agradeço a bento moura pela notícia sobre esse estudo.
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18 de jun. de 2017
estudo comparado
franciele graebin dedicou sua dissertação de mestrado (unb, 2016) a uma análise comparada das quatro traduções brasileiras de mrs. dalloway: a de mario quintana, a de tomaz tadeu, a de claudio marcondes e a minha. disponível aqui.
agradeço a bento moura pela notícia sobre esse estudo.
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12 de abr. de 2015
16 de mar. de 2014
marguerite duras no brasil
em lembrança ao centenário de nascimento de marguerite duras (1914-1996), segue o levantamento de sua produção traduzida e publicada no brasil, num total de 30 livros. entre parênteses consta inicialmente o ano de lançamento da obra na frança; a seguir, o ano de publicação da tradução no brasil.
Livros de Marguerite Duras no Brasil
A doença da morte (1982; 1984) – Taurus, trad. Jorge Bastos, ed. bilíngue
A dor (1985; 1986)– Nova Fronteira, trad. Vera Adami
A vida tranquila (1944; 1989) – Guanabara, trad. Fernando Py
A vida material (1987; 1989) - Globo, trad. Heloísa Jahn
Agatha (1981; 1988) – Record, trad. Sieni Maria Campos
Barragem contra o Pacífico (1950; 2003) – Arx, trad. Eloísa Araújo Ribeiro
Boas falas – conversas sem compromisso (com Xavière Gauthier) (1974; 1988) – Record, trad. Sieni Maria Campos
Cadernos da guerra e outros textos (póstumo, org. Sophie Bogaert e Olivier Corpert, 2006; 2009) – Estação Liberdade, trad. Mário Laranjeira
Chuva de verão (1990; 1990) – Nova Fronteira, trad. Vera Adami
Dez e meia da noite no verão (1960; 1986) – Guanabara, trad. Fernando Py
Dias inteiros nas árvores (1954; 1987) – Guanabara, trad. Tati de Moraes
Emily L. (1987; 1988) – Nova Fronteira, trad. Vera Adami
Escrever (1993; 1994) – Rocco, trad. Rubens Figueiredo
Moderato cantabile (1958; 1985) – José Olympio, trad. Vera Adami
O amante (1984; 1985) – Nova Fronteira, trad. Aulyde Soares Rodrigues
O amante (1984; 2007) – Cosac Naify, trad. Denise Bottmann
O amante da China do Norte (1991; 1992) – Nova Fronteira, trad. Denise Rangé Barreto
O caminhão (cinema, 1977; 1987) – Record, trad. José Sanz
O deslumbramento (1964; 1986) – Nova Fronteira, trad. Ana Maria Falcão
O homem sentado no corredor / A doença da morte (1980, 1982; 2007) – Cosac Naify, trad. Vadim Nikitin
O homem sentado no corredor / O homem atlântico (1980, 1982; 1987) – Record, trad. Sieni Maria Plastino
O marinheiro de Gibraltar (1952; 1987) – Guanabara, trad. Tizziana Giorgini
O verão de 80 (1980; 1986) - Record, trad. Sieni Maria Campos
O vice-cônsul (1965; 1982) – Francisco Alves, trad. Fernando Py
Olhos azuis, cabelos pretos (1986; 1987) – Nova Fronteira, trad. Vera Adami
Os olhos verdes: crônicas publicadas em Cahiers du cinema (1980; 1988) – Globo, trad. Heloisa Jahn
Os pequenos cavalos de Tarquínia (1953; 1986) – Guanabara, trad. Fernando Py
Outside: notas à margem (1981; 1983) – DIFEL, trad. Maria Filomena Duarte
Savannah Bay (teatro, 1982; 1988) – Record, trad. Sieni Maria Campos
Yann Andréa Steiner (1992; 1993) – Nova Fronteira, trad. Maria Ignez Duque Estrada
Nota-se a forte concentração de edições na década de 1980. Embora a primeira tradução publicada no Brasil pareça ter sido O vice-cônsul, em 1982, da lavra de Fernando Py, pela Francisco Alves, o grande boom se deu a partir de 1985, depois de ter Duras ganhado o prêmio Goncourt de 1984 com O amante. É surpreendente a quantidade de publicações entre 1985 e 1989. A partir daí, o ritmo arrefece um pouco, embora até 2009 continuem a surgir novos lançamentos.
As obras que tiveram mais de uma tradução foram A doença da morte (1987, 2007); O amante (1985, 2007); O homem sentado no corredor (1987, 2007).
Os tradutores que comparecem com mais frequência são Sieni Maria Campos (Plastino), com cinco títulos, Vera Adami, também com cinco títulos, e Fernando Py, com quatro títulos.
A lacuna mais sensível é o roteiro de Hiroshima Mon Amour, filme dirigido por Alain Resnais (1959).

A obra de Duras de longe mais conhecida no Brasil, com dezenas e dezenas de edições e reedições no Brasil desde 1985, é L'Amant. Encontra-se uma análise comparada das traduções dessa obra: Uma escrita contemporânea m tradução; Marguerite Duras. L'Amant, dissertação de Margaret Reis Sobral Seabra (USP, 2008), aqui.
Uma listagem completa das obras de Marguerite Duras se encontra aqui.
17 de fev. de 2014
alexandre dumas no brasil
uma tese de doutorado muito interessante, de rosângela maria oliveira guimarães: traduções/adaptações dos romances-folhetins de alexandre dumas no brasil (puc-sp, 2008), com destaque às publicações da saraiva e do clube do livro. disponível aqui. agradeço a sérgio tadeu santos pela preciosa referência.
22 de jul. de 2012
mais do mesmo
dissertações e teses na área de estudos de tradução parecem meio iguais em todo o mundo:

| URN | etd-0718112-010238 |
|---|---|
| Author | Ifen Liu |
| Department | Department of Applied Foreign Languages |
| Type of Document | Master's Thesis |
| Title | A Comparative Analysis of Two Chinese Translations of Henry David Thoreau's Walden |
| Date of Defense | 2012-07-06 |
| Keyword | |
| Abstract | This thesis is a comparative study of two Chinese translations of Henry David Thoreau¡¦s Walden, by Xu Chi and Meng Xiangsen in 1982. The researcher sets out to explore and analyze the methods in which the literary devices, philosophic texts, and back translations of Confucian quotations are dealt with in the chosen translations. The thesis also aims to compare the above with the concepts and guidelines proposed by Peter Newmark in A Textbook of Translation. This thesis consists of five chapters, each of which has its own focus and connects with the others to form a research project. Chapter One offers an overview of the whole research project. The researcher briefly describes the background, motivation, purpose, methodology, and significance of this study. Chapter Two introduces the life of Henry David Thoreau and the influence of Orientalism on his Transcendentalist beliefs as realized at Walden Pond. A summary of full-text Walden translations in traditional Chinese and a brief introduction of the translators of the chosen Chinese versions are provided in the end of this chapter. Chapter Three explicates the critical theories and approaches in translation studies, including Eugene Nida¡¦s ¡§equivalent effect¡¨, Katharina Reiss¡¦ text type, Peter Newmark¡¦s semantic and communicative translation approaches, and Itamar Even-Zohar¡¦s Polysystem theory. Chapter Four details the analysis and comparison between the ST (source text) and two translation versions (TT1, TT2). Chapter Five concludes with findings and solutions to some critical issues, problems, and discrepancies. |
5 de mai. de 2012
tradução ≠ edição
acho que seria importante que, não digo os leitores em geral, mas pelo menos estudiosos e pesquisadores, quando se debruçassem sobre alguma tradução, levassem em conta seu histórico. explico-me: uma tradução feita e publicada em, por exemplo, 1935, pode continuar bela e formosa em inúmeras reedições por muitas e muitas décadas (ou mesmo sumir e reaparecer depois de muitas décadas). se a edição consultada, estudada ou pesquisada é de, digamos, 1980, não significa que a tradução deixou de ser de 1935 e passou a ser de 1980. ou melhor, talvez seja o caso de falar não em tradução ≠ edição, e sim em primeira edição ≠ edição atualmente em circulação ou quejandos.
comento isso a propósito de uma esforçada e bem simpática dissertação de mestrado sobre o conto the chimes, de charles dickens, disponível aqui. a proposta do estudo é analisar três traduções do conto, sob o ângulo da sonoridade do texto, o qual de certa forma mimetiza em algumas passagens o som dos carrilhões, e das soluções adotadas para transpor esses elementos para a tradução. eis a explicação dos critérios adotados para a escolha das traduções:
Para este trabalho, foram escolhidos dois textos brasileiros, um de José Paulo Paes, Os Carrilhões (1993) pela Ediouro, e o outro de Elsie Lessa, A Voz dos Sinos (2004), pela editora Itatiaia. Os Sinos de Ano Novo aparece como a terceira tradução, porém de origem portuguesa, feita por Lucília Filipe, pela editora Europa-américa (2001). Embora com títulos distintos, trata-se da tradução da mesma obra literária.
Num primeiro momento, havia o desejo de utilizar nesta pesquisa a tradução de Elsie Lessa e de John Green por ambos terem sido publicados em 2004 e serem as traduções mais recentes. Porém, em decorrência dos escândalos envolvendo a editora Martin Claret por plágio tradutório e o fato de não se achar qualquer registro de John Green, optou-se por descartar esta tradução.destes parágrafos depreende-se que foram usados dois critérios principais para a escolha dos textos: a fidedignidade e a data, dando-se preferência a traduções recentes.
e aqui surge a questão: a pesquisadora pretende utilizar a tradução de élsie lessa porque foi publicada em 2004 e (há aí um elíptico "portanto") é a mais recente. ora, este é o x da questão (ou, como dizia oscar mendes ao traduzir the heart of the matter de graham greene, este é "o coração da matéria"): de fato, há uma edição da itatiaia em 2004, aliás reedição do volume que a mesma editora já havia publicado em 1976, e é apenas uma entre muitas. já a tradução, élsie lessa a fez muito antes disso ou, em outros termos, a primeira edição da tradução de élsie lessa saiu em 1941, pela livraria martins (e talvez até, na verdade, em 1935, pela cultura brasileira).
analogamente, cabe lembrar que a tradução de josé paulo paes d'os carrilhões saiu pela primeira vez em 1959, pela cultrix, e que a edição de 1993 pela ediouro é, da mesma forma que a voz dos sinos pela itatiaia, apenas uma entre muitas.
aliás, a ideia da pesquisadora de montar uma tabela cronológica com as várias edições do conto é excelente; quanto à pesquisa em si, alguns dados sobre a fortuna histórica de the chimes no brasil mereceriam algumas pequenas retificações, tanto mais porque, neste caso, o critério temporal parece ter sido decisivo para a escolha de seu objeto de estudo.*
* o curioso é que, na tabela da pesquisadora, consta a data de 1941 para a tradução de élsie lessa (p. 54), dado comentado também à p. 56, logo antes dos parágrafos acima reproduzidos.
este exemplo reforça minha convicção de que é absolutamente necessário, urgente e fundamental, para todas as áreas de letras, literatura, estudos de tradução e estudos culturais em geral, que se aprofundem sólidas pesquisas historiográficas sobre tradução no brasil, única maneira de se obterem dados confiáveis para os mais variados temas de estudo e pesquisa.
imagem: several editions
2 de ago. de 2011
alices
.
Meu amiguinho Higor, do The Bloggerwocky, supertrabalha com as Alices e suas traduções, e conversando no twitter lembrei esse artigo muito legal do Jorge Furtado, que saiu no ano passado aqui. Transcrevo com as devidas vênias, porque é muito bom e informativo.
Jorge Furtado compara traduções brasileiras de Alice no País das Maravilhas
Tradutor aponta soluções diferentes para enfrentar as muitas dificuldades do texto
JORGE FURTADO*
Em 2008, ao terminar a tradução de As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, com a curiosidade acumulada durante os três anos que durou o trabalho, passei a ler com atenção todas as traduções brasileiras que consegui encontrar. Cada uma delas tem soluções originais, criativas, mais ou menos felizes, para enfrentar as muitas dificuldades do texto. Aqui, um quadro comparativo de algumas delas:
I. Poema de abertura, três primeiros versos
Lewis Carroll
Alice's Adventures in Wonderland
"All in the golden afternoon full leisurely we glide;
For both our oars, with little skill,
By little arms are plied, while little hands make vain pretence our wanderings to guide."
Monteiro Lobato (tradução e adaptação, Companhia Editora Nacional, primeira edição de 1931)
Alice no País das Maravilhas: não consta
Primavera das Neves (tradução, Editorial Bruguera, sem data)
Alice no País das Maravilhas: "Na cálida tarde deste dia, o barco desliza lentamente, e é agradável deixar vaguear a mente pelo reino da fantasia"
Oliveira Ribeiro Netto (tradução, Editora do Brasil, sem data)
Alice no País das Maravilhas: não consta
Maria Thereza Cunha de Giacomo (adaptação, Melhoramentos, 1966)
Alice no País das Maravilhas: não consta
Sebastião Uchôa Leite (tradução e organização, Summus, 1980)
Aventuras de Alice no País das Maravilhas: "No verão, na tarde de ouro, deslizamos vagarosamente. Nossos remos são manejados sem perícia, no sol ardente: mãos gentis, que fingindo vão guiar nosso passeio errante."
Regina Stella Moreira Gomes (Companhia Editora Nacional, 1984)
Alice no País das Maravilhas: não consta
Ana Maria Machado (Ática, 1997)
Alice no País das Maravilhas: "Num dourado entardecer rio abaixo a deslizar, os dois remos nem pediam nossos braços a remar. Mas pequeninas fingiam nosso passeio guiar."
Isabel de Lorenzo e Nelson Ascher (poemas) Editora Objetiva, São Paulo, 1999
Alice no País das Maravilhas: "Nós deslizamos à vontade na tarde que é dourada, Bracinhos remam de maneira mais que desajeitada Enquanto em vão mãozinhas fingem guiar nossa jornada."
Rosaura Eichenberg (L&PM, 1998)
Alice no País das Maravilhas: "Juntos na tarde dourada suavemente a deslizar, nossos remos, sem destreza, dois bracinhos a manejar, pequeninas mãos que fingem nossa direção guiar."
Maria Luiz de X. Borges (Jorge Zahar, 2002)
Aventuras de Alice no país das maravilhas: "Juntos naquela tarde dourada deslizávamos em doce vagar, pois eram braços pequenos, ineptos, que iam os remos a manobrar, enquanto mãozinhas fingiam apenas o percurso do barco determinar."
Jorge Furtado e Liziane Kugland (Objetiva, 2008)
Aventuras de Alice no País das Maravilhas: "Num verão, com sol perfeito, devagar flutua um bote. A remadora sem jeito, espera que ninguém note que não navega direito, mal sabe o que é sul ou norte."
Nicolau Sevcenko (Cosac Naify, 2009)
Alice no País das Maravilhas: "Todos no bote ao sol da tarde, cheios de alegria flutuando, mãozinhas desajeitadas os remos e os lemes comandando, a tatear nas águas ondeadas, desliza o divertido bando."
Clélia Regina Ramos (Universo dos Livros, 2009)
Alice no País das Maravilhas: não consta
II. Capítulo 1
Lewis Carroll
Down the Rabbit's Hole
"There are no mice in the air, I'm afraid, but you might catch a bat, and that's very like a mouse, you know. But do cats eat bats, I wonder?' And here Alice began to get rather sleepy, and went on saying to herself, in a dreamy sort of way, 'Do cats eat bats? Do cats eat bats?' and sometimes, 'Do bats eat cats?' for, you see, as she couldn't answer either question, it didn't much matter which way she put it."
Monteiro Lobato
Viagem à toca dos coelhos
"Sim, porque estou caindo na ar e no ar não há ratos, há morcegos, que é rato de asa. Mas será que gato come morcego?" Alice começou a sentir uma certa sonolência e neste estado o pensamento fica preguiçoso. Começou a repetir muitas vezes a mesma frase: — Gato come morcego? Às vezes repetia errado: — Morcego come gato? E como não obtivesse resposta continuava a repetir sempre a mesma pergunta."
Primavera das Neves
Capítulo Primeiro
"— No ar não há ratos, mas talvez haja morcegos. E os ratos e os morcegos são muito parecidos, só que os morcegos tem uma espécie de asas. Mas os gatos comerão morcegos? Às vezes enganava-se e dizia: — Os morcegos comerão gatos? Mas, de uma forma ou de outra, ninguém lhe podia responder, e ela tampouco, porque não sabia."
Oliveira Ribeiro Netto
Na toca do coelho
"Não há ratos no ar, infelizmente, mas você poderia caçar um morcego, que é muito parecido com rato, sabe? Mas será que gato come morcego? Aí Alice começou a sentir muito sono, e continuou a falar consigo mesma, numa espécie de sonho: Gato come morcego? Gato come morcego? E às vezes Morcego come gato?, porque, como vocês sabem, ela não podia responder a questão e de nada adiantava a maneira como perguntava."
Maria Thereza Cunha de Giacomo
Na toca do Coelho
"— Não há camundongo no ar, com certeza, mas você poderia caçar um morcego, que é tão parecido com rato. Só que tem asas. Gostaria de saber se gato come morcego... E, Alice, que já estava sonolenta, começou a repetir baixinho, como em um sonho: — Gato come morcego? Gato come morcego? Gato come morcego? E às vezes se enganava: morcego come gato? Como ninguém ia responder às suas perguntas, nem valia a pena falar certo."
Sebastião Uchôa Leite
Entrando na toca do coelho
"Não tem nenhum rato no ar, infelizmente, mas bem que você podia pegar um morcego, é igualzinho a um rato, sabe? Mas, gatos comem morcegos?" E aqui Alice começou a ficar meio sonolenta, continuando a dizer para si mesma, numa espécie de devaneio: 'Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?' E, às vezes, 'Morcegos comem gatos?', pois, como não sabia responder à pergunta, pouco importava a maneira como fosse colocada."
Regina Stella Moreira Gomes
Capítulo 1º
"— Penso que não existem camundongos no ar, mas você poderia caçar um morcego! Afinal, eles são bem parecidos com camundongos. Mas, será que gatos comem morcegos?
Alice já estava ficando com sono, e começou a repetir:
— Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?
Às vezes também falava:
— Morcegos comem gatos?
Mas, como não havia ninguém para responder, não tinha muita importância o modo como fazia as perguntas."
Ana Maria Machado
Na toca do Coelho
"— Quer dizer, eu sei que no ar não tem nenhum ratinho nem camundongo, e que você adora esses bichos, tem um amor cego por eles. Mas talvez você conseguisse pegar um morcego, quem sabe? Mas será que ia gostar? Também ia sentir um amor cego pelo morcego?
E como a essa altura Alice já estava ficando com muito sono, começou a dizer para si mesma, como se estivesse sonhando:
— Ia sentir um amor cego por morcego... E será que o morcego também sente amor cego?
É que, como ela não conseguia mesmo responder a nenhuma dessas perguntas, tanto fazia de um jeito como de outro."
Isabel de Lorenzo e Nelson Ascher
Na toca do Coelho
"Não tem nenhum rato no ar, infelizmente, mas você bem que poderia pegar um morcego... é quase igual a um rato, você sabe. Será que gatos comem morcegos?" E aqui Alice começou a ficar com sono, e continuou dizendo consigo mesma, numa espécie de devaneio: 'Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?' E, às vezes, 'Morcegos comem gatos?', pois, como ela não conseguia responder à pergunta, não importava muito a ordem em que era colocada."
Rosaura Eichenberg
Descendo pela toca do Coelho
"Não há camundongos no ar, infelizmente, mas você poderia pegar um morcego, e morcegos são parecidos com camundongos, sabe. Mas será que gatos comem morcegos? E nesse momento Alice começou a ficar com sono, e continuou a falar consigo mesma, meio que sonhando: 'Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?', e às vezes 'Morcegos comem gatos?', pois, sabem, como ela não sabia a resposta para nenhuma das perguntas, tanto fazia a ordem que lhes dava."
Maria Luiza de X. Borges
Pela toca do Coelho
"Pena que mão haja nenhum camundongo no ar, mas você poderia apanhar um morcego, é muito parecido com camundongo. 'Mas será que gatos comem morcegos?' e às vezes 'Morcegos comem gatos?' pois, como não sabia responder à nenhuma das perguntas, o jeito como as fazia não tinha muita importância."
Jorge Furtado e Liziane Kugland
Na toca do Coelho
"— Não tem nenhum rato no ar, que pena, mas você poderia pegar um morcego, que é como um rato, você sabe. Mas será que gato come morcego? E então Alice começou a ficar com bastante sono e continuou falando sozinha, como num sonho: 'Morcego é como rato e gato come rato… Ga-to-co-me-ra-to… Gato come rato?', e às vezes, 'Ra-to-co-me-ga-to?'. Sabe como é, já que ela não conseguia responder nenhuma das perguntas, não importava muito a ordem das palavras."
Nicolau Sevcenko
Descendo à toca do Coelho
"— É pena que não haja ratos no ar, mas você poderia pegar um morcego, que é bem parecido com rato, sabe? Mas será que Diná, minha gata angorá, come morcego andirá?
Adormecendo aos poucos, ela continuou repetindo, como se a sonhar: 'Angorás comem andirás? Angorás comem andirás?' E, às vezes, 'Andirás comem angorás?', pois, já que ela não sabia responder a nenhuma dessas questões, tanto fazia a ordem."
Clélia Regina Ramos
Para baixo na toca do coelho
"'Não há ratos no ar, eu temo, mas você poderia pegar um morcego, eles são tão parecidos com os ratos, você sabe. Mas será que os gatos comem morcegos?' E aqui Alice começou a ficar sonolenta e continuou falando para si mesma, de uma maneira sonhadora. 'Gatos comem morcegos?', e às vezes 'Morcegos comem gatos?'. Como vocês podem ver, ela não conseguia responder a nenhuma das duas questões, portanto não importava muito de que maneira ela as colocava."
Traduções:
imagem: aqui
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Meu amiguinho Higor, do The Bloggerwocky, supertrabalha com as Alices e suas traduções, e conversando no twitter lembrei esse artigo muito legal do Jorge Furtado, que saiu no ano passado aqui. Transcrevo com as devidas vênias, porque é muito bom e informativo.
Jorge Furtado compara traduções brasileiras de Alice no País das Maravilhas
Tradutor aponta soluções diferentes para enfrentar as muitas dificuldades do texto
JORGE FURTADO*
Em 2008, ao terminar a tradução de As Aventuras de Alice no País das Maravilhas, com a curiosidade acumulada durante os três anos que durou o trabalho, passei a ler com atenção todas as traduções brasileiras que consegui encontrar. Cada uma delas tem soluções originais, criativas, mais ou menos felizes, para enfrentar as muitas dificuldades do texto. Aqui, um quadro comparativo de algumas delas:
I. Poema de abertura, três primeiros versos
Lewis Carroll
Alice's Adventures in Wonderland
"All in the golden afternoon full leisurely we glide;
For both our oars, with little skill,
By little arms are plied, while little hands make vain pretence our wanderings to guide."
Monteiro Lobato (tradução e adaptação, Companhia Editora Nacional, primeira edição de 1931)
Alice no País das Maravilhas: não consta
Primavera das Neves (tradução, Editorial Bruguera, sem data)
Alice no País das Maravilhas: "Na cálida tarde deste dia, o barco desliza lentamente, e é agradável deixar vaguear a mente pelo reino da fantasia"
Oliveira Ribeiro Netto (tradução, Editora do Brasil, sem data)
Alice no País das Maravilhas: não consta
Maria Thereza Cunha de Giacomo (adaptação, Melhoramentos, 1966)
Alice no País das Maravilhas: não consta
Sebastião Uchôa Leite (tradução e organização, Summus, 1980)
Aventuras de Alice no País das Maravilhas: "No verão, na tarde de ouro, deslizamos vagarosamente. Nossos remos são manejados sem perícia, no sol ardente: mãos gentis, que fingindo vão guiar nosso passeio errante."
Regina Stella Moreira Gomes (Companhia Editora Nacional, 1984)
Alice no País das Maravilhas: não consta
Ana Maria Machado (Ática, 1997)
Alice no País das Maravilhas: "Num dourado entardecer rio abaixo a deslizar, os dois remos nem pediam nossos braços a remar. Mas pequeninas fingiam nosso passeio guiar."
Isabel de Lorenzo e Nelson Ascher (poemas) Editora Objetiva, São Paulo, 1999
Alice no País das Maravilhas: "Nós deslizamos à vontade na tarde que é dourada, Bracinhos remam de maneira mais que desajeitada Enquanto em vão mãozinhas fingem guiar nossa jornada."
Rosaura Eichenberg (L&PM, 1998)
Alice no País das Maravilhas: "Juntos na tarde dourada suavemente a deslizar, nossos remos, sem destreza, dois bracinhos a manejar, pequeninas mãos que fingem nossa direção guiar."
Maria Luiz de X. Borges (Jorge Zahar, 2002)
Aventuras de Alice no país das maravilhas: "Juntos naquela tarde dourada deslizávamos em doce vagar, pois eram braços pequenos, ineptos, que iam os remos a manobrar, enquanto mãozinhas fingiam apenas o percurso do barco determinar."
Jorge Furtado e Liziane Kugland (Objetiva, 2008)
Aventuras de Alice no País das Maravilhas: "Num verão, com sol perfeito, devagar flutua um bote. A remadora sem jeito, espera que ninguém note que não navega direito, mal sabe o que é sul ou norte."
Nicolau Sevcenko (Cosac Naify, 2009)
Alice no País das Maravilhas: "Todos no bote ao sol da tarde, cheios de alegria flutuando, mãozinhas desajeitadas os remos e os lemes comandando, a tatear nas águas ondeadas, desliza o divertido bando."
Clélia Regina Ramos (Universo dos Livros, 2009)
Alice no País das Maravilhas: não consta
II. Capítulo 1
Lewis Carroll
Down the Rabbit's Hole
"There are no mice in the air, I'm afraid, but you might catch a bat, and that's very like a mouse, you know. But do cats eat bats, I wonder?' And here Alice began to get rather sleepy, and went on saying to herself, in a dreamy sort of way, 'Do cats eat bats? Do cats eat bats?' and sometimes, 'Do bats eat cats?' for, you see, as she couldn't answer either question, it didn't much matter which way she put it."
Monteiro Lobato
Viagem à toca dos coelhos
"Sim, porque estou caindo na ar e no ar não há ratos, há morcegos, que é rato de asa. Mas será que gato come morcego?" Alice começou a sentir uma certa sonolência e neste estado o pensamento fica preguiçoso. Começou a repetir muitas vezes a mesma frase: — Gato come morcego? Às vezes repetia errado: — Morcego come gato? E como não obtivesse resposta continuava a repetir sempre a mesma pergunta."
Primavera das Neves
Capítulo Primeiro
"— No ar não há ratos, mas talvez haja morcegos. E os ratos e os morcegos são muito parecidos, só que os morcegos tem uma espécie de asas. Mas os gatos comerão morcegos? Às vezes enganava-se e dizia: — Os morcegos comerão gatos? Mas, de uma forma ou de outra, ninguém lhe podia responder, e ela tampouco, porque não sabia."
Oliveira Ribeiro Netto
Na toca do coelho
"Não há ratos no ar, infelizmente, mas você poderia caçar um morcego, que é muito parecido com rato, sabe? Mas será que gato come morcego? Aí Alice começou a sentir muito sono, e continuou a falar consigo mesma, numa espécie de sonho: Gato come morcego? Gato come morcego? E às vezes Morcego come gato?, porque, como vocês sabem, ela não podia responder a questão e de nada adiantava a maneira como perguntava."
Maria Thereza Cunha de Giacomo
Na toca do Coelho
"— Não há camundongo no ar, com certeza, mas você poderia caçar um morcego, que é tão parecido com rato. Só que tem asas. Gostaria de saber se gato come morcego... E, Alice, que já estava sonolenta, começou a repetir baixinho, como em um sonho: — Gato come morcego? Gato come morcego? Gato come morcego? E às vezes se enganava: morcego come gato? Como ninguém ia responder às suas perguntas, nem valia a pena falar certo."
Sebastião Uchôa Leite
Entrando na toca do coelho
"Não tem nenhum rato no ar, infelizmente, mas bem que você podia pegar um morcego, é igualzinho a um rato, sabe? Mas, gatos comem morcegos?" E aqui Alice começou a ficar meio sonolenta, continuando a dizer para si mesma, numa espécie de devaneio: 'Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?' E, às vezes, 'Morcegos comem gatos?', pois, como não sabia responder à pergunta, pouco importava a maneira como fosse colocada."
Regina Stella Moreira Gomes
Capítulo 1º
"— Penso que não existem camundongos no ar, mas você poderia caçar um morcego! Afinal, eles são bem parecidos com camundongos. Mas, será que gatos comem morcegos?
Alice já estava ficando com sono, e começou a repetir:
— Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?
Às vezes também falava:
— Morcegos comem gatos?
Mas, como não havia ninguém para responder, não tinha muita importância o modo como fazia as perguntas."
Ana Maria Machado
Na toca do Coelho
"— Quer dizer, eu sei que no ar não tem nenhum ratinho nem camundongo, e que você adora esses bichos, tem um amor cego por eles. Mas talvez você conseguisse pegar um morcego, quem sabe? Mas será que ia gostar? Também ia sentir um amor cego pelo morcego?
E como a essa altura Alice já estava ficando com muito sono, começou a dizer para si mesma, como se estivesse sonhando:
— Ia sentir um amor cego por morcego... E será que o morcego também sente amor cego?
É que, como ela não conseguia mesmo responder a nenhuma dessas perguntas, tanto fazia de um jeito como de outro."
Isabel de Lorenzo e Nelson Ascher
Na toca do Coelho
"Não tem nenhum rato no ar, infelizmente, mas você bem que poderia pegar um morcego... é quase igual a um rato, você sabe. Será que gatos comem morcegos?" E aqui Alice começou a ficar com sono, e continuou dizendo consigo mesma, numa espécie de devaneio: 'Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?' E, às vezes, 'Morcegos comem gatos?', pois, como ela não conseguia responder à pergunta, não importava muito a ordem em que era colocada."
Rosaura Eichenberg
Descendo pela toca do Coelho
"Não há camundongos no ar, infelizmente, mas você poderia pegar um morcego, e morcegos são parecidos com camundongos, sabe. Mas será que gatos comem morcegos? E nesse momento Alice começou a ficar com sono, e continuou a falar consigo mesma, meio que sonhando: 'Gatos comem morcegos? Gatos comem morcegos?', e às vezes 'Morcegos comem gatos?', pois, sabem, como ela não sabia a resposta para nenhuma das perguntas, tanto fazia a ordem que lhes dava."
Maria Luiza de X. Borges
Pela toca do Coelho
"Pena que mão haja nenhum camundongo no ar, mas você poderia apanhar um morcego, é muito parecido com camundongo. 'Mas será que gatos comem morcegos?' e às vezes 'Morcegos comem gatos?' pois, como não sabia responder à nenhuma das perguntas, o jeito como as fazia não tinha muita importância."
Jorge Furtado e Liziane Kugland
Na toca do Coelho
"— Não tem nenhum rato no ar, que pena, mas você poderia pegar um morcego, que é como um rato, você sabe. Mas será que gato come morcego? E então Alice começou a ficar com bastante sono e continuou falando sozinha, como num sonho: 'Morcego é como rato e gato come rato… Ga-to-co-me-ra-to… Gato come rato?', e às vezes, 'Ra-to-co-me-ga-to?'. Sabe como é, já que ela não conseguia responder nenhuma das perguntas, não importava muito a ordem das palavras."
Nicolau Sevcenko
Descendo à toca do Coelho
"— É pena que não haja ratos no ar, mas você poderia pegar um morcego, que é bem parecido com rato, sabe? Mas será que Diná, minha gata angorá, come morcego andirá?
Adormecendo aos poucos, ela continuou repetindo, como se a sonhar: 'Angorás comem andirás? Angorás comem andirás?' E, às vezes, 'Andirás comem angorás?', pois, já que ela não sabia responder a nenhuma dessas questões, tanto fazia a ordem."
Clélia Regina Ramos
Para baixo na toca do coelho
"'Não há ratos no ar, eu temo, mas você poderia pegar um morcego, eles são tão parecidos com os ratos, você sabe. Mas será que os gatos comem morcegos?' E aqui Alice começou a ficar sonolenta e continuou falando para si mesma, de uma maneira sonhadora. 'Gatos comem morcegos?', e às vezes 'Morcegos comem gatos?'. Como vocês podem ver, ela não conseguia responder a nenhuma das duas questões, portanto não importava muito de que maneira ela as colocava."
Traduções:
- Alice no País das Maravilhas - Tradução de Nicolau Sevcenko (Cosac Naify, 2009)
- Alice no País das Maravilhas - Tradução de Clélia Regina Ramos (Universo dos Livros, 2009)
- Aventuras de Alice no País das Maravilhas - Tradução de Liziane Kugland e Jorge Furtado (Objetiva, 2008)
- Alice: Edição Comentada - Tradução de Maria Luiza de X. Borges (Jorge Zahar, 2002)
- Alice no País das Maravilhas - Tradução de Isabel de Lorenzo. Tradução dos poemas: Nelson Ascher (Sol, 2000)
- Alice no País das Maravilhas - Tradução de Rosaura Eichenberg (L&PM, 1998)
- Alice no País das Maravilhas - Tradução de Ana Maria Machado (Ática, 1997)
- Alice no País das Maravilhas - Tradução de Barbara Theoto Lambert (Edições Loyola, 1995)
- Alice no País das Maravilhas - Tradução de Regina Stella Moreira Gomes (Companhia Editora Nacional, 1984)
- Aventuras de Alice no País das Maravilhas - Tradução de Sebastião Uchoa Leite. Tradução dos poemas: Augusto de Campos (Summus, 1977)
- Aventuras de Alice no País das Maravilhas - Tradução de José Vaz Pereira e Manuel João Gomes (Editora Brasília, 1976)
- Alice no País das Maravilhas - Adaptação de Maria Thereza Cunha de Giacomo (Melhoramentos, 1966)
- Alice no País das Maravilhas - Tradução de Paulo Nasser (Vecchi, 1964)
- Alice na Terra das Maravilhas - Tradução de Pepita de Leão (Livraria do Globo, 1947) [1a. ed.: 1934]
- Aventuras de Alice no País das Maravilhas - Tradução e adaptação de Monteiro Lobato (Companhia Editora Nacional, 1944) [1a. ed.: 1931]
- Alice no País das Maravilhas - Tradução e adaptação de Oliveira Ribeiro Netto (Editora do Brasil, s/d)
- Alice no País das Maravilhas - Tradução de Lúcia Benedetti (Editora Tecnoprint Ediouro)
- Alice no País das Maravilhas (e Alice no País do Espelho) - Tradução de Primavera das Neves (Bruguera, sem data)
imagem: aqui
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14 de mai. de 2011
os sons do tempo
I.
thoreau, numa entrada em seu diário em agosto de 1838, tinha escrito uma nota chamada the time of universe. ali dizia ele:
já a analogia literária ou de fundo romântico-transcendental de thoreau entre o cricri do grilo, o tique do caruncho e a pulsação (isto é, o bater do coração que se sente no pulso) era, ao que consta, inteiramente original.
assim, aguçada minha curiosidade pelo breve artigo de e. arthur robinson a este respeito,* pareceu-me extremamente sugestivo e até esclarecedor reler em the tell-tale heart (1843), de edgar allan poe, a passagem:
é tudo muito interessante: oito longas noites de silenciosa e sinistra vigília, à espera da ocasião propícia para liquidar a vítima. o assassino no escuro, sozinho, o velho dormindo, imagina-se o vazio sonoro em que qualquer mínimo ruído repercutiria muito. digno de atenção o verbo hearkening: não apenas ouvindo casualmente, mas prestando muita atenção. basta pensar: oito longas noites de profundo silêncio, ouvindo com atenção obsessiva os prenúncios de morte, os deathwatches in the wall! a psique como que esvaziada após se dissolver a tremenda tensão acumulada até o momento do assassinato; os carunchos que, imagina-se, continuam com seu tiquetaque na madeira, mesmo tendo o assassino se esquecido da existência deles; a sensação de um terrível aumento do espaço interno de sua cabeça; a pulsação rítmica se avolumando na tremenda caixa de ressonância em que se transformou a mente do protagonista, finda sua vigília de morte; quase como consequência de férrea lógica alucinatória surge a projeção final do som do caruncho fatídico para a pulsação do coração do morto.
e ainda mais interessante constatar esse vínculo entre uma referência muito concreta - o som no interior da parede - e o enlouquecimento progressivo do protagonista. isso, a meu ver, enriquece, dá uma densidade bem maior ao processo psicológico do personagem do que se se alimentasse apenas de sua ansiedade mental, desligada de qualquer elemento exterior tangível.
depois de reler o conto à luz da conexão entre thoreau, com sua analogia metafísica entre o tique do caruncho e o bater do coração, e poe, com sua transposição alucinatória do tique dos carunchos na parede para o bater do coração do morto, sinto-me razoavelmente persuadida de que o elemento central do conto the tell-tale heart é mesmo o deathwatch, que dá a chave para entendermos o desenvolvimento do processo mental do protagonista. se o entrelaçamento dos sentidos na mesma expressão: o bichinho em si, o som que prenuncia a morte, a espera marcada pelo tiquetaque desse relógio-da-morte, a vigília ao lado do moribundo, a vigília para infligir a morte, já leva a um grau não negligenciável de espessura literária, ao acrescentarmos a ele a ligação tácita - mas tão convincente, praticamente inegável depois de a conhecermos! - com o pulse-beat, a batida do coração de thoreau, a interligação dos elementos da narrativa lhe confere qualidade adicional.
ainda a esta luz, outros detalhes adquirem interesse renovado: identifica-se o som que o velho ouve após despertar; sua esperança de que o som pressago seja apenas um cricrilar (se lembrarmos que, tradicionalmente, o grilo é sinal de boa sorte, simétrico inverso dos maus presságios do deathwatch; aliás, também mencionado por thoreau em sua tríade cósmica do tempo universal); as outras menções a relógios - tudo parece adquirir mais consistência.
II
assim, foi decepcionante constatar que as traduções brasileiras mais conhecidas de the tell-tale heart simplesmente desconsideram ou francamente erram ao traduzir o trecho que descreve o protagonista hearkening to the deathwatches in the wall. temos:
é uma pena que, já praticamente perdida a densidade semântica de deathwatch nas transposições apresentadas, perca-se também a possibilidade de acompanhar na narrativa o funcionamento desse sutil mecanismo de projeção e transposição entre os sons de máxima carga simbólica: o som da morte e o som da vida.
* trata-se de seu artigo "Thoreau and the Deathwatch in Poe’s 'The Tell-Tale Heart'”, disponível aqui.
** atualização em 27/7/11: margarida vale de gato, da universidade de lisboa, gentilmente avisa que não se trata do poeta caboverdiano januário leite. seu xará, o tradutor homônimo aqui citado, era lusitano, integrante do grupo "renascença portuguesa" e colaborador do órgão "a águia", ao lado de álvaro pinto. o fato de ser português é também o que explica sua pertinente opção por "ralos".
imagem: deathwatch, google.
thoreau, numa entrada em seu diário em agosto de 1838, tinha escrito uma nota chamada the time of universe. ali dizia ele:
THE TIME OF THE UNIVERSEem the natural history of massachusetts, longo artigo que saiu anônimo em the dial em 1842, thoreau utilizou sua nota acima, enxugando-a para:
Aug. 10. Nor can all the vanities that so vex the world alter one whit the measure that night has chosen, but ever it must be short particular metre. The human soul is a silent harp in God's quire, whose strings need only to be swept by the divine breath to chime in with the harmonies of creation. Every pulse-beat is in exact time with the cricket's chant, and the tickings of the deathwatch in the wall. Alternate with these if you can.
Nor can all the vanities that vex the world alter one whit the measure that night has chosen. Every pulse-beat is in exact time with the cricket's chant, and the tickings of the deathwatch in the wall. Alternate with these if you can.embora o termo se aplicasse outrora a vários coleópteros, hoje o deathwatch designa mais particularmente o xestobium rufovillosum, um pequeno coleóptero da família dos carunchos, apreciador especialmente de madeira de carvalho, já meio umedecida ou embolorada, seja na mata ou em em casas velhas. emite um som regular, que faz lembrar o tiquetaque de um relógio, e, geralmente estando dentro da madeira, fica oculto ao olho humano. por superstição popular, ficou associado a um presságio sinistro, prenunciando a morte - e daí o nome deathwatch, "relógio da morte" (aliás, em francês o bichinho, la grosse vrillette, também tem o nome de horloge de la mort.) paralelamente, vale lembrar que deathwatch significa também a vigília de um moribundo ou ainda o velório de um morto.
já a analogia literária ou de fundo romântico-transcendental de thoreau entre o cricri do grilo, o tique do caruncho e a pulsação (isto é, o bater do coração que se sente no pulso) era, ao que consta, inteiramente original.
assim, aguçada minha curiosidade pelo breve artigo de e. arthur robinson a este respeito,* pareceu-me extremamente sugestivo e até esclarecedor reler em the tell-tale heart (1843), de edgar allan poe, a passagem:
He was still sitting up in the bed, listening; just as I have done night after night hearkening to the deathwatches in the wall.como se sabe, "o coração revelador" (ou denunciador, ou delator, variam as traduções) descreve, a partir de certa altura da narrativa, a alucinação crescente de um assassino que sente latejar em seus ouvidos um som cada vez mais alto e pulsante, que por fim julga ser o coração do velho que havia esquartejado.
é tudo muito interessante: oito longas noites de silenciosa e sinistra vigília, à espera da ocasião propícia para liquidar a vítima. o assassino no escuro, sozinho, o velho dormindo, imagina-se o vazio sonoro em que qualquer mínimo ruído repercutiria muito. digno de atenção o verbo hearkening: não apenas ouvindo casualmente, mas prestando muita atenção. basta pensar: oito longas noites de profundo silêncio, ouvindo com atenção obsessiva os prenúncios de morte, os deathwatches in the wall! a psique como que esvaziada após se dissolver a tremenda tensão acumulada até o momento do assassinato; os carunchos que, imagina-se, continuam com seu tiquetaque na madeira, mesmo tendo o assassino se esquecido da existência deles; a sensação de um terrível aumento do espaço interno de sua cabeça; a pulsação rítmica se avolumando na tremenda caixa de ressonância em que se transformou a mente do protagonista, finda sua vigília de morte; quase como consequência de férrea lógica alucinatória surge a projeção final do som do caruncho fatídico para a pulsação do coração do morto.
e ainda mais interessante constatar esse vínculo entre uma referência muito concreta - o som no interior da parede - e o enlouquecimento progressivo do protagonista. isso, a meu ver, enriquece, dá uma densidade bem maior ao processo psicológico do personagem do que se se alimentasse apenas de sua ansiedade mental, desligada de qualquer elemento exterior tangível.
depois de reler o conto à luz da conexão entre thoreau, com sua analogia metafísica entre o tique do caruncho e o bater do coração, e poe, com sua transposição alucinatória do tique dos carunchos na parede para o bater do coração do morto, sinto-me razoavelmente persuadida de que o elemento central do conto the tell-tale heart é mesmo o deathwatch, que dá a chave para entendermos o desenvolvimento do processo mental do protagonista. se o entrelaçamento dos sentidos na mesma expressão: o bichinho em si, o som que prenuncia a morte, a espera marcada pelo tiquetaque desse relógio-da-morte, a vigília ao lado do moribundo, a vigília para infligir a morte, já leva a um grau não negligenciável de espessura literária, ao acrescentarmos a ele a ligação tácita - mas tão convincente, praticamente inegável depois de a conhecermos! - com o pulse-beat, a batida do coração de thoreau, a interligação dos elementos da narrativa lhe confere qualidade adicional.
ainda a esta luz, outros detalhes adquirem interesse renovado: identifica-se o som que o velho ouve após despertar; sua esperança de que o som pressago seja apenas um cricrilar (se lembrarmos que, tradicionalmente, o grilo é sinal de boa sorte, simétrico inverso dos maus presságios do deathwatch; aliás, também mencionado por thoreau em sua tríade cósmica do tempo universal); as outras menções a relógios - tudo parece adquirir mais consistência.
II
assim, foi decepcionante constatar que as traduções brasileiras mais conhecidas de the tell-tale heart simplesmente desconsideram ou francamente erram ao traduzir o trecho que descreve o protagonista hearkening to the deathwatches in the wall. temos:
- oscar mendes e milton amado: ouvindo a ronda da morte próxima
- josé paulo paes: espreitando o relógio na parede
- clarice lispector (adapt.): omitido
- januário leite (literato caboverdiano radicado em lisboa;** dado equivocadamente como autor de "uma das versões brasileiras mais antigas do conto"): escutando os ralos da parede
- annunziata de filippis (embora o autor da dissertação não observe o fato, trata-se de uma tradução por interposição do italiano): escutando os pássaros da morte esvoaçando ameaçadores
- márcia pedreira: ouvindo a morte rondar ali por perto
- luísa lobo: ouvindo a ronda da morte próxima [note-se a identidade com a solução de mendes / amado]
- paulo schiller: espreitando os relógios da morte na parede
é uma pena que, já praticamente perdida a densidade semântica de deathwatch nas transposições apresentadas, perca-se também a possibilidade de acompanhar na narrativa o funcionamento desse sutil mecanismo de projeção e transposição entre os sons de máxima carga simbólica: o som da morte e o som da vida.
* trata-se de seu artigo "Thoreau and the Deathwatch in Poe’s 'The Tell-Tale Heart'”, disponível aqui.
** atualização em 27/7/11: margarida vale de gato, da universidade de lisboa, gentilmente avisa que não se trata do poeta caboverdiano januário leite. seu xará, o tradutor homônimo aqui citado, era lusitano, integrante do grupo "renascença portuguesa" e colaborador do órgão "a águia", ao lado de álvaro pinto. o fato de ser português é também o que explica sua pertinente opção por "ralos".
imagem: deathwatch, google.
13 de mai. de 2011
o bálsamo de gileade
Outro aspecto que Claudio Weber Abramo aponta em seu ensaio sobre O Corvo é "uma possível gênese bíblica e anacreôntica para a narrativa de Poe" (p. 15). A poeana brasileira tem imensas lacunas, e essa sugestão, desenvolvida no capítulo "Fontes" (pp. 43-56), parece promissora.
O capítulo se inicia com a transcrição de Jeremias 8:22, conforme a Bíblia do rei Jaime: Is there no balm in Gilead; is there no physician there? why then is not the health of the daughter of my people recovered? (p. 43) Inspirada pela citação, atraiu-me no poema o verso que remete diretamente a ela - a quinta linha da 15a. estrofe, quando o personagem pergunta ao Corvo: Is there - is there balm in Gilead? O escopo da análise de Abramo é bem mais amplo, mas essa menção explícita ao bálsamo de Gileade - que justamente deve ter servido, imagino eu, de ponto de partida para a hipótese mais abrangente do autor - dá mesmo margem a supor que a presença de Jeremias em The Raven não é episódica nem circunstancial. E, nessa linha de raciocínio, eu arriscaria: tampouco seria à toa que, nesta e na estrofe seguinte, o personagem se dirige ao Corvo chamando-o de Profeta.
Balm of Gilead, balm of Mecca, Mecca balsam; baume de Galaad, baume de Judée, baume de la Mecque; bálsamo de Gilead(e), bálsamo de Galaad, bálsamo da meca, bálsamo da Judeia, os nomes variam. (Baudelaire e mais tarde Mallarmé usaram baume en Judée.)
Sempre consultando o utilíssimo site de Elson Fróes, para "balm in Gilead" temos:
O capítulo se inicia com a transcrição de Jeremias 8:22, conforme a Bíblia do rei Jaime: Is there no balm in Gilead; is there no physician there? why then is not the health of the daughter of my people recovered? (p. 43) Inspirada pela citação, atraiu-me no poema o verso que remete diretamente a ela - a quinta linha da 15a. estrofe, quando o personagem pergunta ao Corvo: Is there - is there balm in Gilead? O escopo da análise de Abramo é bem mais amplo, mas essa menção explícita ao bálsamo de Gileade - que justamente deve ter servido, imagino eu, de ponto de partida para a hipótese mais abrangente do autor - dá mesmo margem a supor que a presença de Jeremias em The Raven não é episódica nem circunstancial. E, nessa linha de raciocínio, eu arriscaria: tampouco seria à toa que, nesta e na estrofe seguinte, o personagem se dirige ao Corvo chamando-o de Profeta.
Balm of Gilead, balm of Mecca, Mecca balsam; baume de Galaad, baume de Judée, baume de la Mecque; bálsamo de Gilead(e), bálsamo de Galaad, bálsamo da meca, bálsamo da Judeia, os nomes variam. (Baudelaire e mais tarde Mallarmé usaram baume en Judée.)
Sempre consultando o utilíssimo site de Elson Fróes, para "balm in Gilead" temos:
- Machado de Assis: um bálsamo no mundo
- Alfredo R. Rodrigues: o bálsamo ... do esquecimento
- João Kopke: lenitivo que a [a dor] acalme
- Emílio de Menezes: algum repouso, algum consolo
- Fernando Pessoa: um bálsamo longínquo
- Gondim da Fonseca: bálsamo em Galaad
- Milton Amado: um bálsamo em Galaad
- Benedito Lopes: na Judeia um bálsamo
- José Luiz de Oliveira: um bálsamo pra dor
- Rubens F. Lucchetti: um bálsamo da Judeia
- Alexei Bueno: um bálsamo em Galaad
- João Inácio Padilha: no mundo um bálsamo
- Sergio Duarte: algum bálsamo
- Edson Negromonte: o bálsamo de Galaade
- Odair Creazzo Jr.: tem Galahad bálsamo
- Aluysio M. Sampaio: bálsamo em Galaad
- Luís C. Guimarães: um bálsamo em Galaad
- Helder da Rocha: bálsamo em Gileade
- Vinícius Alves: o bálsamo em Galaad
- Diego Raphael: bálsamo em Galaad
- Eduardo A. Rodrigues: um bálsamo em Galaad
- Carlos Primati: o bálsamo
- Isa Mara Lando: um bálsamo ali
- Margarida Vale de Gato: em Galaad há consolo
- Alskander Santos: bálsamo
- Thereza C. R. da Motta: bálsamo na Esperança
- Raphael Soares: bálsamo em outros mares
10 de mai. de 2011
poe, baudelaire e machado
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Claudio Weber Abramo, em O Corvo, aponta o abeberamento de Machado de Assis em Le Corbeau, de Charles Baudelaire, para sua tradução do poema de Poe, The Raven. A indicação me parece relevante, não para desmerecermos, claro, mas para entendermos melhor alguns soluções machadianas, ainda mais em se tratando de um clássico de nosso patrimônio tradutório de influência tão grande e duradoura.
Essa rota de contorno, prossegue Abramo, viria a se refletir nas traduções de Emílio de Menezes e Benedito Lopes, "tendo ainda se replicado em trechos da versão de Rubens Francisco Lucchetti, decerto oriundos da leitura de Machado de Assis" (p. 15).
Eis alguns dos exemplos dados à p. 77 ss.: bleak December como B. "glacial décembre" e M. "glacial dezembro"; each separate dying ember wrought its ghost upon the floor: em B. "chaque tison brodait à son tour le planchet du reflet de son agonie", M. "cada brasa do lar sobre o chão refletia a sua última agonia"; of the saintly days of yore em B. como "digne des anciens jours" e em M. como "digno de antigos dias"; Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly, inversão mal entendida por B., que dá "Je fus émerveillé que ce disgracieux volatile entendît si facilment la parole", que reaparece em M. como "Vendo que o pássaro entendia a pergunta que eu lhe fazia"; This I sat engaged in guessing, em B. ampliado como "Je me tenais ainsi, rêvant, conjecturant" e em M. como "Assim posto, devaneando, meditando, conjecturando".
O original e as duas traduções se encontram com facilidade na rede: The Raven, Le Corbeau, O Corvo.
.A
9 de mai. de 2011
sons n'o corvo
Quem acompanha meu trabalho em Lendo Walden sabe como sou obsessiva com as questões de sentido, nuances, referências, alusões, jogos de palavras etc. numa prosa de grande densidade literária como é Walden. Já poesia, sempre considerei outro universo, talvez acostumada à tradição mais estetizante ou formalista, que não raro coloca a ênfase sobre a rima, o metro, o ritmo, por vezes sacrificando sentidos mais próximos do original. Em todo caso, mesmo evitando o terreno poético, sou do parecer de que uma obra constitui uma unidade e que o autor é responsável por suas escolhas, as quais, como tradutora, devo respeitar.
Claudio Weber Abramo, em seu ensaio recentemente publicado pela editora Hedra, coloca o problema da tradução poética nos seguintes termos: "Dada a impossibilidade de se manter paralelismo simultâneo entre ritmos/melodias e significados numa tradução, qual dimensão deve ser preferencialmente preservada? Excluindo como irrazoável a declaração de que ambas devem ser obedecidas, o tradutor precisa fazer uma escolha" (p. 22). Sua posição é clara: ele defende a "tradução com compromisso semântico". Naturalmente admite que traduções "métricas", isto é, estruturadas em arcabouço rítmico-melódico, "podem ser excelentes enquanto poesia", ressalvando: "o que não significa necessariamente que sejam boas como traduções" (p. 13). "Boas como traduções"... esta é a grande questão, a questão "filosófica", que Abramo trata na seção "Relativismo e Universalismo" (pp. 20-24) - sem entrar nessa discussão infindável e, no fundo, indecidível, concordo com Abramo que "todo problema relacionado à tradução é um problema prático".
Isso me leva a um exemplo concreto das tarefas que enfrenta um tradutor. Há um verso em The Raven que diz: Swung by seraphim whose foot-falls tinkled on the tufted floor (segundo verso da 14a. estrofe).
Bom, começa que até 1848, em vez de seraphim, o verso trazia angels, mas tudo bem.* A questão é o verbo: tinkled. To tinkle: tilintar, tinir, designando um tipo de sonoridade muito específico, em geral alto ou distinto e penetrante, que embute a ideia de repetição, como pulseiras que se entrechocam, um guizo que bate, uma campainha que toca, moedas que (justamente) tilintam umas contras as outras, ou mesmo um dedilhado ao piano, por exemplo. O que faz o tradutor diante desse tinkled? Preserva-o? Considera-o secundário? Passos tilintando ou ressoando no chão atapetado (e um tapete felpudo, tufted, ainda por cima)... Despropositado?
Nas várias traduções disponíveis no site de Elson Fróes, dez omitem a passagem e, portanto, a sonoridade descrita no verso. Outras mantêm a passagem com um verbo pouco "sonoro": roçando, roçar, roçagando, pousassem, deslizaram, revoa, revoando, bem de leve pisavam, tropeçou ("cujo pé tropeçou", talvez erro de entendimento de foot-falls). Outras preservam a referência sonora ou rítmica, com maior ou menor grau de generalidade: ressoavam, ressoavam, roçassem em cadência, soam musicais, dando passos musicais, ressoavam cadenciais, passasse com passos musicais, tinindo passos frenéticos (?) e tilintaram.
Aqui reproduzo um trecho de uma carta de Poe, de 15 de dezembro de 1848, explicando a um crítico o uso de tinkled:
* Em 1848, Poe altera angels para Seraphim; na versão derradeira (1849), modifica para seraphim, em minúscula. Ver histórico das diversas versões de The Raven.
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Claudio Weber Abramo, em seu ensaio recentemente publicado pela editora Hedra, coloca o problema da tradução poética nos seguintes termos: "Dada a impossibilidade de se manter paralelismo simultâneo entre ritmos/melodias e significados numa tradução, qual dimensão deve ser preferencialmente preservada? Excluindo como irrazoável a declaração de que ambas devem ser obedecidas, o tradutor precisa fazer uma escolha" (p. 22). Sua posição é clara: ele defende a "tradução com compromisso semântico". Naturalmente admite que traduções "métricas", isto é, estruturadas em arcabouço rítmico-melódico, "podem ser excelentes enquanto poesia", ressalvando: "o que não significa necessariamente que sejam boas como traduções" (p. 13). "Boas como traduções"... esta é a grande questão, a questão "filosófica", que Abramo trata na seção "Relativismo e Universalismo" (pp. 20-24) - sem entrar nessa discussão infindável e, no fundo, indecidível, concordo com Abramo que "todo problema relacionado à tradução é um problema prático".
Isso me leva a um exemplo concreto das tarefas que enfrenta um tradutor. Há um verso em The Raven que diz: Swung by seraphim whose foot-falls tinkled on the tufted floor (segundo verso da 14a. estrofe).
Bom, começa que até 1848, em vez de seraphim, o verso trazia angels, mas tudo bem.* A questão é o verbo: tinkled. To tinkle: tilintar, tinir, designando um tipo de sonoridade muito específico, em geral alto ou distinto e penetrante, que embute a ideia de repetição, como pulseiras que se entrechocam, um guizo que bate, uma campainha que toca, moedas que (justamente) tilintam umas contras as outras, ou mesmo um dedilhado ao piano, por exemplo. O que faz o tradutor diante desse tinkled? Preserva-o? Considera-o secundário? Passos tilintando ou ressoando no chão atapetado (e um tapete felpudo, tufted, ainda por cima)... Despropositado?
Nas várias traduções disponíveis no site de Elson Fróes, dez omitem a passagem e, portanto, a sonoridade descrita no verso. Outras mantêm a passagem com um verbo pouco "sonoro": roçando, roçar, roçagando, pousassem, deslizaram, revoa, revoando, bem de leve pisavam, tropeçou ("cujo pé tropeçou", talvez erro de entendimento de foot-falls). Outras preservam a referência sonora ou rítmica, com maior ou menor grau de generalidade: ressoavam, ressoavam, roçassem em cadência, soam musicais, dando passos musicais, ressoavam cadenciais, passasse com passos musicais, tinindo passos frenéticos (?) e tilintaram.
Aqui reproduzo um trecho de uma carta de Poe, de 15 de dezembro de 1848, explicando a um crítico o uso de tinkled:
Your objection to the tinkling of the footfalls is far more pointed, and in the course of composition occurred so forcibly to myself that I hesitated to use the term. I finally used it, because I saw that it had, in its first conception, been suggested to my mind by the sense of the supernatural with which it was, at the moment, filled. No human or physical foot could tinkle on a soft carpet — therefore the tinkling of feet would vividly convey the supernatural impression. This was the idea, and it is good within itself; but if it fails (as I fear it does) to make itself immediately and generally felt according to my intention — then in so much is it badly conveyed, or expressed. [negrito meu, DB]*Ainda a propósito do tinkle deste verso, Poe teria se inspirado em Isaías 3:16 (CWA, p. 46 e n.). Claro está que, nos passos das filhas de Sião, eram os ornamentos dos tornozelos que tilintavam ao andar delas. No caso dos serafins do verso, seriam seus próprios pés a ressoar sem que o som fosse abafado pelo tapete, o que de fato é um pouco difícil de entender: daí a impressão sobrenatural pretendida por Poe. O detalhe não me parece trivial.
* Em 1848, Poe altera angels para Seraphim; na versão derradeira (1849), modifica para seraphim, em minúscula. Ver histórico das diversas versões de The Raven.
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7 de mai. de 2011
o corvo, de claudio weber abramo
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a editora hedra lançou recentemente um ensaio de claudio weber abramo, o corvo: gênese, referências e traduções do poema de edgar allan poe.
é um ensaio de grande fôlego, com exaustivo aparato crítico e posição teórica muito clara, exposta desde o primeiro parágrafo: "Traduzir (poesia ou qualquer outro tipo de texto) conferindo-se predominância a sons e ritmos e subordinando-se a semântica aos caprichos do metro constitui uma desconsideração consciente quanto ao que é mais importante" (p. 13), e adiante "O que permite proceder-se a traduções são as estruturas sintáticas e a semântica" (p. 18). caberia como bibliografia obrigatória em todos os cursos sobre literatura e tradução.
comentarei a obra aos poucos. entre seu rigor e sua riqueza, destaca-se desde já um apontamento fundamental que, quanto mais não fosse, justificaria por si só essa edição: claudio weber abramo indica de maneira bastante convincente que a célebre tradução d'o corvo feita por machado de assis se baseou muito mais em le corbeau de baudelaire do que em the raven de poe.
atualização: em 26/5, o caderno da ilustrada, na folha de s. paulo, publicou uma breve resenha minha sobre o livro: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2506201117.htm
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a editora hedra lançou recentemente um ensaio de claudio weber abramo, o corvo: gênese, referências e traduções do poema de edgar allan poe.
é um ensaio de grande fôlego, com exaustivo aparato crítico e posição teórica muito clara, exposta desde o primeiro parágrafo: "Traduzir (poesia ou qualquer outro tipo de texto) conferindo-se predominância a sons e ritmos e subordinando-se a semântica aos caprichos do metro constitui uma desconsideração consciente quanto ao que é mais importante" (p. 13), e adiante "O que permite proceder-se a traduções são as estruturas sintáticas e a semântica" (p. 18). caberia como bibliografia obrigatória em todos os cursos sobre literatura e tradução.
comentarei a obra aos poucos. entre seu rigor e sua riqueza, destaca-se desde já um apontamento fundamental que, quanto mais não fosse, justificaria por si só essa edição: claudio weber abramo indica de maneira bastante convincente que a célebre tradução d'o corvo feita por machado de assis se baseou muito mais em le corbeau de baudelaire do que em the raven de poe.
atualização: em 26/5, o caderno da ilustrada, na folha de s. paulo, publicou uma breve resenha minha sobre o livro: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2506201117.htm
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27 de mai. de 2010
baleia à vista
os exemplos de a tale of two cities comparando o original, a tradução de berenice xavier e a tradução em nome de sandra luzia couto podem despertar algumas dúvidas, não só sobre as curiosas coincidências entre as duas traduções, mas também sobre sua qualidade intrínseca. de fato, é inegável que berenice xavier derrapou algumas vezes, e não em pormenores insignificantes.
assim, achei muito pertinente o comentário do leitor jander, que aqui reproduzo.
"Uma dúvida (apesar de saber que você não indica traduções diretamente, mas veja que o caso é diferente): O próximo livro da Abril Coleções é Moby Dick e também foi traduzido por Berenice Xavier. Esses problemas, do Dickens, poderiam aparecer nessa tradução da Abril de Moby Dick ou temos apenas um caso isolado? Fiquei preocupado!"
minha posição pessoal a respeito da reedição de obras esgotadas de longa data se encontra na resposta ao comentário, no mesmo link acima. considero berenice xavier uma tradutora que teve papel importante nos anos 40 e 50, cujo trabalho (na média, bastante bom) merece ser resgatado e disponibilizado para toda a sociedade.
abaixo apresento duas páginas de moby dick, no original, na tradução de berenice xavier e na de péricles eugênio da silva ramos. cabe lembrar a tradução mais recente de irene hirsch e alexandre barbosa de souza (cosac naify, 2008), que ainda não tive ocasião de ler.
"Your hat, your hat, sir!" suddenly cried the Sicilian seaman, who being posted at the mizen-mast-head, stood directly behind Ahab, though somewhat lower than his level, and with a deep gulf of air dividing them.
But already the sable wing was before the old man's eyes; the long hooked bill at his head: with a scream, the black hawk darted away with his prize.
An eagle flew thrice round Tarquin's head, removing his cap to replace it, and thereupon Tanaquil, his wife, declared that Tarquin would be king of Rome. But only by the replacing of the cap was that omen accounted good. Ahab's hat was never restored; the wild hawk flew on and on with it; far in advance of the prow: and at last disappeared; while from the point of that disappearance, a minute black spot was dimly discerned, falling from that vast height into the sea. CHAPTER 131. The Pequod Meets The Delight.
The intense Pequod sailed on; the rolling waves and days went by; the life-buoy-coffin still lightly swung; and another ship, most miserably misnamed the Delight, was descried. As she drew nigh, all eyes were fixed upon her broad beams, called shears, which, in some whaling-ships, cross the quarter-deck at the height of eight or nine feet; serving to carry the spare, unrigged, or disabled boats.
Upon the stranger's shears were beheld the shattered, white ribs, and some few splintered planks, of what had once been a whale-boat; but you now saw through this wreck, as plainly as you see through the peeled, half-unhinged, and bleaching skeleton of a horse.
"Hast seen the White Whale?"
"Look!" replied the hollow-cheeked captain from his taffrail; and with his trumpet he pointed to the wreck.
"Hast killed him?"
"The harpoon is not yet forged that ever will do that," answered the other, sadly glancing upon a rounded hammock on the deck, whose gathered sides some noiseless sailors were busy in sewing together.
"Not forged!" and snatching Perth's levelled iron from the crotch, Ahab held it out, exclaiming—"Look ye, Nantucketer; here in this hand I hold his death! Tempered in blood, and tempered by lightning are these barbs; and I swear to temper them triply in that hot place behind the fin, where the White Whale most feels his accursed life!"
"Then God keep thee, old man—see'st thou that"—pointing to the hammock—"I bury but one of five stout men, who were alive only yesterday; but were dead ere night. Only THAT one I bury; the rest were buried before they died; you sail upon their tomb." Then turning to his crew—"Are ye ready there? place the plank then on the rail, and lift the body; so, then—Oh! God"—advancing towards the hammock with uplifted hands—"may the resurrection and the life—"
"Brace forward! Up helm!" cried Ahab like lightning to his men.
But the suddenly started Pequod was not quick enough to escape the sound of the splash that the corpse soon made as it struck the sea; not so quick, indeed, but that some of the flying bubbles might have sprinkled her hull with their ghostly baptism.
As Ahab now glided from the dejected Delight, the strange life-buoy hanging at the Pequod's stern came into conspicuous relief.
"Ha! yonder! look yonder, men!" cried a foreboding voice in her wake. "In vain, oh, ye strangers, ye fly our sad burial; ye but turn us your taffrail to show us your coffin!"
berenice xavier, josé olympio, coleção "fogos cruzados", aqui na 2a. ed. (1950)
péricles eugênio da silva ramos, ed. abril cultural (1972, aqui na ed. de 1983)
19 de mar. de 2010
susto
quase desmaiei com isso:
A cigarra e a formiga 6
Tendo a cigarra em cantigasFolgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.
Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.
Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
Té voltar o aceso estio.
A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
“No verão em que lidavas?”
À pedinte ela pergunta.
Responde a outra: “Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.
— Oh! Bravo! — torna a formiga —
Cantavas? Pois dança agora!”
6. LA FONTAINE, Jean de. Fábulas de La Fontaine. Tradução de Milton Amado e Eugênio Amado. Belo Horizonte: Itatiaia, 1989, Tomo 1, p.25.
tal é a referência que consta na tese de mestrado uma definição de leitura pela teoria dos blocos semânticos, Anexo C, p. 88, além de extensa análise às pp. 66-69.
qualquer criança (pelo menos de antigamente) sabe que esta é a classicíssima tradução de bocage para a fábula de la fontaine, mas aqui amputada da quarta quadra (que é justo a hora em que a cigarra pede ajuda à formiga: - "Amiga", diz a cigarra, / - "Prometo, à fé d'animal, / Pagar-vos antes d'agosto / Os juros e o principal.").
até onde tenho conhecimento, a cigarra e a formiga que consta na edição da itatiaia é outra, aliás um tanto tosca (posta ao lado do primoroso lavor em a raposa e as uvas, no mesmo livro, pode-se ter um indicador bastante razoável das diferenças entre os dois tradutores, respectivamente eugênio e milton).
A CIGARRA E A FORMIGA
A cigarra, sem pensar
em guardar,
a cantar passou o verão.
Eis que chega o inverno, e então,
sem provisão na despensa,
como saída, ela pensa
em recorrer a uma amiga:
sua vizinha, a formiga,
pedindo a ela, emprestado,
algum grão, qualquer bocado,
até o bom tempo voltar.
"Antes de agosto chegar,
pode estar certa a senhora:
pago com juros, sem mora."
Obsequiosa, certamente,
a formiga não seria.
"Que fizeste até outro dia?"
perguntou à imprevidente.
"Eu cantava, sim, Senhora,
noite e dia, sem tristeza."
"Tu cantavas? Que beleza!
Muito bem: pois dança agora..."
LA FONTAINE, J. de. 1992. Fábulas de La Fontaine. Belo Horizonte, Itatiaia.
seja lá o que tenha acontecido, o que não se pode é lançar gratuita suspeição sobre nenhum dos dois tradutores. o caso adquire feições ainda mais surreais no caso do pai, milton amado, um dos grandes tradutores brasileiros de poesia: ivo barroso, por exemplo, considera sua tradução d'o corvo de poe inigualável, a melhor existente em língua portuguesa [veja aqui]. e quanto a suspeições, já basta a editora itatiaia querer manchar o nome de mario quintana como reles copista de galeão coutinho, no caso de zadig.
espero que o autor da tese tenha ocasião de esclarecer essa minha dúvida ou de dar uma checada adicional em suas referências. afinal, seu estudo está depositado no acervo de domínio público do mec, e uma afirmação séria como esta precisa ser muito bem fundamentada ou imediatamente corrigida.
ilustração: grandville
29 de jan. de 2010
o gato nassettiano na academia, poe XXV
algumas coisas me espantam.
II. pietro nassetti:
- Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, contudo, bastante doméstica que vou contar [...] Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar meu espírito.
- Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar [...] Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar meu espírito.
- Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso [...] Coro, estremeço, abraso-me de vergonha, ao falar aqui dessa atrocidade.
esse triste episódio no campo dos estudos tradutórios no país, a meu ver, apenas confirma um fato para o qual o mestre alfredo bosi alertou desde o primeiro momento: os plágios de tradução põem em risco "a integridade mesma da vida intelectual no Brasil".
imagem: astound
a mais recente foi a leitura de uma análise descritiva das traduções brasileiras do conto the black cat de edgar allan poe,
estudo publicado em julho de 2009 por um docente de uma importante universidade federal, integrante de um também importante núcleo de pós-graduação em estudos de tradução. o artigo é em sua maior parte ocupado por dados biográficos de poe, pinceladas a respeito da fortuna histórica de sua obra, elementos paraliterários das edições sob análise e a exposição dos marcos teóricos adotados pelo articulista. num breve item final antes da conclusão, o docente apresenta uma sucinta comparação de quatro frases do conto o gato preto em duas traduções diferentes.
estudo publicado em julho de 2009 por um docente de uma importante universidade federal, integrante de um também importante núcleo de pós-graduação em estudos de tradução. o artigo é em sua maior parte ocupado por dados biográficos de poe, pinceladas a respeito da fortuna histórica de sua obra, elementos paraliterários das edições sob análise e a exposição dos marcos teóricos adotados pelo articulista. num breve item final antes da conclusão, o docente apresenta uma sucinta comparação de quatro frases do conto o gato preto em duas traduções diferentes.
e aqui surge minha perplexidade: uma das traduções é legítima, da autoria de william lagos (pela lpm), e a outra é espúria, em nome de pietro nassetti (pela martin claret). faz anos que a farsa claretiana tem sido repetidamente desmascarada em inúmeros jornais, revistas e veículos de comunicação digitais, e não consigo entender como suas pseudotraduções podem ser tratadas em pé de igualdade com traduções legítimas, ainda mais em ambiente acadêmico.
os trechos apresentados no referido estudo são curtos, e reproduzo-os aqui:
os trechos apresentados no referido estudo são curtos, e reproduzo-os aqui:
I. william lagos:
- Não espero nem peço que acreditem nesta narrativa ao mesmo tempo estranha e despretensiosa que estou a ponto de escrever [...] Mas amanhã morrerei e quero hoje aliviar a minha alma.
- Todos aqueles que estabeleceram uma relação de afeto com um cão inteligente e fiel dificilmente precisarão que eu me dê ao trabalho de explicar a natureza da intensidade da gratificação que deriva de tal relacionamento [...] Encho-me de rubor e meu corpo todo estremece enquanto registro esta abominável atrocidade.
- Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, contudo, bastante doméstica que vou contar [...] Mas amanhã posso morrer e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar meu espírito.
- Aos que já experimentaram afeto por um cão fiel e esperto, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso [...] Coro, estremeço, abraso-me de vergonha, ao falar aqui dessa atrocidade.
além de estranhar a escolha da edição martin claret para fins de análise especializada, admira-me também que um estudioso das traduções brasileiras de the black cat não reconheça de plano, no segundo lote de amostras, a tradução de brenno silveira:
- Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso [...] Coro, estremeço, abraso-me de vergonha, ao falar aqui dessa atrocidade.
esse triste episódio no campo dos estudos tradutórios no país, a meu ver, apenas confirma um fato para o qual o mestre alfredo bosi alertou desde o primeiro momento: os plágios de tradução põem em risco "a integridade mesma da vida intelectual no Brasil".
imagem: astound
3 de dez. de 2009
Uma fraude renascentista - Satíricon IV
Como eu havia mencionado no primeiro post da série, o Satíricon, de Petrônio, infelizmente chegou aos tempos modernos em fragmentos. Acredita-se que tenhamos apenas três dos não se sabe quantos livros originais que compuseram a obra, os livros XIV, XV e XVI, e mesmo assim não completos, talvez 15% do total. No entanto, muitos latinistas e acadêmicos, desde a Idade Média, trabalharam para estabelecer o texto latino mais completo possível. A história é interessantíssima.
De acordo com um dos tradutores franceses do Satíricon, Louis de Langle, em 1923, e um tradutor inglês, W. C. Firebaugh, em 1922, ela se resume mais ou menos assim:
1 – Um primeiro fragmento, descoberto em 1476, foi impresso em Milão em 1482, sendo o único texto de Petrônio conhecido até 1565.
2 – Uma versão publicada em Viena em 1564 e Anvers em 1565 (o Codex Sambucus), juntamente com um fragmento encontrado num convento de Buda, em 1587 (Codex Pithoeius), formam um texto um pouco mais completo, preenchendo algumas lacunas do texto anterior.
3 – Uma lacuna importante do texto, parte do Banquete de Trimalquião, foi descoberta por Pierre Petit na biblioteca do convento de Trau e publicada pela primeira vez em Pádova, em 1664. Esse manuscrito ainda continha todas as partes já estabelecidas anteriormente, e criava continuidade entre os fragmentos já conhecidos. Contudo, sua autenticidade foi contestada. Dois exames realizados por literatos de Roma e da França concluíram que o manuscrito deveria ter pelo menos 200 anos – mas nunca houve prova decisiva de que a parte do Banquete fosse do mesmo autor que o restante dos livros.
4 – Finalmente, em 1688, Du Pin, um oficial francês teria encontrado durante uma batalha em Belgrado um enorme manuscrito ainda mais completo. Esse foi traduzido por François Nodot, um mercenário francês seu amigo, e editado por Leers de Rotterdan em 1692. Logo, no entanto, sua autenticidade também foi discutida. Mas desta vez a fraude foi definitivamente estabelecida, principalmente em razão da qualidade do latim: o texto era bem ruim. Contudo, era também bastante engenhoso, servia-se de alusões contidas nos fragmentos já conhecidos e ajudava a encadear bem as partes do Satíricon, criando um texto coerente.
Por isso, a grande maioria dos tradutores de Petrônio, até hoje, optam por incorporar em suas versões do Satíricon, os acréscimos fraudados de Nodot. A grande maioria admite a fraude em prefácio, e costuma marcar de alguma maneira, por exemplo entre colchetes, essas partes que não deixam de ser interessantes para o tom do texto como um todo.
5 - Mais tarde diversos fragmentos foram ainda encontrados e logo reconhecidos como inautênticos (uma lista completa pode ser vista aqui), algumas vezes acrescentados a edições da obra, e em geral identificados como tais. W. C. Firebaugh incorpora por exemplo a falsificação de José Marchena, um espanhol que a escreve em francês por volta de 1800, e a de Don Joe Antonio Gonzalez de Salas, publicada em 1629.
Quanto às nossas edições brasileiras (as quatro lidas por mim), a única que não incorpora os acréscimos de Nodot é a da Cosac Naify, pois seu tradutor optou por se basear numa edição latina estabelecida em 1923, que contemplava apenas os manuscritos considerados originais.
As outras duas versões, da Escala e da Civilização Brasileira (não incluo aqui a da Martin Claret, já que não é nada menos do que cópia deslavada da Civilização Brasileira, como mostramos aqui e aqui) incluem os tais acréscimos. Daí a grande diferença observada (ao fim do post) entre o tamanho do capítulo XI nas diversas edições - a da Cosac Naify contava com apenas algumas linhas e as outras tinham quase oito páginas. Essas oito páginas foram compostas por François Nodot – e são bastante divertidas, aliás, dá para entender o interesse em publicá-las.
Fico apenas triste, do ponto de vista editorial e não de tradução, que as edições que incorporam o Nodot deixem de indicá-lo. Sem uma pesquisa como esta, o leitor nunca saberia que está lendo um texto de, pelo menos, dois autores diferentes, Petrônio e Nodot, perpetuando a fraude, no entanto perfeitamente estabelecida há séculos. Por que os editores não indicam suas fontes, principalmente quando se trata de textos clássicos, cuja história é conturbada?
Imagem: gutemberg.org
De acordo com um dos tradutores franceses do Satíricon, Louis de Langle, em 1923, e um tradutor inglês, W. C. Firebaugh, em 1922, ela se resume mais ou menos assim:
2 – Uma versão publicada em Viena em 1564 e Anvers em 1565 (o Codex Sambucus), juntamente com um fragmento encontrado num convento de Buda, em 1587 (Codex Pithoeius), formam um texto um pouco mais completo, preenchendo algumas lacunas do texto anterior.
3 – Uma lacuna importante do texto, parte do Banquete de Trimalquião, foi descoberta por Pierre Petit na biblioteca do convento de Trau e publicada pela primeira vez em Pádova, em 1664. Esse manuscrito ainda continha todas as partes já estabelecidas anteriormente, e criava continuidade entre os fragmentos já conhecidos. Contudo, sua autenticidade foi contestada. Dois exames realizados por literatos de Roma e da França concluíram que o manuscrito deveria ter pelo menos 200 anos – mas nunca houve prova decisiva de que a parte do Banquete fosse do mesmo autor que o restante dos livros.
4 – Finalmente, em 1688, Du Pin, um oficial francês teria encontrado durante uma batalha em Belgrado um enorme manuscrito ainda mais completo. Esse foi traduzido por François Nodot, um mercenário francês seu amigo, e editado por Leers de Rotterdan em 1692. Logo, no entanto, sua autenticidade também foi discutida. Mas desta vez a fraude foi definitivamente estabelecida, principalmente em razão da qualidade do latim: o texto era bem ruim. Contudo, era também bastante engenhoso, servia-se de alusões contidas nos fragmentos já conhecidos e ajudava a encadear bem as partes do Satíricon, criando um texto coerente.
Por isso, a grande maioria dos tradutores de Petrônio, até hoje, optam por incorporar em suas versões do Satíricon, os acréscimos fraudados de Nodot. A grande maioria admite a fraude em prefácio, e costuma marcar de alguma maneira, por exemplo entre colchetes, essas partes que não deixam de ser interessantes para o tom do texto como um todo.
5 - Mais tarde diversos fragmentos foram ainda encontrados e logo reconhecidos como inautênticos (uma lista completa pode ser vista aqui), algumas vezes acrescentados a edições da obra, e em geral identificados como tais. W. C. Firebaugh incorpora por exemplo a falsificação de José Marchena, um espanhol que a escreve em francês por volta de 1800, e a de Don Joe Antonio Gonzalez de Salas, publicada em 1629.
Quanto às nossas edições brasileiras (as quatro lidas por mim), a única que não incorpora os acréscimos de Nodot é a da Cosac Naify, pois seu tradutor optou por se basear numa edição latina estabelecida em 1923, que contemplava apenas os manuscritos considerados originais.
As outras duas versões, da Escala e da Civilização Brasileira (não incluo aqui a da Martin Claret, já que não é nada menos do que cópia deslavada da Civilização Brasileira, como mostramos aqui e aqui) incluem os tais acréscimos. Daí a grande diferença observada (ao fim do post) entre o tamanho do capítulo XI nas diversas edições - a da Cosac Naify contava com apenas algumas linhas e as outras tinham quase oito páginas. Essas oito páginas foram compostas por François Nodot – e são bastante divertidas, aliás, dá para entender o interesse em publicá-las.
Fico apenas triste, do ponto de vista editorial e não de tradução, que as edições que incorporam o Nodot deixem de indicá-lo. Sem uma pesquisa como esta, o leitor nunca saberia que está lendo um texto de, pelo menos, dois autores diferentes, Petrônio e Nodot, perpetuando a fraude, no entanto perfeitamente estabelecida há séculos. Por que os editores não indicam suas fontes, principalmente quando se trata de textos clássicos, cuja história é conturbada?
Imagem: gutemberg.org
Joana Canêdo
2 de nov. de 2009
kafka no brasil I
metamorfoses de kafka, dissertação de mestrado de celso donizete cruz publicada pela annablume/ fapesp (2007), é uma minuciosa análise comparada das diversas edições d'a metamorfose de kafka no brasil. o autor se concentra nos paratextos, isto é, nos elementos acompanhantes da obra propriamente dita: capa, dizeres de capa e contracapa, formato do livro, dados de imprenta, orelhas, prefácios, introduções. há também um item sobre os tradutores e traduções das edições analisadas.
as traduções mencionadas no estudo são, em ordem cronológica de lançamento, as de brenno silveira, torrieri guimarães, marques rebelo, syomara cajado, modesto carone, erlon josé paschoal, dora del mercato, lourival holt, regina régis junqueira, marcelo backes, calvin carruthers, e a inefável "equipe de tradutores da martin claret", posteriormente substituída pelo não menos inefável pietro nassetti.
num post chamado trivia I, apresentei alguns fatos e algumas hipóteses sobre o processo de geração de nomes fictícios nas traduções espúrias da nova cultural. reproduzo aqui o trecho referente ao suposto tradutor d'a metamorfose na coleção "obras-primas":
"já no nível do puro escárnio foi a utilização do nome 'calvin carruthers'. [...] calvin carruthers aparece como tradutor de a metamorfose do kafka nessas obras covaculturais. aviso que não fui atrás dessa tradução, não sei se é plágio ou deixa de ser, mas o uso do nome de fantasia por si só já dá um certo pano para a manga.
bom, qualquer criança sabe que o protagonista do livro se chama gregor samsa. e de que rincão do mundo algum desinfeliz resolveu desenterrar o nome de 'calvin carruthers' como tradutor das vicissitudes de gregor samsa?
aí, por mero acaso, você sabe que um ator chamado vic tayback fez em 1971 um filme de horror chamado blood and lace, onde representava o papel de um detetive chamado 'calvin carruthers'. e sabe também que no último filme do tayback antes de morrer, em 1990, seu personagem se chamava george samsa. (quem gostar dessas curiosidades, pode ver aqui a filmografia dele.)"*
* embora sem mencionar o personagem de tayback em horseplayer, justamente george samsa, celso cruz também comenta essa conexão calvin carruthers/ vic tayback.
como disse, metamorfoses de kafka se debruça sobre os paratextos, e apenas marginalmente sobre as traduções. mesmo assim, traz coisas muito divertidas sobre elas, que podem interessar de perto aqui ao nãogostodeplágio. em breve voltarei a esse estudo.
imagem: annablume
14 de set. de 2009
zola, germinal
cláudia poncioni é autora de um estudo comparado de traduções de germinal, que foi publicado em 1999 pela editora annablume. o título da obra é émile zola em português: um estudo das traduções de germinal no brasil e em portugal.

sua análise aborda o trabalho de cinco tradutores, sendo três portugueses, a saber, "beldemónio" (1885), bel-adam (1900) e j. martins (1930), e dois brasileiros, francisco bittencourt (1969) e eduardo nunes fonseca (1982).
a edição da crisos especifica que j. martins fez apenas a adaptação - termo muitas vezes usado para designar uma revisão e/ou atualização de tradução anterior. ao incluí-lo em seu estudo comparado, não admira que cláudia poncioni tenha encontrado grande similaridade entre a tradução de bel-adam e a adaptação de j. martins.
feita essa ressalva, a conclusão da autora é que, depois da secular tradução de beldemónio, francisco bittencourt foi o único a empreender uma nova tradução.* bel-adam se baseia em várias soluções de seu compatriota e j. martins apenas a adaptou. curiosamente foi essa adaptação de j. martins que foi copiada por eduardo nunes fonseca, pela editora hemus:
apenas a título informativo: francisco bittencourt (1933-1997), nascido em itaqui, no rio grande do sul, foi poeta, tradutor, jornalista, editor e crítico de arte. teve vários livros de poemas publicados, foi colaborador da tribuna da imprensa no rio e do correio do povo de porto alegre. morou no egito nos anos 1960, como tradutor, jornalista e locutor, e nos anos 1970 e 1980 trabalhou como tradutor e jornalista na embaixada britânica no rio. foi um dos fundadores do jornal alternativo lampião de esquina (1978-1981) e da editora esquina, ao lado de aguinaldo silva, jean-claude bernardet, darcy penteado, joão silvério trevisan e outros. sua tradução de germinal saiu pela editorial bruguera, em 1969, e teve sucessivas reedições pela abril cultural e círculo do livro. francisco bittencourt traduziu também limões amargos, de durrell, e taras bulba, de gógol, por interposição.
eduardo nunes fonseca, por seu lado, já apareceu algumas vezes aqui no nãogostodeplágio, assinando outras edições espúrias, como a origem das espécies de darwin, pela hemus e pela ediouro, e a cidade antiga, de fustel de coulanges, também pela hemus e pela ediouro.
germinal, na pseudotradução de eduardo nunes fonseca, foi publicado pela hemus em 1982, com várias reedições. em 1986, passou a ser publicado também pela ediouro. em 1996, saiu na coleção "imortais da literatura universal", pela nova cultural e círculo do livro.

sua análise aborda o trabalho de cinco tradutores, sendo três portugueses, a saber, "beldemónio" (1885), bel-adam (1900) e j. martins (1930), e dois brasileiros, francisco bittencourt (1969) e eduardo nunes fonseca (1982).
a edição da crisos especifica que j. martins fez apenas a adaptação - termo muitas vezes usado para designar uma revisão e/ou atualização de tradução anterior. ao incluí-lo em seu estudo comparado, não admira que cláudia poncioni tenha encontrado grande similaridade entre a tradução de bel-adam e a adaptação de j. martins.
feita essa ressalva, a conclusão da autora é que, depois da secular tradução de beldemónio, francisco bittencourt foi o único a empreender uma nova tradução.* bel-adam se baseia em várias soluções de seu compatriota e j. martins apenas a adaptou. curiosamente foi essa adaptação de j. martins que foi copiada por eduardo nunes fonseca, pela editora hemus:
O exame deste fenômeno permite a constatação de que a tradução n. 5, de Eduardo Nunes da Fonseca, é praticamente uma cópia da tradução de J. Martins (n. 3), que se limitou a adaptar a tradução de Bel-Adam (n. 2), que por sua vez baseara-se na tradução de Beldemónio. O único tradutor a ter feito sua própria tradução foi Francisco Bittencourt (n. 4)" (op. cit., p. 127, negrito meu, db).* há uma tradução de bandeira duarte, que saiu em 1935 pela flores & mano que, embora mencionada pela autora, não chega a ser objeto de análise em seu estudo.
apenas a título informativo: francisco bittencourt (1933-1997), nascido em itaqui, no rio grande do sul, foi poeta, tradutor, jornalista, editor e crítico de arte. teve vários livros de poemas publicados, foi colaborador da tribuna da imprensa no rio e do correio do povo de porto alegre. morou no egito nos anos 1960, como tradutor, jornalista e locutor, e nos anos 1970 e 1980 trabalhou como tradutor e jornalista na embaixada britânica no rio. foi um dos fundadores do jornal alternativo lampião de esquina (1978-1981) e da editora esquina, ao lado de aguinaldo silva, jean-claude bernardet, darcy penteado, joão silvério trevisan e outros. sua tradução de germinal saiu pela editorial bruguera, em 1969, e teve sucessivas reedições pela abril cultural e círculo do livro. francisco bittencourt traduziu também limões amargos, de durrell, e taras bulba, de gógol, por interposição.
eduardo nunes fonseca, por seu lado, já apareceu algumas vezes aqui no nãogostodeplágio, assinando outras edições espúrias, como a origem das espécies de darwin, pela hemus e pela ediouro, e a cidade antiga, de fustel de coulanges, também pela hemus e pela ediouro.
germinal, na pseudotradução de eduardo nunes fonseca, foi publicado pela hemus em 1982, com várias reedições. em 1986, passou a ser publicado também pela ediouro. em 1996, saiu na coleção "imortais da literatura universal", pela nova cultural e círculo do livro.30 de mai. de 2009
pinóquio
ainda na linha dos estudos comparados, existe uma interessante dissertação de mestrado de lucia maria pinho de valhery jolkesky, apresentada ao programa de estudos de tradução da ufsc em 2007. chama-se legibilidade de diálogos: a colocação de pronomes nas traduções brasileiras de pinóquio de 2002, disponível no portal do mec.a análise, bastante técnica, aborda três traduções de pinóquio, de carlo collodi, a saber: de marina colasanti, de gabriella rinaldi e de pietro nassetti. são analisados 20 excertos, e ao final há um quadro sinóptico por tradutor, além de um breve perfil biográfico de cada um deles.
no "Anexo F – Quadro sinóptico da colocação pronominal na tradução de Nassetti", na coluna da direita, encontram-se diversas observações interessantes sobre várias opções pouco usuais no português do brasil, numerosas ocorrências de mistura de tratamento de segunda e terceira pessoa, contrações de pronomes diretos e indiretos não muito usadas em nossas bandas e outras peculiaridades.
e a dissertação traz também uma raridade, coisa que tanta gente se perguntava: quem é pietro nassetti?
"Anexo J – Biografia de Pietro Nassetti
Pietro Nassetti nasceu em Parma, Itália, no final da 2ª. Guerra Mundial. Aos 23 anos emigrou para o Brasil, morou em São Paulo, onde se formou em odontologia pela Universidade de São Paulo. Abriu um consultório na região do ABC paulista. Foi um pesquisador de terapias holísticas. Na década de 80 entrou em contato com a filosofia univérsica, uma visão de mundo holística criada pelo brasileiro Huberto Rohden. A partir de 1996 começou a realizar trabalhos de tradução para a Editora Martin Claret, principalmente do italiano, inglês e francês. Faleceu após longa enfermidade em janeiro de 2005.
Informações fornecidas por Rosana Citino, Assistente Editorial, via internet, em 26/08/2005."
imagem: enrico mazzanti, pinóquio, 1883
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