26 de mar de 2015

"o submundo da tradução"?!

divirto-me e até tomo como exercício muito salutar procurar erros meus de tradução. não faltam. às vezes publico em algum de meus blogues. afora isso, acho meio cabotino dar uma de agenor soares de moura ou de agripino grieco e ficar apontando erro dos outros. 
assim, a única coisa que me pareceu de interesse num recente artigo da revista cândido, aqui, foi a confirmação da nonchalance de jorge luis borges em emprestar seu nome a traduções alheias e a hipótese (apenas levemente acenada) de que cecilia meirelles teria feito sua tradução de orlando, de virginia woolf, a partir do espanhol. 
bom, fui conferir e, pelo que constatei, o comentário do articulista nem procede: o mouro inicialmente citado aparece apenas como "moor". apenas dois parágrafos adiante é que o narrador de orlando fala em "vast pagan". borges ou quem por ele usou respectivamente "moro" e "vasto infiel"; cecília meirelles usou "mouro" e "vasto infiel", ambos muito fiéis (no pun intended) ao original. em suma, bola fora do articulista, aparentemente.
(lição do dia para aluninhos de estudos de tradução: é assim que rapidamente se excluem falsas hipóteses; basta checar as fontes.)

21 de mar de 2015

o decameron

aí você lê um vasto de um catatau de um livro, de uma fluência muito simpática, algo que parece não ter maiores segredos, algo que você acha plenamente normal ter ao seu alcance e à sua disposição, a coisa mais natural do mundo, nada mais que obrigação dos céus e das editoras de te entregar na mão. afinal, pra que serve esse tal de tradutor se não é pra te dar textos legais e palatáveis? estão aí pra isso mesmo, ué, que que tem de mais?

então leia o artigo da tradutora, aqui. aí talvez fique mais claro o que é a tradução como um artesanato realmente primoroso, coisa raríssima. (para além da excelência prática, devo dizer que, entre os profissionais do ofício, ivone benedetti é hoje em dia, a meu ver, quem provavelmente melhor reflete sobre essa nossa atividade, com incrível agudeza e bagagem conceitual.)



17 de mar de 2015

kafka no brasil


a tradterm 24 publica meu estudo "kafka no brasil (1946-1979)", aqui.


2 de mar de 2015

traduzindo o pequeno príncipe

a quem se interessar, iniciei um pequeno blog de acompanhamento de tradução, agora de le petit prince, de saint-exupéry. chama-se traduzindo o pequeno príncipe e está aqui.

26 de fev de 2015

skoob e créditos de tradução

reproduzo um aviso importante:
Olá, Denise,

Sabe o Skoob, a rede social mais usada por leitores no país? Além de ser rede social, ela se tornou uma IMENSA base de dados de obras publicadas no Brasil. Misteriosamente, quando acrescentamos um livro novo, não há mais o campo para preenchermos com o nome de quem traduziu. A mesma coisa acontece quando pedimos para editar o cadastro de algum livro que já está na base de dados. 
Já falei com eles no tuíter e por email, questionando o problema, mas não tive retorno. Achei um absurdo! Acompanho seu blog há muitos anos e sei que você tem voz ativa, lembro quando a Folha começou a colocar o nome dos tradutores nas resenhas depois de um movimento do blog. Será que você poderia falar com eles de alguma maneira?  
Um abraço, Luis Sérgio Jannini 

em meu entender, está-se ferindo um artigo da lei de direitos autorais, que determina que citações e transcrições de trechos venham necessariamente acompanhadas do nome do autor da obra. como a própria LDA especifica, o tradutor é, a igual título e para todos os fins, autor (no caso, autor de uma obra derivada, a obra de tradução).

constatei que o site do skoob disponibiliza o primeiro capítulo de diversas obras, via site das respectivas editoras, o que, a meu ver, se caracteriza como citação referida na LDA. ao não nomear o autor da tradução, parece-me estar violando flagrantemente o direito moral que lhe é garantido por lei.

seria bom que o skoob revisse sua política para seu cadastramento de obras traduzidas, de modo a cumprir devidamente o que lhe compete em sua função social.

[isso para nem comentarmos o desserviço que o skoob, sonegando uma informação relevante, assim presta aos leitores e ao amadurecimento de uma consciência cultural no brasil, que reconheça claramente seus profundos vínculos com a palavra traduzida.]


3 de fev de 2015

belas infiéis

saiu mais um número da revista belas infiéis, do programa de pós-graduação em estudos de tradução da unb. disponível aqui.

sua seção "arquivos" traz o levantamento das traduções brasileiras de aleksandr púchkin, de 1933 a 2013, aqui.


2 de fev de 2015

literatura holandesa traduzida no brasil

daniel dago publica um levantamento atualizado das traduções de obras literárias holandesas, aqui.

1 de fev de 2015

manuel bandeira tradutor

uma ótima listagem das traduções feitas por manuel bandeira, que consta na "bibliografia do autor",  in poesia completa e prosa, nova aguilar, 2009, citada por aglaé maria araújo fernandes, poemas traduzidos do francês ao português por manuel bandeira, em sua tese de doutorado, ufsc, 2014 (pp. 33-36), disponível aqui.

A.    Poesia e teatro em verso:
• Poemas traduzidos, Rio de Janeiro: Revista Acadêmica, 1945; 2. ed. aumentada. Porto Alegre: Livraria Globo, 1948; 3. ed. revista e aumentada. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956; 4. ed., 1976; Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1966 (a partir de 1966, com sucessivas reedições pela Ediouro e nas reedições e reimpressões de Estrela da vida inteira); Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009.  
• Maria Stuart, de Schiller. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1955; Rio de Janeiro: Tecnoprint, [197-]; São Paulo: Abril Cultural, 1983 (também em Poesia e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1958, verso1).
• Auto Sacramental do Divino Narciso, de Soror Juana Inés de la Cruz. In: BANDEIRA, Manuel. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1958, verso 1 ( 2. ed. em Estrela da tarde, 1963).
• Macbeth, de Shakespeare. Rio de Janeiro: José Olympio, 1961. São Paulo: Brasiliense, 1989 (também em Poesia e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1958, verso 1, e com sucessivas reedições pela Brasiliense).
• Mireia, de Frédéric Mistral. Rio de Janeiro: Delta, 1962. • Prometeu e Epimeteu, de Carl Spitteler. Rio de Janeiro: Delta, 1963. 2. ed. Rio de Janeiro: Ópera Mundi, 1971.
• Rubaiyat, de Omar Khayyan. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, 1965 (com sucessivas reedições e reimpressões).
• Poesias escolhidas, de Juan Ramón Jiménez. In: JIMÉNEZ, Juan Ramón. Platero e eu. Rio de Janeiro : Delta, 1969.
• Alguns poemas traduzidos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.

B.     Teatro:
• O fazedor de chuva, N. Richard Nash (1957, inédita em livro).
• Colóquio-Sinfonieta, de Jean Tardieu (1958, inédita em livro).
• A casamenteira, de Thornton Wilder (1959, inédita em livro).
• D. João Tenório, de José Zorilla. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunais, 1960.
• Torso arcaico de Apolo, de Rainer Maria Rilke. Salvador/ Dinamene, [197-].
• Pena ela ser o que é, de John Ford (1964, inédita em livro).
• O advogado do diabo, de Morris West (1964, inédita em livro).
• Juno e o pavão, de Sean O’Casey. São Paulo: Brasiliense, 1965.
• Os verdes campos do Éden, de Anônio Gala. Petrópolis: Vozes, 1965.
• A fogueira feliz, de J. N. Descalzo. Petrópolis: Vozes, 1965.
• Edith Stein na câmara de gás, de Gabriel Cacho. Petrópolis: Vozes, 1965.
• A máquina infernal, de Jean Cocteau. Petrópolis: Vozes, 1967.
• O círculo de giz caucasiano, de Bertold Brecht. São Paulo: Cosac Naify, 2002.

C.      Romance:
• O Calendário, de Edgard Wallace. São Paulo: Nacional, 1934.
• O tesouro de Tarzan, de Edgard Rice Borroughs. São Paulo: Nacional, 1934 (com sucessivas reedições).
• Nômades do Norte, de James Oliver Curwood. São Paulo: Nacional, 1935.
• Tudo se paga, de Elinor Glyn. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1935 (com sucessivas reedições).
• Mulher de brio, de Michael Arlen. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, [19--].
• Minha cama não foi de rosas: diário de uma mulher perdida, de Marjorie Erskine Smith.* Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936.
• Aventuras maravilhosas do Capitão Corcoran, de Alfred Assolant. São Paulo: Nacional, 1936 (com sucessivas reedições).
• Gengis-Khan: romance do século XXI, de Hans Dominik. São Paulo: Nacional, 1936.
• O túnel transatlântico, de Bernhard Kellermann. São Paulo: Nacional, 1938.
• Seu único amor, de Elino Glyn. São Paulo: Nacional, 1948 (com sucessivas reedições).
• A prisioneira, de Marcel Proust. Porto Alegre: Globo, 1951. Em coautoria com Lourdes Sousa de Alencar (com sucessivas reedições).

D.    Biografia e ensaio:
• A educação do caráter, de Jean de Vignes Rouges. São Paulo: Nacional, 1936.
• A vida de Shelley, de André Maurois. São Paulo: Nacional, 1936 (com sucessivas reedições e reimpressões, atualmente pela Record com o título Ariel ou a vida de Shelley).
• A vida secreta de d’Annunzio, de Tom Antongine. São Paulo: Nacional, 1939.
• As grandes cartas da história, desde a Antiguidade até os nossos dias, de M. Lincoln Schuster. São Paulo: Nacional, 1942.
• Um espírito que se achou a si mesmo, de Clifford Whittingham Beers. São Paulo: Nacional, 1942 (com sucessivas reedições e reimpressões).
• A aversão sexual no casamento, de Theodor H. van de Velde. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1953.
• Reflexões sobre os Estados Unidos, de Jacques Maritain. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1959.

* aqui, no levantamento citado pela pesquisadora, o autor da obra consta como orson welles, a partir das iniciais do colaborador de erskine, que assinou apenas como o.w., e que, ao que parece, deu a redação às memórias compiladas pela autora em sua vida de prostituição. graças a rosa freire d'aguiar, foi possível rastrear a autoria correta dessa autobiografia.


aqui um artigo interessante de xosé manuel dasilva, "manuel bandeira, traductor de poetas en español al portugués de brasil".


19 de nov de 2014

recomendação

muito legal, muito útil e bem feito o blog e.m. forster brasil, aqui. traz, entre outras coisas, um levantamento das traduções de forster entre nós. para fãs, pesquisadores e curiosos.

7 de nov de 2014

josé maria machado "tradutor"

se, em 1945, a intenção da brasiliense ao usar o nome de jorge amado - com seu conhecimento e provavelmente até com seu vivo empenho militante - era atrair os leitores com seu já famoso timbre de esquerda; se, no decorrer dos anos 1970, a intenção da record ao usar o nome de nelson rodrigues - com seu conhecimento e sabidamente recebendo "um dinheirinho" por isso - era atrair os leitores com seu já famoso timbre de "pornografia", por outro lado o caso do clube do livro, usando desde 1946 até 1988 o nome de josé maria machado, era mais, digamos, básico: simples economia e conveniência.

josé maria machado, correligionário integralista de mário graciotti, o fundador e proprietário do clube do livro, consta como pretenso tradutor de:

1944 (1987), gustave flaubert, madame bovary
1945 (1988), edgar allan poe, histórias extraordinárias 
1946, oscar wilde, o retrato de dorian gray (“j. machado”)
1947 (1988), honoré de balzac, mulher de trinta anos
1948, emily brontë, o morro dos ventos uivantes
1951, robert louis stevenson, o médico e o monstro
1952, octave feuillet, romance de um jovem pobre
1952, george sand, o charco do diabo
1952, oscar wilde, de profundis e uma mulher sem importância
1953, walter scott, ivanhoé
1954, mark twain, as aventuras de tom sawyer 
1954, charles dickens, oliver twist
1955, cyrano de bergerac, viagem aos impérios do sol e da lua
1955, flavia steno, apaixonadamente
1956, alexandre dumas, o colar de veludo 
1956, charles dickens, uma aventura de natal (com tito marcondes)
1956, jacques futrelle, a máquina pensante
1956, jonathan swift, as viagens de gulliver
1956, théophile de gautier, a paixão de militona
1956, edgar allan poe, thingum bob
1957, george sand, a pequena fadette
1957, herman melville, moby dick
1958, charlotte brontë, o professor 
1958, victor hugo, os miseráveis (condensada, 516 pp.)
1961, alexandre dumas, a loura huberta 
1961, françois rabelais, o gigante gargântua
1961, mark twain, as aventuras de huckleberry finn
1962, fenimore cooper, o último dos moicanos
1963, e. p. oppenheim, a torre 
1963, ivã turgueniev, o passaporte
1963, oscar wilde, o jovem rei
1965, prosper mérimée, a serpente
1968, summer lincoln, a cicatriz
1969, charles dickens, tempos difíceis
1969, leon tolstoi, o diabo branco
1972, walter scott, a última torre
1974, alexandre dumas, homem de guadalupe
1976, honoré de balzac, uma paixão no deserto (com augusto dantas)
1977, anne brontë, a preceptora
1983, honoré de balzac, o renegado


obs.: os dois primeiros e o quarto títulos saíram como tradução anônima - apenas em data posterior, assinalada entre parênteses, surge o nome de josé maria machado. já o retrato de dorian gray foi a primeira obra trazendo a menção "traduzido especialmente para o clube do livro", que depois se tornaria habitual na casa. 

jorge amado "tradutor"

em 1945, recém-fundada a editora brasiliense, tendo à frente arthur neves e caio prado jr., jorge amado "emprestou" seu nome a uma série de traduções da coleção "ontem e hoje". são elas:



cheng-tcheng, minha mãe
naoshi tokunaga, rua sem sol
alexander nevierof, a cidade da fartura
boris lavrenev, vento
n. ognev, o diário de costia riabtsev
n. virta, solidão
cheng-tcheng, minha mãe e eu através da revolução chinesa
vsevolod ivanov, o trem blindado n. 14-69
constantino fedin, o sanatório do doutor klebe
ludwig renn, antes do amanhecer
isaac babel, cavalaria vermelha
lavrenev, o sétimo camarada


espoliados

estas são algumas das pessoas que tiveram suas traduções, notas, introduções surripiadas ao longo dos anos e publicadas em edições espúrias de editoras inescrupulosas. infelizmente, uma lista completa haveria de ser bem mais extensa:

a. ambrósio de pina, s. j.
adolfo casais monteiro
alberto ferreira
almiro rolmes barbosa
alsácia fontes machado
álvaro de pinto aguiar
álvaro ribeiro
antónio ferreira marques
antonio piccarolo
antônio pinto de carvalho
araújo nabuco
artur morão
bandeira duarte
bento prado jr.
"blasio demétrio" (pseud. de fúlvio abramo)*
boris schnaiderman
brenno silveira
bruno da ponte
cabral do nascimento
carlos chaves
carlos graieb
carlos porto carreiro
casimiro fernandes
christina amélia assis de carvalho
costa neves
denise bottmann
e. jacy monteiro
eça de queiroz
edgard cavalheiro
eglantina santi
erwin theodor rosenthal
eudoro de souza
eugênio amado
éverton ralph
felix sanchez
fernando de aguiar
fernando carlos de almeida cunha medeiros
floriano de souza fernandes
francisco inácio peixoto
frederico ozanam pessoa de barros
galeão coutinho
georges selzoff
gerd bornheim
godofredo rangel
guilherme de almeida
gulnara lobato
hebe caletti marenco
helga hoock quadrado
henrique lopes de mendonça
henrique marques ("pandemónio")
hernâni donato
ieda moriya
isabel sequeira
ivan emilianovitch schawirin
j. oliveira santos, s.j.
jacó guinsburg
jaime bruna
jamil almansur haddad
joão lopes alves
joão ângelo oliva neto
joão baptista de mello e souza
joão paulo monteiro
joaquim dá mesquita paul
joaquim machado
jorge camacho
josé duarte
josé tavares bastos
josé augusto drummond
josé laurênio de mello
josé marcos mariani de macedo
josé mendes de souza
juarez guimarães
júlio de matos ibiapina
leila villas boas gouvêa
leonel vallandro
leonidas hegenberg
leonor de aguiar
líbero rangel de andrade
líbero rangel de tarso
ligia junqueira smith
liliana rombert soeiro
lívio xavier
lourival de queiroz henkel
lúcia miguel-pereira
lúcio cardoso
luís de andrade
luís leitão
luísa derouet
luiz costa lima
luiz macedo
manuel dias duarte
manuel odorico mendes
marcílio marques moreira
marcos santarrita
margarida garrido esteves
maria beatriz nizza da silva
maria francisca ferreira de lima
maria helena rocha pereira
maria irene szmrecsányi
maria isabel gonçalves tomás
mário quintana
mécia mouzinho de albuquerque
milton amado
moacyr werneck de castro
modesto carone
monteiro lobato
"n. meira"
natália nunes
neide smolka
octany silveira da mota
octavio mendes cajado
olinda gomes fernandes
orlando vitorino
oscar mendes
"paulo m. oliveira" (pseud. de aristides lobo)*
paulo quintela
paulo rónai
pedro josé leal
péricles eugênio da silva ramos
raul de polillo
ricardo iglésias
rodrigo richter (provável pseudônimo)
ruth guimarães
sarmento de beires
sérgio milliet
silvio deutsch
silvio meira
sodré viana
suely bastos
tamás szmrecsányi
tito marcondes
tomé santos júnior
vera pedroso
vidal de oliveira
waltensir dutra
wilson lousada
wilson velloso
wladimir gomide
ymaly salem chammas

"blasio demétrio" era pseudônimo de fúlvio abramo, que traduziu vida nova na prisão, "juntamente com um outro preso", a saber, aristides lobo, que usava o pseudônimo de "paulo m. oliveira" - ver aqui

6 de nov de 2014

nelson rodrigues "tradutor"



Traduções falsamente creditadas a Nelson Rodrigues (editora Record, anos 70)

Harold Robbins:
79 Park Avenue
A mulher só
Escândalo na sociedade
Ninguém é de ninguém
O garanhão
O indomável
O machão
O pirata
Os herdeiros
Os implacáveis
Os insaciáveis
Os libertinos
Os sonhos morrem primeiro
Stiletto
Uma prece para Danny Fischer

Frank G. Slaughter:
Consciência de médico
Dilema de médico
Médico astronauta
Médico e amante
Médicos em conflito
Missão de médico
Mulheres de médicos
O fim da viagem
Um médico diferente

Charles Webb:
A primeira noite de um homem

Henry Sutton:
A exibicionista

Hugh Atkinson:
Os jogos proibidos

Morton Cooper:
O rei devasso

Polly Adler:
Uma certa casa suspeita

Xaviera Hollander:
Xaviera

sobre a história dessa prática adotada na editora record, vide aqui.


"k. d'avellar"

"k. d'avellar" (ou ainda k. de avelar e r. d'avellar) era um nome de fantasia que a editora h. garnier usou em vários plágios de tradução publicados pela casa, a partir de c.1906 até 1911. quando a h.garnier se transformou na livraria garnier, a partir de 1912, esses títulos continuaram a ser publicados pela nova empresa, alguns deles até a década de 1920.



K. D’AVELLAR (K. DE AVELAR; R. D’AVELLAR) – H. GARNIER

Walter Scott:
Quintino Durward, 1906
A prisão d’Edimburgo, 1906
Guy Mannering, ou, O astrólogo, 1908
Woodstock, 1909
O mosteiro, 1910
Anna de Geierstein, ou, A donzela do nevoeiro, 1911
Os desposados: novela tirada da historia das Cruzadas, 1911
(7 obras num total de 14 volumes publicados pela H.Garnier; os demais, anônimos)

Balzac:
Um conchego de solteirão (reaparecendo em 1968 na Pongetti, como tradução "revista por Marques Rebelo" – Beldemónio, 1887)
Illusões perdidas, c. 1908
História dos treze
Um começo de vida, 1909
A musa do departamento, 1910
A última encarnação de Vautrin, 1911

Dickens:
Aventuras do sr. Pickwick (Henrique Lopes de Mendonça, 1897)
Scenas da vida inglesa, 1908

Chateaubriand:
Atala; Renato; Derradeiro Abencerrage, 1906

Abbé Prévost:
História de Manon Lescaut e do cavalleiro Des Grieux, 1906


sobre a h. garnier, ver aqui

ainda a bibliotheca de auctores russos

que incrível! eu sabia, graças a uma informação do historiador dainis karepovs, que fúlvio abramo havia traduzido alguma coisa com georges selzoff, para sua "bibliotheca de auctores russos". mas não sabíamos, nem ele, nem eu, que obra teria sido.

menciono o fato, e a obscuridade que o rodeia, no artigo "georges selzoff: uma crônica", que saiu em tradução em revista, disponível aqui.

recentemente, a neta de fúlvio abramo, paula abramo, enviou gentilmente a mim uma foto do material de trabalho: a tradução a quatro mãos se referia, afinal, ao conto de alexandre kúprin, "o capitão rybnikoff".

interessante notar que essa tradução já em 1930 era anunciada no prefácio ao primeiro livro publicado na "bibliotheca" selzoffiana, qual seja, konovaloff, de maxim górki. dizia o editor ao final de seu introito: "É assim que já pusemos, sob uma nova luz, algumas das mais commovedoras novelas de Gorki e trabalhamos, febrilmente, na publicação, para muito breve, de traducções de Ivan Turguenieff, Leonide Andreieff, Alexandre Kuprin e Anton Tchecoff". todavia, tal como ocorreu com outras obras anunciadas pela casa, esse texto de kúprin nunca veio a ser publicado.



fica assim confirmada a informação de dainis karepovs, elucidada a identidade do texto e esclarecido mais um pequeno mistério da pioneiríssima iniciativa de georges selzoff, em sua divulgação da literatura russa traduzida diretamente do original.

5 de nov de 2014

jekyll e hyde no brasil

muito interessante o levantamento de ana júlia perrotti garcia: "as muitas traduções de jekyll e hyde no brasil", aqui.

31 de out de 2014

o desplante da h. garnier


mentira da grossa e da feia. é cópia literal e integral da tradução de mécia mousinho de albuquerque. vide os posts nas tags "h. garnier", "edgar allan poe" e "pesquisa 'poe no brasil'". agradeço a paulo soriano a gentilíssima remessa desse anúncio publicado na gazeta de notícias em 4 de dezembro de 1903.

24 de out de 2014

Plágio, uma Marca de Nascença da Tradução no Brasil

opa, saiu a programação do citrat - para quem estiver em são paulo, dia 7, na usp, e eu lá, toda exibida, ao lado de um pessoal de primeiríssima:

O CITRAT (Centro de Tradução e Terminologia da FFLCH), o Departamento de Letras Modernas da FFLCH, e o Programa de Pós-graduação em Estudos da Tradução da USP (TRADUSP) convidam para a XII Jornada CITRAT e a III Jornada TRADUSP na sexta-feira, 7 de novembro de 2014, na Sala 266, Prédio de Letras, Av. Luciano Gualberto 403, Cidade Universitária.

Copyright, Plágio, Tradução

Programação:

9h: Palestra: Denise Bottmann (Tradutora e Historiadora)
Plágio, uma Marca de Nascença da Tradução no Brasil
Por incrível que pareça, os plágios e contrafações não foram excrescências na história da tradução no Brasil. Na verdade, antes mesmo que se firmasse a figura do tradutor brasileiro, o que se tem é a apropriação de traduções portuguesas apresentadas como traduções brasileiras, anônimas ou sob nomes fictícios. É como se a atividade adquirisse vida às avessas, sob o signo da negação e do ocultamento. Bombasticamente, eu diria: a tradução no Brasil nasce sob a forma de plágio.
10h30: Mesa com advogados
Allan Rocha de Souza
Antonio Carlos Morato
Renata de Arruda Botelho da Veiga Turco
Rodrigo Salinas
14h: Relatos de casos:
João Azenha
Stella Tagnin e Luciana Carvalho
Lenita Esteves e Renato Franco de Campos
16h Palestra: Márcia Pietroluongo (UFRJ)
Que tradutores somos nós?
Panorama dos diferentes tipos de tradutores e suas diversas configurações autorais no mercado de trabalho brasileiro da tradução. Reflexão sobre as diferentes legislações que os regem, sobre o caráter heterogêneo de suas inscrições neste campo, e sobre suas possíveis incidências nos modos de traduzir, enfatizando a relevância da relação intersubjetiva no trabalho de tradução que, antes de se fundar em textos, se dá entre os sujeitos implicados no processo.

16 de out de 2014

jabuti 2014

muito contente em ficar em companhia tão honrosa! viva e parabéns a todos os ganhadores!




vale lembrar que a categoria geral de tradução abrange todas as línguas, com obras literárias e não literárias. a categoria especial é reservada a obras literárias, num idioma só (por rodízio anual, neste ano o inglês).

a lista completa está aqui.

30 de set de 2014

30 de setembro, dia internacional da tradução

jerônimo, tradutor da bíblia para o latim, padroeiro do ofício, esboço de mantegna:

obrigada a federico carotti pela imagem

23 de set de 2014

jabuti 2014

aqui os finalistas para o prêmio jabuti de tradução literária, categoria especial inglês/português (tive a honra de ser incluída com ao farol, de virginia woolf, pela l&pm):


aqui os finalistas para o prêmio jabuti de tradução, categoria geral:


viva, parabéns a todos!

16 de set de 2014

Barbara Maidel Page II: Editoras

Barbara Maidel Page II: Editoras: Sou maníaca por editoras. Tenho as minhas preferidas. Às vezes elas me decepcionam. Por exemplo, fico chateada (de verdade) quando uma ed...

29 de ago de 2014

o "legado" da germinal

hoje recebi os seguintes informes sobre o inquérito policial por estelionato em curso contra a editora germinal por fraudes de tradução (acompanhe o caso aqui):







19 de ago de 2014

dicas

em conversa com zaqueu fogaça, da saraiva conteúdo, "dez dicas de denise bottmann para quem deseja ser tradutor", aqui.

16 de ago de 2014

púchkin tradutor

muito interessante o artigo "púchkin, tradutor de gonzaga", por boris schnaiderman, disponível aqui.

2 de jul de 2014

noemi jaffe sobre mrs. dalloway

a crítica noemi jaffe cita generosamente meu trabalho em mrs. dalloway, pela l&pm, e comenta também as dificuldades gerais do ofício de tradução, mais ou menos entre os 15,20 e 19,20 min. do vídeo abaixo:




agradeço a sérgio tadeu guimarães pelo link.

lembrando a capinha da edição:



















18 de jun de 2014

tradução e criatividade

a revista língua portuguesa de junho, n. 104, publicou um artigo chamado o quebra-cabeça da criatividade, disponível aqui.  fui gentilmente entrevistada pela jornalista renata d'elia sobre tradução e criatividade, entrevista esta que resultou numa breve e simpática citação na matéria:



meu ponto, na verdade, não era tanto um "equilíbrio das expectativas" e sim a ideia de que uma tradução "criativa", isto é, não diretamente decalcada do original, pode ser mais "fiel" do que uma tradução demasiado colada a ele. transcrevo abaixo a íntegra de nossa conversa.
Como a criatividade se aplica ao trabalho do tradutor? Há algum tipo de inspiração para quem traduz? Você se lembra de algum caso em que a criatividade ... fez muita diferença em relação a um texto original? 
Se criativo for aquele capaz de lançar mão de certa liberdade interior, intelectual e emocional, para gerar coisas novas e inesperadas, então creio que algum arrojo, destemor mesmo, pode conferir um grau de criatividade a uma tradução. Creio que a gente pode falar em alguma dose de ousadia ou intrepidez.  Pois a grande questão é que somos uma espécie de Houdinis, presos dentro daquela implacável caixa do original no fundo da água, e de alguma maneira temos de conseguir nos desvencilhar e subir à tona com um texto em português, extraído de dentro daquela caixa após mil malabarismos mentais.  
Se há alguma inspiração nisso, é aquela disposição mais especial num dia ou noutro, quando você sente suas faculdades mais aguçadas, quando seu processador mental consegue vasculhar com maior eficiência e rapidez as toneladas de informações meio que adormecidas dentro dele, quando você consegue estabelecer ligações nem sempre muito óbvias, numa relação mais desimpedida entre o original e seu próprio repertório. Aí podem surgir coisas interessantes, que então vão se depositando no texto em português e que aí você vai consolidando e desenvolvendo ao longo do trabalho – mas, retomando a velha duplinha inspiração/ transpiração, há de se transpirar muito para que aquela centelha mais inspirada consiga contagiar todo o texto.  
E veja, muitas vezes uma tradução criativa não significa que ela faça muita diferença em relação ao original; muito pelo contrário, soluções criativas tendem a aproximar mais o texto traduzido ao texto original, a gerar uma maior afinidade entre eles. Pois é um equívoco supor que uma tradução muito colada ao original seja uma boa tradução: pelo contrário, esse servilismo geralmente resulta num decalque sem muito viço, mecânico, inexpressivo. Em suma, essa tradução mais colada ao original é a que, paradoxalmente, costuma ficar mais distante dele, sobretudo em obras literárias. Por isso é preciso um certo arrojo, uma certa coragem – pois sentimos medo, claro: de não captar bem algumas conotações, de errar, de ser meio obtusos – para elaborarmos com alguma desenvoltura outras soluções não tão imediatamente evidentes. 
O que pode acontecer é que muitas editoras mantenham códigos mais ou menos cerrados, em alguns casos impedindo essa maior desenvoltura, esperando algo mais simples ou convencional, em nome de um “leitor médio” abstrato. Mas nem sempre é este o caso, sobretudo em obras de maior densidade literária. Se não tudo, muito depende mesmo é da atenção, do cuidado e da dedicação do tradutor. Nesses casos, sempre haverá o que poderíamos chamar de criatividade, sim.

mais um alerta contra as ervas daninhas da germinal

sebastião ramos osias avisa aqui, na caixa de comentários, que cruzada sem cruz, a tradução de berenice xavier do livro arrival and departure, de arthur koestler, que saiu pelo instituto progresso editorial (i.p.e.) em 1948, teria sido plagiada por "uma tal de juliana borges", em edição publicada pela germinal em 2000, com o título de chegada e partida.




não cheguei a cotejar esses dois títulos, mas não me surpreenderia muito. já denunciei aqui vários casos da infeliz germinal, que utiliza os nomes de wilson hilário borges, juliana borges, felipe padula borges e vera lúcia rodrigues, respectivamente o dono (agora finado) da editora, sua filha, seu sobrinho e sua companheira, em traduções que não passam dos mais vulgares plágios escancarados de antigas traduções.

o catálogo da germinal cadastrado na fbn consta de 33 títulos, entre eles quinze obras traduzidas. são elas, com os respectivos nomes que assinam as traduções:

arthur koestler, ladrões na noite (juliana borges)
arthur koestler, o iogue e o comissário (não descobri)
arthur koestler, chegada e partida (juliana borges)
saul bellow, a vítima (juliana borges)
james agee, morte na família (juliana borges)
isaac b. singer, o escravo (juliana borges)
gustave glotz, história econômica da grécia (vera lúcia rodrigues)
ivan goncharov, oblomov (juliana borges)
ignazio silone, a semente sob a neve (wilson hilário borges)
sinclair lewis, o nobre senhor kingsblood (juliana borges)
hermann broch, os sonâmbulos (wilson hilário borges)
g. k. chesterton, o homem que foi quinta-feira (vera lúcia rodrigues)
d. h. lawrence, mulheres apaixonadas (felipe padula borges)
fenimore cooper, o último dos moicanos (vera lúcia rodrigues)
gustave flaubert, salambô (não descobri)
luigi pirandello, a excluída (wilson hilário borges)

após a morte de wilson hilário borges, vera lúcia rodrigues assumiu o controle da editora e doze desses títulos traduzidos continuam a constar no catálogo da casa, aqui.

o crítico literário alfredo monte, aliás, desde 2004 denunciou os plágios de mulheres apaixonadas, de d.h. lawrence, e d'os sonâmbulos, de hermann broch, em memorial do caso germinal. veja aqui.

também em 2004, euler da frança belém, do jornal opção de goiânia, denunciou o plágio de oblomov na mesma editora. veja aqui.

suélen bortolo, por sua vez, em 2012 avisou que a semente sob a neve, de ignazio silone (germinal, 2001), com tradução em nome de wilson hilário borges, é praticamente idêntica à edição que saiu pela brasiliense em 1947, em tradução de eglantina santi.

  • para o caso de oblomov, de goncharov, veja-se aqui;
  • para o caso de d. h. lawrence, com mulheres apaixonadasaqui;
  • para hermann broch, com os sonâmbulosaqui;
  • para o homem que foi quinta-feira, de chesterton, aqui;
  • para isaac b. singer e o escravoaqui.

encaminhei ao ministério público um pedido de representação contra a editora em 2010, com um vasto dossiê demonstrando as fraudes. o mp determinou a instauração de um inquérito policial para apurar os fatos.


em 2011, fui ouvida na delegacia aqui em registro, confirmei nomes, fatos e provas, e o inquérito seguiu seu andamento. ainda tentei acompanhar o andamento por algum tempo, para saber se o ministério decidiria ingressar com ação contra a editora. infelizmente, não sei dizer em que pé se encontra hoje em dia.

de todo modo, fica reiterado o alerta contra tais edições inescrupulosas.


17 de jun de 2014

ivanhoé

Anno Litterario de 1905


almanaque brasileiro da garnier, 1907

16 de jun de 2014

walter scott, anúncios

anúncios no jornal correio da manhã:

04 de julho de 1906



14 de setembro de 1906



12 de maio de 1909