30 de set de 2008

carta

reproduzo aqui a carta que enviei a centenas de pessoas, alertando sobre os plágios da nova cultural.


Escrevemos para lhes expor um problema e solicitar seu apoio.

Talvez os srs. tenham tomado conhecimento pela imprensa de um certo início de movimentação entre tradutores contra a apropriação indébita de traduções clássicas, feitas por intelectuais já falecidos, de grandes obras da literatura universal.

Sucintamente, trata-se do seguinte:
Um levantamento inicial mostra que mais ou menos 30 obras da grande literatura universal, que haviam sido publicadas na coleção da Abril Cultural, foram reeditadas pela editora Nova Cultural com a substituição dos nomes dos tradutores originais, aparecendo em lugar deles ou nomes de fantasia ou nomes verdadeiros. Essa quantidade de obras corresponde a mais de 60% dos títulos da coleção Obras-Primas da editora Nova Cultural, e destarte parece indicar que não se trata de casos isolados, e sim de uma prática deliberada e sistemática adotada pela referida editora.

O que parece se configurar, portanto, é que a editora de maior visibilidade no país (que muitas pessoas ainda associam à Editora Abril e à extinta Abril Cultural) se apoderou de um patrimônio tradutório do país (pois nossa formação cultural, num país que depende tremendamente do acervo de obras traduzidas para o português, se constrói também e maciçamente sobre essa atividade) e, por razões ignoradas, mas com certeza escusas e que não vêm agora ao caso, eliminou, suprimiu, enterrou e está contribuindo ativamente para que se oblitere a contribuição desses intelectuais portugueses e brasileiros para a constituição de um acervo das grandes obras mundiais traduzidas para o vernáculo. Assim temos que Oscar Mendes, Octavio Mendes Cajado, Mario Quintana, Ligia Junqueira, Hernâni Donato, Silvio Meira, Brenno Silveira, Galeão Coutinho, Porto Carreiro, João Gaspar Simões, entre outros, foram eliminados, suprimidos, excluídos, aniquilados, exterminados, dos créditos de suas respectivas traduções. Pelo andar da carruagem, dentro em breve Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles, Manoel Bandeira também serão banidos dos créditos das traduções... Mesmo que isso não ocorra, de qualquer forma o sumiço já perpetrado é mais do que suficiente para despertar uma imensa indignação entre as pessoas de bem que prezam a parca tradição cultural deste país, construída tão a duras penas.

O fato é tanto mais grave porque, aqui, não são práticas avulsas, motivadas por questões financeiras, de pequenas editoras desacreditadas, como a Martin Claret, e sim partem de uma empresa de grande porte com suposta credibilidade acumulada ao longo de décadas junto ao público brasileiro, a qual certamente se aproveitou de seu prestígio junto aos leitores de boa-fé para impingir como verdade fraudes da mais descabelada grosseria.

Assim, a nosso ver, seria da máxima e mais premente importância que a referida editora devolvesse o que é de direito a quem é de direito, apresentando os devidos créditos de tradução desses grandes clássicos, restituindo a verdade e tratando de recompor esse nosso patrimônio vilipendiado.

Além de dever restituir a verdade, num gesto de decência básica e fundamental, uma atitude pública da Nova Cultural, retratando-se de sua conduta, certamente ajudaria a coibir a continuidade dessa prática inominável e permitiria que a história e a memória da tradução literária neste país deixassem de ser tão brutalmente adulteradas.

Foi por isso que decidimos nos dirigir aos srs., pois temos a certeza de que estarão entre os primeiros a defender nosso patrimônio intelectual e o direito do leitor brasileiro e da sociedade em geral em ter um acesso livre, transparente e de boa qualidade à cultura universal.

Solicitamos encarecidamente seu apoio para obstar essa nefanda devastação em curso e contamos com sua divulgação de nosso protesto entre todos os meios, entidades e instituições culturais que estiverem ao seu alcance. Aproveitamos a oportunidade para convidá-los a visitar nosso blog, onde estão publicadas estas e outras notícias, e onde há um abaixo-assinado para adesão: assinado-tradutores.blogspot.com. Pedimos que, caso concordem, manifestem sua adesão ao referido abaixo-assinado.

Atenciosamente,
Denise Bottmann
assinado-tradutores.blogspot.com

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