22 de set de 2010

emerson, ensaios

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o nome de "jean melville" - que, com pietro nassetti e "alex marins", compõe a mais impressionante tríade de tradutores de que se tem notícia em língua portuguesa, com pretensas traduções publicadas pela editora martin claret - consta também num volume chamado ensaios, de ralph waldo emerson.

é mais uma daquelas edições cuja página de créditos parece um prêt-à-porter, como comentei no caso d'as viagens de marco polo ou d'o jogador de dostoiévski.


o volume traz uma montagem interessante: tem os doze textos que compõem os originais essays - first series, mas, sem qualquer razão ou nota explicativa, acrescenta (e como primeiro ensaio!) character - que, originalmente, é o terceiro texto dos essays - second series.

diga-se de passagem que, com esse acréscimo um tanto gratuito, o cuidadoso ordenamento original da obra acaba alterado. deve parecer um detalhe insignificante para a editora.

a tradução de caráter, nesta edição claretiana atribuída a "jean melville", não guarda mistérios sobre sua origem: é cópia fielmente fiel, lealmente leal, integralmente integral da antiga tradução de sarmento de beires e josé duarte, publicada em ensaístas americanos, volume XXXIII da clássicos jackson, 1950. o ensaio está disponível no site ebooksbrasil, com todas as devidas referências.

os demais ensaios da coletânea claretiana vêm de outra fonte, e arrebicados de alguns pobres cosméticos e canhestra copidescagem. esta outra fonte, lamento dizer, é o volume ensaios publicado pela editora imago em 1994, esgotadíssimo. a tradução foi feita a quatro mãos, por carlos graieb e josé marcos mariani de macedo.

posso apontar várias diferenças. por exemplo, e talvez não por acaso,* um começo de parágrafo no começo de um dos ensaios, autoconfiança:

graieb/macedo:
Li outro dia alguns versos, escritos por um eminente pintor, que eram originais e nada convencionais. A alma sempre ouve uma admonição em tais poemas, seja o assunto qual for.
"jean melville":
Um dia desses li algumas poesias, muito originais e nem um pouco convencionais. Independentemente do assunto, em poemas como esses a alma sempre ouve um conselho.
mas no mesmo ensaio, também no começo, encontro:

graieb/macedo:
Lança o guri às rochas,/ Amamenta-o com o leite da loba;/ Hibernando com o falcão e a raposa,/ Que suas mãos e pés tenham poder e velocidade.
todos hão de convir que "lança o guri às rochas" para cast the bantling on the rocks é uma solução bastante pessoal. o que não obsta encontrarmos:

"jean melville":
Lança o guri às rochas,/ Amamenta-o com o leite da loba;/ Hibernando com o falcão e a raposa,/ Que suas mãos e pés tenham poder e velocidade.
um pequeno detalhe cômico:

macedo/graieb:
A objeção a conformar-se a usos que se tornaram mortos para vós é a de que eles dissipam vossa força.
"jean melville":
O aviltamento a resignar-se a usos que já morreram para vós é o de que eles dissipam vossa força.
tirando o fato de que emerson está falando em "conformar-se" (to conform), que não significa "resignar-se" e sim proceder em conformidade com alguma coisa, a impressão que se tem é que a "objeção" se transformou em "aviltamento" porque a cópia escaneada estaria meio confusa, o "tradutor" leu "abjeção" e praticou sua habitual tradução por sinonímia.*

também acho engraçado que a edição da imago traga o original de um poema de emerson com dois erros tipográficos no mesmo verso: surchanged and sultry with a powder (p. 182, em vez de surcharged and sultry with a power), e que as mesmíssimas gralhas ressurjam na edição da claret à p. 175.

abaixo segue uma ilustração realmente instrutiva desses procedimentos. mostra a improvável coincidência poética, o rude copidesque da prosa, a fiel preservação de frases no meio e final do parágrafo.


* sobre "jean melville", um ex-colaborador da editora martin claret comenta: "eram inventados nomes 'estrangeirados' que podiam dar a aparência de tradutores confiáveis e autorizados. Por exemplo: 'Jean Melville'. 'Jean' é o nome do filho do Sr. Claret; Melville, todos sabem, o sobrenome do autor de Moby Dick, esta uma obra editada pela editora, que portanto estava na ordem do dia". sobre o escaneamento das traduções legítimas para a posterior adulteração, relata que "havia um 'departamento' que o fazia, como em linha de produção". sobre a tradução por sinonímia, "a questão não era exatamente a de trocar termos 'rebuscados' por 'fáceis' ... mas sim por 'sinônimos'. Solicitava-se alterar sobretudo inícios e finais de parágrafos, para que 'não desse na vista'" (saulo krieger, pseudotraduções).

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



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