30 de set de 2008

um apelo sério e sincero

reproduzo aqui a cartinha que comecei a enviar para docentes, pesquisadores, intelectuais em geral.


com certeza os srs. estão a par da recente movimentação dos tradutores em defesa do patrimônio cultural do país, sabidamente constituído em grande parte por traduções de obras de alcance universal, as quais muito contribuíram e continuam a contribuir para que possamos nos sentir cidadãos do mundo, para que possamos até mesmo estabelecer nossos próprios cânones lingüísticos e literários.

os srs. certamente estão a par também dos vários atentados praticados contra este patrimônio, sendo o mais espetacularmente realizado e sobejamente demonstrado aquele perpetrado pela editora nova cultural nos últimos 13 anos.

a uma reflexão um pouco mais detida, naturalmente poderão surgir inúmeras razões que explicam, justificam, pavimentam e aplainam o caminho para esse estado de descalabro.

deixemos, porém, essa reflexão a quem couber.

o que cumpre a nós é proceder àquele pequeno gesto do menino colocando seu dedo no orifício da represa.

o que cumpre a nós é tentar deter o avanço dessa maré negra de destruição de nossos esforçados esforços, penadas penas, laboriosos labores para construir um pequeno edifício de referências culturais universais.

o que cumpre a nós é dizer: não foi enrico corvisieri que traduziu madame bovary, não foi fábio alberti que traduziu a divina comédia, não foi mirtes ugeda coscodai que traduziu ana karênina. e sim: fui eu, ivo barroso, que traduzi iluminações, fui eu, jório dauster, que traduzi lolita, fui eu, paulo bezerra, que traduzi crime e castigo.

e isso significa dizer, e cada um de nós dizer, a sós e em uníssono: quem traduziu iluminações foi ivo barroso, quem traduziu lolita foi jório dauster, quem traduziu crime e castigo foi paulo bezerra.

e isso significa que cada intelectual, cada docente, cada pesquisador, cada estudante deste país deverá dizê-lo com todas as letras, deverá colocar em seu estudo, em seu artigo, em sua tese, em sua monografia, em seu trabalho do semestre, a devida, pura, nua, singela informação: quem, como tradutor, trouxe essa obra ao seu alcance.

não só por uma questão de obrigação, ou porque assim manda a lei, ou porque assim pareceria "mais caprichado", mas porque é assim que é, e porque apenas falando a verdade poderemos deter a mentira.

caros docentes, pesquisadores e discentes: respeitem o tradutor, respeitem a obra que lêem em vernáculo, respeitem a verdade, respeitem a dignidade vossa, nossa, de todos nós: cuidem do texto, cuidem das citações, cuidem das referências bibliográficas.

cuidem da cultura e do país.

obrigada,
denise bottmann
http://assinado-tradutores.blogspot.com/

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