Mostrando postagens com marcador scott fitzgerald. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador scott fitzgerald. Mostrar todas as postagens

11 de mar. de 2013

scott fitzgerald no brasil

scott fitzgerald (1896-1940) é um sucesso no brasil. raros são os autores com parte tão grande de sua obra completa traduzida entre nós. o favorito é the great gatsby (1925), com nada menos que quatro traduções brasileiras em quase cinquenta anos, 1962 a 2011.*

* atualização: disparou para oito, com nada menos que quatro traduções lançadas em 2013, na esteira do filme com leonardo di caprio.



mas comecemos pelo começo. aparentemente, scott fitzgerald se apresenta ao público brasileiro em 1945, no volume os norte-americanos: antigos e modernos, com o conto "uma curta viagem para casa", editora leitura, em tradução de elizer burlá para o conto "a short trip home" (1927, publicado na coletânea taps at reveille, 1935).

foto aqui





em 1958, sai o conto "na sua idade" ("at your age", 1929) em maravilhas do conto norte americano, sem crédito de tradução, como soía fazer a cultrix em sua coleção de maravilhas, catando aqui e ali traduções de outras editoras e publicando-as sem dó nem piedade (e nem créditos ou fontes).






entre nós, é a civilização brasileira a editora que mais publicou fitzgerald: seus cinco romances, além de dois volumes de contos e textos autobiográficos, bem como alguns contos em seus magazines literários.


não sei dizer qual é o primeiro romance de fitzgerald que chega ao público brasileiro, pois em 1962 a civilização brasileira lança três romances dele de uma só enfiada! se alguém se interessar mais a fundo, não deve ser muito difícil descobrir. mas suponhamos que tenha sido o grande gatsby na tradução de brenno silveira, a mais constantemente reeditada e licenciada entre nós até hoje.

ao lado, a capinha horrorosa da primeira edição - mas no fundo bem mais fiel ao livro do que outras que sugerem muito glamour.






no mesmo ano, também em tradução de brenno silveira, pela civilização brasileira, sai este lado do paraíso (this side of paradise, 1920)










no mesmo ano, também em tradução de brenno silveira, pela civilização brasileira, sai a coletânea 6 contos da era do jazz. trata-se da coletânea montada pela filha de fitzgerald, six tales of the jazz age and other stories (1960).

será relançado em 2009 pela josé olympio com o título de o curioso caso de benjamin button e outras histórias da era do jazz.






em 1963 temos belos e malditos em tradução de waltensir dutra, também pela civilização brasileira.










no ano seguinte, a civilização lança suave é a noite, em tradução de  ligia junqueira.

essa tradução será ridiculamente garfada e adulterada pela editora nova cultural, que desde 1995 lança-a em nome de um espectral "enrico corvisieri". sobre essa criminosa palhaçada, veja aqui.

 
                                       fraude de "enrico corvisieri"



em 1967, temos o último magnata, sempre pela civilização brasileira, em tradução de roberto pontual.










também em 1967, sai "retorno a babilônia" em livro de cabeceira do homem, ano I, volume 2, pela civilização. não sei quem foi o tradutor.









em 1968, sai o o livro de cabeceira da mulher, ano II, volume 7, com "a última das beldades". não sei de quem é a tradução. sempre pela civilização.










em 1969, temos o livro de cabeceira da mulher, ano III, volume 9, com "as costas do camelo". imagino que seja a tradução de brenno silveira, que saíra nos contos da era do jazz.









também em 1969, sai a derrocada e outros contos e textos autobiográficos em tradução de álvaro cabral, pela civilização.










sem data, mas calculo por volta de 1975, sai "a dança", in antologia macabra, em tradução de bárbara heliodora e newton goldman, pela nova fronteira.










em 1979, teremos estranhos embora íntimos e outros contos inéditos, com tradução de clarita de mello motta, também pela nova fronteira.









em 1980, temos pedaços de paraíso - contos inéditos de f. scott e zelda fitzgerald, de zelda e scott, na tradução de  ruy castro, pela livraria cultura editora (e, no mesmo ano, também pelo círculo do livro).

encontrei uma referência a uma edição de 1973 dessa mesma tradução, mas não consegui corroboração.






em 2001, sai "financiando finnegan" em os 100 melhores contos de humor da literatura universal, pela ediouro.








também em 2001, temos contos de scott fitzgerald, com tradução de mario de luna, leda maia e marcelo filardi ferreira, pela casa jorge. que pena que não consegui imagem de capa.



no mesmo ano, sai também pela casa jorge a tradução de marcos santarrita para suave é a noite.


em 2002, temos "a dança" em os 100 melhores contos de crime e mistério da literatura universal, com tradução de alves moreira, pela ediouro.










em 2003, sai uma nova tradução d'este lado do paraíso, por carlos eugênio marcondes de moura, pela cosac naify.








também em 2003, sai uma nova tradução d' o grande gatsby, por roberto muggiati, pela record, reeditada pela bestbolso em 2007.*










em 2004, sai a coletânea 24 contos, em tradução de ruy castro, pela companhia das letras. a relação dos contos pode ser vista aqui.









ainda em 2004, a l&pm lança a tradução de william lagos para o grande gatsby, também relançada em sua coleção pocket em 2011.*










no ano seguinte, a companhia das letras publica querido scott, querida zelda, em tradução de beth vieira.











em 2006, sai o diamante do tamanho do ritz e outros contos. além do "diamante", são "bernice corta o cabelo" e "o palácio de gelo", com tradução de cássia zanon e william lagos, pela l&pm.








em 2006, sai a tradução de carlos eugênio marcondes de moura para o último magnata, também pela l&pm.










em 2007, uma nova tradução d'os belos e malditos, agora de roberto grey, também pela l&pm.










ainda em 2007, pela l&pm, sai crack-up - o colapso, em tradução de rosaura eichenberg.









em 2011, sai grande gatsby, em tradução de vanessa bárbara, pela penguin/ companhia das letras.









* atualização em 15/3/13: agradeço a alfredo monte pela indicação das datas desses lançamentos. ver aqui sua resenha o vale das cinzas.

atualização em 18 e 24/5/2013: neste ano há mais quatro traduções de o grande gatsby, num frenesi que só consigo explicar pelo sucesso do galã leonardo di caprio na nova refilmagem de the great gatsby, lançada no começo de 2013 - aliás, é o que fica evidente nas três capas/sobrecapas praticamente idênticas dessas novas edições!

essas edições de 2013 são pela leya, em tradução de alice klesck; pela tordesilhas, em tradução de cristina cupertino; pela landmark, em tradução de vera silvia camargo guarnieri; pela geração editorial, em tradução anunciada de clara averbuck e edição prometida para maio, mas afinal adiada para o começo de junho e outro tradutor (humberto guedes).



atualização em 26/5/13: matéria n'o globo sobre essa enxurrada de novas traduções, aqui.
atualização em 01/06/13: afinal, humberto guedes e william lagos são a mesma pessoa; ver aqui.

atualização em 02/07/15:

em 2013, temos pileques, drinques e outras bebedeiras, em tradução de donald garschagen, pela editora má companhia.

"o colapso", em quatro novelas e um conto, org. e trad. de tomaz tadeu, na coleção mimo da autêntica.

o último magnata, em tradução de christian schwartz, pela pinguein/companhia

algum conto em leituras de escritor, de ana maria machado, pela S.M., em 1992

algum conto em arte e letra: estória l, 2011



28 de nov. de 2008

angu de caroço

então, para quem está acompanhando o deslindamento desse fenômeno inédito na história editorial brasileira, a saber, a instauração do plágio de traduções em escala industrial como prática sistemática, por obra e graça da editora nova cultural, há alguns dados interessantes.

uma comparação entre a coleção "imortais da literatura universal" da abril cultural e a coleção "imortais da literatura universal" da nova cultural mostra o seguinte:

1. a coleção da abril cultural tem 50 títulos; a da nova cultural tem 20 títulos.

2. entre estes 20 títulos da coleção da nova cultural, 16 já tinham sido publicados na coleção da abril cultural.

3. não faziam parte da coleção dos imortais da abril: a mulher de trinta anos, as três irmãs, conto de duas cidades e mulheres apaixonadas. de qualquer maneira, à exceção de conto de duas cidades, os outros 3 tinham sido publicados em outras coleções da abril cultural: "grandes romancistas" e "teatro vivo".

4. entre os 16 títulos comuns às duas coleções (abril e nc), 2 são em português, machado de assis e eça de queirós.

5. entre os 14 títulos traduzidos comuns às duas coleções, 5 têm a mesma tradução: relações perigosas, o sol também se levanta, a idade da razão, decamerão e moll flanders.

6. os outros 9 títulos em comum entre as duas coleções (abril e nc) têm créditos de tradução diferentes:
- dostoievski, irmãos karamázovi - enrico corvisieri
- emily brontë, o morro dos ventos uivantes - rachel de queiroz
- tolstói, ana karênina - mirtes ugeda
- stendhal, o vermelho e o negro - maria cristina f. da silva
- e. zola, germinal - eduardo nunes fonseca
- scott fitzgerald, suave é a noite - enrico corvisieri
- a. dumas, os três mosqueteiros - mirtes ugeda
- oscar wilde, o retrato de dorian gray - maria cristina f. da silva/ enrico corvisieri
- j. swift, viagens de gulliver - therezinha monteiro deutsch

7. as traduções de rachel de queiroz e de eduardo nunes fonseca aparecem na edição da nova cultural sob as licenças respectivas da record e da hemus.

8. restam 7 traduções aparentemente novas - 2 a cargo de enrico corvisieri, 2 a cargo de mirtes ugeda, 2 a cargo de maria cristina f. da silva (e também de enrico corvisieri, na imprenta) e 1 a cargo de therezinha monteiro deutsch.

9. após alguns cotejos, não constatei plágio na tradução de therezinha monteiro deutsch.

10. as outras 6 são plágios flagrantes.

11. quanto aos 4 títulos da nova cultural que não constavam na coleção anterior da abril cultural, 2 retomam as mesmas traduções anteriores de outras coleções da abril (as três irmãs e mulheres apaixonadas)

12. já a tradução de a mulher de trinta anos, atribuída também a enrico corvisieri, é plágio da tradução original de araújo nabuco.

tabulando um pouco, numa coleção composta por um total de 20 títulos, temos:
- 2 originais em português (10%)
- 7 traduções repetidas (35%)
- 2 traduções por licença (10%)
- 2 traduções novas (10%)
- 7 plágios (35%)

numa coleção composta por um total de 18 títulos traduzidos, temos a seguinte distribuição:
- enrico corvisieri: 22,22% *
- mirtes ugeda e maria cristina da silva: 11,11% cada
- todos os demais: 5,5% cada
* considerando a dupla atribuição em dorian gray

numa coleção de 18 títulos traduzidos, temos:
- 38,88% de traduções repetidas de coleções da abril cultural
- 11,11% de traduções por licença
- 11,11% de traduções novas
- 38,88% de traduções plagiadas.

e por onde continuou


















então eu queria deixar esse ponto bem assente:
  • em 1971 a abril cultural lançou sua coleção imortais da literatura universal, com 50 títulos, que é a seguinte, com seus respectivos tradutores:
Coleção Imortais da Literatura, Abril, 1ª. edição, 1971
1.Os Irmãos Karamazovi - Fiódor M. Dostoiévski – Natália Nunes e Oscar Mendes
2.As Aventuras do Sr. Pickwick - Charles Dickens – Octavio Mendes Cajado
3.Madame Bovary - Gustave Flaubert – Araújo Nabuco
4.Novelas Exemplares - Miguel de Cervantes Saavedra - Darly Scornnaienchi
5.Decamerão - Giovanni Boccaccio – Torrieri Guimarães
6.Eugênia Grandet - Honoré de Balzac – Moacyr Werneck de Castro
7.Os Três Mosqueteiros - Alexandre Dumas, Pai – Octavio Mendes Cajado
8.Werther - Johann Wolfgang von Goethe – Galeão Coutinho
9.Tom Jones - Henri Fielding – Octavio Mendes Cajado
10.O Morro dos Ventos Uivantes - Emily Brontë – Oscar Mendes
11.Lorde Jim - Joseph Conrad – Mário Quintana
12.A Vagabunda - Gabrielle S. Colette – Juracy Daisy Marchese
13.O Sol Também se Levanta - Ernest Hemingway – Berenice Xavier
14.Pais e Filhos - Ivan Turguêniev – Ivan Emilianovitch
15.O Retrato do Artista Quando Jovem - James Joyce – José Geraldo Vieira
16.Memórias Póstumas de Brás Cubas / Dom Casmurro - Machado de Assis
17.Tônio Kroeger / A Morte em Veneza - Thomas Mann – Maria Deling
18.Os Trabalhadores do Mar - Victor Hugo – Machado de Assis
19.Servidão Humana - W. Somerset Maugham – Antonio Barata
20.Leão Tolstói - Ana Karênina – João Gaspar Simões
21.Os Noivos - Alessandro Manzoni – Marina Guaspari
22.Viagens de Gulliver - Jonathan Swift – Octavio Mendes Cajado
23.O Vermelho e o Negro - Stendhal – Casemiro Fernandes e de Souza Jr.
24.O Primo Basílio - Eça de Queirós
25.Contraponto - Aldous Huxley – Érico Verissimo e Leonel Vallandro 26.As Relações Perigosas - Choderlos de Laclos – Sérgio Milliet
27.Judas, o Obscuro - Thomas Hardy – Octavio de Faria
28.O Cristo Recrucificado - Nikos Kazantzakis – Guilhermina Sette
29.Os Subterrâneos do Vaticano - André Gide – Miroel Silveira e Isa Leal
30.Moll Flanders - Daniel Defoe – Antonio Alves Cury
31.Suave é a Noite - F. Scott Fitzgerald – Ligia Junqueira
32.A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre – Sérgio Milliet
33.O Amante de Lady Chatterley - David Herbert Lawrence – Rodrigo Richter
34.As Vinhas da Ira - John Steinbeck – Ernesto Vinhaes e Herbert Caro
35.O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde – Oscar Mendes
36.Germinal - Emile Zola – Francisco Bittencourt
37.Ivanhoé - Walter Scott – Brenno Silveira
38.O Falecido Mattia Pascal - Luigi Pirandello – Mário da Silva
39.Lady Barberina / Outra Volta do Parafuso - Henry James – Leônidas Gontijo de Carvalho / Brenno Silveira
40.Contos – Voltaire – Mário Quintana
41.Nosso Homem em Havana - Henry Graham Greene – Brenno Silveira
42.Almas Mortas - N. V. Gógol – Tatiana Belinky
43.Moby Dick - Herman Melville – Péricles Eugênio da Silva Ramos
44.Babbitt - Sinclair Lewis – Leonel Vallandro
45.Mrs. Dalloway / Orlando - Virginia Woolf – Mário Quintana / Cecília Meirelles
46.A Pele - Curzio Malaparte – Alexandre O’Neill
47.A Romana - Alberto Moravia – Marina Colasanti
48.A Condição Humana - André Malraux – Jorge de Sena
49.O Estrangeiro - Albert Camus – Antonio Quadros
50.Ficções - Jorge Luis Borges – Carlos Nejar 
  • em 1995, a nova cultural lançou sua coleção também chamada "imortais da literatura universal", com apenas 20 títulos. a relação completa dos "imortais da literatura universal" da nova cultural (círculo do livro), com os respectivos créditos de tradução e números de isbns, é a seguinte:
1. dostoievski, irmãos karamázovi - enrico corvisieri - 85-351-0485-2
2. emily brontë, o morro dos ventos uivantes - rachel de queiroz - 85-351-0494-1
3. honoré de balzac, a mulher de 30 anos - enrico corvisieri - 85-351-0495-X
4. tolstói, ana karênina - mirtes ugeda - 85-351-0496-8
5. ch. de laclos, relações perigosas - sérgio milliet - 85-351-0534-4
6. tchecov, as três irmãs - maria jacintha - 85-351-0502-6
7. machado de assis, brás cubas/ dom casmurro - 85-351-0553-0
8. stendhal, o vermelho e o negro - maria cristina f. da silva - 85-351-0569-7
9. e. hemingway, o sol também se levanta - berenice xavier - 85-351-0594-8
10. e. zola, germinal - eduardo nunes fonseca - 85-351-0605-7 (licença hemus)
11. scott fitzgerald, suave é a noite - enrico corvisieri - 85-351-0612-X
12. ch. dickens, conto de duas cidades - sandra luzia couto - 85-351-0628-6
13. sartre, a idade da razão - sérgio milliet - 85-351-0629-4
14. d. h. lawrence, mulheres apaixonadas - cabral do nascimento - 85-351-0660-X
15. a. dumas, os três mosqueteiros - mirtes ugeda - 85-351-0685-5
16. oscar wilde, o retrato de dorian gray - maria cristina f. da silva - 85-351-0661-8 *
17. boccaccio, decamerão - torrieri guimarães - 85-351-0697-9
18. eça de queiroz, o primo basílio - 85-351-0714-2
19. j. swift, viagens de gulliver - therezinha monteiro deutsch - 85-351-0715-0
s/n. d. defoe, moll flanders - antônio alves cury - 85-351-0746-0
* esta edição do dorian gray inaugura o capítulo das trapalhadas da nova cultural: na página de rosto consta o crédito de tradução a maria cristina f. da silva, mas, no verso da própria página de rosto da mesma edição, a tradução é atribuída a enrico corvisieri. quem chamou a atenção para essa trapalhada foi marcelo bueno de paula.



8 de out. de 2008

continuando

pretendo ao longo desses dias apresentar um histórico, tal como vejo o que ocorreu até chegarmos ao terrível ponto a que chegamos em 2002-2003.

não se espere nenhuma grande novidade: será apenas um painel simples dos antecedentes que desembocaram nas fraudes em escala gigantesca da nova cultural, nas "obras-primas" em parceria com a suzano celulose.

o trabalho de cotejo já foi feito com a inestimável colaboração de ivo barroso e saulo von randow jr., e se encontra publicado neste blog.

como eu dizia, a coleção imortais da literatura universal, 1971-72, da abril cultural, foi um marco: livros a preço acessível, vendidos quinzenalmente em bancas de jornal, com padrão muito bom de edição, com fascículos sobre a vida e a obra dos autores, em plena ditadura militar. (aliás, consta que houve batida policial na abril cultural e que o editor teve de ir prestar depoimento na delegacia, para explicar as razões da escolha da obra que inaugurou a coleção: os irmãos karamazovi, de dostoiévski!)

vou reproduzir abaixo a lista completa dos títulos que compuseram essa coleção, com os respectivos tradutores. será uma referência importante quando chegarmos a 1995.

o mais importante, e eu gostaria de conseguir transmitir, é que uma iniciativa dessas naquela época foi de grande impacto. ela, sim, poderia ser considerada um avanço para o tão decantado e hoje sucateado projeto de "democratização do livro" no país.

Coleção Imortais da Literatura Universal, Abril, 1ª. edição, 1971

1. Os Irmãos Karamazovi - Fiódor M. Dostoiévski – Natália Nunes e Oscar Mendes
2. As Aventuras do Sr. Pickwick - Charles Dickens – Octavio Mendes Cajado
3. Madame Bovary - Gustave Flaubert – Araújo Nabuco
4. Novelas Exemplares - Miguel de Cervantes Saavedra - Darly Scornnaienchi
5. Decamerão - Giovanni Boccaccio – Torrieri Guimarães
6. Eugênia Grandet - Honoré de Balzac – Moacyr Werneck de Castro
7. Os Três Mosqueteiros - Alexandre Dumas, Pai – Octavio Mendes Cajado
8. Werther - Johann Wolfgang von Goethe – Galeão Coutinho
9. Tom Jones - Henri Fielding – Octavio Mendes Cajado
10. O Morro dos Ventos Uivantes - Emily Brontë – Oscar Mendes
11. Lord Jim - Joseph Conrad – Mário Quintana
12. A Vagabunda - Gabrielle S. Colette – Juracy Daisy Marchese
13. O Sol Também se Levanta - Ernest Hemingway – Berenice Xavier
14. Pais e Filhos - Ivan Turguêniev – Ivan Emilianovitch
15. O Retrato do Artista Quando Jovem - James Joyce – José Geraldo Vieira
16. Memórias Póstumas de Brás Cubas / Dom Casmurro - Machado de Assis
17. Tônio Kroeger / A Morte em Veneza - Thomas Mann – Maria Deling
18. Os Trabalhadores do Mar - Victor Hugo – Machado de Assis
19. Servidão Humana - W. Somerset Maugham – Antonio Barata
20. Ana Karênina - Leão Tolstói – João Gaspar Simões
21. Os Noivos - Alessandro Manzoni – Marina Guaspari
22. Viagens de Gulliver - Jonathan Swift – Octavio Mendes Cajado
23. O Vermelho e o Negro - Stendhal – Casimiro Fernandes e de Souza Jr.
24. O Primo Basílio - Eça de Queirós
25. Contraponto - Aldous Huxley – Érico Verissimo e Leonel Vallandro
26. As Relações Perigosas - Choderlos de Laclos – Sérgio Milliet
27. Judas, o Obscuro - Thomas Hardy – Octavio de Faria
28. O Cristo Recrucificado - Nikos Kazantzakis – Guilhermina Sette
29. Os Subterrâneos do Vaticano - André Gide – Miroel Silveira e Isa Leal
30. Moll Flanders - Daniel Defoe – Antonio Alves Cury
31. Suave é a Noite - F. Scott Fitzgerald – Ligia Junqueira
32. A Idade da Razão - Jean-Paul Sartre – Sérgio Milliet
33. O Amante de Lady Chatterley - David Herbert Lawrence – Rodrigo Richter
34. As Vinhas da Ira - John Steinbeck – Ernesto Vinhaes e Herbert Caro
35. O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde – Oscar Mendes
36. Germinal - Emile Zola – Francisco Bittencourt
37. Ivanhoé - Walter Scott – Brenno Silveira
38. O Falecido Mattia Pascal - Luigi Pirandello – Mário da Silva
39. Lady Barberina / Outra Volta do Parafuso - Henry James – Leônidas Gontijo de Carvalho / Brenno Silveira
40. Contos – Voltaire – Mário Quintana
41. Nosso Homem em Havana - Henry Graham Greene – Brenno Silveira
42. Almas Mortas - N. V. Gógol – Tatiana Belinky
43. Moby Dick - Herman Melville – Péricles Eugênio da Silva Ramos
44. Babbitt - Sinclair Lewis – Leonel Vallandro
45. Mrs. Dalloway / Orlando - Virginia Woolf – Mário Quintana / Cecília Meirelles
46. A Pele - Curzio Malaparte – Alexandre O’Neill
47. A Romana - Alberto Moravia – Marina Colasanti
48. A Condição Humana - André Malraux – Jorge de Sena
49. O Estrangeiro - Albert Camus – Antonio Quadros
50. Ficções - Jorge Luis Borges – Carlos Nejar

a grande maioria dessas obras já havia sido publicada por outras editoras, como globo, saraiva, josé aguilar, martins, civilização brasileira e assim por diante. a abril cultural adquiriu as licenças de publicação, dando os devidos créditos. até onde sei, traduções inéditas eram as de tatiana belinky (almas mortas) e péricles eugênio (moby dick).

(cont.)

30 de set. de 2008

o globo: "muito em comum"

com a gentil autorização do jornal o globo, transcrevo a matéria publicada em 19/04/2008 no caderno prosa & verso, de autoria de miguel conde.

Muito em comum
Tradutores brasileiros denunciam plágios em série e organizam movimento de protesto
Miguel Conde

O que leva uma editora a plagiar traduções que ela mesma já havia publicado, substituindo em seus livros o nome de tradutores famosos pelo de pessoas desconhecidas, que além de não servirem como chamariz para os leitores em alguns casos parecem nem mesmo existir? É difícil de entender, mas é o que fez repetidas vezes nos últimos anos a editora paulista Nova Cultural.

De 1995 a 2002, a empresa publicou 22 títulos que, na opinião de especialistas, são plágios de traduções que integravam o catálogo da Abril Cultural, do qual a Nova Cultural é herdeira. Em 2002, eles foram reunidos na popular coleção Obras Primas, impressos em tiragens iniciais de 60 mil exemplares, bem acima da média nacional, e vendidos em bancas de jornal.

A primeira denúncia de plágio num livro da coleção (“Cyrano de Bergerac”, de Edmond Rostand) foi feita em 2002 por Ivo Barroso. No ano passado, surgiram novos casos: o tradutor Saulo von Randow Júnior afirmou que a tradução de “Ivanhoé”, de Walter Scott, era plagiada, e o jornal “Folha de S. Paulo” denunciou as traduções dos “Contos”, de Voltaire, e de “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert. Mas uma série de cotejos feitos nos últimos meses por Denise Bottmann — tradutora de clássicos como “Comunidades imaginadas” (Companhia das Letras), de Benedict Anderson e “Piero de La Francesca” (Cosacnaify), de Roberto Longhi — e um grupo de profissionais da área indica que a extensão das fraudes é muito maior, a ponto de fazer deste o maior caso conhecido de plágios de traduções na indústria editorial brasileira. Ela chama a troca de créditos de “escárnio”:

— A Nova Cultural está tripudiando uma herança construída pelo esforço de toda uma geração, está adulterando a história do país. É um grande escárnio, uma grande fraude.

Divulgando a história no blog http://assinado-tradutores.blogspot.com/, Denise organizou um abaixo-assinado em repúdio a plágios e pela valorização do ofício de tradutor no Brasil, que já recebeu adesão de mais de 300 profissionais, entre eles Lia Wyler, Ivo Barroso, Jorio Dauster, Paulo Franchetti e Geraldo Holanda Cavalcanti.

Procurada em fevereiro, a Nova Cultural disse que a apuração do episódio seria concluída em um mês. Na quinta-feira, num fax assinado pelo assessor da diretoria Shozi Ikeda, a editora afirmou: “Em setembro de 2007, um Editor da Nova Cultural ao consultar algumas das obras da coleção Obras Primas, notou diferenças na coleção feita em 2002 contra a obra publicada em 1978. Quando colocado o problema para a Diretoria, esta, de imediato, instruiu que fosse feita uma averiguação minuciosa”.

A Nova Cultural afirmou que está tratando o problema com os detentores de direitos das traduções (nos anos 1970, a Abril Cultural fez acordos para publicar traduções lançadas originalmente por outras empresas), e que “determinou a retirada de circulação e venda” de todas obras sobre as quais houvesse suspeita. A editora disse ainda que a equipe responsável pela coleção Obras Primas não trabalha mais lá, e por isso “não existe forma de determinar quais as falhas” que provocaram os problemas.

Continua nas páginas 2 e 3

Caderno: Prosa & Verso

OBRAS SOB SUSPEITA
“A DIVINA COMÉDIA”, Dante: Tradução de Fábio Alberti seria de Hernâni Donato.
“CRIME E CASTIGO”, Dostoiévski: Trad. sem crédito seria de Natália Nunes.
“CYRANO DE BERGERAC”, Edmond Rostand: Trad. de F. Alberti seria de Porto Carreiro.
“O VERMELHO E O NEGRO”, Stendhal: Trad. de Mª da Silva seria de Luiz Costa Lima.
“MADAME BOVARY”, Flaubert: Trad. de Enrico Corvisieri seria de Araújo Nabuco.
“ANA KARÊNINA”, de Tolstói: Trad. de Mirtes Coscodai seria de João Gaspar Simões.
“O LEOPARDO”, de Lampedusa: Trad. de Leonardo Codignoto seria de Rui Cabeçadas.
“FAUSTO” E “WERTHER”, Goethe: Trads. de Alberto Maximiliano seriam de Silvio Meira e Galeão Coutinho.
“CONTOS”, Voltaire: Trad. de Roberto Domenico Proença seria de Mário Quintana.
“O MORRO DOS VENTOS UIVANTES”, Emily Brontë: Trad. de Silvana Laplace seria de Oscar Mendes.
“O FALECIDO MATTIA PASCAL” E “SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR”, Pirandello: Trads. de Fernando Corrêa Fonseca seriam de Mário da Silva, Brutus Pedreira e Elvira Ricci.
“TOM JONES”, Fielding: Trad. de Jorge Pádua Conceição seria de Octavio Cajado.
“NANÁ”, Zola: Trad. de Roberto Valeriano seria de Eugênio Vieira.
“O RETRADO DE DORIAN GRAY”, Wilde: Trad. de E. Corvisieri seria de Oscar Mendes.
“A MULHER DE 30ANOS”, Balzac: Trad. de Gisele Soares seria de José Maria Machado.
“OS TRÊS MOSQUETEIROS”, Dumas: Trad. de M. Coscodai seria de Octavio Cajado.
“LORD JIM”, Conrad: Trad. de Carmen Lomonaco seria de Mário Quintana.
“UMA VIDA”, Maupassant: Trad. de Roberto Proença seria de Ascendino Leite.
“SUAVE É A NOITE”, Scott Fitzgerald: Trad. de E. Corvisieri seria de Lígia Junqueira.
“IVANHOÉ”, Walter Scott: Trad. de Roberto Whitaker seria de Brenno Silveira.


Livros têm páginas idênticas e mesmos erros

Para especialistas, fraude é única explicação possível; nomes de supostos tradutores podem ter sido inventados
A coordenadora editorial da coleção Obras Primas era Janice Florido, hoje na Ediouro. Ela diz que não se lembra quem era o encarregado de negociar os direitos de tradução. O editor da coleção, Eliel Silveira Cunha, hoje na Miro Editorial, diz que nunca lidou com isso, nem sabia quem era o responsável. A outra editora, Fernanda Cardoso, não foi localizada pelo GLOBO.

No entanto, e apesar do que sugere a resposta da Nova Cultural, as trocas nos créditos das traduções são anteriores à coleção, afirma Denise Bottmann. Começaram a acontecer em 1995, sete anos antes de ela ser lançada. Na época, a Abril Cultural já tinha deixado de existir e os livros eram editados pela Nova Cultural, parte do grupo CLC, controlado por Richard Civita (ele e seu irmão, Roberto, dividiram a herança editorial deixada pelo pai dos dois, Victor).

Os primeiros títulos afetados, apontam as comparações, foram “Suave é a noite”, de F. Scott Fitzgerald; “A mulher de trinta anos”, de Balzac; “O retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde; “Ana Karênina”, de Tolstói; e “Os irmãos Karamazóvi”, de Dostoiévski. Como nas outras trocas de crédito, nomes de intelectuais importantes foram substituídos pelos de pessoas desconhecidas: Lígia Junqueira por Enrico Corvisieri; José Maria Machado pelo mesmo Enrico Corvisieri, depois substituído em 2002 por Gisele Donat Soares; Oscar Mendes por Maria Cristina F. da Silva; João Gaspar Simões por Mirtes Ugeda Coscodai; Natália Nunes e Oscar Mendes por (mais uma vez) Enrico Corvisieri.

Pequenas alterações em alguns trechos
Em alguns casos, como em “O retrato de Dorian Gray”, até os erros das traduções anteriores são reproduzidos. “Suit of armor”, ou “um jogo completo de armadura”, foi traduzido por Oscar Mendes por “coleção de armaduras”. Em outro exemplo, “exquisite life” vira “vida estranha”, quando o correto seria bela, maravilhosa, refinada. Ambos equívocos, entre outros, são repetidos na tradução atribuída a Maria Cristina F. da Silva.

— O que foi feito é uma apropriação indébita, é quase o equivalente a roubar uma sepultura. O mais chocante é que não foi uma coisa ocasional, era uma política editorial — diz Jorio Dauster, tradutor de Vladimir Nabokov e J.D. Salinger, entre outros.

Os cotejos mostram páginas e páginas com textos idênticos, às vezes com troca de algumas palavras por sinônimos, como é o caso do trecho de “A mulher de trinta anos”, de Balzac, reproduzido na primeira página deste caderno. A possibilidade de que tradutores diferentes cheguem a soluções idênticas com tanta freqüência é descartada por profissionais da área como Ivo Barroso:

— São casos incontestáveis, com repetições extensas demais para serem coincidências. Na poesia isso é especialmente claro, porque há questões como a escolha do adjetivo, da colocação do verbo, do ritmo, da sinonímia, que já tornam difícil que dois tradutores traduzam dois versos seguidos da mesma forma. Quando você encontra então 160 versos iguais, não tem como não ter certeza. O que fizeram é insuportável: apagaram os nomes de tradutores com uma história, uma identidade tradutória, para botar no lugar os de uns quaisquer.

Pessoas desconhecidas no meio literário, Enrico Corvisieri, Leonardo Codignoto, Vera M. Renoldi, Fábio M. Alberti e outros supostos autores das traduções da Nova Cultural são elogiados em páginas da internet pela qualidade do seu trabalho. Quem quiser transmitir os cumprimentos diretamente a eles, porém, terá dificuldades. Buscas na internet mostram apenas referências às traduções, e os nomes não constam da lista telefônica.

Ainda mais intrigante é a identidade por trás de Calvin Carruthers, creditado como tradutor de “A metamorfose”, de Franz Kafka. Calvin Carruthers é o nome de um personagem representado por Vic Tayback no filme “Horror, blood and lace”. O último filme em que Tayback atuou foi “Horseplayer”, de Kurt Voss, no qual ele representou um personagem chamado Gregor Samsa — nome do protagonista de “A metamorfose”. Não há nenhum cotejo, porém, que indique se essa tradução é um plágio, ou se Carruthers foi apenas um pseudônimo escolhido por um tradutor real.

Nos últimos anos, a editora Martin Claret também foi alvo de denúncias de plágio. Seu catálogo, composto principalmente por obras em domínio público, atribui a Pietro Nassetti traduções de Marx, Descartes, Rousseau, Nietzsche, Weber, Shakespeare, Kafka, Platão, Maupassant, Doistoiévski, Goethe, Baudelaire, Sun-Tzu, Aristóteles, Durkheim, Schopenhauer, Ovídio, Maquiavel, Eurípides, Esopo e Voltaire, entre outros. A Objetiva está negociando a compra de parte da editora.

NOS TEXTOS, A ABERTURA DO BRASIL PARA O MUNDO

Heloisa Gonçalves Barbosa

As primeiras traduções efetuadas no Brasil, como se poderia esperar, foram de textos religiosos vertidos pelos jesuítas, do português ou do latim, para a língua mais falada na época pelos índios na costa do Brasil, o tupi, ou sua versão adaptada pelos padres, a língua geral. Com a proibição do uso desse idioma pelo Marquês de Pombal em 1759, a expulsão dos jesuítas e a imposição do uso do português como língua de instrução no Brasil, declina e cessa a produção textual em língua geral.

Mas, devido à proibição de qualquer manufatura, ou seja, da existência e operação de qualquer maquinário no Brasil colônia, nada era produzido aqui, inclusive o papel e, conseqüentemente, o livro. Existiram, porém, traduções “piratas”, feitas por intelectuais brasileiros, muitas vezes reproduzidas manualmente, que circulavam às escondidas, como ocorreu com os textos que influenciaram a Inconfidência Mineira. Houve, no século XVIII, um projeto de tradução e publicação de obras científicas e técnicas, bem como foram traduzidos, em iniciativas isoladas, tratados religiosos, morais e filosóficos, assim como algumas biografias.

É com a chegada da família real ao Brasil em 1808 e a fundação da Imprensa Régia que verdadeiramente se inicia a produção de traduções das grandes obras literárias no Brasil. Como é consenso entre pesquisadores e historiadores na área de tradução, as nações em formação traduzem e traduzem muito. Essas traduções importam gêneros inexistentes na literatura que os recebe, de preencher lacunas. À infante literatura brasileira faltava praticamente tudo. E foi por meio das traduções que se realizou sua aproximação com a cultura ocidental.

No entanto, num primeiro momento, as traduções publicadas pela Imprensa Régia não tinham como objeto ainda as grandes obras literárias, mas visavam preencher lacunas mais básicas, ou seja, fundamentar os conhecimentos técnicos necessários para construir o país em formação. Desta forma, os primeiros livros impressos foram traduções de textos de matemática e engenharia que viriam a auxiliar nesse propósito. A primeira obra literária traduzida e publicada pela companhia foi o “Essay on Criticism” (Ensaio sobre a crítica) do pensador e poeta inglês Alexander Pope.

No século XIX, porém, o custo do papel, no Brasil, era elevadíssimo, o que fazia com que os editores brasileiros precisassem importar e mesmo contrabandear esse insumo. Uma conseqüência dessa situação, pouco conhecida dos brasileiros, é que a maioria dos autores nacionais do período, entre eles Machado de Assis e José de Alencar, teve seus livros impressos primeiro em Portugal, Inglaterra ou França, depois enviados ao Brasil. O mesmo ocorria com as traduções de obras literárias, que eram produzidas em Paris para serem despachadas para o Brasil.

Essas traduções eram, na maioria, o que se convencionou chamar “traduções indiretas”: não eram feitas a partir do texto no idioma original, mas de uma versão para um idioma mais conhecido no Brasil, principalmente o francês, ou mesmo cotejando-se várias traduções para as línguas latinas, mais acessíveis para nós. É o caso das traduções do alemão, por exemplo, “A metamorfose”, de Kafka, ou de vários autores russos, como Dostoiévski, Tolstói, Gogol.

Foi somente após a Primeira Guerra que casas editoriais foram inauguradas em grande número no Brasil. Na década de 1930, Getúlio Vargas incentivou essas empresas, o que as fez quase dobrar em quantidade. Na era pós-Vargas, porém, esse tipo de empreendimento entra em declínio novamente. Grandes editoras sobreviveram, no entanto, podendo-se nomear, por exemplo, a Editora Globo, a José Olympio e a Companhia Editora Nacional, fundada por Monteiro Lobato. Em seguida, associações com o capital estrangeiro possibilitaram a abertura e a sobrevivência de muitas outras empresas do ramo livreiro no Brasil.

Essas casas preocuparam-se em trazer para o leitor brasileiro desde as grandes obras da literatura universal, ou detentores do prêmio Nobel, até histórias de detetives e romances de aventura. Para realizar as traduções, foram contratados intelectuais e autores de peso, dentre eles Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Monteiro Lobato, Mário Quintana, Sérgio Milliet e Clarice Lispector.

A partir da segunda metade do século XX, após a Segunda Guerra Mundial, porém, a principal influência cultural no Brasil, que era francesa, passa a ser americana e o fenômeno observado é a intensa tradução do best-seller americano, ao lado dos livros de auto-ajuda e das biografias dos famosos. A própria coleção de obras-primas da literatura, da Nova Cultural, mostra um peso maior dos textos traduzidos do inglês. Compõem boa parte da coleção traduções feitas ainda no período em que eram escritores e críticos literários os convidados a produzir traduções, algumas delas excelentes, feitas, muitas vezes, a custa de enormes esforços pessoais. A importância desse tipo de empreendimento, para um país como o nosso, às margens da cultura ocidental é, naturalmente, o de reunir e trazer ao público brasileiro esse acervo cultural da humanidade.

Para cumprir essa missão, uma vez vencida a questão material, do custo do papel, as empresas do ramo livreiro no Brasil ainda precisam vencer outros problemas nacionais que dificultam o acesso da população ao livro. O principal deles é a distribuição: como fazer o livro chegar ao público e chegar a ele com preços acessíveis? Em um país onde há cidades com várias farmácias, mas sem nenhuma livraria, o livro precisa ser levado ao leitor pelo supermercado, pelo jornaleiro. E em edições mais baratas, em formatos semelhantes ao livro de bolso americano. É essa necessidade que favorece a reedição de velhas traduções de textos antigos, já no domínio público: o fato de ser desnecessário o pagamento de direitos autorais barateia o produto.

Hoje, porém, busca-se uma aproximação maior do original. Há uma profissionalização do tradutor, em escolas de formação em nível de graduação e pós-graduação, bem como há intensa pesquisa na área no país. Isso permite que sejam feitas “re-traduções” das obras canônicas, aquelas que freqüentam as listas de livros que todos devem ler, responsáveis pela formação do gosto literário no mundo ocidental, agora diretamente do texto original completo, as traduções chamadas “diretas”. Um exemplo importante são as traduções dos grandes romances russos, cujos re-tradutores são literatos, acadêmicos e pesquisadores tais como Paulo Bezerra e Boris Schneiderman.

Atualmente, como bem se sabe, 80% do que é publicado no Brasil são traduções. Apesar disso, é difícil ter uma exata dimensão da verdadeira contribuição da tradução para a literatura brasileira. Desde o século XIX, tão avassaladora é a invasão de textos traduzidos que o próprio Machado de Assis se preocupava com a influência dos romances-folhetim franceses, tal como “Os três mosqueteiros” (1844), de Alexandre Dumas, pai, e “A dama das camélias” (1848), de Alexandre Dumas Filho, cuja influência se faz sentir, por exemplo, nos romances “Lucíola” e “Senhora”, de José de Alencar.

Vários teóricos da tradução acreditam que a evolução da literatura mundial se deve à tradução e que, logicamente, não pode haver literatura comparada sem traduções — e sem tradutores, cujos nomes devem ser mencionados na obra publicada por força de lei, a Lei dos Direitos Autorais.

HELOISA GONÇALVES BARBOSA é tradutora e Ph.D. em teoria da tradução pela Universidade de Warwick, Inglaterra; professora da Faculdade de Letras da UFRJ e ex-presidente do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA)

Em blogs e e-mails, a classe em pé de guerra

Tradutores reagem a plágios, cobram menção de créditos, e em alguns casos querem receber direitos autorais
Notícias de plágios de tradução na Nova Cultural e na editora Martin Claret fizeram com que os tradutores iniciassem uma campanha de valorização da profissão. Bem à moda dos tempos atuais, é uma militância que tem sido exercida por meio de blogs e e-mails. Além de fazerem cotejos de traduções em páginas da internet, eles organizaram um abaixo-assinado com mais de 300 adesões e têm enviado mensagens a suplementos culturais reclamando sempre que uma reportagem ou artigo deixa de mencionar o nome do tradutor de um livro. O movimento se articula em torno do blog http://assinado-tradutores.blogspot.com/.

Nos momentos de maior arroubo das conversas virtuais, há quem sugira que a inclusão do nome do tradutor nas capas dos livros deveria ser obrigatória. Outros defendem que o tradutor, como o autor, tenha uma participação nas vendas do livro. Até agora, porém, a luta não saiu do plano virtual. A tradutora Denise Bottmann, uma das organizadoras desse movimento, diz que falta dinheiro para levar a causa aos tribunais.

— Estamos esperando que algum escritório de advocacia se interesse e encampe essa luta contra os plágios — diz ela, sem endossar as reivindicações mais extremas. — Essa é nossa luta principal. Como ação correlata, temos uma série de pessoas enviando mensagens à imprensa e a editoras universitárias pedindo que em toda menção a um livro traduzido seja incluído o nome do tradutor.

Editor elogia iniciativa, mas vê exageros

Paulo Franchetti, que foi tradutor e hoje dirige a editora da Unicamp, diz que a campanha contra os plágios é uma questão de justiça intelectual, mas afirma que no bojo da discussão têm ocorrido exageros.
— Surgiu uma campanha pelo destaque absoluto do nome do tradutor, o que também não é o caso. O que tem que ter é a garantia de um registro explícito, como também devem ter o capista, o autor do projeto gráfico, os revisores. Um livro é uma produção coletiva — diz.

O crítico Luiz Costa Lima, cuja tradução de “O vermelho e o negro”, de Stendhal, está entre as que teriam sido plagiadas pela Nova Cultural, diz que a mobilização dos tradutores foi o resultado mais importante do caso até agora.
— O que me parece importante não é simplesmente o caso em si, mas a situação extremamente precária da tradução neste país — afirma.

Um tradutor ocasional, que se dedica ao ofício movido pelo interesse por obras específicas, Costa Lima reclama da remuneração recebida pelos tradutores brasileiros.
— Num país em que encontrar um bom leitor da própria língua, o português, já não é fácil, a tradução assume uma importância fundamental. Apesar disso, ela continua sendo entre nós uma atividade extremamente mal paga. Se nós temos traduções de qualidade, não é porque as editoras paguem bem, mas porque há tradutores que se interessam especialmente por determinados livros — diz.

O Sindicato Nacional de Tradutores (Sintra) estabelece um piso de R$24 por lauda traduzida, mas a própria diretora da entidade, Elyzabeth Thompson, admite que muitas editoras pagam menos do que isso. Embora poucas empresas respeitem a tabela, o pagamento pode aumentar em função da reputação do tradutor, da dificuldade do trabalho, ou da língua de origem da obra.

Um dos principais especialistas em tradução financeira no Brasil, Danilo Nogueira acredita que o resultado da baixa remuneração é que os melhores profissionais acabam desistindo de traduzir livros.
— Eu não traduzo livros porque não dá dinheiro, é muito difícil viver do que pagam as editoras. As pessoas que trabalham com livro são jornalistas, escritores, professores que traduzem nas horas vagas. O Antonio Houaiss traduziu o “Ulisses” de Joyce recebendo um salário mínimo por mês. É um esporte, não é uma profissão. Em outras áreas da tradução, por contraste, as pessoas são muito bem pagas. A diferença chega a dez para um — afirma.

Para Modesto Carone, situação tem melhorado

O pagamento de direitos autorais a tradutores é defendido por alguns profissionais como uma forma de aumentar a remuneração e, em conseqüência, garantir que os trabalhos possam ser feitos com mais tempo (e, espera-se, qualidade). Sergio Flaksman, tradutor de Truman Capote e George Orwell, entre outros, diz que as editoras têm se mostrado mais receptivas a esse tipo de acordo:
— A baixa remuneração faz com que a média da tradução no Brasil hoje não seja satisfatória. Isso obriga as editoras a investir muito em controle de qualidade, às vezes com até três revisões da tradução. Seria não apenas melhor, mas também mais justo, que o tradutor recebesse uma parcela de direitos autorais. Afinal, é um trabalho que em boa medida é de criação, e que deveria ser contemplado de acordo.

O presidente do Sindicado Nacional dos Editores de Livros (Snel), Paulo Rocco, discorda das críticas dos tradutores, e questiona a idéia de pagamento de direitos autorais.
— Hoje temos traduções muito boas no Brasil, uma situação muito melhor do que a de décadas atrás. Os tradutores estão sendo mais valorizados. Agora, o pagamento de percentual sobre as vendas do livro é injusto. Às vezes o tradutor tem um trabalhão com um livro enorme que não vende nada, e às vezes um outro faz um livro fácil, pequeno, que vende à beça.

Apesar da discordância quanto aos direitos autorais, Flaksman concorda que os editores têm valorizado o trabalho de tradução, o que para ele se percebe no aumento do número de traduções feitas diretamente da língua de origem. Modesto Carone, maior tradutor de Kafka no Brasil, também acha que a situação tem melhorado:
— Há uma consciência maior da importância de um bom trabalho. Antes, nem se tomava conhecimento de quem tinha feito a tradução. Esse não é mais o caso.


UMBERTO ECO E A TAREFA DE INTERPRETAR CONTEXTOS

Autor analisa as dificuldades da tradução

Quase a mesma coisa, de Umberto Eco. Tradução de Eliana Aguiar. Revisão técnica de Raffaella de Fillipis Quental. Editora Record, 458 pgs. R$50

Daniel Estill

O tradutor Danilo Nogueira, especializado na área financeira, costuma dizer que “traduzir é fácil, difícil é traduzir direito”. Partindo de pressuposto semelhante, Umberto Eco, no primeiro capítulo de seu “Quase a mesma coisa”, amplo livro sobre as dificuldades da tradução, fala sobre essa suposta facilidade ao analisar as traduções feitas pelo Altavista. Ele submete o sistema automático de tradução gratuito disponível pela internet a uma tarefa cruel: a tradução do trecho inicial do Gênesis, retirado da versão inglesa da Bíblia de King James.

Eco tortura a máquina de traduzir obrigando-a a passar o trecho do inglês para o espanhol e para o alemão, e depois de volta ao inglês. Os resultados são todos altamente discutíveis, mas o fato é que o programa traduz e um leitor minimamente informado reconhecerá aquilo como o Gênesis.

O exercício, no entanto, não pretende humilhar a máquina ou seus criadores, mas sim exemplificar uma noção corrente, e simplória, de que traduzir significa apenas encontrar o vocábulo equivalente a uma palavra de um determinado idioma em outro. Mas como sabe qualquer estudante das centenas de cursos de tradução que vêm proliferando pelo mundo nas últimas décadas, um tradutor profissional não traduz palavras, mas textos. E ao falarmos em textos, sejam eles de que área for, literários, financeiros, médicos, não há como escapar do conceito maior em que estão inseridos, ou seja, seus contextos. Para um tradutor, o contexto é tudo, mas para uma máquina ele praticamente inexiste.

O livro de Eco analisa os mais variados aspectos da tradução em profundidade. Apesar de sua limitada experiência como tradutor de fato, restrita a “dois livros de grande empenho”, “Exercices de style”, de Queneau, e “Sylvie”, de Gérard de Nerval, o autor argumenta que, ao longo de sua vasta experiência editorial, revisou muitas traduções alheias, além de participar ativamente do processo de tradução de suas obras, em estreita colaboração com os tradutores.

Isso, segundo ele, permite-lhe falar com conhecimento de causa sobre questões-chave da tradução, como a noção de fidelidade ao original ou sobre o seu grande achado: o tradutor como negociador. Uma negociação que implica considerar a situação em que o original foi produzido e sua finalidade, e como manter seu efeito no idioma de destino.

Nessas negociações, há que se considerar aspectos formais (ritmo, registro, vocabulário), época e situação histórica em que o texto foi produzido, os leitores do original e os leitores da tradução. Situações intraduzíveis, que Eco considera como “perdas irremediáveis”, podem ser compensadas em momentos posteriores, graças a um exercício de criatividade do tradutor, adicionando um toque de humor, um trocadilho, a um trecho em que isso não existia.

O livro ajuda a compreender a tradução como um dos fenômenos mais antigos, complexos e essenciais da história da Humanidade. E que hoje ganha cada vez mais visibilidade e importância pelo crescimento e diversificação dos meios de comunicação e interação entre os povos. Para finalizar, vale mencionar a segurança do texto em português da tradutora Eliana Aguiar e da revisora técnica, Raffaella de Fillippis Quental. Principalmente pela pesquisa de traduções em português não incluídas pelo autor, que utiliza exemplos em inglês, alemão, espanhol e italiano, predominantemente. Na ausência de traduções disponíveis, a própria tradutora encarregou-se da tarefa. Um ato de correção e respeito editorial.

DANIEL ESTILL é tradutor, jornalista e mestre em teoria literária pela USP

© 2001 Todos os direitos reservados à Agência O Globo

suave é a noite



Scott Fitzgerald, Suave é a noite

a. tradução de Lígia Junqueira, Abril, 1972
b. atribuição a Enrico Corvisieri, Nova Cultural, 1995



a. 1a. parte. XIX (pp.104-5):
Abe devia partir da Gare Saint-Lazare às onze horas. Estava só, sob a suja cúpula de vidro, relíquia da era do Palácio de Cristal; suas mãos, que tinham a vaga côr acinzentada que só aparece após vinte e quatro horas de vigília, estavam nos bolsos, para esconder a tremedeira. Assim sem chapéu, via-se que seus cabelos sòmente na parte de cima estavam penteados para trás - os de baixo apontavam resolutamente para os lados. Mal se podia reconhecer nêle o homem que nadara na praia do Hotel de Gausse, quinze dias antes.

b. 1a. parte, XIX (p. 88):
Abe devia partir da Gare Saint-Lazare às onze horas. Estava só, sob a suja cúpula de vidro, relíquia da era do Palácio de Cristal; suas mãos, que tinham a vaga cor acinzentada que só aparece após vinte e quatro horas de vigília, estavam nos bolsos, para esconder a tremedeira. Assim sem chapéu, via-se que seus cabelos somente na parte de cima estavam penteados para trás - os de baixo apontavam resolutamente para os lados. Mal se podia reconhecer nele o homem que nadara na praia do Hotel de Gausse, quinze dias antes.

a. 2a. parte, VIII (p. 189):
Foi embora empurrando a bicicleta, sentindo que os olhos de Nicole o seguiam, sabendo que ela sofria com aquêle seu primeiro amor, sabendo que também êle tinha o coração amargurado. Seguiu durante trezentas jardas morro acima, até o outro hotel, e tomou um quarto. Dali a pouco percebeu que se lavava, sem se lembrar do que acontecera nos dez minutos intermediários, a não ser do som de vozes agitadas, vozes sem importância, de pessoas que não sabiam da paixão que êle sentia.

b. 2a. parte, VIII (p. 158):
Foi embora empurrando a bicicleta, sentindo que os olhos de Nicole o seguiam, sabendo que ela sofria com aquele seu primeiro amor, sabendo que também ele tinha o coração amargurado. Seguiu durante trezentos metros morro acima, até o outro hotel, e tomou um quarto. Dali a pouco percebeu que se lavava, sem se lembrar do que acontecera nos dez minutos intermediários, a não ser do som de vozes agitadas, vozes sem importância, de pessoas que não sabiam da paixão que êle sentia.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: capa da edição original, www.sc.edu

carta a departamentos de letras e literatura

bom dia, senhores

dispensarei qualquer arrazoado sobre as características de nossa formação cultural, tão dependente de pontes para o mundo, digamos, da "cultura universal", e sobre a importância das traduções de grandes obras da literatura mundial para nós, brasileiros, feitas, aliás, por renomados intelectuais (portugueses e brasileiros) do passado.

irei direto ao ponto. tem-se evidenciado que a editora nova cultural, em sua coleção obras-primas (montada nos moldes da coleção imortais da literatura, da extinta abril cultural), em vários casos eliminou a correta publicação dos créditos de tradução dessas obras, passando a atribuí-la a outros tradutores, talvez fictícios, talvez existentes.

o que parece se configurar, portanto, é que a editora de maior visibilidade no país (que muitas pessoas ainda associam à editora abril) tomou um patrimônio tradutório do país e, por razões ignoradas, mas com certeza escusas e inaceitáveis, eliminou, suprimiu, enterrou a contribuição desses intelectuais para nosso patrimônio cultural, e está trabalhando ativamente para o esquecimento do papel por eles desempenhado nesse âmbito. assim temos que os nomes de octavio mendes cajado, mario quintana, joão gaspar simões, araújo nabuco, silvio meira, galeão coutinho, porto carreiro, brenno silveira foram eliminados, suprimidos, tirados fora, aniquilados, exterminados, dos créditos de tradução. tal prática não poupou sequer um nome em vida, a saber, hernâni donato.

o fato é tanto mais grave porque, aqui, não são procedimentos avulsos, motivados por questões financeiras, de pequenas editoras desacreditadas, como a martin claret, e sim partem de uma empresa de grande porte com suposta credibilidade acumulada ao longo de décadas junto ao público leitor brasileiro.

desnecessário lembrar que muito provavelmente esses créditos fraudados estão sendo reproduzidos aos milhares em inúmeras teses, dissertações, artigos, papers, trabalhos de curso e assim por diante, se não em todas, pelo menos na maioria das faculdades e institutos universitários de literatura e línguas no brasil, numa rede de distribuição capilar que multiplica exponencialmente a força destrutiva de tal prática.

abaixo transcrevo a listagem da coleção obras-primas.

a coleção é composta por 5 obras em português (portanto sem tradução), 23 obras publicadas com créditos aparentemente corretos de tradução, 23 obras (se incluirmos Irmãos Karamazóvi), cujos falsos créditos de tradução estão destacados em vermelho, e 1 sob suspeita, destacado em verde.

OBS.: ISBN 85-351-0485-2: Dostoievski, Os irmãos Karamazóvi, trad. Enrico Corvisieri (Natália Nunes e Oscar Mendes) – apesar de publicado, foi cancelado da coleção, e seu número dentro dela foi substituído.

Miguel de Cervantes, Dom Quixote, trad. Viscondes de Castilho e Azevedo
Victor Hugo, Os trabalhadores do mar, trad. Machado de Assis
Dante Alighieri, A divina comédia, trad. Fábio M. Alberti (Hernâni Donato)
Dostoievski, Crime e castigo, não consta tradutor (Natália Nunes)
Edmond Rostand, Cyrano de Bergerac, trad. Fábio M. Alberti (Porto Carreiro)
Stendhal, O vermelho e o negro, trad. Maria Cristina F. da Silva (Luiz Costa Lima)
Flaubert, Madame Bovary, trad. Enrico Corvisieri (Araújo Nabuco)
Jane Austen, Razão e sensibilidade, trad. Therezinha Deutsch
Leon Tolstoi, Ana Karênina, trad. Mirtes Ugeda Coscodai (João Gaspar Simões)
Homero, Odisséia, trad. Antonio Pinto de Carvalho
Tommaso di Lampedusa, O leopardo, trad. Leonardo Codignoto (Rui Cabeçadas)
Charles Dickens, Um conto de duas cidades, trad. Sandra Luzia Couto
Bram Stoker, Drácula, trad. Vera M. Renoldi
Euclides da Cunha, Os sertões
Franz Kafka, A metamorfose, trad. Calvin Carruthers (não localizado)
Mark Twain, As aventuras de Tom Sawyer, trad. Luísa Derouet
Choderlos de Laclos, Relações perigosas, trad. Sérgio Milliet
Sinclair Lewis, Babbitt, trad. Leonel Vallandro
Camões, Os lusíadas
Goethe, Fausto e Werther, trad. Alberto Maximiliano (Silvio Meira e Galeão Coutinho, respectivamente)
Voltaire, Contos, trad. Roberto Domenico Proença (Mário Quintana)
Tchecov, As três irmãs, trad. Maria Jacintha
Herman Melville, Moby Dick, trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes, trad. Silvana Laplace (Oscar Mendes)
Machado de Assis, Memorial de Aires e Esaú e Jacó
Daniel Defoe, Moll Flanders, trad. Antônio Alves Cury
Eça de Queiroz, A cidade e as serras
Gogol, Almas mortas, trad. Tatiana Belinky
Boccacio, Decamerão, trad. Torrieri Guimarães
Pirandello, O falecido Mattia Pascal e Seis personagens à procura de autor, trad. Fernando Corrêa Fonseca (Mário da Silva e Brutus Pedreira)
Louise May Alcott, Mulherzinhas, trad. Vera Maria Marques Martins
Virgílio, Eneida, trad. Tassilo Orpheu Spalding
Alexandre Dumas Filho, A dama das camélias, trad. Therezinha Deutsch
Henry Fielding, Tom Jones, trad. Jorge Pádua Conceição (Octavio Mendes Cajado)
Émile Zola, Naná, trad. Roberto Valeriano (Eugênio Vieira)
Shakespeare, Tragédias, trad. Beatriz Viégas-Faria
Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray, trad. Enrico Corvisieri (Oscar Mendes)
Honoré de Balzac, A mulher de trinta anos, trad. Enrico Corvisieri (José Maria Machado)
Edgar Allan Poe, Histórias extraordinárias, trad. Brenno Silveira e outros
Jules Verne, A volta ao mundo em oitenta dias, trad. Therezinha Deutsch
Jonathan Swift, As viagens de Gulliver, trad. Therezinha Deutsch
Alexandre Dumas, Os três mosqueteiros, trad. Mirtes Ugeda Coscodai (Octavio Mendes Cajado)
Ibsen, A casa de bonecas, trad. Cecil Thiré
Joseph Conrad, Lord Jim, trad. Carmen Lia Lomonaco (Mário Quintana)
Henry James, Lady Barberina e A outra volta do parafuso, trad. Leônidas Gontijo e Brenno Silveira
Raul Pompéia, O ateneu
Guy de Maupassant, Uma vida, trad. Roberto Domenico Proença (Ascendino Leites)
Scott Fitzgerald, Suave é a noite, trad. Enrico Corvisieri (Lígia Junqueira)
D. H. Lawrence, Mulheres apaixonadas, trad. Cabral do Nascimento
Walter Scott, Ivanhoé, trad. Roberto Nunes Whitaker (Brenno Silveira)

seu apoio será da máxima importância, e sugestões sobre maneiras de encaminhar o problema serão muitíssimo bem-vindas.

agradeço a atenção,

denise bottmann
dbottmann@uol.com.br

3 de ago. de 2008

follow-up


decerto todos lembram a cautelar que a l&pm impetrou contra a nova cultural.

em todo caso reproduzimos abaixo, e damos o andamento da questão nos itens 2 e 3, abaixo:

1. L&PM questiona Nova Cultural sobre traduções
Por L&PM Editores

A L&PM Editores ajuizou medida acautelatória (Processo Cautelar 001/1.08.0127989-9 – 19ª Vara Cível de Porto Alegre) contra a EDITORA NOVA CULTURAL LTDA., visando ressalvar e prevenir direitos diante das denúncias e evidências em relação a falsificação de traduções.

Com o dito procedimento judicial, a L&PM antecipa a decisão de anular o contrato celebrado com a EDITORA NOVA CULTURAL LTDA., em relação a diversas traduções.

Recorda-se que a relação entre as duas empresas começou quando a NOVA CULTURAL propôs a aquisição das traduções (de propriedade da L&PM) dos livros: Romeu e Julieta, Macbeth e Otelo. Como forma de pagamento pela cessão dos direitos das mencionadas traduções, a NOVA CULTURAL ofereceu, em permuta, – e a L&PM aceitou – a cessão dos direitos de três traduções: Divina Comédia, Madame Bovary, Viagens de Gulliver e as notas de Dom Quixote (cuja tradução é de domínio público).

Ocorre que, desde o ano passado, vêm surgindo crescentes denúncias, segundo as quais as traduções dos livros Divina Comédia e Madame Bovary, cujos direitos foram transferidos à L&PM, além de outras traduções da NOVA CULTURAL, seriam falsas. Isto é: os nomes dos tradutores mencionados nos contratos e nas edições da NOVA CULTURAL seriam falsos, e que as traduções seriam apenas cópias ou plágios de outras traduções. Conforme publicações na “Folha de S. Paulo”, no jornal “O Globo” e em outros órgãos de imprensa, segundo foi denunciado por um grupo de tradutores, as traduções de propriedade da NOVA CULTURAL são plágios de traduções anteriores, consideradas clássicas e de autoria de prestigiosos autores e tradutores.

Um exame superficial das versões brasileiras de dois dos livros cedidos à L&PM, pela NOVA CULTURAL, como sendo de propriedade legítima da NOVA CULTURAL, na verdade revela que se trata de uma cópia grosseira de tradução anterior. A Divina Comédia, de Dante Alighieri, supostamente tradução de “Fábio Alberti” (que não se sabe se é nome verdadeiro ou pseudônimo de alguém) é uma cópia de tradução anterior, muito conhecida, de Hernâni Donato. Da mesma forma, o livro Madame Bovary, de Gustave Flaubert, cuja tradução negociada à L&PM seria supostamente de “Enrico Corvisieri”, na verdade vem sendo denunciada como cópia da antiga tradução de Araújo Nabuco.

A lista de outros títulos que, segundo as denúncias publicadas nos jornais, utilizaram tradução adulterada e/ou plágio de tradução anterior, pela Nova Cultural, é longa:
“CRIME E CASTIGO”, Dostoiévski: Trad. sem crédito seria de Natália Nunes.
“CYRANO DE BERGERAC”, Edmond Rostand: Trad. de F. Alberti seria de Porto Carreiro.
“O VERMELHO E O NEGRO”, Stendhal: Trad. de Mª da Silva seria de Luiz Costa Lima.
“ANA KARÊNINA”, de Tolstói: Trad. de Mirtes Coscodai seria de João Gaspar Simões.
“O LEOPARDO”, de Lampedusa: Trad. de Leonardo Codignoto seria de Rui Cabeçadas. “FAUSTO” E “WERTHER”, Goethe: Trads. de Alberto Maximiliano seriam de Silvio Meira e Galeão Coutinho.
“CONTOS”, Voltaire: Trad. de Roberto Domenico Proença seria de Mário Quintana.
“O MORRO DOS VENTOS UIVANTES”, Emily Brontë: Trad. de Silvana Laplace seria de Oscar Mendes.
“O FALECIDO MATTIA PASCAL” e “SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR”, Pirandello: Trads. de Fernando Corrêa Fonseca seriam de Mário da Silva, Brutus Pedreira e Elvira Ricci.
“TOM JONES”, Fielding: Trad. de Jorge Pádua Conceição seria de Octavio Cajado.
“NANÁ”, Zola: Trad. de Roberto Valeriano seria de Eugênio Vieira.
“O RETRADO DE DORIAN GRAY”, Wilde: Trad. de E. Corvisieri seria de Oscar Mendes.
“A MULHER DE 30 ANOS”, Balzac: Trad. de Gisele Soares seria de José Maria Machado.
“OS TRÊS MOSQUETEIROS”, Dumas: Trad. de M. Coscodai seria de Octavio Cajado.
“LORD JIM”, Conrad: Trad. de Carmen Lomonaco seria de Mário Quintana.
“UMA VIDA”, Maupassant: Trad. de Roberto Proença seria de Ascendino Leite.
“SUAVE É A NOITE”, Scott Fitzgerald: Trad. de E. Corvisieri seria de Lígia Junqueira.
“IVANHOÉ”, Walter Scott: Trad. de Roberto Whitaker seria de Brenno Silveira.

Decepcionada e perplexa pelo silêncio e pela falta de explicações convincentes da NOVA CULTURAL diante dessas denúncias gravíssimas, a L&PM decidiu formalizar as medidas legais cabíveis à defesa de seus direitos e interesses.

A L&PM, claramente, é um terceiro de boa fé, vítima de uma fraude e, por isso, buscou o Poder Judiciário.

No procedimento judicial ajuizado, na forma dos arts. 867 e seguintes do Código de Processo Civil, a L&PM declara sua decisão de buscar a anulação do contrato celebrado entre as partes, com o cancelamento da cessão das traduções, de propriedade da notificante L&PM.

Igualmente, a L&PM torna público que está retirando de catálogo e recolhendo os exemplares em circulação das edições de livros da notificante lançados a partir das “traduções” cedidas pela notificada.

Através de perícia técnica, a L&PM está apurando os prejuízos que sofreu – e está sofrendo – em conseqüência da fraude tornada pública. Apurados os prejuízos, a L&PM cobrará judicialmente os prejuízos materiais e morais decorrentes dos fatos aqui noticiados.

2. Declaração do sr. Ivan Pinheiro Machado em julho 2008
"O pessoal da NC esteve aqui, em POA, muito gentis e aparentemente consternados... Não se falou em dinheiro. Nossa posição foi a mesma. Fizemos ver a eles que jamais a L&PM tinha tido um abalo tão grande. Nem a ditadura - que quase nos quebrou - conseguiu arranhar a nossa imagem pública, proeza que a NC conseguiu ao vender traduções falsas. Falamos em reparação de danos morais e danos materiais, sendo que a dos danos morais nós pretendemos doar para alguma entidade. E recusamos qualquer acordo entre 4 paredes. Tudo será público, com a devida divulgação a partir do nosso site."

3. Nova declaração do sr. Ivan Pinheiro Machado em agosto 2008
"Com a N. Cultural, vamos pedir que eles veiculem em jornais nacionais de grande circulação um comunicado informando que a L&PM editores não tinha conhecimento de que as traduções eram adulteradas e que eles (N. Cultural) assumem a responsabilidade e pedem desculpas à editora. [...] Na verdade é uma barbaridade o que se faz neste país."
imagem: lanternaacesa.blogspot.com

7 de mai. de 2008

who's who

perguntam-me por vezes: "mas quem é enrico corvisieri? quem são essas pessoas que assinam cópias de traduções? elas existem ou são inventadas?" - e eu digo: "não sei... quem deveria responder é a nova cultural!" em todo caso, hoje publico um who's who básico, a partir de referências dadas na internet.

abaixo estão os nomes apresentados pela nova cultural como tradutores de obras publicadas na coleção "imortais da literatura universal" e na coleção "obras-primas". aqui já mostrei que são ou versões muitíssimo semelhantes ou reproduções idênticas de traduções antigas, de autoria de outras pessoas. os títulos cotejados estão destacados em vermelho. os demais constam na internet como trabalhos atribuídos a essas pessoas, mas não foram objeto de exame meu.

1. nomes cuja única referência na internet se refere à própria obra de plágio:
- silvana laplace:
emily brontë, o morro dos ventos uivantes

- leonardo codignoto:
tommaso di lampedusa, o leopardo

- gisele donat soares:
honoré de balzac, a mulher de trinta anos

- roberto valeriano:
émile zola, naná

- alberto maximiliano:
goethe, fausto
goethe, werther

- roberto nunes whitaker:
walter scott, ivanhoé

- jorge pádua conceição:
henry fielding, tom jones

- roberto domenico proença:
voltaire, contos
guy de maupassant, uma vida

- carmen lia lomonaco:
joseph conrad, lord jim

- fernando corrêa fonseca:
luigi pirandello, o falecido mattia pascal
luigi pirandello, seis personagens à procura de um autor

2. nomes com poucas referências na internet, mas tb ligados a outras obras ou atividades editoriais:
- maria cristina figueiredo da silva:
oscar wilde, o retrato de dorian gray (1996, depois substituída em 2002 por enrico corvisieri) stendhal, o vermelho e o negro
- outras traduções:
john westwood, como preparar um plano de marketing, 1997, ed. clio;
john fletcher, como conduzir entrevistas eficazes, 1997, ed. clio;
robert kline, ancestrais, 1990, ed. nova cultural;
don pendleton, caçada impiedosa, 1988, ed. nova cultural

- fábio m. alberti:
edmond rostand, cyrano de bergerac
dante alighieri, a divina comédia
- outras atividades:
revisor: educação ambiental: princípios e práticas, ed. gaia; traduzindo o economês, bestseller; o retrato de dorian gray, 2003, nova cultural; os anjos existem, loyola;
preparador: aprenda a perdoar e tenha uma vida feliz, ediouro; como o mundo virou gay, ediouro; antes de tudo, ediouro; serial killer: louco ou cruel, ediouro;
tradutor: formação inicial na vida religiosa, loyola

3. nomes com diversas menções na internet, sobretudo com atividade relacionada à nova cultural e à bestseller (esta tb pertencente na época à c.l.c. s/a, proprietária da nova cultural, tendo sido vendida à record em 2004):
- enrico corvisieri:
scott fitzgerald, suave é a noite
honoré de balzac, a mulher de 30 anos (1995, substituído em 2003 por gisele donat soares)
oscar wilde, o retrato de dorian gray (2002)
fiodor dostoievski, irmãos karamázovi (1995)
gustave flaubert, madame bovary (2002)
- outras traduções:
platão, a república, coleção pensadores, 1997, nova cultural; 2002, bestseller; 2005, sapienza platão, apologia de sócrates, coleção pensadores, 1999, nova cultural;
platão, eutífron, coleção pensadores, nova cultural;
platão, críton, coleção pensadores, nova cultural;
platão, fédon, coleção pensadores, nova cultural;
descartes, discurso do método, coleção pensadores, 1999, nova cultural
descartes, meditações sobre a filosofia primeira, coleção pensadores, 1999, nova cultural;
descartes, as paixões da alma, coleção pensadores, 1999, nova cultural;

francesco santoianni, todos os ratos do mundo, 1993, bestseller;
salwa salem e laura maritano, cabelos ao vento, 1993, bestseller;
sveva casati modignani, o corsário e a rosa, 1996, bestseller
jane austen, orgulho e preconceito, bestseller, 1997; bestseller/record, 2004, 2006

- mirtes ugeda coscodai:
leon tolstoi, ana karênina
alexandre dumas, os três mosqueteiros
- outras traduções:
xenofonte, apologia de sócrates, coleção pensadores, 1999, nova cultural;
xenofonte, ditos e feitos memoráveis de sócrates, coleção pensadores, 1999, nova cultural;
- outras atividades:
revisora de bernadette siqueira abrão (org.), história da filosofia, pensadores, 1999, nova cultural,
autora, com bernadette siqueira abrão, de dicionário de mitologia, 2000, bestseller
organizadora, com bernadette siqueira abrão, de história da filosofia, 2002, bestseller
autora, com baby abrão, de história da filosofia, 2005, ed. sapienza
autora, com walter sagardoy, de adivinhar com cartas, nova cultural
autora, com walter sagardoy, de alimentação do bebê, nova cultural
autora, com walter sagardoy, de boa forma pós-parto
autora, com walter sagardoy, de guia do bebê