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11 de set. de 2016

as traduções do clube do livro


encontra-se um excelente material em catálogo de traduções publicadas pelo clube do livro, 1943-1989, de francisco costa, disponível aqui.

um bom trabalho faria quem procedesse à identificação dos verdadeiros tradutores de tantos e tantos títulos publicados pelo clube do livro, apresentados em "tradução especial de josé maria machado" - segundo o levantamento de francisco costa, nada menos do que 75!

aqui neste blog encontram-se alguns rastreamentos e dados sobre as traduções espoliadas nos marcadores "josé maria machado" e "clube do livro".


18 de out. de 2015

mulher de trinta anos, uma hipótese promissora

um dos casos mais interessantes e engraçados em nossa história tradutória é, provavelmente, o percurso centenário d'a mulher de trinta anos, de balzac.

aqui exponho o que por ora é apenas uma hipótese de trabalho, qual seja, a tradução de luiz cardoso, publicada em 1906 pela guimarães de lisboa, teria sido usada no brasil pelas seguintes casas editoriais:
1. h. garnier em sua edição de 1914; reedição em 1922 pela livraria garnier, anônima 
2. civilização brasileira em 1931; reedição em 1937 em sua collecção S.I.P., idem
3. irmãos pongetti em 1943, como "tradução revista por marques rebelo"
4. brand com licenciamento da pongetti em 1945, idem
5. clube do livro em 1947, anônima
6. novo mundo em c.1954, idem
7. edições de ouro desde os anos 1960, chegando à atual ediouro, agora atribuindo-a diretamente a marques rebelo
8. clube do livro em 1988, agora atribuindo-a a josé maria machado
9. nova cultural na coleção imortais da literatura em 1995, atribuindo-a a "enrico corvisieri"*
10. nova cultural na coleção obras-primas em 2003, atribuindo-a a "gisele donat soares"*
11. saraiva de  bolso em 2013, atribuindo-a diretamente a marques rebelo
* nomes fictícios






para as relações de proximidade entre garnier, clube do livro e nova cultural (em suas duas edições com atribuições distintas), já disponho de alguns elementos interessantes. encomendei hoje um exemplar da guimarães, um da civilização e um da pongetti.

tenho já uma sub-hipótese à primeira vista quase escalafobética, mas com alguma plausibilidade, sobre o tipo das possíveis relações entre a edição da guimarães e a da garnier e até sobre a identidade do responsável por tais relações. mas vou preferir reunir dados mais concretos antes de aprofundá-la.

apenas para encerrar, vale lembrar que a martin claret, numa de suas costumeiras imposturas, preferiu garfar a tradução d'a mulher de trinta anos feita por casimiro fernandes e wilson lousada (bem como as notas e trechos do prefácio de paulo rónai), atribuindo-a ao indefectível pietro nassetti - vide aqui.

17 de out. de 2015

xavier de maistre / marques rebelo, II

recentemente, chamou-me a atenção o comentário de um leitor sobre o livro de xavier de maistre, voyage autour de mon chambre, traduzido como viagem à roda do meu quarto, com tradução atribuída a marques rebelo, que lhe pareceu similar à tradução lusitana de josé fernandes costa. expus o caso aqui,

na ocasião, comentei que, apesar de várias contrafações cometidas por rebelo na coleção "as 100 obras-primas da literatura universal", que ele coordenava e dirigia para a editora irmãos pongetti nos anos 1940, "eu não tinha notícia de nenhuma tradução assinada diretamente por marques rebelo que, na verdade, consistisse em tradução alheia". 

fiquei de apurar melhor o caso. 

sim, o leitor tem razão: a tradução de viagem à roda do meu quarto, seguido de expedição notura à roda do meu quarto, de xavier de maistre, publicada pela pongetti em 1944 é, de fato, da lavra de fernandes costa, publicada em portugal em 1888 pela editora david corazzi, com apenas parcas e mínimas alterações.




todavia, a autoria da tradução não vem atribuída a marques rebelo. a edição não menciona o nome do tradutor, e informa somente que é uma "tradução revista por marques rebelo". poderíamos dizer que se trata provavelmente de uma contrafação, mas não de uma impostura.





ora, ocorre que em 1965 a tecnoprint, em sua coleção "clássicos de bolso" das edições de ouro, reeditou essa obra atribuindo a tradução diretamente a marques rebelo. muitas vezes a tecnoprint (e futura ediouro), ao reeditar obras dos catálogos de editoras extintas como a pongetti, preservava as informações da editora anterior, mas há também alguns casos em que essas suas reedições acabam substituindo a menção "tradução revista por fulano" por "tradução de fulano". esse volume das edições de ouro parece não ter conhecido grande sucesso, pois, até onde sei, não voltou a ser reeditado.

em 1989, certamente baseando-se na edição da tecnoprint, a estação liberdade voltou a republicar a tradução lusitana revista por marques rebelo diretamente atribuída a este último. a edição da estação liberdade pelo visto teve mais êxito do que a da tecnoprint, com nova edição em 2008.





resumindo: 
1. pelo que pude apurar depois de vários cotejos entre a edição da corazzi de 1888, a da pongetti de 1944, a do clube do livro de 1945 e a da estação liberdade de 1989, trata-se da mesma tradução lusitana oitocentista de fernandes costa, com, repito, paucíssimas alterações aqui e ali em suas edições brasileiras. 
2. a atribuição incorreta se iniciou em 1965, na tecnoprint, por alguma razão que desconheço, mais provavelmente por algum lapso de atenção do que por qualquer intuito criminoso. esse erro transitou para a estação liberdade, que, decerto tomando a atribuição na edição da tecnoprint por lícita e válida, reproduziu-a em suas edições posteriores.




a propósito ainda do destino da tradução de fernandes costa in terra brasilis: em 1946, dois anos depois do lançamento da pongetti, o clube do livro também lançou o mesmo texto. não traz qualquer menção ou crédito de tradução e segue fielmente a tradução portuguesa, apenas atualizando a ortografia.






agradeço a saulo von randow jr. pelo importante material de cotejo que gentilmente me enviou.

20 de set. de 2015

xavier de maistre / marques rebelo

um leitor deste blog fez um comentário interessante, que muito me surpreendeu, aqui.

e por que me surpreendeu? porque, de modo geral, todas as apropriações de traduções alheias feitas pela editora pongetti, apresentando-as sem o nome do tradutor, vinham com a menção de "revista por marques rebelo". para ver os vários casos relacionados que apontei neste blog, consulte os marcadores "marques rebelo" e "pongetti".

todavia, eu não tinha notícia de nenhuma tradução assinada diretamente por marques rebelo que, na verdade, consistisse em tradução alheia.

apresentar uma tradução anônima como "revista por marques rebelo" e apresentar uma tradução como sendo da lavra "de marques rebelo" são coisas muito diferentes: embora ambas ilícitas, a primeira prática recai sob a rubrica de contrafação, reprodução da obra traduzida sem autorização do tradutor e/ou da editora que detém os direitos sobre ela, bem como de lesão aos direitos morais de paternidade e integridade da obra; a segunda recai sob a rubrica de plágio mesmo, furto intelectual, bem mais grave do que a contrafação, pois a legítima autoria da tradução não se mantém meramente anônima, mas é apropriada por outrem.

todos os casos de irregularidades de tradução que constatei na pongetti fazem parte da coleção criada, organizada e dirigida pelo próprio marques rebelo, chamada "As 100 Obras-Primas da Literatura Universal" - várias, como apontei em outras postagens, constam como "revistas por marques rebelo"; outras foram traduzidas por diversas pessoas, por encomenda da pongetti e indicação do coordenador da coleção, e algumas delas constam como traduzidas por ele próprio.

esse caso da viagem à roda do meu quarto merece análise detalhada, pois, como disse, em se comprovando eventual apropriação da tradução de josé fernandes costa por marques rebelo, os problemas referentes a seus procedimentos como organizador, coordenador e tradutor adquiririam outra envergadura, e toda a sua obra tradutória, antes, durante e depois de seu período na pongetti, demandaria uma ampla pesquisa e a realização de numerosos cotejos, para apurar sua fidedignidade.

 josé fernandes costa, ed. david corazzi, 1888

marques rebelo, pongetti, 1944

reedição pela estação liberdade, 1989, 
sem dúvida alguma lesada em sua boa fé

vale ainda notar que o clube do livro publicou em 1946 uma tradução anônima, que apresenta todos os vezos lusitanos em sua linguagem, com pdf disponível aqui. fiz uma comparação entre vários trechos da tradução em nome de marques rebelo e da tradução anônima publicada pelo clube do livro, e posso asseverar que se trata da mesma tradução. não pude ainda empreender um cotejo direto pela dificuldade em encontrar, de momento, um exemplar da tradução de fernandes costa.


[atualização em 17/10/2015: aqui se encontram os resultados da análise feita.]

abaixo segue uma listagem (incompleta) em verbete da wikipédia sobre marques rebelo, sem especificar o que é o quê:*

Tradução / revisão
Ana Karênina, Leon Tolstói (1948)
As aventuras de um cão de circo, Jack London
A divina comédia, Dante Alighieri
A flecha de ouro, Joseph Conrad
A filha do capitão, A. S. Pushkin
A lenda de uma quinta senhorial, Selma Lagerlöf (1943)
A metamorfose, Franz Kafka
A morte de Ivan Ilitch; Senhores e Servos, Leon Tolstói
A mulher de trinta anos, Honoré de Balzac
A volta de Vivanti, Sydnei Horler (1942)
Cinco semanas num balão, Júlio Verne
Contos, Bret Harte
Crime e Castigo, F. P. Dostoiévski (1946)
Do amor, Stendhal (1936)
Eugênia Grandet, Honoré de Balzac (1944)
Hiba, Leon Tolstói
História cômica, Anatole France (1941)
Histórias, Bret Harte
Ida Elisabeth, Sigrid Undset (1944)
Ivanhoé, Walter Scott (1943)
Lazarillo de Tormes, anônimo do século XVI
Mediterrâneo: nascer do sol, Panait Strait (1944)
Nicolau II, o prisioneiro da púrpura, Mohammed Essad-Bey (1937)
Novas aventuras dos caçadores de tesouros, Edith Nesbit Bland
Os caçadores de tesouros, Edith Nesbit Bland
O estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde; Markheim, Robert Louis Stevenson
O grande ditador, H. G. Wells (1943)
Os inocentes, Henry James
O mágico de Oz, Frank Baum
O mundo em transe, Leopold Schwarzchild [1943?]
O processo, Franz Kafka
Os inocentes, Henry James
O lírio vermelho, Anatole France [1955?]
O passageiro clandestino, Edgar A. Poe
O triste noivado de Adam Bede, George Eliot (1946)
Os últimos dias da Pompéia, Bulwer-Lytton
Passageiro clandestino, ou Arthur Gordom Pym, Edgar Alan Poe
Regina, Lamartine (1944)
Rômolo", George Eliot (1946)
Salambô, Gustave Flaubert (1942)
Tiquinho, Alphonse Daudet
Um aconchego de solteirão, Honoré de Balzac
Uma vida, Guy de Maupassant
Viagem à roda do meu quarto, seguido de Expedição noturna à roda de meu quarto, Xavier de Maistre
Vidas ilustres, Hendrik Willem Van Loon
Werther, Goethe [1948?]

* essa listagem foi removida do verbete em 2013, com a seguinte justificativa: (Removida a seção "Tradução / revisão" [...] pela impossibilidade de comprovar a autoria do escritor relativamente a "traduções".) 

para o original de xavier de maistre, voyage autour de ma chambre, ver aqui.


20 de jul. de 2015

clube do livro

um levantamento fundamental, feito por francisco costa:
"traduções publicadas pelo clube do livro, 1943-1989", disponível aqui.




7 de nov. de 2014

josé maria machado "tradutor"

se, em 1945, a intenção da brasiliense ao usar o nome de jorge amado - com seu conhecimento e provavelmente até com seu vivo empenho militante - era atrair os leitores com seu já famoso timbre de esquerda; se, no decorrer dos anos 1970, a intenção da record ao usar o nome de nelson rodrigues - com seu conhecimento e sabidamente recebendo "um dinheirinho" por isso - era atrair os leitores com seu já famoso timbre de "pornografia", por outro lado o caso do clube do livro, usando desde 1946 até 1988 o nome de josé maria machado, era mais, digamos, básico: simples economia e conveniência.

josé maria machado, correligionário integralista de mário graciotti, o fundador e proprietário do clube do livro, consta como pretenso tradutor de:

1944 (1987), gustave flaubert, madame bovary
1945 (1988), edgar allan poe, histórias extraordinárias 
1946, oscar wilde, o retrato de dorian gray (“j. machado”)
1947 (1988), honoré de balzac, mulher de trinta anos
1948, emily brontë, o morro dos ventos uivantes
1949, oscar wilde, um marido ideal / salomé
1951, robert louis stevenson, o médico e o monstro
1952, octave feuillet, romance de um jovem pobre
1952, george sand, o charco do diabo
1952, oscar wilde, de profundis/ uma mulher sem importância/ a balada do cárcere de reading
1952, alexandre dumas, um ano em florença*
1953, walter scott, ivanhoé
1954, mark twain, as aventuras de tom sawyer 
1954, charles dickens, oliver twist
1955, cyrano de bergerac, viagem aos impérios do sol e da lua
1955, flavia steno, apaixonadamente
1956, alexandre dumas, o colar de veludo 
1956, charles dickens, uma aventura de natal (com tito marcondes)
1956, jacques futrelle, a máquina pensante
1956, jonathan swift, as viagens de gulliver
1956, théophile de gautier, a paixão de militona
1956, edgar allan poe, thingum bob
1957, george sand, a pequena fadette
1957, herman melville, moby dick, a fera do mar (2 vols.)
1957, arnold bennett, a sombra do trono
1958, charlotte brontë, o professor 
1958, victor hugo, os miseráveis (condensada, 516 pp.)
1960, o quarto vermelho*
1961, alexandre dumas, a loura huberta 
1961, françois rabelais, o gigante gargântua
1961, mark twain, as aventuras de huckleberry finn
1962, fenimore cooper, o último dos moicanos
1963, e. p. oppenheim, a torre 
1963, ivã turgueniev, o passaporte
1963, oscar wilde, o jovem rei
1964, kassima, a tártara*
1965, prosper mérimée, a serpente
1968, summer lincoln, a cicatriz
1969, charles dickens, tempos difíceis
1969, leon tolstoi, o diabo branco
1972, walter scott, a última torre
1973, tom kanadi, uma bruxa no mar da irlanda (com raul xavier)
1974, alexandre dumas, homem de guadalupe
1975, william sackleton, dois mistérios (com paulo arinos)
1976, honoré de balzac, uma paixão no deserto (com augusto dantas)
1977, anne brontë, a preceptora
1983, honoré de balzac, o renegado


obs.: os dois primeiros e o quarto títulos saíram como tradução anônima - apenas em data posterior, assinalada entre parênteses, surge o nome de josé maria machado. já o retrato de dorian gray foi a primeira obra trazendo a menção "traduzido especialmente para o clube do livro", que depois se tornaria habitual na casa.

atualização em 4/5/15: os títulos assinalados com asterisco foram indicados por francisco costa.


10 de abr. de 2013

khadji-murat, o diabo branco

O diabo branco, usado ora como título, ora como subtítulo, é um detalhe  que, por si só, já renderia uma crônica inteira sobre a fortuna de Khadji-Murat no Brasil. A obra de Tolstói fora adaptada para o cinema por Alexandre Volkoff numa produção alemã em 1930, que se celebrizou em sua versão francesa como Le Diable blanc. Ao que parece, o romance causou um pequeno furor editorial no Brasil naquela época: nada menos que cinco edições diferentes em dezoito anos!

Khadji-Murat sai inicialmente no Brasil em 1931, na "Bibliotheca de Auctores Russos" da editora Georges Selzoff & Cia., em tradução direta do russo. Embora não constem os créditos de tradução, foi um trabalho em parceria de Georges Selzoff e Allyrio Meira Wanderley.



Em 1934, temos O diabo branco [Khadji-Murat] pela Civilização Brasileira, em tradução do lusitano António Sérgio. O interessante é que António Sérgio fora o sócio de Álvaro Pinto na editora Annuario do Brasil, na época em que se refugiaram no Brasil - mais tarde, exilara-se em Paris, onde era encarregado da seção luso-brasileira da editora Quillet.* Essa sua tradução foi feita por encomenda direta do editor brasileiro, e apenas mais tarde, já nos anos 1950, é que sairá em Portugal, com o nome de O demónio branco. Suponho que tenha sido por interposição do francês.

* Para uma breve trajetória editorial de António Sérgio, veja aqui.



Numa edição sem data, que calculo por volta de 1945, a Edições e Publicações Brasil lança O diabo branco, numa cópia fiel e integral da tradução de Selzoff e Wanderley, da Bibliotheca de Auctores Russos (1931), sem menção à fonte. Na página de rosto, consta apenas "Obra Póstuma - Edição integral - Revista".

 

Em sua coleção "Grandes Romances Universais", a W. M. Jackson publica em 1947 seu sétimo volume, de nome Três novelas russas. Na página de rosto consta Khadji-Murat e na página de início da novela acrescenta-se entre parênteses (O diabo branco). A tradução é igualmente anônima e tomada à Bibliotheca, sem menção à editora original. No verso da página de rosto, temos: "Tradução revista e adaptada para esta Coleção pelo Departamento Editorial da W. M. Jackson, Inc.".



Em 1949, pela Vecchi, em sua coleção "Os maiores êxitos da tela", temos O diabo branco em tradução de Boris Schnaiderman, assinando como Boris Solomonov.



Vale notar que, quase quarenta anos depois, em 1986, pela Cultrix, sai uma tradução reformulada de Boris Schnaiderman, agora com o título de Khadji-Murát, e em 2010, novamente revista, pela Cosac Naify.




p.s.: na verdade, já em 1963 a cultrix publica essa tradução refundida de schnaiderman no volume novelas russas.










o clube do livro, em suas habituais garfadas, não deixou passar - mais uma das "traduções especiais" de josé maria machado:



9 de out. de 2012

mais uma sugestão de pesquisa (esta, ufa!)

o autor mais assíduo das chamadas "traduções especiais" do clube do livro parece ter sido josé maria machado. já comentei algumas vezes, por exemplo aqui e aqui, que essas traduções especiais muitas vezes não passam de meras adaptações de traduções portuguesas ao português brasileiro.

I.
apenas para registro, segue uma rápida lista de "traduções especiais" de josé maria machado. em vista das altas tiragens e frequentes reedições das obras publicadas pelo clube do livro em seus quarenta anos de existência (embora intermitente), talvez fosse interessante rastrear os verdadeiros tradutores dessas obras e compor um painel mais preciso de nossa produção e recepção literotradutória.

1944 (1987), gustave flaubert, madame bovary
1945 (1988), edgar allan poe, histórias extraordinárias 
1946, oscar wilde, o retrato de dorian gray (“j. machado”)
1947 (1988), honoré de balzac, mulher de trinta anos
1948, emily brontë, o morro dos ventos uivantes
1951, robert louis stevenson, o médico e o monstro
1953, walter scott, ivanhoé
1954, mark twain, as aventuras de tom sawyer 
1955, cyrano de bergerac, viagem aos impérios do sol e da lua
1955, flavia steno, apaixonadamente
1956, alexandre dumas, o colar de veludo 
1956, charles dickens, uma aventura de natal (com tito marcondes)
1956, jonathan swift, as viagens de gulliver
1956, théophile de gautier, a paixão de militona
1957, george sand, a pequena fadette*
1957, herman melville, moby dick
1958, charlotte brontë, o professor 
1958, victor hugo, os miseráveis (condensada, 516 pp.)
1960, georges kamké, na ponta de um arco
1961, alexandre dumas, a loura huberta 
1961, françois rabelais, o gigante gargântua
1961, mark twain, as aventuras de huckleberry finn
1962, fenimore cooper, o último dos moicanos
1963, ivã turgueniev, o passaporte
1963, oscar wilde, o jovem rei
1965, prosper mérimée, a serpente
1968, summer lincoln, a cicatriz
1969, charles dickens, tempos difíceis
1969, leon tolstoi, o diabo branco
1972, walter scott, a última torre
1974, alexandre dumas, homem de guadalupe
1975, william sackleton, dois mistérios (com paulo arinos)
1976, honoré de balzac, uma paixão no deserto (com augusto dantas)
1977, anne brontë, a preceptora
1983, honoré de balzac, o renegado

* agradeço a informação de elaphar. citem-se a propósito do clube do livro os estudos de john milton.

obs.: os dois primeiros e o quarto títulos saíram como tradução anônima - apenas em data posterior, assinalada entre parênteses, surge o nome de josé maria machado. já o retrato de dorian gray foi a primeira obra trazendo a menção "traduzido especialmente para o clube do livro", que depois se tornaria habitual. interessante notar que, nesta primeira aparição, consta apenas "j. machado".


II.
por outro lado, e mais na linha do pulp fiction, o clube do livro publicou alguns livretos (fletcher, oppenheim, futrelle e wallace) que já tinham saído na "coleção vampiro" da coluna sociedade editora, na tradução do próprio josé maria machado: 


Clique para ampliar a capa
1951 CSE, 1955 CdL

Clique para ampliar a capa
1951 CSE, 1956 CdL (a tôrre em 1963)

1952 CSE, 1956 CdL


1953 CSE, 1955 CdL


1953 CSE, 1957 CdL

outra tradução de josé maria machado na coleção vampiro, pela coluna, é atrás da máscara, de summer lincoln, de 1951, mas não encontrei imagem de capa e não tenho notícias de reedição pelo clube do livro.

não sei como é a história da coluna sociedade editora (que, aliás, introduziu a fotonovela no brasil, com a revista encanto, desde 1949). o que sei é que, a certa altura do ano de 1953, o clube do livro incorporou a coleção vampiro, o que explicaria tais reedições. mas tampouco sei como foi a sobrevida dessa coleção no CdL.

III.
um adendo final: mário graciotti, fundador e proprietário do clube do livro, foi um dos mais destacados membros da frente integralista brasileira, tendo sido seu primeiro secretário. segundo ele afirma em os deuses governam o mundo, josé maria machado era "português de nascimento, mas brasileiro de coração", seu companheiro de fundação da sep (sociedade de estudos políticos), capitaneada por plínio salgado, e correligionário da ação integralista brasileira. ver aqui. note-se também que josé maria machado foi autor de um livro chamado a marca de caim, publicado em 1948 pela coluna.

essa sugestão de pesquisa me parece mais ambiciosa do que as anteriores (veja aqui) e demandaria maior fôlego ou um trabalho cooperado. mas acho que valeria a pena, e muito.

8 de out. de 2012

que contraste!



inúmeras vezes frisei a importância de se pesquisarem amplamente as grandes contribuições da esquerda brasileira para a abertura do brasil ao mundo por intermédio da atividade de tradução.

inúmeras vezes também apontei as descabeladas fraudes de tradução perpetradas pelo clube do livro em seus quarenta anos de existência mais ou menos intermitente. consistiam basicamente na apropriação de traduções em geral portuguesas, que eram publicadas ou anonimamente ou, com maior frequência, como "feitas especialmente para o clube do livro por josé maria machado".

num expressivo contraste de valores, posições e ações - pense-se, por exemplo, na athena editora (aqui) -, tem-se que mário graciotti, concebedor, fundador e proprietário do clube do livro, era um destacado membro da frente integralista brasileira, tendo sido, aliás, seu primeiro secretário.

josé maria machado, o tal das "traduções especiais" do clube do livro, por sua vez, era correligionário de graciotti e foram ambos companheiros de fundação da SEP (sociedade de estudos políticos), capitaneada por plínio salgado, à qual se seguiu, poucos meses depois, a fundação da AIP (ação integralista brasileira). conta graciotti que machado - "português de nascimento, mas brasileiro de coração" - era um funcionário do clube português, cuja sede abrigara a assembleia de fundação da entidade. veja-se aqui o artigo de victor emanuel vilela barbuy, "setenta e seis anos da sep". machado escreveu uma obra chamada a marca de caim (cujo título, em tal contexto, dispensa maiores comentários), publicada em 1948 pela coluna sociedade editora.

imagem: capa da revista anauê, 1935, ano I, n. 2, aqui

10 de jan. de 2012

armadilhas editoriais


o leitor marcio deixou um comentário muito interessante aqui, do qual transcrevo uma parte:
Como a Cosac lançou recentemente uma coletânea de contos do Stevenson, resolvi checar o exemplar que tinha aqui em casa, de 1970, lançado pelo Clube do Livro e com a "tradução especial" de praxe, desta vez de Amaral Schmidt (você conhece?). A façanha, que eu saiba inédita, é que, dos seis contos da coletânea, quatro são do Stevenson, como seria de se esperar..., um é o "Mateo Falcone", do Mérimée (!), com o título "A traição", e um asterisco indicando que a tradução deste conto é do inescapável José Maria Machado, e, por fim, o último conto é "Moon-Face", do Jack London, traduzido como "O acidente". 

há registros da coletânea a armadilha pelo clube do livro com edições em 1944, 1961, 1962 e 1970. os quatro contos efetivamente de stevenson nesta coletânea são: "a armadilha", "pousada por uma noite", "o demônio da garrafa" e "ilha dos feiticeiros".

pessoalmente, não conheço nenhuma "tradução especial" do clube do livro que não seja uma designação para a apropriação de traduções anteriores, geralmente portuguesas, consistindo a "especialidade" do clube do livro em adaptar o português lusitano ao português do brasil.

assim, consultando um pouco a biblioteca universal do google, vejo que o conto "pousada por uma noite" - aliás, título com tradução não evidente nem automaticamente correspondente ao original "a lodging for the night" - fora publicado nos idos de 1942 na antologia contos ingleses - primores do conto universal, selecionada e organizada por jacob penteado (sem indicação do tradutor) e publicada pela edigraf.


então, além da inexplicável trapalhada de incluir um conto de mérimée e um conto de jack london numa coletânea de r. l. stevenson, tenho lá minhas dúvidas de que as traduções sequer fossem legítimas.

quanto ao "mateo falcone" de mérimée, traduzido como "a traição", há de se levar em conta algumas coisas: josé maria machado era o sujeito de plantão no clube do livro para os abrasileiramentos das "traduções especiais". creio que ele existiu, sim, aparecendo como tradutor "normal" de vários livrinhos de pulp fiction, como mostrei aqui - sempre do inglês. duvido que se abalançasse a qualquer tradução "não especial" do francês. a título de registro, há uma tradução portuguesa de "mateo falcone", feita por agostinho da silva e publicada em 1941 (ver aqui). talvez seja esta que josé maria machado tenha "traduzido especialmente" para a bizarríssima coletânea de r. l. stevenson pelo clube do livro.


ainda no plano das especulações, cabe mencionar que jacob penteado selecionou e organizou uma antologia de contos norte-americanos para a mesma coleção primores do conto universal da edigraf. a antologia contém um conto de jack london, que infelizmente não sei qual é. mas não me admiraria muito se fosse "o acidente" atribuído a stevenson na amalucada edição do clube do livro.



finalmente, quanto ao "tradutor especial" d' a armadilha do clube do livro, [waldyr do] amaral schmidt, não sei dizer muita coisa. aqui encontrei referência a mais uma tradução em seu nome: adelbert von chamisso, o homem que vendeu a sombra, clube do livro, 1964. vale notar que existe edição anterior da mesma noveleta de chamisso na antologia intitulada os mais belos contos românticos (vecchi, 1945, sem crédito de tradução). e aqui amaral schmidt consta como responsável pela "revisão especial" do livro okvala é o meu destino, de theodor von becker
(clube do livro, 1973).

encontra-se uma abordagem geral bastante instrutiva sobre o clube do livro em john milton, o clube do livro e a tradução (edusc, 2002). john milton utiliza o eufemismo "reciclagem" para designar essa prática de apropriação de traduções alheias e, sem entrar em grandes detalhamentos, comenta que o clube do livro "apoia-se muitas vezes em traduções já publicadas" (pp. 124-25).


6 de nov. de 2011

as traduções especiais do clube do livro II

o autor mais assíduo das chamadas "traduções especiais" do clube do livro parece ter sido josé maria machado. já comentei algumas vezes, por exemplo aqui e aqui, que essas traduções especiais muitas vezes não passam de meras adaptações de traduções portuguesas ao português brasileiro.

apenas para registro, segue uma rápida lista de "traduções especiais" de josé maria machado, que talvez fosse interessante analisar dentro de um painel geral da história da tradução no brasil.

1944 (1987), gustave flaubert, madame bovary
1945 (1988), edgar allan poe, histórias extraordinárias
1946, oscar wilde, o retrato de dorian gray (“j. machado”)
1947 (1988), honoré de balzac, mulher de trinta anos
1948, emily brontë, o morro dos ventos uivantes
1951, robert louis stevenson, o médico e o monstro
1952, octave feuillet, romance de um jovem pobre*
1952, alexandre dumas, um ano em florença***
1953, walter scott, ivanhoé
1954, mark twain, as aventuras de tom sawyer
1955, cyrano de bergerac, viagem aos impérios do sol e da lua
1955, flavia steno, apaixonadamente
1956, alexandre dumas, o colar de veludo
1956, charles dickens, uma aventura de natal (com tito marcondes)
1956, jacques futrelle, a máquina pensante
1956, jonathan swift, as viagens de gulliver
1956, théophile de gautier, a paixão de militona
1956, edgar allan poe, thingum bob
1957, george sand, a pequena fadette**
1957, herman melville, moby dick
1958, charlotte brontë, o professor
1958, victor hugo, os miseráveis (condensada, 516 pp.)
1960, o quarto vermelho***
1961, alexandre dumas, a loura huberta
1961, françois rabelais, o gigante gargântua
1961, mark twain, as aventuras de huckleberry finn
1962, fenimore cooper, o último dos moicanos
1963, e. p. oppenheim, a torre
1963, ivã turgueniev, o passaporte
1963, oscar wilde, o jovem rei
1964, kassima, a tártara***
1965, prosper mérimée, a serpente
1968, summer lincoln, a cicatriz
1969, charles dickens, tempos difíceis
1969, leon tolstoi, o diabo branco
1972, walter scott, a última torre
1974, alexandre dumas, homem de guadalupe
1976, honoré de balzac, uma paixão no deserto (com augusto dantas)
1977, anne brontë, a preceptora
1983, honoré de balzac, o renegado

* agradeço a informação de antônio brito, nos comentários.
** agradeço a informação de elaphar, nos comentários.
*** agradeço a francisco costa, por e-mail (4/5/15)

obs.: os dois primeiros e o quarto títulos saíram como tradução anônima - apenas em data posterior, assinalada entre parênteses, surge o nome de josé maria machado. já o retrato de dorian gray foi a primeira obra trazendo a menção "traduzido especialmente para o clube do livro", que depois se tornaria habitual. interessante notar que, nesta primeira aparição, consta apenas "j. machado".




por outro lado, e mais na linha do pulp fiction, os livrinhos de futrelle e oppenheimer que o clube do livro publicou em 1956 e em 1963 já tinham saído na "coleção vampiro" da editora coluna, respectivamente em 1951 e 1952, na tradução do próprio josé maria machado. isso parece indicar que ele existia, fosse este seu nome ou pseudônimo, não sendo apenas um fantasma criado pelo clube do livro para acobertar suas contrafações.*

Clique para ampliar a capa

.o
outras traduções de josé maria machado para a coleção vampiro, mas que não foram reeditadas pelo clube do livro, são o inimigo na sombra, de j. s. fletcher, que saiu em 1951, e o homem que comprou londres, de edgar wallace, de 1953:

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outra
sem imagem de capa, na mesma coleção há também, em tradução sua, atrás da máscara, de summer lincoln, 1951.

* atualização em 08/10/2012: sobre a identidade de josé maria machado, integralista de carteirinha, ver aqui.
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as traduções especiais do clube do livro

o nome de josé maria machado aparece frequentemente nas publicações do extinto clube do livro, como responsável pela tradução.

não sei se era pseudônimo, se foi simples invenção do clube do livro ou se josé maria machado de fato existiu e se prestou ao papel.* o que sei é que suas "traduções especiais" ou "feitas especialmente" para o clube do livro costumavam ser meras adaptações ao português brasileiro de traduções publicadas em portugal.

* atualização: existiu, sim. ver aqui.

parecia ser um colaborador constante - e, pensava eu, exclusivo - da casa. por isso achei interessantíssima a notícia publicada em leituras brontëanas, aqui, assinalando uma tradução de josé maria machado pela livraria martins, na coleção excelsior. reproduzo a foto:


a edição não traz data, mas a coleção excelsior existiu entre meados dos anos 40 e anos 50. por outro lado, encontrei uma edição d' o morro dos ventos uivantes pelo clube do livro, de 1948, com sua famigerada tradução especial:


minha briga contra plágios de tradução é mais voltada para décadas recentes e edições ainda em circulação, ludibriando os leitores contemporâneos. mas algumas vezes a gente acaba encontrando a fonte usada nos surripios atuais em traduções antigas, elas também, por sua vez, surripiadas de outras ainda mais antigas. nestes casos mais vetustos, nem sempre me disponho a deslindar as origens remotas da bandalheira, mas me parece aconselhável deixar pelo menos registrada a pulga atrás da orelha.  

neste caso d'o morro dos ventos uivantes, o meticuloso post das leituras brontëanas, que citei acima, traz dois trechos ilustrativos dessa tradução publicada na coleção excelsior, que parecem sugerir uma provável origem lusitana da tradução. reproduzo-os também: