16 de set de 2010

perplexidades II

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[continuação; veja perplexidades I]

prosseguindo a pesquisa sobre noites brancas e outras histórias, de dostoiévski, com tradução atribuída ao nome de isa silveira leal na edição martin claret, encontrei na internet um arquivo em pdf com a novela o subsolo na tradução de ruth guimarães, na coletânea os mais brilhantes contos de dostoiewski, pela ediouro (1966; reed. 1970).

o primeiro capítulo da tardia tradução em nome de isa silveira leal pela martin claret segue abaixo:


 
quanto à tradução de ruth guimarães, pode ser vista na íntegra em vários sites, por exemplo no recanto das letras ou no scribd. reproduzo abaixo o texto do primeiro capítulo.
O Subsolo

I

EU SOU um homem doente... Sou um homem malvado. Sou um homem desagradável. Creio que tenho uma doença do fígado. Aliás, não compreendo absolutamente nada da minha moléstia e não sei mesmo exatamente onde está o mal.

Não me cuido, nunca me cuidei, se bem que estime os médicos e a medicina. Demais, sou extremamente supersticioso, o bastante, em todo o caso, para respeitar a medicina (sou bastante instruído: poderia então não ser supersticioso, mas sou). Não! Se não me trato, é pura maldade de minha parte. Não sabereis certamente compreender. Pois bem! eu compreendo. Não poderei evidentemente explicar vos em que errei, agindo tão malvadamente: sei muito bem que não são os médicos que eu incomodo, recusando-me a tratar-me. Não engano senão a mim mesmo; reconheço o melhor que ninguém. Entretanto, é mesmo por malvadez que não me trato. Sofro do fígado! Tanto melhor! E tanto melhor ainda se o mal piora.

Há muito tempo já que eu vivo assim: uns vinte anos, pouco mais ou menos. Fui funcionário, pedi demissão. Fui um funcionário muito ruim. Era grosseiro e tinha prazer em sê-lo. Podia bem me compensar desta maneira, pois que eu não aceitava gorjetas (esta brincadeira não tem graça; mas não a suprimirei. Escrevi-a crendo que teria espírito; não a apagarei, entretanto, expressamente; porque vejo que queria me dar ares de importância). Quando os solicitantes em busca de informações se aproximavam da mesa diante da qual eu estava sentado, eu rangia os dentes; sentia uma volúpia indizível, quando conseguia causar lhes algum aborrecimento. Conseguia o quase sempre. Eram geralmente pessoas tímidas, acanhadas. Solicitantes, pois quê! Mas havia às vezes presumidos entre eles, petulantes, e eu detestava particularmente certo oficial. Ele não entendia de submissão e arrastava o grande sabre, de um modo detestável. Durante um ano e meio movi lhe guerra, por causa desse sabre, e finalmente saí vencedor: ele parou de teimar. Isto, aliás, se passava no tempo da minha mocidade.

Ora, sabeis, senhores, o que excitava sobretudo minha raiva, o que a tornava particularmente vil e estúpida? É que eu me inteirava vergonhosamente, mesmo quando a minha bílis se esparramava mais violentamente, que eu não era mau homem, no fundo, não era nem mesmo um homem azedo, e que tomava gosto, muito simplesmente, em assustar os pardais. Tenho espuma na boca; mas, trazei me uma boneca, oferecei me uma chávena de chá bem doce, e é provável que eu me acalme; sentir me ei mesmo muito comovido. É verdade que, mais tarde, morderei os punhos de raiva, e de vergonha perderei o sono durante alguns meses. Sim, eu sou assim.
Menti antes, quando disse que tinha sido um mau funcionário. Foi por despeito que menti. Tentava muito simplesmente distrair-me com os solicitantes e esse oficial, e nunca pude conseguir tornar-me realmente mau. Com efeito, verificava sempre em mim a presença de um grande número de elementos diversos que se opunham violentamente. Sentia-os fervilharem em mim, por assim dizer. Sabia que estavam presentes sempre e aspiravam a manifestar se do lado de fora, mas eu não os deixava; não, não lhes permitia evadirem-se. Atormentavam me até à vergonha, até às convulsões. Oh! como eu estava fatigado! como estava saturado!

Mas não vos parece, senhores, que eu me arrependo e que vos peço perdão de não sei que crime? Estou certo, senhores, que ides imaginar isso... Mas aliás, digo-vos que, quer vós o imagineis ou não, isso me é indiferente... Jamais consegui nada, nem mesmo me tomar malvado; não consegui ser belo, nem mau, nem canalha, nem herói, nem mesmo um inseto. E agora, termino a existência no meu cantinho, onde tento piedosamente me consolar, aliás sem sucesso, dizendo me que um homem inteligente não consegue nunca se tornar alguma coisa, e que só o imbecil triunfa. Sim, meus senhores. o homem do século XIX tem o dever de ser essencialmente destituído de caráter; está moralmente obrigado a isso. O homem que possui caráter, o homem de ação, é um ser essencialmente medíocre. Tal é a convicção de meus quarenta anos de existência.

Tenho quarenta anos atualmente. Ora, quarenta anos, é toda a vida, é a profunda velhice. É inconveniente, é imoral, é vil viver além dos quarenta. Quem vive depois dos quarenta anos? Respondei sinceramente, honestamente! Vou dizer-vos, sim, eu: os imbecis, os patifes, esses vivem mais de quarenta anos. Eu o proclamarei à face de todos os velhos, de todos os respeitáveis velhos, de todos os velhos de cabelos cor de prata e perfumados! Eu o proclamarei à face do universo inteiro. Tenho o direito de falar - porque eu, eu viverei até os sessenta anos! até os setenta anos! até os oitenta anos! Mas esperai! Deixai-me tomar fôlego!

Imaginais, certamente, senhores, que me proponho vos fazer rir? Enganai-vos a esse respeito, como sobre o resto. Não sou de modo algum tio divertido como vos parece, ou quanto vos pode parecer. De resto, se agastados por toda essa tagarelice (estais irritados, sinto já), vós me perguntais o que sou, afinal de contas, responderei: sou um assistente de colégio. Entrei na administração para poder comer (mas unicamente para isso), e quando no ano passado um dos meus parentes afastados me legou por testamento seis mil rublos, pedi depressa minha demissão e me enterrei no meu canto; ali morava já há muito tempo, mas instalei-me agora definitivamente. O quarto que ocupo nos confins da cidade é feio, e desmantelado. Minha criada é uma velha camponesa que a burrice tornou malvada; além disso, cheira mal. Dizem-me que o clima de Petersburgo me é prejudicial, e que a vida custa caro demais para os recursos ínfimos de que disponho. Sei disso; sei bem melhor que todos esses sábios conselheiros. Mas fico em Petersburgo. Não deixarei Petersburgo porque.. . . Que eu parta ou não, aliás, que importa!...
Mas, do que um homem honesto pode falar com mais prazer?
Resposta: de si mesmo.
Pois bem! Vou então falar de mim mesmo!

ainda na internet, encontro aqui  a árvore de natal na casa de cristo num post de 2002, e aqui o mujique marei num post de 2005. nenhum dos dois, porém, traz as referências bibliográficas nem os créditos de tradução. compare-se com a edição claretiana de 2007; como se pode ver, há algumas mínimas alterações entre um e outro: "casa de cristo" x "casa do cristo"; "numa" x "em uma", uma ou duas vírgulas a mais ou a menos, e só.



afinal, quem traduziu realmente esses contos de dostoiévski? ruth guimarães, referida em várias edições e casas editoriais ao longo de décadas, ou isa silveira leal, em edição póstuma exclusiva para a martin claret?


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



3 comentários:

  1. Denise,

    parece ser uma nova modalidade editorial-tradutória:"os mortos e os vivos"...

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  2. Ou tradutória-editorial.

    Tanto faz, os mortos não reclamam.

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  3. estarrecedora a coisa, não?

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