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5 de ago. de 2015

robert louis stevenson no brasil (1961-2000)

quando se realiza o rastreamento da fortuna bibliográfica de um autor traduzido no brasil, é difícil ter certeza de que o levantamento está completo, pois sempre pode ocorrer algum lapso ou perda de dados sobre suas vicissitudes in terra brasilis. em todo caso, segue-se o que localizei até o momento sobre robert louis stevenson traduzido entre nós, de 1961 a 2000. para as publicações de 1933 a 1960, veja aqui.
  • A flecha negra. Trad. Alberto Denis. As Grandes Obras da Literatura. Brasil S/A, 1961. 178 p.
  • O médico e o monstro (contém também "Markheim" e "O demônio da garrafa"). Trad. Helena Pessoa. BUP, 1963. 192 p.

  • A ilha do tesouro. Trad. Maria Tostes Régis. Clássicos da Juventude, 9. Itatiaia, 1964. 250 p.

  • A ilha do tesouro. Trad. Maria Thereza Giacomo. Melhoramentos, 1964. 200 p.

  • A ilha do tesouro. Trad. Nair Lacerda. Saraiva, 1966. 232 p.

  • O dr. Jekyll e o monstro (contém também "Will do Moinho", "Markheim", "Janet do pescoço torcido" e "Ollala"). Trad. E. Jacy Monteiro. Paulinas, 1968. 

a tradução de jacy monteiro foi saqueada pela ed. martin claret desde 2000, como comento aqui
o volume das paulinas traz cinco contos: além de markheim e janet do pescoço torcido, contém a história que dá nome à coletânea, o doutor jekyll e o monstro, e ainda will do moinho e olallá. há uma introdução bem boazinha de eliseu sgarbossa, do qual não tenho outras referências. além de apresentar um painel da vida e obra de stevenson, a introdução comenta cada um dos cinco contos, aliás estendendo-se razoavelmente sobre olallá.
o volume da martin claret, por sua vez, traz o médico e o monstro, markheim e janet do pescoço torcido. então é muito engraçado ver a introdução de eliseu sgarbossa, devidamente creditada (mas duvido que autorizada), à guisa de posfácio na edição claretiana, conservando as referências a o doutor jekyll e o monstro, embora a edição claretiana use o título mais conhecido o médico e o monstro, e mantendo os comentários sobre will do moinho e olallá. fica realmente bizarro!
para uma comparação de "markheim" nas duas edições, ver aqui


  • A ilha do tesouro. ?. Tecnoprint, 1970. 206 p.
  • A armadilha. "Trad. especial" de Amaral Schmidt. Clube do Livro, 1970. 149 p. 

obs.: encontrei alguns registros avulsos dessa coletânea pelo clube do livro para os anos de 1944, 1961 e 1962, porém sem maiores corroborações. vale notar que a coletânea traz seis contos, sendo apenas quatro de stevenson: "a armadilha", "pousada por uma noite", "o demônio da garrafa" e "ilha dos feiticeiros". a editora já publicara "o demônio da garrafa" em 1951, com o nome de "a garrafa encantada" - ver aqui. os outros dois contos em a armadilha são "a traição", de prosper mérimée (com asterisco especificando que a tradução é de josé maria machado) e "o acidente", de jack london. ver aqui 
  • O médico e o monstro. Ed. Brasileira, s/d (encontrei apenas essa referência avulsa no acervo da ABI)
  • A ilha do tesouro. Clube do Livro, 1971.
  • A ilha do tesouro. Trad. Ecy de Aguiar Macedo. Clássicos da Literatura Juvenil, 1. Abril Cultural, 1972. 194 p.
  • As novas mil e uma noites. Trad. César Tozzi. Cedibra, 1972. 160 p.
  • Um conto que não consegui identificar em O demônio familiar, que consta em nosso acervo na FBN: 


atualização em 06/082015: o conto de stevenson presente nessa coletânea é, com toda probabilidade, "markheim". agradeço a sérgio karam pela informação (vide comentários).
  • O médico e o monstro (contém também "O pavilhão à beira-mar" e "Pousada noturna"). Trad. César Tozzi. Coleção Trevo Negro, 29. Bruguera/Cedibra, c. 1972.
  • Raptado. Trad. Tatiane Belinky. Clássicos da Literatura Juvenil, 33. Abril Cultural, 1973. 200 p.
  • A praia selvagem. Trad. Mary Apocalipse (pseud. de Mary Ann Leitão Karam). Clube do Livro, 1973.
  • As novas mil e uma noites. Editora Três, 1974. 168 p. O livro reúne as histórias de "O clube dos suicidas" e de "O diamante do Rajá".
  • A estátua de mármore. Trad. Jacob Penteado. Clube do Livro, 1974. 160 p.


  • O médico e o monstro. Trad. Luzia Machado da Costa. Distr. Record, c. 1974.
  • O sequestro. "Trad." José Maria Machado. Clube do Livro, 1975. 158 p.
  • O Morgado de Ballantrae. Trad. Henrique de Araújo Mesquita. L&PM, 1985. 223 p.
  • O clube dos suicidas. Trad. Eliana Sabino. Coleção Novelas Imortais. Rocco, 1986.
  • A Ilha do Tesouro. Trad. Marco Guimarães e Sonia Verderese. Hemus, 1986. 189 p.
  • O médico e o monstro. Trad. Lígia Cademartori. Coleção Selo Negro. FTD, 1989.
  • Nos Mares do Sul – Autobiografia de um viajante. Trad. Heloísa Prieto. Iluminuras, 1992. 264 p.
  • O médico e o monstro. Trad. Rodrigo Lacerda. Nova Fronteira, 1992. 177 p.
  • O ladrão de cadáveres/ Janet aleijada/ Os alegres homens. Trad. Cristina Amorim (a partir do italiano). Coleção Clássicos Econômicos Newton. Newton Compton, 1993. 97 p.
  • Sequestrado. Trad. José Rubens Siqueira. Nova Alexandria, 1994. 207 p. [agradeço a informação sobre o tradutor a Mateus Cogo Araújo, nos comentários]
  • O médico e o monstro/ Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Trad. Flávia Villas Boas. Paz & Terra, 1995. 100 p.
  • Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Trad. Mario Fondelli (a partir do italiano). Coleção Clássicos Econômicos Newton. Newton Compton, 1996.
  • Um jardim de poemas infantis. Trad. Carmen Alica Saganfredo e A.S. Franckini. Sulina, 1999. 80 p.
  • O médico e o monstro (contém também "Markheim" e "Janet do pescoço torcido"). "Trad." Pietro Nassetti. Martin Claret, 2000. Reed. como "trad." de Alex Marins em 2010. Ver comentário acima, no verbete da edição da Paulinas em 1968. Em 2012, a editora finalmente apresenta o nome do verdadeiro tradutor de Dr. Jekyll and Mr. Hyde, espoliado ao longo dos anos: o português Cabral do Nascimento. 

a primeira parte deste levantamento, de 1933 a 1960, está aqui.

sobre a fortuna histórica de dr. jekyll e mr. hyde no brasil, ver o estudo de ana júlia perrotti-garcia, as transformações de dr. jekyll & mr. hyde: traduções, adaptações e demais refrações da obra prima de robert louis stevenson, disponível aqui.


27 de jun. de 2015

troca de nomes

no levantamento da obra de roberto louis stevenson no brasil que estou fazendo nas últimas semanas, encontrei uma bizarrice. bom, bizarrices há várias - desde as "traduções especiais" de josé maria machado pelo clube do livro e as descaradas apropriações da martin claret de traduções alheias até as traduções sem crédito que muito provavelmente são contrafações.

mas esta que encontrei hoje não parece indicar nenhuma má fé, apenas alguma confusão no meio do caminho. o caso é o seguinte:

até 1933, não havia nenhum livro de stevenson traduzido no brasil. aí, a partir de 1933, houve um pequeno corre-corre da companhia editora nacional, em são paulo, e da livraria do globo, em porto alegre, para publicar obras dele. entre 1933 e 1934 saiu uma enxurradinha, cinco livros em rápida sucessão: a ilha do tesouro, o clube dos suicidas e raptado, pela nacional; aventuras de david balfour em 1751 e outro a ilha do tesouro, pela globo. nesta editora, balfour saiu em tradução de fernando pio e a ilha do tesouro em tradução de pepita de leão. ver aqui.

pois muito que bem.

passando para a segunda parte de meu levantamento, encontro as aventuras de david balfour pela l&pm, em 1984. a tradução vem em nome de pepita leão, com licenciamento feito junto à globo. acontece que, até onde sei, a única obra de stevenson que pepita de leão traduziu na vida (1875-1945) foi, justamente, aquela ilha do tesouro de 1934 para a globo. balfour, foi fernando pio.




comparando os textos (tenho as duas edições em casa, a da globo de 1933 e a da l&pm de 1984), vejo que são os mesmos. pois claro - a troco do quê uma editora faria um contrato de licenciamento para publicar uma tradução do catálogo de outra editora, se não fosse para usá-la?



acabei concluindo que deve ter havido uma troca involuntária de nomes, um lapso aí no meio da contratação do direito de uso. ainda mais depois que a globo gaúcha foi adquirida pela globo de roberto marinho, creio que uma boa parte daquele catálogo enorme deve ter ficado meio às traças; sabe-se lá.

como meu interesse é sempre com os percursos históricos da tradução no brasil, nosso patrimônio traduzido, nossa memória cultural e tudo isso, fiquei meio preocupada - vai que, ao longo de décadas e de reedições de david balfour supostamente traduzido por pepita de leão, as pessoas acabem achando que é isso mesmo. assim, escrevi à editora, colocando minha dúvida e tentando deslindar o mistério.


25 de jun. de 2015

robert louis stevenson no brasil (1933-1960)

quando se realiza o rastreamento da fortuna bibliográfica de um autor traduzido no brasil, é difícil ter certeza de que o levantamento está completo, pois sempre pode ocorrer algum lapso ou perda de dados sobre suas vicissitudes in terra brasilis. em todo caso, segue-se o que localizei até o momento sobre robert louis stevenson traduzido entre nós, de 1933 a 1960.

em 1933, saem os primeiros lançamentos, nada menos que três:
  • A Ilha do Thesouro. Trad. Álvaro Eston. Collecção Terramarear, 8. Cia Editora Nacional, 1933. 204 p. 

a partir de certa altura, a nacional começa a publicar a ilha do tesouro fazendo constar nos créditos apenas "Tradução revista por Rubens de Aquino Penteado", até anos recentes. não sei a data exata em que isso começou, mas já consta assim em meu exemplar de 1954. como sói acontecer em muitos desses casos, não é raro que a "tradução REVISTA POR fulano" acabe, com o passar do tempo, constando como "tradução DE fulano".


embora eu não costume fazer levantamentos em revistas e jornais, cabe registrar aqui o lançamento inicial d' a ilha do thesouro pela coleção "romances d'o tico-tico", que desde 1905 publicava gibis e adaptações ilustradas. em 1906-1907 temos a serialização desse romance de stevenson:

agradeço a notícia e a imagem de capa a angelo giardini de oliveira.

para as edições da tico-tico, bem como para dados sobre esse lançamento, ver "Le Petit Journal Illustré de la Jeunesse, A verdadeira origem francesa d’O Tico-Tico", interessante artigo de  Athos Eichler Cardoso, disponível aqui.

além da tico-tico, a eu sei tudo publicou outra serialização entre julho de 1929 e maio de 1930, em seus números 146 a 156, sem crédito de tradução, com o título de jim, o pirata amador, como nos informa também angelo giardini, em seu artigo disponível aqui, com direito a escaneamento dos capítulos iniciais e tudo!



retomando as edições de stevenson em formato livro, temos então:
  • O Clube dos Suicidas. Trad. Godofredo Rangel. Collecção Para Todos. Cia. Editora Nacional, 1933. 254 p.
  • Aventuras de David Balfour em 1751. Trad. Fernando Pio. Coleção Globo, 14. Livraria do Globo, 1933. 272 p.

  • em 1934, sai outra A Ilha do Tesouro, agora em tradução de Pepita de Leão, pela Livraria do Globo (274 p.):
agradeço a imagem a angelo giardini de oliveira


também em 1934:
  • Raptado. Trad. Agrippino Grieco. Colecção Terramarear. Companhia Editora Nacional, 1934. 222 p.


como disse acima em relação à ilha do tesouro, não costumo fazer levantamentos em revistas e jornais. mas aproveitemos a deixa para registrar aqui as primeiras traduções brasileiras de pousada para a noitemarkheim e do celebérrimo dr. jekyll and mr. hyde: saíram em a novela, revista mensal de literatura da livraria do globo, respectivamente nos números 8 (maio de 1937), 9 (junho 1937) e 17 (fevereiro 1938). dr. jekyll and mr. hyde já trazia como título o médico e o monstro, em tradução de orlando maia.




novamente retomando as traduções em livro, na sequência temos:
  • O príncipe Otto. Trad. Antônio Barata. Coleção Nobel. Livraria do Globo, 1940. 270 p.

  • O médico e o monstro. Trad. Orlando Rocha. Universitária, 1942. 230 p. 

  • "Pousada por uma noite", in Contos ingleses. Org. Jacob Penteado, sem  crédito de tradução. Coleção Primores do Conto Universal. Edigraf, 1942.
  • "Markheim", in Os ingleses: antigos e modernos. Trad. Rachel de Queiroz. Coleção Contos do Mundo. Leitura, 1944.
Devo a imagem de capa à enorme gentileza de Saulo von Randow Jr.

  • Perdeu-se um cadáver. Coleção Os Mais Célebres Romances Policiais. Vecchi, 1945. 214 p.

  • Aventuras de David Balfour. Coleção Os Audazes. Vecchi, 1946. 223 p.

  • O Morgado de Ballantrae. Trad. Alfredo Ferreira. Vecchi, 1946. 217 p. Reed. em 1955, na Coleção Os Audazes, com o título de Minha Espada, Minha Lei (em função do sucesso do filme com Errol Flynn, de 1953, que recebeu esse título em português).


  • "A porta e o pinheiro", in Os mais belos contos policiais dos mais famosos autores. Trad. Alfredo Ferreira et al. Vecchi, 1947.

  • Desafiando perigos [corresponde a Catriona]. Vecchi, 1947. 214 p.
  • O filão de prata. Vecchi, 1948. 206 p. Não encontrei imagem de capa, mas o título segue o nome brasileiro do filme Adventures in Silverado, baseado no conto de Stevenson, "Silverado Squatters".
  • Noites das ilhas. Coleção Universo, 9. Globo, 1951. 164 p.

  • O médico e o monstro / A garrafa encantada. "Trad. especial" José Maria Machado.* Clube do Livro, 1951. 171 p.

* sobre josé maria machado e suas "traduções especiais" para o clube do livro, ver aqui.

  • Herança trágica. Trad. Jacob Penteado (a partir do italiano, do original "The Wrong Box"). Série Vermelha, 3. Edigraf. 1952. 152 p.

  • O navio fantasma. "Trad. especial" José Maria Machado. Clube do Livro, 1953. 207 p.

  • A flecha preta. Trad. Edison Carneiro. Coleção Os Audazes. Vecchi, 1953. 233 p.

  • O príncipe errante. "Trad. especial" José Maria Machado. Clube do Livro, 1955. 172 p.

  • O médico e o monstro (incluindo "Markheim" e "A porta de Sire de Maletroit"). Trad. Joaquim Machado. Coleção Novelas de Mistérios, 4. Melhoramentos, 1955. 174 p.

  • "O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde", in Obras-Primas da Novela Universal. Org.. Mário da Silva Brito. Sem créditos de tradução (muito provavelmente portuguesa). Martins, 1956.

  • A ilha da maldição. Com Lloyd Osborne. Vecchi, 1956. 166 p. Mais uma capa e mais um título baseados num filme, como a Vecchi costumava fazer.

  • "Markheim", in Maravilhas do Conto Inglês. Sem créditos de tradução. Cultrix, 1958.
  • As duas rosas. "Trad. especial" de José Maria Machado. Clube do Livro, 1960. 134 p.

  • Traficantes de naufrágios. Com Lloyd Osborne. Trad. Celestino da Silva. Vecchi, 1960. 261 p.






  • O médico e o monstro e outras histórias (a saber, "Markheim" e "O diabrete da garrafa"). Trad. Nair Lacerda. Coleção Saraiva, 143. Saraiva, 1960. 168 p.




  • Há ainda um O médico e o monstro pela Gertum Carneiro, em sua Série Terror, em tradução de Humberto Pires, sem data - até maiores informações, conste aqui por volta do final dos anos 1950:



    sobre a fortuna histórica de dr. jekyll e mr. hyde no brasil, ver o estudo de ana júlia perrotti-garcia, as transformações de dr. jekyll & mr. hyde: traduções, adaptações e demais refrações da obra prima de robert louis stevenson, disponível aqui.

    em tempo: há uma referência avulsa no acervo da ABI a a ilha do tesouro pela vecchi em 1952, mas não localizei nenhuma outra confirmação. encontrei apenas uma adaptação pela vecchi, em 1964, como número 1 da coleção minha biblioteca.

    atualização em 7/7/2015: sérgio karam, em comentário abaixo, avisa que a melhoramentos também publicou "o diamante do rajá", com suas quatro histórias, e "o diabo na garrafa", em tradução de joaquim machado, sem data de edição.

    ver stevenson no brasil de 1961 a 2000 aqui.

    1 de ago. de 2013

    jekyll and hyde no brasil

    o último número da revista tradterm, da usp, traz um levantamento muito meticuloso e interessante das traduções e adaptações de dr. jekyll and mr. hyde, publicadas no brasil até 2010, realizado por ana júlia perrotti-garcia. disponível aqui.

    a propósito, vale ler o luminoso artigo de ivo barroso sobre o autor, "o estranho caso do dr. stevenson", aqui.

    ilustração de hulme beaman para a edição da dodd mead, 1930

    como minúscula contribuição à bela pesquisa de perrotti-garcia, vale lembrar que o filme de john s. robertson, dr. jekyll and mr. hyde, de 1920, já em novembro do mesmo ano estreava em nossos cinemas com o título o médico e o monstro. o filme de rouben mamoulian, de 1931, lançado no brasil em 1932 com o mesmo título, certamente também contribuiu para consagrar seu uso entre nós.

    10 de jan. de 2012

    armadilhas editoriais


    o leitor marcio deixou um comentário muito interessante aqui, do qual transcrevo uma parte:
    Como a Cosac lançou recentemente uma coletânea de contos do Stevenson, resolvi checar o exemplar que tinha aqui em casa, de 1970, lançado pelo Clube do Livro e com a "tradução especial" de praxe, desta vez de Amaral Schmidt (você conhece?). A façanha, que eu saiba inédita, é que, dos seis contos da coletânea, quatro são do Stevenson, como seria de se esperar..., um é o "Mateo Falcone", do Mérimée (!), com o título "A traição", e um asterisco indicando que a tradução deste conto é do inescapável José Maria Machado, e, por fim, o último conto é "Moon-Face", do Jack London, traduzido como "O acidente". 

    há registros da coletânea a armadilha pelo clube do livro com edições em 1944, 1961, 1962 e 1970. os quatro contos efetivamente de stevenson nesta coletânea são: "a armadilha", "pousada por uma noite", "o demônio da garrafa" e "ilha dos feiticeiros".

    pessoalmente, não conheço nenhuma "tradução especial" do clube do livro que não seja uma designação para a apropriação de traduções anteriores, geralmente portuguesas, consistindo a "especialidade" do clube do livro em adaptar o português lusitano ao português do brasil.

    assim, consultando um pouco a biblioteca universal do google, vejo que o conto "pousada por uma noite" - aliás, título com tradução não evidente nem automaticamente correspondente ao original "a lodging for the night" - fora publicado nos idos de 1942 na antologia contos ingleses - primores do conto universal, selecionada e organizada por jacob penteado (sem indicação do tradutor) e publicada pela edigraf.


    então, além da inexplicável trapalhada de incluir um conto de mérimée e um conto de jack london numa coletânea de r. l. stevenson, tenho lá minhas dúvidas de que as traduções sequer fossem legítimas.

    quanto ao "mateo falcone" de mérimée, traduzido como "a traição", há de se levar em conta algumas coisas: josé maria machado era o sujeito de plantão no clube do livro para os abrasileiramentos das "traduções especiais". creio que ele existiu, sim, aparecendo como tradutor "normal" de vários livrinhos de pulp fiction, como mostrei aqui - sempre do inglês. duvido que se abalançasse a qualquer tradução "não especial" do francês. a título de registro, há uma tradução portuguesa de "mateo falcone", feita por agostinho da silva e publicada em 1941 (ver aqui). talvez seja esta que josé maria machado tenha "traduzido especialmente" para a bizarríssima coletânea de r. l. stevenson pelo clube do livro.


    ainda no plano das especulações, cabe mencionar que jacob penteado selecionou e organizou uma antologia de contos norte-americanos para a mesma coleção primores do conto universal da edigraf. a antologia contém um conto de jack london, que infelizmente não sei qual é. mas não me admiraria muito se fosse "o acidente" atribuído a stevenson na amalucada edição do clube do livro.



    finalmente, quanto ao "tradutor especial" d' a armadilha do clube do livro, [waldyr do] amaral schmidt, não sei dizer muita coisa. aqui encontrei referência a mais uma tradução em seu nome: adelbert von chamisso, o homem que vendeu a sombra, clube do livro, 1964. vale notar que existe edição anterior da mesma noveleta de chamisso na antologia intitulada os mais belos contos românticos (vecchi, 1945, sem crédito de tradução). e aqui amaral schmidt consta como responsável pela "revisão especial" do livro okvala é o meu destino, de theodor von becker
    (clube do livro, 1973).

    encontra-se uma abordagem geral bastante instrutiva sobre o clube do livro em john milton, o clube do livro e a tradução (edusc, 2002). john milton utiliza o eufemismo "reciclagem" para designar essa prática de apropriação de traduções alheias e, sem entrar em grandes detalhamentos, comenta que o clube do livro "apoia-se muitas vezes em traduções já publicadas" (pp. 124-25).


    4 de nov. de 2011

    a ilha do tesouro


    Existe uma tradução portuguesa d' A ilha do tesouro, de Robert Louis Stevenson, feita por Alsácia Fontes Machado, publicada em Lisboa pelo Círculo de Leitores em 1970. Essa tradução foi publicada no Brasil pelo Círculo do Livro em 1973, com várias reedições.


    À guisa de prefácio, Stevenson faz um apelo ao leitor, ou melhor, "ao comprador hesitante".


    TO THE HESITATING PURCHASER


                   If sailor tales to sailor tunes,
                      Storm and adventure, heat and cold,
                   If schooners, islands, and maroons,
                      And buccaneers, and buried gold,
                   And all the old romance, retold
                      Exactly in the ancient way,
                   Can please, as me they pleased of old,
                      The wiser youngsters of today:


                   —So be it, and fall on!  If not,
                      If studious youth no longer crave,
                   His ancient appetites forgot,
                      Kingston, or Ballantyne the brave,
                   Or Cooper of the wood and wave:
                      So be it, also!  And may I
                   And all my pirates share the grave
                      Where these and their creations lie!

    Não deve ter sido fácil traduzir. A tradutora Alsácia alongou versos, retirou algumas frases, substituiu por outras, adaptou um pouco o conteúdo, manteve fielmente o esquema das rimas em ABAB-BCBC e chegou ao seguinte resultado:

    AO COMPRADOR HESITANTE

    Se histórias do mar, em toada marina,
    Tufões, aventuras, males suportados,
    Se escunas e ilhas, navios à bolina,
    Piratas e ouro, homens desterrados,
    Os velhos romances, de novo contados
    À moda de antanho, podem como outrora
    - Tanto eles me encantaram...- ser apreciados
    P’los mais progressivos dos jovens de agora,

    Comecem, então; seja assim! Mas se não,
    Se o jovem que estuda já hoje esqueceu
    O que antes amava no seu coração
    - Ballantyne, o bravo, e outros mais, que sei eu?
    Se heróis e façanhas o olvido escondeu,
    Também seja assim! E os heróis que inda ousam,
    Meus piratas e eu, como um sol que desceu,
    Baixemos à campa onde todos repousam!

    Nada nem ninguém me fará crer que essa coisa abaixo, afastando-se do original como Alsácia, mas sem qualquer justificativa literária a justificar esse afastamento - muito pelo contrário, estropiando impiedosamente a calculada métrica e rima da tradução portuguesa -, apresenta a mais remota possibilidade de ser uma tradução de direito próprio:

    AO COMPRADOR HESITANTE

    Se histórias do mar, em toada marina,
    Tufões e aventuras, males suportados,
    Se escunas e ilhas, navios à bolina,
    Ouro e piratas, homens desterrados,
    Os velhos romances, novamente narrados
    À moda de outrora, podem, tal como antes
    - Tanto me encantaram...- ser apreciados
    Pelos jovens mais dinâmicos de nosso tempo,

    Comecem, pois; que assim seja! Mas se não,
    Se o jovem que estuda já hoje esqueceu
    O que antes amava de todo o coração
    - Ballantyne, o bravo, e outros mais, que sei eu? -
    Se heróis e façanhas foram tragados pelo esquecimento,
    Também assim seja! E os heróis que ainda ousam,
    Meus piratas e eu, como um sol poente,
    Baixemos à campa onde todos repousam!

    Essa coisa horrorosa, evidente cópia atamancada e disfarçada para ocultar o surripio, vem atribuída a um tal "Alex Marins", nome de fantasia que aparece como responsável por dezenas de outras traduções espúrias publicadas pela editora Martin Claret.


    Meu exemplar, com uma daquelas capas que, além das traduções, tanto contribuem para celebrizar a editora, é de 2008. Mas na página de créditos consta que a referida editora é detentora do "copyright desta tradução" desde 2002. Só para se ter uma ideia da extensão da brincadeira, no site da Estante Virtual constam exemplares d' A ilha do tesouro pela Martin Claret em edições de 2002, 2004, 2006, 2007, 2008 e 2010.


    atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





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    16 de abr. de 2011

    os artigos de gabriel perissé sobre tradução

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    gosto  muito do trabalho de gabriel perissé na revista língua portuguesa. ele publica regularmente artigos sobre tradução, escritos com simplicidade, leveza e precisão. costuma comparar soluções de duas ou mais traduções de uma mesma obra, apontando acertos e insuficiências, mostrando aos leitores a importância e a delicadeza do ofício.

    eis um exemplo, sobre a tradução de dr. jekyll and mr. hyde, de robert l. stevenson:
    Há várias traduções desse clássico no Brasil. A versão de José Maria Machado (Clube do Livro, 1951), republicada em 1989, pela Estação Liberdade, tem revisão do catarinense Vicente Cechelero. Em 1960, a editora Saraiva publicou o trabalho assinado por Nair Lacerda. A FTD lançou a tradução de Lígia Cademartori, em 1989, voltada para o público infanto-juvenil. Na década de 1990, foram publicadas a de Rodrigo Lacerda (Nova Fronteira, 1992), a de Heloisa Jahn (Ática, 1994) e a de Flávia Villas Boas (Paz e Terra, 1995). De lá para cá, foram editadas mais três versões - a de Adriana Lisboa (Ediouro, 2001), a de Fabio Cyrino (Landmark, 2008) e a de José Paulo Golob, Maria Angela Aguiar e Roberta Sartori, sob a orientação da tradutora e professora Beatriz Viégas-Faria (L&PM, 2008).

    Faço nestas páginas, a seguir, alguns breves comentários às três versões mais recentes, a partir de um trecho das declarações dramáticas que Jekyll faz sobre si mesmo no último capítulo do livro.

    O ORIGINAL

    Robert Louis Stevenson

    Between these two, I now felt I had to choose.1 My two natures had memory in common, but all other faculties were most unequally shared between them. Jekyll (who was composite)2 now with the most sensitive apprehensions, now with a greedy gusto,3 projected and shared in the pleasures and adventures of Hyde; but Hyde was indifferent to Jekyll, or but remembered him as the mountain bandit remembers the cavern in which he conceals himself from pursuit. Jekyll had more than a father's interest; Hyde had more than a son's indifference. To cast in my lot with Jekyll,4 was to die to those appetites which I had long secretly indulged and had of late begun to pamper.5 To cast it in with Hyde was to die to a thousand interests and aspirations, and to become, at a blow and for ever, despised and friendless.

    AS VERSÕES

    Adriana Lisboa 

    Senti, então, que precisava escolher entre os dois.1 Minhas duas naturezas tinham a memória em comum, mas todas as outras faculdades dividiam-se entre elas de modo bastante desigual. Jekyll, que era complexo,2 projetava, ora com as maiores apreensões, ora com um entusiasmo voraz,3 os prazeres e as aventuras de Hyde, compartilhando-os; mas Hyde era indiferente a Jekyll, ou apenas se recordava dele como o bandido das montanhas se lembra da caverna em que se esconde, quando perseguido. Jekyll tinha um interesse maior do que o típico dos pais; Hyde, uma indiferença maior do que a típica dos filhos. Unir-me a Jekyll 4 significava abrir mão daqueles apetites com os quais eu há muito era indulgente em segredo e que ultimamente começara a mimar.5 Unir-me a Hyde significava abrir mão de mil interesses e aspirações, e me tornar, num único instante e para sempre, desprezado e sem amigos.

    Fabio Cyrino

    Entre esses dois, percebia agora que não tinha escolha alguma.1 Minhas duas naturezas tinham lembranças em comum, mas todas as minhas outras faculdades eram divididas, de forma desigual, entre elas. Jekyll, que se compunha2 com as mais sensíveis apreensões, com uma excitação mesquinha,3 agora, projetava e compartilhava dos prazeres e aventuras de Hyde; mas, Hyde era indiferente a Jekyll, ou apenas se lembrava dele como o bandido que se recorda da caverna em que se oculta da perseguição. Jekyll tinha mais do que um interesse paternal; Hyde tinha mais que a indiferença filial. Unir-me, definitivamente, a Jekyll 4 era morrer para aqueles apetites a que me havia entregado, longa e secretamente; e que, por fim, começara a descartar.5 Unir-me a Hyde, era morrer para milhares de interesses, aspirações e tornar-me de um golpe só, para sempre, desprezado e sem amigos.

    José Paulo Golob / Maria Angela Aguiar / Roberta Sartori

    Eu sentia que agora deveria escolher entre os dois.1 Minhas duas naturezas tinham uma memória em comum, entretanto todas as outras faculdades eram compartilhadas entre si de forma desigual. Jekyll (que era um composto),2 às vezes com forte apreensão, outras vezes com um prazer ávido,3 projetava-se e envolvia-se nos prazeres e nas aventuras de Hyde; mas Hyde era indiferente a Jekyll, ou apenas recordava-se dele como o bandido da montanha lembra da caverna na qual se esconde de perseguições. Jekyll tinha mais do que um interesse de um pai; Hyde tinha mais do que a indiferença de um filho. Apostar minha sorte em Jekyll 4 era morrer para aqueles apetites que eu, por muito tempo e em segredo, me permiti e que posteriormente passara a mimar.5 Apostar em Hyde seria morrer para centenas de interesses e aspirações e tornar-me, de uma vez e para sempre, um ser desprezado e sem amigos.

    O COMENTÁRIO

    1. Fabio Cyrino faz Jekyll dizer o contrário do que escreveu. O protagonista teria de escolher, sim: ou ser médico respeitado, mas frustrado, ou o monstro que satisfaz seus desejos, à margem da sociedade.
    2. Jekyll "was composite", composto por muitas "partes", inclusive a parte Hyde (brincadeira com o inglês hidden, escondido). Os tradutores da L&PM escolhem "composto", que em português também pode significar que Jekyll tinha compostura, era contido, disciplinado. Para Cyrino, Jekyll "se compunha com", deturpando o original. Lisboa opta acertadamente por "complexo".
    3. A expressão greedy gusto recebe três soluções: "entusiasmo voraz" (Lisboa), adequada; "excitação mesquinha" (Cyrino), em que o adjetivo destoa; e "prazer ávido" (L&PM), que deixa a desejar, inclusive por repetir o termo "prazer", usado a seguir.
    4. Traduzir to pamper por "mimar" seria correto se o texto se referisse a mimar criança. Melhor "satisfazer" ou "estimular", em se tratando de apetites e desejos. Equivocada a frase "começara a descartar", de Cyrino, o oposto do que Jekyll afirma.
    5. "Unir-me a" não atinge em cheio o sentido da expressão "to cast in one's lot with". A frase "to cast in my lot with Jekyll" foi bem compreendida pelos tradutores da L&PM com "apostar minha sorte em Jekyll". Se o texto fosse coloquial, outra solução seria "fechar com Jekyll".
    in: O médico, o monstro ... e o tradutor. como bem diz gabriel aqui:
    Uma tradução ou é cuidadosa ou não é tradução. Isto conduz a certa obsessão (salutar) em cuidar de detalhes que poderiam ser desprezados sem que ninguém os percebesse, caso não se fizessem comparações.
    os artigos estão acessíveis na íntegra aqui, para assinantes da revista ou para assinantes da uol.
    .

    27 de abr. de 2009

    follow-up

    periodicamente procuro encaminhar as questões que ficaram pendentes aqui no nãogosto.

    assim, no post sobre o caso da landmark se candidatando ao prêmio de originalidade no plagiato nacional, comentei que não tivera ocasião de ver os outros títulos com tradução em nome do sr. fábio cyrino.

    tentei ler um deles, o estranho caso do doutor jekyll e do senhor hyde, de robert louis stevenson (landmark, 2008) e, só por desencargo de consciência, consultei várias outras edições. creio que nós leitores podemos respirar aliviados.

    seguem abaixo alguns exemplos do original e do texto publicado pela landmark.

    well, sir, the two ran into one another naturally enough at the corner; and then came the horrible part of the thing: for the man trampled calmly over the child's body and left her screaming on the ground. it sounds nothing to hear, but it was hellish to see.
    bem, meu caro, os dois se encontraram, um diante do outro, de modo absolutamente natural, próximo à esquina. e, agora, vem a parte horrível da história, pois o homem se atirou, calmamente, sobre o corpo da criança e lançou-a gritando ao chão. não havia nada para ser ouvido, mas era terrível de se olhar.

    if you choose to make capital out of this accident, said he, i am naturally helpless. no gentleman but wishes to avoid a scene, says he. name your figure.
    se desejarem aplicar a pena capital a este incidente, disse ele, naturalmente não terei escapatória. não há ninguém que desejaria evitar tal cena, afirmou. digam os seus nomes.

    we screwed him up to a hundred pounds
    nós o obrigamos a pagar mil libras

    another man's cheque for close upon a hundred pounds
    um cheque de, aproximadamente, mil libras de outro homem

    the person that drew the cheque is the very pink of the proprieties, celebrated too, and (what makes it worse) one of your fellows who do what they call good.
    a pessoa que sacou o cheque é uma pessoa de boa reputação, famosa, também, e (o que torna pior) um dos seus companheiros que acreditaram que ele tivesse agido bem.

    i feel very strongly about putting questions; it partakes too much of the style of the day of judgement.
    sei muito bem como colocar algumas questões; partilho, perfeitamente, do estilo do dia do juízo.

    a face which had but to show itself to raise up, in the mind of the unimpressionable enfield, a spirit of enduring hatred.
    rosto que nada tinha para revelar, na mente de uma pessoa impressionável como enfield, espírito de um ódio permanente.

    decididamente não é plágio.

    imagem: emoticon msn, bigeyes