Entrevista a Cândido, 3 de fevereiro de 2015
1. Em primeiro lugar, quem é o tradutor? Ou melhor, quem pode
traduzir? Alguém que conheça a língua do livro a ser traduzido e também o
idioma para o qual o texto será vertido? É isso? O que mais?
Sim,
creio que o conhecimento das duas línguas, a de partida e a de chegada, são um
bom começo - um excelente domínio sobretudo da língua de chegada, em nosso caso
o português. Acredito também que o tradutor deve traduzir da língua estrangeira
para sua língua materna, e não vice-versa. São raros, raríssimos os casos de
estrangeiros que venham a conhecer tão bem o português que consigam autonomia
completa na língua - os exemplos que me ocorrem são os de estrangeiros
imigrantes ou de famílias imigrantes que acabaram se estabelecendo no Brasil,
como Elias Davidovich, Tatiana Belinky, Paulo Rónai, Boris Schnaiderman e
poucos mais.
Além do
conhecimento do par de línguas, creio ser quase indispensável um conhecimento
pelo menos geral dos assuntos tratados no texto. No caso de obras literárias,
isso significa um mínimo de conhecimento de história da literatura, de estilos
e escolas, bem como de técnicas literárias.
E, por
fim, prática e experiência. Mas, para começar, creio que bastam, sim, os
requisitos acima citados.
2. Há uma discussão, talvez superada, não sei, a
respeito do tradutor respeitar o texto original ou então reescrever com
liberdade. Qual a sua opinião sobre o assunto? Pode citar algum exemplo?
Ah, essa
é uma discussão infindável, interminável, em particular na tradução literária. Pessoalmente,
não conheço ninguém que defenda integralmente a ideia de "reescrever com
liberdade", em termos estritos. No caso, isso seria mais uma paráfrase ou
uma adaptação, e não tanto uma "tradução". Mas, tirando esses dois
extremos - uma reescrita livre e descolada do texto ou uma adesão servil ao
literalismo (que, no limite, nem faria sentido) -, há um extenso campo de
variações e modulações possíveis. O praticante mais radical de uma reescrita
livre seria, talvez, Ana Cristina César, a tal ponto que suas chamadas
traduções são, a rigor, textos apenas inspirados por um original, digamos
assim. Quanto ao literalismo mais colado ao original, há também o peso da
experiência: um exemplo são as duas traduções de Josely Vianna Baptista
para Paradiso, de Lezama
Lima, onde é possível ver seu amadurecimento desde aquela que foi sua primeira
tradução profissional, em 1987, e a reelaboração a que procedeu na edição
lançada agora em 2014.
3. Você tem vários livros traduzidos, da língua inglesa,
francesa e do italiano. É isso mesmo? De qual idioma mais traduziu?
Acrescento
que traduzi também algumas coisas do espanhol. Gosto muito das línguas
neolatinas e adoraria poder traduzir mais do francês e do italiano, mas, como a
demanda por traduções do inglês é muito maior, acabo traduzindo bem mais do
inglês do que de outras línguas.
4. Quanto tempo demora, em média, para traduzir uma lauda ou
uma página? Você se programa, no caso de uma tradução já acertada, para
trabalhar determinado número de páginas por dia ou pensa em caracteres ou
traduz até o seu limite de energia naquele dia?
Varia
muito, muitíssimo, de tradutor para tradutor e também em função do texto e de
suas dificuldades. Em meu caso pessoal, e em termos esquemáticos, foi assim: no
começo eu me estabelecia uma jornada de 44 horas semanais, rendessem o que
rendessem. Para livros de complexidade média, naquela época isso rendia cerca
de dez páginas ou doze laudas por dia, resultando numa faixa de trezentas
laudas ao mês, mais ou menos. Com o tempo, a experiência e sobretudo a
facilidade proporcionada pela internet, para consultas e pesquisas, minhas
horas de trabalho passaram a render mais laudas ou, dito de outra maneira,
passei a precisar dedicar menos horas para chegar àquele tanto de laudas
diárias. Hoje em dia, sou meio anárquica a esse respeito: às vezes, num surto
inesperado qualquer, chego a fazer 20, 25 laudas num dia, sobretudo com textos
fáceis, trabalhando oito, dez horas, e depois passo alguns dias sem fazer nada
ou apenas duas ou três laudas, conforme vem a vontade. Tudo isso, naturalmente,
supondo um texto não especialmente difícil. Para textos de maior dificuldade
linguística, estilística ou temática, o rendimento é outro, cerca de metade ou
dois terços disso.
5. Quando realizou a sua primeira tradução?
A
primeira tradução profissional, digamos assim, ou seja, formalmente contratada
e devidamente remunerada, foi em 1984, para a Editora Brasiliense. Era um
livrinho do Perry Anderson, que saiu em português com o título de A crise da crise do marxismo. Já
antes disso, eu gostava de traduzir artigos que achava interessantes
(principalmente do Guy Debord, então pouco conhecido no Brasil), que eram
publicados em alguns veículos da imprensa libertária (lembro-me dos baianos O
inimigo do rei e Barbárie).
6. Até março de 2015, data da publicação da matéria, qual o
número de obras que você traduziu?
Hmmm,
não sei dizer com certeza. Uns 120 livros, talvez, e uns vinte ou trinta
artigos avulsos. Eu até mantinha uma listagem atualizada, mas nos últimos dois
anos ando meio relapsa nisso.
7. Você vive das traduções? Paga-se bem ao tradutor? Quanto?
As casas editoriais respeitam o tradutor?
Sim, vivo
exclusivamente de traduções. Olha, o preço de lauda que as editoras pagam aos
tradutores varia incrivelmente, desde níveis vergonhosos até níveis que, para
mim, são satisfatórios. Fica difícil dizer quanto. Mas creio que qualquer
pessoa sensata só se dedicaria à atividade de tradução como única fonte de
renda se a remuneração fosse suficiente para suas expectativas. No meu caso,
com certeza é razoavelmente acima ou até bastante acima do salário de um professor universitário nos
anos iniciais de carreira. Então, para mim está bom. Agora, para um pai ou mãe
de família de classe média, com filhos para sustentar, com financiamento da
casa para pagar etc., não creio que fosse tão satisfatório assim.
E sim,
claro, as casas editoriais com as quais trabalho costumam respeitar bastante o
tradutor. Bom, do contrário complica, não é mesmo? Quer dizer, a gente está na
atividade porque é bem remunerada, é bem tratada, sente-se satisfeita, não é
mesmo? Do contrário, por que se faria algo mal remunerado, sendo desrespeitado
e se sentindo insatisfeito? Não faria sentido.
8. Considera o mercado editorial brasileiro profissional no
que diz respeito a traduções? Pode apontar algum caso de
profissionalismo?
Ah, sim,
altamente profissional! Estou acostumada a trabalhar para algumas editoras em
caráter relativamente constante: Companhia das Letras, L&PM, Intrínseca, Objetiva,
Zahar. São, todas elas, exemplos de alto profissionalismo na área de tradução,
com excelentes editores. Não me lembro de ter trabalhado para alguma que
pecasse por flagrante falta de profissionalismo - essas mal se sustentariam no
mercado, imagino eu. Ademais, editoras que não zelam pela qualidade das
traduções que publicam acabam fazendo um péssimo negócio, seja a curto, médio
ou longo prazo. A maior bobagem que pode fazer uma editora é pagar mal ou
desrespeitar seus profissionais.
9. O que é o maior problema para um tradutor? Pode citar
algum caso seu, o qual foi difícil superar algum problema?
Hmm,
problemas sempre há: seja na tradução, com dificuldades que não consigo superar
ou cujas soluções não me satisfazem plenamente; na preparação do texto, quando
o revisor não entende bem o partido adotado na tradução ou mesmo falha em
entender alguma coisa e faz intervenções desastradas; na divulgação da obra,
quando cai na mão de algum resenhista de juízos demasiado rápidos ou desatentos,
criticando infundadamente alguma coisa ou deixando de citar o nome do
responsável pela tradução, e assim por diante. Mas faz parte.
10. Quais as suas traduções de que mais gosta?
Ah,
várias! Gosto muito de Piero
della Francesca, de Roberto Longhi; de Walden,
do Thoreau; de Mrs. Dalloway e Ao farol, ambas de Virginia Woolf
(aliás, ambas premiadas). Recentemente tive uma experiência fabulosa, não nessa
área mais lítero-humanística, e sim de ensaio de tipo jornalístico, que foi
traduzir um livro sobre beisebol, de Michael Lewis, chamado Moneyball - foi
sensacional, pois contratei um especialista para me orientar na área, visto que
não entendo nada de beisebol e foi até meio imprudente de minha parte aceitar
fazer essa tradução. Mas foi uma relação tão legal, tão séria, tão
enriquecedora e ao mesmo tempo tão discreta e pouco invasiva que agora fico
sonhando em desenvolver um novo tipo de trabalho, numa parceria assim. E o
texto, achei que ficou ótimo - então estou adorando essa tradução também, por
essa faceta inédita para mim.
11. Quem são os mais importantes tradutores em atividade no
Brasil?
Pergunta
difícil, e inevitavelmente incorrerei em muitas injustiças, pois existe um
grande número de bons, ótimos e excelentes tradutores em atividade no Brasil. Mas
vamos lá: entre os grandes tradutores profissionais, sem dúvida destacam-se Ivo
Barroso, Ivone Benedetti, Leonardo Fróes, Paulo Henriques Britto, Josely Vianna
Baptista. Há outros grandes tradutores que não têm a tradução como atividade
exclusiva e sequer principal, mas que são quase que uma espécie de "sal da
terra" em nossa seara. Penso, por exemplo, em Marco Lucchesi, Jorio Dauster,
Paulo Bezerra, Mamede Jarouche. Há um pessoal mais jovem, que começa a se
consolidar e se destacar na área com trabalhos de alto nível, como Alípio Corrêa
e Débora Landsberg. Mas, como disse, este é um exercício de injustiças, pois
certamente há outros nomes de grande valor.
12. O que faz uma tradução ser considerada ruim?
Bem
formulada a questão, pois concede espaço para abrigar um fenômeno infelizmente
não muito raro: pode ser desde a má vontade e - lamento dizer - eventual
obtusidade de críticos e resenhistas até uma edição malfeita, com erros de
revisão, má diagramação etc., que obscurecem a qualidade efetiva da tradução,
até os casos mais triviais de incompetência do próprio tradutor, que leu, não
entendeu e traduziu errado mesmo - e nenhum preparador ou revisor se deu conta
dos erros e deixou passar. Em tempo: erramos, viu? Difícil encontrar alguma
tradução que não contenha algum erro de entendimento ou de modulação.
13. O que eu não perguntei, deveria ter perguntado e você
quer dizer sobre o assunto?
Traduzir
é uma delícia! Além de ser a coisa mais importante que existe. Já pensou um
mundo sem acesso às línguas, obras e realizações de outras pessoas, de outras
terras, culturas e épocas diferentes das nossas? Não dá nem para imaginar.
aqui "reconstruir um texto original", matéria de marcio renato dos santos utilizando excertos das entrevistas que vários tradutores demos.
pode falar mais um pouco sobre como chegou a O inimigo do rei?
ResponderExcluirA propósito, onde se poderá lê-lo, hoje em dia?
obrigado
zeca
olá, zeca, naquela época - refiro-me ao final dos anos 70 e início dos anos 80, encontravam-me muitos veículos da chamada imprensa alternativa em bancas de jornal. mesmo morando em ctba. era possível comprar o inimigo do rei. não lembro bem, mas acho que comprei alguns exemplares, gostei, escrevi a eles propondo-me a traduzir algumas coisas do debord, eles toparam. depois, algum dissidente deles, já na barbárie, me escreveu sugerindo que passasse a colaborar com a revista (barbárie era revista, enquanto inimigo era jornal). topei.
ResponderExcluirnão sei onde vc pode encontrar exemplares do inimigo hoje em dia. em casa, ainda tenho alguns, mas guardados em algum lugar que não sei onde (minha biblioteca é razoavelmente grande e francamente caótica).
mas tenho alguma lembrança de ter visto na internet, poucos anos atrás, alguns estudos ou artigos sobre o inimigo, e talvez até referências sobre os exemplares de época. tente googlar, pode ser que vc localize.