1 de set de 2010

entrevista, parte 2

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ontem saiu a segunda parte da entrevista que dei a cindy leopoldo, no publishnews.
Continuando a análise da produção editorial de um livro tradicional no contexto brasileiro atual, seguimos na tradução, antes de entrar no copidesque ou na preparação de textos, temas das próximas semanas. Hoje a coluna traz a parte final da entrevista com a tradutora Denise Bottmann, que discute o plágio, indica aos tradutores a leitura de autores nacionais e oferece uma análise interessante sobre como aumentar a qualidade dos textos ao mesmo tempo em que diminui os custos de produção dos livros.
a íntegra está aqui:  Investir em tradução - Parte 2

Investir em tradução para economizar depois - Parte 2

31/08/2010
 
Continuando a análise da produção editorial de um livro tradicional no contexto brasileiro atual, seguimos na tradução, antes de entrar no copidesque ou na preparação de textos, temas das próximas semanas. Hoje a coluna traz a parte final da entrevista com a tradutora Denise Bottmann, que discute o plágio, indica aos tradutores a leitura de autores nacionais e oferece uma análise interessante sobre como aumentar a qualidade dos textos ao mesmo tempo em que diminui os custos de produção dos livros.
 
O que é um plágio? Qual critério é usado para definir o plágio considerando que, de fato, os tradutores estão partindo de um mesmo texto?
Eu inverteria a consideração: há vários textos em português partindo de um mesmo original. A questão é: como é possível que textos de diferentes tradutores sejam iguais ou demasiado semelhantes entre si? Pois cada pessoa lê, interpreta, traduz e escreve de uma maneira que lhe é própria. E, aliás, é por isso que desde meados do século XIX o tradutor é, por força de lei, considerado autor: o texto traduzido tem uma originalidade própria, irredutível a qualquer outro texto. Assim, plágio é pegar um texto de tradução já pronto, copiá-lo com ou sem adulterações e tomar para si a autoria daquela tradução. Na verdade, o plágio de uma tradução pouco tem a ver com o texto originário: tem a ver com o texto de tradução previamente existente. A identificação dessa cópia fraudulenta requer, naturalmente, alguns critérios técnicos para medir o grau de similaridade entre a tradução original e a tradução copiada, e o respectivo grau de proximidade ou afastamento da obra originária – afora nos casos de cópia pura e simples ou com leves retoques para disfarçar a apropriação do texto alheio, que aí são praticamente autoevidentes. No dia em que houver a possibilidade de um mesmo texto idêntico escrito por diferentes tradutores, não haverá necessidade de tradutores. Qualquer BabelFish ou Google Translator produzirá exatamente o mesmo texto. E uma legislação mais do que secular terá de ser revista, retirando a figura do tradutor dentre os criadores de obra dotada de originalidade própria.
 
É necessário usar programas para facilitar a tradução? Eles não transformam o tradutor em um copidesque?
Não utilizo programas de tradução. Muitos tradutores, em geral, mas nem sempre, mais jovens do que eu, pelo que vejo em fóruns da Internet, não só elogiam vivamente programas de tradução, como usam como recurso constante, e tenho a impressão de que em alguns casos não trabalham sem tais programas (Trados, Wordfast). Como sou do tempo de fazer a tradução a lápis no papel e só passar à máquina em sua versão final, depois de lida, relida, revista e corrigida manualmente, já foi um avanço tremendo para mim no dia em que comprei uma IBM usada, com corretor de papelzinho, e comecei a fazer traduções diretamente nela. O mais vagabundinho processador de texto, um Word 2003, que é o que uso, já me parece algo fenomenal. Então acho que passei da idade de vir a me convencer da utilidade ou da conveniência dessas novas ferramentas em meu caso. Sobretudo para o tradutor técnico e comercial, acredito que devem ser realmente muito úteis e até já ouvi respeitados e respeitáveis tradutores técnicos e comerciais dizendo que, no futuro, os tradutores técnicos em sentido genérico serão basicamente revisores do texto produzido a partir de suas memórias de tradução. Mas são outras áreas, muito diferentes da minha. Espero poder continuar com minhas traduçõezinhas “artesanais” ainda por um bom tempo, tendo os dicionários como instrumentos de trabalho. 
 
Onde encontrar bons tradutores? Ou, como treiná-los?  
Aaaaah, não sei. Existem diversas faculdades no país que oferecem cursos de graduação e especialização em tradução. Existem também duas entidades que congregam tradutores, a ABRATES (Associação Brasileira de Tradutores) e o SINTRA (Sindicato Nacional de Tradutores). Não sou filiada, mas creio que eles mantêm uma espécie de “banco de tradutores”. Existem ainda e-groups e fóruns de tradutores na Internet. Imagino que em todos esses lugares é possível divulgar anúncios recrutando candidatos ou interessados em trabalhos de tradução.
 
Como você percebe uma péssima tradução?
Há de se distinguir entre tradução mal redigida (que pode estar correta, digamos) e tradução errada (que pode estar bem redigida). Pessoalmente, não gosto de traduções com um português muito “empedrado” ou que mostram demais a estrutura linguística do idioma de partida. Mas é o tipo de coisa que pode ocorrer sem que a tradução fique “péssima” por causa disso. O tradutor com um mínimo de experiência até pode fazer traduções médias ou medíocres, mas dificilmente fará uma tradução “péssima”. Acho também que é uma pergunta que cabe mais ao editor que vai avaliar a tradução que contratou.
 
Mas você acredita que, na verdade, hoje em dia nem leio muitas traduções? O pouco de tempo e neurônios que me sobram para leituras pessoais, depois de ler, traduzir e pesquisar o dia inteiro, tenho procurado dedicar a obras em português mesmo. Na verdade, se a gente só traduz, só traduz, e só lê coisa traduzida, nosso universo linguístico necessariamente acaba se empobrecendo muito. Algum tempo atrás eu estava relendo algum Machado e sabe aquela época em que as pessoas diziam muito “quero mais é xxxxx”? Ali, o personagem estava dizendo “quero mas é” qualquer coisa. Dei um pulo de alegria, e fez todo o sentido na minha cabeça que de fato fosse “mas”, e não “mais”, dando o sentido de reforço e ênfase com a inversão do adversativo. E fiquei muito feliz também em redescobrir o, digamos, quase castiço que perdura em nosso coloquial. A gente não pode perder nossa língua de vista. É maravilhoso ler nossos autores.
 
Na sua opinião, um bom profissional de copidesque pode “consertar” uma péssima tradução?
Desculpe, mas, em primeiro lugar, como é que uma editora chega a contratar alguém capaz de fazer uma “péssima” tradução? Bom, perante o fato consumado, acho que não há muito o que fazer: jogue fora e contrate uma nova tradução, antes dando-se ao cuidado de escolher um bom profissional... Até onde sei, péssimas traduções são publicadas apenas por uma ou outra editora que não se importa muito com os leitores ou que não percebe que a qualidade do livro traduzido depende basicamente da qualidade da tradução. Contra essa miopia, não sei se há remédio. Mas editora séria tem critérios de seleção e não creio que contrataria alguém que fizesse uma péssima tradução.
 
Olha, Cindy, séculos atrás, fui por algum tempo revisora e copidesque, mas nunca tive ocasião de conhecer uma péssima tradução, assim, ao vivo, entregue na mão, sabe como? Mas deve ser um trabalho infernal pegar uma pretensa tradução (pois se é péssima, nem dá para chamar de tradução, não é mesmo?) e tentar pô-la nos eixos. Tive, já quando traduzia desde alguns anos, uma experiência um pouco diferente, mas que tem algo a ver: um editor me entregou um livro dizendo “Olha, fulano de tal fez isso, é um cara bom, competente, trabalha há anos para a editora, mas a gente está estranhando um pouco esse texto, você dá uma olhada pra gente para ver o que é?” Ok, claro, disse eu. Fui ver, era uma montagem. Quer dizer, parecia que um capítulo era feito por uma pessoa, e outro por outra. Avisei o editor, mostrei o tipo de variação nos partidos tradutórios e nas soluções adotadas, o editor concordou, falou que também tinham achado aquilo, mas queriam de fato ter a opinião de outra pessoa, ficou p... da vida, claro, e pediu que eu desse uma uniformizada no texto. Quase morri. Depois de uma semana naquilo, voltei ao editor e disse que não dava, que mais valia encomendar outra tradução. E olhe que não eram textos ruins, mal escritos nem errados; eram corretos e normais, mas díspares, a coisa simplesmente não casava. Não sei como ficou. Acho que talvez o editor tenha passado a tarefa para alguém mais paciente do que eu. Digo isso porque quando o livro saiu constava o nome do mesmo tradutor. Isso faz um tempão. Nos últimos cinco anos, deixei de ler obras que até faria questão de ler ao perceber que as traduções assinadas por aquela pessoa tinham essa mesma característica: pimba, volta e meia você levava um tropeção, ia ver, era esse problema de não juntar direito dois textos de duas autorias diferentes. E nesses casos, que eram romances realmente fundamentais, em que a fluência seria indispensável, o texto truncado tornava especialmente difícil acompanhar a leitura, quem dirá ter prazer nela. Uma pena.
 
Mais recente foi um caso de emergência, em que uma assistente editorial estava aflita (eu nunca tinha trabalhado com ela, pois é de uma área que não faço) porque tinha confiado num superdoutor para uma tradução e a coisa parece que não tinha saído a contento, e não havia copidesque, editing, o que fosse, que conseguisse dar solução.  Não porque estivesse errada, mas porque estava meio arrevesada, meio “empedrada” (o que às vezes pode acontecer quando se adota um partido de “tradução por decalque”, quer dizer, demasiado presa à estrutura linguística da língua do original – o que, do inglês para o português, pode ficar bem esquisitinho). Era um catatau razoável. Uma área que eu não conhecia. Um prazo exíguo. Fazer o quê? Não podia deixar a moça na mão. Fiz, deu certo, até antecipei a entrega, e, como trabalho de maneira que geralmente minhas traduções não passam por copidesque e vão direto para a preparação, acho que isso também contribuiu para que ficasse tudo ok no final, dentro do cronograma. Mas isso para dizer que “tradução péssima”, de precisar encomendar outra, ocorre com quem não sabe traduzir. É incrível isso, né?
 
O cara pode conhecer 1000% a língua de origem e 1000% a língua de chegada, pensa que dá conta e calha de sair uma coisa insatisfatória: claro, porque o problema, a tarefa específica no ofício de tradução não é tanto ter um domínio maior ou menor dos idiomas, e sim como transpor coisas que só fazem sentido dentro de uma determinada estrutura linguística para dentro de outra estrutura linguística, tentando reconstituir o sentido sem demasiada perda nessa passagem. É mais uma questão de quebra-cabeças do que qualquer outra coisa, penso eu. É por isso também que acho que a gente, como tradutor, tem de ler mais em nossa língua do que obras traduzidas, para não perder o feeling da coisa, manter um vocabulário diversificado e uma certa desenvoltura de redação em nossa própria língua.
 
Uma coisa que temos visto é que a produção de livros está crescendo muito e muito rapidamente. Os departamentos editoriais muitas vezes precisam de mais tradutores (na verdade, de tradutores, copidesques, revisores, indexadores etc.) do que têm em seus contatos. Por isso, precisa frequentemente experimentar profissionais que não conhece e aí a surpresa pode ser boa ou ruim. Imagine que, por exemplo, considerando seu prazo como base, cada tradutor pegue, no máximo, até 10 livros no ano para traduzir. Tendo em mente que a produção anual de títulos no Brasil (segundo a pesquisa atual da CBL/Snel/Fipe, tivemos 52.509 títulos produzidos em 2009), ainda que metade seja de autor nacional, precisaríamos de aproximadamente 2.625 tradutores por ano! E se fossem 262 nós já teríamos IMENSAS dificuldades para encontrar os que dominam a língua de partida, a língua de chegada, são “bons de quebra-cabeças”, não atrasam e aceitam os valores oferecidos (que, sim, geralmente são baixos, mas que são, também geralmente, os maiores de todo o processo editorial).
Apenas a título de reparo, e depois comento a questão. Dos 52.509 títulos lançados em 2009, segundo o relatório da FIPE e se não me falha a memória, cerca de 30 mil são reedições. Restariam 22 a 23 mil títulos novos. Segundo o SNEL, entre 25 e 30% dos títulos lançados são traduzidos. Digamos, portanto, que em 2009 foram lançadas de 6 a 8 mil traduções, digamos 7 mil como base. Desses 7 mil tem que ver o que é infantil, juvenil, autoajuda, linha rosa, literatura de entretenimento, literatura mais elaborada, negócios, administração, esotéricos, ciências humanas, técnicas, biológicas e exatas. Para dizer: graus de complexidade variáveis. Acho que sim, que você precisaria de uns mil tradutores atuantes, na base de sete livros (como a gente sabe que o predominante são linhas menos complexas, sete livros como média me parece bem tranquilo, com bons prazos médios). Tá, digamos que teria de se incorporar uma margem de segurança para abrigar “quebra” no fluxo: nesse cálculo, imagino que 1.200 tradutores dariam e sobrariam!
 
Bom, continuando: “E se fossem 262 nós já teríamos IMENSAS dificuldades para encontrar os que dominam a língua de partida, a língua de chegada, não atrasam” – NÃO! Pelo que sei, existem centenas e centenas de tradutores que cumprem o acordado, e de médio a alto gabarito. Não sei se estão disponíveis, o que são outros quinhentos.
 
“e aceitam os valores oferecidos (que, sim, geralmente são baixos,” – BINGO! Aí sim, parece-me sensato supor que você teria dificuldade em encontrar bons ou médios tradutores disponíveis a um estalar de dedos. Talvez nem 26, seguindo a divisão por 10 que estamos fazendo aqui, pois pelo que tenho lido, e concordo com você, parece que o mercado de tradução editorial anda um pouco aquecido, com uma demanda maior do que a oferta. Mas isso, a médio prazo, tende a se ajustar e pode inclusive se inverter, em vista da quantidade de cursos de tradução que vêm se multiplicando nos últimos anos. E aí a oferta pode se equilibrar ou superar a demanda, e o nível de remuneração poderá entrar em curva descendente ou assumir uma tendência de queda. É o mercado.
 
“mas que são, também geralmente, os maiores de todo o processo editorial” – É, já ouvi dizer isso também. Mas acompanhe meu raciocínio, que é apenas hipotético, e veja se lhe parece plausível: dependendo da planilha de custos que se monta para um determinado livro ou mesmo para um determinado segmento do catálogo, pode haver a possibilidade de remanejamento de recursos destinados às várias etapas do processo. Por exemplo, existem casos em que uma das etapas não é vitalmente necessária porque tal ou tal corpo de colaboradores trabalha de uma maneira que permite dispensá-la, ou tal ou tal leque de produtos não requer aquela etapa, sem prejuízo para a qualidade final. Mantendo a mesma previsão de custo total, sem transferir esses recursos para capital de giro, fundos da empresa ou aumento das margens, se redistribuí-los para aumentar o percentual destinado à tradução, é razoavelmente provável que se consiga ter maior “sinergia”, como se dizia antigamente, com uma “fidelização” de um profissional que anteriormente poderia ser um tanto “volátil”, digamos.
 
Não me parece desarrazoado que uma empresa possa preferir contar com colaboradores constantes (o que também tem um impacto positivo nos custos de produção, e portanto poderia vir a se refletir financeiramente nos patamares de remuneração). É política de empresa, claro. Não só em empresas editoriais. Qualquer empresa que deseja manter constância de seus quadros trabalha com políticas de incentivo. E me parece razoável supor que, em termos empresariais, essa estabilidade do corpo de colaboradores apresenta maiores probabilidades de resultar numa qualidade mais constante dos produtos: não só devido à maior satisfação do quadro de colaboradores, a qual tende a contribuir para melhorar a produtividade ou rendimento, digamos assim, mas também pela maior experiência que vêm a adquirir dentro dos padrões desejados pela empresa – aliás, ajudando a evitar prejuízos (não só financeiros) decorrentes de um grau indesejado de rotatividade e oscilações no padrão de qualidade dos produtos que a empresa lança no mercado (oscilações essas que também têm um custo, sobretudo de “imagem” e “confiabilidade”, que se expressa na resposta do cliente).
 
Mas, como disse, é um raciocínio apenas teórico, e diz respeito a políticas de empresa, coisa que, claro, escapa totalmente à minha competência. E “cada um sabe onde lhe dói o calo”, isto é, cada empresário faz suas avaliações da maneira que lhe parece mais sensata do ponto de vista global da saúde da empresa. Mas, a mim, olhando de fora e dando palpites aonde não fui chamada, parece que baixa remuneração e trabalho qualificado são quase como água e óleo, não se misturam. O trabalho mais qualificado, na ponta do lápis e num cálculo imediato, até pode parecer mais caro no curto prazo, mas tenho a impressão de que no médio e longo prazo talvez possa assegurar uma lucratividade maior, ou mesmo no curto prazo possa permitir enxugar despesas e ganhar agilidade (pois o tempo também é uma variável mensurável em termos administrativos e financeiros) em outro ponto da cadeia produtiva, não só mantendo, mas com sorte até conseguindo diminuir o custo total do produto final. Ainda mais num momento em que a produção editorial está aumentando, a concorrência provavelmente também, e em que a demanda de profissionais do setor é maior do que a oferta, é natural que o empresário do setor se veja perante uma situação que pode motivá-lo a repensar ou a desenvolver novos aspectos mais “sinérgicos” em sua estratégia. E claro que também pode preferir continuar como está para ver como fica, ou apostar em outras variáveis do negócio como um todo (p.ex., imagino que o advento dos e-books deva estar obrigando a várias revisões ou reformulações de prioridades e adequações nas estratégias das editoras).
 
Bom, mas só para concluir meu raciocínio: como toda empresa conhece e vive na carne essa lei básica e essas oscilações do mercado, imagino que mesmo a política de “querer mais pagando menos” pode ser uma estratégia de negócios plenamente consciente, lastreada em várias avaliações da relação custo-benefício sob vários ângulos: se, após análise, tal estratégia ainda continua a parecer a mais adequada, suponho que se embute a estimativa dos riscos no cálculo geral da coisa e toca-se a bola pra frente.
 
Agradeço imensamente a ajuda de Carolina Leal e Rebeca Martins!
 

e a parte 1 está aqui.

Investir em tradução para economizar depois (1/2)

17/08/2010
 
A ordem das minhas colunas talvez pareça caótica para os leitores, mas, usando uma boa resposta de autor, posso afirmar que ela tem uma lógica muito clara – para mim –, que é a seguinte: estou seguindo o trabalho do editorial descrito na coluna de 06/07/2010 com algumas pausas para comentar as reações ao que escrevo.
 
A coluna de hoje é mais uma “de sequência”, falaremos sobre a tradução. Sim, “falaremos”, no plural, porque jamais traduzi e por isso resolvi pedir ajuda a tradutores experientes para que eles pudessem expor sem intermediários as questões de sua área. E hoje teremos aqui Denise Bottmann, do corajoso Não gosto de plágio, que terá sua entrevista dividida em duas partes.
 
Bem, aqui na coluna o centro é o departamento editorial, então tudo é visto em relação a ele. E, para o editorial, a tradução define sozinha grande parte da qualidade de um livro. Mesmo considerando que teremos depois dela ao menos um copidesque, uma revisão técnica e duas revisões tipográficas, sabemos bem que se a tradução for ruim dificilmente teremos um bom livro no final.
 
Vamos lá:
 
Quantos trabalhos em média você faz ao ano?
Depende do tamanho do livro e da complexidade da obra. Levo de 45 a 60 dias para traduzir um livro médio (300 páginas, i.e., cerca de 400 laudas de 2100 toques com espaço) de complexidade média. Em casos excepcionais, atendo a alguma solicitação de urgência da editora, e aí, eventualmente, a coisa vai mais rápido. Assim, em média, dá uns seis, sete livros por ano.
 
O que faz com que você diga “não” a um trabalho?
Basicamente, três ou quatro razões: quando não tenho domínio ou pelo menos um pouco de familiaridade com o assunto da obra; quando os prazos são demasiado estreitos; quando minha “agenda”, por assim dizer, está muito lotada; e eventualmente quando alguma editora meio desatualizada quanto às faixas de remuneração faz propostas de pagamento um tanto inusitadas.
 
E quais são as faixas de remuneração?
Olha, não sei dizer. Curiosamente, parece até ser uma espécie de segredo de estado que o setor gosta de guardar ciosamente. Na verdade, e não é má-vontade, é verdade verdadeira, só sei o que eu recebo. Mas, pelo que posso depreender de algum comentário aqui e ali nos fóruns de tradutores na internet, cheguei a ter notícia de propostas a R$ 20,00 a lauda, e uns dois anos atrás já me ofereceram traduções que iam de R$ 18,00 a 25,00 a lauda. Aí não tem como. Por outro lado, sei de vários tradutores e algumas editoras que trabalham com um X de remuneração mais um percentual Y sobre as vendas. Tradutores muito consagrados e/ou de línguas menos usuais, ao que sei, também têm faixas diferenciadas. Então, pelo que entendo, há um espaço razoável de negociação. Na verdade, na resposta anterior eu me expressei mal: então reformulo – “quando alguma editora apresenta propostas de pagamento um tanto defasadas em relação às faixas de remuneração com que eu pessoalmente trabalho”.
 
Você calcula o prazo necessário de acordo com laudas por dia?
Geralmente a editora, ao oferecer aquela proposta de tradução, já dá uma base dos prazos, que costumam ser mais do que suficientes. Mas pode acontecer que a complexidade do texto seja maior do que eu imaginava, e aí, para ter margem de segurança, aviso a editora e peço que estipulem um prazo mais dilatado. Acho fundamental estabelecer de partida, ou logo no começo, os prazos que atendam à necessidade da editora.
 
Leio em seu blog diversas denúncias de plágio de tradução. Na maior parte das editoras, esse seria um problema a ser detectado e corrigido em seus departamentos editoriais, já que geralmente é ele que contrata e avalia a tradução. Considerando que o editorial costuma ter muito pouco tempo para cada livro e que o processo de fusão ou compra de editoras é bastante frequente (isto é, há editoras que compraram todo o catálogo de outras e não participaram da produção daqueles livros), qual método você considera mais prático para a detecção dessa fraude? Qual o seu método?
Vixe, daria um tratado! Vamos lá: em primeiro lugar, nesses dois anos e meio de pesquisa, cheguei à conclusão de que são relativamente poucas as editoras que lançam mão da “apropriação indébita”, digamos assim, de traduções. E essas poucas aparentam recorrer com certa frequência a tais práticas. Algumas dessas que lançam ou lançavam mão de plágios ou apropriações de traduções alheias até nem existem mais, fecharam, mudaram de razão social ou foram adquiridas por outras editoras. Outras editoras, mediante contato e diálogo, tiveram por bem tirar de circulação e catálogo as edições com problemas, afiançando que poriam fim a tal prática. Digo isso pelo seguinte: minha impressão não é que algum tradutor delinquente esteja ou estivesse impingindo uma fraude à editora. Minha impressão é que, nestes casos, trata-se ou tratava-se de uma opção editorial consciente.
 
Portanto, dificilmente seria “um problema a ser detectado e corrigido em seus departamentos editoriais, já que geralmente é ele que contrata e avalia a tradução”, pois, como disse, tenho a impressão de que seriam casos de políticas empresariais dentro dessas poucas editoras, que evidentemente, portanto, não teriam chegado a contratar qualquer tradução para tais obras. De modo geral, nos contatos que tenho mantido com essas editoras, a explicação que ouvi em vários casos é que a responsabilidade coubera a algum coordenador editorial, supostamente sem o conhecimento do proprietário, e que, atualmente, esse editor nem estaria mais na empresa.
 
Quanto ao método que utilizo, veja uma coisa interessante: a esmagadora maioria dessas obras fraudadas corresponde a obras clássicas, de referência praticamente obrigatória na área de literatura, filosofia e ciências humanas (e, assim, com baixa qualidade gráfica, papel de não muito boa qualidade e a preços populares – mesmo porque o item editorial mais expressivo no custo de um livro é a tradução, até onde sei, e sendo traduções “roubadas” também criam concorrência desleal, ao eliminar um dos principais custos, barateando fraudulentamente suas edições e aumentando suas margens de lucro – atendem a uma enorme demanda que se criou principalmente nas faculdades após 1998, com a proibição da fotocópia pela atual lei de direito autoral).
 
Por um lado, como gosto muito de ler, tenho a sorte de dispor de uma biblioteca razoável em casa, que fomos, meu marido e eu, montando ao longo dos anos. Então, em vários casos, bastava-me comprar o título que me parecia bizarro e consultar edições antigas que tenho em casa. Foi como iniciei meus cotejos. Com o desenvolver das pesquisas de outros títulos, naturalmente tive que começar a procurar edições que não havia em nossa biblioteca. E aí, veja você, quanto à Biblioteca Nacional: que coisa! Muito infelizmente, nem todas as editoras atendem ao que dispõe a Lei do Livro e nem todas enviam exemplares de suas edições para o devido depósito legal e a constante atualização de nosso acervo bibliográfico nacional. Por outro lado, o site da Biblioteca Nacional é bastante eficiente e as consultas eletrônicas fornecem muitos dados do que ela tem em acervo. De modo que as fontes mais completas, digamos assim, para localizar edições antigas são os sites dos sebos ou da própria Estante Virtual.
 
Da mesma maneira como são poucas editoras que lançam mão dessas práticas ilegais e são relativamente poucos os nomes dos falsos tradutores que se repetem em incontáveis obras, também acontece que, como primeiro filtro, são relativamente poucas as editoras saqueadas com mais assiduidade, digamos assim. Por exemplo, entre três ou quatro traduções legítimas de uma mesma obra, que também tenha sido publicada em edição um tanto suspeita, é muito mais provável que, se de fato ocorreu um plágio, tenha sido em cima de uma edição mais antiga ou de uma editora que já encerrou suas atividades do que de uma editora viçosa e expressiva no cenário contemporâneo (embora isso também tenha ocorrido num ou noutro caso).
 
Na maioria, são de fato obras esgotadas há décadas, abandonadas, largadas, que ainda não entraram em domínio público. Assim, selecionando num primeiro filtro essas traduções semiesquecidas de antigas editoras, encomendo os livros e recebo em casa, onde procedo aos cotejos, aí sim, claro, comparando um a um (imagine a fortuna que já gastei e a quantidade de traduções das mesmas obras que tenho em casa!). Mas nem sempre localizo a fonte exata, e aquele livro que me desperta alguma desconfiança fica de lado, para retomar adiante. Foi até curioso, porque entre a semana retrasada e a passada, meio por acaso, localizei três traduções antigas de edições espúrias que fazia uns dois anos que eu não conseguia localizar! Encomendei tudo, as edições antigas já chegaram, comecei a analisar, e, concluindo, passo a publicar no blog. Também costumo fazer um levantamento da presença desses títulos espúrios usados em teses, artigos, programas de curso, editais e licitações públicas para aquisição do governo etc., e publico esses
 
Nos concentrando agora nas boas práticas editoriais, quais deveriam ser incentivadas? Cito como exemplo a inserção do minicurrículo dos tradutores, que acho importante e simples de ser feito pelas editoras.
Mas essa sua ideia de inserção de minicurrículo dos tradutores me parece muito boa: a editora Hedra tem esse hábito, e recentemente a Civilização Brasileira lançou uma edição assim, Papéis inesperados, de Julio Cortázar, em tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Até saudei a iniciativa em meu blog. Aliás, parece que a antiga José Olympio tinha esse hábito em sua coleção Fogos Cruzados, dos anos 40 e 50. Pelo menos é o que vejo em alguns exemplares que tenho em casa, e poucos dias atrás publiquei no blog a página referente a Costa Neves, em sua tradução de Um jogador (cuja primeira edição saiu em 1948, se não me engano, e foi “surripiada” por uma editora atual).
 
E algumas editoras, como a Cosac, a Cia. das Letras, a Martins, mantêm um perfil de seus colaboradores em seus respectivos sites, o que também me parece muito legal. Outra boa coisa seria que os sites das livrarias também incluíssem os nomes dos responsáveis pelas traduções nos livros à venda. Quando tive contato com algumas delas, disseram que não colocavam porque nos releasesenviados pelas editoras, que usavam para cadastrar os dados dos livros, não costumavam constar os créditos de tradução. Se isso for verdade, creio que seria legal se todas as editoras pudessem adotar sistematicamente o hábito de dar os devidos créditos. O mesmo em relação a seus próprios sites: quantas editoras não incluem um dado tão fundamental quanto o nome do tradutor! Aliás, por lei, seria obrigatório, até onde consigo entender.
 
Outro aspecto que me preocupa: os livros lacrados em livrarias, bancas etc. Não tenho dúvidas: quando vou comprar algum livro traduzido e ele está lacrado e não consta o nome do tradutor na capa ou na contracapa, peço para abrirem para eu poder saber o que estou comprando. Aliás, acho que este é um ponto que alguma das entidades de tradutores poderia tomar a si, e lutar para que se cumpra a lei.
 
Pessoalmente, estou insistindo com a ABNT para que retifique a norma referente às referências bibliográficas: hoje em dia, o nome do tradutor é classificado na 6023 e na 6029 como dado complementar opcional. Por lei, é dado obrigatório e teria de ser normalizado como essencial.
 
E os contratos de cessão de direitos autorais? O que mudaria neles de acordo com a atual revisão da lei dos direitos autorais?
Os contratos variam de editora para editora, e sempre é possível negociar caso a caso. Tenho acompanhado bastante o debate para a modernização de alguns pontos da atual LDA 9610/98, sobretudo no aspecto do acesso a obras órfãs e esgotadas. Pois o que ficou muito evidente nesse trabalho de pesquisa de plágios de tradução foi que, na imensa maioria dos casos, as traduções copiadas e atribuídas a outrem eram justamente de edições esgotadas há décadas, mas que ainda não ingressaram em domínio público. Então são traduções dos anos 30, 40, 50 das quais ninguém mais se lembra, não estão em DP, e acabam abastecendo espuriamente catálogos de algumas editoras.
 
Além do problema da concorrência desleal que certamente deve afetar as editoras íntegras, vejo isso como uma dilapidação de nosso patrimônio lítero-tradutório (como diz Jorio Dauster, é como violar sepulcros). São traduções esgotadíssimas, antigas, que ficam no que chamo de “limbo editorial” e, em alguns casos, de “baú mofado das editoras”, que infelizmente acabam sendo saqueadas. Até por isso também sou muito favorável a que haja uma redução do período de proteção das obras para que ingressem em domínio público, adotando o recomendado pela Convenção de Berna: no Brasil, atualmente é de 70 anos após a morte do autor (tradutor), sendo que a convenção internacional adotada no Brasil prevê o prazo mínimo de 50 anos post mortem.
 
Quanto a alterações especificas nos contratos de cessão, não observei nenhuma alteração de grande monta. O que vi é que, nesta atual proposta, ficaria claramente especificado no capítulo sobre os contratos de edição que ele se aplica também a tradutores, ilustradores etc. Na prática, para mim não altera muito, ou nada, pois me parece ser uma especificação para os casos de editoras que não fazem contratos de direitos autorais, e sim de prestação de serviços. Não sei quais seriam as editoras com esse tipo de procedimento, mas já ouvi falar sim de um ou outro tradutor que se vê obrigado a emitir nota fiscal ou recibo de prestação de serviços para a editora que encomendou a tradução. Então imagino que este acréscimo na atual LDA visa a esclarecer melhor este aspecto: a obra de tradução tem direitos de autor, e a forma contratual de negociar direitos de autor é por CDA, e não por NF ou RPA, o que me parece bastante evidente.
 
O que também está sendo proposto, e que sinceramente ainda não entendi muito bem, é a recriação da figura da “obra sob encomenda”, que existia na lei de 1973 e foi eliminada na de 1998. Creio que vem bastante vinculada a essa inclusão de um parágrafo explícito com tradutores, ilustradores, repórteres fotográficos, no capítulo dos contratos de edição, e remetendo ao fato de serem obras criadas a partir de uma encomenda: para não recair na ambiguidade de prestação de serviços, empresa de tradução ou CDA, entendo que nesse capítulo da obra sob encomenda fica ali explícito que se trata de um contrato de cessão, junto com um contrato de edição.
 
Acho que pode ser interessante, pois, como disse, conheço casos de tradutores que recebem suas remunerações com descontos de ISS e INSS, que de fato não se aplicariam a um CDA (onde se retém apenas a alíquota de IRPF). Mas ainda não tenho plena clareza se entendi bem e quero ver se antes do prazo final da consulta pública (que vai até dia 31 de agosto) consigo formar uma opinião mais definida.
 
Denise Bottmann, curitibana, 55 anos, historiadora, pesquisadora e tradutora na área de humanidades. Blog: http://naogostodeplagio.blogspot.com
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