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18 de nov. de 2018

SIP / Civilização Brasileira

mais uma sugestão de pesquisa em nível de mestrado sobre a história da tradução no brasil: a relação entre a Edições Sociedade Impressora Paulista (SIP) e a coleção "Edições SIP - Collecções econômicas" lançada pela civilização brasileira (após aquisição pela companhia editora nacional) durante alguns anos na década de 1930.

vale notar que nenhum dos volumes dessa coleção que chegaram a meu conhecimento traz créditos de tradução - o que não deixa de ser surpreendente em se tratando de uma coleção publicada (por acordo? por licenciamento? não sei dizer) pela civilização brasileira, então filial e subsidiária carioca da cia. editora nacional, esta sempre bastante ciosa nesse quesito.

11 de set. de 2016

as traduções do clube do livro


encontra-se um excelente material em catálogo de traduções publicadas pelo clube do livro, 1943-1989, de francisco costa, disponível aqui.

um bom trabalho faria quem procedesse à identificação dos verdadeiros tradutores de tantos e tantos títulos publicados pelo clube do livro, apresentados em "tradução especial de josé maria machado" - segundo o levantamento de francisco costa, nada menos do que 75!

aqui neste blog encontram-se alguns rastreamentos e dados sobre as traduções espoliadas nos marcadores "josé maria machado" e "clube do livro".


30 de abr. de 2016

emerson, levantamento atualizado

Ralph Waldo Emerson (1803-1882)

Anos 1930 

1. O mestre do transcendentalismo americano chegou ao Brasil com sete palestras que havia apresentado entre 1845 e 1847, e que saíram em livro em 1850 enfeixadas sob o título de Representative Men. Esses ensaios eram: "Uses of Great Men"; "Plato; or, the Philosopher"; "Swedenborg; or, the Mystic"; "Montaigne; or, the Skeptic"; "Shakspeare; or, the Poet"; "Napoleon; or, the Man of the World"; "Goethe; or, the Writer".

Esse volume surgiu inicialmente entre nós com o nome de Os super-homens. Foi lançado pela editora paulista Cultura Moderna, numa edição sem data, que calculo por volta de 1936. [Note-se que o ensaio inicial, "Uses of Great Men", não consta na listagem da página de rosto. Não consultei fisicamente o exemplar; é provável que o texto venha como ensaio introdutório.]


Como se vê acima, trata-se de uma edição revista por A. Roitman, sem citar o nome do tradutor. Como em 1913 saíra em Portugal a tradução de Domingos Guimarães com o mesmo peculiar título de Os super-homens (Porto, Magalhães & Moniz), eu não excluiria a possibilidade de que tenha sido ela a ser revista e publicada pela Cultura Moderna. A avaliação e eventual confirmação dessa hipótese, aliás, poderia ser objeto de algum TCC.

2. Em 1938, uma pequena editora carioca chamada Multum in Parvo (razão social J. Botkin) publica Trechos de Emerson, em seleção de Robert James Botkin, em sua Coleção Portátil, v. 4. Embora não constem créditos de tradução, suponho que terá sido feita pelo próprio organizador e editor, Botkin. Agradeço à imensa gentileza de Saulo von Randow Jr. pela imagem de capa. 




Anos 1940

1. Em 1940, a Livraria Martins, de São Paulo, publica em sua coleção Pensamento Vivo o volume de excertos organizado por Edgar Lee Masters, O pensamento vivo de Emerson, em tradução de Ida Goldstein. Traz excertos de "Natureza", "Ensaios - primeira e segunda séries 1841-1844", "Poemas", "Homens representativos", "Traços Britanicos", "A conduta da Vida", "Dia de maio e Outros Trechos", "Sociedade e solidão", "Cartas e Objetivos Sociais".



2. Ainda em 1940, a Edições e Publicações Brasil Editora, também de São Paulo, publica A conduta da vida, em tradução de C. M. Fonseca. Aqui tampouco localizei imagem de capa. Em 2003, essa tradução foi reeditada pela editora paulista Martin Claret, com o título de A conduta para a vida. 

3. Em 1941, a mesma Brasil Editora lança Homens representativos da humanidade, também em tradução anônima revista, agora por Alfredo Gomes, responsável pelo prefácio e notas. Em 1960, a Edigraf lança essa mesma tradução revista, com o título de Homens representativos


Com o encerramento da Edigraf, a obra se transfere a  partir de 1967 para o catálogo da Tecnoprint, em suas Edições de Ouro, porém com a tradução atribuída diretamente a Alfredo Gomes, e não mais apenas "revista" por ele. E assim permanece até hoje, na atual Ediouro. Fica aí uma segunda sugestão de pesquisa para um TCC - quem terá sido o legítimo tradutor dessa obra de Emerson?




4. Em 1948, a Livraria Editora Progresso, de Salvador, publica English Traits com o título de Inglaterra e sua gente, em tradução de Acácio França. É uma edição muito difícil de se encontrar, e nem mesmo nossa Biblioteca Nacional dispõe de qualquer exemplar.


Anos 1950

1. Em 1953, temos o ensaio “Caráter”, presente na coletânea Ensaístas americanos, em tradução de Sarmento de Beires e José Duarte, pela W. M. Jackson, do Rio de Janeiro, em sua coleção Clássicos Jackson, vol. XXXIII. 


Ainda que Sarmento de Beires fosse português, exilara-se no Brasil desde 1928, após a implantação da ditadura em Portugal, retornando ao país de origem apenas após a Revolução dos Cravos, em 1974. Por esta razão, julgo legítimo considerá-la uma tradução brasileira de direito próprio. A tradução de Sarmento de Beires e José Duarte será indevidamente apropriada pela editora Martin Claret a partir de 2001, num volume chamado Ensaios, copiada na íntegra e atribuída a um ser de ficção de nome “Jean Melville”. Veja aqui.

2. Em 1955, a soteropolitana Progresso, de Pinto de Aguiar, lança outro volume com o título de Os super-homens, sem qualquer indicação sobre a tradução. Parece-me muito provável que se trate da tradução portuguesa de Domingos Guimarães ou da tradução revista por A. Roitman, pela Cultura Moderna, já comentadas mais acima. Tal hipótese, porém, demanda comprovação. 




Anos 1960

1. Em 1961, temos um volume de Ensaios, com seleção, nota introdutória e tradução de José Paulo Paes, pela paulista Cultrix, em sua coleção Clássicos Cultrix, contendo “O Letrado Norte-Americano”, “A Confiança em si Próprio”, “Compensação”, “Amizade”, “A Supra-Alma”, “O Poeta”, “A Natureza” e “Política”. 



Anos 1970

1. Em 1976, aparecem “Brama”, “Os dias”, “Moderação” e “Fábula” em Poetas norte-americanos, antologia bilíngue com organização e tradução de Paulo Vizioli, pela Lidador, como “Edição comemorativa do bicentenário da independência dos Estados Unidos da América, 1776-1976”. Infelizmente, só encontrei essa imagem: 



Anos 1980

Não localizei nenhum lançamento na década de 1980.


Anos 1990

1. Em 1994, sai outro volume de Ensaios, este correspondendo à coletânea original de Essays (First Series), em tradução de Carlos Graieb e José Marcos Mariani de Macedo, na coleção Lazúli da editora Imago, do Rio de Janeiro. 


É a este volume que a editora Martin Claret recorrerá para os demais ensaios de sua edição espúria de 2001, citada mais acima, em nome de “Jean Melville”, em cópia adulterada e bastante atamancada (vide aqui). 

2. Em 1996, também pela Imago, em sua coleção Lazúli, sai uma nova edição de Homens representativos, agora em tradução de Sônia Régis. 



3. Em 1997, temos "Experiência", ensaio de Emerson publicado em apêndice a Esta América nova, ainda inabordável, de Stanley Cavell, em tradução de Heloísa Toller Gomes, pela editora 34, de São Paulo.



Anos 2000

1. Em 2001, tem-se o volume Ensaios na edição espúria da editora Martin Claret, já citada, em nome de “Jean Melville”, que nem merece imagem de capa e dispensa maiores comentários (vide aqui).

2. Em 2004 é lançada uma miscelânea de excertos de vários autores, entre eles Emerson, num volume chamado Inspirações positivas: a chave do sucesso, com organização e tradução de Adriana Toledo de Almeida, pela editora paulista Vergara & Riba.



Anos 2010

1. Em 2010, a L&PM, de Porto Alegre, publica em apêndice a Walden, de Henry D. Thoreau, o necrológio de Emerson a ele, com o título “Thoreau”, em tradução minha. 



2. Em 2011, a editora Dracaena, de Içara, SC, publica Natureza, em tradução de Davi Araújo. 



3. Em 2013, sai Amor e amizade, também pela Dracaena, em tradução de Bianca Carvalho. 



Para 2016, está previsto o lançamento de dois ensaios, “Independência” e “Amizade”, pela L&PM, em tradução minha.


Vide também "O quinteto da Renascença Americana no Brasil", in Cadernos de Tradução, UFSC, vol. 35 (2015), aqui

Agradeço a Sérgio Tadeu Guimarães e Kim Abreu pelas contribuições em Poetas norte-americanos e Esta América nova.

17 de jan. de 2016

"maria deling"

em 1958, a editora boa leitura tem um importante lançamento: um volume duplo contendo duas novelas de thomas mann, tônio kroeger/ a morte em veneza. a tradução vem assinada por "maria deling", sobre a qual não encontrei a mais remota referência em todos os canais e fontes de consulta que costumo utilizar, a não ser o referido crédito de tradução desse volume para a boa leitura. parece-me bizarro, isso. posteriormente essa tradução de "maria deling" foi relançada pela hemus e, em enormes tiragens e reimpressões, pela abril cultural, em sua coleção de imortais da literatura universal.


 aqui, minha sugestão de pesquisa a algum graduando em seu TCC seria fazer um bom cotejo entre o tonio kröger lançado pela guanabara em 1934, com tradução em nome de outra figura misteriosa, "charlotte von orloff" (ver aqui), e com a morte em veneza, também lançado pela guanabara em 1934, em tradução de moysés gikovate (e eventualmente talvez também com a morte em veneza lançada pela flama em 1944, na tradução de lívio xavier). nessa casa de apostas que virou o não gosto de plágio nestas três últimas postagens, eu colocaria minhas fichas em algum tipo de contrafação.

atualização: retiro minha sugestão acima. constatei pessoalmente: a tradução de tonio kröger em nome de maria deling é bonita, elegante, e não guarda nenhuma relação com o tosco texto de "charlotte von orloff."

"otto silveira"



outro misterioso tradutor de thomas mann é um certo "otto silveira", assinando aquela que é a primeira tradução brasileira de a montanha mágica. o livro saiu pela editora panamericana, aparentemente já nascido como uma segunda edição em 1943. veja "um mann meio estropiado", aqui (ainda que omissões e mutilações não fossem raras naquela época - vide, por exemplo, o curioso caso dos irmãos karamazoff aqui).

não me espantaria muito se algum diligente mestrando ou doutorando, dispondo-se a avaliar meticulosamente essa primeira montanha mágica entre nós e a examinar com bom olho analítico as traduções feitas por otto schneider, concluísse que, na verdade, "otto silveira" e otto schneider são a mesma pessoa.

atualização em 18/12/2017: a hipótese foi confirmada por gentileza de théo amon [vide comentários], a quem agradeço vivamente, com a indicação documental comprobatória aqui.


16 de jan. de 2016

"charlotte von orloff"

apenas para não esquecer: alguma hora valeria a pena tentar elucidar quem é "charlotte von orloff", a meu ver nome retumbando sonoramente a pseudônimo. com exíguo histórico tradutório, "charlotte von orloff" assina as seguintes traduções: karl may, na região dos bandoleiros, globo, 1933; thomas mann, tonio kröger, guanabara, 1934; e stefan zweig, leporella (novellas) [contém, além de "leporella", "a collecção invisivel", "episodio no lago de genebra" e "buchmendel"], guanabara, 1935.

 





se eu tivesse de apostar minhas fichas, eu arriscaria o nome de elias davidovich ou alguém muito próximo a ele.


23 de out. de 2015

as traduções revistas: uma sugestão de pesquisa

grande serviço prestaria à história da tradução no brasil quem se dispusesse a rastrear as origens e razões de tantas "traduções revistas" que por algumas décadas, sobretudo as de 1930 e 1940, pipocaram nos catálogos de diversas editoras.

aqui mesmo, neste blog, o eventual pesquisador já encontraria muito material primário para investigar, bem como algumas pistas e hipóteses já aventadas e trabalhadas.

18 de abr. de 2015

mário de andrade e a "coleção cultura musical"

já comentei isso em outros posts, mas repito porque acho importante: a "cultura brasileira" foi uma pequena e efêmera editora (1934-1938) que, entre outras coisas, mantinha uma coleção de obras sobre músicos, a "coleção cultura musical", dirigida e organizada por mário de andrade.

em se conhecendo o nariz empinado de mário de andrade em relação à literatura de tradução, acho interessante que, claro, nem ele próprio foi capaz de abdicar dessa atividade que interconecta povos e culturas por meio de suas obras. e até imagino que tenha sido ele mesmo a indicar e escolher os tradutores dos livros que integravam sua coleção.

fica aqui mais uma singela sugestão para um TCC, uma monografia de final de curso, em nível de graduação: a trajetória da coleção cultura musical, da editora cultura brasileira.





15 de jun. de 2014

o walter scott da h. garnier, I

um autor que vale a pena ser visto no catálogo da h. garnier é walter scott, autor favorito da casa. entre 1905 e 1911, a editora publicou nada menos que catorze volumes (com quinze romances) de scott em sua "collecção dos autores celebres da literatura extrangeira". foram eles:
ivanhoé: romance histórico (tradução anônima, 1905);
kenilworth (tradução anônima, 1906);
os puritanos da escócia (tradução anônima, 1906);
o talisman, ou, ricardo na palestina (tradução anônima, 1906);
waverley (tradução anônima, 1906);
quintino durward (trad. k. d’avellar, 1906);
a prisão d’edimburgo (trad. k. d’avellar, 1906);
a formoza donzella de perth: seguido d'o misanthropo, ou, o anão das pedras negras (1. trad. fauconpret, 2. anônima, 1907);*
o official de fortuna, ou, uma lenda de montrose (tradução anônima, 1908)
guy mannering, ou, o astrólogo (trad. k. d’avellar, 1908);
woodstock (trad. k. d’avellar, 1909);
o mosteiro (trad. k. d’avellar, 1910);
anna de geierstein, ou, a donzella do nevoeiro (trad. k. d’avellar, 1911);
os desposados: novella tirada da historia das cruzadas (trad. k. d’avellar, 1911).



já comentei em vários posts anteriores o problema de contrafações na h. garnier e, de passagem, mencionei a alta frequência com que aparece o nome de "k. d'avellar" ("k. de avelar" e até "r. d'avellar") como tradutor não só de scott, mas também de dickens, balzac e chateaubriand. o que me surpreendeu foi a absoluta falta de qualquer referência a esse nome em qualquer outra fonte que não fossem as edições da h. garnier (em boa parte reeditadas posteriormente pela livraria garnier).

aqui no caso das traduções de walter scott, o interessante é notar que seis delas haviam sido traduzidas entre os anos 1830 e os anos 1850 por caetano lopes de moura (médico baiano que morava em paris e era tradutor contratado pela aillaud para seu catálogo de obras em português, para exportação basicamente para o brasil, pela laemmert), a saber: o talismã ou o ricardo na palestina; os puritanos da escócia; quintino durward; o misantropo, ou o anão das pedras negras; waverley; a prisão de edimburgo. 

parece-me curioso que o título original the black dwarf tenha recebido idêntica tradução na h. garnier, o misanthropo, ou, o anão das pedras negras, ainda mais a tantas décadas e a tantos quilômetros de distância (é de se lembrar que caetano lopes de moura vivia na frança). além dele, temos um subtítulo muito parecido para os desposados na tradução anônima publicada pela portuguesa galhardo & irmãos, de 1837: primeira novella tirada da história das cruzadas. analogamente, a única tradução de ivanhoé que traz o subtítulo de romance histórico, de que tenho notícia, é a publicada pela guimarães libânio em 1901. é difícil crer que essas ocorrências não passem de meras coincidências.

a propósito, um resenhista comenta o lançamento de o talisman em 1906 em termos muito elogiosos, destacando o pleno domínio da prosa e um lavor literário que, a seu ver, não pertencia àquela época e que devia ser bastante anterior. vide na péssima digitalização da brasiliana, disponível aqui.

todos esses indícios levam a crer que poderia ser bastante interessante verificar a procedência das traduções de walter scott publicadas pela h. garnier, fosse anonimamente ou em nome desse misterioso "k. d'avellar".

aqui umas capinhas de época, inclusive das traduções de caetano lopes de moura (pena que não consegui imagem da página de rosto d'o misantropo, onde consta os subtítulo):








* no caso do volume da h. garnier que traz a formoza donzella de perth e o misanthropo, a coisa é tão bizarra que a tradução vem em nome do célebre tradutor francês de walter scott, auguste defauconpret.

18 de ago. de 2013

mais uma sugestão de pesquisa

na seção de leitores do jornal opção, alguns meses atrás, eu tinha deixado um comentário sobre a matéria do jornal sobre o lançamento de rudin, aqui.

na edição desta semana, o jornal transcreveu o comentário em sua seção de cartas. de fato, creio que um levantamento e estudo sistemático da contribuição de imigrantes, refugiados e exilados ao desenvolvimento da tradução no brasil nos anos 1930 resultaria num rico painel.


Denise Bottmann
Muito bom o artigo “Editora lança notável romance de Tur­guêniev” (Jornal Opção 1960) e essa forma de resgatar a memória das traduções anteriores.

Elias Davidovich traduzia basicamente do espanhol e do francês. Sua tradução de Rudin saiu inicialmente em 1932, pela coleção Benjamin Costallata, pela carioca Flores & Mano. Trazia o título, aliás, bem à francesa: “Roudine”.

A tradução de Ivan Emiliano­vitch (de origens russas) é uma das primeiras no Brasil a ter sido feita diretamente do original. “Pais e Filhos” saiu inicialmente pela Edi­tora Cultura Brasileira, em 1935 (co­mo “Paes e Filhos”, pré-reforma ortográfica). A partir de 1941, pas­sou a ser publicada pela Livraria Martins.

Aliás, é muito interessante — e pouco conhecida ou estudada, creio eu — a contribuição de vá­rios imigrantes, exilados e refugiados como tradutores para aquele período de grande alavancagem do setor editorial, a partir dos anos 30: temos Elias Da­vi­do­­vich, Ivan Emiliano­vitch, Zo­ran Ninitch, Charlotte von Or­loff, Georges Selzoff, sem contar os posteriores, como Boris Sch­naiderman desde o comecinho dos anos 40 (assinando como Boris Solomonov) e Paulo Rónai.

Mas, de fato, o que me chama mais a atenção são esses tradutores dos anos 30 — creio que, dentre eles, apenas Elias Davidovich veio a se tornar mais conhecido no setor, com um grande trabalho à frente das coleções Delta (obras completas de Freud, projeto que se iniciara nos anos 30, mas apenas nos anos 50 veio a cabo, com Davidovich, justamente), bem como na organização das obras completas (e tradução de algumas delas, mas indireta) de Stefan Zweig.
disponível aqui.



2 de jun. de 2013

zoran ninitch, V, e uma sugestão de pesquisa

zoran ninitch, nosso amigo tradutor iugoslavo de que já falamos algumas vezes (veja aqui), traduziu várias coisas de stefan zweig no começo dos anos 1930.

hoje quero comentar uma "coincidência" envolvendo duas delas: uma noite fantastica, pela editora pallas (c.1932), e ocaso de um coração, pela machado & ninitch (1934).



ninitch tinha um colaborador em sua microeditora machado & ninitch: o tradutor aurélio pinheiro.

por outro lado, a editora pongetti, nos anos 1940, era relativamente useira e vezeira em pegar traduções publicadas por outras editoras, como fez algumas vezes com traduções de elias davidovich publicadas pela guanabara(veja aqui).

assim, quando vejo um volume contendo ocaso de um coração e uma noite fantastica, publicado pela pongetti em 1941, dando como tradutor aurélio pinheiro - aliás, falecido em 1938 -, começo a sentir aquela insuportável coceira que apenas um batalhão de pulgas atrás da orelha consegue provocar.

infelizmente não localizei imagem de capa dessa edição da pongetti (aliás reeditada em 1950), mas encontra-se facilmente em sebos, no google books e em nossa biblioteca nacional.

atualização em 05/08/2015 - localizei uma imagem de capa da referida edição da pongetti:



10 de fev. de 2013

"j. l. moreira"

mais um personagem daqueles intrigantes mistérios de identidade é "j. l. moreira", que aparece como tradutor da vida de benvenuto cellini escrita por ele mesmo, que saiu pela athena em 1939, quando já se transferira para são paulo.



a obra foi reeditada, como se pode ver pela capa abaixo, quando a athena, após a reforma ortográfica de 1942, alterou a grafia para "atena", sem o "h".



para situar a athena, consulte aqui.
para a questão das misteriosas identidades de alguns colaboradores da athena, veja aqui.

"j. l. moreira" é tradutor de um livro só, a dita autobiografia de cellini, que teve uma edição só, a de 1939.

e eis que me lembro da preciosa carta que fúlvio abramo escreveu na prisão, quando estava traduzindo vida nova de dante, que saiu sob o pseudônimo de "blásio demétrio".*

ali diz ele: "Ainda não recebi a 'Minha Vida' de Cellini, que também pretendo traduzir".


será que ele recebeu o exemplar? será que o traduziu? será que assinou sua tradução como "j. l. moreira"? esta aí mais uma sugestão de pesquisa para estudantes de tradução.

* agradeço mais uma vez a paula abramo pela gentileza em fornecer uma cópia desse precioso documento que é a carta de seu avô fúlvio abramo.

28 de jan. de 2013

"a novela", livraria do globo, 1936-1938

um grande serviço à história da tradução no brasil prestaria o mestrando que se animasse a fazer um levantamento dos contos editados pela revista literária a novela, publicada pela livraria do globo com direção de erico veríssimo, entre 1936 e 1938.

não foram poucos os autores que tiveram seu primeiro ingresso no brasil por meio das páginas d'a novela. e sua equipe de tradutores não era nada de se desdenhar: mario quintana, wilson velloso, erico veríssimo e tantos mais que caberia a um diligente pesquisador rastrear.

o que posso oferecer são algumas capinhas e o conteúdo de alguns números, que se encontram na internet:

 n. 3, dezembro de 1936

 n. 4, janeiro de 1937

 n. 9, junho de 1937

 n. 10, julho de 1937

 n. 11, agosto de 1937
(rohmer, trad. luiza lindau ferreira)


 n. 12, setembro de 1937

n. 14, novembro de 1937

 n. 15, dezembro de 1937

 n. 17, fevereiro de 1938

 n. 18, março de 1938

 n. 22, julho de 1938

n. 23, agosto de 1938

 n. 25, outubro de 1938

n. 26, novembro de 1938

já comentei alhures, por exemplo a propósito do número 22:
Não vou me deter sobre a Livraria do Globo (e a Editora Globo), ou sobre o papel de Érico Veríssimo como seu diretor editorial - há fartíssimo material a respeito. O pertinente aqui é a Revista Mensal de Literatura A Novela, criada em 1936 por Veríssimo. Com número fixo de páginas (192), a cada mês era lançado um número tendo um texto principal - conto, novela ou romance - como chamada e ilustração de capa, geralmente algo de bom apelo comercial naquele momento.
Complementando as 192 páginas do padrão da revista, seguiam-se contos os mais variados, muitos deles de maior qualidade literária. É o caso, por exemplo, de "Amy Foster" de Conrad ou d' "A Aventura de Tse-La", de Villiers de l'Isle-Adam, entre as capas d' O Navio Fantasma do Cap. Fred Marryat, em tradução de Mario Quintana e ilustração de Edgar Koetz, um dos expoentes das artes gráficas gaúchas (n. 22, 1938). ver aqui
ou ainda, sobre a primeira tradução d'a queda da casa de usher, de edgar allan poe:
Foi nas páginas d' A Novela n. 23, de agosto de 1938, com chamada de capa para O Grande Amor de Napoleão, do Conde de Ornano, que encontrei o que me parece ser a primeira tradução brasileira de "A queda da casa de Usher",  de Poe.
O conteúdo deste número era o seguinte: H.C. Nac Neile, "A melodia da morte"; Valentine Gregory, "O crime do ônibus"; Conde de Ornano, "Maria Walewska, O grande amor de Napoleão"; Edgar Wallace, "O homem que odiava as minhocas"; Charles de Coster, "As três donzelas"; Edgar Allan Poe, "A queda da casa de Usher"; Milward Kennedy, "Que é um crime?"; Archemed Abdullah, "Éramos seis... e uma dama"; Suzanne Normand, "Mariposas de papel". Créditos de tradução: Oliveira Abrantes e Wilson Velloso.
O romance do conde de Ornano fora lançado meses antes, ainda em 1938, pela Inquérito de Lisboa, na tradução do lusitano Oliveira Abrantes, num volume de 354 páginas (aqui).* Em vista disso, imagino que o texto publicado na Revista Literária da Globo fosse uma adaptação condensada. Procurei exaustivamente entre a produção tradutória de Abrantes alguma referência a algum dos outros contos publicados neste número d'A Novela, e não localizei qualquer menção.
* interessante notar que, no mesmo ano, a Vecchi tinha lançado no Brasil o romance histórico de Octave Aubry sobre o mesmo tema, Maria Walewska, o grande amor oculto de Napoleão, em tradução de Maria Luiza Barreto Sanz, talvez abrindo caminho para a edição mais popular deste número d'A Novela.
Assim, por exclusão, parece-me plausível supor que os demais contos tenham sido traduzidos por Wilson Velloso (que, posteriormente, veio a se celebrizar em especial por sua tradução de 1984). Velloso, nascido em 1918, contava então com 20 anos. Sua filha Heloísa Velloso não soube informar se foi de fato ele o tradutor d'"A queda da casa de Usher" e/ou dos demais contos, mas declara que o pai já traduzia bastante naquela época. Cabe ainda notar que Wilson Velloso foi prolífico tradutor na Coleção Amarela da Globo e também traduziu para a Catavento, da mesma editora. ver aqui.
é ainda nas páginas d'a novela que temos averchenko, com "o homem da gravata verde", e kúprin, com "a defesa do acusado", no número inaugural da revista, em outubro de 1936.

outros conteúdos que localizei, porém sem os créditos de tradução, são:

n. 4, janeiro de 1937: "lama das trincheiras", de g. sorrow; "as etapas da loucura", de dostoievsky; "o crime do hospital", de m. eberhart; "a ladra de mármore" de edgar wallace; "um crime no expresso de istambul", romance seriado; "em silêncio", de a. de lorde.

n. 10, julho de 1937: "o quarto 404: m.f.h.", de a. bennet; "a caça ao tesouro", de edgar wallace; "vittoria", de stendhal; "o mistério dos sete relógios", de agatha christie; "o beijo", de j. constant; "o degenerado ", de somerset maugham; "mina de prata", de selma lagerlöf.

n. 11, agosto de 1937: "os heróis - perseu", de charles kingsley; "lua de loucura", de sax rohmer; "mackintosh", de somerset maugham; "no país dos suplícios", andré de lorde; "rip van winkle", de washington irving; "os acionistas", de edgar wallace; "vanka", de anton checov; "perfil biográfico de emil ludwig", de nansen.

n. 14, novembro de 1937: "os sapatinhos vermelhos", de a. varaldo; "o pacífico", de somerset maugham; "a quadrilha do deserto", de karl may.

n. 15, dezembro de 1937: "o telegrama", de oscar wilde; "o capitão kaiman", de karl may; "os passos misteriosos", de g. k. chesterton; "o homem edênico", de emil ludwig; "nicolau, o filósofo", de alexandre dumas; "o dia de mr. peacock", de katherine mansfield; "o tio saudade", de edgar wallace; "a história da irmã agata", de aldous huxley.

n. 17, fevereiro de 1938: "o diabo no colégio", de sintair steeman; "túneis verdes", de aldous huxley"; "o médico e o monstro", de robert louis stevenson.

n. 19, abril de 1938: "um cowboy em nova york", de macleod raine; "eu os vi morrer", de shirley millard; "a capa" de nikolai gogol; "história de anandi, a vaishnavi", de rabindranath tagore; "koro e mana", de konrad barcovici.

n. 22, julho de 1938: "o homem que sonhava demais" de quenton reynolds; "a aventura de tse-la", de villiers de l'isle-adam; "o navio fantasma", do cap. fred marryat; "o máscara de ferro", de henry robert; "o crime do canhoto", de roy paterson; "amy foster", de joseph conrad; " dois magos da medicina - semmelweis e banting", de paulo de kruif; "uma novela de amor", de riunosuke akutagaua; "mil anos", de boris pilniak. (no caso deste número, a tradução é de mário quintana.)

n. 23, ver conteúdo no texto citado mais acima.

n. 26, novembro de 1938: "o colar roubado", de roy paterson; "a espantosa aventura", de john buchan; "nada", de leonide andreiev.

essa mescla de textos mais populares e literatura de maior qualidade era uma estratégia deliberada, como disse acima. entre obras mais duradouras, certamente vittoria de stendhal, o médico e o monstro de stevenson, amy forster de conrad, o dia de mr. peacock de mansfield e outras tiveram seu primeiro ingresso entre nós por meio dessa revista da globo.

não sei quando se encerrou a publicação d'a novela.

fontes: traça (aqui), consultas no google.

atualização em 28/01/2013: graças à incrível gentileza de braulio tavares, eis os conteúdos de mais quatro números d'a novela, com capinha e tudo!


Fevereiro 1937, # 5
Ilustração de capa para O tigre de Caiena
ROMANCE: O tigre de Caiena (A E W Mason), trad. ???
O sorriso da Gioconda (Aldous Huxley), trad. Erico Veríssimo
Um crime no Expresso de Stambul (Sir Ronald MacMunn), (continuação), trad. ???
A entrevista (Guy de Maupassant), trad. ???
Grafologia (Zsolt Harsanyi), trad. ???

 

Abril 1937, # 7
Ilustração de capa para O chinês misterioso
ROMANCE: O chinês misterioso ( J S Fletcher), trad. Pepita de Leão
O romance de Laura (Francis Jammes), trad. Eduardo Guimarães
Os evadidos (John Russell), trad. ???
O amigo ideal (um ato e dois tempos) (E. Della Pura), trad. ???
Seis pence (Katherine Mansfield), trad. ???
O prisioneiro de si mesmo (Giovani Papini), trad. ???
Soeur Philomène (Axel Munthe), trad. ???
Adeus Noturno (Camillo Maudair), trad. ???




Outubro 1937, # 13
Ilustração de capa para O filho do forçado
ROMANCE: O filho do forçado (Alexandre Dumas), trad. Juvenal Jacinto
Honolulu (Somerset Maugham), trad. Leonel Vallandro
Falk (Joseph Conrad), trad. Queiroz Lima



Janeiro 1938, # 16
Ilustração de capa para Aconteceu em Hamburgo
ROMANCE: Aconteceu em Hamburgo (Annemarie Lande), trad. Alcides Rössler
A boneca japonesa (Claude Farrere), trad. ???
O egoísta (Alexandre Dumas), trad. ???
A mulher velada (Edgar Wallace), trad. Pepita de Leão
Amanhã (Joseph Conrad), trad. Queiroz Lima
Visão de Carlos IX (Prosper Mérimée), trad. Celestino Leal
O melhor amor (Villiers de l’Isle Adam), trad. Jarbas Chaves
Astrid (Selma Lagerlof), trad. Pepita de Leão
O drama da virtude (René Fülöp-Miller), trad. Mário Quintana e René Ledoux (trecho do livro “Os Grandes Sonhos da Humanidade”, Ed. Livraria do Globo)


atualização em 24//12/15:
graças à supergentileza de angelo giardini, do site/blog marginália, mais notícias:



Junho 1937, # 9
Ilustração de capa para A aventura de Doris Hart
A Aventura de Doris Hart – Vicky Baum (tradução de Gilberto Miranda*);
Markheim – R.L. Stevenson;
O Caolho – Karl May (em continuação);
De Murzuk a Kairwan – Karl May;
4 Cães Fizeram Justiça – Giovani Papini;
Sempre Bela – Jacques Constant

* sobre as traduções em nome de "gilberto miranda", ver "o caso dos 'nomes de conveniência'", aqui.

o fabuloso neste número 9 de A Novela é que Um crime no Expresso de Stambul (Sir Ronald MacMunn), que fora publicado em partes em números anteriores (vide o número 5, acima, por exemplo) é na verdade Um crime No Expresso do Oriente, de Agatha Christie. angelo giardini expõe o caso em "um pseudônimo brasileiro para agatha christie", aqui, de onde extraí também a imagem abaixo, escaneada da página em questão.


atualização em 16/6/2016: veja aqui as imagens de capa de todos os números da revista, gentilmente fornecidas por angelo giardini.