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19 de ago. de 2013

questões tradutórias

ivone benedetti escreve um belo artigo sobre sua "tradução de decameron: tônus e público", disponível aqui.


para um levantamento das traduções do decameron no brasil, ver aqui.

12 de abr. de 2012

boccaccio, avulsos

comentei que, até o momento, existe apenas uma tradução brasileira integral do decameron, a saber, a de raul de polillo (1959), posteriormente garfada e "copidescada" por torrieri guimarães (1970) - veja aqui.

já seleções e antologias parciais existem várias. seguem-se as que localizei.

I.
aparentemente, o primeiro boccaccio brasileiro apareceu em 1944. trata-se de "a enganadora enganada", em os mais belos contos de amor dos mais famosos autores, com seleção e tradução de persiano da fonseca, pela editora vecchi:


este conto reaparece em maravilhas do conto italiano da cultrix, em 1957, sem créditos de tradução:

Maravilhas Do Conto Italiano - Raro 1957


II.
em 1945, saem três contos selecionados e traduzidos por paulo rónai e aurélio buarque de hollanda, no primeiro volume de mar de histórias:



são eles:  o conto do judeu melquisedec (primeira jornada, terceira novela), a dama na confissão (terceira jornada, terceira novela) e a marquesa de montferrato (primeira jornada, quinta novela). foram reeditados na coletânea de contos italianos da tecnoprint/ ediouro em 1967:




III.
em 1951, sai uma coletânea d' os famosos contos de boccaccio (il decamerone), em tradução de joão henrique, pela editora prometeu:



reeditada em 1960 e 1965:




IV.
em 1958, sai uma coletânea de contos burlescos de boccaccio (il decamerone), em seleção e tradução de milton júlio, com ilustrações de sylvio ramirez, pela reembolso royal:




curavarlungo

aqui, ilustração de "o cura de verlungo"

a coletânea é reeditada sem data, em três volumes, pelo banco cultural brasileiro:




IVa.
ainda em 1958, sai "boca beijada não perde o sabor" (segunda jornada, sétima novela), in obras-primas do conto italiano, com tradução de jacob penteado, pela livraria martins:



V.
em 1959, é lançada uma coletânea de histórias galantes de boccaccio, em seleção, tradução e introdução de jamil almansur haddad, com 28 contos, pela cultrix:



reeditada em 1960 e 1986 como contos:




VI.
em 1959, a martins seleciona 38 novelas do decameron na tradução de raul de polillo:




VII.
também em 1959, sai "catela no banho", jornada III, novela VI, em maravilhas do conto amoroso, pela cultrix, para variar sem crédito de tradução:

Maravilhas Do Conto Amoroso - Vários Autores


VIII.
em 1960, sai uma coletânea de contos escolhidos do decamerão, pela editora cacique, sem crédito de tradução:




IX. também em 1960, sai "um vaso de manjericão" (quarta jornada, quinta novela), em tradução de aurélio buarque de hollanda e paulo rónai, publicada como o  "conto da semana", coluna semanal que ambos, ora juntos, ora alternadamente, mantinham no diário de notícias (ver zsuzsanna spiry, aqui).


IXa. em 1963, sai "andreuccio da perúsia" em tradução de hernâni donato, no volume novelas italianas, da coleção "o mundo da novela", pela cultrix:



X.
em 1969, saem as seleções galantes do decameron, em seleção e tradução de éverton florenzano, pela livrobrás:




XI.
em c.1971, sai decamerão (fragmentos), tradução de sônia botelho, no volume 8 da coleção ficção, bruguera. não encontrei imagem de capa. aqui a ficha em nosso acervo na biblioteca nacional:

Autor:Boccaccio, Giovanni,clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 1313-1375.
Título original:[Il Decamerone. Portugues.]
Título / Barra de autoria:Decamerao : (fragmentos) / Giovanni Boccaccio ; traducao de Sonia Botelho. -
Imprenta:Rio [de Janeiro] : Bruguera, c1971. 


XII.
a partir de 1974, sai uma série de adaptações em cordel, por marco moro, pela luzeiro.

1Dona Sarita e seus tres machos /
2A mota que meteu o diabo no inferno /

3Moro, Marco.A amante do anjo /

4Moro, Marco.Buraco quente nao conhece feriado /

5Moro, Marco.Chifre com chifre se paga /

6Moro, Marco.O homem que foi ao inferno e voltou chifrudo /

7Moro, Marco.A noite das camas trocadas /

8Moro, Marco.A tocaia do chifrudo /

9O Rabo e os chifres, ou, A mulher que queria ser egua /

10A moça que meteu o diabo no inferno /



XIII.
em 1988, sai a terceira jornada, primeira novela, numa coletânea de horas de prazer, de diversos autores, pelo clube do livro. como na ficha descritiva da obra constam vários tradutores, não sei qual deles foi o responsável pela tradução do conto de boccaccio:




XIV.
em 1996, é lançada mais uma coletânea de contos do decameron, com seleção, tradução e introdução de pedro garcez ghirardi, pela scrinium:

Contos do Decameron


XV.
em 2001, a novela I da terceira jornada e a novela X da oitava jornada, em tradução de octávio marcondes, saem na antologia os cem melhores contos de humor da literatura universal (org. de flávio moreira da costa), pela ediouro:




XVI.
em 2006, sai vingança em veneza, em tradução de nilson moulin, pela cosac naify:



XVII.
em 2010, sai a décima novela da terceira jornada, em tradução de áureo lustosa guérios neto,
na arte e letra: estórias, edição K:




as antologias de contos de amor e desamor e os melhores contos de aventuras também trazem alguma coisa de boccaccio, mas ainda não descobri o que é. este post será complementado à medida que eu localizar mais elementos.






atualização 29/6/13: nos anos 50, há referência a algo de boccaccio em contos de alcova, com organização de yves idilio, pela editora carioca noel buchman. a coletânea é reeditada em são paulo em 1960 (o livreiro; ed. victor - ver aqui, p. 242) e em 1963 (flamingo). devo essas indicações à pesquisadora silvia cobelo.






boccaccio, decameron II



dando continuidade à comparação entre as traduções de raul de polillo e de torrieri guimarães para o decameron (veja aqui), detenho-me agora num exemplo pitoresco. estamos na primeira história da quarta jornada, a tragédia amorosa de ghismonda e guiscardo:
Guiscardo non per accidente tolsi, come molte fanno, ma con diliberato consiglio elessi innanzi ad ogn’altro, e con avveduto pensiero a me lo’ntrodussi, e con savia perseveranza di me e di lui lungamente goduta sono del mio disio. Di che egli pare, oltre allo amorosamente aver peccato, che tu, più la volgare oppinione che la verità seguitando, con più amaritudine mi riprenda, dicendo (quasi turbato esser non ti dovessi, se io nobile uomo avessi a questo eletto) che io con uom di bassa condizione mi son posta.
polillo verte:
Não foi por acaso, como fazem muitas mulheres, que fiquei com Guiscardo; ao contrário, escolhi-o, com espírito deliberado, antes e acima de qualquer outro homem; por via de manobra claramente premeditada, introduzi-o nos meus aposentos; e, com prudente perseverança, tanto da parte dele, como da minha, longamente gozei o prazer da satisfação do meu desejo. Afigura-se-me que você me esteja repreendendo, por eu haver amorosamente pecado; quer-me parecer, entretanto, que, acompanhando a opinião do vulgo, o senhor me repreenda com mais dureza por eu me haver entregue, como o senhor diz, a homem de baixa condição social; e isto, como se o senhor não se perturbaria, se eu houvesse escolhido, para o mesmo fim, um homem que fosse nobre.
além do descomunal encompridamento da prosa boccacciana na tradução de polillo, de sua prolixidade pretensamente explicativa e seu distanciamento do original, note-se a curiosa oscilação no tratamento que guismunda dá a seu pai tancredi, ora "você", ora "o senhor", todavia tratado no original sempre como tu.

no texto de torrieri, como se pode aferir abaixo, discerne-se claramente o decalque do texto de polillo, submetido a um singelo copidesque, trocando aqui e ali alguns termos - e a impostura ganha um cômico requinte adicional com a preservação do oscilante tratamento que recebe tancredi na tradução de polillo:
Não foi casualmente, como fazem inúmeras mulheres, que fiquei com Guiscardo; pelo contrário, eu escolhi-o, com deliberação, antes e acima de outro homem qualquer; por manobra inteiramente premeditada, introduzi-o em meus aposentos; e, com prudente perseverança, tanto da parte dele, quanto da minha, longamente desfrutei o prazer da satisfação do meu desejo. Parece-me que você me repreende, porque eu amorosamente pequei; parece-me, contudo, que, seguindo a opinião popular, o senhor me censura, mais duramente, o fato de eu ter-me entregado, segundo diz o senhor, a homem de ínfima posição social; e isto, como se o senhor não ficasse perturbado, se eu escolhera, para idêntico fim, um homem da nobreza.
se é uma vergonha que tal embuste tenha infestado o cenário entre 1970 e 2003 com alguns milhões de exemplares distribuídos pelo brasil afora, devido aos incautos licenciamentos da abril cultural, círculo do livro e nova cultural, trabalhando com tiragens altíssimas em suas sucessivas reedições, mais uma razão para comemorarmos vivamente a iniciativa de l&pm em recorrer à notória competência de ivone benedetti para uma nova tradução do decameron.

aliás, a jornalista raquel cozer, da folha de s.paulo, também comentou recentemente que a tradução de torrieri é "parecida até demais com a de polillo", aqui

imagem: ghismonda recebe o coração de guiscardo, aqui

boccaccio, decameron I

fiquei realmente entusiasmada quando ivone benedetti me comentou que estava traduzindo o decameron de boccaccio para a l&pm. meu contentamento se deve a duas razões principais:
  • a primeira delas é que ivone benedetti é uma das grandes tradutoras que temos em atividade no brasil, em particular na delicadíssima área de humanidades e clássicos da cultura ocidental. por exemplo, se agora dispomos da edição das vidas completas de vasari, a quem podemos agradecer a indizível oportunidade de ler esse monumento do quinhentos em português?
  • a segunda razão diz respeito à trajetória da obra mor de boccaccio no brasil. é sobre ela que vou me deter mais longamente neste post. para o original, pode-se consultar aqui.

recapitulemos.

I.
em 1956, sai a primeira tradução integral do decameron no brasil, em tradução de raul de polillo, na coleção "edições de arte", pela livraria martins, em 3 volumes em formato grande (25 x 45), com ilustrações de gino boccasile (cuja trajetória no fascismo italiano e cujo papel no desenvolvimento do desenho de propaganda e erotismo na itália mereceriam um post à parte) e introdução de edoardo bizzarri, diretor do instituto de cultura italiana no brasil (aliás tradutor de, entre outros, guimarães rosa):







diga-se de passagem que essa tradução de polillo trafegará mais tarde para a tecnoprint/ ediouro, saindo em 1967 numa lamentável edição de bolso em dois volumes, quase ilegível de tão compacto e miúdo foi o tipo utilizado para a impressão, e se mantém em seu catálogo até hoje. a tradução de polillo sai também em 2000 e 2002 pela itatiaia, de belo horizonte:



II.
em 1970, a editora hemus lança uma dita tradução pretensamente feita por torrieri guimarães, também integral, numa edição em brochura um tanto tosca:




por  aqueles mistérios editoriais que seguem por meandros que apenas as próprias editoras conhecem, essa tradução dita de torrieri guimarães tem uma fortuna inaudita. recebe inúmeras e inúmeras reedições, licenciada para a abril cultural desde o mesmo ano de seu lançamento pela hemus, em 1970, até 1989.


a seguir, essa pretensa tradução passa para o círculo do livro entre 1989 e 1993, e finalmente é licenciada para a editora nova cultural, onde continua a ser reeditada até 2003.
   


III.
em 2005, a editora crisálida de belo horizonte licencia e publica a admirável tradução portuguesa de urbano tavares rodrigues, intitulada decameron: ou príncipe galeotto, originalmente publicada em 1976 pela bertrand de portugal, e da qual se pode ter uma ideia lendo um trecho aqui.




quero me concentrar na tradução de raul de polillo, de 1956, e na alegada tradução de torrieri guimarães, de 1970.

já gabriel perissé, anos atrás (em 2006, para ser mais exata), havia comentado as singulares semelhanças entre elas no artigo "boccaccio e uma centena de histórias", um de seus luminosos textos sobre traduções na revista língua portuguesa. retomo uma parte do exemplo que ele deu naquela ocasião - é o início do parágrafo final do proêmio, e comento alguns aspectos:
Adunque, acciò che in parte per me s’ammendi il peccato della fortuna, la quale dove meno era di forza, sì come noi nelle dilicate donne veggiamo, quivi più avara fu di sostegno, in soccorso e rifugio di quelle che amano, per ciò che all'altre è assai l’ago e ’1 fuso e l’arcolaio, intendo di raccontare cento novelle, o favole o parabole o istorie che dire le vogliamo, raccontate in diece giorni da una onesta brigata di sette donne e di tre giovani nel pistelenzioso tempo della passata mortalità fatta, e alcune canzonette dalle predette donne cantate al lor diletto. 
em sua tradução, polillo opera mudanças sintáticas expressivas. assim é que a longa e complexa frase de seis linhas e meia se converte em cinco frases mais curtas em ordem direta, sofre algumas eliminações e apresenta poucas e simples intercalações (e não garanto que tenha captado o conteúdo original de maneira totalmente adequada):
Portanto, a fim de que para mim se corrija o pecado da Sorte, pretendo contar cem novelas, ou fábulas, ou parábolas, ou histórias, ou o que quer que sejam. A Sorte foi menos favorável, como vemos, para as delicadas mulheres, e mais avara se lhes mostrou de amparo. Em socorro e refúgio daquelas que amam, é que escrevo (porquanto, para as outras, bastam a agulha, o fuso e a roca). O que escrevo são coisas contadas, em dez dias, por um grupo honrado de sete mulheres e de três moços, na época pestilenta da passada mortandade levada a cabo. Acrescentam-se algumas cantigas das mulheres antes referidas, cantadas a seu gosto. 
goste-se ou não, aprecie-se a simplificação ou não, a intervenção de polillo é clara e inconfundível.

assim, quando se vê o trecho correspondente na tradução dita de torrieri guimarães, evidencia-se sua absoluta identidade sintática com o texto de polillo e suas intervenções na construção das frases, além de reproduzir as mesmas supressões e algumas falhas no nível semântico:
Assim sendo, para que se corrija, para mim, o pecado da Sorte, pretendo narrar cem novelas, ou fábulas, ou parábolas, ou estórias, sejam lá o que forem. A Sorte mostrou-se menos propícia, como vemos, para as frágeis mulheres, e mais avara lhes foi de amparo. Em socorro e refúgio das que amam, é que escrevo (pois, para as demais, são suficientes a agulha, o fuso e a roca). O que escrevo são as coisas contadas, durante dez dias, por um honrado grupo de sete mulheres e três moços, na época em que a peste causava mortandade. Ajuntam-se algumas cantigas das mulheres já mencionadas, cantadas à sua vontade. 
no nível lexical, vários vocábulos na tradução dita de torrieri são sinônimos aproximados dos vocábulos empregados por polillo (contar/narrar; favorável/propícia; delicadas/frágeis; referidas/mencionadas etc.), mas as alterações em relação à frase original e o corte das orações são absolutamente idênticos - está para nascer quem possa me convencer de que dois tradutores diferentes consigam picotar um original exatamente da mesma maneira e redigir dois textos estruturalmente tão similares entre si quão distantes do original.

da mesma forma, a experientíssima tradutora ivone benedetti havia constatado soluções unânimes de ambos,    igualmente "a léguas do original" e igualmente privadas de sentido.

por essa razão, eu teria muitas ressalvas a fazer antes de considerar a dita tradução de torrieri guimarães como uma tradução de direito próprio. parece pertencer mais ao campo de um simples copidesque efetuado sobre o texto de raul de polillo, dispensando o recurso ao original.

apresentarei adiante outros exemplos de comparação entre o texto de raul de polillo e o texto de torrieri guimarães, para ilustrar melhor o problema. antes disso, porém, quero apenas concluir o trecho acima apresentado:
Nelle quali novelle piacevoli e aspri casi d’amore e altri fortunati avvenimenti si vederanno così né moderni tempi avvenuti come negli antichi [...] (no original, a frase prossegue em várias orações)
raul de polillo converteu esse trecho em três frases simples e pôs um fim abrupto ao parágrafo:
Nas mencionadas novelas, aparecerão casos de amor. Uns serão agradáveis; outros escabrosos. Registrar-se-ão outros acontecimentos felizes, ocorridos tanto nos tempos modernos, como nos antigos.
torrieri guimarães seguiu fielmente o mesmo recorte:
Nas ditas novelas surgirão casos de amor. Uns agradáveis, outros escabrosos. Serão registrados outros eventos felizes, passados tanto nos tempos atuais, como nos antigos.
acompanhe a parte II aqui.