6 de mai de 2009

zola na babilônia

esta é para quem gosta de análise comparada. encontrei um artigo interessante escrito por ana cristina tavares e josé manuel lopes, da universidade lusófona, chamado "Crítica das Traduções Portuguesas de La Bête humaine de Émile Zola". está na revista babilónia, n. 5, pp. 9-42.

os pesquisadores examinam 6 traduções de a besta humana, entre 1912 e 1991. a primeira foi feita por henrique marques, sob o pseudônimo de pandemónio. foi publicada em 1912 (T1a) pela guimarães e reeditada em 1956 (T1b) pela mesma editora, apenas com atualização ortográfica e mínimas outras alterações. no mesmo ano de 1956, a editorial crisos lança uma outra (suposta) tradução, em nome de gil avelar (T2), que, para a surpresa dos pesquisadores, mostrou ser cópia da tradução atualizada de pandemónio. em 1967, a guimarães lança nova tradução, em nome de jorge reis, também praticamente idêntica à sua edição de 1956 (T3). apenas a partir de 1976 começam a surgir traduções efetivamente novas: europa-américa, com sampaio marinho, T4; civilização, daniel augusto gonçalves (1983), T5; círculo dos leitores, isabel st. aubyn (1991), T6.

por mera curiosidade, dei uma olhada nos trechos destacados pelos pesquisadores em seu artigo, e comparei as diversas soluções às dadas por eduardo nunes fonseca, na hemus (1982). reproduzo abaixo as passagens do artigo, interpolando em vermelho os trechos correspondentes na pretensa tradução de eduardo nunes fonseca. acho que a conclusão salta aos olhos, e dispensa maiores comentários.

Assim, no original: «elle pouvait rattraper la phrase» (p.1012) aparece em T1a e b como: «podia iludir a frase» (p.23).
HEMUS - podia iludir a frase (p. 14)
A mesma tradução é retomada em T2 e T3, e só em T4 temos «podia recuperar a frase» (p.19) e, em T5 «podia ter emendado a frase» (p.26) e, em T6 «ainda estava a tempo de retomar a frase» (p.22).

«Mais, continua-t-il, tu m’as toujours dit que c’était ta mére qui te l’avait laissée, cette bague» (p.1012) surge com um tom empolado em ambas as versões da tradução: «— Mas — continuou ele — tu disseste-me sempre que fora tua mãe quem te dera esse anel.» (T1a e b, p.23).
HEMUS - — mas, continuou ele, tu disseste-me sempre que fora tua mãe quem te dera esse anel. (p. 14)em T4 há uma ligeira alteração: «— Mas — prosseguiu ele — sempre me disseste que foi a tua mãe que te deixou esse anel.» (p.19); em T5 «— Mas — continuou ele, — tu tinhas-me sempre dito que fora tua mãe que te deixara esse anel.» (p.26); em T6 «— Mas — prosseguiu ele — sempre me disseste que herdaste esse anel da tua mãe.» (p.22).

«Qu
and ils reprirent haleine, hébétés, gonflés de cette horreur, las de frapper et d’être frappé, ils étaient revenus près du lit […]»
Assim, temos em T1a: «Quando retomaram a respiração, embrutecidos, tumefactos d’aquelle horror, cançados de espancar e de ser espancada, tinham voltado para junto da cama [...]» (p. 26) e, em T1b: «Quando retomaram a respiração, embrutecidos, tumefactos daquele horror, cansados de se espancar um ao outro, tinham voltado para junto da cama [...]» (p. 25).
HEMUS - Quando retomaram a respiração, embrutecidos, tumefatos daquele horror, cansados de se espancarem um ao outro, tinham voltado para junto da cama [...], p. 21T5 opta por outra alternativa: «Quando recuperaram fôlego, estupidificados, cheios daquele horror, ele cansado de bater e ela de apanhar, tinham voltado perto do leito [...]» (p.28)

«Nom de Dieu de garce! tu as couché avec.» (p.1013), é traduzido em T1a por: «Grandíssima desvergonhada! Então tu foste com ele!» (p. 24), e T1b: «Grandíssima desavergonhada! Então tu foste dele!» (p.24). O mesmo se verifica em T2 e T3.
HEMUS - - Grandíssima desavergonhada! Então estiveste com ele! (p. 20)
Só nas edições posteriores ao 25 de Abril de 1974 vamos encontrar traduções que não evitam dizer o que se afirma no original. Deste modo, em T4, de 1976, temos uma tradução que não evita «transpor» o que se afirma no original: «Rameira duma figa! Dormiste com ele!» (p.20). Em T5, de 1983, encontramos «Sua cabra de um raio! Tu foste para a cama com ele!» (p.27), e em T6, de 1991: «Que pega, meu Deus! Dormiste com ele!» (p.23). Note-se que na única tradução feita por uma mulher, a T6 de Isabel St. Aubyn, a expressão é mais contida e indirecta.

«aussi, parfois, allait-il trop loin, il écrasait les pétards, “les cors au pied”, comme on dit, ce qui lui avait valu deux fois des mises à pied de huit jours.» (p.1162). Em T1a e T1b, este segmento é traduzido do seguinte modo: «por isso, às vezes, ia longe demais, o que lhe valera ser suspenso por vinte dias.» (T1a, p.7, vol.2), e em T1b (p.183).
HEMUS – por isso, às vezes, ia longe de mais, o que lhe valera ser suspenso por vinte dias (p. 159).Como se poderá constatar não foi traduzida a sequência que colocava mais dificuldades. Em T3, como se trata frequentemente de uma cópia de T1, a frase mantém-se igual. Em T4, porém, há uma tentativa de a traduzir: «esmagava os petardos, “com asas nos pés”, como sói dizer-se, o que lhe valera por duas vezes ser suspenso por oito dias» (p.164). T5, no entanto, apresenta outra alternativa igualmente pouco apropriada: «esmagava os petardos, “os calos do pé” como lhes chamam, o que lhe tinha valido por duas vezes suspensões de oito dias.» (p.156). Finalmente, em T6, poderemos ler o seguinte: «esmagava os petardos, complementos dos sinais ópticos, o que lhe valera já duas suspensões de oito dias.» (p.197). Ora parece-nos que a solução apropriada deveria ter sido: «passava os sinais da linha a toda a pressa, com “asas nos pés”, como se costuma dizer, o que lhe valera já duas suspensões de oito dias».

«comme le sang mêlé de leurs coeurs» (p.1151) que aparece como «o sangue amalgamado dos seus corações» (T1a, p.193, e T1b, p.171).
HEMUS - como o sangue amalgamado dos seus corações (p. 149)
Contudo, algumas das dificuldades que o texto original colocava também não foram resolvidas. É disto exemplo a frase «comme le sang mêlé de leurs coeurs» (p.1151) traduzida por «tal como o sangue dos seus corações» (p.183).

«Mon mari a dû m’empoigner» (p.1204), traduzido em T1 como «meu marido teve que pegar em mim» (T1a, p.58, vol.2).
HEMUS - Meu marido teve que pegar-me (p. 197)
Só em T5 descobrimos uma solução mais apropriada: «meu marido deve ter-me agarrado» (p. 192), porém, em T6, voltamos a ter «o meu marido deve ter pegado em mim» (p.244).

«Chez Séverine, après la montée ardente de ce long récit, ce cri était comme l’épanouissement même de son besoin de joie, dans l’exécration de ses souvenirs. Mais Jacques, qu’elle avait bouleversé et qui brûlait comme elle, la retint encore.
— Non, non, attends...Et tu étais aplatie sur ses jambes, et l’as senti mourir?» (p.1204).
Em T1b temos :
«Em Severina, depois da confissão ardente do seu crime, aquele grito era como que a expansão máxima da sua necessidade de alegria, na execração das suas recordações. Mas Tiago, cujo espírito ela revolvera e que ardia como ela, reteve-a ainda.
— Não, não, espera... E tu, quando lhe estavas a carregar nas pernas, sentiste-lo morrer?»
(p.228).
HEMUS – Em Severina, depois da confissão ardente do seu crime, aquele grito era como que a expansão máxima da sua necessidade de alegria, na execração das suas recordações. Mas Tiago, cujo espírito ela revolvera e que ardia como ela, reteve-a ainda.
— Não, não, espera... E tu, quando lhe forçavas as pernas, sentiste-o morrer?» (pp. 197-8)
Nesta passagem verificamos não só um excesso de interpretação em que «récit» é traduzido por «crime», mas onde também se verifica, tal como constatámos anteriormente, uma tradução demasiado «presa» ao original. Examinemos, então, as outras soluções. Dado que T3 é uma cópia de T1, passemos a T4:
«Em Séverine, após o arrebatado afluxo desta longa confissão, este grito era como uma manifestação da sua necessidade de alegria, no meio da execração das suas recordações. Mas Jacques, que ela havia perturbado e que também ardia de desejo não a deixou terminar ali.
— Não, não, espera... E tu estavas deitada nas suas pernas e sentiste-o morrer?» (p.204).
Em T5 temos:
«Em Severina, depois da explosão ardente desta longa narrativa, aquele grito era como a própria expansão da sua necessidade de alegria, na execração das suas recordações. Mas Tiago, que ela tinha transtornado e que ardia como ela, reteve-a ainda.
— Não, não espera... Tu estavas então deitada sobre as pernas do velho e sentiste-o morrer?» (p. 192),
e em T6:
«Para Séverine, depois da progressão ardente desta longa narrativa, este desabafo traduzia a sua carência de alegria, na execração das negras recordações. Mas Jacques, ardente de desejo e perturbado pela confissão, insistiu mais uma vez:
— Não, não, espera... Estavas deitada sobre as suas pernas, sentiste-o morrer?» (p.244).

«Les dents serrées, n’ayant plus qu’un bégaiement, Jacques cette fois l’avait prise ; et Séverine aussi le prenait. Ils se possédèrent, retrouvant l’amour au fond de la mort, dans la même volupté douloureuse des bêtes qui s’éventrent pendant le rut. Leur souffle rauque, seul, s’étendit. Au plafond, le reflet saignant avait disparu ; et, le poêle éteint, la chambre commençait à se glacer, dans le grand froid du dehors. Pas une voix ne montait de Paris ouaté de neige. Un instant, des ronflements étaient venus de chez la marchande de journaux, à côté. Puis, tout s’était abîmé au gouffre noir de la maison endormie.» (p. 1205)
Em T1b, temos a seguinte tradução literal:
«Com os dentes cerrados, mal balbuciando, o Tiago desta vez apoderara-se dela; e a Severina também dele tomara posse. Possuiram-se encontrando o amor no fundo da morte, a mesma voluptuosidade dolorosa dos animais que se matam durante o cio. Só se lhes ouvia a respiração rouca. No tecto, o reflexo sangrento desaparecera; como o fogão se tivesse apagado, o quarto começava a gelar, no grande frio exterior. Nem uma voz subia de Paris acolchoada de neve. Por um instante, sentiram-se rouquidos vindos da casa da vendedora de jornais, ao lado. Depois tudo mergulhara no abismo negro da casa adormecida.» (p. 229).
HEMUS - Com os dentes cerrados, mal balbuciando, Tiago desta vez apoderara-se dela; e Severina também dele tomara posse. Possuíram-se encontrando o amor no fundo da morte, a mesma voluptuosidade dolorosa dos animais que se matam durante o cio. Só se lhes ouvia a respiração rouca. No tecto, o reflexo sangrento desaparecera; como o fogão se tivesse apagado, o quarto começava a gelar, no grande frio exterior. Nem uma voz subia de Paris acolchoada de neve. Por um instante, ouviram-se roncos vindos da casa da vendedora de jornais, ao lado. Depois tudo mergulhara no abismo negro da casa adormecida.» (p. 198)Como se poderá ver, só em T6 as passagens acima assinaladas adquirem um registo perfeitamente adequado à língua portuguesa: «De dentes cerrados, num leve sussurro, Jacques abraçara-a; e Sévérine também o enlaçava. Possuíram-se, reencontrando o amor no fundo da morte, na mesma volúpia dolorosa dos animais que se dilaceram durante o cio. Ouvia-se apenas uma respiração rouca. No tecto, desvanecera-se o reflexo sangrento; o lume extinguira-se e o quarto começava a gelar, penetrado pelo frio intenso do exterior. Não se ouvia uma voz, nas ruas de Paris, cobertas de neve. Na casa do lado, a vendedora de jornais ressonou por alguns momentos. Depois, mergulhou tudo no negro abismo do prédio adormecido.» (p.245).

«Ce ne fut que plus d’une heure après qu’on vint ramasser le cadavre de Flore.» (p.1274), traduzido por «Só passada mais de meia hora, é que vieram levantar o cadáver da Flora.» (p.301).
HEMUS - Só passada mais de meia hora é que vieram levantar o cadáver de Flora. (p. 261)Só a partir de T4 encontramos escolhas mais pertinentes: «Só mais de uma hora depois foram buscar o cadáver de Flore.» (T4, p.270); «Foi só passada mais de uma hora que vieram recolher o corpo de Flora.» (T5, p.252); «Só uma hora mais tarde vieram buscar o cadáver de Flore»
(T6, p.324).

«Au sortir du tunnel, il s’était efforcé de crier l’accident au gardien. Mais, à Barentin seulement, il avait pu raconter que quelqu’un venait de se faire couper là-bas : c’était certainement une femme ; des cheveux, mêlés à dés débris de crâne, restaient collés encore à la vitre brisée du
fanal. » (p.1274).
Encontramos em T1 : «Ao sair do túnel, esforçara-se por comunicar, gritando, o acidente ao guarda. Mas só em Barentin pudera contar que alguém acabava de se fazer matar, lá para baixo: era decerto uma mulher; cabelos pegados a restos de crânio, estavam colados ainda ao vidro quebrado do farol» (T1, p.301).
HEMUS - Ao sair do túnel, esforçara-se por comunicar, gritando, o acidente ao guarda. Mas só em Barentin pudera contar que alguém acabava de expor-se à morte lá para baixo, decerto uma mulher; cabelos pegados a restos de crânio, estavam colados ainda ao vidro quebrado do farol (p. 261)A tradução literal, sobretudo nas partes a que demos ênfase, só irá, mais uma vez, ser resolvida a partir de T4: «Ao sair do túnel, esforçara-se por gritar ao guarda o acidente. Mas só em Barentin conseguira contar que alguém tinha sido trucidado; era certamente uma mulher: cabelos misturados com pedaços de crânio estavam ainda colados ao vidro estilhaçado do farol. (T4, p. 270). Se bem que esta tradução esteja mais bem conseguida, ainda apresenta uma frase que nos parece pouco apropriada: «esforçara-se por gritar ao guarda o acidente», melhor conseguida em T5: «tentara gritar ao guarda o que acontecera» (p. 252), ou em T6: «esforçara-se por comunicar o acidente ao guarda.» (p. 324)

«Qu’importaient les inconnus de la foule tombés en route, écrasés sous les roues ! On avait emporté les morts, lavé le sang, et l’on repartait pour là-bas, à l’avenir.» (p. 1275), notamos que a tradução em T1 ora se prende ao original, ora se afasta deste, omitindo alguns vocábulos relevantes: «Que importavam os desconhecidos da multidão, caídos no caminho, esmagados debaixo das rodas? Tinham-se levado os mortos, havia-se lavado, e tornava-se a partir lá para baixo, para o futuro.» (p. 302)

HEMUS - «Que importavam os desconhecidos da multidão, caídos no caminho, esmagados debaixo das rodas? Tinham-se levado os mortos, havia-se socorrido os feridos, e tornava-se a partir lá para baixo, para o futuro.» (p. 261-2)


Só a partir de T4, tal como nos outros casos, encontramos traduções mais bem conseguidas: «Que importavam os desconhecidos da multidão caídos em viagem, esmagados sob as rodas? Os mortos haviam sido levados, o sangue lavado, e partia-se de novo para longe, para o futuro.» (p.271). T5 apresenta uma melhor solução: «Que importavam os desconhecidos sem rosto, caídos pelo caminho, trucidados pelas rodas! Tinham levado os mortos, lavado o sangue e agora partia-se de novo para a frente, para o futuro» (T5, p.253), se bem que T6 seja a que mais nos agrada: «Que lhes importavam os desconhecidos caídos, trucidados pelas rodas! Transportados os cadáveres, lavado o sangue, retomavam o andamento rumo ao futuro.» (p.324).

Et la machine, libre de toute direction, roulait, roulait toujours. Enfin, la rétive, la fantasque, pouvait céder à la fougue de sa jeunesse, ainsi qu’une cavale indomptée encore, échappée des mains du gardien, galopant par la campagne rase.» (p. 1330).
Quando nos debruçamos sobre as várias traduções, constatamos uma série de padrões consistentes já mencionados anteriormente. Assim, T1 oscila entre o lapso e a literalidade:
«E a máquina, livre de qualquer direcção, rodava, rodava sempre. Enfim, a teimosa, a fantástica, podia ceder ao impulso da mocidade, como uma égua indomada ainda escapa das mãos do guarda, galopando pela montanha rasa. » (p. 360).
HEMUS - «E a máquina, livre de qualquer direção, rodava, rodava sempre. Enfim, a teimosa, a fantástica, podia ceder ao impulso da mocidade, como uma égua indomada ainda escapa das mãos do guarda, galopando pela montanha rasa. » (p. 312)
Se bem que a primeira frase ainda consiga manter o ritmo do original, temos «rodava» onde as outras traduções apresentam um mais apropriado «rolava»; «guarda» onde outras apresentam «tratador», e o deselegante oxímoro «montanha rasa» como tradução de «planura». [...] em T4 surge-nos uma melhor alternativa: «E a máquina, livre de qualquer direcção, rolava, rolava sempre: Finalmente, a renitente, a caprichosa podia ceder ao entusiasmo da sua juventude, como uma égua ainda por domar, escapada das mãos do tratador, galopando pelo campo plano.» (p. 324).
T5 surge-nos como uma variante de T4, e só em T6 nos surge a versão que nos parece mais bem conseguida: «E a máquina, descomandada, rolava, rolava sempre. Finalmente, a caprichosa, a reticente podia ceder ao impulso da juventude, como uma égua selvagem, livre das mãos do tratador, galopando pela planura.» (p.338)

«Qu’importaient les victimes que la machine écrasait en chemin ! N’allait-elle pas quand même à l’avenir, insoucieuse du sang répandu ? Sans conducteur, au milieu des ténèbres, en bête aveugle et sourde qu’on aurait lâchée parmi la mort, elle roulait, elle roulait, chargée de cette chair à canon, de ces soldats, déjà hébétés de fatigue, et ivres, qui chantaient» (p. 1331).
T1 apresenta-nos :
«Que importavam as vítimas que a máquina esmagava no caminho! Não ia ela também para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem o condutor no meio das trevas, como fera cega e surda, que se soltasse entre a morte, rodava, rodava atulhada dessa carne para canhão, desses
soldados já estupidificados de fadiga e embriagados, que cantavam.» (p. 362).
HEMUS - «Que importavam as vítimas que a máquina esmagava no caminho! Não ia ela também para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem condutor no meio das trevas, fera cega e surda, indômita, rodava, rodava atulhada dessa carne para canhão, desses soldados já estupidificados de fadiga e embriagados, que cantavam.» (p. 313)Por seu lado, T4 mostra-se mais elaborada: «Que importavam as vítimas que a máquina esmagava no caminho! Não se dirigia para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem condutor, no meio das trevas, como besta cega e surda largada entre a morte, rolava, rolava, carregada de carne para canhão, esses soldados já insensibilizados pela fadiga e embriagados que cantavam.» (p.325).
T5 sugere algumas variantes lexicais e um maior rigor de pontuação, contudo T6 apresenta-se-nos, uma vez mais, como a tradução mais bem conseguida: «Que importavam as vítimas que a máquina esmagava pelo caminho? Não caminhava para o futuro, indiferente ao sangue derramado? Sem condutor, entre as trevas, como uma besta cega e surda libertada entre a
morte, rolava, rolava, carregada de carne para canhão, de soldados meio atordoados pela fadiga, e ébrios, que não paravam de cantar.» (p.390).

imagens: jean gabin em la bête humaine; capa da hemus, em google images

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