16 de set de 2008

o amante de lady chatterley

prosseguindo na campanha antipiratice, hoje vou de o amante de lady chatterley, de d. h. lawrence.

a edição publicada pela companhia editora nacional traz a obra em tradução de rodrigo richter.

até onde consigo entender, esta obra atualmente está ativa no catálogo da record, em formato de bolso (coleção best-bolso), com os devidos créditos de tradução em nome de rodrigo richter.

a edição da martin claret, por seu lado, traz os créditos de tradução atribuídos a "jorge luís penha".

contatei a editora record, para saber se os direitos haviam sido licenciados para a martin claret. cite-se de passagem a resposta do coordenador editorial da record a tal respeito: "Nossa empresa não firmou qualquer acordo de co-edição com a editora mencionada e desconhece a utilização de nossos textos por essa editora" (bom, agora já não desconhece mais).

RR, p. 9: Vivemos numa idade essencialmente trágica; por isso nos recusamos a tê-la como tal. O grande desastre aconteceu; achamo-nos entre ruínas, forçados a reconstruir novos habitats, a criar de novo pequeninas esperanças. Trabalho bastante duro. Já não há caminhos fáceis à nossa frente: temos de contornar os obstáculos, pular por cima deles - e isso porque temos de viver, seja qual for a extensão do desastre havido.

JLP, p. 27: Vivemos numa idade essencialmente trágica; por isso nos recusamos a tê-la como tal. O grande desastre aconteceu; achamo-nos entre ruínas, forçados a reconstruir novos hábitats, a criar de novo pequeninas esperanças. Trabalho bastante duro. Já não há caminhos fáceis à nossa frente: temos de contornar os obstáculos, pular por cima deles - e isso porque temos [sem o itálico] de viver, seja qual for a extensão do desastre havido.

RR, p. 24: Constance admirava-se da cegueira do marido, daquela fúria de tornar-se célebre num continente amorfo, que ela não conhecia e lhe inspirava até medo, daquela eterna ânsia de ser cotado como um dos escritores modernos de mais valor. Com o exemplo em casa de Sir Malcolm, Constance sabia muito bem como agem os artistas que querem vender seus produtos. Mas seu pai lançava mão dos meios usuais, ao passo que Clifford recorria a todos, e a muitos inéditos. Wragby passou a encher-se de gente de toda a espécie. Na fúria de conquistar reputação, ele jogava com todos os materiais.

JLP, p. 41: Constance admirava-se da cegueira do marido, daquela fúria de tornar-se célebre num continente amorfo, que ela não conhecia e lhe inspirava até medo, daquela eterna ânsia de ser cotado como um dos escritores modernos de mais valor. Com o exemplo em casa de Sir Malcolm, Constance sabia muito bem como agem os artistas que querem vender seus produtos. Mas seu pai lançava mão dos meios usuais, ao passo que Clifford recorria a todos, e a muitos inéditos. Wragby passou a encher-se de gente de toda a espécie. Na fúria de conquistar reputação, ele jogava com todos os materiais.

só para ninguém achar que a claret não maquiou nem um tiquinho, há um exemplo:

RR, p. 106: Já o romance como simples mexericada também pode excitar simpatias e desdéns, insinceros, mecânicos, mortais para a alma. Pode glorificar os sentimentos mais corrompidos, contando que eles permaneçam convencionalmente puros. E então o romance, como a mexericada, torna-se vicioso, e tanto mais vicioso quanto mais finge estar do lado dos anjos. A mexericada de Mrs. Bolton estava sempre do lado dos anjos. "E ele não era sério e ela era tão direita", dizia; mas, ao contrário disso, e mesmo com base nas próprias histórias de Mrs. Bolton, Constance via que a heroína não passava duma melosa e o herói dum brutal. O tudo era que uma honestidade brutal tornava o homem "não sério" e umas falas melosas tornavam a mulher "direita" - isso no canal vicioso para onde Mrs. Bolton desviava as suas simpatias.


JLP, p. 117: Já o romance como simples mexerico também pode excitar simpatias e desdéns, insinceros, mecânicos, mortais para a alma. Pode glorificar os sentimentos mais corrompidos, contando que eles permaneçam convencionalmente puros. E então o romance, como a mexerico, torna-se vicioso, e tanto mais vicioso quanto mais finge estar do lado dos anjos. A bisbilhotice de Mrs. Bolton estava sempre do lado dos anjos. "E ele não era sério e ela era tão direita", dizia; mas, ao contrário disso, e mesmo com base nas próprias histórias de Mrs. Bolton, Constance via que a heroína não passava duma melosa e o herói dum brutal. O tudo era que uma honestidade brutal tornava o homem "não sério" e umas falas melosas tornavam a mulher "direita" - isso no canal vicioso para onde Mrs. Bolton desviava as suas simpatias.

e por aí vai, até a famosa frase final:

RR, p. 308: "Estamos reunidos por uma grande parte de nós mesmos. Temos que ficar firmes e nos prepararmos para o próximo encontro. John Thomas, de cabeça caída, diz boa noite a Lady Jane. De cabeça caída, sim, mas cheio de esperanças."

JLP, p. 301: Estamos reunidos por uma grande parte de nós mesmos. Temos de ficar firmes e nos prepararmos para o próximo encontro. John Thomas, de cabeça caída, diz boa noite a Lady Jane. De cabeça caída, sim, mas cheio de esperanças.

outra coisa curiosa nesta edição da martin claret é o nome do capista: marcellin talbot.

sim, marcellin talbot, aquele mesmo cadastrado na fundação biblioteca nacional como tradutor de papéis avulsos de machado de assis.

para quem não acompanhou a farsa dos tradutores claretianos de machado, ver vários posts que publiquei em maio. um deles dá a lista geral das traduções da claret para obras portuguesas e brasileiras na fbn.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagem: www.bulwarkhouse.co.uk

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