27 de set de 2008

a semântica claretiana

I.
H. Rider Haggard, As minas do rei Salomão
Tradução de EÇA DE QUEIROZ
e-book disponível para download gratuito (obra em domínio público)

Capítulo I
Encontro com os meus camaradas

É bem estranho que nesta minha idade, aos cinqüenta e seis anos feitos, esteja eu aqui, de pena na mão, preparando-me a redigir uma história!

Nunca imaginei que tão prodigiosa ocorrência se pudesse dar na minha vida - vida que me parece bem cheia, e vida que me parece bem longa... Sem dúvida, por a ter começado tão cedo! Com efeito, na idade em que os outros rapazes ainda soletram nos bancos da escola, já eu andava agenciando o meu pão por esta velha colônia do Cabo. E por aqui fiquei desde então, metido em negócios, em serviços, em travessias, em guerras, em trabalhos - e nessa dura profissão, que é a minha, a caça ao elefante e ao marfim. Pois, com toda esta diligência, só ultimamente, há oito meses, arredondei o meu saco. É um bom saco. É um saco graúdo, louvado Deus. Creio mesmo que é um tremendo saco! E apesar disso, juro que para o sentir assim, redondo e soante entre as mãos, não me arriscava a passar outra vez os transes deste terrível ano que lá vai. Não! Nem tendo a certeza de chegar ao fim com a pele intacta e com o saco cheio. Mas eu no fundo sou um tímido, detesto violências, e ando farto, refarto de aventuras!

Como dizia, pois, é cousa estranhíssima que assim me lance a escrever um livro. Não está nada no meu feitio ser homem de prosa e de letras - ainda que, como outro qualquer, aprecio as belezas da Santa Bíblia e gozo com a História do Rei Artur e da sua Távola Redonda. No entanto, tenho razões, e razões consideráveis, para tomar a pena com esta mão inábil que há quase cinqüenta anos maneja a carabina. Em primeiro lugar, os meus companheiros, o Barão Cúrtis e o digno capitão da Armada Real, John Good (a quem chamo, por hábito, "o Capitão John") pediram-me para relatar e publicar a nossa jornada ao reino dos cacuanas. Em segundo lugar, estou aqui em Durban, estirado numa cadeira, inutilizado para umas semanas, com os meus achaques na perna. (Desde que aquele infernal leão me traçou a coxa de lado a lado, fiquei sujeito a estas crises, todos os anos, ordinariamente pelos fins do outono. Foi em fins de outono que apanhei a trincadela. ...)

II.
H. Rider Haggard, As minas do rei Salomão
Tradução de Jean Melville
Copyright desta tradução: Martin Claret, 2003

Capítulo I
Encontro com os meus camaradas

É bem estranho que nesta minha idade, aos cinqüenta e seis anos feitos, esteja eu aqui, de pena na mão, preparando-me para redigir uma história!

Nunca imaginei que tão prodigiosa ocorrência se pudesse dar na minha vida - vida que me parece bem cheia, e vida que me parece bem longa... Sem dúvida, por a ter começado tão cedo! Com efeito, na idade em que os outros rapazes ainda soletram nos bancos da escola, já eu andava agenciando o meu pão por esta velha colônia do Cabo. E por aqui fiquei desde então, metido em negócios, em serviços, em travessias, em guerras, em trabalhos - e nessa dura profissão, que é a minha, a caça ao elefante e ao marfim. Pois, com toda esta diligência, só ultimamente, há oito meses, arredondei a minha bolsa. É uma boa bolsa. É uma bolsa graúda, louvado Deus. Creio mesmo que é uma tremenda bolsa! E apesar disso, juro que para a sentir assim, redonda e soante entre as mãos, não me arriscava a passar outra vez os transes deste terrível ano que lá vai. Não! Nem tendo a certeza de chegar ao fim com a pele intacta e com a bolsa cheia. Mas eu no fundo sou um tímido, detesto violências, e ando farto, refarto de aventuras!

Como dizia, pois, é coisa estranhíssima que assim me lance a escrever um livro. Não está nada no meu feitio ser homem de prosa e de letras - ainda que, como outro qualquer, aprecie as belezas da Santa Bíblia e goze com a História do Rei Artur e da sua Távola Redonda. No entanto, tenho razões, e razões consideráveis, para tomar a pena com esta mão inábil que há quase cinqüenta anos maneja a carabina. Em primeiro lugar, os meus companheiros, o Barão Curtis e o digno capitão da Armada Real, John Good (a quem chamo, por hábito, "o Capitão John") pediram-me para relatar e publicar a nossa jornada ao reino dos cacuanas. Em segundo lugar, estou aqui em Durban, estirado numa cadeira, inutilizado por umas semanas, com os meus achaques na perna. (Desde que aquele infernal leão me traçou a coxa de lado a lado, fiquei sujeito a estas crises, todos os anos, ordinariamente pelos fins do outono. Foi em fins de outono que apanhei a trincadela. ...)

além da cômica substituição de "saco" por "bolsa", para evitar "o saco cheio" da tradução original de eça de queiroz, o que me parece haver aí é uma nada cômica demonstração dos procedimentos usuais na martin claret.

consta na quarta capa, quase ilegível: "nosso trabalho é calcado na famosa tradução de eça de queirós". o que significa isso? calcar é copiar? ah, então concordo - é uma cópia.

neste caso, porém, o que faz o nome de jean melville na folha de rosto, em maiúsculas: "TRADUÇÃO: JEAN MELVILLE"?

e o que significa "Copyright desta tradução: Editora Martin Claret, 2003" na página de créditos?

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagem: dantondantas.blogspot.com

Um comentário:

  1. Uma vergonha realmente, mas algo que não me conforme de jeito algum é as editoras brasileiras viverem relançando a tradução-resumo/versão de Eça de Queiroz. Tudo bem, ele foi um grande autor, escreveu belas obras... Mas ninguém enxerga que ele resumiu ~3 capítulos do livro em 1 linha? E são as cenas MUITO bacanas para quem gosta de um bom livro de aventura no melhor estilo caçador de tesouros!

    D, há a possibilidade de um post no fórum a respeito disso? Adoraria saber se existem versões integrais da obra em português, apelei para o inglês, mas tenho certeza que muitos brasileiros estão perdendo 'o doce' do livro por causa deste 'clássico' de Queiroz.

    Abraço!

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