18 de set de 2008

monteiro lobato

se houvesse algum patrono da tradução no brasil, a meu ver seria monteiro lobato. desde o começo do século XX defendia e praticava a abertura dos horizontes intelectuais brasileiros para o mundo - e reconhecia na obra do tradutor "a coisa suprema do mundo mental: universalização do pensamento".

é de revoltar o estômago que o livro da jângal, na deliciosíssima tradução de lobato (cia. editora nacional) a que apenas alguns escravos da letra podem levantar reparos, saia publicado pela martin claret, com tradução atribuída a alex marins.

é de revoltar o estômago que os cantos da floresta, tão belamente traduzidos por jamil almansur haddad, sejam conspurcados ao lhes ser atribuída tradução por alex marins.

todas as piores qualidades parecem se somar na dolorosa e chocante desfaçatez que cerca os crimes de lesa-patrimônio praticados pela martin claret.

recomendo vivamente o emocionado e emocionante artigo de lobato, "quem é esse kipling?", em mundo da lua e miscelânea - é uma elevada profissão de fé, e que possa falar mais alto do que essa imunda torrente que quer nos arrastar para a incultura e a passiva indiferença mental.
a. monteiro lobato (poema: jamil almansur haddad)
O Abutre Chil conduz a noite incerta
Que o morcego Mang ora liberta -
É esta a hora em que adormece o gado,
Pelo aprisco fechado.
É esta a hora do orgulho e da força,
Unha ferina e aguda garra.
Ouve-se o grito: Boa caçada àquele
Que à lei da Jângal se agarra.

Canto noturno na Jângal
Nos montes de Seeonee, ali pelas sete horas daquele dia tão quente, Pai Lobo despertava do seu longo sono, espreguiçava-se, bocejava e estirava as pernas para espantar a lombeira entorpecente. Deitada ao seu lado, com o focinho entre os quatro filhotes do casal, Mãe Loba tinha os olhos fixos na lua que, naquele momento, aparecia na boca da caverna.

Os bufos haviam mudado para uma espécie de rosnar sem direção. Esse rosnar sem direção, que parece vir dos quatro pontos cardeais, desorienta os lenhadores e ciganos que dormem ao relento, fazendo-os, às vezes, correr justamente para as goelas do tigre. [...] A Lei da Jângal, que nada prescreve sem razões, proíbe a todos os animais que comam homens, exceto quando algum deles está matando para ensinar os filhos como se mata. O motivo disto é que, quando comem um homem, cedo ou tarde aparecem no lugar homens brancos montados em elefantes e rodeados de centenas de homens pardos com archotes e gongos - e então a floresta inteira sofre. Mas a desculpa que os animais apresentam para que o homem seja respeitado, é que constitui ele a mais fraca e indefesa de todas as criaturas, sendo, portanto, covardia atacá-lo. Dizem também - e é verdade - que os comedores de homens se tornam sarnentos e perdem os dentes.

Pulemos agora dez anos de descrição da vida de Mowgli entre os lobos, coisa que daria matéria para todo um volume. Digamos apenas que ali cresceu entre os lobinhos, embora todos ficassem adultos antes que Mowgli deixasse de ser criança. Pai Lobo ensinou-lhe a vida e a significação das coisas da Jângal em todas as suas minudências. Os menores rumores nas ervas, o movimento das brisas, as notas do canto da coruja, cada arranhadura que a garra dos morcegos deixa na casca das árvores onde se penduram por um momento, a lambada n'água de cada peixinho ao dar pulos na superfície - tudo significa muito para os animais da floresta.

b. "alex marins"

O Abutre Chil conduz a noite incerta
Que o morcego Mang ora liberta -
É esta a hora em que adormece o gado,
Pelo aprisco fechado. É esta a hora do orgulho e da força,
Unha ferina e aguda garra.
Ouve-se o grito: Boa caçada àquele
Que à lei da Jângal se agarra.
Canto noturno na Jângal

Nos montes de Seeonee, ali pelas sete horas daquele dia tão quente, Pai Lobo despertava do seu longo sono, espreguiçava-se, bocejava e estirava as pernas para espantar a lombeira entorpecente. Deitada ao seu lado, com o focinho entre os quatro filhotes do casal, Mãe Loba tinha os olhos fixos na lua que, naquele momento, aparecia na boca da caverna. (p. 17)

Os bufos haviam mudado para uma espécie de rosnar sem direção. Esse rosnar sem direção, que parece vir dos quatro pontos cardeais, desorienta os lenhadores e ciganos que dormem ao relento, fazendo-os, às vezes, correr justamente para as goelas do tigre. [...] A Lei da Jângal, que nada prescreve sem razões, proíbe a todos os animais que comam homens, exceto quando algum deles está matando para ensinar os filhos como se mata. O motivo disto é que, quando comem um homem, cedo ou tarde aparecem no lugar homens brancos montados em elefantes e rodeados de centenas de homens pardos com archotes e gongos - e então a floresta inteira sofre. Mas a desculpa que os animais apresentam para que o homem seja respeitado, é que constitui ele a mais fraca e indefesa de todas as criaturas, sendo, portanto, covardia atacá-lo. Dizem também - e é verdade - que os comedores de homens se tornam sarnentos e perdem os dentes. (p. 19)

Pulemos agora dez anos de descrição da vida de Mowgli entre os lobos, coisa que daria matéria para todo um volume. Digamos apenas que ali cresceu entre os lobinhos, embora todos ficassem adultos antes que Mowgli deixasse de ser criança. Pai Lobo ensinou-lhe a vida e a significação das coisas da Jângal em todas as suas minudências. Os menores rumores nas ervas, o movimento das brisas, as notas do canto da coruja, cada arranhadura que a garra dos morcegos deixa na casca das árvores onde se penduram por um momento, a lambada n'água de cada peixinho ao dar pulos na superfície - tudo significa muito para os animais da floresta. (p. 27)

o plágio foi feito na íntegra, sem qualquer alteração, exceto o uso de itálico em palavras tidas como difíceis pelo editor e equipe da claret: "aprisco" e "minudências", explicadas em glossário como, respectivamente, "curral; covil, toca" e "pormenor. exame atento, observação escrupulosa" (pp. 231 e 233).


imagem: detalhe de um baixo-relevo feito por john lockwood kipling, pai de rudyard kipling, em que mowgli ataca shere khan. reproduzido na edição das obras completas de kipling, 1907.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

Um comentário:

  1. Olá.
    Cheguei via Letícia e Raquel, e já gostei.

    Como percebo que além de odiar plágio, vc ama livros, como lobatiano fervoroso gostaria que vc fizesse uma visita à minha pequena coleção http://picasaweb.google.com.br/urupes1

    Abraços e parabéns pelo seu trabalho em busca de vergonha na cara, coisa tão em falta nesta terra.
    Ricardo

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