28 de nov. de 2012
victor hugo no brasil
3 de mar. de 2010
comunicado
o nãogostodeplágio nunca fez e jamais fará política de entidade: reitero, denise bottmann e nãogostodeplágio se pronunciam apenas do ponto de vista mais amplo da cidadania. em vista disso, e a despeito de qualquer opinião pessoal que eu possa ter sobre a questão institucional dos tradutores, o compromisso do nãogosto é manter a isenção e a objetividade em defesa do leitor e da qualidade editorial.
para preservar a neutralidade do nãogostodeplágio e a plena liberdade política da abrates, a partir desta data joana canêdo abdica de suas colaborações neste blog.
muito obrigada, joana!
2 de mar. de 2010
Matéria para reflexão: a responsabilidade das livrarias
Pois é. Foi isso o que me fez pensar a reação do diretor da Livraria Cultura, Fabio Herz, no depoimento que deu ao Correio Braziliense na matéria sobre plágio deste fim-de-semana (Palavras replicadas). Ele diz:
Um profissional do trânsito deveria saber que as leis do trânsito não estão aí simplesmente para tirar pontos da carteira. Mas porque quando se vive em sociedade é importante que se respeitem algumas normas básicas para que o trânsito não fique caótico, para não criar situação de riscos, para não provocar acidentes... É sua responsabilidade social contribuir para um bom trânsito nas ruas.
Um profissional do livro, da leitura, da cultura afinal, deveria estar ciente de seu papel de disseminador da cultura, e de sua parte de responsabilidade para o enriquecimento cultural de toda a sociedade. Pois acredito que disseminar o plágio é péssimo para a cultura e para o negócio livreiro também. Um comerciante PODE escolher o que vender ou não (posição perfeitamente legítima no mundo dos negócios!). Quem conhece seu ramo de negócios tem discernimento suficiente para identificar produtos bons e produtos fraudulentos. Por respeito a seu cliente, é possível se recusar a disponibilizar produtos espúrios e não ser coadjuvante de fraudes. Faz parte de sua responsabilidade social, no sentindo mais amplo, a responsabilidade, enquanto profissional da área, de favorecer um mundo editorial mais ético, uma cultura mais rica, e a defesa do leitor, seu principal cliente.
11 de fev. de 2010
Em defesa da integridade acadêmica
4 de dez. de 2009
Formando professores com plágios e falsificações
Isso pode parecer excesso de erudição, desnecessário ao leitor comum, mas a verdade é que pode induzir ao erro leitores, estudantes e até mesmo professores interessados em entender a obra de maneira um pouco mais completa. Refiro-me aqui, mais especificadamente, a edições do Satíricon, de Petrônio, em que algumas editoras incorporam, ao texto latino estabelecido como original, falsificações reconhecidas, como se se tratasse de um único texto de Petrônio (veja mais sobre essa fraude renascentista aqui).
3 de dez. de 2009
Uma fraude renascentista - Satíricon IV
De acordo com um dos tradutores franceses do Satíricon, Louis de Langle, em 1923, e um tradutor inglês, W. C. Firebaugh, em 1922, ela se resume mais ou menos assim:
2 – Uma versão publicada em Viena em 1564 e Anvers em 1565 (o Codex Sambucus), juntamente com um fragmento encontrado num convento de Buda, em 1587 (Codex Pithoeius), formam um texto um pouco mais completo, preenchendo algumas lacunas do texto anterior.
3 – Uma lacuna importante do texto, parte do Banquete de Trimalquião, foi descoberta por Pierre Petit na biblioteca do convento de Trau e publicada pela primeira vez em Pádova, em 1664. Esse manuscrito ainda continha todas as partes já estabelecidas anteriormente, e criava continuidade entre os fragmentos já conhecidos. Contudo, sua autenticidade foi contestada. Dois exames realizados por literatos de Roma e da França concluíram que o manuscrito deveria ter pelo menos 200 anos – mas nunca houve prova decisiva de que a parte do Banquete fosse do mesmo autor que o restante dos livros.
4 – Finalmente, em 1688, Du Pin, um oficial francês teria encontrado durante uma batalha em Belgrado um enorme manuscrito ainda mais completo. Esse foi traduzido por François Nodot, um mercenário francês seu amigo, e editado por Leers de Rotterdan em 1692. Logo, no entanto, sua autenticidade também foi discutida. Mas desta vez a fraude foi definitivamente estabelecida, principalmente em razão da qualidade do latim: o texto era bem ruim. Contudo, era também bastante engenhoso, servia-se de alusões contidas nos fragmentos já conhecidos e ajudava a encadear bem as partes do Satíricon, criando um texto coerente.
Por isso, a grande maioria dos tradutores de Petrônio, até hoje, optam por incorporar em suas versões do Satíricon, os acréscimos fraudados de Nodot. A grande maioria admite a fraude em prefácio, e costuma marcar de alguma maneira, por exemplo entre colchetes, essas partes que não deixam de ser interessantes para o tom do texto como um todo.
5 - Mais tarde diversos fragmentos foram ainda encontrados e logo reconhecidos como inautênticos (uma lista completa pode ser vista aqui), algumas vezes acrescentados a edições da obra, e em geral identificados como tais. W. C. Firebaugh incorpora por exemplo a falsificação de José Marchena, um espanhol que a escreve em francês por volta de 1800, e a de Don Joe Antonio Gonzalez de Salas, publicada em 1629.
Quanto às nossas edições brasileiras (as quatro lidas por mim), a única que não incorpora os acréscimos de Nodot é a da Cosac Naify, pois seu tradutor optou por se basear numa edição latina estabelecida em 1923, que contemplava apenas os manuscritos considerados originais.
As outras duas versões, da Escala e da Civilização Brasileira (não incluo aqui a da Martin Claret, já que não é nada menos do que cópia deslavada da Civilização Brasileira, como mostramos aqui e aqui) incluem os tais acréscimos. Daí a grande diferença observada (ao fim do post) entre o tamanho do capítulo XI nas diversas edições - a da Cosac Naify contava com apenas algumas linhas e as outras tinham quase oito páginas. Essas oito páginas foram compostas por François Nodot – e são bastante divertidas, aliás, dá para entender o interesse em publicá-las.
Fico apenas triste, do ponto de vista editorial e não de tradução, que as edições que incorporam o Nodot deixem de indicá-lo. Sem uma pesquisa como esta, o leitor nunca saberia que está lendo um texto de, pelo menos, dois autores diferentes, Petrônio e Nodot, perpetuando a fraude, no entanto perfeitamente estabelecida há séculos. Por que os editores não indicam suas fontes, principalmente quando se trata de textos clássicos, cuja história é conturbada?
Imagem: gutemberg.org
10 de nov. de 2009
O que está sendo falado no congresso
E o livreto com a programação e os eixos temáticos está aqui.
6 de nov. de 2009
Bom fim de semana!
Eric Nepomuceno falará sobre traduzir Gabriel Garcia Marquez no próximo encontro do ciclo Tertúlia Tradutores (" encontros em que importantes tradutores da língua portuguesa ... discorrerão acerca de obras clássicas que traduziram, a curiosa vida dos escritores imortais e sobre o desafiador ofício da tradução"), evento idealizado por Tiago Novaes.
Este domigo, 8/11, 18h, na choperia do SESC Pompéia.
Joana Canêdo
4 de nov. de 2009
Satíricon III
Trecho I
Marcos Santarrita (1970, p. 4)O gênio é filho da frugalidade.
Tu, cujo orgulho aspira à imortalidade,
Deves fugir de lautos banquetes, de luxos pérfidos.
Os vapores de Baco ofuscam a razão,
E a rígida virtude, diante do vício feliz,
Teme inclinar a cabeça.
Ninguém deve te ver sentado num teatro,
Coroado com flores vergonhosas, a misturar
– Aos aplausos de uma multidão idólatra –
clamores indecentes e vazios.
A honra te chama a Nápoles ou a Atenas:
Lá chegando, teu primeiro incenso deve ser para Apolo.
Dedicando-te aos versos,
Deves beber abundantemente na fonte de Homero.
Levado a Sócrates pela sabedoria,
Deves empunhar as armas do altivo Demóstenes.
Alex Marins (2001, p. 18)
O gênio é filho da frugalidade.
Tu, cujo orgulho aspira à imortalidade,
Deves fugir de lautos banquetes, de luxos pérfidos.
Os vapores de Baco ofuscam a razão,
E a rígida virtude, diante do vício feliz,
Teme inclinar a cabeça.
Ninguém deve te ver sentado em um teatro,
Coroado com flores vergonhosas, a misturar
Aos aplausos de uma multidão idólatra
clamores indecentes e vazios.
A honra te chama a Nápoles ou a Atenas.
Lá chegando, teu primeiro incenso deve ser para Apolo.
Dedicando-te aos versos,
Deves beber abundantemente na fonte de Homero.
Levado a Sócrates pela sabedoria,
Deves empunhar as armas do altivo Demóstenes.
Cláudio Aquati (2008, p. 16)
Se alguém deseja realizar a arte com seriedade
E aplica sua mente a causas importantes,
Primeiro, com o maior rigor, habitue-se à moderação
Não aspire a um palácio perverso, embora nobre na fachada;
Não procures, como simples cliente,
Obteres jantares junto aos poderosos;
Não afogue no vinho, entregue a costumes desregrados,
A chama de seu talento;
Nem, pago para aplaudir, sente-se no teatro
Como um apaixonado pela carreira teatral.
Mas, quer a ele sorria a cidadela da guerreira Tritônia,
Quer a terra habitada pelo colono lacedemônio
E a mansão das sereias, (2)
Que ele consagre à poesia os anos de sua juventude
E, de coração afortunado, beba junto à fonte meônia. (3)
Depois, saciado do círculo socrático,
Ponhas-se a caminho, livre,
E maneje as armas no grande Demóstenes.
(2) Cidades do sul da Itália: a guerreira de Tritônia é Túrio; a terra habitada pelo colono lacedemônio é Tarento, a mansão das sereias é Nápoles.
(3) Os poemas homéricos.
Trecho II
Marcos Santarrita (1970, p. 116)CI
Essas palavras caíram como um raio sobre mim. Senti estremecer-me todos os membros e, apresentando minha garganta descoberta, exclamei:
– Ó Destino, está acabado! Venceste!
Gitão havia desmaiado há algum tempo, e caíra sobre mim. Por fim, quando uma suadeira abundante nos fez retornar aos nossos sentidos, eu me agarrei aos joelhos de Eumolpo, suplicando-lhe:
– Tem piedade de dois agonizantes. Em nome deste garoto, nosso amor comum, livra-nos da vida. A morte está diante de nós e, se não opuseres nenhum obstáculo, nós a receberemos como um benefício dos céus!
Alex Marins (2001, p. 116)
CI
Essas palavras caíram como um raio sobre mim. Senti estremecer-me todos os membros e, apresentando minha garganta descoberta, exclamei:
– Ó Destino, está acabado! Venceste!
Gitão havia desmaiado há algum tempo e caíra sobre mim. Por fim, quando uma suadeira abundante nos fez retornar aos nossos sentidos, eu me agarrei aos joelhos de Eumolpo, suplicando-lhe:
– Tem piedade de dois moribundos. Em nome deste garoto, nosso amor comum, livra-nos da vida. A morte está diante de nós e, se não opuseres nenhum obstáculo, nós a receberemos como um benefício dos céus!
Cláudio Aquati (2008, p. 16)
[101.] Atônito depois desse cataclismo, estremeci e, o pescoço a descoberto, disse:
– Enfim, ó Destino, venceste-me de uma vez por todas!
Gitão, que se aninhara no meu peito, conteve a respiração durante muito tempo. Depois, quando nosso próprio suor nos reanimou, atirei-me aos pés de Eumolpo, dizendo:
– Tenha piedade destes moribundos, e, em nome da mesma inclinação para os estudos que nos une, ponha um fim nisso tudo com tua própria mão. A morte se avizinha: se por teu intermédio ela não for admissível, será contudo para nós uma dádiva.
Trecho III
Marcos Santarrita (1970, p. 11)
Cedi finalmente ao impulso do amor, e eis o que decidimos: Licurgo conservaria Ascilto consigo (seu antigo amor por ele renascera), e eu e e Gitão iríamos com Licas. Ascilto e eu combinamos, por outro lado, que os lucros obtidos por cada um, na ocasião, pertenceriam de direito ao patrimônio comum. Encantado com aquele arranjo, Licas apressou a nossa partida. Despedimo-nos dos amigos e, no mesmo dia, chegamos à sua casa. Ele tomara tão bem suas providências que, durante a viagem, se pôs a meu lado, deixando Trifena em companhia de Gitão.
Alex Marins (2001, p. 23-24)
Cedi finalmente ao impulso do amor, e eis o que decidimos: Licurgo conservaria Ascilto consigo (seu antigo amor por ele renascera), e eu e e Gitão iríamos com Licas. Ascilto e eu combinamos, por outro lado, que os lucros obtidos por cada um, na ocasião, pertenceriam de direito ao patrimônio comum. Encantado com aquele arranjo, Licas apressou a nossa partida. Despedimo-nos dos amigos e, no mesmo dia, chegamos à sua casa. Ele tomara tão bem suas providências que, durante a viagem, se pôs a meu lado, deixando Trifena em companhia de Gitão.
Cláudio Aquati (2008, p. 24)
Opa! Não tem nada. Só um asterisco indicando uma lacuna... Aliás, o capítulo XI da edição da Cosac Naify tem apenas algumas linhas, enquanto o mesmo capítulo XI na edição da Civilização Brasileira (e, consequentemente, da Martin Claret) tem 8 páginas!
O mistério será desvendado no próximo post, no qual se relatará uma fraude renascentista.
Imagem: Bookpalace
31 de out. de 2009
Mais um lançamento

Traduzido por Roger Maioli dos Santos
29 de out. de 2009
Parece que deu certo!
"Após pressão de grupos, Ministério da Cultura vai abrir consulta pública para reformar lei de direitos autorais
O Ministério da Cultura vai colocar a proposta de nova Lei de Direitos Autorais em consulta pública no próximo dia 9, atendendo a uma solicitação do Idec e de outras entidades parceiras que enviaram carta ao ministro Juca Ferreira (Cultura) na última sexta-feira (23) apelando para a imediata publicação da reforma."
Dia 9 de novembro, a propósito, é o dia da abertura do III Congresso de Direito de Autor e Interesse Público, organizado pela UFSC, mas aqui em São Paulo. As inscrições estão abertas até o dia 04/11. Eu já me inscrevi, pretendo assistir aos debates, e principalmente aos das mesas sobre LIMITAÇÕES AOS DIREITOS AUTORAIS I e II, a partir das 15h do dia 9.
27 de out. de 2009
Sobre embasicetas, taças comuns e costelas (Satíricon II)

Eu acho que as notas do tradutor costumam dar as melhores pistas. Nelas os tradutores tendem a chamar a atenção sobre pontos bastante específicos, dificuldades de tradução, ambigüidades, jogos de palavra. Pois foi exatamente uma dessas que me enlevou. Observem as palavras marcadas em verde.

Cláudio Aquati (2008, p. 37) – Fonte: direto do latim, versão estabelecida por Ernout (1923)
[24.] Levado até o maior desespero, não contive mais as lágrimas:
– Mas, senhora, perguntei, não é verdade que havia mandado providenciar uma tal de “embasiceta”?5
Ela bateu palmas com a maior delicadeza e disse:
– Ó, mas que homem inteligente e fonte da esperteza nacional! O quê? Você já não tinha entendido que “embasiceta” quer dizer “bicha”?
Então, para que o meu companheiro não se saísse melhor, eu disse:
– Por favor, senhora, me ajude! Só o Ascilto tem folga neste triclínio?
– Está bem – disse Quartila. – Dêem também uma “embasiceta” para o Ascilto.
Mal ouviu isso, a bicha mudou de cavalo: depois de passar para o meu companheiro, esfolou-o com a bunda e com seus beijos.
5 O termo latino embasicoetam remete a uma palavra grega que ao mesmo tempo significa “taça”e “pederasta”.

Miguel Ruas (Escala, s.d., p. 35; Atena, 1949)* – Fonte: não informada
Não pude conter as lágrimas por mais tempo e, no auge do desespero, disse:
– Por favor, oh! Senhora, não havíeis ordenado que se me dessem uma taça comum?8
Ela bateu as mãos, e, com ar ligeiramente irônico, exclamou:
– Oh! Como és inteligente! Como penetras a fineza da nossa linguagem! Não compreendeste que se pode chamar de taça comum também a quem passa de leito em leito?
Mas eu não queria que o meu amigo fosse privado de um tal divertimento, e por isso gritei:
– Afinal, respondei-me: neste triclínio Ascilto é o único que deve permanece tranqüilo?
– Pois bem, acrescentou Quartila, que a taça comum passe para Ascilto.
A estas palavras o bailarino trocou de montaria e, trepando sobre o meu companheiro, derreou-o a golpes de nádegas, cobrindo-o ao mesmo tempo de beijos.
* encontra-se à p. 41 na edição da atena, porém sem data: cf. comentário de Unknown, a quem agradecemos a informação.
Marcos Santarrita (1970, p. 28) – Fonte: Le Satyricon (apesar de não especificada qual tradução francesa, minhas pesquisas me levam à de Charles Héguin de Guerle (1861)Não pude conter por mais tempo as minhas lágrimas e, com o coração trespassado de tristeza, disse a Quartila:
– Oh, como és inteligente – respondeu ela, batendo suavemente as mãos. – A questão é espiritual! Não sabes que o papel desse homem é exatamente esse? Por que estás surpreso?
– Mas – repliquei, ciumento ao ver meu camarada em situação melhor que a minha –, permitirás que Ascilto, tranqüilo em sua cama, seja o único a saborear as delícias do repouso?
– Muito bem – disse ela. – Que Ascilto também tenha a sua parte.
Dito e feito: meu cavaleiro mudou de montaria e, sob o peso de suas carícias impuras, estalaram os membros do meu pobre companheiro.
Alex Marins (2001, p. 39) – Fonte: não informadaXXIV
Não pude conter por mais tempo as minhas lágrimas e, com tristeza trespassando o meu coração, disse a Quartila:
– Minha senhora, não me prometeste uma “costela”?
– Ah, como és inteligente – retrucou ela, batendo as mãos com suavidade. – A questão é espiritual! Não sabes que o papel desse homem é precisamente esse? Surpreso?
– Mas – repliquei com ciúmes ao ver meu amigo em situação superior à minha –, permitirás que Ascilto, tranqüilo em seu leito, seja o único a saborear as delícias do descanso?
– Está bem – concordou ela. – Que Ascilto também receba a sua parte.
Dito e feito: meu cavaleiro mudou para outra montaria e, sob o peso da impureza de suas carícias, estalaram os membros do meu pobre camarada.
Charles Héguin de Guerle (1861)
XXIV
Je ne pus retenir plus longtemps mes larmes ; et, le coeur navré de tristesse : — Madame, dis-je à Quartilla, est-ce bien là l’Embasicète que vous m’aviez promis ? — O l’habile homme ! répondit-elle en frappant doucement des mains ; la question est spirituelle ! Embasicète ne veut-il pas dire incube. Cela vous étonne? — Du moins, répliquai-je, jaloux de voir mon camarade plus heureux que moi, souffrirez-vous qu’Ascylte, bien tranquille sur son lit, savoure seul en paix les douceurs du repos ? — À la bonne heure ! dit-elle, qu’Ascylte y passe à son tour. — Aussitôt fait que dit : mon écuyer change de monture, et le voilà qui, sous le poids de ses impures caresses, broie les membres de mon pauvre compagnon.
As marcas em verde nos trechos acima são as diversas traduções da palavra latina embasicoetam, que em francês ficou embasicète. “Embasiceta” merece uma nota de rodapé para Cláudio Aquati, que explica o duplo sentido. Miguel Ruas utiliza a expressão taças comuns, mas aponta, também em nota, que a palavra é de fato obscura. Marcos Santarrita resolve a questão à sua maneira, preferindo usar “costelas”, sem qualquer explicação. Alex Marins, por sua vez, consegue lidar com o problema utilizando, ah, “costelas”! Costelas? A troco de quê?
Para melhor entender por que a tradução de Alex Marins é definitivamente um plágio da de Marcos Santarrita, marquei em vermelho as palavras que foram mudadas segundo aquela técnica do “copidesque por sinonímia”, que mantém a estrutura das frases, trocando apenas algumas palavras por sinônimos, ou variando levemente a ordem delas.
Em azul, marquei o que deveria ser diferente caso se tratasse de dois tradutores. Cotejando com o original francês, como é possível que a frase: “Embasicète ne veut-il pas dire incube”, se transforme em “Não sabes que o papel desse homem é exatamente [ou precisamente] esse”, em duas traduções distintas?
E o que dizer da questão espiritual? Baixou o mesmo espírito em dois tradutores diferentes? Ou nenhum dos dois é um pouco espirituoso? (O encarregado do copidesque parece não ser).
E essas “costelas”? Eu ainda não atinei para o significado delas. Será uma gíria da década de 70 para pederasta? Isso talvez explicasse como dois tradutores se teriam servido de mesma, estranha, entre aspas, expressão? Haveria por aí alguma outra alma iluminada como o Danilo Nogueira (que tão brilhantemente solucionou o problema do canário selvagem de Darwin), que possa nos dar uma luz?
Joana Canêdo
imagens: e-books adelaide, arca da união, mundo dos orixás, webciencia
26 de out. de 2009
Satíricon
Quando eu chego a um sebo e, por acaso, bato o olho em 4 edições diferentes de uma mesma obra, fico imediatamente curiosa: serão 4 diferentes traduções, ou a mesma tradução editada por 4 diferentes editoras, enfim, o que há de particular nesses 4 livros?
Foi o que aconteceu na semana passada quando me vi diante do Satíricon, de Petrônio, em edições da Civilização Brasileira (1970), Abril Cultural (1981), Martin Claret (2001) e Escala (s.d.). Quando comentei isso com a Denise, ela me lembrou que justamente a tradução de Cláudio Aquati do Satíricon, pela Cosac Naify (2008), acabara de ganhar o segundo lugar do prêmio Jabuti 2009, na categoria “Tradução”. Não tive dúvida e comprei tudo (menos o da Abril Cultural, que tinha os mesmos créditos de tradução da Civ. Bras.): nunca havia lido Petrônio e seria uma ótima oportunidade para comparar os diferentes trabalhos.
Antes de começar a leitura, no entanto, dei uma olhada mais cuidada nas edições:
Cosac Naify (2008)
Tradução: Cláudio Aquati (professor da UNESP, especialista em literatura latina. Tradução realizada com financiamento da FAPESP)
Fonte: Texto latino estabelecido por Alfred Ernout em 1923 (Paris: Société d’Édition Les Belles Lettres, 1950, 3ª ed.). Segundo o tradutor, uma versão confiável do original latino está disponível no site The Latin Library.
Estrutura do texto: na p. 241, o tradutor fala sobre a estrutura da tradução: “As lacunas estão indicadas por asteriscos. [...] A divisão em vinte partes também se deve ao tradutor, bem como sua denominação. Cada parte está dividida em capítulos (141 no total), indicados por algarismos arábicos entre colchetes”.
Apresentação: Raymond Queneau (traduzido por Paulo Werneck)
Posfácio: Cláudio Aquati (sobre a obra, sobre o autor, sobre a tradução, imagens e sugestões de leitura)
Escala (s.d.)
Tradução: Miguel Ruas (tradutor também de Platão, pela editora Atena. Direitos cedidos pela Ediouro.)
Fonte: Não indicada.
Estrutura do texto: 15 capítulos com títulos
Introdução: G. D. Leoni
Outras edições desta tradução: Atena (1949), Ediouro (1965), Tecnoprint (1980)
Civilização Brasileira (1970)
Tradução: Marcos Santarrita (autor de 12 romances e tradutor de Pirandello, H. G. Wells, Henry James, Alexandre Dumas, Eric Hobsbawm, Philip Roth, Dashiell Hammett, Charles Bukowski, entre outros)
Fonte: Do original francês Le Satyricon (não há informação sobre qual tradução francesa)
Estrutura do texto: 141 capítulos em algarismos romanos.
Apresentação: Carlos Nelson Coutinho
Orelha: Mário da Silva Brito
Outras edições desta tradução: Editora Três (1974), Abril Cultural (1980)
Martin Claret (2001)
Tradução: Alex Marins (plagiador de Monteiro Lobato, Moacyr Werneck de Castro, Adolfo Casais Monteiro, Godofredo Rangel, entre outros)
Fonte: Não indicada.
Estrutura do texto: 141 capítulos em algarismos romanos.
Introdução: Mário da Silva Brito (interessante, o mesmo texto da orelha da edição da Civilização Brasileira)
Adicionais: perfil biográfico, complemento de leitura (Cristina Spechoto)
O que eu mais gosto na edição da Martin Claret é a menção “Texto Integral” desde a capa. É como uma marca registrada da editora, que a imprime (no piloto automático) na grande maioria de seus livros: uma jogada de marketing para dizer que seria um trabalho completo, sério. O curioso é que nunca se faz menção à fonte desse texto “integral”: vem direto do latim; por interposição de uma tradução francesa; qual, dentre tantas? No caso específico do Satíricon, o que caracteriza o texto é que chegou aos tempos modernos em FRAGMENTOS!!! Desde a Antiguidade, ninguém nunca viu um texto “integral” da obra de Petrônio. No entanto, a Martin Claret parece ter conseguido manuscritos inéditos, pois além da menção na capa, comenta em seu complemento à leitura: “Acreditando no poder da leitura, a Editora Martin Claret traz, do século I, mais uma obra prima para você”.
Identifiquei ainda as seguintes traduções do Satíricon para o português do Brasil e de Portugal:
- Jorge de Sampaio, Europa-América (Lisboa), 1973.
- Paulo Leminski, Brasiliense, 1985. Tradução, introdução, notas e posfácio.
- Sandra Braga Bianchet, Crisálida, 2004. Tradução, introdução, notas e posfácio.
- Delfim F. Leão, Cotovia (Lisboa), 2005.
Vou agora ler as traduções aqui de casa e volto com um cotejo.
Joana Canêdo
obs: Obrigada, Denise, pelo espaço em seu blog.
Imagens: Cosac Naify, Submarino, CotaCota, Gojaba