uma emocionante e incrível iniciativa da dirce waltrick do amarante, marlova assef e myllena lacerda: a revista qorpus, da pglit/ufsc, lançou um número especial dedicado a mim (a mim!!) septuagenando.
disponível aqui.
Tenho três recados para o colunista José Sarney que, sobre ser mau literato e pior político, acaba de provar, em sua coluna de hoje, 15/10, na Folha de S.Paulo, que é péssimo latinista.
Meu ponto de partida é o seguinte trechinho do texto de Sua Excelência:
“Petrônio diz que Deus assim quis porque fez o medo antes de revelar-se. ‘Primus in orbe deos fecit timor’ (Primeiro no mundo Deus criou o medo).”
Primeiro recado: o segmento de verso aqui citado abre, realmente, o quinto fragmento poético atribuído a Petrônio; é mais conhecido, contudo, através de Estácio, que o reproduziu literalmente no verso 661 do livro terceiro da Tebaida, um poema épico em doze cantos, composto aproximadamente entre 80 e 92 da era cristã.
Segundo recado: a tradução perpetrada pelo Senhor Sarney está errada. Na verdade, o que o poeta diz é exatamente o oposto do que se lê na estapafúrdia versão deste maranhense que mataria de vergonha o grande Odorico Mendes, tradutor de Virgílio e Homero. Em latim lê-se o seguinte: “Primeiro no mundo [Primus in orbe], o temor fez os deuses [timor fecit deos]”. O sujeito de fecit [= fez] é o nominativo singular Timor [= o temor]; o objeto direto de fecit é o acusativo plural deos [= os deuses]; Primus in orbe é um aposto circunstancial do sujeito. Trata-se de uma construção corrente no latim, que apresenta como atributo do sujeito [Primus, “Primeiro”] um termo da oração que, em nossa língua, mais depressa tomaria a forma de adjunto adverbial [“Pela primeira vez”]. Teríamos, portanto, a seguinte tradução em bom vernáculo: “O temor pela primeira vez no mundo fez os deuses.” Claro e hialino para qualquer primeiranista de latim (no tempo em que havia primeiranistas de latim). Mas não para o Senhor Sarney, que, do alto de sua acadêmica onisciência, sisudamente mete os pés pelas mãos e vende gato por lebre a seus leitores.
Terceiro recado: já que o latim do Senhor Sarney não dá para traduzir nem sequer o título da fábula Gragulus superbus et pavo, de Fedro, onde se conta a história do gralho que se adornou com penas de pavão e levou uma coça dos pavões de verdade, ouso sugerir a Sua Excelência que decore e repita muitas vezes em português certa máxima latina feita sob medida para sua insigne pessoa : “Não vá o remendão além da alparca”. (Para os que sabem latim, aqui está ela em sua forma original: Ne sutor ultra crepidam.)
Sergio Pachá.
O jogo do logocentrismo é, em última análise, o jogo da linguagem. Recusar-se a jogá-lo é condenar-se ao silêncio.imagem: david montgomery, deconstruction
J'appelle mauvaise traduction la traduction qui, généralement sous couvert de transmissibilité, opère une négation systématique de l'étrangeté de l'oeuvre étrangère.eu responderia:
J’appelle mauvaise théorie la théorie qui, généralement sous couvert d’universalité, opère une négation systematique de l’étrangeté de la pratique par rapport à elle.imagem: via lasarina