30 de set de 2008

seis personagens à procura de um autor

este caso é uma tristeza. o espoliado foi um dos maiores nomes do teatro nacional, brutus pedreira, e que esteve também em limite, de mário peixoto.

luigi pirandello, seis personagens à procura de um autor (trad. brutus pedreira; abril cultural, 1981) (p. 454):

A ENTEADA:

Esperem, esperem! Primeiro, a Menina, na fonte!
(Corre para apanhar a Menina, abaixa-se, dobrando os joelhos diante dela e toma-lhe o rostinho entre as mãos.)
Pobre amorzinho meu, você olha, perdida, com esses olhões tão lindos... Quem sabe onde pensa que está? Estamos num palco, minha querida. Que é um palco?... Pois - está vendo? - é um lugar onde se brinca a sério, onde se fazem peças. E nós vamos fazer, agora, uma peça. A sério, sabe? Você também...
(Abraça-a, apertando-a ao peito e embalando-a um pouco.)
Ah, meu amorzinho, meu amorzinho, que peça feia você vai fazer! Que coisa horrível pensaram para você! O jardim, a fonte... É fingida, é claro! O mal é esse, querida, que aqui tudo é fingido! Mas talvez você goste mais de uma fonte fingida do que uma verdadeira, para poder brincar, não é? Para os outros será um jogo, mas não para você, infelizmente, que é uma menina verdadeira, amorzinho, e que brinca de verdade, numa fonte verdadeira, linda, grande, verde, com tantos bambus que fazem sombra, refletindo-se nela, e tantos, tantos patinhos que nadam, quebrando aquela sombra. Você quer agarrar um desses patinhos...

luigi pirandello, seis personagens à procura de um autor (atrib. fernando correa fonseca; nova cultural, 2003) (pp. 358-59):

A ENTEADA:
Esperem! Primeiro, a Menina, na fonte!
(Corre para apanhar a Menina, abaixa-se diante dela e toma-lhe o rostinho entre as mãos.) Pobre amorzinho meu, você olha, perdida, com esses olhões tão lindos... Quem sabe onde pensa que está? Estamos num palco, minha querida. O que é um palco?... Está vendo? É um lugar onde se brinca a sério, onde se fazem peças. E nós, agora, vamos fazer uma peça. A sério, sabe? Você também...
(Abraça-a, apertando-a ao peito e embalando-a um pouco.)
Ah, meu amorzinho, que peça feia você vai fazer! Que coisa horrível pensaram para você! O jardim, a fonte... É falsa, é claro! O mal é esse, querida, que aqui tudo é falso! Mas talvez você goste mais de uma fonte falsa do que uma de verdade, para poder brincar, não é? Para os outros vai ser um jogo, mas não para você, infelizmente, que é uma menina verdadeira, amorzinho, e que brinca de verdade, numa fonte verdadeira, bonita, grande, verde, com tantos bambus que fazem sombra, refletindo-se nela, e muitos patinhos que nadam, quebrando aquela sombra. Você quer pegar um desses patinhos...


agora sem qualquer maquiagem:

luigi pirandello, seis personagens à procura de um autor (trad. brutus pedreira; abril cultural, 1981) (p. 459-60):

O FILHO
(lutando com ele e, por fim, jogando-o ao chão, perto da escadinha, com horror de todos)
Mas que frenesi é esse que lhe deu? Não tem pudor de trazer, diante de todos, a sua vergonha e a nossa? Eu não me presto! Não me presto! E interpreto, assim, a vontade daquele que não quis trazer-nos para a cena!
[seguem-se pequenas frases ipsis litteris]
O FILHO
Foi ele que quis vir, arrastando-nos a todos e prestando-se até a combinar lá, junto com o senhor, não só o que realmente aconteceu, mas, como se não bastasse, o que nunca se passou!...O DIRETOR
Mas diga, diga você ao menos o que se passou! Diga-o a mim! Saiu do seu quarto, sem dizer nada?
[mais algumas pequenas frases dos personagens, também ipsis litteris]
O FILHO (lentamente, olhando para diante de si)
Acudi, precipitei-me para tirá-la de lá... Mas, de repente, parei, porque atrás daquelas árvores vi uma coisa que me gelou: o Rapazinho, o Rapazinho que estava ali, quieto, com olhos de louco, a olhar, na fonte, a irmãzinha afogada.

luigi pirandello, seis personagens à procura de um autor (atrib. fernando correa fonseca; nova cultural, 2003) (pp. 361-63):

O FILHO (lutando com ele e, por fim, jogando-o ao chão, perto da escadinha, com horror de todos)
Mas que frenesi é esse que lhe deu? Não tem pudor de trazer, diante de todos, a sua vergonha e a nossa? Eu não me presto! Não me presto! E interpreto, assim, a vontade daquele que não quis trazer-nos para a cena!
[seguem-se pequenas frases ipsis litteris]
O FILHO
Foi ele que quis vir, arrastando-nos a todos e prestando-se até a combinar lá, junto com o senhor, não só o que realmente aconteceu, mas, como se não bastasse, o que nunca se passou!...
O DIRETOR

Mas diga, diga você ao menos o que se passou! Diga-o a mim! Saiu do seu quarto, sem dizer nada?

[mais algumas pequenas frases dos personagens, também ipsis litteris]

O FILHO (lentamente, olhando para diante de si)

Acudi, precipitei-me para tirá-la de lá... Mas, de repente, parei, porque atrás daquelas árvores vi uma coisa que me gelou: o Rapazinho, o Rapazinho que estava ali, quieto, com olhos de louco, a olhar, na fonte, a irmãzinha afogada.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

imagem: limite, www.preceitos.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário

comentários anônimos, apócrifos e ofensivos não serão liberados.