1 de abr de 2015

entrevista

o jornal cândido, da biblioteca pública do paraná, fez uma entrevista comigo, que publico aqui na íntegra.


Entrevista a Cândido, 3 de fevereiro de 2015

1. Em primeiro lugar, quem é o tradutor? Ou melhor, quem pode traduzir? Alguém que conheça a língua do livro a ser traduzido e também o idioma para o qual o texto será vertido? É isso? O que mais?
Sim, creio que o conhecimento das duas línguas, a de partida e a de chegada, são um bom começo - um excelente domínio sobretudo da língua de chegada, em nosso caso o português. Acredito também que o tradutor deve traduzir da língua estrangeira para sua língua materna, e não vice-versa. São raros, raríssimos os casos de estrangeiros que venham a conhecer tão bem o português que consigam autonomia completa na língua - os exemplos que me ocorrem são os de estrangeiros imigrantes ou de famílias imigrantes que acabaram se estabelecendo no Brasil, como Elias Davidovich, Tatiana Belinky, Paulo Rónai, Boris Schnaiderman e poucos mais.
Além do conhecimento do par de línguas, creio ser quase indispensável um conhecimento pelo menos geral dos assuntos tratados no texto. No caso de obras literárias, isso significa um mínimo de conhecimento de história da literatura, de estilos e escolas, bem como de técnicas literárias.
E, por fim, prática e experiência. Mas, para começar, creio que bastam, sim, os requisitos acima citados.

2. Há uma discussão, talvez superada, não sei, a respeito do tradutor respeitar o texto original ou então reescrever com liberdade. Qual a sua opinião sobre o assunto? Pode citar algum exemplo?
Ah, essa é uma discussão infindável, interminável, em particular na tradução literária. Pessoalmente, não conheço ninguém que defenda integralmente a ideia de "reescrever com liberdade", em termos estritos. No caso, isso seria mais uma paráfrase ou uma adaptação, e não tanto uma "tradução". Mas, tirando esses dois extremos - uma reescrita livre e descolada do texto ou uma adesão servil ao literalismo (que, no limite, nem faria sentido) -, há um extenso campo de variações e modulações possíveis. O praticante mais radical de uma reescrita livre seria, talvez, Ana Cristina César, a tal ponto que suas chamadas traduções são, a rigor, textos apenas inspirados por um original, digamos assim. Quanto ao literalismo mais colado ao original, há também o peso da experiência: um exemplo são as duas traduções de Josely Vianna Baptista  para Paradiso, de Lezama Lima, onde é possível ver seu amadurecimento desde aquela que foi sua primeira tradução profissional, em 1987, e a reelaboração a que procedeu na edição lançada agora em 2014.

3. Você tem vários livros traduzidos, da língua inglesa, francesa e do italiano. É isso mesmo? De qual idioma mais traduziu? 
Acrescento que traduzi também algumas coisas do espanhol. Gosto muito das línguas neolatinas e adoraria poder traduzir mais do francês e do italiano, mas, como a demanda por traduções do inglês é muito maior, acabo traduzindo bem mais do inglês do que de outras línguas.

4. Quanto tempo demora, em média, para traduzir uma lauda ou uma página? Você se programa, no caso de uma tradução já acertada, para trabalhar determinado número de páginas por dia ou pensa em caracteres ou traduz até o seu limite de energia naquele dia? 
Varia muito, muitíssimo, de tradutor para tradutor e também em função do texto e de suas dificuldades. Em meu caso pessoal, e em termos esquemáticos, foi assim: no começo eu me estabelecia uma jornada de 44 horas semanais, rendessem o que rendessem. Para livros de complexidade média, naquela época isso rendia cerca de dez páginas ou doze laudas por dia, resultando numa faixa de trezentas laudas ao mês, mais ou menos. Com o tempo, a experiência e sobretudo a facilidade proporcionada pela internet, para consultas e pesquisas, minhas horas de trabalho passaram a render mais laudas ou, dito de outra maneira, passei a precisar dedicar menos horas para chegar àquele tanto de laudas diárias. Hoje em dia, sou meio anárquica a esse respeito: às vezes, num surto inesperado qualquer, chego a fazer 20, 25 laudas num dia, sobretudo com textos fáceis, trabalhando oito, dez horas, e depois passo alguns dias sem fazer nada ou apenas duas ou três laudas, conforme vem a vontade. Tudo isso, naturalmente, supondo um texto não especialmente difícil. Para textos de maior dificuldade linguística, estilística ou temática, o rendimento é outro, cerca de metade ou dois terços disso. 

5. Quando realizou a sua primeira tradução? 
A primeira tradução profissional, digamos assim, ou seja, formalmente contratada e devidamente remunerada, foi em 1984, para a Editora Brasiliense. Era um livrinho do Perry Anderson, que saiu em português com o título de A crise da crise do marxismo. Já antes disso, eu gostava de traduzir artigos que achava interessantes (principalmente do Guy Debord, então pouco conhecido no Brasil), que eram publicados em alguns veículos da imprensa libertária (lembro-me dos baianos O inimigo do rei e Barbárie).

6. Até março de 2015, data da publicação da matéria, qual o número de obras que você traduziu? 
Hmmm, não sei dizer com certeza. Uns 120 livros, talvez, e uns vinte ou trinta artigos avulsos. Eu até mantinha uma listagem atualizada, mas nos últimos dois anos ando meio relapsa nisso.

7. Você vive das traduções? Paga-se bem ao tradutor? Quanto? As casas editoriais respeitam o tradutor? 
Sim, vivo exclusivamente de traduções. Olha, o preço de lauda que as editoras pagam aos tradutores varia incrivelmente, desde níveis vergonhosos até níveis que, para mim, são satisfatórios. Fica difícil dizer quanto. Mas creio que qualquer pessoa sensata só se dedicaria à atividade de tradução como única fonte de renda se a remuneração fosse suficiente para suas expectativas. No meu caso, com certeza é razoavelmente acima ou até bastante acima do salário de um professor universitário nos anos iniciais de carreira. Então, para mim está bom. Agora, para um pai ou mãe de família de classe média, com filhos para sustentar, com financiamento da casa para pagar etc., não creio que fosse tão satisfatório assim.
E sim, claro, as casas editoriais com as quais trabalho costumam respeitar bastante o tradutor. Bom, do contrário complica, não é mesmo? Quer dizer, a gente está na atividade porque é bem remunerada, é bem tratada, sente-se satisfeita, não é mesmo? Do contrário, por que se faria algo mal remunerado, sendo desrespeitado e se sentindo insatisfeito? Não faria sentido.

8. Considera o mercado editorial brasileiro profissional no que diz respeito a traduções? Pode apontar algum caso de profissionalismo? 
Ah, sim, altamente profissional! Estou acostumada a trabalhar para algumas editoras em caráter relativamente constante: Companhia das Letras, L&PM, Intrínseca, Objetiva, Zahar. São, todas elas, exemplos de alto profissionalismo na área de tradução, com excelentes editores. Não me lembro de ter trabalhado para alguma que pecasse por flagrante falta de profissionalismo - essas mal se sustentariam no mercado, imagino eu. Ademais, editoras que não zelam pela qualidade das traduções que publicam acabam fazendo um péssimo negócio, seja a curto, médio ou longo prazo. A maior bobagem que pode fazer uma editora é pagar mal ou desrespeitar seus profissionais.

9. O que é o maior problema para um tradutor? Pode citar algum caso seu, o qual foi difícil superar algum problema? 
Hmm, problemas sempre há: seja na tradução, com dificuldades que não consigo superar ou cujas soluções não me satisfazem plenamente; na preparação do texto, quando o revisor não entende bem o partido adotado na tradução ou mesmo falha em entender alguma coisa e faz intervenções desastradas; na divulgação da obra, quando cai na mão de algum resenhista de juízos demasiado rápidos ou desatentos, criticando infundadamente alguma coisa ou deixando de citar o nome do responsável pela tradução, e assim por diante. Mas faz parte.

10. Quais as suas traduções de que mais gosta? 
Ah, várias! Gosto muito de Piero della Francesca, de Roberto Longhi; de Walden, do Thoreau; de Mrs. Dalloway e Ao farol, ambas de Virginia Woolf (aliás, ambas premiadas). Recentemente tive uma experiência fabulosa, não nessa área mais lítero-humanística, e sim de ensaio de tipo jornalístico, que foi traduzir um livro sobre beisebol, de Michael Lewis, chamado Moneyball - foi sensacional, pois contratei um especialista para me orientar na área, visto que não entendo nada de beisebol e foi até meio imprudente de minha parte aceitar fazer essa tradução. Mas foi uma relação tão legal, tão séria, tão enriquecedora e ao mesmo tempo tão discreta e pouco invasiva que agora fico sonhando em desenvolver um novo tipo de trabalho, numa parceria assim. E o texto, achei que ficou ótimo - então estou adorando essa tradução também, por essa faceta inédita para mim.

11. Quem são os mais importantes tradutores em atividade no Brasil? 
Pergunta difícil, e inevitavelmente incorrerei em muitas injustiças, pois existe um grande número de bons, ótimos e excelentes tradutores em atividade no Brasil. Mas vamos lá: entre os grandes tradutores profissionais, sem dúvida destacam-se Ivo Barroso, Ivone Benedetti, Leonardo Fróes, Paulo Henriques Britto, Josely Vianna Baptista. Há outros grandes tradutores que não têm a tradução como atividade exclusiva e sequer principal, mas que são quase que uma espécie de "sal da terra" em nossa seara. Penso, por exemplo, em Marco Lucchesi, Jorio Dauster, Paulo Bezerra, Mamede Jarouche. Há um pessoal mais jovem, que começa a se consolidar e se destacar na área com trabalhos de alto nível, como Alípio Corrêa e Débora Landsberg. Mas, como disse, este é um exercício de injustiças, pois certamente há outros nomes de grande valor.

12. O que faz uma tradução ser considerada ruim? 
Bem formulada a questão, pois concede espaço para abrigar um fenômeno infelizmente não muito raro: pode ser desde a má vontade e - lamento dizer - eventual obtusidade de críticos e resenhistas até uma edição malfeita, com erros de revisão, má diagramação etc., que obscurecem a qualidade efetiva da tradução, até os casos mais triviais de incompetência do próprio tradutor, que leu, não entendeu e traduziu errado mesmo - e nenhum preparador ou revisor se deu conta dos erros e deixou passar. Em tempo: erramos, viu? Difícil encontrar alguma tradução que não contenha algum erro de entendimento ou de modulação.

13. O que eu não perguntei, deveria ter perguntado e você quer dizer sobre o assunto? 
Traduzir é uma delícia! Além de ser a coisa mais importante que existe. Já pensou um mundo sem acesso às línguas, obras e realizações de outras pessoas, de outras terras, culturas e épocas diferentes das nossas? Não dá nem para imaginar.




aqui "reconstruir um texto original", matéria de marcio renato dos santos utilizando excertos das entrevistas que vários tradutores demos.


2 comentários:

  1. Anônimo2.5.15

    pode falar mais um pouco sobre como chegou a O inimigo do rei?
    A propósito, onde se poderá lê-lo, hoje em dia?
    obrigado
    zeca

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  2. olá, zeca, naquela época - refiro-me ao final dos anos 70 e início dos anos 80, encontravam-me muitos veículos da chamada imprensa alternativa em bancas de jornal. mesmo morando em ctba. era possível comprar o inimigo do rei. não lembro bem, mas acho que comprei alguns exemplares, gostei, escrevi a eles propondo-me a traduzir algumas coisas do debord, eles toparam. depois, algum dissidente deles, já na barbárie, me escreveu sugerindo que passasse a colaborar com a revista (barbárie era revista, enquanto inimigo era jornal). topei.

    não sei onde vc pode encontrar exemplares do inimigo hoje em dia. em casa, ainda tenho alguns, mas guardados em algum lugar que não sei onde (minha biblioteca é razoavelmente grande e francamente caótica).

    mas tenho alguma lembrança de ter visto na internet, poucos anos atrás, alguns estudos ou artigos sobre o inimigo, e talvez até referências sobre os exemplares de época. tente googlar, pode ser que vc localize.

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