5 de mai de 2009

por falar em verdade e mentira

a editora rideel está há quase 40 anos no mundo editorial, segundo o que consta em seu site: carrega uma história de sucesso e evolução, possui mais dois selos editoriais e mantém uma louvável iniciativa de fomento à literatura entre as crianças. seu catálogo na fundação biblioteca nacional parece bastante sólido, com inúmeras obras de direito e de literatura infantil. o responsável pela editora, sr. italo amadio, ocupa uma das diretorias da câmara brasileira do livro, com seu programa de transparência e desenvolvimento do livro no país.

então fiquei assombrada ao tropeçar nisso aqui, em tradução (diz a editora) feita por "heloísa da graça burati".

Acerca da Verdade e da Mentira

Num certo canto remoto do universo cintilante, vertido em incontáveis sistemas solares, havia uma vez um astro onde animais inteligentes inventaram o conhecimento Foi o minuto mais soberbo e hipócrita da «história mundial», mas foi apenas um minuto. Depois de a natureza ter respirado umas poucas vezes, o astro enregelou e os animais inteligentes tiveram de morrer. Assim, alguém poderia inventar uma fábula como esta e, no entanto, não ficaria suficientemente esclarecido quão lastimável, quão obscuro e fugidio, quão desprovido de finalidade e arbitrário se apresenta o intelecto humano no interior da natureza. Eternidades houve em que ele não existia; quando ele tiver de novo desaparecido, nada se terá alterado. Pois para este intelecto não há outra missão que transcenda a vida humana. Antes, pelo contrário, ele é humano, e só o seu dono e progenitor o encara tão pateticamente como se ele fosse o eixo à volta do qual gira o mundo. Mas se nós conseguíssemos comunicar com um mosquito, saberíamos que também ele paira neste ambiente com a mesma presunção e se sente como centro voador deste mundo. Na natureza não há nada de tão censurável e limitado que não se inchasse qual tubo insuflável por meio de um pequeno sopro dessa força do conhecimento; e tal como todo e qualquer carregador ambiciona ter o seu admirador, assim o homem mais orgulhoso, o filósofo, julga ver de todos os lados os olhares do universo, quais telescópios dirigidos para o seu agir e pensar.
[...] Que é que o homem no fundo sabe acerca de si mesmo? Sim, se ele conseguisse, ao menos uma vez, percepcionar-se completamente como se estivesse metido num expositor de vidro iluminado! Não é que a natureza lhe oculta a maior parte das coisas, mesmo sobre o seu corpo, para banir e fixá-lo longe das dobras intestinais, longe do rápido fluir da corrente sanguínea e dos estremecimentos emaranhados das fibras, numa consciência orgulhosa e malabarista! A natureza deitou fora a chave e ai da fatídica curiosidade que conseguisse, através de uma fenda, olhar para fora e para baixo da câmara da consciência e [] pressentir que o homem assenta no impiedoso, no sôfrego, no insaciável, no homicida, na indiferença do seu não saber e como que suspenso em sonhos preso nas costas de um tigre. De onde, com os diabos, vem nesta constelação o impulso da verdade?
[...] Que é então a verdade? Um exército móvel de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso, parecem a um povo fixas, canônicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal.
[...] Quem for tocado por essa exalação fria mal acreditará que também o conceito, descarnado e octogonal como um dado e deslocável como este, apesar de tudo, é como o resíduo de uma metáfora e que a ilusão da transposição artística de uma estimulação nervosa em imagens é, se não a mãe, pelo menos a avó de todo o conceito. Neste jogo de dados dos conceitos, chama-se porém «verdade» o utilizar cada dado tal como é designado, o contar rigorosamente os seus pontos, formar rubricas corretas e nunca subverter a ordem das castas e a seqüência das classes hierárquicas. Assim como os romanos e os Etruscos dividiam o céu através de rígidas linhas matemáticas e num espaço de tal forma delimitado, como um templo, fixavam um deus, assim também cada povo tem sobre ele um céu de conceitos semelhantes, matematicamente dividido e, por exigência da verdade, compreende agora o fato de cada deus conceptual apenas dever ser procurado na sua esfera.
[...] O investigador de tais verdades não procura, no fundo, senão a metamorfose do mundo no homem, ele luta por um compreender do mundo como coisa antropomórfica e consegue, no melhor dos casos, o sentimento de uma assimilação. De modo semelhante ao astrólogo, que observa as estrelas ao serviço do homem e em conexão com a sua felicidade e sofrimento, um tal investigador considera o mundo inteiro como vinculado ao homem, como a ressonância infinitamente modulada de um som originário, o do homem, como a cópia múltiplas vezes reproduzida de uma imagem originária, a do homem. O seu procedimento é tomar o homem como medida de todas as coisas: desse modo, no entanto, ele parte do erro de acreditar que tem essas coisas imediatamente perante si, como puros objetos. Esquece [] as metáforas intuitivas originais enquanto metáforas e toma-as pelas próprias coisas.

pois, até onde consigo ver e entender, trata-se de uma cópia fiel, apenas abrasileirada, da edição da relógio d'água, na tradução do seminário de estudos coordenado por helga hoock quadrado, docente da universidade de lisboa e integrante do goethe-institut de portugal:

Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral

Num certo canto remoto do universo cintilante vertido em incontáveis sistemas solares havia uma vez um astro onde animais inteligentes inventaram o conhecimento Foi o minuto mais soberbo e hipócrita da «história mundial», mas foi apenas um minuto. Depois de a natureza ter respirado umas poucas vezes, o astro enregelou e os animais inteligentes tiveram de morrer. Assim, alguém poderia inventar uma fábula como esta e, no entanto, não ficaria suficientemente esclarecido quão lastimável, quão obscuro e fugidio, quão desprovido de finalidade e arbitrário se apresenta o intelecto humano no interior da natureza. Eternidades houve em que ele não existia; quando ele tiver de novo desaparecido, nada se terá alterado. Pois para este intelecto não há outra missão que transcenda a vida humana. Antes pelo contrário ele é humano, e só o seu dono e progenitor o encara tão pateticamente como se ele fosse o eixo à volta do qual gira o mundo. Mas se nós conseguíssemos comunicar com um mosquito, saberíamos que também ele paira neste ambiente com a mesma presunção e se sente como centro voador deste mundo. Na natureza não há nada de tão censurável e limitado que não se inchasse qual tubo insuflável por meio de um pequeno sopro dessa força do conhecimento; e tal como todo e qualquer carregador ambiciona ter o seu admirador, assim o homem mais orgulhoso, o filósofo, julga ver de todos os lados os olhares do universo, quais telescópios dirigidos para o seu agir e pensar.
[...] Que é que o homem no fundo sabe acerca de si mesmo? Sim, se ele conseguisse ao menos uma vez percepcionar-se completamente como se estivesse metido num expositor de vidro iluminado! Não é que a natureza lhe oculta a maior parte das coisas, mesmo sobre o seu corpo, para banir e fixá-lo longe das dobras intestinais, longe do rápido fluir da corrente sanguínea e dos estremecimentos emaranhados das fibras, numa consciência orgulhosa e malabarista! A natureza deitou fora a chave e ai da fatídica curiosidade que conseguisse, através de uma fenda, olhar para fora e para baixo da câmara da consciência e que agora pressentia que o homem assenta no impiedoso, no sôfrego, no insaciável, no homicida, na indiferença do seu não saber e como que suspenso em sonhos preso nas costas de um tigre. De onde, com os diabos, vem nesta constelação o impulso da verdade?
[...] Que é então a verdade? Um exército móvel de metáforas, de metonímias, de antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram poética e retoricamente intensificadas, transpostas e adornadas e que depois de um longo uso parecem a um povo fixas, canónicas e vinculativas: as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal.
[...] Quem for tocado por essa exalação fria mal acreditará que também o conceito, descarnado e octogonal como um dado e deslocável como este, apesar de tudo, é como o resíduo de uma metáfora e que a ilusão da transposição artística de uma estimulação nervosa em imagens é, se não a mãe, pelo menos a avó de todo o conceito. Neste jogo de dados dos conceitos, - chama-se porém «verdade» o utilizar cada dado tal como é designado, o contar rigorosamente os seus pontos, formar rubricas correctas e nunca subverter a ordem das castas e a sequência das classes hierárquicas. Assim como os Romanos e os Etruscos dividiam o céu através de rígidas linhas matemáticas e num espaço de tal forma delimitado, como um templo, fixavam um deus, assim também cada povo tem sobre ele um céu de conceitos semelhantes e matematicamente dividido e, por exigência da verdade, compreende agora o facto de cada deus conceptual apenas dever ser procurado na sua esfera.
[...] O investigador de tais verdades não procura no fundo senão a metamorfose do mundo no homem, ele luta por um compreender do mundo como coisa antropomórfica e consegue, no melhor dos casos, o sentimento de uma assimilação. De modo semelhante ao astrólogo que observa as estrelas ao serviço do homem e em conexão com a sua felicidade e sofrimento, um tal investigador considera o mundo inteiro como vinculado ao homem, como a ressonância infinitamente modulada de um som originário, o do homem, como a cópia múltiplas vezes reproduzida de uma imagem originária, a do homem. O seu procedimento é tomar o homem como medida de todas as coisas: desse modo, no entanto, ele parte do erro de acreditar que tem essas coisas imediatamente perante si, como puros objectos. Esquece pois as metáforas intuitivas originais enquanto metáforas e toma-as pelas próprias coisas.

bom, em minha humilde opinião, aparentemente temos aí algo acerca da verdade e da mentira, mas não num sentido extramoral; muito ao contrário, pelos códigos que aprendi em casa quando criança, parece-me algo que pertence à esfera moral.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.





imagens: www.fnac.com.br; www.relogiodagua.pt

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