3 de dez de 2009

Uma fraude renascentista - Satíricon IV

Como eu havia mencionado no primeiro post da série, o Satíricon, de Petrônio, infelizmente chegou aos tempos modernos em fragmentos. Acredita-se que tenhamos apenas três dos não se sabe quantos livros originais que compuseram a obra, os livros XIV, XV e XVI, e mesmo assim não completos, talvez 15% do total. No entanto, muitos latinistas e acadêmicos, desde a Idade Média, trabalharam para estabelecer o texto latino mais completo possível. A história é interessantíssima.

De acordo com um dos tradutores franceses do Satíricon, Louis de Langle, em 1923,  e um tradutor inglês, W. C. Firebaugh, em 1922, ela se resume mais ou menos assim:

The Holy Mysteries
1 – Um primeiro fragmento, descoberto em 1476, foi impresso em Milão em 1482, sendo o único texto de Petrônio conhecido até 1565.

2 – Uma versão publicada em Viena em 1564 e Anvers em 1565 (o Codex Sambucus), juntamente com um fragmento encontrado num convento de Buda, em 1587 (Codex Pithoeius), formam um texto um pouco mais completo, preenchendo algumas lacunas do texto anterior.

3 – Uma lacuna importante do texto, parte do Banquete de Trimalquião, foi descoberta por Pierre Petit na biblioteca do convento de Trau e publicada pela primeira vez em Pádova, em 1664. Esse manuscrito ainda continha todas as partes já estabelecidas anteriormente, e criava continuidade entre os fragmentos já conhecidos. Contudo, sua autenticidade foi contestada. Dois exames realizados por literatos de Roma e da França concluíram que o manuscrito deveria ter pelo menos 200 anos – mas nunca houve prova decisiva de que a parte do Banquete fosse do mesmo autor que o restante dos livros.

4 – Finalmente, em 1688, Du Pin, um oficial francês teria encontrado durante uma batalha em Belgrado um enorme manuscrito ainda mais completo. Esse foi traduzido por François Nodot, um mercenário francês seu amigo, e editado por Leers de Rotterdan em 1692. Logo, no entanto, sua autenticidade também foi discutida. Mas desta vez a fraude foi definitivamente estabelecida, principalmente em razão da qualidade do latim: o texto era bem ruim. Contudo, era também bastante engenhoso, servia-se de alusões contidas nos fragmentos já conhecidos e ajudava a encadear bem as partes do Satíricon, criando um texto coerente.
Por isso, a grande maioria dos tradutores de Petrônio, até hoje, optam por incorporar em suas versões do Satíricon, os acréscimos fraudados de Nodot. A grande maioria admite a fraude em prefácio, e costuma marcar de alguma maneira, por exemplo entre colchetes, essas partes que não deixam de ser interessantes para o tom do texto como um todo.
5 - Mais tarde diversos fragmentos foram ainda encontrados e logo reconhecidos como inautênticos (uma lista completa pode ser vista aqui), algumas vezes acrescentados a edições da obra, e em geral identificados como tais. W. C. Firebaugh incorpora por exemplo a falsificação de José Marchena, um espanhol que a escreve em francês por volta de 1800, e a de Don Joe Antonio Gonzalez de Salas, publicada em 1629.

Quanto às nossas edições brasileiras (as quatro lidas por mim), a única que não incorpora os acréscimos de Nodot é a da Cosac Naify, pois seu tradutor optou por se basear numa edição latina estabelecida em 1923, que contemplava apenas os manuscritos considerados originais.

As outras duas versões, da Escala e da Civilização Brasileira (não incluo aqui a da Martin Claret, já que não é nada menos do que cópia deslavada da Civilização Brasileira, como mostramos aqui e aqui) incluem os tais acréscimos. Daí a grande diferença observada (ao fim do post) entre o tamanho do capítulo XI nas diversas edições - a da Cosac Naify contava com apenas algumas linhas e as outras tinham quase oito páginas. Essas oito páginas foram compostas por François Nodot – e são bastante divertidas, aliás, dá para entender o interesse em publicá-las.

Fico apenas triste, do ponto de vista editorial e não de tradução, que as edições que incorporam o Nodot deixem de indicá-lo. Sem uma pesquisa como esta, o leitor nunca saberia que está lendo um texto de, pelo menos, dois autores diferentes, Petrônio e Nodot, perpetuando a fraude, no entanto perfeitamente estabelecida há séculos. Por que os editores não indicam suas fontes, principalmente quando se trata de textos clássicos, cuja história é conturbada?

Imagem: gutemberg.org

Joana Canêdo

2 comentários:

  1. Carlos Alberto Bárbaro3.12.09

    E quanto à edição da Crisálida, com tradução e posfácio de Sandra Braga Bianchet. Algo a dizer?

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  2. Carlos,
    Ainda não tive a oportunidade de ler essa tradução da Sandra Braga Bianchet. Pelo que sei foi feita diretamente do latim. Mas estou curiosa e vou olhá-la também. Caso ache algo interessante, darei notícias.
    É bom lembrar que existem várias outras traduções brasileiras e portuguesas desse texto do Petrônio. Como mencionei no primeiro post da série sobre o Satíricon, pude identificar as seguintes, além das cotejadas:
    - Jorge de Sampaio, Europa-América (Lisboa), 1973.
    - Paulo Leminski, Brasiliense, 1985. Tradução, introdução, notas e posfácio.
    - Sandra Braga Bianchet, Crisálida, 2004. Tradução, introdução, notas e posfácio.
    - Delfim F. Leão, Cotovia (Lisboa), 2005.

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