Mostrando postagens com marcador suzano/ecofuturo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador suzano/ecofuturo. Mostrar todas as postagens

10 de set. de 2010

o coração da matéria

.

boas editoras corrigem seus erros, e muitas vezes nem precisam da reclamação dos leitores ou de uma segunda edição. saem espontaneamente à praça, fazendo recall ou dando errata.

nem sempre é assim. veja-se o caso da universo dos livros e sua desconversa em relação ao livro que saiu sem as páginas do epílogo, ou o caso da alta books que, a despeito das centenas de reclamações em vários títulos de seu catálogo, parece não se abalar muito, ou da novo século, que promete correções numa "eventual" reedição.

pior ainda quando se trata de edições não erradas e/ou incompletas, mas francamente fraudadas: lembro o clamoroso caso da nova cultural em parceria com a suzano/ ecofuturo. tampouco se abalaram muito com os milhões de exemplares espúrios que soltaram na praça entre 2002 e 2003. com certa relutância, o instituto ecofuturo publicou em seu site uma lista corrigindo os créditos de tradução das edições fraudadas. saudei o fato em como diz o provérbio.

mas, como bem colocou um leitor em comentário ao post:
O problema é se as traduções foram adulteradas - o que muito provavelmente deve ter acontecido.

Nesse caso, a mera correção dos créditos de tradução não resolve o problema - uma vez que cada texto, se adulterado, deixa de corresponder ao texto estabelecido pelo tradutor original.

Será preciso restabelecer o texto original das traduções - o que pode exigir nova publicação dos títulos, digamos, problemáticos -, e, se for o caso, indenizar os tradutores (pela violação a direitos morais e patrimoniais) e os consumidores (pela fraude contra o consumidor).
sem dúvida, é este o caso: edições adulteradas que deixaram de corresponder ao texto estabelecido pelo verdadeiro tradutor. seria preciso, realmente, restabelecer o texto das traduções legítimas, e isso certamente exigiria uma nova publicação dos títulos problemáticos.

então, fazer bobagem é fácil, corrigir é que são elas.

imagem: scribe
.

5 de jul. de 2010

como diz o provérbio...

faz um bom tempo que foi levantada a história dos plágios de tradução na editora nova cultural, em suas coleções Pensadores e Obras-Primas (esta em parceria com a Suzano Celulose). a coisa era tanto mais aborrecida porque o Instituto Ecofuturo, a ong da Suzano, fazia o maior alarde e distribuía a mãos fartas a tal coleção como prêmio em suas campanhas e como acervo para as bibliotecas comunitárias sob sua responsabilidade.



então fiquei contente em ver que pelo menos isso o Ecofuturo fez:

Correção na concessão dos créditos dos tradutores da Coleção Obras Primas editada em 2002 pela Nova Cultural


Desde 2003 o Instituto Ecofuturo tem realizado a doação de livros da Coleção Obras Primas, editada em 2002 pela NOVA CULTURAL, a qual possui a logomarca “Selo Ler é Preciso”, de nossa titularidade.

Em 2008, tomamos conhecimento de que em alguns livros que integram a Coleção Obras Primas, ocorreu a menção incorreta dos nomes dos tradutores, conforme listagem abaixo que nos foi enviada pela Editora Nova Cultural:

Título: Ana Karenina
Autor: Tolstói
Crédito indevido da tradução: Mirtes Ugeda
Crédito correto da tradução: João Gaspar Simões

Título: Crime e Castigo
Autor: Dostoiévski
Crédito correto da tradução: Natália Nunes

Título: O Retrato de Dorian Gray
Autor: Oscar Wilde
Crédito indevido da tradução: Enrico Corvisieri
Crédito correto da tradução: Oscar Mendes

Título: Contos
Autor: Voltaire
Crédito indevido da tradução: Roberto Domênico Proença
Crédito correto da tradução: Mário Quintana

Título: Lord Jim
Autor: Joseph Conrad
Crédito indevido da tradução: Carmen Lia Lomônaco
Crédito correto da tradução: Mário Quintana

Título: Morro dos Ventos Uivantes
Autor: Emily Brontë
Crédito indevido da tradução: Silvana LaPlace
Crédito correto da tradução: Oscar Mendes

Título: Tom Jones
Autor: Henry Fielding
Crédito indevido da tradução: Jorge Pádua Conceição
Crédito correto da tradução: Octávio Mendes Cajado

Título: O Vermelho e o Negro
Autor: Stendhal
Crédito indevido da tradução: Maria Cristina F. da Silva
Crédito correto da tradução: Luiz Costa Lima

Título: Divina Comédia
Autor: Dante Alighieri
Crédito indevido da tradução: Fabio M. Alberti
Crédito correto da tradução: Hernâni Donato

Título: Falecido Matia Pascal/Seis Personagens
Autor: Pirandello
Crédito indevido da tradução: Fernando Correa Fonseca
Crédito correto da tradução: Mário da Silva, Elvira Ricci e Brutus Pedreira

Título: Fausto / Werther
Autor: Goethe
Crédito indevido da tradução: Alberto Maximiliano
Crédito correto da tradução: Sílvio Meira e Galeão Coutinho

Título: Ivanhoé
Autor: Walter Scott
Crédito indevido da tradução: Roberto Nunes Whitaker
Crédito correto da tradução: Brenno Silveira

Título: O Leopardo
Autor: Lampedusa
Crédito indevido da tradução: Leonardo Codignoto
Crédito correto da tradução: Rui Cabeçadas

Título: Madame Bovary
Autor: Flaubert
Crédito indevido da tradução: Enrico Corvisieri
Crédito correto da tradução: Araújo Nabuco

Título: Naná
Autor: Zola
Crédito indevido da tradução: Roberto Valeriano
Crédito correto da tradução: Eugenio Vieira

Título: Suave é a Noite
Autor: Scott Fitzgerald
Crédito indevido da tradução: Enrico Corvisieri
Crédito correto da tradução: Ligia Junqueira

Título: Os Três Mosqueteiros
Autor: Alexandre Dumas
Crédito indevido da tradução: Mirtes Ugeda
Crédito correto da tradução: Octávio Mendes Cajado

Título: Uma Vida
Autor: Guy de Maupassant
Crédito indevido da tradução: Roberto Domênico Proença
Crédito correto da tradução: Ascendino Leite

Título: A Mulher de Trinta Anos
Autor: Balzac
Crédito indevido da tradução: Gisele Donat Soares
Crédito correto da tradução: José Maria Machado

ver aqui a página do instituto ecofuturo.

a questão é um pouco mais complicada do que isso, e voltarei a ela adiante. por ora, veja aqui no blog suzano/ecofuturo. por outro lado, como o ótimo é inimigo do bom, acho que dá para comemorar um pouquinho.

dedico este post e esta pequena conquista a saulo von randow jr., pai de toda essa briga encampada e desenvolvida aqui no nãogostodeplágio, e a danilo nogueira, seu respectivo padrinho.

imagem: água mole em pedra dura

26 de jan. de 2010

galeão coutinho plagiado

como vimos, galeão coutinho, a crer nos dados fornecidos pela editora itatiaia, teria tido sua tradução de zadig, de voltaire, despudoradamente copiada de fio a pavio por mario quintana. veja "mario quintana, plagiador?".

comentei que isso me parece uma sandice, e que a editora itatiaia, em minha opinião, está mostrando certa irresponsabilidade perante a situação em que tem colocado mario quintana desde 2004.

por outro lado, galeão coutinho foi plagiado, sim. sua tradução de werther de goethe, publicada pela livraria martins nos anos 40, foi copiada recentemente por duas editoras:

- pela editora martin claret, que atribuiu a pretensa tradução publicada em 2001 em sua coleção A Obra-Prima de Cada Autor ao assíduo pietro nassetti. veja "carlota tropical".

- pela editora nova cultural com patrocínio da suzano celulose, em 2002, que atribuiu a pretensa tradução publicada em sua coleção Obras-Primas a um fantasmagórico "alberto maximiliano". veja "goethe, werther".

torço vivamente para que a guardiã dos direitos e da memória de galeão coutinho tome as necessárias providências para proteger seu nome e sua obra. e que, diante do caso da itatiaia, ajude a deslindar a bizarria: se eventualmente dispuser de algum manuscrito ou qualquer indício sobre algum zadig traduzido por galeão coutinho, por favor traga a público.

imagem: traça

24 de set. de 2009

imortais e obras-primas


parei um pouco de postar sobre as coleções de clássicos da literatura da editora nova cultural - não porque suas fraudes desapareceram, e sim porque dei por encerrada a pesquisa de seus títulos. conferi todos os títulos, e os casos de plágio comprovado foram apresentados um a um aqui no nãogosto. outras notícias referentes a essas fraudes na nova cultural foram igualmente divulgadas: ações judiciais de editoras lesadas, acordos extrajudiciais com tradutores lesados, matérias na imprensa, errata pública, republicação da obra legítima lesada etc. a quem interessar, o material está no arquivo classificado em nova cultural.

por outro lado, graças ao alerta de um leitor, percebi que ficou um ponto meio confuso que quero esclarecer melhor: a nova cultural tem duas coleções literárias com problemas de contrafação - a saber, "imortais da literatura universal" e "obras-primas".

a coleção "imortais da literatura universal" é composta por 20 volumes, e foi publicada em 1995 e 1996 pela nova cultural/ círculo do livro. a coleção "obras-primas" é composta por 50 volumes, e foi publicada em 2002 e 2003 pela nova cultural/ suzano. ambas as coleções eram de alta tiragem, alguns títulos com várias reedições.

segue abaixo a relação das obras integrantes de cada coleção. quando a tradução é legítima, consta apenas o nome do tradutor sem destaque. quando a tradução é espúria, constam o nome do pretenso tradutor em destaque vermelho e o nome do tradutor legítimo em destaque verde. para ver o respectivo cotejo publicado aqui no blog, basta clicar na listinha dos cotejos disponíveis.


IMORTAIS DA LITERATURA UNIVERSAL
1. dostoievski, irmãos karamázovi - enrico corvisieri (natália nunes, adapt. para o português do brasil por oscar mendes)
2. emily brontë, o morro dos ventos uivantes - rachel de queiroz
3. balzac, a mulher de 30 anos - enrico corvisieri (josé maria machado)
4. tolstói, ana karênina - mirtes ugeda (joão gaspar simões)
5. choderlos de laclos, relações perigosas - sérgio milliet
6. tchecov, as três irmãs - maria jacintha
7. machado de assis, brás cubas/ dom casmurro
8. stendhal, o vermelho e o negro - maria cristina f. da silva (luiz costa lima)
9. hemingway, o sol também se levanta - berenice xavier
10. émile zola, germinal - eduardo nunes fonseca (j. martins)
11. scott fitzgerald, suave é a noite - enrico corvisieri (lygia junqueira)
12. charles dickens, conto de duas cidades - sandra luzia couto
13. sartre, a idade da razão - sérgio milliet
14. d. h. lawrence, mulheres apaixonadas - cabral do nascimento
15. alexandre dumas, os três mosqueteiros - mirtes ugeda (octavio mendes cajado)
16. oscar wilde, o retrato de dorian gray - maria cristina f. da silva (oscar mendes)
17. boccaccio, decamerão - torrieri guimarães (esta é uma fraude, mas não pela nova cultural, e sim pelo próprio torrieri, hemus, 1970, que garfou a tradução de raul de polillo)
18. eça de queiroz, o primo basílio
19. jonathan swift, viagens de gulliver - therezinha monteiro deutsch
20. daniel defoe, moll flanders - antônio alves cury

OBRAS-PRIMAS
1. Miguel de Cervantes, Dom Quixote - Viscondes de Castilho e Azevedo
2. Victor Hugo, Os trabalhadores do mar - Machado de Assis
3. Dante Alighieri, A divina comédia - Fábio M. Alberti (Hernâni Donato)*
4. Dostoievski, Crime e castigo - não consta tradutor (Natália Nunes)
5. Edmond Rostand, Cyrano de Bergerac - Fábio M. Alberti (Carlos Porto Carreiro)
6. Stendhal, O vermelho e o negro - Maria Cristina F. da Silva (Luiz Costa Lima)*
7. Flaubert, Madame Bovary - Enrico Corvisieri (Araújo Nabuco)
8. Jane Austen, Razão e sensibilidade - Therezinha Deutsch
9. Leon Tolstoi, Ana Karênina - Mirtes Ugeda Coscodai (João Gaspar Simões)
10. Homero, Odisséia - Antônio Pinto de Carvalho
11. Tommaso di Lampedusa, O leopardo - Leonardo Codignoto (Rui Cabeçadas)
12. Charles Dickens, Um conto de duas cidades - Sandra Luzia Couto
13. Bram Stoker, Drácula - Vera M. Renoldi
14. Euclides da Cunha, Os sertões
15. Franz Kafka, A metamorfose - Calvin Carruthers (não dou um figo seco por essa edição, mas não localizei a fonte)
16. Mark Twain, As aventuras de Tom Sawyer - Luísa Derouet
17. Choderlos de Laclos, Relações perigosas - Sérgio Milliet
18. Sinclair Lewis, Babbitt - Leonel Vallandro
19. Camões, Os lusíadas
20. Goethe, Fausto e Werther - Alberto Maximiliano (Silvio Meira e Galeão Coutinho, respectivamente)
21. Voltaire, Contos - Roberto Domenico Proença (Mário Quintana)
22. Tchecov, As três irmãs - Maria Jacintha
23. Herman Melville, Moby Dick - Péricles Eugênio da Silva Ramos
24. Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes - Silvana Laplace (Oscar Mendes)
25. Machado de Assis, Memorial de Aires e Esaú e Jacó
26. Daniel Defoe, Moll Flanders - Antônio Alves Cury
27. Eça de Queiroz, A cidade e as serras
28. Gogol, Almas mortas - Tatiana Belinky
29. Boccaccio, Decamerão - Torrieri Guimarães (esta é uma fraude, mas não pela Nova Cultural, e sim pelo próprio Torrieri, Hemus, 1970, que garfou a tradução de Raul de Polillo)
30. Pirandello, O falecido Mattia Pascal e Seis personagens à procura de autor - Fernando Corrêa Fonseca (Mário da Silva e Brutus Pedreira respectivamente)
31. Louisa May Alcott, Mulherzinhas - Vera Maria Marques Martins**
32. Virgílio, Eneida - Tassilo Orpheu Spalding
33. Alexandre Dumas Filho, A dama das camélias - Therezinha Deutsch
34. Henry Fielding, Tom Jones - Jorge Pádua Conceição (Octavio Mendes Cajado)
35. Émile Zola, Naná - Roberto Valeriano (Eugênio Vieira)
36. Shakespeare, Tragédias - Beatriz Viéga-Farias
37. Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray - Enrico Corvisieri (Oscar Mendes)
38. Honoré de Balzac, A mulher de trinta anos - Gisele Donat Soares (José Maria Machado)
39. Edgar Allan Poe, Histórias extraordinárias - Brenno Silveira e outros
40. Jules Verne, A volta ao mundo em oitenta dias - Therezinha Monteiro Deutsch
41. Jonathan Swift,
As viagens de Gulliver - Therezinha Deutsch
42. Alexandre Dumas, Os três mosqueteiros - Mirtes Ugeda Coscodai (Octavio Mendes Cajado)
43. Ibsen, A casa de bonecas - Cecil Thiré
44. Joseph Conrad, Lord Jim - Carmen Lia Lomonaco (Mário Quintana)
45. Henry James, Lady Barberina e A outra volta do parafuso - Leônidas Gontijo e Brenno Silveira respectivamente
46. Raul Pompéia, O ateneu
47. Guy de Maupassant, Uma vida - Roberto Domenico Proença (Ascendino Leite)
48. Scott Fitzgerald, Suave é a noite - Enrico Corvisieri (Lígia Junqueira)
49. D. H. Lawrence, Mulheres apaixonadas - Cabral do Nascimento
50. Walter Scott, Ivanhoé - Roberto Nunes Whitaker (Brenno Silveira)

* nos casos da divina comédia e de o vermelho e o negro, os tradutores lesados foram ressarcidos, mas não houve nenhum recall ou substituição dos exemplares espúrios adquiridos pelos leitores e instituições públicas e privadas. em todo caso, a nova cultural retirou de catálogo os 20 títulos das "Obras-Primas" com plágio comprovado.

** atualização em 19/09/2015: constatei que páginas e mais páginas desta tradução de mulherzinhas  em nome de vera maria marques martins não passam de mera cópia da tradução de marcos bagno (melhoramentos, 1998). vide aqui.

imagem: rjartworks

21 de jun. de 2009

a divina comédia, editora nova cultural

em 2002/2003, a editora nova cultural, sob a coordenação editorial de janice florido, lançou a coleção "obras-primas", com o patrocínio da suzano celulose e sua ong ecofuturo. mais de vinte títulos desta coleção eram plágios, contrafações e apropriações indébitas de traduções anteriores, muitas vezes já esgotadas.

o segundo volume das coleção "obras-primas" era a divina comédia de dante. foi utilizada a tradução de hernâni donato, em prosa, levemente copidescada e com os créditos atribuídos a um "fábio m. alberti". circulando em algumas centenas de milhares de exemplares no país, fez um bom estrago na memória cultural dos brasileiros.

foi com imensa satisfação que recebi este convite abaixo.


a editora nova cultural recolheu e tirou de circulação a edição espúria, ressarciu a editora cultrix (detentora original dos direitos de tradução) e, principalmente, ressarciu o autor da tradução, hernâni donato, da melhor maneira que poderia agradar a um intelectual de seu porte: lançando uma edição comemorativa, totalmente restaurada à forma inicial dada pelo tradutor.

o mais importante: a editora nova cultural vem a público, perante os leitores e a sociedade, substituir abertamente, sem máscaras, sem inúteis tentativas de se justificar, a edição fraudada anterior.

mais uma vez se evidencia a diferença de conduta da nova cultural em relação à martin claret. se ambas plagiaram descaradamente dezenas e dezenas de antigas obras traduzidas, no caso da martin claret só sabemos por ouvir dizer que esta fez algum acordo "confidencial", entre quatro paredes, aqui e ali com alguma editora lesada em relação a algumas obras. nada se sabe sobre os exemplares espúrios, que continuam à venda, nada se sabe sobre as providências junto ao leitor, que continua desinformado e enganado sobre a verdadeira edição.

estão de parabéns a presidência e a atual coordenação editorial da nova cultural. tal como tiveram a desfaçatez de vir a público com uma coleção maciçamente fraudada, agora demonstram a lhaneza de vir a público reparar o malfeito. embora seja o mínimo que se espera, bem sabemos o quanto é raro que isso ocorra.

a hernâni donato, meus melhores votos de que sua tradução da divina comédia tenha o reconhecimento que merece e o lugar que lhe cabe na história da recepção literária no país.

aos leitores, minha viva recomendação: continuemos a defender nossa memória cultural. todos só temos a ganhar.

1 de jun. de 2009

por quê? e até quando?

a pergunta que nunca se cala é: por quê? por que tanta cópia, tanta apropriação indevida do trabalho alheio, tanta falsa identificação?

quando saiu numa comunidade do orkut uma notícia de plágio de ivanhoé, quando saíram aquelas famosas matérias do jornal opção e da folha de s.paulo, e então comecei a pesquisar o tema, não fazia ideia da extensão que a cópia espúria de traduções no brasil tinha adquirido nos últimos quinze anos. eu sabia de alguns casos avulsos, como a editora germinal; quanto à nova cultural, foi um choque descobrir o que vinha ocorrendo desde 1995, e que adquiriu uma dimensão fantástica em 2002/2003 com o patrocínio da suzano celulose e da ong ecofuturo; sobre a martin claret, já corriam vários boatos e em abril ou maio do ano passado comecei a pesquisar um pouco suas edições. até o começo de 2009 eu achava que esse fenômeno em escala industrial estava restrito à editora nova cultural e à editora martin claret - que, juntas, respondem por milhões e milhões de exemplares fraudados presentes em lares, escolas, bibliotecas, instituições públicas e privadas de norte a sul do país.

então foi estarrecedor ver que o recurso à cópia deslavada de traduções andou se alastrando como um contágio. já apresentei os casos da landmark, da jardim dos livros (grupo geração), da rideel e da hemus (respingando na ediouro). tirando a hemus, os outros três enveredaram por tais rumos em data relativamente recente, isto é, a partir de 2004/2005.

quanto à landmark e à jardim dos livros, embora ainda devam satisfações ao público e ressarcimento aos leitores lesados, tenho a impressão de que interromperão essa prática sem maiores traumas, e até por interesse próprio: a landmark trilhou essa senda escusa em dois títulos, é uma editora pequena, seus donos parecem alimentar pretensões políticas no mundo do livro, certamente não quererão ter um tal telhado de vidro. a jardim dos livros, também pequena, agora é selo editorial do grupo geração, ao lado da editora leitura e da geração editorial, e não creio que seus novos sócios se interessem em preservar tais práticas.

já o caso da rideel foi totalmente inesperado e me surpreendeu muito: uma editora de porte médio, sólida, de aparência respeitável, com vasto catálogo de obras jurídicas, com presença marcante no mundo do livro, haja vista o cargo de diretoria que ocupa na principal entidade editorial do país, a câmara brasileira do livro. foi uma revelação muito contristadora e decepcionante. é um deslustro para todo o mundo do livro - digo isso porque entendo que representantes de uma categoria deveriam dar o bom exemplo. e digo isso não porque estaria me metendo em assuntos de uma entidade patronal que não me diriam respeito. digo isso porque o mundo do livro diz respeito a toda a sociedade, e as políticas de suas principais entidades editoriais, que naturalmente estão expressas em suas diretorias, afetam e se refletem em toda a sociedade. a cbl e demais entidades do livro carregam uma responsabilidade muito grande, que transcende a linha empresarial adotada no âmbito privado de cada editora. a meu ver, a cbl tem aí um pepino que terá que resolver de alguma maneira, para proteger sua credibilidade e suas intenções de legitimidade e transparência.

é com muita tristeza que reservo o próximo post para mais um caso da rideel, também em nome de "heloísa da graça burati". (para os outros casos da editora rideel, ver aqui e aqui.)

imagens: www.plagiarius.com; www.travelblog.org

24 de mar. de 2009

listinha dos plagiados

atualizo a listinha dos tombados à sanha bandoleira conforme vou publicando os cotejos que faço ou os informes que recebo. ela fica em duas partes: uma no cabeçalho do blog e outra num post chamado "outras vítimas", com link em "clique para ver", na coluna da direita.

mas acho que não custa apresentá-la com sua última atualização. muito, muito infelizmente até hoje não consegui tirar nenhum nome. os candidatos mais fortes seriam:

1. joão paulo monteiro, com o leviatã de hobbes garfado pela martin claret sob o nome de "jean melville", para o qual até soltei um foguetinho. segundo o que dra. maria luiza egéa, advogada da martin claret, me disse em setembro do ano passado e me autorizou a usar como fiel informação, sua cliente estaria fechando um acordo com a editora lesada, a martins fontes, e indenizaria o tradutor. de fato a martin claret até publicou outra tradução, mas fez o favor de NÃO retirar o plágio de circulação. tampouco publicou qualquer retificação dos créditos em errata pública, com vistas a esclarecer os leitores que haviam comprado muitas dezenas e dezenas de milhares da fraude. a sociedade, portanto, continua ludibriada em sua boa-fé e atropelada pela incontrolável vigarice da martin claret.

2. luiz costa lima, com o vermelho e o negro de stendhal, garfado pela nova cultural sob o nome de "maria cristina figueiredo da silva" desde 1995, na coleção "os imortais da literatura", até recentemente, nas sucessivas reedições pela coleção "obras-primas", em parceria com o instituto ecofuturo. seu advogado, dr. marco túlio de barros castro, chegou a um acordo com a editora, a qual ressarciu o tradutor e até publicou uma pífia errata na imprensa. o nome de luiz costa lima continua na listinha porque acho que nenhum leitor deve ter visto a retificação e nenhuma biblioteca deve ter se dado conta. calculo por baixo, por baixo, uns 150 mil exemplares assim. como o principal lesado é o leitor, é a sociedade, falta ainda uma verdadeira reparação, substituindo os exemplares fraudados por obras legítimas, e uma errata decente que possa preencher - ah, conselheiro acácio - sua finalidade de errata.

então segue a listinha atualizada até o cotejo de ontem.


adolfo casais monteiro
antônio pinto de carvalho
araújo nabuco
artur morão
bento prado jr.
blásio demétrio
boris schnaiderman
brenno silveira
carlos chaves
carlos porto carreiro
casimiro fernandes
cunha medeiros
de souza fernandes
eça de queiroz
éverton ralph
fernando de aguiar
galeão coutinho
godofredo rangel
hernâni donato
isabel sequeira
jacó guinsburg
jaime bruna
jamil almansur haddad
joão ângelo oliva neto
joão baptista de mello e souza
joão paulo monteiro
joaquim machado
josé augusto drummond
josé duarte
leila v. b. gouvêa
leonel vallandro
leonidas hegenberg
líbero rangel de andrade
ligia junqueira
lívio xavier
luísa derouet
luiz costa lima
manuel odorico mendes
margarida garrido esteves
maria beatriz nizza da silva
maria francisca ferreira de lima
maria helena rocha pereira
maria irene szmrecsányi
mário quintana
moacyr werneck de castro
modesto carone
monteiro lobato
natália nunes
neide smolka
octany silveira da mota
octavio mendes cajado
olinda gomes fernandes
oscar mendes
paulo m. oliveira
péricles eugênio da silva ramos
ricardo iglésias
rodrigo richter
sarmento de beires
sérgio milliet
silvio deutsch
silvio meira
sodré viana
suely bastos
tamás szmrecsányi
vera pedroso
wilson lousada
ymaly salem chammas

alguns desses casos sofreram mais de um saque. por exemplo: monteiro lobato, octavio mendes cajado, paulo m. oliveira, oscar mendes, mário quintana, j.b. mello e souza.

imagem: saphan, pierre reymond, 1578

22 de mar. de 2009

o avesso do avesso

um caso que achei engraçado.

há uma famosa tradução de lord jim, de joseph conrad, feita por mário quintana. ela tinha sido garfada pela editora nova cultural (na coleção "obras-primas", em parceria com a suzano celulose). houve troca de meia-dúzia de palavras e criou-se uma fantasminha pluft para pôr no lugar, com o nome de "carmen lia lomonaco".

lorde jim pela martin claret, claretmente, aparecia com "pietro nassetti" como tradutor. aí, em 2007, a claressetti publica uma nova edição, trazendo como tradutor - ora, quem? mário quintana. aliás, a claret é tão dada aos espíritos e fantasmas que conseguiu diretamente no além um "copyright desta tradução: Editora Martin Claret, 2007". tudo bem, trocou o plágio pela contrafação, pois, ao que eu saiba, a detentora dos direitos de mário quintana, sua sobrinha elena quintana, não vendeu os direitos de tradução para a claret. (e, em caso de autorização de uso, seria uma licença, não um copirraite.) aliás, só posso tributar esse ingente esforço de simular algum crédito correto ao fato de que, naquela época, a objetiva estava negociando a compra da claret, e talvez ela estivesse tentando mostrando serviço. que seja.

o divertido é que os ishpertos claretianos esqueceram de retirar aquelas troquinhas de palavras em começo de capítulo que usam em seus plágios, e transformaram a própria tradução de mário quintana numa suposta tradução.

1. mário quintana, globo:
cap. 1: tinha um metro e oitenta de altura, talvez dois ou quatro centímetros a menos, forte, espadaúdo, avançava direto para a gente, um pouco curvado, olhar fixo [...]

2. mário quintana, martin claret:
cap. 1: tinha ele quase um metro e oitenta de altura: uns dois centímetros, talvez cinco, a menos; forte, espadaúdo, avançava direto para a gente, um pouco curvado, olhar fixo [...]

1. mário quintana, globo:
cap. 2: após dois anos de escola, ele fez-se ao mar, e achou singularmente vazias de aventuras aquelas regiões tão familiares a sua imaginação.

2. mário quintana, martin claret:
cap. 2: após dois anos de escola, ele foi para o mar, e achou singularmente vazias de aventuras aquelas regiões tão familiares à sua imaginação.

1. mário quintana, globo:
cap. 5: mas sim - dizia marlow -, eu assistia ao inquérito.

2. mário quintana, martin claret:
cap. 5: - mas sim, dizia ele -, eu assistia ao inquérito.

1. mário quintana, globo:
cap. 7: chegara de tarde um navio postal, com destino ao extremo oriente, e a sala de jantar estava três quartos cheia de gente com centenas de libras de passagens de circunavegação no bolso.

2. mário quintana, martin claret:
cap. 7: chegara de tarde um paquete postal, com destino ao extremo oriente, e três quartos da sala de jantar estavam cheios de gente com centenas de libras de passagens de circunavegação no bolso.

1. mário quintana, globo:
último parágrafo: quem sabe? ele partiu, de coração impenetrável, e a pobre mulher que deixou para trás leva, na casa de stein, uma existência inerte e muda. [...]

2. mário quintana, martin claret:
último parágrafo: quem sabe? ele partiu, de coração impenetrável, e a pobre rapariga que deixou após si leva, na casa de stein, uma existência inerte e muda. [...]

imagens: nextnature.net; orson welles, f for fake

8 de mar. de 2009

nova cultural e biblioteca nacional

as pesquisas no site da fundação biblioteca nacional sempre revelam dados interessantes.

- no catálogo do isbn, composto por fichas cadastrais com informações prestadas pela editora, constam todos os títulos (embora sem nome de tradutor) da coleção "obras-primas" - que, conforme temos mostrado exaustivamente, apresenta irregularidades e alterações nos créditos de tradução de vários deles.

- no catálogo da biblioteca nacional, composto por fichas catalográficas no sentido estrito do termo, não consta nenhum, absolutamente nenhum dos títulos pertencentes à coleção "obras-primas" da ed. nova cultural/suzano celulose.

ou seja: pelo que entendo, a nova cultural solicitou os isbns para os tais títulos, recebeu-os, imprimiu e publicou os livros, mas não enviou nenhum exemplar da coleção para o acervo da biblioteca nacional (o que é obrigatório por lei).

não é curioso?

Publicado por denise bottmann at 18:18 (UTC-3)

originalmente publicado em 05/06/2008, em "assinado-tradutores"

27 de fev. de 2009

carlota tropical


o pobre werther de galeão coutinho já havia caído nas garras da nova cultural, em sua coleção "obras-primas" patrocinada pela suzano celulose.

a pseudoeditora martin claret, cuja única ou principal atividade parece consistir em copiar o já feito, seguiu o exemplo da nova cultural e surripiou, também ela, a tradução de galeão coutinho.

o plágio na nova cultural vinha em nome de um tal alberto maximiliano, e era praticamente literal, de fio a pavio.

o surripio na martin claret vem em nome do inefável peter von nassetten, e mostra um vão empenho copidescatório que, aliás, apenas reforça a malandrice ishperta da edição.*
* a situação desse werther na fbn/isbn é meio confusa: além de não dar nome de tradutor, ele consta como vol. 43 da coleção "a obra-prima de cada autor", sendo que no exemplar impresso consta como vol. 51.

a. galeão coutinho (abril, sob licença da livr. martins)
b. peter von nassetten (martinus klaretten)

a. junho, 16

[...] - quando eu era mais jovem - disse-me ela -, nada me fascinava tanto como os romances. só deus sabe quanto eu me sentia feliz, aos domingos, recolhendo-me a um cantinho para participar, de todo o coração, da felicidade ou do infortúnio de qualquer srta. jenny. não nego que esse gênero de leitura ainda encerra algum encanto para mim; acontece, porém, que são tão raras as vezes em que posso agora abrir um livro, que me tornei mais exigente na escolha. o autor que eu prefiro é aquele onde eu encontro meu mundo costumeiro e os incidentes comuns no meu círculo de relações, de sorte que sua narrativa me inspire um interesse tão cordial como o que acho na minha vida doméstica, a qual, embora não seja um paraíso, me oferece uma fonte de felicidade inexprimível.

esforcei-me, debalde, por abafar a emoção que essas palavras me produziram. quando ela se referiu, de passagem, ao vigário de wakefield, de ...*, com tanta verdade, não me contive e disse-lhe tudo quanto a respeito eu pensava. só ao cabo de algum tempo, ao dirigir-se carlota, novamente, às outras duas damas, percebi que ambas, arregalando muito os olhos, tinham estado até ali inteiramente alheias à nossa conversa. a prima olhou-me por mais de uma vez com um ar de troça, mas não liguei importância.

a conversa recaiu sobre o prazer da dança.

- se essa paixão é um crime - disse carlota -, não posso ocultá-lo; para mim, não há nada melhor do que a dança. se alguma coisa perturba a minha cabeça, é só sentar-me ao meu cravo desafinado e martelar uma contradança, e está tudo acabado! (pp. 304-305)

* aqui, também, suprimimos o nome de vários escritores do nosso país. se alguns daqueles a quem são endereçados os elogios de carlota chegarem a ler esta passagem, serão com certeza advertidos pelo próprio coração. quanto aos demais, nada têm a ver com isso.

b. 16 de junho

[...] - quando eu era mais jovem - disse ela -, nada me fascinava tanto como os romances. só deus sabe o quanto eu me sentia feliz, aos domingos, recolhendo-me a um cantinho para compartilhar, de todo o coração, da felicidade ou das desventuras da srta. jenny. não nego que esse gênero de leitura ainda tenha algum encanto para mim; como agora, porém, são tão raras as vezes em que posso abrir um livro, tornei-me mais exigente na escolha. o autor que eu prefiro é aquele em que reconheço o mundo e os incidentes comuns no meu círculo de relações, tornando a história tão interessante e terna quanto a minha vida doméstica, que, embora não seja um paraíso, é para mim fonte de felicidade inexprimível.

esforcei-me para ocultar a emoção que essas palavras me produziram. quando ela se referiu, de passagem, ao vigário de wakefield, de ...*, com tanta verdade, não me contive e disse-lhe tudo o que pensava a respeito. só ao cabo de algum tempo, ao dirigir-se lotte novamente às outras duas damas, percebi que ambas, arregalando muito os olhos, tinham estado até ali inteiramente alheias à nossa conversa. a prima olhou-me por mais de uma vez com um ar zombeteiro, mas não dei importância.

a conversa recaiu sobre o prazer da dança.

- se essa paixão é um crime - disse lotte - não posso ocultá-lo; para mim, não há nada melhor do que a dança. se alguma coisa perturba a minha cabeça, é só sentar-me ao meu cravo desafinado e martelar uma contradança, e tudo volta ao normal! (pp. 26-27)

* novamente suprimimos o nome de vários de nossos escritores . se alguns daqueles a quem são endereçados os elogios de lotte chegarem a ler essa passagem, acharão seu nome no próprio coração. quanto aos demais, nada têm a ver com isso.


quem quiser contribuir com o vandalismo intelectual, encontra a carlota abaixo do equador nos usuais valhacoutos dos ishpertos: saraiva, curitiba, cultura, fnac, americanas, travessa - todos garbosa e solidariamente responsáveis com o editor responsável pela fraude, nos termos do artigo 104, capítulo II do título VII da lei 9.610/98.

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


imagem: assinatura de goethe, www.dw-world.de

10 de fev. de 2009

à guisa de explicação

voltando um pouco à nova cultural e ao fio desse trabalho aqui do nãogosto - minha perplexidade surgiu em agosto/setembro de 2007, quando saulo von randow jr. comentou que havia constatado o plágio de ivanhoé, trad. de brenno silveira, na coleção obras-primas da nc.
em novembro e dezembro de 2007, com as duas matérias da folha de s.paulo sobre mais outros plágios, minha perplexidade virou pânico e indignação, e daí vem esse trabalho de pesquisa e alerta. às vezes ele pode parecer disperso, mas tenho um quadro na cabeça razoavelmente claro, que vou tentar expor.

a martin claret até pode dar de dez na nova cultural em quantidade de títulos plagiados, embora não necessariamente no total das tiragens. mas não há a menor dúvida de que quem implantou o recurso ao plágio como prática editorial sistemática e em escala industrial foi a nova cultural. esse pioneirismo ninguém lhe tira. e ninguém lhe tira por uma razão cronológica muito simples: ela inaugurou esse recurso sistemático à fraude em 1995, na coleção "os imortais da literatura universal", e a claret começou seus plágios em 1998, na coleção "a obra-prima de cada autor".

os pequenos aventureiros posteriores, tipo sapienza, jardim dos livros, landmark, são subespécies. embora cada qual tenha suas características próprias, integram a família mais geral das editoras que não recusam o artifício do plagiato.

nas pesquisas sobre os plágios da nova cultural, eu tinha me concentrado em obras literárias, até porque foi em 2002-2003 que a editora, com o patrocínio da suzano celulose, adquiriu uma visibilidade fantástica, em edições e reedições de tiragens espantosas, com sua coleção "obras-primas" para venda em bancas de jornais. muito bem, mereceria aplausos se fosse uma coleção idônea; infelizmente, porém, sabemos que não é.

mas há uma outra coleção importante, "os pensadores", da mesma editora, e oriunda da mesma partilha da editora abril, feita em 1982 por victor civita entre os dois filhos, roberto e richard civita. na separação, os fascículos e livros da extinta abril cultural ficaram para richard civita, o qual então criou a editora nova cultural, como parte da empresa c.l.c. (comunicação, lazer e cultura). e foi assim que ele foi relançando, adulterando e plagiando obras da ex-abril cultural que lhe couberam na partilha, tanto nos "imortais" quanto nas "obras-primas" ou nos "pensadores".

estou me delongando sobre isso porque, nestes próximos dias, vou tratar de alguns títulos de "os pensadores" também vitimados por plágio, e acho interessante uma visão geral da coisa.

se alguém tiver interesse em acompanhar o fio da discussão, pode consultar:
ou mais especificamente:
- uma boa cobertura do problema, dada por o globo
- menções iniciais a "os pensadores"

imagens: são jorge em seu gabinete, codecarnival.com; thief and pig, gutenberg.org

5 de fev. de 2009

isso mesmo!

mais um foguetinho, este para o instituto ecofuturo.

faz um ano que estou batendo nessa história do patrocínio da suzano celulose para a edição das obras-primas da nova cultural [clique aqui].

ontem vi na publishnews que o instituto ecofuturo, a ong da suzano, tinha doado 50 mil livros para a biblioteca nacional. fiquei meio aflita porque o ecofuturo, em seus concursos de redação nas escolas públicas, adorava distribuir como prêmio justamente aquelas malfadadas coleções.

já pensou se ele estivesse entregando pilhas e pilhas daquele lixo tóxico na biblioteca nacional, a qual, por sua vez, vai distribuir a doação entre bibliotecas do brasil todo?

bom, escrevi correndo um e-mail para a sra. christine fontelles, da referida ong, expondo minha preocupação. hoje recebi a resposta: a direção do instituto ecofuturo informa que suspendeu as doações da coleção obras-primas até receber um relatório escrito da nova cultural, atualizando sobre os problemas e pendências referentes às traduções, conforme compromisso assumido pela editora em reunião realizada em 19 de janeiro no escritório do ecofuturo.

que coisa! e pensar que a contrapartida do patrocínio da suzano para a nova cultural tinha sido receber 1% do faturamento com as vendas dos livros, quase metade deles espúrios, e mais 900 coleções a seu dispor (45.000 volumes, sendo uns 20 mil pura fraude!)...

muito bem, sr. ecofuturo, isso mesmo - sinta-se mexido em seus brios ao constatar quão solenemente foi ludibriado em sua boa-fé e que papelão lhe faz passar sua parceira amiga-da-onça. mostre firmeza, pois o brasil não merece essa banda podre do livro.

foto: federico carotti

9 de jan. de 2009

errata pública?

jornal o globo, 21 de dezembro de 2008.
(clique na imagem para ampliar)

aquele quadradinho em baixo à esquerda pretende ser a errata pública da nova (in)cultural quanto ao plágio da tradução de o vermelho e o negro. ela tinha publicado a obra algumas vezes, atribuindo a tradução a maria cristina figueiredo da silva. na verdade, era uma apropriação indevida da tradução de luiz costa lima, publicada pela bruguera.

afora que mais parece o anúncio de algum alvará da cetesb, fico me indagando como é que o povo vai se sentir suficientemente alertado sobre a retificação. afinal, foram bem uns 150 mil exemplares que foram vendidos a nós papalvos leitores, além dos distribuídos pela editora e pelo instituto ecofuturo entre escolas públicas e bibliotecas comunitárias.

vocês acham que alguma biblioteca vai ver isso e corrigir os créditos em seus exemplares?

5 de jan. de 2009

suzano/ nova cultural

não sei, posso não entender bem as coisas, mas pelas minhas contas dá uma quantidade imensa de fraudes espalhadas em bibliotecas comunitárias e escolas públicas pelas "empresas do bem"...

Portal Celulose Online
O Ecofuturo mantém o selo Ler é Preciso, o qual destina 1% de seu faturamento para financiar as bibliotecas. Entre os livros editados por esse selo, destacam-se o “Carandiru – Registro Geral”, sobre o filme do diretor Hector Babenco, e a Coleção Obras Primas, da Nova Cultural, composta de 50 clássicos da literatura universal. [...] Além das redações premiadas serem transformadas em livro, a ser publicado ainda em maio, os três primeiros colocados, assim como suas escolas e professores, receberam como prêmio a coleção Obras Primas, da Editora Nova Cultural, que reúne 53 grandes clássicos da literatura mundial.

EMPRESAS DO BEM
LEITURA DE QUALIDADE
O mundo mágico do escritor Monteiro Lobato é o mote do concurso de redação promovido pelo Instituto Ecofuturo. A ONG, criada pela Cia. Suzano, usará a competição como ferramenta para reforçar nos alunos de 1ª a 8ª série, de todo o País, o gosto pela leitura de qualidade. Os melhores textos vão ser publicados em livro. Além disso, os alunos e as escolas vencedoras vão ganhar a coleção Obras Primas, da Editora Nova Cultural, composta por 50 títulos.

Coleção Obras Primas — Instituto Ecofuturo
Projetos que fazem parte do Programa Ler é Preciso > Ler é Preciso > Selo Ler é Preciso > Livros > Coleção Obras Primas
Autor: Diversos
Editora: Nova Cultural
Ano: 2002
A coleção Obras-Primas é caracterizada pela variedade de títulos, escolhidos entre os mais expressivos da literatura mundial. Serão livros de autores consagrados, apresentados ao público em edição de luxo, com tradução primorosa e preço acessível.

No mundo dos livros, Suzano busca estímulo para suas atividades
O bom desempenho do projeto resultou na criação do selo Ler é Preciso. Capas dos livros que contêm esse selo identificam que 1% do preço do livro vai para os projetos sociais do Ecofuturo. A maior parceria nesse sentido foi firmada com a editora Nova Cultural quando criou a coleção Obras-Primas. São 50 títulos expressivos da literatura mundial com edição de luxo e preços acessíveis. Todos com o selo. A parceria prevê que o Ecofuturo terá direito a 900 dessas coleções. Parte delas vai suprir as 25 bibliotecas comunitárias já instaladas pelo Ecofuturo em várias cidades. ... Vencedores do concurso de redação deste ano também devem ser agraciados com a coleção.

Aluna de escola estadual tem redação premiada
A partir da premiação, os alunos poderão ver publicadas as suas histórias e ganhar prêmios. Os organizadores do concurso editarão um livro com as 15 primeiras redações selecionadas em cada uma das quatro categorias. Os professores e as escolas dos três primeiros colocados nas quatro categorias serão premiados com a Coleção Obras-Primas, da Editora Nova Cultural, composta por 50 clássicos da literatura universal. Desde 1998 já foram desenvolvidos três concursos de redação que envolveram mais de 4.500 crianças e mais de 5 mil escolas públicas e privadas.
Secretaria de Estado da Educação

Instituto Ecofuturo
Quem Somos
Programa Ler é Preciso
Coleção Obras Primas [1%] por simples, em 23/05/2007
A coleção Obras-Primas é caracterizada pela variedade de títulos, escolhidos entre os mais expressivos da literatura mundial.

Livros — Instituto Ecofuturo
Coleção Obras Primas. Projetos que fazem parte do Programa Ler é Preciso. Ler é Preciso. Bibliotecas Comunitárias. Concurso de Redação
LIVROS








Escola é finalista de concurso nacional - A EE (Escola Estadual) Adelmo Almeida, de Guararapes, recebeu no último bimestre a coleção "Obras Primas", com 53 clássicos da literatura universal. Os livros fazem parte da premiação oferecida aos 67 finalistas do 5º concurso de redação "Ler é Preciso - Na pista com Ayrton Senna: a Conquista de um Sonho", promovido pelo Instituto Ecofuturo e pelo Instituto Ayrton Senna.

Clássicos da literatura mundial a preço popular
Os R$ 9,90 cobrados por cada livro somente são possíveis, segundo Janice, por causa de acordo com a fábrica de papel Suzano. “A Nova Cultural e a Suzano repartiram pela metade o custo do projeto, que fica em torno de R$ 8 milhões”, diz. A contrapartida ao patrocínio da Suzano é que a Nova Cultural doará 1% da receita da coleção a uma ONG mantida pela empresa papeleira. Doará também 1.500 coleções completas para bibliotecas públicas de vários Estados brasileiros. Inicialmente, as tiragens de cada título da coleção Obras Primas serão de 60 mil exemplares.

Parceria entre Nova Cultural e Cia. Suzano visa a multiplicar o universo de leitores no País - Para Christine Fontelles, assessora de comunicação corporativa e relações públicas da Cia. Suzano, a exemplo da Nova Cultural, a intenção de levar a literatura para o povo deveria ser um objetivo nacional. `Essa questão é um apelo. É preciso firmar parcerias com ONGs, governo e empresas e buscar a democratização da cultura no País`, diz. Por meio da parceria com a Nova Cultural, a cada venda de livro da coleção, 1% da receita será revertido às ações do programa "Ler é Preciso", aplicado pelo Instituto Ecofuturo, entidade criada pela Cia. Suzano para desenvolver práticas de responsabilidade social da empresa. ... Pela parceria, ainda está prevista a doação, por parte da Nova Cultural, de 1.500 coleções para 1.500 bibliotecas de todo o País.

Objetivo é aproximar a literatura do leitor através da coleção Obras-Primas - A equipe da Nova Cultural está satisfeita com as vendas dos livros da coleção. De acordo com dados da assessoria de imprensa, a Obras-Primas já movimentou a produção de 2,2 milhões de títulos [em 6 meses] ... a Nova Cultural foi buscar a parceria com a Companhia Suzano de Papel e Celulose, ... que está patrocinando todo o papel.

que ninguém me entenda mal: acho ótimo que as empresas desenvolvam trabalhos de responsabilidade social. mas acho também que não é só sair por aí fazendo parceria com o primeiro que passa pela frente, sem avaliar direito as coisas.

de mais a mais, as fraudes da nova cultural foram denunciadas várias vezes por várias pessoas desde 2002. se a ecofuturo só agora diz "aaah, puxa vida, eu não sabia..." - bom, vou dizer o quê? sorte da dona nova cultural, então, que teve uma parceira tão confiante?

só posso torcer para que essa reunião entre ecofuturo e nova cultural resulte em alguma providência concreta para desfazer os malfeitos.

imagens: instituto ecofuturo, obras-primas e selo

4 de jan. de 2009

sobre desmemórias

retomo aqui um texto que publiquei alguns meses atrás, num outro blog. considero que continua atual, infelizmente!

é um problema...
teve aí um povo que não gostou muito dessa história na imprensa mostrando que grandes obras da literatura universal tinham sido publicadas em traduções antigas e consagradas, com algumas ou nenhumas alterações, mas atribuídas a outros nomes quaisquer, num claro delito de plágio, falsificação ideológica e apropriação indébita.

aí, mexe daqui, mexe dali, descobre-se que não eram duas ou três obras, mas sim vinte, vinte e cinco, concentradas numa fornada de quarenta.

então a coisa começa a adquirir uma dimensão um pouco mais abrangente, parecendo que não é só meio por acaso.

e começa-se a publicar os cotejos mostrando que não era algo avulso, mas uma onda meio alarmante.

e aí primeiro aparece uma mensagem apócrifa da nova cultural, e depois uma gerente financeira dizendo que estão verificando o que pode ter acontecido.

a seguir vem a imprensa, que quer saber que coisa é essa que está acontecendo. a gente expõe. e aí a nova cultural começa a tirar de catálogo aquela coisarada toda meio esquisita.

só que tudo isso ocorre em meio a entrevistas e depoimentos dos responsáveis da época, dizendo "não sei, nunca soube", "ah, não lembro", "isso não era comigo", e por aí vai.

richard civita liga para um dos lesados (pelo menos é o que este me disse), paga-lhe um almoço e propõe um acordo, batendo no peito, dizendo que não sabe de nada e que afinal este é um dos problemas de delegar responsabilidades.

janice florido, com mais de vinte anos de casa na abril/nova cultural, responsável também por bianca, sabrina e a chamada "linha cor-de-rosa" de romances açucarados em bancas, depois alta executiva da siciliano e agora diretora da ediouro em são paulo, tem um acesso de amnésia, diz que a memória de três anos atrás lhe foge e que não lembra quem cuidava das traduções.

o editor responsável da época, eliel silveira cunha, diz que nunca soube como era essa questão das traduções na coleção obras-primas.

shozi ikeda, o tal diretor administrativo-financeiro, que supostamente deveria autorizar os pagamentos para os prestadores de serviços e colaboradores (entre eles os tradutores) para a empresa, desconversa e diz que estão vendo o que pode ter acontecido.

gente, quanta história! o que aconteceu é simples: lançaram milhões de exemplares de grandes clássicos da literatura universal com traduções ou trechos de traduções legítimas, mas dando os créditos a outros nomes, como fábio m. alberti, enrico corvisieri, mirtes ugeda coscodai, carmen lia lomonaco, roberto nunes whitaker, maria cristina figueiredo da silva, e mais um monte de gente, num franco procedimento plagiarista.

então, o que posso dizer? se shozi ikeda, o diretor administrativo-financeiro da nova cultural, não está a par, ele bem que pode consultar os livros contábeis e de controle interno, onde devem estar registrados os pagamentos, devem estar mencionados os títulos das despesas, arquivados os recibos e as autorizações de pagamento à tesouraria, e assim por diante. numa dessas, quem sabe ele até encontra os contratos de cessão dos direitos patrimoniais dessas supostas traduções.

se a publisher sra. janice florido, ex-diretora editorial da nova cultural, não lembra, o que posso dizer? que talvez não seja tão eficiente quanto a imagem que pretendeu passar para a siciliano (a qual foi vendida poucas semanas atrás para a saraiva) e para a ediouro, que a contratou para seu braço paulista.

se eliel silveira cunha, o editor de tantas obras na época, junto com a coordenadora geral sra. janice florido, nem fazia idéia de onde vinham as traduções, bom.... com um pessoal desmiolado como esse, até admira que a nova (in)cultural tenha conseguido publicar alguma coisa!

mas o ponto em questão não é este, de maneira alguma.
se os principais encarregados da época não sabem, não lembram, pouco vem ao caso.
seus atuais empregadores é que decidam o que haverão de fazer com funcionários assim.

meu ponto é: lembrem ou não, saibam ou não, queiram ou não, foram vendidos (quer dizer, pagos por cidadãos brasileiros na boa fé) milhões de exemplares de obras traduzidas por mario quintana, araújo nabuco, eugênio vieira, ascendino leite, lígia junqueira, carlos porto carreiro, luiz costa lima e tantos outros, mas, com maiores ou menores alterações superficiais, como se fossem de um roberto nunes whitaker, carmen lia lomonaco, fernando corrêa fonseca, alberto maximiliano e por aí afora.

meu ponto é que pessoas desembolsaram dinheiro comprando uma coisa que, na verdade, era outra. e que essas edições se apropriaram, pelo menos em dois casos, de obras que já estão em domínio público, recriando, sob novo nome, o direito exclusivo para a nova cultural de exploração comercial privada de algo que já é de toda a sociedade.

e que uma parte desse dinheiro embolsado pela nova cultural, por algum acordo qualquer negociado pela sra. janice florido e pelos altos dirigentes da nova cultural, foi para o instituto ecofuturo, ong da própria parceira deles, a suzano celulose, para abastecer uma campanha chamada "ler é preciso", voltada para escolas e bibliotecas.

gente, mais que ler, é preciso saber, lembrar e respeitar.

imagens: claudia67, flickr.com; www.joeduhclown.com

2 de jan. de 2009

a ver

o problema dos plágios da nova cultural na coleção obras-primas, publicada em parceria com a suzano celulose, havia sido encaminhado ao departamento jurídico do instituto ecofuturo. o instituto ecofuturo é a ong beneficiária de 1% do faturamento com as vendas da referida coleção, verba esta que seria aplicada na campanha "ler é preciso" do dito instituto.



como não se trata de dinheiro 100% lícito, o ecofuturo e a campanha "ler é preciso" se viram em posição delicada, tanto mais que o padrinho da iniciativa, o bibliófilo josé mindlin, havia se manifestado contra a prática de plágio.

[relatei esses contatos com a ecofuturo aqui.]

agora recebo informação da diretoria da entidade: foi enviada carta à nova cultural solicitando esclarecimentos. em resposta, a editora entrou em contato com a ong para marcar uma reunião.

a ver.


imagens: http://www.obrasprimas.com.br/; smiley, rolleyes.

30 de dez. de 2008

trivia II

ainda nas sarjetas. como disse, não que isso acrescente muita coisa, só dá um certo colorido. o monstrengo covacultural/suzano das pseudo-obras-primas teve seu lançamento alardeado com todas as trombetas em agosto de 2002. dona janice da nova cultural e dona christine do instituto ecofuturo já vinham alardeando desde 2000 o grande feito da democratização cultural que iriam promover. trataram das verbas, dos contratos, dos percentuais, só se esqueceram de uma coisa: as obras que lhes garantiriam o rico dinheirinho dos papalvos que, ao comprar tal coleção, acreditavam na promessa de estar migrando automaticamente para o mundo da alta literatura. os livrecos já estavam nas bancas, quando a nó cultural* mandou seus releases brasil afora e a revista veja, do caridoso irmão roberto civita, deu uma colher de chá e publicou o teor da tal coleção que resgataria os oprimidos e humilhados de sua triste condição de sub-aculturados. o curioso neste release da nova (in)cultural/suzano publicado pela revista veja e reproduzido em vários outros veículos é que boa parte dele não corresponde ao que foi efetivamente (e fraudulentamente) publicado na coleção obras-primas da nova (in)cultural/suzano. pois vejam o que ela anunciava em seu release e o que fato aconteceu (sem falar dos plágios, apenas das trapalhadas na grande imprensa) - repito, o release foi publicado depois do lançamento dos primeiros volumes, quando seria de se supor que a coleção já estaria definida: - crime e castigo sairia em nome de natália nunes; saiu anônimo; - o leopardo sairia em nome de calvin carruthers (é, aquele mesmo dos filmes de terror); saiu em nome do barato trocadilho de leonardo codignoto; - tom sawyer deveria sair em tradução de "terezinha monteiro" [leia-se therezinha monteiro deutsch]; saiu no nome legítimo de luísa derouet - talvez contrafação, mas não plágio; - morte em veneza e tonio kroeger, de thomas mann, que sairiam em nome de calvin carruthers, mais uma vez, foram substituídos de última hora por as três irmãs, de tchecov, na tradução autêntica de maria jacintha; - o morro dos ventos uivantes, que sairia em nome de uma tal "dirce tashima sato", acabou saindo em nome de outra igual desconhecida "silvana laplace"; - o pobre pirandello do falecido mattia pascal e dos seis personagens, com fraude anunciada em nome de "enrico corvisieri", acabou saindo na fraude de "fernando corrêa fonseca"; - tom jones que, na ciranda bandida da cova cultural, deveria sair em nome de uma desconhecida "lucília trindade", acabou saindo no nome de outro ilustre fantasma, "jorge pádua conceição";
- werther e fausto de goethe, anunciados neste release em nome do tal fábio maximiliano alberti, acabaram saindo com o criativo pseudônimo de alberto maximiliano; - tentaram impingir a fraude de naná a vera maria renoldi, figura de carne e osso, que por alguma razão foi substituída de última hora pelo fantasmagórico roberto valeriano; - há também o ridículo caso das tragédias de shakespeare, anunciadas no release em nome de paranhos touceiros: foram publicadas na tradução legítima de beatriz viégas-farias, após uma falcatrua indizível que a nova cultural plantou em cima da lpm que, bobamente, lhes cedeu a bela tradução de beatriz em troca das ridículas fraudes de fábio alberti e enrico corvisieri; - dorian gray, que a nova (in)cultural anunciou em tradução de oscar mendes, acabou publicado em nome do inefável enrico corvisieri; - anunciada a publicação de ilusões perdidas em todos os meios de comunicação do país; a nova (in)cultural na última hora deu para trás sem qualquer explicação e lançou mais uma fraude em nome de enrico corvisieri, com a mulher de trinta anos. UFA! eis aqui o release divulgado pela revista veja: http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/210802/obras_primas.html o ponto é que nem a própria equipe da dona janice parecia saber o que estava fazendo. a questão era só financeira, no maior improviso de revirar os baús herdados. então montaram um release todo atrapalhado, meio à balda, com atribuições aleatórias dos créditos - depois que a coleção já havia sido lançada. tipo, nóis fais e depois vê o que é que vira. este é o conceito cultural de democratização cultural da nova cultural e do instituto ecofuturo. vixe, é cultura demais para meu caminhãozinho!

* de novo agradeço ao anônimo colaborador do blog a adequada alcunha.

imagens: till eulenspiegel, www. erich_hat_jetzt_zeit.de

29 de dez. de 2008

trivia I


não que faça muita diferença, mas vão aí uns rudimentos sobre a construção de "pseudônimos".

começa assim: a cova cultural* resolve publicar a toque de caixa uma coleção tirada do baú, "obras-primas", um monstrengo montado a partir de vários pedaços de coleções anteriores da abril cultural, com o patrocínio da suzano celulose bancando 50% da edição.

ela descobre que não detém os direitos de publicação de boa parte dos títulos, mas não vai se deixar desacorçoar por um detalhe desses. fácil, é só trocar os nomes dos verdadeiros tradutores por outros nomes, alguns de gente de verdade, outros inventados. afinal, que diferença faz... (isso me lembra o que me contaram do editor da claret num encontro que ele teve com uma das inúmeras editoras lesadas: "ué, mas por que tanta história? é só uma tradução, é tudo a mesma coisa!")

e assim fábio m. alberti, um fulaninho de carne e osso, assina o terceiro volume da coleção, a divina comédia, inaugurando o capítulo das fraudes na coleção covaculturaliana. é o terceiro volume, mas digo que é ele que inaugura porque os volumes anteriores (dom quixote e os trabalhadores do mar) trazem as traduções em domínio público dos dois viscondes e de machado de assis.

aí dona janice resolve pular o nome da tradutora natália nunes no quarto volume, e no quinto volume ressurge o mesmo fábio m. alberti, agora em cyrano de bergerac. todos hão de convir que não são as obras mais banais do mundo, e que o tal fábio foi trêfego e ligeirinho em abocanhar essas iguarias.
[em tempo, o m. é de "maximiliano": fábio maximiliano alberti.]

seguem-se alguns enricos corvisieris, umas mirtes ugedas, e lá pelas tantas a turminha bem-humorada das cobras-primas fica indecisa sobre o nome a atribuir às traduções de fausto e werther, em substituição aos nomes de silvio meira e galeão coutinho.

é então que tiram do chapéu um tal "alberto maximiliano" para ornar o volume de goethe nas obras-primas cova-culturais. em vista do exposto acima, a fonte de inspiração dispensa maiores esclarecimentos.

uma outra solução, mais indireta, mas também mais zombeteira, foi a que a divertida trupe deu ao sumiço de rui cabeçadas nos créditos de tradução de o leopardo: criou-se o espectral leonardo codignoto. o processo mental não é difícil de acompanhar, mas é como uma piada: se explicar, perde a graça, e o leitor certamente entenderá a composição do trocadilho.

já no nível do puro escárnio foi a utilização do nome "calvin carruthers". esse caso saiu na matéria do prosa&verso do globo, mas vou repetir aqui.

calvin carruthers aparece como tradutor de a metamorfose do kafka nessas obras covaculturais. aviso que não fui atrás dessa tradução, não sei se é plágio ou deixa de ser, mas o uso do nome de fantasia por si só já dá um certo pano para a manga.

bom, qualquer criança sabe que o protagonista do livro se chama gregor samsa. e de que rincão do mundo algum desinfeliz resolveu desenterrar o nome de "calvin carruthers" como tradutor das vicissitudes de gregor samsa?

aí, por mero acaso, você sabe que um ator chamado vic tayback fez em 1971 um filme de horror chamado blood and lace, onde representava o papel de um detetive chamado "calvin carruthers". e sabe também que no último filme do tayback antes de morrer, em 1990, seu personagem se chamava george samsa. (quem gostar dessas curiosidades, pode ver a filmografia dele.) aqui o processo mental da turminha covaculturaliana é mais elaborado, com uma triangulação das referências, mas nada muito complicado. o complicado é o despudor com que se exibe o prazer pelo escárnio.

a clara sensação que a gente tem é de uma criançada pintando o diabo a quatro e achando suas molecagens muito espertas e engraçadas. o problema é quando as pequenas travessuras se põem a serviço de uma prática editorial desonesta, que atinge milhões de pessoas. aí perdem qualquer graça.

*agradeço ao comentarista anônimo deste blog o bem-azado apelido de cova cultural.

imagem: cordel sobre o plágio, www.globoonliners.com.br