30 de set de 2008

carta a departamentos de letras e literatura

bom dia, senhores

dispensarei qualquer arrazoado sobre as características de nossa formação cultural, tão dependente de pontes para o mundo, digamos, da "cultura universal", e sobre a importância das traduções de grandes obras da literatura mundial para nós, brasileiros, feitas, aliás, por renomados intelectuais (portugueses e brasileiros) do passado.

irei direto ao ponto. tem-se evidenciado que a editora nova cultural, em sua coleção obras-primas (montada nos moldes da coleção imortais da literatura, da extinta abril cultural), em vários casos eliminou a correta publicação dos créditos de tradução dessas obras, passando a atribuí-la a outros tradutores, talvez fictícios, talvez existentes.

o que parece se configurar, portanto, é que a editora de maior visibilidade no país (que muitas pessoas ainda associam à editora abril) tomou um patrimônio tradutório do país e, por razões ignoradas, mas com certeza escusas e inaceitáveis, eliminou, suprimiu, enterrou a contribuição desses intelectuais para nosso patrimônio cultural, e está trabalhando ativamente para o esquecimento do papel por eles desempenhado nesse âmbito. assim temos que os nomes de octavio mendes cajado, mario quintana, joão gaspar simões, araújo nabuco, silvio meira, galeão coutinho, porto carreiro, brenno silveira foram eliminados, suprimidos, tirados fora, aniquilados, exterminados, dos créditos de tradução. tal prática não poupou sequer um nome em vida, a saber, hernâni donato.

o fato é tanto mais grave porque, aqui, não são procedimentos avulsos, motivados por questões financeiras, de pequenas editoras desacreditadas, como a martin claret, e sim partem de uma empresa de grande porte com suposta credibilidade acumulada ao longo de décadas junto ao público leitor brasileiro.

desnecessário lembrar que muito provavelmente esses créditos fraudados estão sendo reproduzidos aos milhares em inúmeras teses, dissertações, artigos, papers, trabalhos de curso e assim por diante, se não em todas, pelo menos na maioria das faculdades e institutos universitários de literatura e línguas no brasil, numa rede de distribuição capilar que multiplica exponencialmente a força destrutiva de tal prática.

abaixo transcrevo a listagem da coleção obras-primas.

a coleção é composta por 5 obras em português (portanto sem tradução), 23 obras publicadas com créditos aparentemente corretos de tradução, 23 obras (se incluirmos Irmãos Karamazóvi), cujos falsos créditos de tradução estão destacados em vermelho, e 1 sob suspeita, destacado em verde.

OBS.: ISBN 85-351-0485-2: Dostoievski, Os irmãos Karamazóvi, trad. Enrico Corvisieri (Natália Nunes e Oscar Mendes) – apesar de publicado, foi cancelado da coleção, e seu número dentro dela foi substituído.

Miguel de Cervantes, Dom Quixote, trad. Viscondes de Castilho e Azevedo
Victor Hugo, Os trabalhadores do mar, trad. Machado de Assis
Dante Alighieri, A divina comédia, trad. Fábio M. Alberti (Hernâni Donato)
Dostoievski, Crime e castigo, não consta tradutor (Natália Nunes)
Edmond Rostand, Cyrano de Bergerac, trad. Fábio M. Alberti (Porto Carreiro)
Stendhal, O vermelho e o negro, trad. Maria Cristina F. da Silva (Luiz Costa Lima)
Flaubert, Madame Bovary, trad. Enrico Corvisieri (Araújo Nabuco)
Jane Austen, Razão e sensibilidade, trad. Therezinha Deutsch
Leon Tolstoi, Ana Karênina, trad. Mirtes Ugeda Coscodai (João Gaspar Simões)
Homero, Odisséia, trad. Antonio Pinto de Carvalho
Tommaso di Lampedusa, O leopardo, trad. Leonardo Codignoto (Rui Cabeçadas)
Charles Dickens, Um conto de duas cidades, trad. Sandra Luzia Couto
Bram Stoker, Drácula, trad. Vera M. Renoldi
Euclides da Cunha, Os sertões
Franz Kafka, A metamorfose, trad. Calvin Carruthers (não localizado)
Mark Twain, As aventuras de Tom Sawyer, trad. Luísa Derouet
Choderlos de Laclos, Relações perigosas, trad. Sérgio Milliet
Sinclair Lewis, Babbitt, trad. Leonel Vallandro
Camões, Os lusíadas
Goethe, Fausto e Werther, trad. Alberto Maximiliano (Silvio Meira e Galeão Coutinho, respectivamente)
Voltaire, Contos, trad. Roberto Domenico Proença (Mário Quintana)
Tchecov, As três irmãs, trad. Maria Jacintha
Herman Melville, Moby Dick, trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos
Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes, trad. Silvana Laplace (Oscar Mendes)
Machado de Assis, Memorial de Aires e Esaú e Jacó
Daniel Defoe, Moll Flanders, trad. Antônio Alves Cury
Eça de Queiroz, A cidade e as serras
Gogol, Almas mortas, trad. Tatiana Belinky
Boccacio, Decamerão, trad. Torrieri Guimarães
Pirandello, O falecido Mattia Pascal e Seis personagens à procura de autor, trad. Fernando Corrêa Fonseca (Mário da Silva e Brutus Pedreira)
Louise May Alcott, Mulherzinhas, trad. Vera Maria Marques Martins
Virgílio, Eneida, trad. Tassilo Orpheu Spalding
Alexandre Dumas Filho, A dama das camélias, trad. Therezinha Deutsch
Henry Fielding, Tom Jones, trad. Jorge Pádua Conceição (Octavio Mendes Cajado)
Émile Zola, Naná, trad. Roberto Valeriano (Eugênio Vieira)
Shakespeare, Tragédias, trad. Beatriz Viégas-Faria
Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray, trad. Enrico Corvisieri (Oscar Mendes)
Honoré de Balzac, A mulher de trinta anos, trad. Enrico Corvisieri (José Maria Machado)
Edgar Allan Poe, Histórias extraordinárias, trad. Brenno Silveira e outros
Jules Verne, A volta ao mundo em oitenta dias, trad. Therezinha Deutsch
Jonathan Swift, As viagens de Gulliver, trad. Therezinha Deutsch
Alexandre Dumas, Os três mosqueteiros, trad. Mirtes Ugeda Coscodai (Octavio Mendes Cajado)
Ibsen, A casa de bonecas, trad. Cecil Thiré
Joseph Conrad, Lord Jim, trad. Carmen Lia Lomonaco (Mário Quintana)
Henry James, Lady Barberina e A outra volta do parafuso, trad. Leônidas Gontijo e Brenno Silveira
Raul Pompéia, O ateneu
Guy de Maupassant, Uma vida, trad. Roberto Domenico Proença (Ascendino Leites)
Scott Fitzgerald, Suave é a noite, trad. Enrico Corvisieri (Lígia Junqueira)
D. H. Lawrence, Mulheres apaixonadas, trad. Cabral do Nascimento
Walter Scott, Ivanhoé, trad. Roberto Nunes Whitaker (Brenno Silveira)

seu apoio será da máxima importância, e sugestões sobre maneiras de encaminhar o problema serão muitíssimo bem-vindas.

agradeço a atenção,

denise bottmann
dbottmann@uol.com.br

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