17 de mar de 2019

entrevista

agradeço a josé nunes pelo gentilíssimo convite. disponível aqui.



Como escreve Denise Bottmann


Denise Bottmann é historiadora e tradutora.

Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal?
Tenho uma espécie de rotina, sim, um pouco flexível. Levanto, preparo o café da manhã [meu querido amor, que é um madrugador, já deixa a mesa preparada, tudo no jeito], tomamos café, conversamos do mais e do menos, fazemos festa nos cachorros e nos gatos e vamos ver as orquídeas. Aí cada qual vai para seu escritório e seu computador, e começo a traduzir.
Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita?
De dia mesmo. Entre as 9 ou 10 da manhã e as 3 ou 4 da tarde, com os devidos intervalos – conversar, comer, espairecer, andar pelo jardim, ver alguma coisa aqui ou ali.
Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária?
Tradução é basicamente uma questão de método e rotina, creio eu. Então traduzo de segunda a sexta, com uma meta de dez a quinze laudas por dia. Às vezes vai que é um raio, e até dá para fazer mais. Outros dias a coisa fica mais devagar e sai um pouco menos. Mas, entre uma variação e outra, ao final acaba tendo uma média relativamente constante.
Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita?
Tem gente que faz uma série de preparações prévias antes de começar a traduzir. Lê o original inteiro ou boa parte dele, assinala e consulta as dúvidas, faz pesquisas de antemão e assim por diante. Já eu não. Tenho uma concepção da coisa que é meio assim: entendo melhor a estrutura compositiva do texto se eu for traduzindo à medida que o leio, pois então, ao traduzir, preciso ir pegando os vários aspectos presentes, desde as escolhas vocabulares do autor, os recursos linguísticos de que lança mão, as figuras de estilo que adota, até a construção gradual e cumulativa de um ou mais sentidos que constroem o conjunto da coisa. Numa leitura corrida prévia, creio que eu perderia boa parte da construção do texto, que, a meu ver, capta-se melhor num acompanhamento mais denso, mais próximo, que é o que procuro fazer nesse processo concomitante de leitura/tradução.
Como você lida com as travas da escrita, como a procrastinação, o medo de não corresponder às expectativas e a ansiedade de trabalhar em projetos longos?
Felizmente, não tenho esses problemas mais peculiares a um escritor de obra própria.
Quantas vezes você revisa seus textos antes de sentir que eles estão prontos? Você mostra seus trabalhos para outras pessoas antes de publicá-los?
Ah, ler, reler, treler tradução é indispensável! Sempre mudando uma coisinha aqui, outra ali. Até a hora em que a gente precisa dar um basta, senão nunca para.
Como é sua relação com a tecnologia? Você escreve seus primeiros rascunhos à mão ou no computador?
No mundo da tradução, sou o que chamam de “dinossauro”. Enquanto boa parte dos tradutores e tradutoras de áreas técnicas, comerciais e até mesmo acadêmicas e literárias emprega programas e ferramentas de auxílio à tradução, utiliza glossários montados a partir de memórias de tradução e assim por diante, fico só com meu computadorzinho. E claro que o buscador do Google é uma imensa mão na roda para consultas das mais variadas questões, pois cobre quase a totalidade dos dicionários e enciclopédias mais importantes e oferece uma grande variedade de outras fontes de consulta, bem como traz uma profusão de links para textos e pesquisas sobre o tema em que estou trabalhando naquele momento.
De onde vêm suas ideias? Há um conjunto de hábitos que você cultiva para se manter criativa?
“Ideias” nesse sentido, em tradução, imagino que significa basicamente pensar, avaliar e definir o partido tradutório (o tom, o tratamento, o tipo de costura, os níveis de registro da linguagem, o tipo e grau de aderência ao texto de origem, os recursos a adotar em ocorrências de difícil solução, e assim por diante) que emprego no trabalho que estou fazendo naquele momento. Mas, como disse, visto que meu processo de tradução é praticamente simultâneo à leitura do texto, essa reflexão, essa avaliação e essa definição do partido tradutório vão se fazendo e se configurando ao longo desse mesmo processo, sobretudo em suas fases iniciais. Conforme a gente caminha, as ideias quanto aos procedimentos mais cabíveis vão se fazendo mais claras e se consolidando melhor.
O que você acha que mudou no seu processo de escrita ao longo dos anos? O que você diria a si mesma se pudesse voltar à escrita de seus primeiros textos?
Ah, a gente adquire mais segurança, sente a palavra, a formulação das palavras de maneira mais correta e mais escorreita, a gente fica mais à vontade no e com o texto. Acho que não diria nada; ou, talvez, agradeceria àquela pessoinha das primeiras traduções, sempre tão bem-disposta, a despeito dos erros e das inseguranças que nem percebia serem erros e inseguranças.
Que projeto você gostaria de fazer, mas ainda não começou? Que livro você gostaria de ler e ele ainda não existe?
Projetos profissionais e próprios não faltam. Que os deuses permitam que eu os vá executando dia a dia, vez a vez.

2 de mar de 2019

podcast

"lugar da mulher é onde ela quiser", edição especial de a voz do tradutor, ano II, n. 33, com organização e coordenação de damiana rosa de oliveira, disponível aqui.


A VOZ DO TRADUTOR - ano II - nº33 - O podcast da Escola de Tradutores! - Edição Especial "O podcast é delas" de 02 de março de 2019

Nesta edição, você vai ouvir: mensagem da presidente do Sintra,  Luisa Lamas; Hora do café com a tradutora literária Denise Bottmann; relatos emocionantes das colegas tradutoras Rane Souza, Carol Pimentel, Andressa Gatto e Ligia Ribeiro.


plágios

matéria de alessandro giannini, disponível aqui.

Denúncias de plágio agitam o meio literário: como fica a autoria no século XXI?
Hoje é muito mais fácil praticar — mas também descobrir — as cópias
Alessandro Giannini
02/03/2019 - O Globo
Acusações de plágio já respingaram em nomes tão diversos como Valesca Popozuda, Led Zeppelin, o ministro do STF Alexandre de Moraes e até o designer da logo do Galeão.
Num mundo globalizado, empresas têm gastado muito para proteger suas marcas.
Na produção literária, porém, a cópia tornou-se tão frequente quanto o uso dos comandos Control-C e Control-V (copiar e colar). Só neste ano, foram revelados casos envolvendo o britânico Ian McEwan, o americano Dan Mallory e a brasileira Cristiane Serruya, best-seller da autopublicação responsabilizada por surrupiar textos de (no mínimo) 34 autores.
Com tanto conteúdo disponível na internet, há quem sustente que usar escritos de outros é homenagem. Para muita gente, porém, é roubo descarado e ponto final. Opiniões à parte, o plágio está tipificado no artigo 184 do Código Penal Brasileiro como crime passível de três meses a 4 anos de detenção. E multa.
Perfil devastador
O plágio (diz-se também plagiarismo ou plagiato) é o ato de assinar ou apresentar uma obra intelectual de qualquer natureza (texto, música, obra pictórica, fotografia, obra audiovisual etc.) contendo partes de uma obra que pertença a outra pessoa sem a permissão do autor.
Mas a arte só começa onde a imitação acaba.
Em 2009, o argentino Pablo Katchadjian incluiu 5.600 palavras no conto “O Aleph”, de Jorge Luis Borges. Criou, assim, “O Aleph engordado”. A viúva de Borges não curtiu a “homenagem” e processou Katchadjian por plágio. Ele só foi inocentado seis anos depois.
— Hoje, o plágio é fácil de praticar, mas muitíssimo mais fácil de localizar — decreta a historiadora e tradutora Denise Bottmann. — E dura pouco essa coisa do “eu sou o autor”, “eu escrevi”. Até porque todo mundo sabe que não se vive de escrever livro, pelo menos não aqui no Brasil.
Denise é conhecida pela excelência de suas versões e pela inclemência com editores que plagiam traduções — modalidade infelizmente comum no mercado. Em 2010, a Landmark entrou com uma ação contra ela e a blogueira Raquel Salaberry, que acusaram a editora de copiar versões de clássicos para o português. No mês passado, as duas venceram a batalha.
Outro caso recente de grande repercussão foi o do americano Dan Mallory, autor do bem-sucedido suspense “A mulher na janela” e uma das mais festejadas atrações da última Bienal do Livro de São Paulo. Ele foi alvo de um perfil devastador publicado pela revista “New Yorker”, que o pinta como um farsante inventor de histórias sobre sua vida. Logo depois, deu no “New York Times”: Mallory acusado de plagiar o romance “Saving April”, da britânica Sarah A. Denzil.
O advogado do escritor, porém, apresentou provas de que ele havia enviado um rascunho com personagens bem desenhados e tramas bem definidas antes de Sarah começar a escrever seu romance.
— A melhor ficção se baseia em trabalhos anteriores em termos de linguagem e senso de lugar — diz Stuart Karle, professor adjunto da Columbia Journalism School, especialista em lei de mídia. — Na ficção, é mais aceito e espera-se estar sujeito a isso.
A internet facilita o plágio e a descoberta dele, como disse Denise Bottmann, mas a prática vem de muito antes, como mostram episódios emblemáticos da produção literária brasileira.
Caso curioso o dos herdeiros do escritor Humberto de Campos, que moveram ação contra a Federação Espírita Brasileira, reivindicando direitos sobre a publicação de obra psicografada por Chico Xavier, de autoria do espírito do “autor”. A ação foi julgada improcedente. Apesar da perícia ter afirmado semelhança de estilos na obra, não se poderia pleitear direito do espírito.
Outro caso famoso é o do romance “A sucessora”, da escritora e tradutora Carolina Nabuco (1890-1981), que teria virado o romance “Rebecca” (1934), adaptado para o cinema por Alfred Hitchcock .
— Um escândalo — diz o advogado José Thomaz Nabuco, de 82 anos, sobrinho da escritora. — Roubaram a obra dela.
Saindo do armário
Mas a própria definição do plágio tem mudado ao longo da História. William Shakespeare foi acusado de ter plagiado “Romeu e Julieta” de outro autor. Na verdade, havia cinco versões diferentes do drama. Hoje, o caso provavelmente acabaria nos tribunais.
Para a tradutora Ana Resende, falar de empréstimos, influências e supostos plágios literários requer cuidado:
— Era prática comum autores desenvolverem temas de seus pares e reconhecer isso. O tema do guarda-roupa como um portal mágico, central na série de romances sobre Nárnia, de C.S. Lewis, foi retirado de um conto, “The Aunt and Amabel", de Edith Nesbit. E Lewis reconheceu sua dívida com Nesbit, que hoje é pouquíssimo lembrada.
Todo homem nasce original e morre plágio.
Colaborou (com os plágios, inclusive) Emiliano Urbim.


24 de fev de 2019

autoras estrangeiras traduzidas no brasil

um bom trabalho de pesquisa em história da tradução no brasil: "Publicar mulheres: três coleções de escritoras estrangeiras no Brasil (séc. XX e XXI)", de ana elisa ribeiro e sérgio karam, disponível aqui.





2 de fev de 2019

judeus sem dinheiro

um caso interessante, que me foi apontado por lucas verzola.

cid franco, militante de esquerda, socialista democrático, traduziu judeus sem dinheiro, de michael gold, publicado pela pax em 1932. em 1934, a cultura brasileira relançou a obra. anos depois, em 1944, a calvino publicou mais uma vez a tradução de cid franco, porém sem lhe dar os créditos. em 1961, quando a pluma relança o romance de michael gold, cid franco comenta esses fatos. (embora ele não cite qual teria sido a "certa empresa que tirou mais uma edição", foi de fato a calvino.)



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vale notar que mesmo a capa, assinada por kaufmann, retoma a capa da edição da cultura brasileira.
resta saber quem teria traduzido "120 milhões" para a edição da calvino.
veja-se a dissertação de vinicius juberte, disponível aqui.


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JUDEUS SEM DINHEIRO

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19 de dez de 2018



http://www.aescotilha.com.br/literatura/contracapa/o-papel-do-tradutor-e-questao-de-autoria/

O papel do tradutor e a questão de autoria

Morte de tradutora de Harry Potter levanta debate sobre a falta de reconhecimento da profissão.

A morte de Lia Wyler, aos 84 anos, no dia 11/12, não causou muito alvoroço. Como a de nenhum tradutor parece causar. Responsável por verter ao português os sete livros de saga Harry Potter e autores como Tom Wolfe, Hnery Miller e Stephen King, a paulista de Ourinhos havia passado por dois AVCs – um deles logo após entregar Harry Potter e as relíquias da morte.
O quase silêncio sobre os tradutores incomoda, e muito. Lia, que entre 1991 e 1993 presidiu o Sindicato Nacional dos Tradutores, foi quem adaptou para o português termos do universo de Potter. Quidditch virou quadribol, e muggle trouxa. Certa feita, depois de encerrar a série do bruxinho, Wyler declarou sentir falta dos personagens e da mitologia que envolve os livros de J. K. Rowling.
A Rocco, editora para qual Lia mais traduziu, emitiu uma nota de falecimento. No comunicado, a casa reitera a sensibilidade da tradutora e a importância do seu labor. “O trabalho do tradutor é um dos fios principais de uma história. Ele empresta suas palavras para construir narrativas e fazer que uma história seja compreendida, tocando o coração das pessoas”, diz o texto.
Denise Bottmann: ‘É uma responsabilidade e tanto, pois, na hora em que você ‘decide’, digamos assim, qual o partido que vai adotar’.

O papel do tradutor

Denise Bottmann – tradutora de obras de Virginia Woolf, Harold Bloom, Thomas More e outros – mantém desde 2008 o blog não gosto de plágio, cujo objetivo é um pouco óbvio: encontrar incongruências e irregularidades nas traduções para o português do Brasil. Um dos grandes alvos de Bottmann foi a editora Martin Claret, inúmeras vezes apontada por Denise como fonte constante de plágios e apropriações de textos alheios. Para escamotear a ação, a editoria teria criado diversos pseudônimos e retalhado excertos de diversos tradutores.
Ainda assim, é difícil dimensionar o papel de um tradutor para a obra de um autor, mas é ele o responsável por dar acessibilidade a determinados escritores. Quando a primeira tradução de Ulisses, de Joyce, foi publicada no Brasil, o professor e filólogo Antônio Houaiss foi “acusado” de tornar o livro do irlandês ainda mais intransponível. No começo dos anos 2000, a professora Bernardina da Silveira Pinheiro sofreu a acusação inversa: a de simplificar demais. Caetano Galindo, uma década mais tarde, teve uma recepção mais amistosa, e sua versão foi classificada com a mais próxima do original.
“É uma responsabilidade e tanto, pois, na hora em que você ‘decide’, digamos assim, qual o partido que vai adotar, que tipo de tratamento vai dar à obra em sua tradução, o que você julga mais adequado ou mais compatível com o original, você vai ter de manter esse mesmo tipo de aderência/descolamento ao longo de todo o texto. Não é fácil. E é por isso que podem existir tantas traduções de uma mesma obra. As escolhas nunca são as mesmas”, disse Bottmann em entrevista de 2013.
Borges, em um dos seus mais célebres textos, tratou da questão do tradutor. No conto, Pierre Menard almeja uma tradução tão perfeita de Dom Quixote para que a autoria passe a lhe caber. O relato borgiano é o retrato do labirinto da tradução, das voltas e voltas que se dá para transpor com o máximo de fidelidade uma obra. E, no final, qual o reconhecimento dado ao tradutor? Pouco ainda.

18 de nov de 2018

SIP / Civilização Brasileira

mais uma sugestão de pesquisa em nível de mestrado sobre a história da tradução no brasil: a relação entre a Edições Sociedade Impressora Paulista (SIP) e a coleção "Edições SIP - Collecções econômicas" lançada pela civilização brasileira (após aquisição pela companhia editora nacional) durante alguns anos na década de 1930.

vale notar que nenhum dos volumes dessa coleção que chegaram a meu conhecimento traz créditos de tradução - o que não deixa de ser surpreendente em se tratando de uma coleção publicada (por acordo? por licenciamento? não sei dizer) pela civilização brasileira, então filial e subsidiária carioca da cia. editora nacional, esta sempre bastante ciosa nesse quesito.

18 de out de 2018

um depoimento

na semana dos tradutores, blog da companhia das letras, disponível aqui


Um depoimento, por Denise Bottmann
Este ano faz 35 anos que comecei a traduzir. Digo, traduzir “para fora”. Antes já traduzia um pouco, poemas, ensaios, coisas de que gostava, que guardava na gaveta ou às vezes publicava aqui e ali, em alguma revista. Mas traduzir por encomenda, a pedido, por contratação, a primeira vez foi 35 anos atrás, com Luiz Schwarcz, ainda na Brasiliense. Ocorreu meio por acaso, e nem vem muito – para rimar – ao caso. Tirando um intervalo de dez anos em que parei de traduzir, continuo na C/companhia de Luiz, com alguns passeios paralelos.
Traduzir é algo maravilhoso, por todos os lados que se olhe. Começa, em primeiro lugar, por ser a única – não, única talvez não, mas a principal – coisa capaz de estabelecer contato entre povos e culturas de qualquer tempo e de qualquer espaço, transpondo milhares de anos e muitos milhares de quilômetros. Então é uma coisa significativa, importante. Imaginem todo mundo ilhado na sua língua. Bem ou mal, não haveria propriamente uma humanidade. Não estaríamos aqui conversando.
Outro lado de traduzir é que a gente se sente, de certa forma, contribuindo não só para conservar, mas também para criar uma memória das coisas – e, de mais a mais, uma memória compartilhada, trazida de outro canto do mundo. Digo isso porque considero memória algo muito importante. Sou historiadora, por formação, por carreira acadêmica e, na última década, por estudos historiográficos que venho fazendo sobre... ora, vejam só, a tradução no Brasil.
Além disso, o ofício é muito generoso, ensina sem cessar; a gente está sempre aprendendo, vendo coisas novas, sabendo coisas que não sabia antes, e de maneira muito agradável: lendo, escrevendo, com paz e tranquilidade, tendo nosso fiel amigo, o leão cuja pata ferida ajudamos a curar, sempre a nosso lado.

Assim, nesses 35 anos, é como se se formasse um círculo perfeito para quem adotou a tradução por gosto e convicção: é uma das mais importantes atividades que vieram a constituir um tempo-espaço humano coletivo; é o eixo de formação de um patrimônio imaterial comum; como se não bastasse, é um ofício prazeroso e enriquecedor no plano pessoal.
Quase tudo passa. Mas algumas coisas ficam. Ficam vozes de estadistas firmando a paz, súplicas de reis ansiando por herdeiros, cantos de amor e aventura de poetas, devoções ardentes, cosmogonias e épicos grandiosos, conselhos e receituários médicos multimilenares, de povos há muito desaparecidos.
Fica a escrita – e a escrita nunca cessa de se multiplicar: sobre ela, prosseguem os infindáveis pentimentos que a mão de todos os jerônimos e todas as jerônimas traça incansavelmente ao longo do tempo. E é assim que dialogamos.

13 de set de 2018

as ondas, 1946 (cont.)





  





agradeço a thiago dias da silva pelas imagens: página de rosto, verso da página de rosto, início da obra, nota da tradutora, primeiro interlúdio, dados de gráfica.

 sylvia valladão, nascida c.1900, filha do celebrado médico mathias valladão, pertencente à alta sociedade paulistana, casou-se em c.1921 com noé azevedo, advogado de grande fama futura. noé azevedo se tornou em 1923-24 o diretor responsável pela revista dos tribunais - esta, por sua vez, em 1933 passou a operar também como gráfica e a partir de 1955 como editora, atividade que mantém até hoje. a ligação matrimonial entre sylvia valladão e noé azevedo parece suficiente para explicar por que sua tradução de as ondas foi publicada pela revista dos tribunais.


12 de set de 2018

as ondas, 1946


incrível - sempre pensei que a primeira (e única) tradução de "as ondas" de virginia woolf no brasil era a de lya luft.
que nada: em 1946, a editora revista dos tribunais publica "as ondas" em tradução de uma desconhecida sylvia valladão azevedo. digo "desconhecida" nos meios editoriais, pois é até nome de rua no guarujá.
o interessante é que foi uma edição não comercial de 150 exemplares, lançada pela RT com autorização da globo de porto alegre, que era a detentora dos direitos de publicação da obra no brasil.
e mais interessante ainda é que foi a globo a primeira a publicar woolf no brasil, começando no mesmo ano de 1946 com "mrs. dalloway", na tradução de mário quintana [em circulação até a data de hoje], e prosseguindo em 1947 com o lançamento de "orlando", na tradução de cecília meirelles [idem idem].
estou agora procurando mais dados a esse respeito, e por enquanto não encontrei grande coisa. mas minha cabeça já começou a especular. p.ex., a globo teria contratado os direitos de tradução e publicação dessas três obras da woolf no brasil como um pacote; publicou "mrs. dalloway" e "orlando", e autorizou a RT a um uso não comercial de "as ondas" - mas jamais lançou "as ondas", seja na tradução da referida sylvia ou em qualquer outra. até aí sabemos [salvo a hipótese da contratação de um "pacote", que é especulação minha], e é tudo documentado. mas, pelo que vi até agora, foi relativamente ou até bastante pequena a repercussão de "mrs. dalloway" na imprensa da época, tanto é que levou décadas para ser reeditada; a de "orlando" não foi muito maior. terá a globo concluído que não valeria a pena lançar um terceiro livro da autora? a que se destinaria o uso não comercial dos 150 exemplares lançados pela RT? brinde para seus clientes, uma encomenda, um balão de ensaio para a própria globo?
devo esse dado interessantíssimo sobre a existência de "as ondas" em português desde 1946 a Thiago Dias da Silva. agora estou na maior curiosidade para conhecer essa edição, ver a capinha, a página de rosto, a declaração de autorização da globo que consta no livro (da qual fui informada também por Thiago).

11 de ago de 2018

coleção rubáiyát, a transição

para acompanhar a pesquisa sobre a coleção rubáiyát, clique aqui.



a série de poemas orientais, 1938-1942, sementeira da coleção rubáiyát, 
em seu volume final, a flauta de jade.



em 1943, a josé olympio inicia a coleção rubáiyat, inaugurando-a com o amor de bilitis.
interessante notar que ela incorpora retroativamente os sete volumes que compunham 
o catálogo de sua coleção anterior, a série de poemas orientais.


8 de ago de 2018

veríssimo e vallandro em contraponto


há coisa de uns dez dias, senti uma certa perplexidade quando descobri que "contraponto", de aldous huxley, traduzido por erico veríssimo em 1933 e publicado em 1934 pela livraria do globo, a partir de 1956 começara a aparecer com créditos de tradução a ele e a leonel vallandro. vide aqui.

especulando e vendo o número de páginas das diversas edições (690 nas iniciais; 460 nas posteriores), cogitei que se trataria de uma condensação que vallandro, a pedido da globo, teria feito naquela altura e que assim acabou ficando.

chegaram os exemplares que encomendei: a edição em 2 volumes só com veríssimo; a edição num volume só com veríssimo e vallandro. pelo que comparei até agora, são:

............................................idênticas ............................................

e a diferença no número de páginas?!
bom, o formato da edição dos anos 30 (a que comprei é de 1939), em 2 vols. não chega a ser de bolso, mas é de tamanho bastante reduzído, de 17,5 x 12,5. já o volume da coleção nobel (6a. edição, 1956) é significativamente maior: 22,5 x 15.

a fonte tipográfica de 1939 é maior e o entrelinhas razoavelmente espaçado, enquanto a fonte de 1956 é menor e o entrelinhas mais estreito.

a página do formato menor tem 32 linhas de texto, com 60 toques (isto é, caracteres + espaços), ou seja, se não houvesse parágrafos, as linhas fossem totalmente ocupadas até o final, os capítulos não terminassem no começo ou meio da página, não houvesse divisão de seções etc.etc., haveria 1920 toques por página. por outro lado, a página do formato maior tem 45 linhas de texto, com 70 toques, o que corresponderia a 3150 toques.




ou seja, se houvesse alguma diferença, o texto com créditos a veríssimo & leandro seria maior, não menor.

sinceramente, não é hoje nem nos próximos tempos que vou comparar 1.150 páginas de texto, mas as dúvidas, embora mudadas, continuam e a pergunta persiste: por que leonel vallandro passa, a partir de 1956, a constar dos créditos da tradução de "contraponto" ao lado de erico veríssimo?


30 de jul de 2018

leonel vallandro tradutor

Pelos dados localizados, a primeira tradução de Leonel Vallandro foi A mão de Fu-Manchu,
de Sax Rohmer, publicada como volume 17 da Coleção Amarela da Livraria do Globo, em 1932.


Reproduzo abaixo a lista de traduções feitas por Leonel Vallandro, extraída do Ditra [Dicionário de Tradutores] da PGET/UFSC, aqui. No link encontra-se também uma breve biografia dele. Na listagem, acrescentei em negrito o ano da primeira edição quando não constava na referência. Ao final, acrescentei outras traduções de Vallandro não incluídas na referida listagem.

Traduções Publicadas
Baum, Vicki. Hotel Berlim. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19. (Hotel Berlin). Romance. 1944 
Cain, James M. O destino bate à porta. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (The postman always rings twice). Romance. 1947
Christie, Agatha. O assassinato de Roger Ackroyd. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1951. (The murder of Roger Ackroyd). Romance policial.*  
Christie, Agatha. O Caso dos dez negrinhos. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (Tem little niggers). Romance policial. 1942 
Conrad, Joseph. Vitória.  [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (Victory). Romance. 1942 
Crofts, Freeman Wills. O mistério de Groote Park.  [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (The Groot Park murder). Romance policial. 1936 
Douglas, Norman. Vento sul. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (South wind). Romance. 1944 
Gardner, Erle Stanley. O caso das pernas de sorte. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (The case of the lucky legs). Romance policial. 1943
Greene, Graham. O condenado. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (Brighton Rock). Romance. 1952 
Greene, Graham. O terceiro homem. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (The third man). Romance. 1951
Hilton, James. Aquele dia inesquecível. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (So well remembered). Romance. 1947
Hilton, James. E agora, adeus. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (And now goodbye). Romance. 1941 
Horler, Sydney. A Srta. Mistério. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (Miss Mystery). Romance policial. 1937
Kennedy, Margaret. O idiota da família. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (The fool of the family)Romance. 1941 
Lewis, Sinclaire. Babbitt. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (Babbitt). Romance. 1942 
Maugham, William Somerset. A Casuarina. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1951. (The Casuarina tree). Contos.
Maugham, William Somerset. A indomável. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1952. (Creature of Circumstance). Contos.
Maugham, William Somerset. Ah king. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1944. (Ah king). Contos.
Maugham, William Somerset. As três mulheres de Antibes. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1956. (The mixture as before). Contos. [com Octavio Mendes Cajado - db]
Maugham, William Somerset. Catalina. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1950. (Catalina). Romance.
Maugham, William Somerset. Férias de Natal. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1941. (Christmas holiday)Romance.
Maugham, William Somerset. Histórias dos mares do sul. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1937. (The rembling of a leaf). Contos.
Maugham, William Somerset. O mágico. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1962. (The magician). Romance.
Maugham, William Somerset. O pecado de Liza. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1956. (Liza of Lambeth). Romance.
Maugham, William Somerset. Seis novelas. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1951. (First person singular)Contos.
Morgan, Charles. O quarto vazio. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (The empty room). Romance. 1959
Packard, Frank. As aventuras de Jimmie Dale. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 1939. (The adventures of Jimmie Dale). Romance. 
Porter, Katherine Anne. A nau dos insensatos. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (Ship of fools). Romance. 1964 
Rohmer, Sax. Sombras amarelas. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (Yellow shadows). Romance. 1938
Wallace, Edgar. A lei dos quatro homens justos. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (The four just men). Romance policial. 1940
Wallace, Edgar. O caso da dama apavorada. [Por: Leonel Vallandro]. Porto Alegre: Editora Globo, 19--. (Case of the frightened lady). Romance policial. 1938

* Essa mesma novela de A. Christie saiu em 1933 pela Coleção Amarela, porém em tradução de Heitor Berutti, sendo posteriormente retraduzida por Vallandro e reeditada como vol. 146  da mesma coleção (ver aquiaqui) - db 

Complementos - todos pela editora do Globo, salvo indicação em contrário

Sax Rohmer, A mão de Fu-Manchu, Coleção Amarela, vol. 17, 1932
Edgar Wallace, Os três homens justos, Coleção Amarela, vol. 48, 1936
Ernest Trattner, Arquitetos de ideias, 1940
Dirk van der Heide, Minha irmã e eu: diário de um pequeno refugiado holandês, 1941
Pierre van Paassen, Estes dias tumultuosos: biografia duma geração desesperada, 1941
Somerset Maugham, Um casamento em Florença, 1942
Friedrich Hayek, O caminho da servidão, 1948
William Sedgwick, Harry Tyler e Robert Bigelow, História da ciência: desde a remota antiguidade até o alvorecer do século XX, 1952
Joseph Kessel, O leão, Seleções do Reader's Digest, ed. Ypiranga, 1958
Gonzague Truc, História da filosofia, 1958 (com Ruy Flores Lopes)
James Hadley Chase, Com o mundo no bolso, Série Amarela, 1958
Somerset Maugham, Assunto pessoal, 1959
James Hilton, Horizonte perdido, 1960 (com Francisco Machado Vila)
Platão, Diálogos vol. III, A república, 1964
Edward M. Burns, História da civilização ocidental, 2 vols., 1965 (com Lourival Gomes Machado e Lourdes Santos Machado)
C. Arndt et al.Educação comunitária: princípios e práticas colhidos na experiência através do mundo, USAID, 1965
Henry Clay Lindgren, Ansiedade: a doença do século, 1965
Donald M. Dozer, América Latina: uma perspectiva histórica, 1966
J.E. Johnson, Guerra no ar (história da aviação de caça), 1966
Ian Fleming, A morte no Japão, 1966
James Hadley Chase, O infrator cauteloso, Série Amarela, 1967
James Hadley Chase, Não enviem orquídeas para Miss Blandish, Série Amarela, 1967
Pitirim Sorokin, Sociedade, cultura e personalidade, 2 vols., 1968 (com João Baptista Coelho Aguiar)
James Kuethe, Processo ensino-aprendizagem, 1968
James Hadley Chase, Um trouxa como qualquer outro, Série Amarela, 1968
James Hadley Chase, Confidencial, Série Amarela, 1969
James Hadley Chase, Jornada para a morte, Série Amarela, 1969
James Hadley Chase, A morte vem de Hong-Kong, Série Amarela,1969
Alfred Hitchcock, Um pouco do seu sangue e outras histórias, 1969
Pitirim Sorokin, Novas teorias sociológicas, coedição EdUSP, 1969
Aristóteles, Metafísica, 1969
Henry Thomas, Os quatro livros do saber, em 4 volumes, 1970 (com Oscar Mendes)
John Udell Michaelis, Estudos sociais para crianças numa democracia, 1970
Goethe, Memórias: Poesia e verdade, 2 vols., 1971
Graham Greene, A inocência e o pecado, Verbo, 1971
William H. McNeill, História universal: um estudo comparado das civilizações, 1972
Richard Harold Lindeman, Medidas educacionais, 1972
Sherwin Kaufman, A mulher sempre jovem, 1972
Arthur Clarke, Vento solar: histórias da era espacial, 1973
Arthur Clarke, Encontro com Rama, Nova Fronteira, 1973
Blaise Pascal, Pensamentos, 1973
David Hume, Investigação sobre o entendimento humano, Os Pensadores, Abril Cultural, 1973
Aristóteles, Tópicos: Dos Argumentos sofísticos, Os Pensadores, Abril Cultural, 1973 (com Gerd Bornheim)
Gilles Ferry, A prática do trabalho em grupo, 1974
Ralph W. Tyler, Princípios básicos de currículo e ensino, 1974
Tennessee Williams, Moise e o mundo da razão, Círculo do Livro, 1975
Armand Cuvillier, Sociologia da cultura, Globo/EdUSP, 1975
Louise M. Berman, Novas prioridades para o currículo, 1975
Mark Blaug, Introdução à economia da educação, 1975 (com Volnei Alves Corrêa)
William Cruickshank e G. Orville Johnson, Educação da criança e do jovem excepcional, 2 vols., 1975 (com Jurema Alcides Cunha)
W. James Popham e Eva Baker, Táticas de ensino em sala de aula, 1976*
W. James Popham e Eva Baker, Sistematização do ensino, 1976 (com Zaida Grinberg Lewin)*
Robert P. Davis, O piloto, Record, 1976*

* É de se supor que estas tenham sido suas últimas traduções.

Para os volumes lançados na Coleção Amarela, veja aqui.

Um episódio curioso envolvendo Leonel Vallandro se refere a Contraponto, de Aldous Huxley. A obra foi traduzida por Erico Veríssimo e saiu em dois volumes em 1934, com quase 700 páginas ao todo. Teve algumas reedições nos vinte anos seguintes. Em 1956, porém, a tradução passa a constar em nome de Erico Veríssimo e Leonel Vallandro. Após algumas pesquisas, foi possível cogitar se não se trataria de uma edição condensada, com cerca de 470 páginas. Nesse caso, seria de se supor, portanto, que o crédito a Vallandro tivesse sido acrescentado em vista de seu trabalho de condensação e adaptação (e por essa razão não foi incluído nesta sua bibliografia tradutória). A partir daquele ano, todas as inúmeras reedições passaram a trazer esses duplos créditos de tradução.
atualização em 08/08/18: vide novos dados e a reviravolta aqui.

Outra informação desencontrada é a que consta em A Globo da Rua da Praia, de José Otávio Bertaso, que a certa altura afirma que, se não lhe falhava a memória, Leonel Vallandro teria traduzido uma parte de A Rússia por dentro, do jornalista John Gunther. Sim, a memória lhe falhou: foi Lino, irmão de Leonel, quem se incumbiu de uma parte da tradução.


25 de jul de 2018

erico veríssimo tradutor


Resultado de imagem para mansfield psicologia "revista do globo" 1939

Curiosamente, embora Erico Veríssimo seja um dos maiores autores brasileiros e exista fartíssimo material sobre sua vida e obra, os dados circulantes sobre sua produção tradutória não raro são incompletos e por vezes até trazem alguns equívocos e imprecisões.

Abaixo apresento em ordem cronológica o que consegui reconstituir a partir de fontes variadas, tanto primárias quanto secundárias:

O sineiro, de Edgar Wallace, 1931 (Coleção Amarela, vol. 3)

O homem sinistro, de Edgar Wallace, 1931 (Coleção Amarela, vol. 6)

Alemanha: fascista ou soviética?, de H.R. Knickerbocker, 1932

O mistério da escada circular, de M. R. Rinehart, 1932 (Coleção Amarela, vol. 11)

Na pista do alfinete novo, de Edgar Wallace, 1933 (Coleção Amarela, vol. 24)

Classe 1902, de Ernst Glaeser, 1933

Contraponto, de Aldous Huxley, 1934 (em 2 vols.)

A morte mora em Chicago, de Edgar Wallace, 1934 (Coleção Amarela, vol. 34)1

A filha de Fu-Manchu, de Sax Rohmer, 1935 (Coleção Amarela, vol. 36)

A cobra amarela, de Edgar Wallace, 1936 (Coleção Amarela, vol. 41)2

A vida começa aos quarenta, de Walter Pitkin, 1936

Navios - e de como eles singraram os sete mares, de H. van Loon, 1936

A guerra secreta pelo algodão, de Anton Zischka, 1936 (com Othmar Krausneck)

“O sorriso da Gioconda”, de Aldous Huxley, in A Novela, n. 5, fev. 1937

E agora, seu moço?, de Hans Fallada, 1937

“História de Anandi, a vaishnavi”, de Rabindranath Tagore, in A Novela, n. 19, abr. 19383

Três titãs - Miguel Ângelo, Rembrandt, Beethoven, de Emil Ludwig, 1939

Felicidade, de Katherine Mansfield, 19404

Não estamos sós, de James Hilton, 1940

Adeus, Mr. Chips, de James Hilton, 1940

Ratos e homens, de John Steinbeck, 1940

O homem e a técnica, de Oswald Spengler, Meridiano, 19415

O retrato de Jennie, de Robert Nathan, Meridiano, 1942

Mas não se mata cavalo?, de Horace McCoy, 1947

Maquiavel e a dama, de Somerset Maugham, 1948


1 Relançado em 1969 pela Cultrix com o título de A lei do chefão.

Para a Coleção Amarela, como se vê, Erico Veríssimo fez sete traduções, de 1931 a 1936. Premido por outras  tarefas, como diretor da Revista do Globo, “conselheiro literário” de Bertaso na editora,  dedicando-se a traduções de mais  fôlego e, sobretudo, com o deslanche de sua obra própria, Veríssimo encerra suas contribuições como tradutor para a Coleção Amarela em 1936.

3 Outra curiosidade é a menção de Erico Veríssimo a Tagore, em suas memórias Solo de clarineta: “Eu lia e traduzia Rabindranath Tagore.  Vejo agora aqui a meu lado, tirada do fundo duma gaveta quase esquecida, uma tradução que fiz de passagens do livro Pássaros Extraviados”.

Felicidade foi o primeiro lançamento de Mansfield em livro no Brasil, enfeixando catorze contos. Seis desses contos traduzidos por Veríssimo já haviam sido publicados antes, em A Novela e na Revista do Globo. Vale notar que foi ele quem introduziu Mansfield entre nós, escolhendo-a para integrar o lançamento do primeiro número de A Novela, a revista literária da Livraria Globo, com o conto “A lição de música”. Antes da publicação da antologia completa Felicidade em 1940, saíram quatro contos da autora em A Novela, em sua breve existência de 1936 a 1938, e outros dois na Revista do Globo em 1939, a saber: “A lição de música”, “Seis pence”, “O dia de Mr. Reginald Peacock”, “A jovem governanta”, “Psicologia” e “Seu primeiro baile”.

5 A Edições Meridiano foi um braço editorial criado pela Globo em 1941, com efêmera existência até 1943. Sua Coleção Tucano, pela qual saiu em 1942 O retrato de Jennie, foi absorvida pela Globo após o encerramento da Meridiano. Assim, Mas não se mata cavalo?, de 1947, saiu como volume 25 da coleção, já pela própria Globo. Diga-se de passagem que José Otávio Bertaso apresenta uma explicação extremamente implausível para a criação da Edições Meridiano em seu A Globo da rua da Praia.

Alguns equívocos repetidos com certa frequência merecem ser retificados. O primeiro equívoco a ser desfeito é o seguinte: O círculo vermelho e A porta das sete chaves, ambos de Edgar Wallace, publicados respectivamente como  volume 1 e volume 2 da  Coleção Amarela (1931), teriam sido traduzidos por Erico Veríssimo. A informação não procede. O círculo vermelho foi traduzido pelo autor regionalista gaúcho Darcy Azambuja, e A porta das sete chaves por Pedro Bruno Dischinger. A fonte desse equívoco, até onde conseguimos apurar,encontra-se em“Memória seletiva: O tempo e os ventos”, uma cronologia biográfica publicada no número  16 dos Cadernos  de  Literatura  Brasileira, do  Instituto  Moreira Salles,  de novembro  de  2003,  em  número  dedicado  a  Erico  Veríssimo, atualmente reproduzida   na   biografia   constante   no   Memorial   do Centro Cultural Erico Veríssimo (CCCEV).:
1931 A  Seção  Editora  da  Livraria  do  Globo  lança  a  primeira  tradução  de  Erico, O sineiro,  de  Edgar  Wallace.  No  mesmo  ano,  traduz  desse  escritor O  círculo vermelho e A porta das sete chaves (CADERNOS 16:10).
Na  cronologia  não  consta  o  nome  do  autor  dos  verbetes  nem  do organizador dos dados, e tampouco qualquer referência às fontes utilizadas. Após  várias diligências  e  consultas  a  diversas  pessoas, obtivemos em correspondência  pessoal com  a pesquisadora  e  docente Maria  da  Gloria Bordini, responsável à época por encaminhar aos coordenadores da edição do IMS  os  materiais  provenientes  do  Rio  Grande  do  Sul, a  confirmação  de  que houve um engano e que as atribuições corretas são, de fato, as que constam na  página  de  rosto  das  obras  citadas: a  tradução d’O  círculo  vermelho é, como dissemos,  de Darcy Azambuja; a d’A porta de sete chaves é de Pedro Bruno Dischinger. O  equívoco  é  tanto  mais  grave,  não  só  porque  não  há registro  de qualquer  fonte  primária ou  mesmo  secundária que  abalizasse a inverossímil asserção publicada no Caderno do IMS, mas porque ao longo dos anos ela tem sido acriticamente reproduzida nos  mais  variados  estudos,  teses,  artigos  e pesquisas, sempre remetendo direta ou indiretamente, explícita ou implicitamente, ao citado Caderno.

Mais grave, porém, e de abrangência muito maior é o grosseiro equívoco de que “Gilberto Miranda” seria o pseudônimo usado por Erico Veríssimo em várias de suas traduções.Na verdade, como explica o próprio Verissimo em Um certo Henrique Bertaso:
Até hoje de vez em quando alguém nos pergunta quem é Gilberto Miranda, que há tanto tempo trabalha para a Globo. Ora, trata-se duma “personalidade de conveniência”que inventei, uma espécie de factótum literário. Se uma equipe anônima organiza um livro ou escreve um ensaio e precisamos dum nome para aparecer como autor dessas tarefas, convocamos Gilberto Miranda, que assim tem sido, além de tradutor, especialista em crítica literária, modas femininas e masculinas, trabalhos manuais, política internacional, história natural, psicologia etc., etc. (2011: 50)
É a partir de 1936, com a tradução de Piratas modernos, de Hans Dominik, como volume 20 da Coleção Universo, que surge a mítica figura de "Gilberto Miranda". aquela “espécie de factótum literário” que designava um improvisado grupo variável de pessoas fazendo talvez às pressas ou dividindo em várias partes qualquer tarefa urgente ou desatendida. Aliás, é interessante notar que, em várias das traduções assinadas por essa "personalidade de conveniência", consta também o nome de outro tradutor, este sim de carne e osso. A hipótese que me parece mais plausível, nesses casos, é a de algum atraso ou eventual desistência do real encarregado pela tarefa, a qual, então, teria sido finalizada por alguma "equipe anônima" da editora ou alguns colaboradores externos convocados às pressas.


Iconografia


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