8 de mai de 2009

o hiperbóreo nos trópicos


Prólogo

Conheço demasiado bem as condições em que alguém me compreende e, além disso, com necessidade me compreende. Há que ser íntegro até à dureza nas coisas de espírito para aguentar a minha seriedade e a minha paixão; estar afeito a viver nas montanhas, a ver abaixo de si o mesquinho charlatanismo actual da política e do egoísmo dos povos. Importa ter-se tornado indiferente, é preciso nunca perguntar se a verdade é útil, se chegará a ser uma fatalidade... Necessária é também uma preferência da força por questões a que hoje ninguém se atreve; a coragem para o proibido; a predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para uma nova música. Olhos novos para o mais longínquo. Uma consciência nova para verdades que, até hoje, permaneceram mudas. E uma vontade de economia de grande estilo: reter conjuntamente a sua força, o seu entusiasmo... O respeito por si mesmo, o amor-próprio, a liberdade incondicional para consigo...
Pois bem, só esses são os meus leitores, os meus autênticos leitores, os meus predestinados leitores: que importa o resto? O resto é simplesmente a Humanidade. Há que ser superior à humanidade em força, em grandeza de alma – e em desprezo...

7.
Chamam ao Cristianismo a religião da compaixão. A compaixão está em contradição com as emoções tónicas, que elevam a energia do sentimento vital; a compaixão tem uma acção depressiva. Quando alguém se compadece, perde a força. Pela compaixão aumenta-se e multiplica-se o desperdício de energia que o sofrimento, por si próprio, já traz à vida. O próprio sentimento torna-se, pela compaixão, infeccioso; em determinadas circunstâncias pode chegar-se a um desperdício global de vida e de energia vital, que se encontra numa relação absurda com o quantum da causa (o caso da morte do Nazareno). Eis o primeiro ponto de vista; mas existe outro ainda mais importante. Supondo que se mede a compaixão pelo valor das reacções que costuma suscitar, surge ainda mais claramente o seu carácter nocivo à vida. A traços largos, a compaixão contradiz a lei da evolução, que é a lei da selecção. Conserva o que está maduro para o declínio, luta em prol dos deserdados e dos condenados pela vida; e, pela abundância dos falhados de toda a espécie, que mantém vivos, confere à própria vida um aspecto lúgubre e duvidoso. Ousou-se mesmo chamar virtude à compaixão (em qualquer moral nobre surge como fraqueza); foi-se mais longe, fez-se dela a virtude, o solo e a origem de todas as virtudes – só que, e é necessário não o esquecer, a partir do ponto de vista de uma filosofia que era niilista, que inscrevia como divisa no seu escudo a negação da vida. Schopenhauer tinha razão ao dizer: «A vida é negada pela compaixão, a compaixão torna a vida ainda mais digna de ser negada » – compadecer-se é a prática do niilismo. Uma vez mais: este instinto depressivo e contagioso contradiz os instintos de conservação e de valorização da vida: como multiplicador da miséria, mais ainda como conservador de todos os míseros, é um instrumento essencial na acentuação da décadence; a compaixão incita ao nada!... Não se diz «nada»: menciona-se em seu lugar «o além», ou «Deus», ou «a verdadeira vida»; ou ainda Nirvana, redenção, beatitude... Esta inocente retórica, proveniente do domínio da idiossincrasia religiosa e moral, revela-se logo muito menos inocente quando se elucida qual a tendência que ali se abriga, sob o manto de sublimes palavras: a tendência hostil à vida. Schopenhauer era inimigo da vida; por isso, a piedade transformou-se para ele numa virtude... Aristóteles, como se sabe, via a compaixão num estado mórbido e perigoso, que seria útil extirpar de quando em quando por meio de um purgante: para ele, o purgante era a tragédia. Em nome do instinto vital, deveria efectivamente arranjar-se um meio de enfraquecer essa acumulação de piedade, tão mórbida e nociva, como se nos depara no caso de Schopenhauer (e, infelizmente, também no de toda a nossa décadence literária e artística, desde S. Petersburgo a Paris, de Tolstoi a Wagner): que rebente... Nada de mais insalubre, no meio da nossa insalubre modernidade, do que a nossa compaixão cristã. É aí que importa ser médico, é que é preciso ser implacável e manejar o escalpelo – eis o que nos incumbe, eis a nossa filantropia, eis o que nos faz filósofos, a nós, hiperbóreos!

31
Deveria lamentar-se que um Dostoievsky não tenha vivido na proximidade deste interessantíssimo décadent, quero dizer, alguém que soubesse sentir justamente o fascínio comovente de uma tal mescla de sublime, de doentio e infantil. Um último ponto de vista: o tipo, enquanto tipo de décadence, poderia efectivamente ter sido de uma peculiar multiplicidade e contrariedade: tal possibilidade não deve de todo excluir-se. Não obstante, dela tudo parece dissuadir-nos: a tradição deveria neste caso ser notavelmente fiel e objectiva; temos a seu respeito razões para admitir o contrário. Entretanto, há uma contradição entre o pregador das montanhas, dos lagos e dos prados, cuja manifestação é como a de um Buda num terreno muito pouco indiano, e aquele fanático da agressão e inimigo mortal dos teólogos e dos sacerdotes, que a malícia de Renan exaltou como «le grand maître en ironie». Eu próprio não duvido de que a copiosa dose de fel (e até de esprit) foi derramada sobre o tipo do Mestre só em virtude do estado de agitação da propaganda cristã: conhece-se sobejamente a falta de escrúpulos de todos os sectários em aprontar a sua própria apologia a partir do seu mestre. Quando a primeira comunidade precisou de um teólogo justiceiro, querelante, tempestuoso, perversamente capcioso contra os teólogos, criou para si o seu «Deus», segundo as suas necessidades: assim como também lhe pôs, sem hesitação, na boca os conceitos de todo contrários ao Evangelho, que agora não poderia dispensar, a «segunda vinda» [de Cristo], o «Juízo Final», toda a espécie de esperança e promessa temporais.

nietzsche, o anticristo
a elegante tradução acima é da autoria de artur morão, pelas edições 70.

a autoria da "tradução" abaixo é atribuída pela editora rideel ao nome de heloísa da graça burati.
 [não que o fervor nietzscheano pelos itálicos tenha sido muito respeitado.]

Prólogo
Conheço muito bem as condições em que alguém me compreende, aquelas sob as quais sou necessariamente compreendido. Há que ser íntegro até às últimas consequências nas coisas de espírito para aguentar a minha seriedade e a minha paixão; estar afeito a viver nas montanhas, a ver abaixo de si o mesquinho charlatanismo atual da política e do egoísmo dos povos. É importante ter-se tornado indiferente, é preciso nunca perguntar se a verdade é útil, se chegará a ser uma fatalidade... Necessária é também uma preferência da força por questões a que hoje ninguém se atreve; a coragem para o proibido; a predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para uma nova música. Olhos novos para o mais longínquo. Uma consciência nova para verdades que, até hoje, permaneceram mudas. E uma vontade de economia de grande estilo: reter conjuntamente a sua força, o seu entusiasmo... O respeito por si mesmo, o amor-próprio, a liberdade incondicional para consigo...
Pois bem, só esses são os meus leitores, os meus autênticos leitores, os meus predestinados leitores: que importa o resto? O resto é simplesmente a Humanidade. Há que ser superior à humanidade em força, em grandeza de alma – e em desprezo...

7.
Chamam ao cristianismo a religião da compaixão. A compaixão, porém, é a contradição das emoções tónicas, que aumentam a energia do sentimento vital; a compaixão tem uma ação depressiva. Quando alguém se compadece, perde a força. Pela compaixão aumenta-se e multiplica-se o desperdício de energia que o sofrimento, por si próprio, já traz à vida. O próprio sentimento torna-se, pela compaixão, infeccioso: em determinadas circunstâncias pode chegar-se a um desperdício global de vida e de energia vital, que se encontra numa relação absurda com o quantum da causa (o caso da morte do Nazareno). Eis o primeiro ponto de vista; mas existe outro ainda mais importante. Medindo-se a compaixão pelo valor das reações que costuma suscitar, surge ainda mais claramente o seu caráter nocivo à vida. A compaixão contradiz completamente a lei da evolução, que é a lei da seleção natural. Conserva o que está maduro para o declínio, luta em prol dos deserdados e dos condenados pela vida; e, pela abundância dos fracassados de toda a espécie que mantém vivos, confere à própria vida um aspecto lúgubre e duvidoso. Ousou-se mesmo chamar virtude à compaixão (em qualquer moral superior surge como fraqueza); foi-se mais longe, fez-se dela a virtude, o solo e a origem de todas as virtudes – só que, e é necessário não o esquecer, a partir do ponto de vista de uma filosofia que era niilista, que inscrevia como divisa no seu escudo a negação da vida. Schopenhauer tinha razão ao dizer:
«A vida é negada pela compaixão, a compaixão torna a vida ainda mais digna de ser negada » – compadecer-se é praticar o niilismo. Uma vez mais: esse instinto depressivo e contagioso contradiz os instintos de conservação e de valorização da vida: como multiplicador da miséria, mais ainda como conservador dos miseráveis, é um instrumento essencial na acentuação da décadence; a compaixão incita ao nada!... Não se diz «nada»: menciona-se em seu lugar «o além», ou «Deus», ou «a verdadeira vida»; ou ainda Nirvana, redenção, beatitude... Esta inocente retórica, proveniente do domínio da idiossincrasia religiosa e moral, revela-se logo muito menos inocente quando se elucida qual a tendência que ali se abriga, sob o manto de sublimes palavras: a tendência hostil à vida. Schopenhauer era inimigo da vida; por isso, a piedade transformou-se para ele numa virtude... Aristóteles, como se sabe, via a compaixão como um estado mórbido e perigoso, que seria útil extirpar de quando em quando por meio de um purgante: para ele, o purgante era a tragédia. Em nome do instinto vital, deveria efetivamente arranjar-se um meio de espetar essa acumulação de piedade, tão mórbida e nociva, como [] no caso de Schopenhauer (e, infelizmente, também no de toda a nossa décadence literária e artística, desde São Petersburgo a Paris, de Tolstói a Wagner): que estoure... Nada é mais insalubre, em meio à nossa insalubre modernidade, do que a nossa compaixão cristã. É aí que importa ser médico, é aí que é preciso ser implacável e manejar o escalpelo – eis o que nos incumbe, eis a nossa filantropia, eis o que nos faz filósofos, a nós, hiperbóreos!

31.
Deveria lamentar-se que um Dostoiévski não tenha vivido na proximidade deste interessantíssimo décadent, quero dizer, alguém que soubesse sentir justamente o fascínio comovente de uma tal mescla de sublime, doentio e infantil. Um último ponto de vista: o tipo, enquanto tipo de décadence, poderia efetivamente ter sido de uma peculiar multiplicidade e contrariedade: tal possibilidade não deve ser excluída totalmente. Não obstante, dela tudo parece dissuadir-nos: a tradição deveria, neste caso, ser notavelmente fiel e objetiva; temos a seu respeito razões para admitir o contrário. Entretanto, há uma contradição entre o pregador das montanhas, dos lagos e dos prados, cuja manifestação é como a de um Buda num terreno muito pouco indiano, e aquele fanático da agressão e inimigo mortal dos teólogos e dos sacerdotes, que a malícia de Renan exaltou como «le grand maître en ironie». Eu próprio não duvido de que a copiosa dose de fel (e até de esprit) foi derramada sobre o tipo do Mestre apenas em virtude do estado de agitação da propaganda cristã: a falta de escrúpulos de todos os sectários em aprontar a sua própria apologia a partir do seu mestre é mais do que conhecida. Quando a primeira comunidade precisou de um teólogo justiceiro, querelante, tempestuoso, perversamente capcioso contra os teólogos, criou para si o seu «Deus», segundo as suas necessidades: assim como também lhe pôs na boca, sem hesitação, os conceitos completamente contrários ao Evangelho, que agora não poderia ser dispensado, a «segunda vinda» [de Cristo], o «Juízo Final», toda a espécie de esperança e promessa temporais.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagens: título em manuscrito; munch, nietzsche, 1906

4 comentários:

  1. Olá, Denise.

    Fizemos um post sobre o péssimo trabalho que a editora Landmark vem fazendo com o lançamento das obras da Jane Austen (e possivelmente de outros autores, o que não posso comprovar mas suspeito).

    Citamos o excelente artigo que você fez sobre a "tradução" (ênfase nas aspas) de Persuasão, e o motivo do meu comentário é justamente esse: te agradecer por esse excelente serviço que presta, voluntariamente, aos consumidores de livros.

    Não tem essa de se sentir "Denise, a caçadora de fraudóides", como você diz. O que você faz aqui contribui diretamente para que o mercado editorial brasileiro se acerte e não siga os exemplos infaustos da Landmark e, pior ainda, da Martin Claret.

    O post é esse aqui:

    http://9sfora.wordpress.com/2009/05/08/jane-austen-em-maos-erradas/


    É isso. Um abraço.

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  2. é isso ai: tb não gosto de plágio.
    aliás, eu agrido plagiadores!

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  3. José Roberto Balestra8.5.09

    Bom dia, Denise.

    Com imensa sastisfação conheci hoje seu blog e um pouco de sua grande luta contra os plágios.

    Meus parabéns pelo empenho! Sei que não lhe deve ser fácil a luta, mas a recompensa certamente é única.

    Denise, moro em Maringá (PR), sou um ignoto escritor-amador e blogueiro também. Meu blog A BALESTRA tem uma linha editorial voltada para os livros, músicas e outras formas de artes, mas procuro prestigiar os "esquecidos"
    pela mídia, pelas editoras, pelas rádios, tvs, etc. Há muita coisa linda acontecendo nessas áreas em nossa terra-brasilis, e que não vem à tona para o grande público!

    Às vezes também procuro prestigiar obras de escritores estrangeiros... Mas a preocupação maior é com os nacionais.

    Denise, sempre que escrevo um post tenho grande preocupação em citar a fonte do escrito apontado, de uma fotografia, uma música, um quadro, etc.

    Tenho grande sentimento quando vejo uma música sendo divulgada na net, nas rádios ou tvs, apenas como sendo de determinado intérprete, sem se dar nenhuma atenção ao "compositor", que é o verdadeiro artista, a meu ver.

    Por isso, perfilo-me com você nessa luta.

    Sou um fã-de-carteirinha de Guimarães Rosa, a quem ano passado fim uma homenagem de um mês em meu blog. Mas todas as citações que lá fiz tiveram os créditos, seja de textos, seja de imagens...

    Também sou fã do rei Roberto Carlos, mas achei imperdoável aquele plágio que ele e Erasmo fizeram na música "O CARETA", de autoria do compositor carioca Sebastião Maia. E o rei ainda ficou se servindo de todos os recursos judicias para não pagar o compositor... Fosse eu, com o prestígio do Rei, teria humildemente reconhecido o plágio, indenizado o autor, e ainda com certeza contabilizaria novos fãs...

    Desculpe tomar tanto de seu tempo. Mais uma vez meus parabéns pela luta que pode parecer quixoteana, mas não é não! É muito digna sua luta!

    abs

    José Roberto Balestra

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  4. Rideel??? Essa é outra!

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