30 de set de 2008

faz uns 70 anos, sobre "essas tenazes abelhas da internacionalização"

Monteiro Lobato, Traduções, in Mundo da Lua e Miscelânea

"Entre os aspectos novos que o movimento editorial criou nesses últimos tempos cumpre assinalar a fúria tradutora. ... Um dia um editor inteligente teve a idéia de arejar o cérebro dos nossos eternos ledores de escrichadas e ponsonadas. ... Foi com verdadeira avidez que o público se atirou às traduções. ... A novidade era absoluta. ... E, deliciado com tanto novo, o público passou a pedir mais, mais, mais, até que se saturou, ou antes, que os editores saturaram o mercado. Só então os leitores começaram a dar tento ao mérito das traduções. Foi verificando que com a pressa de apresentar novidades os editores descuravam da qualidade, dando inúmeras traduções perfeitamente infames. E o público reclamou... Quanto à reclamação do público, os editores estudaram o caso e verificaram que havia razão na queixa. Traduzir é a tarefa mais delicada e difícil que existe... Ora isso exige que o tradutor seja também escritor - e escritor decente. Mas os escritores decentes ... preferem ... escrever obras originais do que transplantar para o português obras alheias. ... Daí um impasse. Mas o caminho é esse. Os editores têm ... de procurar por todos os meios descobrir bons tradutores. ... Os tradutores são os maiores beneméritos que existem, quando bons; e os maiores infames, quando maus. Os bons servem à cultura humana, dilatando o raio de alcance das grandes obras. ... E, pois, benditos sejam os editores inteligentes que descobrem bons tradutores, e malditos sejam os que entregam obras-primas da humanidade ao massacre dos infames 'tradittores'. "

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