
imagem: tales of the grotesque and arabesque, 2 vols.

poe no brasil, poe XII

depois desse longo périplo sobre poe, duas conclusões me parecem interessantes:

- a coletânea de histoires extraordinaires, tal como foi concebida por baudelaire, é inédita no brasil;

- e, principalmente, a coletânea de tales of the grotesque and arabesque, tal como foi concebida por poe, é inédita no brasil.

senhores editores, que tal comemorar os 200 anos de nascimento de edgar allan poe com o lançamento desse volume, com seu belo título contos do grotesco e arabesco e o breve prefácio do autor?


contos do grotesco e arabesco, poe XI

se as histórias extraordinárias no brasil são tantas, em tantas edições diferentes, variando de 6 a 17 contos, os mais variados possíveis, como se dá que algumas delas se apresentem como tradução de um original chamado tales of the grotesque and arabesque?

não faço ideia de como surgiu essa atribuição, e a fonte mais antiga que encontrei para ela foi a frase, já citada: "Em 1848, Contos do Grotesco e do Arabesco foi publicado na França como Histórias Extraordinárias, por Baudelaire".

a primeira incorreção desta frase, como vimos, é a data: histoires extraordinaires foi publicada na frança não em 1848, e sim em 1856.

a segunda, e crassa, é a fantástica identificação entre tales of the grotesque and arabesque e histoires extraordinaires.

não só nada a autoriza, como também é uma impossibilidade ontológica.

já vimos quais são os treze contos de poe que compõem a antologia baudelaireana das histoires, e respectivas datas de redação. mas não custa repetir: histoires extraordinaires de 1856 consiste numa coletânea traduzida de treze contos que poe escreveu originalmente entre 1832 e 1845.

tales of the grotesque and arabesque, por sua vez, é uma coletânea de 25 contos que poe selecionou e lançou em novembro/dezembro de 1839, com data de 1840, em dois volumes. ela reúne contos escritos entre 1831 e 1839, que podem ser consultados na wikisource e na edgar allan poe baltimore society.

volume I:

Morella (1835); Lionizing (1835); William Wilson (1839); The Man That Was Used Up — A Tale of the Late Bugaboo and Kickapoo Campaign (1839); The Fall of the House of Usher (1839); The Duc de L'Omelette (1831); MS. Found in a Bottle (1833); Bon-Bon [The Bargain Lost] (1831); Shadow — A Parable (1835); The Devil in the Belfry (1839); Ligeia (1838); King Pest — A Tale Containing an Allegory (1835); The Signora Zenobia (1838); The Scythe of Time (1838).

volume II:

Epimanes (1833); Siope [Silence – A Fable] (1832); The Unparalleled Adventure of One Hans Pfaal (1835); A Tale of Jerusalem (1832); Von Jung [Mystification] (1837); Loss of Breath [A Decided Loss] (1831); Metzengerstein (1831); Berenice (1834); Why the Little Frenchman Wears His Hand in a Sling (1837); The Visionary [The Assignation] (1832); The Conversation of Eiros and Charmion (1839), e um apêndice ao conto "hans pfaal".

não sei dizer quem era o editor da civilização brasileira ou da abril cultural à época em que se instaurou toda essa confusão, mas uma coisa é certa: as histórias extraordinárias não têm nada a ver com tales of the grotesque and arabesque, digam o que disserem as referências das diversas edições, com licença da civilização, pela abril cultural, círculo do livro após 1978 e nova cultural (e sem licença pela martin claret) - e, surpreendentemente, também as edições da ediouro!

naturalmente todos os 25 contos de poe reunidos na coletânea de 1840 existem em português, porém espalhados aqui e ali. no caso da edição da aguilar, que é a mais completa, eles estão distribuídos sob várias rubricas: “contos de terror, de mistério e de morte”, “contos filosóficos”, "contos humorísticos", "viagens fantásticas" e "aventuras fabulosas". e só para lembrar o conto por onde começamos, poe escreveu the black cat em 1843, razão pela qual ele não poderia estar na companhia dos contos do grotesco e arabesco de 1840.

conclui-se que, nesse mar de sargaços, a coletânea tales of the grotesque and arabesque, tal como foi concebida, selecionada e publicada por poe, jamais – por incrível que pareça – teve uma única edição no brasil.

imagens: tales of the grotesque and arabesque, vol. I e vol. II.

15/06/2009

sobra e falta, poe X

em extra & extra, sugeri que "a primeira coisa é deixar de lado qualquer impulso ou reflexo condicionado de associar histórias extraordinárias a histoires extraordinaires".

isso não significa que não tivemos retraduções de poe a partir do francês, e pela interposição de baudelaire, justamente. e aqui cabe acrescentar mais um dado.

além de histoires extraordinaires, baudelaire selecionou, traduziu e publicou mais dois volumes de escritos de edgar allan poe.

- nouvelles histoires extraordinaires com 23 contos, em 1857:
Le Démon de la perversité (1845)
Le Chat noir (1843)
William Wilson (1839)
L’Homme des foules (1840)
Le Cœur révélateur (1843)
Bérénice (1835)
La Chute de la maison Usher (1839)
Le Puit et le pendule (1842)
Hop-Frog (1849)
La Barrique d’amontillado (1846)
Le Masque de la mort rouge (1842)
Le Roi Peste (1835)
Le Diable dans le beffroi (1839)
Lionnerie (1835)
Quatre bêtes en une (1833)
Petite Discussion avec une momie (1845)
Puissance de la parole (1845)
Colloque entre Monos et Una (1845)
Conversation d’Eiros avec Charmion (1839)
Ombre (1835)
Silence (1837)
L’Île de la fée (1841)
Le Portrait ovale (1842)

- histoires grotesques et sérieuses, com sete contos e três ensaios, em 1865:
Le Mystère de Marie Roget (1842)
Le Joueur d’échecs de Maelzel (1836)
Eleonora (1841)
Un Événement à Jérusalem (1832)
L’Ange du bizarre (1844)
Le Système du docteur Goudron et du professeur Plume (1845)
Le Domaine d’Arnheim (1847)
Le Cottage Landor (1849)
Philosophie de l’ameublement (1840)
La Genèse d’un poème (1850)

então, na primeira metade do século XX, antes da multiplicação indiscriminada de coletâneas de histórias extraordinárias, houve edições brasileiras com outro título concorrido - novelas extraordinárias:

1. melhoramentos, com tradução de afonso de taunay (192--). essas novellas extraordinárias selecionadas e traduzidas por taunay trazem contos das três antologias de baudelaire. são eles: o escaravelho dourado; a incomparável aventura de um tal hans pfaal; o sistema do dr. alcatrão e do professor pena; hop frog; a barrica de amontillado; a máscara da morte rubra, além do apêndice de poe ao conto hans pfaal. o volume, ilustrado e publicado na coleção "bibliotheca da adolescência", traz um estudo introdutório de taunay.
ricardo araújo, em edgar allan poe: um homem em sua sombra, também menciona essa tradução de taunay, em edição de 1941.

ainda em tradução e com introdução de afonso de taunay existe uma outra coletânea ilustrada de contos de poe. chama-se histórias esquisitas, e saiu pela melhoramentos em 1927, também na biblioteca da adolescência.
reúne 9 contos, sendo 7 das histoires de 1856 e 2 das nouvelles histoires de 1857: o duplo crime da rua morgue; carta roubada; manuscrito encontrado numa garrafa; descida ao maelstrom; a balela do balão; metzengerstein; reminiscências de augusto bedloe; o diabo no campanário; rei peste.*
* a propósito, mary del priore sugere uma hipótese instigante, relacionando o interesse de taunay por poe e sua teratologia do brasil colonial (mary del priore, "introdução", in taunay, afonso d'escragnolle, monstros e monstrengos do brasil, companhia das letras, 1998).

2. garnier, sem nome de tradutor, sem data - desconheço o conteúdo.

3. o livro de bolso, sem nome de tradutor, e a indicação "tradução revista por faria e sousa", 1941. assim a descreve cláudio weber abramo, a espada no livro: "Além de contos, esta edição contém: uma descrição do enredo de 'O Corvo' (com o subtítulo 'A gênese de um poema') obviamente traduzida da versão francesa de Baudelaire e com lacunas; uma tradução de 'The Philosophy of Composition', também obtida via Baudelaire; a tradução de 'O Corvo' por Machado de Assis, em que faltam as três últimas estrofes".

4. cruzeiro do sul, em que faria e souza agora aparece como responsável pela tradução, 1943. desconheço o conteúdo.

5. clube do livro (sem tradutor), 1945. curiosamente, esta coletânea também traz o corvo: o demônio da perversidade; sombra; silêncio; william wilson; o escaravelho de ouro; o corvo; o homem das multidões; o poço e o pêndulo; hop-frog; berenice.

eu não ficaria surpresa se as edições d'o livro de bolso, da cruzeiro do sul e do clube do livro fossem todas elas reedições da garnier. a casa editorial a que estava ligado machado de assis encerrou suas atividades no brasil em 1934. não admiraria que publicasse o corvo na tradução machadiana; não admiraria que suas novelas extraordinárias ressurgissem anos depois numa "tradução revista"; não admiraria que o citado revisor fosse transformado em tradutor numa outra edição posterior; não admiraria que o clube do livro reeditasse as novelas extraordinárias da garnier simplesmente eliminando a referência ao revisor/tradutor. são dados relativamente fáceis de levantar. talvez algum dia eu volte a eles ou algum curioso se disponha a preencher essas lacunas.

o que quero mostrar é que, antes de proliferarem as histórias extraordinárias a partir de 1958, surgiram no brasil coletâneas de poe baseadas nas traduções baudelaireanas. mas, tal como nenhum edição de histórias extraordinárias corresponde às histoires extraordinaires, da mesma forma nenhum dos conteúdos acima apresentados corresponde a elas.

assim, creio que se desenha uma conclusão bastante sólida: histoires extraordinaires, a específica seleta baudelaireana de contos de edgar allan poe, jamais foi publicada no brasil.

fontes: 1857, wikisource e eapoe.org; 1865, wikisource e eapoe.org

imagens: livrarias

a extraordinária máquina do tempo, poe IX

o equívoco que eu mencionei em extra & extra e em grotesco arabesco parece ter percorrido um caminho meio sinuoso. vamos tentar reconstituir por partes.

a inventiva frase que encerra a apresentação de poe nas histórias extraordinárias da abril cultural, sob licença da civilização brasileira, diz: "Em 1848, Contos do Grotesco e do Arabesco foi publicado na França como Histórias Extraordinárias, por Baudelaire".

são várias inverdades. por ora, já sabemos que baudelaire publicou histoires extraordinaires em 1856, não em 1848.

a única razão que consigo imaginar para esse recuo de oito anos na fantasiosa informação é que o escriba dessa edição da abril deve ter lido meio por cima em algum lugar "baudelaire ... 1848 ... histoires extraordinaires", e se deu por satisfeito.

eu preencheria as lacunas dessa leitura dinâmica assim: "baudelaire traduziu um conto de poe pela primeira vez em 1848. depois de traduzir vários outros contos, ele os reuniu e publicou num volume chamado histoires extraordinaires".

faria sentido e estaria mais de acordo com a realidade.

para quem se interessar, o primeiro conto de poe que baudelaire traduziu - em 1848 - foi mesmeric revelation, publicado em 15 de julho do mesmo ano em la liberté de penser com o nome de révélation magnétique (ver eapoe.org).

imagem: www.macvirtual.usp.br

14/06/2009

extra & extra, poe VIII

essa sequência de posts sobre edgar allan poe no brasil se iniciou com um cotejo de o gato preto (brenno silveira x pietro nassetti).

aí, como neste ano de 2009 comemora-se o segundo centenário de nascimento de poe, resolvi festejá-lo tentando rastrear os caminhos de seu black cat em nossa terrinha. essa curiosidade resultou numa listinha das pessoas que traduziram o gato preto no brasil; uma relação das diversas coletâneas de histórias extraordinárias, que é onde ele mais aparece; e depois algumas andanças dele em outras antologias.

esse levantamento inicial mostra 34 edições e/ou editoras diferentes para o gato preto no brasil, quinze delas com o título histórias extraordinárias, em 20 traduções (se se incluir o plágio da martin claret). a tradução que aparece com maior frequência é, de longe, a de brenno silveira, em sete editoras, seguida a razoável distância pelas de oscar mendes com milton amado, de clarice lispector e de josé paulo paes. estas traduções de o gato preto mais reproduzidas se concentram em diferentes coletâneas com o mesmo título de histórias extraordinárias: onze ocorrências.

mas, a certa altura, parece que se criou um equívoco em torno das histórias extraordinárias. e é isso que eu gostaria de começar a abordar.

histórias extraordinárias, histoires extraordinaires

retomando, a primeira coletânea brasileira a portar o título histórias extraordinárias foi a da cultrix em 1958, com seleção, organização e tradução de josé paulo paes.

logo a seguir, em 1959, a civilização brasileira lançou uma coletânea com organização, prefácio, tradução e notas de brenno silveira, com onze contos, chamada antologia de contos de edgar allan poe.
apenas em 1970 a antologia de brenno muda de nome: ganha mais dois contos e passa a se chamar histórias extraordinárias. a partir daí, aquela seleta inicial de brenno vai variando, em edições com 12, 13, 16 e até 17 contos.

as histórias extraordinárias da tecnoprint/ ediouro também fizeram um percurso movimentado, sempre em seleção, tradução e adaptação de clarice lispector: de início surgiu um volume chamado 7 de allan poe; depois foi ampliado para 11 de allan poe; acrescida de mais contos, a seleta surge c. 1975 como o gato preto e outras histórias de allan poe; rebatizada, aparece como histórias extraordinárias de allan poe, e por fim adota o nome enxuto de histórias extraordinárias.

desnecessário dizer que a fonte de inspiração para o concorrido título é a coletânea montada por charles baudelaire, de nome histoires extraordinaires. essa coletânea reúne treze contos de edgar allan poe, selecionados e traduzidos por baudelaire, e que veio à luz em 1856.



os 13 contos de poe que estão reunidos nas histoires extraordinaires de baudelaire são os seguintes:*

Double Assassinat dans la rue Morgue (1841)
La Lettre volée (1844)
Le Scarabée d’or (1843)
Le Canard au ballon (1844)
Aventure sans pareille d’un certain Hans Pfaall (1835)
Manuscrit trouvé dans une bouteille (1833)
Une Descente dans le Maelstrom (1841)
La Vérité sur le cas de M. Valdemar (1845)
Révélation magnétique (1844)
Souvenirs de M. Auguste Bedloe (1844)
Morella (1835)
Ligeia (1838)
Metzengerstein (1832)

no brasil existem pelo menos treze coletâneas diferentes com o mesmo título de histórias extraordinárias. nenhuma delas corresponde às histoires extraordinaires de baudelaire. em verdade, nenhuma delas (exceto a ed. escala/larousse) tampouco pretende corresponder às histoires baudelaireanas.**

então, a primeira coisa é deixar de lado qualquer impulso ou reflexo condicionado de associar histórias extraordinárias a histoires extraordinaires.

vejo histórias extraordinárias no brasil, referindo-se a edgar allan poe, como um título que se aplica a qualquer coletânea que se queira, com qualquer quantidade de contos que se pretenda. é um bom nome, com suas ressonâncias baudelaireanas e uma certa consagração difusa, e só: de resto, sendo uma carcaça vazia, funciona como um vale-tudo. e justamente porque histórias extraordinárias não corresponde a histoires extraordinaires de baudelaire, e também não corresponde a nenhuma obra específica de poe, não existe nenhuma vinculação necessária entre o título e o conteúdo do livro. por isso é possível proliferarem tantas antologias diferentes com o mesmo nome.

* wikisource e eapoe.org (as datas correspondem à primeira publicação original).

*
* ver o conteúdo das antologias brasileiras com o nome de histórias extraordinárias em poe V. quanto à edição da larousse, os dados parecem improcedentes, visto que apenas dois - a carta roubada e o escaravelho de ouro - dos sete contos do volume constam entre as treze histoires extraordinaires baudelaireanas.

imagem: capa de histoires extraordinaires, nouv. éd. 1875.

caçando o gato, poe VII

13/06/2009

as andanças do gato, poe VI


outras
andanças d'o gato preto

o gato preto, além de aparecer em diversas histórias extraordinárias, passeia por outras antologias. por exemplo:

a. coletâneas de poe:
- os já referidos contos de imaginação e mistério, trad. port. januário leite, pela annuario do brasil, 1926;
- um homônimo contos de imaginação e mistério, trad. aurélio lacerda, pela pinguim, 1947;
- o mistério do gato preto, tradução anônima, pela tecnoprint, 1954;
- o fantasma da rua morgue, trad. frederico dos reis coutinho, pela vecchi, 1954;
- antologia de contos de edgar allan poe, trad. brenno silveira, pela civilização brasileira, 1959;
- contos de terror, de mistério e de morte, trad. oscar mendes e milton amado, pela globo, aguilar, nova fronteira;
- o gato preto e outras histórias de allan poe, trad. clarice lispector, pela ediouro, c. 1975;
- os crimes da rua morgue e outras histórias, trad. aldo della nina, pela saraiva, 1961; reed. como assassinatos na rua morgue e outras histórias em 2006;
- contos escolhidos, trad. oscar mendes e milton amado, globo, 1985;
- histórias de crime e mistério, trad. geraldo galvão ferraz, ática, 1998;
- o escaravelho de ouro e gato negro, trad. rodrigo espinosa cabral, pela rideel, 2005;
- o gato preto e outras histórias, trad. ricardo gouveia, pela scipione, 2007;
- o gato preto e outros contos, trad. guilherme braga, pela hedra, 2008.

b. sozinho:
- o gato preto, trad. bernardo carvalho, pela cosac & naify, 2004;
- o gato preto, trad. antonio carlos vilela, pela melhoramentos, 2006.

c. miscelâneas de autores:
- os mais extraordinários contos de suspense, trad. renato guimarães, civilização brasileira, 1978;
- os melhores contos de medo, horror e morte, trad. oscar mendes e milton amado, nova fronteira, 2005;
- os melhores contos de cães e gatos, trad. celina portocarrero, ediouro, 2007.

o gato extraordinário, poe V


o gato preto e as histórias extraordinárias

então vamos lá, por partes.

em 1944, a editora globo lançou em três volumes a obra traduzida de poe mais abrangente de que se tem notícia no mundo. trazia a ficção completa, 34 poemas - e mais as traduções de o corvo feitas por machado de assis, fernando pessoa e gondin da fonseca -, vários ensaios e excertos da marginalia.

na prosa, foi um trabalho de oscar mendes com a colaboração de milton amado; na poesia, a tradução ficou apenas com milton amado. a introdução, organização e notas ficaram a cargo de oscar mendes.

nos anos 60 a globo licenciou a obra para a josé aguilar. de 1965 para cá, a josé aguilar e a posterior nova aguilar vêm publicando a obra em edição amplamente revista pelos tradutores e uma nova estruturação interna.

o gato preto está lá, classificado entre os contos de terror, mistério e morte.

desde esse lançamento da globo em 1944, o gato preto tem circulado em várias coletâneas diferentes, com vários nomes, por várias editoras. sucede que algumas dessas coletâneas, com diferentes quantidades de diferentes contos, trazem o mesmo título: histórias extraordinárias. mas que isso não nos confunda: são seleções diferentes, com diferentes tradutores e número variável de contos, os quais também variam.

assim, por exemplo, existem:

1. as histórias extraordinárias da cultrix (1958) e companhia das letras (2008), seleção e tradução de josé paulo paes, com 18 contos, a saber:

coração revelador; o retrato ovalado; o sistema do dr. alcatrão e do professor pena; o gato preto; o diabo no campanário; berenice; sombra - uma parábola; william wilson; o caixão quadrangular; a máscara da morte rubra; a queda da casa de usher; a carta roubada; ligéia; pequena palestra com uma múmia; o barril de amontillado; o poço e o pêndulo; o escaravelho de ouro; o homem da multidão.

2. as histórias extraordinárias da civilização brasileira (1970), seleção e tradução de brenno silveira, com 13 contos, a saber:

a queda da casa de usher; o barril de amontilhado; o gato preto; berenice; manuscrito encontrado numa garrafa; william wilson; os crimes da rua morgue; o mistério de marie rogêt; a carta roubada; metzengerstein; nunca aposte sua cabeça com o diabo; o poço e o pêndulo; a aventura sem paralelo de um tal hans pfaall.

3. as histórias extraordinárias da ordibra/inl (1972), tradução de joão teixeira de paula, com 16 contos, sendo: o poço e o pêndulo; o escaravelho de ouro; o homem na multidão; berenice; hop frog; william wilson; silêncio; sombra; a carta roubada; o gato preto; o poder da palavra; pequena discussão com uma múmia; o demônio da perversidade; o sistema do doutor breu e do professor pena; rei peste; duplo assassínio na rua morgue. traz também o corvo, a gênese de um poema, método de composição, e a tradução d'o corvo por machado de assis.

4. as histórias extraordinárias da civilização brasileira (1973) em licença para o círculo do livro, tradução de brenno silveira e outros, com 17 contos, a saber:
a queda da casa de usher; berenice; os crimes da rua morgue; o escaravelho de ouro; o gato negro; o barril de amontillado; manuscrito encontrado numa garrafa; william wilson; o mistério de marie rogêt; a carta roubada; metzengerstein; o poço e o pêndulo; nunca aposte sua cabeça com o diabo; uma descida no maelström; o duque de l'omelette; o jogador de xadrez de maelzel; a aventura sem paralelo de um tal hans pfaall.

5. as histórias extraordinárias de allan poe (seleta de c. 1975, com esse título desde c. 1985) e as histórias extraordinárias da ediouro, tradução e adaptação de clarice lispector, com 18 contos, quais sejam: o gato preto; a máscara da morte rubra; o caso do valdemar; manuscrito encontrado numa garrafa; enterro prematuro; os crimes da rua morgue; a queda da casa de usher; os dentes de berenice; nunca aposte sua cabeça com o diabo; o duque de l'omelette; william wilson; o retrato oval; o coração denunciador; o diabo no campanário; o barril de amontillado; metzengerstein; ligeia; deus (revelação magnética).

6. as histórias extraordinárias da edibolso (c. 1975), tradução de brenno silveira e outros, com 12 contos, a saber: a máscara da peste vermelha; o enterro prematuro; a caixa quadrangular; o homem na multidão; william wilson; o poço e o pêndulo; a queda da casa de usher; manuscrito encontrado numa garrafa; o barril de amontillado; o gato preto; o coração revelador; berenice.

7. as histórias extraordinárias da civilização brasileira (1978) em licença para abril cultural, círculo do livro, nova cultural, tradução de brenno silveira e outros, com 16 contos, sendo:
a queda da casa de usher; o barril de amontilhado; o gato preto; berenice; manuscrito encontrado numa garrafa; william wilson; os crimes da rua morgue; o mistério de marie rogêt; a carta roubada; metzengerstein; nunca aposte sua cabeça com o diabo; o poço e o pêndulo; a aventura sem paralelo de um tal hans pfaall; o escaravelho de ouro; uma descida no maelstrom; o jogador de xadrez de maelzel.

8. as histórias extraordinárias da globo (1987), seleção de carmen vera cirne lima, tradução de oscar mendes e milton amado [estou ainda conferindo os títulos desta seleta].

9. as histórias extraordinárias da martin claret (1999), em suposta tradução de pietro nassetti, com 7 contos, sendo: o gato preto; manuscrito encontrado em uma garrafa; os crimes da rua morgue; a carta roubada; o poço e o pêndulo; o escaravelho de ouro; a queda da casa de usher.

10. as histórias extraordinárias da larousse (2005), em tradução de cláudia ortiz, com 7 contos, quais sejam: a carta roubada; a queda da casa de usher; o gato preto; o barril de amontillado; a máscara da morte vermelha; hop-frog; o escaravelho de ouro.

11. a edição brasileira de histórias extraordinárias pela ed. américa do sul (1988), na tradução portuguesa de luísa feijó e teixeira de aguilar, com 6 contos, quais sejam: os crimes da rua morgue; o escaravelho de ouro; o gato negro; o barril de amontillado; manuscrito encontrado numa garrafa; eleonora.

essas onze coletâneas diferentes de histórias extraordinárias incluem o gato preto.

há outras duas com o mesmo título de histórias extraordinárias, mas sem o gato preto:

- otto pierre (1979), de tradutor anônimo, com 8 contos, a saber: os crimes da rua morgue, o mistério de marie roget, o escaravelho de ouro, o sistema do dr. alcatrão e do prof. pena, a verdade sobre o caso do sr. valdemar, descida ao maelstrom, a carta roubada e metzengerstein.

- clube do livro (1988), tradução de josé maria machado, com 10 contos, a saber: o escaravelho de ouro; o homem na multidão; hop frog; william wilson; silêncio (uma fábula); sombra (uma parábola); berenice; pequena discussão com uma múmia; a carta roubada; o sistema do dr. breu e do professor pena.

imagens: google images e livrarias

o gato brasileiro, poe IV

outro dia apresentei aqui um cotejo brenno silveira x pietro nassetti d'o gato preto de edgar allan poe. para dar um pouco de contraste, acrescentei os trechos das traduções de oscar mendes/ milton amado e de guilherme braga.

como uma coisa leva a outra, isso acabou me despertando a curiosidade: quais seriam outras traduções de o gato preto no brasil?

the black cat no brasil

edgar allan poe escreveu the black cat no final de 1842 ou começo de 1843. o conto foi publicado no saturday evening post, na edição de 19 de agosto de 1843. em 1845, the black cat foi incluído na coletânea tales, publicada por wiley & putnam, nova york.*

* para referências sobre vida e obra de poe, ver o excelente site the edgar allan poe society of baltimore.

o conto aparece em sua primeira tradução brasileira em 1944, e tem conhecido várias outras traduções e adaptações ao longo desses 65 anos.

arrolo abaixo os nomes dos tradutores e adaptadores, as editoras e o ano da primeira edição que consegui localizar.

a partir do original em inglês:
- oscar mendes e milton amado, pela globo, 1944, josé aguilar, nova aguilar e nova fronteira;
- aurélio lacerda, pela pinguim, 1947;
- frederico dos reis coutinho, pela vecchi, 1954;
- josé paulo paes, pela cultrix, 1958, e companhia das letras;
- brenno silveira, pela civilização brasileira, 1959, círculo do livro, abril cultural, edibolso e nova cultural;
- aldo della nina, pela saraiva, 1961;
- joão teixeira de paula, ordibra/inl sob licença do clube do livro, 1972;
- clarice lispector, pela tecnoprint e ediouro, 1975 (?);
- renato guimarães, pela civilização brasileira, 1978;
- geraldo galvão ferraz, pela ática, 1998;
- bernardo carvalho, pela cosac & naify, 2004;
- rodrigo espinosa cabral, pela rideel, 2005;
- celina portocarrero, pela ediouro, 2007;
- ricardo gouveia, pela scipione, 2007;
- guilherme braga, pela hedra, 2008.

por interposição:
- annunziata capasso de filippis, pela newton compton, 1995 (do italiano, sem indicação);
- pietro nassetti, pela martin claret, 1999 (do português, sem indicação);
- cláudia ortiz, pela escala/larousse, 2005 (do francês, com indicação);
- antonio carlos vilela, pela melhoramentos, 2006 (do espanhol, com indicação).

as traduções geralmente trazem o título o gato preto. as exceções são o mistério do gato preto (tradução anônima, tecnoprint, 1954) e gato negro (rodrigo espinosa cabral). menciono aqui a tradução portuguesa de luísa de feijó e teixeira de aguilar, que recebeu uma edição brasileira pela ed. américa do sul (lord cochrane, 1988): o gato negro.

curiosidades:

- o gato preto ganha sua primeira edição brasileira em 1926, pela annuario do brasil, numa coletânea chamada contos de edgard poe, na tradução portuguesa de januário leite.

- a primeira tradução de the black cat para a língua portuguesa aparentemente é a de mécia mouzinho de albuquerque, pela companhia nacional, lisboa, em 1889.

agradeço a joana canêdo, saulo von randow jr. e carlos daghlian por várias indicações preciosas.

imagem: http://www.overmundo.com.br/

12/06/2009

fala o combatente de primeira hora


Entrevista: Jorio Dauster, tradutor

Zero Hora — Denúncias de editoras que publicaram como suas traduções antigas com pequenas alterações cosméticas parecem ter se intensificado nos últimos anos. Para o senhor, episódios como esse mostram que a tradução ainda é pouco valorizada por uma fatia do mercado editorial?

Jorio Dauster — Considero uma vergonha o assalto sistemático que várias editoras fizeram e ainda fazem ao trabalho honesto de dezenas de tradutores, inclusive agindo como verdadeiros ladrões de sepulturas ao se apropriarem do trabalho de intelectuais já mortos. Esses prostíbulos editoriais não só transvestem versões antigas, em muitos casos copiam de cabo a rabo os textos de outrem, atribuindo-os a pessoas cujos nomes inventam com total descaramento. Tenho participado ativamente do movimento de protesto. Recomendo que os amantes da literatura consultem o site http://naogostodeplagio.blogspot.com para conhecer melhor a extensão desses assaltos e assim poder expulsar de suas estantes as traduções bastardas.

11/06/2009

um grotesco arabesco, poe III

se no brasil josé paulo paes foi o primeiro a dar a uma antologia de contos de edgar allan poe o nome de histórias extraordinárias (1958, cultrix), alguém não entendeu a sutileza da coisa e vinte anos depois, numa outra seleta bem diferente, armou esse grotesco arabesco:




como foi possível chegar a essa fabulosa atribuição das histórias extraordinárias ao "original: tales of the grotesque and arabesque", é um mistério que desafia a inteligência.

na apresentação que abre o volume, afora algumas imprecisões ao longo do texto, a última frase não deixa margem a dúvidas: "Em 1848, Contos do Grotesco e do Arabesco foi publicado na França como Histórias Extraordinárias, por Baudelaire".




não deixa margem a dúvidas, digo eu, sobre a leviandade de quem escreveu isso. na frase tão taxativa, somente uma coisa - e apenas implícita - é verdadeira: baudelaire morava na frança.

muito em breve contaremos essa extraordinária história.

10/06/2009

ever more, poe II

agradeço ao para sempre poe, com beardsley e tudo!

uma hora, só por curiosidade, vou dar uma olhada nas quinze ou mais traduções/ adaptações de o gato preto no brasil.

imagem: o gato preto

08/06/2009

o gato preto, poe I

edgar allan poe nasceu em 1809 e morreu em 1849. este ano, portanto, comemora-se o 200o. aniversário de seu nascimento.

dentre suas dezenas de contos, escolhi o gato preto para um breve cotejo entre a tradução de brenno silveira (civilização brasileira, 1959) e a cópia de pietro nassetti, com ligeiras adulterações (martin claret, 1999).

além do cotejo propriamente dito, gostaria de exemplificar o que é o lavor da tradução - as marcas distintivas, as soluções próprias, o partido adotado por cada tradutor. para isso, apresento ainda os respectivos excertos no original, na clássica tradução de oscar mendes e milton amado (globo, 1944) e na recente tradução de guilherme braga (hedra, 2008). isso também permite ilustrar com maior clareza o tipo de apropriação praticada pela editora martin claret.

I.
I am above the weakness of seeking to establish a sequence of cause and effect, between the disaster and the atrocity. But I am detailing a chain of facts — and wish not to leave even a possible link imperfect. On the day succeeding the fire, I visited the ruins. The walls, with one exception, had fallen in. This exception was found in a compartment wall, not very thick, which stood about the middle of the house, and against which had rested the head of my bed. The plastering had here, in great measure, resisted the action of the fire — a fact which I attributed to its having been recently spread. About this wall a dense crowd were collected, and many persons seemed to be examining a particular portion of it with very minute and eager attention. The words "strange!" "singular!" and other similar expressions, excited my curiosity. I approached and saw, as if graven in bas relief upon the white surface, the figure of a gigantic cat. The impression was given with an accuracy truly marvellous. There had been a rope about the animal's neck.

1. oscar mendes com milton amado
Não tenho a fraqueza de buscar estabelecer uma relação de causa e efeito entre o desastre e a atrocidade, mas estou relatando um encadeamento de fatos e não desejo que nem mesmo um possível elo seja negligenciado. Visitei os escombros no dia seguinte ao incêndio. Todas as paredes tinham caído, exceto uma, e esta era de um aposento interno, não muito grossa, que se situava mais ou menos no meio da casa e contra a qual permanecera a cabeceira de minha cama. O estuque havia, em grande parte, resistido ali à ação do fogo, fato que atribuí a ter sido ele recentemente colocado. Em torno dessa parede reuniu-se compacta multidão e muitas pessoas pareciam estar examinando certa parte especial dela, com uma atenção muito ávida e minuciosa. As palavras "estranho, singular!" e expressões semelhantes excitaram minha curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem fora reproduzida com uma nitidez verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em redor do pescoço do animal.

2. guilherme braga
Creio estar acima da fraqueza que tenta estabelecer uma relação de causa e efeito entre a minha atrocidade e o desastre. Nada mais faço além de detalhar uma corrente de acontecimentos – e não desejo que lhe falte nenhum elo. No dia seguinte ao incêndio, fui visitar as ruínas. As paredes todas, à exceção de uma, haviam desabado. Era uma parede interna, não muito espessa, próxima ao meio da casa, e contra a qual a cabeceira de minha cama ficava encostada. Lá, o estuque havia, em grande parte, resistido à ação do fogo – o que atribuí ao fato de que fora aplicado havia pouco tempo. Ao redor dessa parede havia uma aglomeração de pessoas, e muitas pareciam examinar-lhe uma certa parte com grande interesse e atenção. As palavras “estranho!”, “esquisito!” e outras exclamações similares despertaram-me a curiosidade. Ao aproximar-me, vi, como que gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a silhueta de um enorme gato. A representação era de uma acuidade realmente impressionante. Ao redor do pescoço do animal, via-se uma forca.

3. brenno silveira
Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo — coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela. As palavras "estranho!", "singular!", bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em torno do pescoço do animal.

4. pietro nassetti
Não pretendo estabelecer relação nenhuma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, fui ver as ruínas. Com exceção de uma, todas as paredes tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, localizado no meio da casa, junto ao qual estava a cabeceira de minha cama. O reboco havia aí, em grande parte, resistido à ação do fogo — coisa que supus relacionar-se ao fato de ter sido ele construído recentemente. Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas observavam, com especial atenção e minuciosidade, uma parte dela. As palavras "estranho!", "singular!", e outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente assombrosa. Havia uma corda em torno do pescoço do animal.


II.
Although I thus readily accounted to my reason, if not altogether to my conscience, for the startling fact just detailed, it did not the less fail to make a deep impression upon my fancy. For months I could not rid myself of the phantasm of the cat; and, during this period, there came back into my spirit a half-sentiment that seemed, but was not, remorse. I went so far as to regret the loss of the animal, and to look about me, among the vile haunts which I now habitually frequented, for another pet of the same species, and of somewhat similar appearance, with which to supply its place.

1. oscar mendes com milton amado
Embora assim prontamente procurasse satisfazer a minha razão, senão de todo a minha consciência, a respeito do surpreendente fato que acabo de narrar, nem por isso deixou ele de causar profunda impressão na minha imaginação. Durante meses, eu não me pude libertar do fantasma do gato e, nesse período, voltava-me ao espírito um vago sentimento que parecia remorso, mas não era. Cheguei a ponto de lamentar a perda do animal e de procurar, entre as tascas ordinárias que eu agora habitualmente freqüentava, outro bicho da mesma espécie e de aparência um tanto semelhante com que substituí-lo.

2. guilherme braga
Conquanto eu pudesse, assim, esclarecer a meu juízo, se não de todo à minha consciência, o estranho fato detalhado, este não deixou de causar uma impressão profunda em minha imaginação. Por meses o fantasma do gato me assombrou; e, durante esse período, insinuou-se em meu espírito um sentimento difuso que parecia, mas não era, remorso. Cheguei ao ponto de lamentar a perda do animal e pus-me a procurar, nos estabelecimentos infames que eu então frequentava, um outro da mesma espécie e de aparência semelhante, para que assumisse o seu lugar.

3. brenno silveira
Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.

4. pietro nassetti
se bem que isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente acontecimento que acabo de narrar não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse intervalo de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei realmente a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então freqüentava, outro gato da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.


III.
Finally, I hit upon what I considered a far better expedient than either of these. I determined to wall it up in the cellar — as the monks of the middle ages are recorded to have walled up their victims.
For a purpose such as this the cellar was admirably adapted. Its walls were loosely constructed, and had lately been plastered throughout with a rough plaster, which the dampness of the atmosphere had prevented from hardening. Moreover, in one of the walls was a projection, caused by a false chimney, or fire-place, that had been filled, or walled up, and made to resemble the rest of the cellar. I made no doubt that I could readily displace the bricks at this point, insert the corpse, and wall the whole up as before, so that no eye could detect any thing suspicious.


1. oscar mendes com milton amado
Finalmente, detive-me no que considerei um expediente bem melhor que qualquer um destes. Decidi emparedá-lo na adega, como se diz que os monges da Idade Média emparedavam suas vítimas.
Para um objetivo semelhante estava a adega bem adaptada. Suas paredes eram de construção descuidada e tinham sido ultimamente recobertas, por completo, de um reboco grosseiro, cujo endurecimento a umidade da atmosfera impedira. Além disso, em uma das paredes havia uma saliência causada por uma falsa chaminé ou lareira que fora tapada para não se diferençar do resto da adega. Não tive dúvidas de que poderia prontamente retirar os tijolos naquele ponto, introduzir o cadáver e emparedar tudo como antes, de modo que olhar algum pudesse descobrir qualquer coisa suspeita.

2. guilherme braga
Por fim, decidi valer-me de um expediente que julguei muito mais apropriado que qualquer um desses. Resolvi emparedar o corpo no porão – como os monges da Idade Média emparedavam suas vítimas, segundo atestam documentos.
O porão prestava-se bem a esse fim. As paredes não eram muito sólidas e recentemente haviam sido recobertas com um reboco grosseiro, que a umidade das paredes não deixara secar. Ademais, em uma das paredes via-se uma projeção, motivada por uma falsa chaminé, ou lareira, que fora fechada de modo a confundir-se com o restante da estrutura. Não tive dúvidas de que poderia deslocar os tijolos da projeção, depositar o corpo lá dentro e cimentar tudo outra vez, de modo que ninguém detectasse nenhum elemento suspeito.

3. brenno silveira
Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.
Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita.

4. pietro nassetti
Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.
Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito esmero e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. De resto, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tampada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia sem nenhuma dificuldade retirar os tijolos naquele lugar, colocar o corpo e deixá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse avistar nada que despertasse suspeita.

imagem: http://copycat.lidonet.com

07/06/2009

toy baby grand

06/06/2009

mutatis mutandis

anos atrás, a editora rideel moveu um processo contra a w. brasil publicidade. motivo: a w. brasil, em uma campanha publicitária de aproximação cultural entre o brasil e o chile, utilizou uma parte de um mapa político da américa do sul que fazia parte de um atlas publicado pela rideel, sem mencionar de quem era a autoria do mapa.

o juiz deu ganho de causa à rideel como vítima de contrafação e aos dois autores do mapa como vítimas de lesão a seus direitos morais.

fico imaginando: se a rideel, como detentora dos direitos de tradução das obras de seu catálogo, descobrisse que alguma delas foi integralmente copiada e publicada por outra editora, mas com a autoria da tradução atribuída a outrem, o que será que ela faria?

imagem: o globo de behaim, 1492

05/06/2009

cachimbos lusitanos

achei muito cômica a história do blaze que virou star na versão rideel-burattiana do conto do sherlock holmes.

também achei muito engraçada a nota de tradução que aparece no mesmo conto:


cachimbo bryer, "geralmente conhecido em portugal pela designação francesa de 'bruyère': raiz de roseira brava".

ah, ok - e no brasil, se mal lhe pergunte?

referência: conan doyle, o silver star, in a face amarela e outras histórias, trad. heloísa da graça buratti. são paulo, editora rideel, 2002, p. 16.
imagem: magritte

ahn?

heloísa da graça buratti, ao traduzir silver blaze de conan doyle, na coleção sherlock holmes da editora rideel, batizou essa aventura sherlockiana de o silver star.

vá lá que outros tradutores (hamílcar de garcia, joaquim machado) tenham escolhido chamar o cavalo - e o conto - de estrela de prata.

agora, o silver blaze do original virar silver star em português é algo que ultrapassa meu entendimento.

imagem: capa

04/06/2009

a luta pelo direito, pillares

prosseguindo na luta pelo direito, de rudolf von ihering, veja um breve apanhado das traduções, uma canja e o cotejo tavares bastos x heloísa da graça burati (rideel). agora em 2009 a editora pillares decidiu lançar sua edição dessa obra, com tradução em nome de ivo de paula e o famoso prefácio de clóvis beviláqua.

no brasil, uma obra passa a fazer parte do patrimônio cultural da sociedade apenas setenta anos após a morte de seu autor. acho uma barbaridade de tempo, mas é assim que é. com isso, o famoso prefácio de clóvis beviláqua (1859-1944) a a luta pelo direito ainda não está em domínio público, e só é possível reproduzi-lo para fins comerciais com a autorização de seus sucessores.

é o que imagino que a pillares tenha feito - isto é, obtido a licença da família de beviláqua para publicar seu prefácio. o difícil de entender é a razão pela qual a tradução pela pillares, sendo idêntica à de josé tavares bastos, aparece em nome do jurista ivo de paula, mestre em leis e autor de várias obras jurídicas.

1. josé tavares bastos
CAPÍTULO I
Introdução
O direito é uma idéia prática, isto é, designa um fim, e, como toda a idéia de tendência, é essencialmente dupla, porque contém em si uma antítese, o fim e o meio.
Não é suficiente investigar o fim, deve-se também saber o caminho que a ele conduz.
Eis duas questões para as quais o direito deve sempre procurar uma solução, podendo-se dizer que o direito não é, no seu conjunto e em cada uma das suas divisões, mais que uma resposta constante a essa dupla questão.
Não há um só título, por exemplo o da propriedade ou o das obrigações, em que a definição não seja imprescindivelmente dupla e nos diga o fim que propõe e os meios para atingi-lo. Mas o meio, por mais variado que seja, reduz-se sempre à luta contra a injustiça.
A idéia do direito encerra uma antítese que se origina nesta idéia, da qual jamais se pode, absolutamente, separar: a luta e a paz; a paz é o termo do direito, a luta é o meio de obtê-lo.

2. ivo de paula
CAPÍTULO I
Introdução
O Direito é uma idéia prática, isto é, designa um fim, e, como toda a idéia de tendência, é essencialmente dupla, porque contém em si uma antítese, o fim e o meio.
Não é suficiente investigar o fim, deve-se também saber o caminho que a ele conduz.
Eis duas questões para as quais o Direito deve sempre procurar uma solução, podendo-se dizer que o direito não é, no seu conjunto e em cada uma das suas divisões, mais que uma resposta constante a essa dupla questão.
Não há um só título, por exemplo o da propriedade ou o das obrigações, em que a definição [] seja imprescindivelmente dupla e nos diga o fim que propõe e os meios para atingi-lo. Mas o meio, por mais variado que seja, reduz-se sempre a uma luta contra a injustiça.
A ideia do Direito encerra uma antítese que se origina desta ideia, da qual jamais se pode, absolutamente, separar: a luta e a paz; a paz é o termo do direito, a luta é o meio de obtê-lo.

1. josé tavares bastos
Poder-se-á objetar que a luta e a discórdia são precisamente o que o direito se propõe evitar, porquanto semelhante estado de coisas implica uma perturbação, uma negação da ordem legal, e não uma condição necessária da sua existência.
A objeção seria procedente se se tratasse da luta da injustiça contra o direito; ao contrário, trata-se aqui da luta do direito contra a injustiça.
Se, neste caso, o direito não lutasse, isto é, se não resistisse vigorosamente contra ela, renegar-se-ia a si mesmo.
Esta luta perdurará tanto como o mundo, porque o direito terá de precaver-se sempre contra os ataques da injustiça.
A luta não é, pois, um elemento estranho ao direito, mas sim uma parte integrante de sua natureza e uma condição de sua idéia.
Todo direito no mundo foi adquirido pela luta; esses princípios de direito que estão hoje em vigor foi indispensável impô-los pela luta àqueles que não os aceitavam; assim, todo o direito, tanto o de um povo, como o de um indivíduo, pressupõe que estão o indivíduo e o povo dispostos a defendê-lo.

2. ivo de paula
Poder-se-á objetar que a luta e a discórdia são precisamente o que o Direito se propõe a evitar, porquanto semelhante estado de coisas implica uma perturbação, uma negação da ordem legal, e não uma condição necessária de sua existência.
A objeção seria procedente se se tratasse da luta da injustiça contra o Direito; ao contrário, trata-se aqui da luta do Direito contra a injustiça. Se, neste caso, o Direito não lutasse, isto é, se não resistisse vigorosamente contra ela, renegar-se-ia a si mesmo.
Esta luta perdurará tanto quanto o mundo, porque o Direito terá de precaver-se sempre contra os ataques da injustiça.
A luta não é, pois, um elemento estranho ao Direito, mas sim uma parte integrante de sua natureza e uma condição de sua idéia.
Todo direito no mundo foi adquirido pela luta; esses princípios de Direito que estão hoje em vigor têm sido indispensáveis na [sic] luta contra aqueles que não os aceitavam; assim, todo o direito, tanto o de um povo, como o de um indivíduo, pressupõe que estão o indivíduo e o povo dispostos a defendê-lo.

1. josé tavares bastos
O direito não é uma idéia lógica, porém idéia de força; é a razão porque a justiça, que sustenta em uma das mãos a balança em que pesa o direito, empunha na outra a espada que serve para fazê-lo valer.
A espada sem a balança é a força bruta, a balança sem a espada é o direito impotente; completam-se mutuamente: e, na realidade, o direito só reina quando a força dispendida pela justiça para empunhar a espada corresponde à habilidade que emprega em manejar a balança.

2. ivo de paula
O Direito não é uma ideia lógica, porém uma ideia de força; é a razão porque a justiça, que sustenta em uma das mãos a balança em que pesa o Direito, sustenta na outra a espada que serve para fazê-lo valer.
A espada sem a balança é a força bruta, e a balança sem a espada é o direito impotente; completam-se mutuamente; e, na realidade, o direito só reina quando a força despendida pela justiça para empunhar a espada corresponde à habilidade que emprega em manejar a balança.

1. josé tavares bastos
Observa-se facilmente que a nossa teoria se ocupa muito mais com a balança do que com a espada da justiça.
A estreiteza do ponto de vista puramente científico com que se encara o direito e que é onde se ostenta menos o seu lado real, como idéia de força, do que pelo seu lado racional, como um conjunto de princípios abstratos, tem dado, julgamos, a todo esse modo de encarar a questão, uma feição que não está muito em harmonia com a amarga realidade. A defesa da nossa tese o provará.
O direito contém, como é sabido, um duplo sentido; — o sentido objetivo que nos oferece o conjunto de princípios de direito em vigor; a ordem legal da vida, e o sentido subjetivo, que é, por assim dizer, — o precipitado da regra abstrata no direito concreto da pessoa.
Nessas duas direções o direito depara com uma resistência que deve vencer, e, em ambos os casos, deve triunfar ou manter a luta.

2. ivo de paula
Observa-se facilmente que a nossa teoria se ocupa muito mais com a balança do que com a espada da justiça.
A estreiteza do ponto de vista puramente científico com que se encara o direito, e que é onde se ostenta menos o seu lado real, como ideia de força, do que pelo seu lado racional, como um conjunto de princípios abstratos, tem dado, julgamos, a todo esse modo de encarar a questão, uma feição que não está [] em harmonia com a amarga realidade. A defesa da nossa tese o provará.
O direito contém, como é sabido, um duplo sentido: o sentido objetivo que nos oferece o conjunto de princípios de direito em vigor; a ordem legal da vida; e o sentido subjetivo, que é, por assim dizer, o precipitado da regra abstrata no direito concreto da pessoa.
Nessas duas direções o direito depara com uma resistência que deve vencer, e, em ambos os casos, deve triunfar ou manter a luta.

1. josé tavares bastos
E é deste desenvolvimento interno que se derivam todos os princípios de direito, que os arestos análogos e igualmente motivados interpõem pouco a pouco nas relações jurídicas, como as abstrações, os corolários, as regras que a ciência aufere do direito existente, por meio do raciocínio, e põe logo em evidência.
Porém, o poder destes dois agentes, as relações e a ciência, é limitado; pode dirigir o movimento nos limites fixados pelo direito existente, impeli-lo, mas não lhes é dado romper os diques que impedem as águas de tomar um novo curso.
Somente a lei, isto é, a ação voluntária e determinada do poder público, é que tem esta força, e não por acaso, mas em virtude de uma necessidade, que está na natureza íntima do direito, porquanto todas as reformas introduzidas no processo e no direito positivo se originam das leis.
Certo que pode acontecer que uma modificação feita pela lei no direito existente, seja puramente abstrata, que sua influência esteja limitada a esse mesmo direito, sem se notar no domínio das relações concretas se foram estabelecidas sobre a base do direito até então em vigor; neste caso, o fato é como uma reparação puramente mecânica, que consiste em substituir um para­fuso ou uma roda qualquer usada por outra melhor. Muitas vezes acontece que uma modificação não se pode operar sem ferir ou lesar profundamente direitos existentes e interesses privados: porque os interesses de milhares de indivíduos e de classes inteiras estão de tal modo identificados com o direito no curso dos tempos, que não é possível modificar aquele sem sentirem vivamente tais interesses.
Se colocarmos então o princípio do direito ao lado do privilégio, declara-se por esse fato só a guerra a todos os interesses, tenta-se extirpar um pólipo que agarra com todos os seus tentáculos.
Está no instinto da conservação pessoal que os interesses ameaçados a mais violenta resistência oponham a toda a tentativa de tal natureza, dando vida a uma luta que, como qualquer outra, não será resolvida pelos raciocínios, mas pelas forças nela empenhadas, produzindo freqüentemente o mesmo resultado que o paralelograma das forças: o desvio das linhas retas componentes em uma diagonal.

2. ivo de paula
E é deste desenvolvimento interno que [] derivam todos os princípios de direito, que os arestos análogos e igualmente motivados interpõem pouco a pouco nas relações jurídicas, como as abstrações, os corolários, as regras que a ciência aufere do direito existente, por meio do raciocínio, e põe logo em evidência.
Porém, o poder destes dois agentes, as relações e a ciência, é limitado; pode dirigir o movimento nos limites fixados pelo direito existente, impeli-lo, mas não lhe[] é dado romper os diques que impedem as águas de tomarem um novo curso.
Somente a lei, isto é, a ação voluntária e determinada do poder público, é que tem essa força, e não por acaso, mas em virtude de uma necessidade, que está na natureza íntima do direito, porquanto todas as reformas introduzidas no processo e no direito positivo se originam das leis.
Certo que pode acontecer que uma modificação feita pela lei no direito existente seja puramente abstrata, que sua influência esteja limitada a esse mesmo direito, sem se notar no domínio das relações concretas se foram estabelecidas sobre a base do direito até então em vigor; neste caso, o fato é como uma reparação puramente mecânica, que consiste em substituir um para­fuso ou uma roda qualquer usada por outra melhor. Muitas vezes acontece que uma modificação não [] pode operar sem ferir ou lesar profundamente direitos existentes e interesses privados; porque os interesses de milhares de indivíduos e de classes inteiras estão de tal modo identificados com o direito no curso dos tempos, que não é possível modificar aquele sem sentirem vivamente tais interesses.
Se colocarmos, então, o princípio do direito ao lado do privilégio, declara-se por esse fato só a guerra a todos os interesses, tenta-se extirpar um pólipo que agarra com todos os seus tentáculos.
Está no instinto da conservação pessoal que os interesses ameaçados a mais violenta resistência oponham a toda [] tentativa de tal natureza, dando vida a uma luta que, como qualquer outra, não será resolvida pelos raciocínios, mas pelas forças nela empenhadas, produzindo frequentemente o mesmo resultado que o paralelogramo das forças: o desvio das linhas retas componentes em uma diagonal.

obs.: a edição da pillares inicia com "direito" em maiúscula, e depois vai variando, até na mesma frase.

imagens: capa da ed. pillares; www.e-cartz.biz

destemperos

raquel do jane austen em português deu um toque, fui lá ver.

a ridicularia do mês (ou do ano?):
Leticia Wierzchowski processa este blog (I)
(milton ribeiro)