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8 de ago. de 2018

veríssimo e vallandro em contraponto


há coisa de uns dez dias, senti uma certa perplexidade quando descobri que "contraponto", de aldous huxley, traduzido por erico veríssimo em 1933 e publicado em 1934 pela livraria do globo, a partir de 1956 começara a aparecer com créditos de tradução a ele e a leonel vallandro. vide aqui.

especulando e vendo o número de páginas das diversas edições (690 nas iniciais; 460 nas posteriores), cogitei que se trataria de uma condensação que vallandro, a pedido da globo, teria feito naquela altura e que assim acabou ficando.

chegaram os exemplares que encomendei: a edição em 2 volumes só com veríssimo; a edição num volume só com veríssimo e vallandro. pelo que comparei até agora, são:

............................................idênticas ............................................

e a diferença no número de páginas?!
bom, o formato da edição dos anos 30 (a que comprei é de 1939), em 2 vols. não chega a ser de bolso, mas é de tamanho bastante reduzído, de 17,5 x 12,5. já o volume da coleção nobel (6a. edição, 1956) é significativamente maior: 22,5 x 15.

a fonte tipográfica de 1939 é maior e o entrelinhas razoavelmente espaçado, enquanto a fonte de 1956 é menor e o entrelinhas mais estreito.

a página do formato menor tem 32 linhas de texto, com 60 toques (isto é, caracteres + espaços), ou seja, se não houvesse parágrafos, as linhas fossem totalmente ocupadas até o final, os capítulos não terminassem no começo ou meio da página, não houvesse divisão de seções etc.etc., haveria 1920 toques por página. por outro lado, a página do formato maior tem 45 linhas de texto, com 70 toques, o que corresponderia a 3150 toques.




ou seja, se houvesse alguma diferença, o texto com créditos a veríssimo & leandro seria maior, não menor.

sinceramente, não é hoje nem nos próximos tempos que vou comparar 1.150 páginas de texto, mas as dúvidas, embora mudadas, continuam e a pergunta persiste: por que leonel vallandro passa, a partir de 1956, a constar dos créditos da tradução de "contraponto" ao lado de erico veríssimo?


1 de mar. de 2017

ivo barroso sobre baudelaire


magistral artigo de ivo barroso:
consoante de apoio - a propósito de um poema de charles baudelaire, aqui.


25 de mai. de 2014

os tomates e a feira

o falecimento de garcía márquez trouxe em sua esteira vários comentários sobre a tradução de sua obra no brasil (inclusive um dele mesmo, coisa penosa, que comentei outro dia aqui).

o interessante - e enriquecedor, sem dúvida, mas também curioso, ao mesmo tempo - é a percepção que parece emanar difusamente de vários comentários: como se tradução fosse uma espécie de pinga-pinga, algo no varejo, que se pega como um tomate na feira e se examina para ver se tem uma pintinha aqui, uma pintinha ali, que se aperta para ver se está firme ou molengato, e assim por diante.

por ocasião da morte de garcía márquez, nas dezenas de comentários nas redes sociais sobre suas obras no brasil, senti falta de uma noção mais "conteudística", mais viva e dinâmica do que é essa coisa chamada tradução. tradução NÃO é o tomate na feira; se for para manter a metáfora, tradução é A FEIRA.

entre outras coisas, tradução é, como diz saramago, o que torna internacional uma literatura nacional; outra coisa que tradução também é, é agente formador de cultura, cultura daquela língua ou país que acolhe e processa em seu interior elementos de outra cultura.

nesse sentido, e voltando a garcía márquez, se um tradutor seu tropeça num gallinazo e acha que é uma galinha, outro se engasga com uma astromélia da qual nunca ouviu falar e imagina que é uma flor inventada pelo autor, e assim por diante, tudo isso pode nos fazer enrubescer ou gargalhar, pode servir de mote para deboche por parte de alguns mais impacientes, seja o que for, mas não passa de uma baciada (ou de simples punhado) de meros faits-divers.

não quero diminuir de maneira nenhuma a importância de apontar erros, lapsos, falhas de tradução em geral para o aprimoramento constante e a consolidação de uma maior sensibilidade do ofício perante o original - quem me conhece, sabe bem qual é meu ponto de vista a respeito.

mas, numa ocasião dessas, tão propícia a uma espécie de avaliação ou balanço do vulto literário de garcía márquez, muito mais interessante, a meu ver, seria procurar entender de maneira mais ampla e mais concreta sua presença no brasil por intermédio da tradução: não se deter na pintinha do tomate, mas enxergar o movimento da feira.

sobre as traduções de garcía márquez no brasil, veja aqui.

18 de abr. de 2014

garcía márquez e tradução

a (n.t.) publica em homenagem póstuma a gabriel garcía márquez um texto seu chamado "os pobres tradutores bons", disponível aqui.

fiquei com um pouco de vergonha "pátria" ao final do artigo, quando garcía márquez louva as traduções de gregory rabassa para o inglês e apresenta como contraste uma tradução brasileira:
a fidelidade [de rabassa] é mais complexa que a literalidade simples. Nunca faz uma explicação em pé de página, que é o recurso menos válido e por desgraça o mais acudido nos maus tradutores. Nesse sentido, o exemplo mais notável é o do tradutor brasileiro de um de meus livros, que ofereceu à palavra astromélia uma explicação em pé de página: "flor imaginária inventada por García Márquez". O pior é que mais tarde li, não sei onde, que as astromélias não só existem − como todo mundo no Caribe sabe − como também seu nome é português. 


não sei a que obra nem a que tradutor ele se refere, mas essa de fato foi triste.

26 de jul. de 2012

o oatcake do morro dos ventos uivantes

tem um trecho no morro dos ventos uivantes em que o narrador descreve o aposento principal da casa e a certa altura diz:
The latter [the roof] had never been under-drawn: its entire anatomy lay bare to an inquiring eye, except where a frame of wood laden with oatcakes and clusters of legs of beef, mutton, and ham, concealed it. 
ou seja, o telhado da casa nunca tinha recebido forro, e por isso sua estrutura ficava à mostra, exceto num lugar onde havia uma armação de madeira cheia de "cakes" de aveia, pernis de boi e carneiro e presuntos.


george walker, "woman making oatcakes" da série costumes of yorkshire, 1814, aqui

encontrei essa ilustração de uma casa rural típica do yorkshire. achei uma graça a mesa improvisada com uma cadeira deitada, umas tábuas e a toalha com os oatcakes por cima, decerto para esfriar, e a armação parecida com a que aparece no livro (embora aqui o teto tenha forro), com os tais oatcakes pendurados para secar. não sei como eu traduziria - "bolo de aveia" é que não seria, pois mais parece uma massa de pizza ou um pão árabe.

acabei descobrindo que existem dois tipos de oatcake: aquele que a gente chama mesmo de biscoito de aveia, que já sai do forno sequinho e crocante ou bem friável, por causa da manteiga; o outro, de massa macia, feito numa chapa ou pedra de assar, que parece um crepe ou uma panqueca meio grossinha - pode ser comido fresco (quente ou frio) ou posto para secar, como na gravura acima e na descrição em wuthering heights.

30 de abr. de 2012

jack london no brasil IIIa.



de novo, a questão da literalidade. agora não se trata de uma expressão idiomática tomada ao pé da letra, e sim de um nome próprio: white fang, fielmente traduzido em todas as edições brasileiras como "caninos brancos".

fico pensando qual a probabilidade de alguém dar tal nome a seu cachorro (ou lobo): "caninos brancos, vem!", "pega, caninos brancos!" ou um simples chamar à distância: "caniiiinos braaaaancos!". em inglês, é fácil: algo mais ou menos como huái(t)fen - até segue a regra informal de nomes para cães: curto, com vogal bem marcada na tônica, para decorar mais fácil o chamado. sob este aspecto, "caninos brancos" é uma maldade - e na leitura do livro acaba sendo um suplício também. acho que só perde para o lusitano "colmilhos brancos"... pensei, pensei, não cheguei a nenhuma sugestão alternativa. fica registrado mais um quebra-cabeça.

18 de abr. de 2012

em defesa de brenno II



ainda sobre o artigo "edgar poe em português: limites entre tradução e adaptação", da autoria de élida paulina ferreira e karin hallana santos silva, publicado na revista domínios de linguagem (v. 5, n. 3, 2011, disponível aqui), ter-se-ia que brenno silveira teria ferido "o princípio de fidelidade" e "quebra[do] a atmosfera de suspense e mistério" do conto "metzengerstein", de poe, devido à "supressão" de vários trechos do original em sua tradução. de mais a mais, brenno teria alterado a idade de um dos personagens de quinze para dezoito anos.

como seria muito longo transcrever todos os trechos supostamente suprimidos, reproduzo aqui apenas o breve trecho em que brenno teria alterado a idade do protagonista, citado às pp. 25-26 do referido artigo:
Frederick was, at that time, in his fifteenth year. In a city fifteen years are no long period — a child may be still a child in his third lustrum: but in a wilderness — in so magnificent a wilderness as that old principality, fifteen years have a far deeper meaning. 
Frederick contava, a essa altura, dezoito anos. Numa cidade, dezoito anos não são muito tempo; mas na solidão  – numa solidão tão magnífica como a daquele velho principado – o pêndulo vibra com um significado mais profundo.
as autoras consideram que se trata de uma opção proposital de brenno,* para adaptar o original ao contexto brasileiro, onde se atinge a maioridade aos dezoito anos, ademais suprimindo a frase "a child may be still a child in his third lustrum" para melhor adequar o texto em português a seus propósitos de "contextualização". o veredito é o seguinte:
Essa contextualização, no entanto, implica uma interpretação distinta do original no que concerne à visão que se tem da personagem, uma vez que com quinze anos ele é considerado uma criança e explicaria suas atitudes diante da perda dos pais. Sendo um adulto o fragmento perde todo o sentido em português. [p. 26; negrito meu]
ok, magister dixit. veja-se, porém, o texto original de poe em sua versão definitiva:
Frederick was, at that time, in his eighteenth year. In a city, eighteen years are no long period; but in a wilderness — in so magnificent a wilderness as that old principality, the pendulum vibrates with a deeper meaning. (1850)
tal como no caso dos supostos acréscimos e do "comentário interpretativo" que brenno silveira teria incluído em sua tradução de "berenice" - e que comentei aqui -, também aqui, nas alegadas supressões e alterações que ele teria efetuado em sua tradução de "metzengerstein", o simples fato é que, na verdade, as diferenças resultam da revisão que o próprio autor, edgar allan poe, fez em seu conto. a versão de "metzengerstein" utilizada por brenno é a definitiva, como consta na edição de 1850, ao passo que as autoras do artigo utilizaram a versão de 1840 para basear sua análise, apontar supostos acréscimos, supressões e contextualizações na tradução brasileira e tecer juízos sobre pretensas perdas de sentido em português, sobre uma alegada destruição da atmosfera de suspense resultante de tais supostas intervenções do tradutor e assim por diante.

não sei o que dizer. de certa forma, os fatos falam por si sós. mas fico com a impressão de que seria talvez desejável um pouco mais de pesquisa, de dedicação e humildade em relação ao objeto de estudo, até para conseguir entendê-lo melhor.

* e de clarice lispector também, com sua adaptação tratada em paralelo com a tradução de brenno.

aos interessados na obra de poe, recomendo o site http://www.eapoe.org; para este conto em particular e suas várias versões, http://www.eapoe.org/works/info/pt005.htm.

imagem: metzengerstein, de harry clarke, 1933

em defesa de brenno I

a revista domínios de linguagem dedicou seu último número (v. 5, n. 3, 2011, disponível aqui)
à atividade de tradução. entre os artigos encontra-se "edgar poe em português: limites entre tradução e adaptação", da autoria de élida paulina ferreira e karin hallana santos silva.

sem pretender me deter nos indiscutíveis méritos do artigo, faço inicialmente uma pequena retificação: a identificação entre tales of the grotesque and arabesque e histórias extraordinárias não passa de um tolo despautério editorial perpetrado pela abril cultural em 1978, que acabou gerando alguns equívocos. sobre o histórico do uso desse título histórias extraordinárias no brasil desde 1958 e os descaminhos pelos quais enveredou a partir de 1978, pode-se consultar meu artigo, "alguns aspectos da presença de edgar allan poe no brasil", em esp. IV.3, aqui.

o reparo mais importante que tenho a fazer sobre o artigo de élida ferreira e karin silva, porém, diz respeito ao exemplo apresentado como prova dos acréscimos que brenno silveira teria feito ao texto original de edgar allan poe, no conto "berenice":
Nesse âmbito, além de omissões também  observamos acréscimos de trechos. Quando o tradutor opta por acrescentar algo à tradução que não consta no original, ele amplia de forma a trazer mais elementos interpretativos,  interferindo na recepção do texto e, eventualmente, criando uma imagem diferente desse texto na língua de chegada. (p. 26, negritos meus)
o exemplo dado como acréscimo de algo "que não consta no original" é o seguinte, às pp. 26-7 (em destaque meu):
Poe: “I held them in every light – I turned them in every attitude. I surveyed their characteristics – I dwelt upon their peculiarities – I pondered upon their conformation – I mused upon the alteration in their nature – and shuddered as I assigned to them in imagination a sensitive power, and even when unassisted by the lips, a capability of moral expression. Of Mad’selle Sallé it has been  said, ‘que tous ses pas etaient des sentiments’, and of Berenice I more seriously believed que tous ses dents etaient des idées.
Silveira: “Via-os sob todos os aspectos; revolvia-os em todos os sentidos; estudava suas características. Refletia longamente sobre suas peculiaridades. Meditava sobre sua conformação. Cogitava acerca de sua natureza. Estremecia ao atribuir-lhes, em minha imaginação, uma faculdade de sensação e de sensibilidade e, mesmo quando não ajudados pelos lábios, uma capacidade de expressão moral. De Mademoiselle Sallé foi dito – aliás muito bem  – que ‘tous ses pás étaient des sentiments’, e, de Berenice, eu acreditava ainda mais seriamente que toutes ses dents étaient des idées! Des idées!- ah! Aqui estava o pensamento idiota que me destruiu! Des idées! –Ah era por isso que eu os cobiçava tão loucamente! Sentia que somente a posse deles poderia restituir-me a paz, fazendo-me recobrar a razão.”

seria de fato surpreendente que brenno, um dos tradutores mais cuidadosos e atentos à letra e ao sentido das obras que traduzia, tivesse acrescentado à sua tradução as frases: "Des idées!- ah! Aqui estava o pensamento idiota que me destruiu! Des idées! –Ah era por isso que eu os cobiçava tão loucamente! Sentia que somente a posse deles poderia restituir-me a paz, fazendo-me recobrar a razão", apenas a título de "comentário interpretativo", como afirmam as autoras à p. 27.

na verdade, a questão é bem mais simples. trata-se apenas de duas versões diferentes de "berenice": as  autoras tomaram como referência a versão de 1835, reproduzida na edição das TGA de 1840, ao passo que brenno silveira utilizou a versão definitiva, que poe havia estabelecido para publicação desde 1845. veja-se a versão final do texto de poe (negrito meu):
I held them in every light. I turned them in every attitude. I surveyed their characteristics. I dwelt upon their peculiarities. I pondered upon their conformation. I mused upon the alteration in their nature. I shuddered as I assigned to them in imagination a sensitive and sentient power, and even when unassisted by the lips, a capability of moral expression. Of Mademoiselle Sallé it has been well said, “Que tous ses pas etaient des sentiments,” and of Berenice I more seriously believed que tous ses dents etaient des idées. Des idées! — ah here was the idiotic thought that destroyed me! Des idées! — ah therefore it was that I coveted them so madly! I felt that their possession could alone ever restore me to peace, in giving me back to reason.
em suma, o tradutor não procedeu a qualquer acréscimo ou comentário interpretativo a esta passagem: o acréscimo fora feito pelo próprio autor, edgar allan poe, na versão definitiva de "berenice", ela sim utilizada por brenno silveira em sua tradução.

aos interessados na obra de poe, recomendo o site http://www.eapoe.org; para este conto em particular e suas várias versões, http://www.eapoe.org/works/info/pt011.htm.

veja em defesa de brenno II, aqui.

16 de abr. de 2012

o coração da matéria

este caso não é tão significativo quanto a volta do parafuso de henry james que comentei aqui:
por um lado chega a ser mais grotesco; por outro lado, pelo menos não chegou a se firmar tão entranhadamente entre nós.


refiro-me a o coração da matéria, um inacreditável "foot of the letter" cometido por oscar mendes no romance de graham greene, the heart of the matter. essa tradução foi editada e reeditada diversas vezes entre 1941 e 1968, pela brasileira, pela record e pela itatiaia.

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o recifense oscar mendes (1902-1982), promotor e juiz radicado em minas, homem dado às letras com bom trânsito editorial, sobretudo no rio de janeiro, tradutor de razoável renome, é um caso interessante: assinou grande número de traduções, às vezes a quatro mãos, muitíssimas delas de obras fundamentais, como o teatro completo de shakespeare (com cunha medeiros, a partir do espanhol), grande parte da obra completa de edgar allan poe (com milton amado), a obra completa de dostoiévski (com natália nunes, pelo espanhol), oscar wilde, emily brontë, virginia woolf e outros.

o nível das traduções em seu nome oscilava muito e, ao que consta, chegou a utilizar "bagrinhos", isto é, terceiros para fazer traduções a que depois apunha o próprio nome. isso ajudaria a explicar a grande variação na qualidade dos textos.

de qualquer forma, é sempre bom lembrar tais exemplos mais flagrantemente escabrosos: tradução é um ofício que, como atividade séria e sistemática, nem chega a cem anos de existência aqui no brasil. todos esses cometimentos são talvez até compreensíveis dentro do contexto editorial tão irregular e amador que prevalecia entre nós até os anos 1920, com um legado que se prolongou ainda por algumas décadas - razão tanto maior para admirarmos o trabalho de figuras como mário quintana, rachel de queiroz e tantos outros amorosos praticantes do ofício, que assim se mostram ainda mais fundamentais na história da tradução no país.

o parafuso jamesiano



Expressão idiomática é uma das ciladas constantes à espreita do tradutor. Quem brincava muito bem com isso era Millôr Fernandes, no viceversa, em The Cow Went to the Swamp.

A volta do parafuso para the turn of the screw não é tão radical quanto a vaca milloriana que foi para o brejo, mas é um pouco mais abstruso do que o "frio como um pepino" de Péricles Eugênio da Silva Ramos em Moby Dick.

Mas afinal o que está dizendo Henry James, que é o que importa? Além do título, ele usa a expressão apenas duas vezes ao longo da novela: logo no começo, e depois quase ao final.

No começo, alguém comenta que histórias de terror sempre têm um efeito mais intenso, geram maior tensão, quando envolvem alguma criança. E pergunta: e se fossem duas crianças?
"I quite agree—in regard to Griffin's ghost, or whatever it was—that its appearing first to the little boy, at so tender an age, adds a particular touch. But it's not the first occurrence of its charming kind that I know to have involved a child. If the child gives the effect another turn of the screw, what do you say to TWO children—?"
Brenno sabe o que é to turn the screw, claro - tanto é que desdobra a expressão para que se torne inteligível ao leitor: "... Se uma única criança aumenta a emoção da história e dá outra volta ao parafuso, que diriam os senhores de duas crianças?" Olívia Krähenbühl também sabe, claro, e tenta uma alternativa que lembra nosso "arrochar": "... Se uma única criança imprime à vossa emoção mais um passe de tarraxa... - que direis de duas?"

Na segunda ocorrência, no capítulo 22, o sentido da expressão é um pouco diferente:
I could only get on at all by taking "nature" into my confidence and my account, by treating my monstrous ordeal as a push in a direction unusual, of course, and unpleasant, but demanding, after all, for a fair front, only another turn of the screw of ordinary human virtue. 
Brenno dá: "mas que exigia apenas ... uma outra volta do parafuso da virtude humana comum". Olívia se sai com brio na literalidade que escolheu: "e que exigia ... apenas um passe de tarraxa suplementar à humana virtude de todos os dias". Ao fim e ao cabo, o parafuso de Olívia ficou restrito apenas ao título - a essas alturas, mais coerente seria O passe da tarraxa.

Só tenho essas duas traduções em casa, e não sei como os demais tradutores trataram esses dois trechos.* Teria curiosidade especial pelas possíveis sugestões de Marcelo Pen, tão atento ao equívoco foot of the letter da coisa.

*Na adaptação de Ana Carolina Rodriguez para a Rideel, disponível online, temos "seus corações se sentirão apertados como se recebessem não apenas uma, mas duas voltas de parafuso" (a segunda menção à "volta do parafuso", no final da novela, foi omitida).

imagem: turning a screw


atualização - gentilíssimo, fred spada fornece em comentário as soluções e esclarecimentos de marcelo pen:
Seguem as traduções do Marcelo Pen (em "Contos de Horror do século XIX", Cia das Letras, 2005) e seu comentário na apresentação do conto:
"Se uma criança concorre ao efeito com outro aperto do torniquete, o que diriam de duas...?" (p. 133)
"(...) mas que apenas exigia enfim, sejamos francos, que se apertasse o torniquete da virtude humana usual." (p 227)
E a apresentação:
"Observação: o título 'A volta do parafuso' é um caso clássico, talvez mundial, de tradução equivocada. A rigor, não diz nada em português. Tighten the screw, give the screw another turn e expressões correlatas significam, em geral, aumentar a pressão sobre alguém que já se encontra em posição aflitiva. A expressão lembra o thumbscrew, os 'anjinhos' - antigos anéis de tortura com que se apertavam os dedos das vítimas. Curiosamente, existe em português uma expressão equivalente (inclusive com a reminiscência à tortura) - apertar o torniquete -, que, conforme atesta Antenor Nascentes [Tesouro da fraseologia brasileira], quer dizer 'pôr em situação difícil quem já não está em boa situação'. Não propomos mudar o título do clássico de James, hoje consagrado, mas ajustamos a expressão vernácula nas ocorrências em que o autor usou, posto que com ênfases diversas, a angustiante locução inglesa." (p. 132)

mais uma gentilíssima contribuição na caixa de comentários, agora de elaphar, transcrevendo as soluções de marcos maffei em sua tradução que saiu pela hedra:
"Se uma criança dá ao efeito uma outra volta do parafuso, o que me diriam de duas crianças?" (p.33)
"mas exigindo, afinal, para um confronto justo, apenas uma outra volta do parafuso da virtude humana comum" (p.155)

outra gentilíssima contribuição na caixa de comentários, esta de ricardo duarte, com as soluções de paulo henriques britto e com link para um post do blog da companhia das letras, comentando tangencialmente o título:
Mais uma tradução - a do Paulo Henriques Britto pela Penguin Companhia:
"Se uma criança dá ao fenômeno outra volta do parafuso, o que me diriam de duas crianças...?" (p. 8)
"mas algo que exigia, afinal, para manter uma fachada serena, apenas outra volta do parafuso da virtude humana comum." (p. 145). 

aqui tem uma linha do tempo com as traduções de james no brasil.

12 de mar. de 2012

seis por três ou quatro

a leya, que em 2010 já andou dando umas sapecadas numa tradução portuguesa da guerra dos tronos e não agradou nem a gregos nem a troianos, parece que está tentando se esmerar.
a novidade agora é o circo do dr. lao, na tradução de donaldson garschagen que tinha saído pela francisco alves em 1979 e que a leya relançou no segundo semestre de 2011:


francisco alves, 1979                                                                       leya, 2011                                                                                              

não li, não vi, não conheço, mas sou fã do alfredo monte, que considero o melhor crítico literário brasileiro em atividade, o mais lido, o mais arguto, o mais antenado, o menos ingênuo, menos deslumbrado e menos embeiçado por falatórios teóricos tão vicejantes na contemporaneidade, um autêntico, leal, fiel, verdadeiro amante e conhecedor de literatura, alta, média e popular, capaz de juízos maravilhosamente independentes e bem fundamentados. se ele diz, tem meu maior crédito de confiança. e, neste caso, eis o que ele diz:
O romance que o originou, O circo do doutor Lao (The Circus of Dr. Lao, 1935; a tradução que utilizo, de Donaldson M. Garschagen, havia sido publicada em 1979 pela Francisco Alves com o título semelhante ao filme, e agora reaparece, bastante revisada, pela Leya, com o título original e adequado [3]), escrito por Charles G. Finney, é de uma atordoante originalidade.
aqui o artigo de alfredo monte na íntegra. bom, a notinha [3] é que interessa. tem lá:
          [3] Sou muito devedor à coleção a que pertencia essa tradução da Francisco Alves, “Mundo Fantástico”, que me deu acesso a vários títulos imperdíveis. E pelo meu ponto de vista a maioria das modificações na versão atual da tradução de Garschagen foi para pior.
         Alguns exemplos (os da edição de 1979 estão à esquerda; os da atual estão à direita da barra de separação):
“em tom bombástico” / “com floreio”
“aeroplano”/ “avião”
“nenhum homem mediano”/ “nenhum homem comum”
“para propiciar essa deidade, ainda mais antiga que Bel-Marduk”/ “para satisfazer essa deidade, ainda mais antiga que Bel-Marduk”
“o circo estaria franqueado ao público”/ “o circo estaria aberto ao público”
“a função noturna”/ “a apresentação noturna”
“quem foi o corretor” [do anúncio no jornal]/ “quem foi que vendeu o espaço para o anúncio”
“Disse que poderíamos escolher o tipo que quiséssemos”/ “Disse que poderíamos escolher a tipologia que quiséssemos”
“apanhei o dinheiro e a matéria”/ “apanhei o dinheiro e o anúncio”
“As definições deixaram-na mais esclarecida, porém mais triste”/ “As definições foram esclarecedoras, porém deixaram-na triste”
“uma visão fugaz através de um orifício”/ “uma visão fugaz através de um olho mágico”
“essa dureza”/ “essa penúria”
“sua carnadura”/ “sua carne”
“uma rainha da tela”/ “uma rainha do cinema”
“o emprego parcimonioso do grifo”/ “o emprego parcimonioso do itálico”
“atirada fora”/ “atirada ao chão”
“olhadela na parada”/ “olhadela no desfile”
“então deve ser um aleijão”/ “então deve ser um aleijão ou algo desse tipo”
“estou dizendo que tenho olhos”/ “estou dizendo que tenho bons olhos”
“saiu do restaurante para a rua”/ “saiu do restaurante em direção à rua principal”
“o que há com seus olhos?”/ “o que há de errado com seus olhos?”
“as pessoas estão começando a olhar para você, rindo”/ "as pessoas estão começando a olhar para você, com todo esse riso”
“subiram para o velho automóvel”/ “entraram no velho automóvel”
“nada, deixa”/ “nada, vamos”
“Pensa que não conheço um russo, merda?”/ “Pensa que eu não conheço um russo quando vejo um?”
“você me põe maluca”/ “você me deixa maluca”
“Você sabe que não é um jumento. Você sabe que os jumentos são peludos”/ “Você sabe que não é um jumento por que [sic] os jumentos são peludos.”
“Mas, que diabo, era um urso!”/ “Por Deus, era um urso!”
“Há, há! Índio nada, seu! Era um ursão.”/ “Há, há! Índio nada, era um ursão.”
 “Como será que ele arranjou aquele chifre, vocês imaginam? Nunca ouvi falar em cavalo com chifre.”/ “”Como será que ele arranjou aquele chifre: Nunca vi um cavalo assim.”
“Bem, então era um urso muito parecido com gente”/ “Bem, então era um urso muito parecido com um homem”
“um cavalo com um chifre na testa, mas ele tinha um rabo gozado, disse Edna”/ “um cavalo com chifre na testa e um rabo gozado—respondeu Edna”
“O dia estava quente. Etaoin pensou como era bom que estivesse quente” / “O dia estava quente e o Sr. Etaoin caminhou pelas ruas de Abalone. Pensou como era bom que estivesse quente.”
“atravessou para a sombra”/ “atravessou rumo à sombra”
“por causa do calor abrasante”/ “por causa da temperatura abrasante”
“bandeirolas”/ “bandoleiros”[ sic]
“suas orelhas eram afiladas”/ “suas orelhas eram afiadas”[ sic]
“apenas sabia que estava suando”/ “apenas sabia que estava transpirando”
“cilindros de rezar”/ “cilindros de oração”
“duros sapatos de pau”/ “duros sapatos de madeira”
“os homens sonham com o amor, a senhora sabe”/ “os homens sonhavam com o amor, a senhora sabe”
         Os “disse” dos diálogos viraram “replicou”, “respondeu”, “falou”.
naturalmente ganham a parada os bandoleiros em substituição às bandeirolas e as orelhas afiadas em substituição às orelhas afiladas, e sempre vai ter alguém desconversando e dizendo que foi uma mera, pequena, insignificante distração. mas além dos absurdos, distraídos ou não, existem coisas ridículas, e o que não é ridículo é simplesmente pífio. o revisor que fez o serviço deve ter alguma ótima explicação que nos esclareça por que, afinal, "temperatura abrasante" há de ser melhor do que "calor abrasante", e por que um urso que "parece um homem" há de ser melhor do que um urso que "parece gente". que a leya sapateie em cima da tradução de garschagen me parece um típico exemplo do descerebramento que anda acometendo muitas editoras por aí.

escrevi ao donaldson comentando essas ridicularias. começava que ele nem sabia que a leya tinha publicado sua tradução. aí, se foi a francisco alves que cedeu, qual era o contrato do tradutor com a editora, são outros quinhentos, e é um assunto entre as partes - mas, para a obra e o leitor, uma coisa dessas dá dó, ah, se dá.


13 de fev. de 2012

a lagarta muito grávida



Diz Darwin, a certa altura da Origin of Species (cap. VIII, sobre o instinto), que, se a gente pega uma lagarta que já fez seu casulo até, digamos, a sexta etapa e põe o bichinho num casulo feito até a terceira etapa, ele vai e retoma o trabalho desde a quarta etapa. Mas que, se você pega uma lagarta que ainda está construindo a terceira fase de seu casulinho e põe num envoltório que esteja construído até a sexta fase, ela se atrapalha toda, fica meio desorientada - much embarrassed, diz Darwin - e se põe a refazer o trabalho que já está pronto.
... Huber found it was with a caterpillar, which makes a very complicated hammock; for if he took a caterpillar which had completed its hammock up to, say, the sixth stage of construction, and put it into a hammock completed up only to the third stage, the caterpillar simply re-performed the fourth, fifth, and sixth stages of construction. If, however, a caterpillar were taken out of a hammock made up, for instance, to the third stage, and were put into one finished up to the sixth stage, so that much of its work was already done for it, far from deriving any benefit from this, it was much embarrassed, and, in order to complete its hammock, seemed forced to start from the third stage, where it had left off, and thus tried to complete the already finished work.
... Huber observou que assim ocorria numa lagarta que faz uma coberta, a modo de rede complicadíssima; pois diz que, quando pegava uma lagarta que tinha terminado sua coberta, suponhamos, até o sexto período da construção, e a punha numa coberta feita até o terceiro, a lagarta voltava simplesmente a repetir os períodos quarto, quinto e sexto; mas se pegava uma lagarta de uma coberta feita, por exemplo, até o período terceiro, e se punha numa feita até o sexto, de maneira que muito da obra estivesse já executado, longe de tirar disso algum benefício, via-se muito grávida e, para completar sua coberta, parecia obrigada a começar desde o período terceiro, onde tinha deixado seu trabalho, e deste modo tentava completar a obra já finda. (A origem das espécies, pág. 222)
A fonte da prenhez da lagarta só podia ser o espanhol (embarazada) - não foi difícil localizar: trata-se de uma tradução de 1921, feita pelo biólogo Antonio de Zulueta, disponível aqui:
Huber observó que así ocurría en una oruga que hace una cubierta, a modo de hamaca complicadísima; pues dice que, cuando cogía una oruga que había terminado su cubierta, supongamos, hasta el sexto período de la construcción, y la ponía en una cubierta hecha sólo hasta el tercero, la oruga volvía simplemente a repetir los períodos cuarto, quinto y sexto; pero si se cogía una oruga de una cubierta hecha, por ejemplo, hasta el período tercero, y se la ponía una hecha hasta el sexto, de modo que mucho de la obra estuviese ya ejecutado, lejos de sacar de esto algún beneficio, se veía muy embarazada, y, para completar su cubierta, parecía obligada a comenzar desde el período tercero, donde había dejado su trabajo, y de este modo intentaba completar la obra ya terminada.

E é essa "lagarta muito grávida" que a Editora Escala está se oferecendo para vender às 2.700 bibliotecas públicas inscritas no Cadastro Nacional do Livro de Baixo Preço?

Agradeço a Marcos Gomes por essa história do mais autêntico rir-para-não-chorar.

imagem: lagartas e casulos

31 de jan. de 2012

puerilidades

Outro tipo de intervenção que, embora não tão absurdo quanto o puro e simples alopramento que comentei aqui, é aquele que troca seis por meia dúzia - ou melhor, em minha opinião, por três ou quatro.

Ainda no livro de John Boyne, na página seguinte, o narrador comenta que, no século XIX, imperícias médicas eram usuais no interior da Rússia, que volta e meia as mães morriam no parto, que não era coisa incomum na época. Mas: "Hoje, seria algo inesperado e motivo de ação judicial" (Today, it would be unexpected and worthy of litigation). Acho que está bom, correto, passa.

Saiu: "Hoje, seria algo inesperado e processo na certa". Parece meio gíria, um coloquial meio datado, mas vá lá - embora, a rigor, worthy esteja longe de assegurar a certeza de qualquer coisa, "processo na certa" até pode passar mais ou menos a ideia da coisa. Só que eu jamais traduziria assim e jamais forçaria a barra seja no coloquialismo, seja na taxatividade da afirmação.

Em suma, não me reconheço nisso. Foi uma miudeza boba e pueril da revisão, que acabou destoando do tom geral do livro, e é mais um exemplo de minhas razões para ficar com o pé atrás com esse tipo de intervenção.*

*No caso deste livro, parece que depois da segunda ou terceira página felizmente a revisão se cansou e não mexeu em mais nada.

alopramentos



Já comentei aqui algumas gafes fragorosas que cometi e das quais só me dei conta depois de publicado o livro. Em Lendo Walden também comento algumas divertidas e que deixam a gente meio envergonhada.

Agora vou comentar algumas gafes fragorosas que a revisão cometeu, tendo me atropelado no processo. Uma das mais espantosas está em O palácio de inverno, de John Boyne. O livro começa descrevendo uma isbá miserável, perdida nas estepes russas. A família de camponeses semifeudais é pobre, pobre feito Jó. Como o narrador vai comentar à frente, a isbá tinha um aposento só, onde a mãe e as irmãs preparavam a comida num fogãozinho a lenha, e todos comiam e dormiam no mesmo local, nuns amontoados de palha no chão.

Logo no começo, o narrador fala do pai: "ele se engasgava, tossia e cuspia o catarro no fogo que ardia em nosso fogãozinho" (he choked and coughed and spat his phlegm into the fire burning in our small stove). Ok. A própria editora encarregada do livro fez suas marcações, me passou, beleza, tudo certo. Pego o exemplar impresso, está lá: "ele se engasgava, tossia e cuspia o catarro na pequena fornalha que ardia em nossa sala de estar". Aaaaahnnnn? Não acreditei quando vi isso. E fiquei ainda mais perplexa ao pensar que a pretensa revisão teria lido todo o livro, poucas páginas adiante estaria descrito o miserê do ambiente e o mínimo a fazer, depois dessa intervenção tão maluca, seria voltar atrás e cancelar aquela sala de estar com fornalha e tudo, naquela isbá pequeno-burguesa criada por uma fértil imaginação.

Avisei a editora, a qual também ficou perplexa, disse que só haviam feito as alterações autorizadas por mim, que não fazia ideia de onde tinha saído aquilo e que a editora assumiria toda a responsabilidade. Mas é por essas e outras que tenho lá minhas dúvidas quanto a esse tipo de revisão.

imagem: aqui

18 de dez. de 2011

resedás malditos

ingleses e americanos são (ou eram) bem mais respeitadores do que nós em relação ao ditame bíblico contra as blasfêmias. não deixavam de usá-las, mas davam uma aliviada morfológica: daí o darn para damn, por exemplo.

o inglês também faz muita contração que se incorpora mesmo à língua escrita, geralmente mantendo traços coloquiais ou dialetais.

outra coisa legal é a existência de sistemas de classificação universal, por exemplo o de lineu - claro que ninguém nasce sabendo, mas são coisas que a gente aprende na escola. e mais legal ainda, nas últimas décadas, é a gigantesca biblioteca universal ao alcance de dois dedos, com a internet e a busca pelo google.

assim, voltando ao tema dos estudos de tradução no nível da graduação e da pós-graduação, repito, creio que talvez até possam ser muito úteis e produtivos. mas que se defenda uma tese, e esta seja aprovada por toda uma banca de examinadores, com coisas do gênero:
"Para o substantivo 'crapemyrtle' que é utilizado para designar uma planta, e para o qual não foi encontrado termo correspondente, o recurso utilizado foi a tradução explicativa: 
...comtemplating the inscrutable desolation of cedar and brier and crapemyrtle...(p.140)
...contemplando o inescrutável abandono do cedro e urze e arbustos vindos do leste da Índia...
                 
[O]s acréscimos que ocorreram nos exemplos acima, não são  vazios  de significados, foram necessários devido à ausência de uma palavra na língua de chegada para efetuar a tradução."

mesmo sem levar em conta que há uma grande diferença entre "não foi encontrado termo correspondente" e "ausência de uma palavra ... para efetuar a tradução", esse é o tipo de coisa que me causa surpresa e me desperta um pouco de pena.


digo isso porque crapemyrtle é nosso lindo, vagabundo, corriqueiro resedá, e bastaria fazer uma busca cruzada pelo nome científico Lagerstroemia indica.




e fico compungida ao ler no mesmo estudo:
      "As palavras 'offen' e 'durn' também não foram traduzidas até o momento, pois não foram encontradas nos dicionários pesquisados.  A palavra 'offen' poderia ser retirada da narrativa sem prejudicar o sentido da frase, porém se assim procedêssemos estaríamos apagando a obra original. 
     Well if Flem knowed any way to make anything offen that old place... 
     Bem se Flem soubesse algum jeito de fazer alguma coisa por aquele lugar velho... 
     Já, a palavra 'durn' faz parte do contexto da frase em que está inserida e a opção pela não tradução da mesma empobreceria o contexto, pois manifesta um sentimento do personagem em relação ao outro. 
     Be durn if you don't look like …
     Be durn se você não parece..."
ora, durn é uma simples variante do darn, suavização acima mencionada do damn: raios me partam se você não parece; que raios, você está parecendo; seu danado, você isso ou aquilo, qualquer coisa assim, em função de interjeição.

e não creio que offen "poderia ser retirada da narrativa sem prejudicar o sentido da frase": é uma contração de of from, fazer alguma coisa "daquilo", alguma coisa "com aquilo".

naturalmente espera-se de um aspirante a um título de pós-graduação que dê o melhor de si, mas não há dúvida de que ao orientador cabe uma boa parcela de responsabilidade e à banca cabe mais do que o papel de simples homologação. se é muito bom termos mestrado e doutorado em estudos de tradução em nossas universidades, creio que seria bom se houvesse também uma compreensão mais clara e um exercício mais efetivo dos papéis que, em princípio, supõe-se que caibam às várias partes envolvidas.


honras e vazas

domesticação, estrangeirização, tantos nomes bonitos e pomposos para descrever ou prescrever o partido que se adota ou que se deveria adotar numa tradução.

acontece que muitas vezes as coisas são bem mais simples e chãs. não é preciso ter nenhuma grande erudição para saber, por exemplo, que o bridge é um jogo inglês de cartas - e um dos passatempos favoritos entre as classes altas britânicas no século XIX era, justamente, jogar bridge. teremos de invocar são jerônimo, berman, nord para nos iluminar sobre reis e damas, vazas e contratos? e também não é preciso profundo conhecimento de retórica, estilística, teoria literária para saber que o emprego de analogias e metáforas é a coisa mais usual do mundo, na mais simples conversa coloquial ou no mais grandioso épico universal.

então fico perplexa não só que oscar mendes (1961), ao traduzir lady windermere's fan, de oscar wilde, transponha essas linhas do diálogo:
LORD DARLINGTON.  It’s a curious thing, Duchess, about the game of marriage - a game, by the way, that is going out of fashion - the wives hold all the honours, and invariably lose the odd trick. 
DUCHESS OF BERWICK.  The odd trick?  Is that the husband, Lord Darlington? 
LORD DARLINGTON.  It would be rather a good name for the modern husband.
como:
DAR: É curioso, duquesa, o jogo em torno do casamento... Um jogo, seja dito em parêntesis, que está ficando fora de moda... As esposas gozam de todas as honras e invariavelmente perdem a jogada vantajosa.
DSA: A jogada vantajosa? É ao marido que se refere, Lorde Darlington?
DAR: Seria talvez um nome bom demais para o marido moderno.
e  doris goettems (2011) como:
DAR: É uma coisa curiosa, Duquesa, sobre o jogo do casamento – um jogo, aliás, que está saindo de moda – as esposas recebem todas as honras e sempre escapam da armadilha resultante.
DSA: Armadilha resultante? Está se referindo ao marido, Lorde Darlington?
DAR: Seria um nome bastante bom para o marido moderno.
mas também e principalmente que uma pesquisadora universitária, dedicando-se à análise comparada das duas traduções "em termos dos ... recursos linguísticos utilizados, como a manutenção da ironia, paradoxos e jogos de palavras na expressão da crítica social do autor", confunda léxico com semântica, erros palmares com escolhas deliberadas:
A escolha lexical foi bastante diversa entre os dois tradutores, optando Oscar Mendes por “perdem a jogada vantajosa” e Doris Goettems por “escapam da armadilha resultante”. Na primeira versão, o papel da mulher no casamento parece perder uma possibilidade de sobressair-se. Soa mais como uma crítica à inabilidade das mulheres de se apropriarem de uma vantagem que têm no jogo do amor, que é o marido. No segundo caso, a escolha tradutória aponta para um jogo armado por parte do marido, do qual escapam as mulheres. A armadilha, nesse caso, é o marido e as mulheres têm sucesso em sua fuga. 
e ao final conclua que "houve pouca discrepância no efeito atribuído ao texto original e suas traduções, pois a ironia, o jogo de palavras, e os paradoxos foram traduzidos adequadamente ao seu tempo e contexto social"!

considero importante que nossas pós-graduações implantem e desenvolvam programas de estudos de tradução. mas indispensável para o sucesso deles é o acompanhamento dos orientadores e, da parte dos estudantes, um constante aperfeiçoamento ao qual jamais poderiam faltar realismo e bom senso.


8 de dez. de 2011

experiência única e irrepetível

Wooden billboard with blank paper vector

o mundo da produção editorial é vasto e variado: a "cozinha" do livro, digamos assim, é cheia de episódios picarescos, dramáticos ou simplesmente rotineiros. de modo geral, tudo transcorre num clima afável, cortês e civilizado entre todas as partes. vez por outra, há alguma exceção, claro, mas, como o próprio nome diz, é exceção.

se a relação profissional do tradutor se dá com a editora e os vários participantes na cadeia editorial, a relação primeira, a relação essencial do tradutor é com a obra de origem. assim, quando um leitor abre um livro e vê o nome do tradutor, entende ser ele o responsável por ter colocado aquela obra estrangeira em português. alterações, correções, melhorias feitas na fase posterior à tradução, seja pelo editor, pelo preparador e/ou pelo revisor, fazem parte do processo de controle de qualidade do livro que chegará ao leitor. a responsabilidade pela obra traduzida continua a ser, para todos os efeitos, do autor da tradução.

insisto nisso porque responsabilidade não é coisa pouca. o sujeito responsável por uma obra, seja de arquitetura, de computação, de pintura ou de tradução,  responde civil e criminalmente por ela.

então, quando assino uma tradução, estou declarando na forma da lei que eu a fiz supostamente respeitando os direitos intrínsecos da obra originária: basicamente, seu direito de integridade. neste sentido, ao me responsabilizar por uma tradução, automaticamente estou declarando que não omiti, não cortei, não acrescentei, não editei, não mudei a meu bel-prazer o texto de origem.

claro que eu não seria processada se pulasse uma frase ou infringisse alguma dessas obrigações, mas não é apenas disso que se trata: trata-se ainda de uma questão de credibilidade. o texto tem sua materialidade própria sobre a qual opera também o crivo do destinatário final da obra, o leitor - imagine-se a surpresa se se constatassem coisas do gênero: "esta tradução cortou tal e tal parágrafo; mudou tal e tal conceito; adaptou tal e tal terminologia; acrescentou tal e tal passagem". ora, a qualidade literária de minhas traduções pode merecer críticas e reparos, mas quero crer que pelo menos respeitam a integridade do texto originário. e é isso o que entendo por credibilidade.

por isso hoje fiquei perplexa ao receber um contrato de cessão de direitos autorais sobre uma tradução que fiz para uma editora com a qual nunca tinha trabalhado antes (e cujo nome não vem aqui ao caso), e lá havia uma cláusula nos seguintes termos:

O Tradutor desde já autoriza a Editora a alterar o texto da Tradução, submetendo-a a adaptações, cortes, acréscimos, edições, a exclusivo critério da Editora ... sem que seja necessária a aprovação do Tradutor ao texto final a ser publicado ou de outras formas utilizado pela Editora

avisei à editora que não iria me responsabilizar por algo que não sei o que pode vir a se tornar, ainda mais com base em critérios inexplícitos e sem minha aprovação - pois, como disse, acho responsabilidade uma coisa muito séria e não assino promissória em branco. estou aguardando que eliminem esta cláusula, mas, de qualquer maneira, para mim esta foi e será uma experiência única e irrepetível.

atualização em 9/12, 11:15h: prevalece o bom senso - recebi a resposta da editora a meu e-mail:  "estamos de acordo com o seu comentário. Vou verificar aqui como podemos adaptar a cláusula da melhor forma possível"

imagem: aqui
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25 de set. de 2011

amartya sen

Recentemente saiu o belo livro de Amartya Sen, A ideia de justiça, pela Companhia das Letras.


Meu nome consta nos créditos de tradução junto com o de Ricardo Doninelli Mendes. Muito me honra, porém quero frisar que traduzi apenas os capítulos 17 e 18 (mas não o 16, como consta na página de dados catalográficos), as notas e os índices, não mais de cem páginas num volume com quase quinhentas. Praticamente todo o mérito cabe mesmo é a Ricardo D. Mendes.
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15 de jul. de 2011

da translação à tradução

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saiu o número 9 da revista scientia traductionis, da pós-gradução em estudos da tradução da ufsc. está disponível aqui, com muitos artigos valiosos.

um dos que mais me despertaram interesse foi o de antoine berman, em edição bilíngue, com tradução de marie-hélène torres e marlova assef: de la translation à la traduction (da translação à tradução). um dos aspectos históricos significativos levantados por berman diz respeito à prática renascentista da tradução como maneira de desenvolver o domínio da própria língua*: en fait, on apprend à écrire en traduisant. o artigo traz um belo painel da atividade tradutória entre o renascimento e o início da era moderna, uma exploração bastante convincente das conotações do radical ducere da palavra, as razões para a preservação do termo translation em inglês, a importância específica de algumas obras (como a poemata) e vários outros aspectos histórico-culturais em torno dessa atividade intelectual tão singular que é a tradução.

o artigo de berman está disponível para leitura e download aqui.

* embora a competente tradução de marie-hélène e marlova traga maîtrise de la langue, maîtrise du français como "matriz da língua", "matriz do francês", pessoalmente prefiro "domínio da língua", "domínio do francês".
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14 de jul. de 2011

falsos amigos II

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ricardo bada relata um caso muito divertido de um falso amigo que pegou nosso grande antônio callado:
Ahora bien, la historia más linda de las dos es una que me pasó personalmente cuando estaba chequeando las traducciones al alemán de García Márquez, por un común acuerdo del autor, la editorial y la traductora. Fue con El amor en los tiempos del cólera, y recuerdo que unos días antes de enfrentarme con los primeros capítulos de la traducción, tuvo lugar la Buchmesse, la feria del libro de Fráncfort, y allí, en el pabellón brasileño, descubrí un ejemplar de O Amor nos Tempos de Cólera, la novela de Gabo, traducida por otro gran novelista, Antonio Callado. Y me dije que sería bueno tenerlo a mano al estar chequeando la traducción de Dagmar Ploetz, buena amiga mía, para mirar las soluciones de Callado cuando ella y/o yo estuviésemos en dudas. ...
Dagmar Ploetz ... en este caso se limitó a subrayar una palabra y a poner varios signos de interrogación detrás:
Allí estaban las autoridades sin más protección contra el sol que los paraguas de diario, estaban las escuelas primarias agitando banderitas al compás de los himnos, las reinas de la belleza con flores achicharradas y coronas de cartón de oro, y ¿¿la papayera?? de la próspera población de Gayra, que era por aquellos tiempos la mejor de la costa Caribe.

¿Qué caramba era una «papayera»? Tampoco yo lo sabía entonces, pero releí el párrafo, hice mi composición de lugar (autoridades, escolares agitando banderitas al compás de los himnos, etc.) y me dije que debía de ser la banda de música. Seguro de que era eso, miré la traducción de Callado, donde decía:

Lá estavam as autoridades que só tinham como proteção contra o sol os guarda-chuvas do dia-a-dia, as escolas primárias agitando bandeirolas ao compasso dos hinos, as rainhas de beleza com flores esturricadas e coroas de papelão dourado, e gente da plantação de mamão da próspera localidade de Gayra, naqueles tempos a melhor da costa Caribe.

Me dije que fuera lo que fuese una papayera, con toda seguridad había algo que sí que no era: la gente de la plantación de papaya. Así es que llamé a Pacho Zumaqué, uno de los mejores compositores colombianos, y a la sazón agregado cultural en la embajada en Bonn, y el buen Pacho, que es de Montería, o sea, costeño, de la zona donde se desarrolla la novela de Gabo, a mi pregunta de qué era una papayera me contestó con una expresión que jamás olvidaré: «Un combo de chupacobres». O sea, lo que en alemán se traduciría como Blaskapelle, una banda de música compuesta de instrumentos de viento.
a íntegra do artigo está aqui.

imagem: google images
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