16 de mai de 2009

ajustando o foco


um leitor identificado apenas como "alberto" deixou ontem um comentário em lá e cá, que aqui reproduzo e aproveito para tecer algumas considerações.

estimada denise, seu trabalho protojornalístico é interessante, mas falta rigor no seu método. você faz afirmações bombásticas sem apurar completamente os fatos. com isso, expõe-se a processos. afirmações como "fulano de tal é diretor da cbl; portanto, a cbl endossa tais práticas" é leviana e perigosa. cuidado.

o que provavelmente acontece, nesses casos, é que uma editora cede os direitos de tradução para outra. mas aí vem a dúvida: o contrato do tradutor, apesar de ser de cessão definitiva de direitos, não prevê isso. "ah, troque o nome que ninguém vai perceber..." aí, inventaram a internet e... surgiu a denise. fique bem.

estimado alberto, agradeço suas observações, que acredito bem intencionadas.

embora eu não tenha a menor pretensão jornalística, espero sempre estar calçada nas informações que divulgo. assim, jamais fiz a afirmação mencionada em seu comentário: seria de fato algo ridículo e infundado, em vista das dezenas e dezenas de editoras íntegras que compõem a cbl, imagino que em esmagadoríssima maioria! creio que vc entendeu equivocadamente minhas palavras: muito pelo contrário, eu torceria por uma manifestação positiva, construtiva da entidade.

por outro lado, creio que expor opiniões e preocupações fundadas em fatos, apresentar dúvidas, fazer perguntas, é algo inteiramente legítimo. pois veja só: semanas atrás liguei para a cbl justamente para me informar sobre o funcionamento da entidade em relação a eventuais associadas que utilizam práticas editoriais de legalidade duvidosa. a resposta foi que o regimento da cbl não dispõe de um código de ética para os associados, que a câmara não entra no mérito das práticas empresariais adotadas por seus membros, e respeita igualmente a presença de todos os seus associados. tal foi a informação que gentilmente forneceu a presidente da cbl, sra. rosely boschini.

assim,
- se a legislação dos direitos autorais não contempla os interesses dos cidadãos leitores,
- se a principal entidade do livro no país não prevê em seus estatutos mecanismos de defesa institucional da idoneidade no setor,
- se a fundação biblioteca nacional declara que apenas cadastra os dados enviados pelos editores ou constantes nos exemplares impressos,
- se a imensa maioria das livrarias se julga acima da lei e não se incomoda em vender produtos admitidamente falsificados,
- se todas as orientações jurídicas são unânimes em afirmar que tais casos pertencem à alçada pública, sob a tutela coletiva de interesses difusos,
- se o instituto de defesa do consumidor diz que tais questões escapam à sua competência,
- se o ministério da cultura declara que não dispõe de nenhuma instância para tal e remete a competência para o ministério público federal,
- se o ministério público federal considera que tais casos não envolvem nomes com envergadura suficiente, à exceção do de monteiro lobato, que justifiquem providências suas,

então eu pergunto: como podem os leitores ter garantia do produto que adquirem? quem ou o que protege a qualidade e idoneidade editorial? quem ou o que assegura que as leis do país referentes ao bem cultural livro sejam respeitadas? quem ou o que se apresenta perante a sociedade como instituição portando a bandeira em defesa do livro honesto?

quanto à sua sugestão sobre "o que provavelmente acontece nesses casos", achei surpreendente: terei entendido mal, ou você afirma que "provavelmente" é a própria editora detentora inicial dos direitos de tradução que aconselha ou sugere à editora interessada em reeditar aquela tradução que "troque o nome" do tradutor? isso sim seria bombástico. fico estarrecida à simples ideia e prefiro descartá-la por demasiado alarmante e, até onde sei, felizmente infundada.

agradeço também seu aviso para que eu tome cuidado. de fato, se há um vazio jurídico e institucional na relação livro/cidadania, como exemplifiquei acima, se o leitor não encontra amparo legal para algo que - imagino eu - é um legítimo direito seu, a saber, poder confiar na integridade do livro que está lendo, a posição de quem protesta contra tal situação se torna muito vulnerável a intimidações. posso lhe dizer, no que tange a mim, que é algo contristador e, sob certos aspectos, até revoltante. pois até algum tempo atrás esperava eu, em minha singeleza, que as editoras probas e as entidades do livro cerrassem fileiras em torno da lisura e da transparência, e não que se calassem ou se abespinhassem por questões corporativas.

quanto à boutade final, "surgiu a denise", pode ser divertida, mas não corresponde aos fatos. pois de forma alguma fui eu a levantar essas lebres. boa parte dessas informações partiu do jornal opção, da folha de s.paulo, da revista agulha, da revista piauí, de o globo, com várias pessoas em diversas ocasiões denunciando na imprensa a onda de irregularidades. o problema da nova cultural foi levantado em diferentes oportunidades, entre outros, por ivo barroso, saulo von randow jr., manuel da costa pinto; o da martin claret, por gonçalo armijo, euler frança, ivo barroso, modesto carone, luis fernando vianna, editora 34 e tantos mais; o da jardim dos livros, por adam sun; o da landmark, por alessandra perlatti. os casos da hemus e rideel afloraram em simples decorrência das pesquisas em torno da martin claret. ações e notificações contra tais práticas foram e têm sido empreendidas por, entre outros, luiz costa lima, companhia editora nacional, companhia das letras, l&pm, editora globo, além de acordos com cláusulas de confidencialidade celebrados com outras editoras lesadas.

ou seja, e este aspecto é essencial, não sou de forma alguma, em absoluto, a única pessoa a se indignar profundamente contra os descalabros editoriais. tal como as coisas têm se colocado ultimamente, porém, parece até que se estaria criando um ente "denise", que serviria de bode expiatório e forma de jogar areia nos olhos em relação a problemas muito sérios, muito abrangentes e muito objetivos, que não de hoje vêm atingindo a credibilidade do mundo do livro no país.

como cidadã e leitora, quero poder confiar na lisura dos livros que leio, e não vejo o que há de errado nisso. continuo e continuarei insistindo e torcendo para que a cbl e outras entidades expressem uma posição clara e positiva frente à enxurrada de milhões de exemplares espúrios que têm inundado o país nos últimos 12-15 anos, e que estão presentes em milhões de lares, em milhares de bibliotecas públicas, em centenas de programas de curso e ementas de disciplinas em escolas de segundo e terceiro grau. afinal, é apenas disso que se trata: do livro honesto a que todos nós temos direito.

imagem: armazém da biblioteca nacional

2 comentários:

  1. Um certo sambinha do crioulo doido fez o senhor Alberto. Coisa mais comum do mundo editoras probas comprarem direitos de tradução de outras.

    O que é bem diferente de roubar traduções e adulterar sua autoria.

    E é isso que as editoras citadas por Denise fazem, comprovadamente.

    Se não há, por enquanto, uma entidade séria o bastante para prever e englobar esse tipo de falcatrua, cabe a nós, leitores, ter consciência disso e simplesmente, por via das dúvidas, boicotar todo e qualquer título de tais empresas.

    É assim que (deveria) funcionar o mercado. Coisa boa fica e se consagra. Coisa ruim acaba por si própria.

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