23 de set de 2008

as luzes e as sombras


em fundamentação da metafísica dos costumes e outros escritos, de kant, na edição da claret, somos informados em nota do editor (pp. 97-98) que a coletânea inclui três opúsculos pouco conhecidos do filósofo de königsberg.

são eles: que significa orientar-se no pensamento, resposta à pergunta: que é o esclarecimento?, e sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade.

fiquei até envergonhada com minha desinformação: pois sempre pensei que was ist aufklärung fosse, se não o principal, pelo menos um dos principalíssimos textos do iluminismo (ou esclarecimento ou ilustração ou luzes), um dos marcos fundadores do conceito de autonomia e responsabilidade do sujeito! vá lá, que seja...

a questão é que, conhecida a aufklärung ou não, a ed. de claret atribui a tradução de sua coletânea a leopoldo holzbach, estampando o crédito: "Copyright desta tradução: Editora Martin Claret, 2002". ela tem tido sucessivas edições, até 2008. um sucesso de vendas em defesa da autonomia da razão!

bom, acontece que os tais opúsculos de kant já tinham sido publicados no brasil pela editora vozes, em edição bilíngüe, na tradução de floriano de sousa fernandes, além dos dois prefácios de kant à 1a. e à 2a. edição da crítica da razão pura, na tradução de frei raimundo vier.

duvido que a vozes tenha cedido os direitos de tradução para a claret, mas não sei dizer com certeza. em todo caso, a obra continua ativa em seu catálogo.

o que sei é que, tenha ela cedido ou não os direitos sobre a tradução, existe uma coisa chamada "direito moral", que é um direito inalienável, intransferível e imprescritível da pessoa a seu próprio nome.

ou seja, cadê floriano de sousa fernandes nos créditos da claret? o que faz esse tal leopoldo holzbach no lugar dele?

pois vejamos que significa orientar-se no pensamento:

floriano de sousa fernandes, vozes, p. 82: "muito mais importante é a necessidade da razão em seu uso prático, porque é incondicionado, e somos obrigados então a supor a existência de deus não somente se queremos julgar, mas porque devemos julgar. com efeito, o uso prático da razão consiste na prescrição das leis morais. todas elas, porém, conduzem à idéia do supremo bem possível no mundo, a saber, a moralidade, na medida em que somente é possível mediante a liberdade. por outro lado, as leis morais referem-se também àquilo que não depende apenas da liberdade humana mas igualmente da natureza, a saber, a maior felicidade, na medida em que está dividida proporcionalmente à primeira. a razão necessita portanto admitir um tal bem supremo dependente, e para esse fim uma inteligência suprema como supremo bem independente. e não procede assim para extrair dele o significado obrigatório das leis morais ou os estímulos para o cumprimento delas (não teriam então nenhum valor moral se seu móvel derivasse de algo diferente da própria lei moral, que, por si, é apoditicamente certa), mas apenas para dar realidade objetiva ao conceito do soberano bem, isto é, para impedir que este, juntamente com toda a moralidade, seja considerado um puro ideal, se não existe aquilo cuja idéia acompanha indissoluvelmente a moralidade."

leopoldo holzbach, claret, pp. 105-6: "muito mais importante é a necessidade da razão em seu uso prático, já que este não é condicionado, e somos então obrigados a supor a existência de deus não somente se queremos julgar, mas porque devemos julgar. ora, o uso prático da razão consiste na prescrição das leis morais. todas as leis morais, porém, remetem à idéia do supremo bem possível no mundo, a saber, a moralidade, na medida mesma em que esta só se faz possível mediante a liberdade. por outro lado, as leis morais referem-se também ao que não depende apenas da liberdade humana mas também da natureza, a saber, a maior felicidade, na medida mesma em que esta se encontra dividida proporcionalmente à primeira. portanto a razão precisa admitir tal bem supremo dependente, e, para esse fim, uma inteligência suprema como supremo bem independente. e dessa maneira não procede para extrair dele o significado obrigatório das leis morais ou os estímulos para o cumprimento dessas (não teriam então nenhum valor moral se seu motor determinante derivasse de algo diferente da própria lei moral, que, por si, é apodicticamente certa), mas apenas para conferir realidade objetiva ao conceito do soberano bem, isto é, para impedir que este, juntamente com toda a moralidade, seja tido como um puro ideal, caso não exista aquilo cuja idéia acompanha indissoluvelmente a moralidade."


tirando o fato de que as ênfases que constam nos originais do próprio kant, para frisar os conceitos, simplesmente sumiram, é até um escárnio supor que o que distingue uma tradução de outra é o uso de "precisa" em lugar de "necessita", "tido como" em vez de "considerado", "se encontra" em lugar de "está", "também" em lugar de "igualmente".

é supor que os leitores continuam presos a uma cômoda menoridade, sem fazer uso de seu entendimento...

imagem: was ist aufklärung, ed. original


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

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