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29 de ago. de 2014

o "legado" da germinal

hoje recebi os seguintes informes sobre o inquérito policial por estelionato em curso contra a editora germinal por fraudes de tradução (acompanhe o caso aqui):







18 de jun. de 2014

mais um alerta contra as ervas daninhas da germinal

sebastião ramos osias avisa aqui, na caixa de comentários, que cruzada sem cruz, a tradução de berenice xavier do livro arrival and departure, de arthur koestler, que saiu pelo instituto progresso editorial (i.p.e.) em 1948, teria sido plagiada por "uma tal de juliana borges", em edição publicada pela germinal em 2000, com o título de chegada e partida.




não cheguei a cotejar esses dois títulos, mas não me surpreenderia muito. já denunciei aqui vários casos da infeliz germinal, que utiliza os nomes de wilson hilário borges, juliana borges, felipe padula borges e vera lúcia rodrigues, respectivamente o dono (agora finado) da editora, sua filha, seu sobrinho e sua companheira, em traduções que não passam dos mais vulgares plágios escancarados de antigas traduções.

o catálogo da germinal cadastrado na fbn consta de 33 títulos, entre eles quinze obras traduzidas. são elas, com os respectivos nomes que assinam as traduções:

arthur koestler, ladrões na noite (juliana borges)
arthur koestler, o iogue e o comissário (não descobri)
arthur koestler, chegada e partida (juliana borges)
saul bellow, a vítima (juliana borges)
james agee, morte na família (juliana borges)
isaac b. singer, o escravo (juliana borges)
gustave glotz, história econômica da grécia (vera lúcia rodrigues)
ivan goncharov, oblomov (juliana borges)
ignazio silone, a semente sob a neve (wilson hilário borges)
sinclair lewis, o nobre senhor kingsblood (juliana borges)
hermann broch, os sonâmbulos (wilson hilário borges)
g. k. chesterton, o homem que foi quinta-feira (vera lúcia rodrigues)
d. h. lawrence, mulheres apaixonadas (felipe padula borges)
fenimore cooper, o último dos moicanos (vera lúcia rodrigues)
gustave flaubert, salambô (não descobri)
luigi pirandello, a excluída (wilson hilário borges)

após a morte de wilson hilário borges, vera lúcia rodrigues assumiu o controle da editora e doze desses títulos traduzidos continuam a constar no catálogo da casa, aqui.

o crítico literário alfredo monte, aliás, desde 2004 denunciou os plágios de mulheres apaixonadas, de d.h. lawrence, e d'os sonâmbulos, de hermann broch, em memorial do caso germinal. veja aqui.

também em 2004, euler da frança belém, do jornal opção de goiânia, denunciou o plágio de oblomov na mesma editora. veja aqui.

suélen bortolo, por sua vez, em 2012 avisou que a semente sob a neve, de ignazio silone (germinal, 2001), com tradução em nome de wilson hilário borges, é praticamente idêntica à edição que saiu pela brasiliense em 1947, em tradução de eglantina santi.

  • para o caso de oblomov, de goncharov, veja-se aqui;
  • para o caso de d. h. lawrence, com mulheres apaixonadasaqui;
  • para hermann broch, com os sonâmbulosaqui;
  • para o homem que foi quinta-feira, de chesterton, aqui;
  • para isaac b. singer e o escravoaqui.

encaminhei ao ministério público um pedido de representação contra a editora em 2010, com um vasto dossiê demonstrando as fraudes. o mp determinou a instauração de um inquérito policial para apurar os fatos.


em 2011, fui ouvida na delegacia aqui em registro, confirmei nomes, fatos e provas, e o inquérito seguiu seu andamento. ainda tentei acompanhar o andamento por algum tempo, para saber se o ministério decidiria ingressar com ação contra a editora. infelizmente, não sei dizer em que pé se encontra hoje em dia.

de todo modo, fica reiterado o alerta contra tais edições inescrupulosas.


13 de mai. de 2012

a semente que germinou

suélen bortolo, pesquisando algumas traduções, encontrou uma edição de a semente sob a neve, de ignazio silone, pela editora germinal (2001), com tradução em nome de wilson hilário borges, que lhe despertou perplexidade. suélen informa que a edição da germinal traz passagens absolutamente idênticas à edição que saiu pela brasiliense em 1947, em tradução de eglantina santi:

Livro - A Semente Sob A Neve - Ignazio Silone

aliás, sobre várias ishpertezas do gênero perpetradas pela fagueira germinal, usando o nome do dono, da filha do dono, da companheira do dono e do sobrinho do dono para assinar pretensas traduções que não passam de cópias descaradas de antigas traduções, veja aqui.

sempre na germinal:
  • para o caso de oblomov, de goncharov, veja-se aqui;
  • para o caso de d. h. lawrence, com mulheres apaixonadas, aqui;
  • para hermann broch, com os sonâmbulos, aqui;
  • para o homem que foi quinta-feira, de chesterton, aqui;
  • para isaac b. singer e o escravo, aqui.
não cheguei a comparar as duas edições de a semente sob a neve, mas fica registrado o alerta de suélen bortolo. em vista do histórico da editora, todo cuidado é pouco.


4 de fev. de 2011

caso germinal

recentemente fui chamada à delegacia para uma oitiva sobre o caso da editora germinal. eu tinha entrado com um pedido de representação junto ao ministério público estadual de são paulo, e o procurador considerou por bem mandar instaurar um inquérito para apurar as responsabilidades.

compareci à delegacia, confirmei nomes, fatos e provas, e o inquérito continua em andamento.

por coincidência, vejo que o crítico literário alfredo monte, um dos primeiros a denunciar essas terríveis ocorrências de plágios e cópias de traduções alheias, republicou em seu excelente blog, Monte de Leituras, um oportuníssimo Memorial do Caso Germinal.

transcrevo alguns trechos de seu artigo extremamente esclarecedor:
Uma das editoras que surgiram nos últimos anos, a Germinal, vem publicando traduções suspeitíssimas. Contatos foram tentados com os responsáveis, mas não há explicações plausíveis para o fato de as traduções de Felipe Padula Borges para Mulheres apaixonadas, de D. H. Lawrence, e Wilson Hilário Borges para Os Sonâmbulos, de Hermann Broch, serem cópias de versões anteriores. Não tiveram nem o cuidado de disfarçar um pouco, o máximo a que se deram ao trabalho foram algumas mudanças insignificantes!


É lamentável, ainda mais porque se perdeu a oportunidade de oferecer, no caso de Broch, a primeira tradução legítima no Brasil (pois o suposto trabalho de Wilson Hilário Borges copia o do português Jorge Camacho para as Edições 70) de uma obra-prima; no caso de Lawrence, apesar de circular em nosso país há muito tempo, numa adaptação de Ruth de Biasi, a versão descaradamente copiada também é um texto lusitano, de Cabral do Nascimento, editada pela Record, pelo Círculo do Livro, pela Abril Cultural e recentemente pela Nova Cultural, herdeira mais pobre (em qualidade). [...] É ela que foi plagiada por Felipe Padula Borges. Eis um trecho plagiado:

pág. 482 (ed. Record): “Aquele lugar evocava uma panela pouco funda que jazesse entre neve e pedregulhos, num mundo perto das nuvens. Ali adormecera Gerald. Em volta os guias tinham pregado estacas de ferro, de maneira a poderem içar-se com o auxílio de uma comprida corda amarrada a elas; assim atingiriam, para além dos cimos denteados, a área de neve endurecida, que se confundia com o céu e onde se escondia Marienhutte entre penhascos. Em toda a volta havia picos aguçados erguidos para o firmamento, como compridos pregos muito alvos.”

pág. 563 (ed. Germinal): ” Aquele lugar evocava uma panela pouco funda que jazesse entre neve e pedregulhos, num mundo perto das nuvens. Ali adormecera Gerald. Em volta os guias tinham pregado estacas de ferro, de maneira a poderem içar-se como auxílio de uma comprida corda amarrada a elas; assim atingiriam, para além dos cimos denteados, a área de neve endurecida, que se confundia com o céu e onde se escondia Marienhutte, entre penhascos. Em toda a volta havia picos aguçados erguidos para o firmamento, como compridos pregos muito alvos.”

Como [se] vê, a única contribuição de Felipe Padula Borges para a versão anterior foi uma vírgula após a palavra Marienhutte.

Vejamos agora o caso de “Os Sonâmbulos”. O livro foi lançado pelas edições 70, de Portugal, em três volumes ( os números 7, 11 e 13 da Coleção Caligrafias). O primeiro volume, “Pasenow ou O Romantismo” (em 1988), traduzido por António Ferreira Marques.


pág. 164 (ediçôes 70): “Acudiu-lhe ao espírito uma frase de Clausewitz: ninguém age senão por pressentimento e instinto da verdade. E, num pressentimento, o coração revelou-lhe que lhes seria concedida, num lar cristão, a ajuda salvadora e protectora da graça, para que eles não tivessem de peregrinar sobre a terra ignorantes, desamparados e sem objectivo, a caminho do nada.”

pág. 160 (Germinal): “Acudiu-lhe ao espírito uma frase de Clausewitz: ninguém age senão por pressentimento e instinto da verdade. E, num pressentimento, o coração revelou-lhe que lhes seria concedida, num lar cristão, a ajuda salvadora e protetora da graça, para que eles não tivessem de peregrinar sobre a terra ignorantes, desamparados e sem objetivos, a caminho do nada.”

O sr. Wilson Hilário Borges teve muito trabalho nesse trecho: tirar o “c” lusitando de protectora e objectivo.

O 2o. volume ((1989), “Esch ou A Anarquia”, foi traduzido (assim como o 3o., do mesmo ano, “Huguenau o O Realismo”) por Jorge Camacho.

pág. 306-7 do 3o. volume (edições 70): “Qualquer deles sabe efectivamente que a vida do homem não é suficiente para levar os passos ao longo dessa estrada que sobe em espiral para plataformas sempre mais elevadas e onde o que foi e o que se afunda ressurge mais alto, sob a forma de fim, para se enterrar a cada passo nas brumas mais distantes; via infinita do círculo fechado e da realização, realidade lúcida em que as coisas se desagregam e se afastam até aos pólos e aos confins do mundo” etc etc.

pág. 697 (Germinal, que publicou os três num volume só):“Qualquer deles sabe efetivamente que a vida do homem não é suficiente para levar oa passos ao longo dessa estrada que sobe em espiral para plataformas sempre mais elevadas e onde o que foi e o que se afunda ressurge mais alta, sob a forma de fim, para se enterrar a cada passo nas brumas mais distantes: via infinita do círculo fechado e da realização, realidade lúcida em que as coisas se desagregam e se afastam até os pólos e aos confins do mundo” etc etc.

O trecho acima deu mais trabalho: além do “c” de efectivamente, ele teve de tirar uma preposição de “aos pólos”.
Como disse, o inquérito para apurar as responsabilidades da editora em questão está em andamento. Espero que a procuradoria do estado venha a tomar as providências cabíveis e previstas em lei.

veja aqui os posts relacionados a várias ocorrências da germinal
.

8 de abr. de 2010

germinal, dando seguimento

quanto à editora germinal, com vários casos de cópia literal e integral de traduções alheias - oblomov, o escravo, mulheres apaixonadas, o homem que foi quinta-feira etc. -, o ministério público de são paulo considerou por bem instaurar inquérito policial para apurar as responsabilidades.


posts relacionados:
ou consulte diretamente pela linha de assunto:

18 de mar. de 2010

ministério público: germinal


imagem: drang

aproveitando o embalo do caso da editora itatiaia encaminhado à ddi/minc, acabei de montar um extenso dossiê sobre o caso da editora germinal e encaminhei ao ministério público de são paulo.

os plágios e as desconversas da editora germinal são de fazer corar um padre. veja a história completa, denunciada na imprensa desde os idos de 2004:

20 de nov. de 2009

lesa leitor

o pesadelo chestertoniano-germinalista, a saber, o plágio de o homem que foi quinta-feira assinado por vera lúcia rodrigues, está à venda nos responsáveis solidários usuais:


imagem: copycat

19 de nov. de 2009

um pesadelo

sobre a editora germinal: há vários artigos na imprensa denunciando seus plágios de tradução desde 2004. aqui mostramos mais outras obras em que a referida editora lançou mão dessa prática pouco louvável. para o histórico dos cotejos, consulte o arquivo em "germinal".

como disse no post anterior, josé laurênio de mello é o autor da tradução o homem que foi quinta-feira (um pesadelo), de g. k. chesterton, que foi publicada pela editora agir em 1957 com algumas reedições pelo menos até 1967, e depois pelo círculo do livro até 1975.

em 2004 a editora germinal publica uma cópia praticamente igual da tradução de josé laurênio de mello. no entanto traz no frontispício da obra: "tradução: vera lúcia rodrigues".

vera lúcia rodrigues, até onde consegui entender, era a sócia do falecido advogado, sociólogo e jornalista wilson hilário borges na editora germinal. após a morte do sócio, manteve a editora sob sua responsabilidade. neste caso de o homem que foi quinta-feira, creio que será mais difícil a sra. vera lúcia rodrigues lançar mão das mesmas evasivas que usou em relação aos outros plágios, em suas entrevistas à imprensa: afinal a tradução está assinada por ela, que é também a responsável pela editora.

transcrevo abaixo o primeiro e os dois últimos parágrafos da obra.

1. josé laurênio de mello (agir):
Para as bandas do poente de Londres refulgia, como o vermelho esfarrapado de uma nuvem ao entardecer, o subúrbio de Saffron Park. Totalmente edificado com ladrilho brilhante, ostentava uma fantástica linha de telhados e uma extravagante linha de calçadas. Fora obra de um construtor especulativo, mirão em assuntos de arte, que identificava sua arquitetura algumas vezes com o estilo Rainha Elizabeth e outras vezes com o estilo Rainha Ana, sob a visível impressão de que as duas soberanas eram uma só. Com alguma justiça, Saffron Park passava por colônia de artistas, embora nunca houvesse produzido razoavelmente qualquer gênero de arte. Mas, se suas pretensões a núcleo intelectual eram um tanto descabidas, suas pretensões a recanto aprazível eram realmente incontestáveis. O visitante, que pela primeira vez contemplasse aquelas esdrúxulas casas vermelhas, seria levado a cogitar desde logo na singularidade que devia marcar o feitio mental das pessoas que as habitavam. E quando encontrasse tais pessoas não ficaria desapontado. O local era não só aprazível, mas perfeito, desde que não fosse tido em conta de miragem, mas de sonho. Ainda que os habitantes nada tivessem de "artistas", tudo ali era artístico. Aquele rapaz de cabelos compridos e vermelhos e de feições impudentes não havia de ser necessariamente um poeta, mas era irrefutavelmente um poema. Aquele cavalheiro idoso, de barba branca e enxovalhada e de chapéu também branco e enxovalhado, um pândego venerável, não havia de ser obrigatoriamente um filósofo, mas, no mínimo, devia fornecer motivos à filosofia alheia. Aquele cavalheiro científico, calvo como um ovo, de pescoço pelado como o de uma ave, não fazia jus aos ares de cientista que alardeava. Não descobrira novidades em biologia; mas poderia, por acaso, ter descoberto um espécime biológico mais raro do que sua pessoa? Por isso, e somente por isso, o lugar merecia estudos pertinentes e demorados; tinha de ser examinado menos como uma oficina de artista do que como uma delicada, posto que consumada, obra de arte. O estranho que chegasse a participar de sua atmosfera social teria a sensação de estar participando da representação de uma comédia.

2. vera lúcia rodrigues (germinal):
Para as bandas do poente de Londres refulgia, como o vermelho esfarrapado de uma nuvem ao entardecer, o subúrbio de Saffron Park. Totalmente edificado com ladrilho brilhante, ostentava uma fantástica linha de telhados e uma extravagante linha de calçadas. Fora obra de um construtor especulativo, apreciador de assuntos de arte, que identificava sua arquitetura algumas vezes com o estilo Rainha Elizabeth e outras vezes com o estilo Rainha Ana, sob a visível impressão de que as duas soberanas eram uma só. Com alguma justiça, Saffron Park passava por colônia de artistas, embora nunca houvesse produzido razoavelmente qualquer gênero de arte. Mas, se suas pretensões a núcleo intelectual eram um tanto descabidas, suas pretensões a recanto aprazível eram realmente incontestáveis. O visitante, que pela primeira vez contemplasse aquelas esdrúxulas casas vermelhas, seria levado a cogitar desde logo a singularidade que devia marcar o feitio mental das pessoas que as habitavam. E quando encontrasse tais pessoas não ficaria desapontado. O local era não só aprazível, mas perfeito, desde que não fosse tido em conta de miragem, mas de sonho. Ainda que os habitantes nada tivessem de "artistas", tudo ali era artístico. Aquele rapaz de cabelos compridos e vermelhos e de feições impudentes não havia de ser necessariamente um poeta, mas era irrefutavelmente um poema. Aquele cavalheiro idoso, de barba branca e enxovalhada e de chapéu também branco e enxovalhado, um pândego venerável, não havia de ser obrigatoriamente um filósofo, mas, no mínimo, devia fornecer motivos à filosofia alheia. Aquele cavalheiro científico, calvo como um ovo, de pescoço pelado como o de uma ave, não fazia jus aos ares de cientista que alardeava. Não descobrira novidades em biologia; mas poderia, por acaso, ter descoberto um espécime biológico mais raro do que sua pessoa? Por isso, e somente por isso, o lugar merecia estudos pertinentes e demorados; tinha de ser examinado menos como uma oficina de artista do que como uma delicada, posto que consumada, obra de arte. O estranho que chegasse a participar de sua atmosfera social teria a sensação de estar participando da representação de uma comédia.

1. josé laurênio de mello (agir):
Quando, nos livros, os homens despertam de uma visão, encontram-se geralmente em algum lugar em que podiam ter adormecido; bocejam, se estão numa cadeira, ou se levantam com os membros doídos, se estão deitados no campo. A experiência de Syme foi, psicologicamente, muito mais estranha, visto que houve realmente, no sentido físico, algo de irreal nas coisas que lhe tinham acontecido. Pois, conquanto mais tarde lhe fosse sempre possível recordar que desfalecera ante o rosto de Domingo, não podia lembrar-se do instante em que voltara a si. Só podia lembrar-se de que pouco a pouco e com toda a naturalidade tivera consciência de estar passeando por uma azinhaga ao lado de um companheiro agradável e palrador. Esse companheiro fora parte de seu drama recente; era Gregory, o poeta dos cabelos vermelhos. Caminhavam juntos como velhos amigos e estavam entretidos com alguma banalidade. Mas Syme sentia no corpo uma vivacidade sobrenatural e no espírito uma simplicidade cristalina que pareciam superiores a tudo que dizia ou fazia. Sentia que estava na posse de uma inefável boa nova e que ela fazia de tudo uma trivialidade, mas uma adorável trivialidade.

2. vera lúcia rodrigues (germinal):
Quando, nos livros, os homens despertam de uma visão, encontram-se geralmente em algum lugar em que podiam ter adormecido; bocejam, se estão numa cadeira, ou se levantam com os membros doídos se estão deitados no campo. A experiência de Syme foi, psicologicamente, muito mais estranha, visto que houve realmente, no sentido físico, algo de irreal nas coisas que lhe tinham acontecido. Pois, conquanto mais tarde lhe fosse sempre possível recordar que desfalecera ante o rosto de Domingo, não podia lembrar-se do instante em que voltara a si. Só podia lembrar-se de que pouco a pouco e com toda a naturalidade tivera consciência de estar passeando por uma azinhaga ao lado de um companheiro agradável e palrador. Esse companheiro fora parte de seu drama recente; era Gregory, o poeta dos cabelos vermelhos. Caminhavam juntos como velhos amigos e estavam entretidos com alguma banalidade. Mas Syme sentia no corpo uma vivacidade sobrenatural e no espírito uma simplicidade cristalina que pareciam superiores a tudo que dizia ou fazia. Sentia que estava na posse de uma inefável boa nova e que ela fazia de tudo uma trivialidade, mas uma adorável trivialidade.

1. josé laurênio de mello (agir):
Rompia a aurora, revestindo tudo de cores claras e tímidas, como se a natureza fizesse uma primeira tentativa em amarelo e uma primeira tentativa em rosa. Soprava uma brisa tão límpida e suave que se podia até imaginar que ela não provinha do céu, mas filtrava-se através de uma frincha rasgada no céu. Syme maravilhou-se um pouco de ver em ambos os lados do caminho os vermelhos e irregulares edifícios de Saffron Park. Não sabia que andava tão perto de Londres. Instintivamente tomou por uma estrada branca, onde os pássaros madrugadores gorjeavam saltitantes, e achou-se defronte do gradil de um jardim. Ali viu a irmã de Gregory, a moça dos cabelos vermelhos e dourados, colhendo lilases antes do café, com a gravidade inconsciente e magnífica das moças.

2. vera lúcia rodrigues (germinal):
Rompia a aurora, revestindo tudo de cores claras e tímidas, como se a natureza fizesse uma primeira tentativa em amarelo e uma primeira tentativa em rosa. Soprava uma brisa tão límpida e suave que se podia até imaginar que ela não provinha do céu, mas filtrava-se através de uma frincha rasgada no céu. Syme maravilhou-se um pouco de ver em ambos os lados do caminho os vermelhos e irregulares edifícios de Saffron Park. Não sabia que andava tão perto de Londres. Instintivamente tomou por uma estrada branca, onde os pássaros madrugadores gorjeavam saltitantes, e achou-se defronte do gradil de um jardim. Ali viu a irmã de Gregory, a moça dos cabelos vermelhos e dourados, colhendo lilases antes do café, com a gravidade inconsciente e magnífica das moças.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



18 de nov. de 2009

chesterton e laurênio de mello

mais um plágio de cortar o coração: o homem que foi quinta-feira, de g. k. chesterton. josé laurênio de mello fez a tradução que saiu pela agir em 1957. tenho a terceira edição, de 1967, e a capa é de rubens gerchman. foi editada também pelo círculo do livro nos anos 70.

josé laurênio de mello morreu poucos anos atrás, em 2006. foi um dos fundadores do ateliê o gráfico amador em 1954, um marco na história do design gráfico.* poeta, editor, tradutor, intelectual de grande importância e influência cultural, tornou-se vítima da indecorosa sanha da editora germinal.

apresentarei o cotejo no próximo post. por ora, nosso tributo a laurênio.

* veja aqui o catálogo das edições d'o gráfico amador.

atualização em 13/02/2011: que alegria! sai o livro O Gráfico Amador: as origens da moderna tipografia brasileira, de guilherme cunha lima. veja aqui o artigo de josélia aguiar em painel das letras.  

11 de set. de 2009

leitor sofre


o pobre d'o escravo de isaac b. singer, na edição da editora germinal (pretensa tradução de juliana borges; em verdade, cópia da tradução de cabral do nascimento), está à venda em:

saraiva
siciliano
submarino
americanas
cultura

comparece listado num edital de licitação:
www.cultura.mg.gov.br/.../tomada-de-precos-01.2007-livros(2).doc
foi incorporado ao acervo de:
www.am.unisal.br/biblioteca/novas-db-0905.asp

imagem: www.community.kompas.com

10 de set. de 2009

o massacre do germe elétrico


isaac bashevis singer, o escravo.
tradução legítima: cabral do nascimento, pela minerva.
tradução espúria: juliana borges, pela germinal.

primeiros e últimos parágrafos.

1. cabral do nascimento:
O dia começou ao cantar de um pássaro. Cada dia o mesmo pássaro, o mesmo canto. Era como se a ave assinalasse a aproximação da aurora à sua ninhada. Jacob abriu os olhos. As quatro vacas estavam deitadas nas camas de feno e estrume. No meio do curral havia algumas pedras enegrecidas e ramos carbonizados: o fogão em que Jacob cozinhava arroz e fazia pão de trigo mourisco, que comia com leite. A cama do homem era de palha e, à noite, ele cobria-se com um lençol de estopa, usado durante o dia da recolha de ervas para o gado. Estava-se no Verão, mas as noites tornavam-se frias na montanha. Jacob levantava-se mais de uma vez para aquecer as mãos e os pés no corpo dos animais.
Ali reinava ainda o escuro, mas o clarão da alvorada brilhava através de uma fenda da porta. Jacob levantou-se e expulsou o derradeiro sono. Sonhara que se achava na sinagoga, em Josefov, ensinando o Talmud às crianças.

2. juliana borges:
O dia começou ao cantar de um pássaro. Cada dia o mesmo pássaro, o mesmo canto. Era como se a ave assinalasse a aproximação da aurora à sua ninhada. Jacob abriu os olhos. As quatro vacas estavam deitadas nas camas de feno e estrume. No meio do curral havia algumas pedras enegrecidas a ramos carbonizados: o fogão em que Jacob cozinhava arroz e fazia pão de trigo mourisco, que comia com leite. A cama do homem era de palha e, à noite, ele cobria-se com um lençol de estopa, usado durante o dia da recolha de ervas para o gado. Estava-se no Verão, mas as noites tornavam-se frias na montanha. Jacob levantava-se mais de uma vez para aquecer as mãos a os pés no corpo dos animais.
Ali reinava ainda o escuro, mas o clarão da alvorada brilhava através de uma fenda da porta. Jacob levantou-se a expulsou o derradeiro sono. Sonhara que se achava na sinagoga, em Josefov, ensinando o Talmud às crianças.

1. cabral do nascimento:
Assim se fez. Jacob, envolto no manto das preces, com uma haste de murta entre os dedos, foi enterrado junto de Sara. E a comunidade judaica achou por bem erigir uma pedra votiva como desforra das injúrias feitas a Sara por Gershon e outros homens. Passados os trinta dias de luto, o cinzelador iniciou o seu trabalho. No topo havia duas pombas cujos bicos se uniam num beijo; os contornos, porém, respeitavam a interdição mosaica quanto à representação da imagem. Inscreveram em baixo os nomes dos mortos: Jacob filho de Eliezer e Sara filha do patriarca Abraão. Àquele deram a honra de acrescentar as palavras: "Nosso santo professor". E, a seguir àquela, um versículo dos Provérbios: "Quem achará uma mulher forte?"
O epitáfio foi completado com um passo da Bíblia,1 a cercar os nomes: "Amáveis e belos na vida, também na morte se não separaram."
1. Livro II dos Reis, chamado em hebraico Segundo Livro de Samuel. Cap, I, vers. 23.
2. juliana borges:
Assim se fez. Jacob, envolto no manto das preces, com uma haste de murta entre os dedos, foi enterrado junto de Sara. E a comunidade judaica achou por bem erigir uma pedra votiva como desforra das injúrias feitas a Sara por Gershon e outros homens. Passados os trinta dias de luto, o cinzelador iniciou o seu trabalho. No topo havia duas pombas cujos bicos se uniam num beijo; os contornos, porém, respeitavam a interdição mosaica quanto à representação da imagem. Inscreveram em baixo os nomes dos mortos: Jacob filho de Eliezer e Sara filha do patriarca Abraão. Àquele deram a honra de acrescentar as palavras: "Nosso santo professor". E, a seguir àquela, um versículo dos Provérbios: "Quem achará uma mulher forte?"
O epitáfio foi completado com um passo da Bíblia (Livro II dos Reis, chamado em hebraico Segundo Livro de Samuel. Cap. I, vers. 23.) a cercar os nomes: "Amáveis e belos na vida, também na morte não se separaram."

como se vê na última frase que encerra o livro, cabral do nascimento colocou algumas notas de rodapé em sua tradução, e a edição da germinal reproduziu todas elas, interpolando-as diretamente no próprio texto. outros exemplos desse ridículo massacre da prosa de singer:

1. cabral do nascimento:
Habituara-se a falar às vacas, e até consigo mesmo para não esquecer o yiddish.1 Abriu a porta e contemplou as serras que se perdiam na distância.
1. Língua dos judeus de origem nórdica, os asquenazins.
2. juliana borges:
Habituara-se a falar às vacas, a até consigo mesmo para não esquecer o yiddish (língua dos judeus de origem nórdica, os arquenazins). Abriu a porta e contemplou as serras que se perdiam na distância.

ou

1. cabral do nascimento:
Mas Belial1 era persistente como um rato. Quem seria o rato?
1 Diabo, em hebraico. Um dos anjos caídos, no poema de Milton.
2. juliana borges:
Mas Belial (Diabo em hebraico - um dos anjos caídos, no poema de Milton) era persistente como um rato. Quem seria o rato?

sobre outras fraudes denunciadas na imprensa e declarações da germinal, ver aqui.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.



9 de set. de 2009

caro leitor

gosto muitíssimo do senhor supracitado e supramostrado.

então, retomando essa história da germinal, que pareceu não se abalar com as denúncias de suas fraudes, vi lá em seu site que o escravo constava em seu catálogo.

por acaso tenho o livro em casa na tradução de cabral do nascimento, pela editorial minerva. em vista dos precedentes germinísticos, não tive dúvida: encomendei o escravo da germinal, no que se diz ser tradução, mais uma vez, de juliana borges.

bom, se toda pesquisa fosse fácil assim, eu perderia bem menos horas do meu tempo.

dona germinal, se não for lhe pedir demais, faça uma gentileza: retire isso de seu catálogo, proceda a uma retificação pública com o nome do verdadeiro tradutor, corrija o que está em seu estoque e ofereça reposição para os leitores ludibriados.

caro leitor, não financie a fraude, recuse o roubo intelectual.

8 de set. de 2009

germinoldo lawrence nas livrarias

para adquirir mulheres apaixonadas na edição da germinal, o leitor poderá recorrer aos bons préstimos das americanas, da livraria cultura, da siciliano, da saraiva, do submarino.

agora, se o leitor não gostar de fazer papel de bobo nem de financiar os ishpertos, mais vale optar pela nova tradução de renato aguiar (record), que tem sido muito elogiada, ou recorrer aos sebos para encontrar a antiga tradução de cabral do nascimento.

imagem: www.sandrapontes.com

a germinação das paixões

o português joão cabral do nascimento (1897-1978) traduziu vários autores, entre eles lawrence, henry james, edgar a. poe, stevenson, h.g. wells, truman capote, isaac b. singer.

sua tradução do clássico de david herbert lawrence, mulheres apaixonadas, foi inicialmente publicada pela portugália em 1940, e atualmente está na editora relógio d'água. essa tradução teve inúmeras edições entre nós, com adaptação para o português do brasil feita por ruth de biasi, pela record, abril cultural e nova cultural.

em 2002 a germinal, mais uma editora que gosta de cultivar ervas impróprias para consumo, resolveu rechear seu catálogo com essa bela tradução. no entanto os créditos de tradução constam atribuídos a felipe padula borges, sobrinho do falecido dono da editora, wilson hilário borges.

o caso já foi denunciado na imprensa algumas vezes. no entanto, como a editora e as livrarias continuam a lesar seus clientes leitores com essa falcatrua, retomo aqui o histórico da coisa.

quem levantou a lebre foi o professor e crítico literário alfredo monte, de a tribuna de santos, em meados de 2004. vera lúcia rodrigues, sócia e companheira de hilário borges e que responde pela editora germinal, ao ser contatada por alfredo monte deu uma curiosa explicação: além de defender a "idoneidade" do tradutor, argumentou que a semelhança com a tradução de cabral do nascimento seria mais uma prova da qualidade do trabalho de felipe.

meses depois, procurada por luiz fernando vianna, da folha de s.paulo, a responsável pela germinal desconversou: "Segundo Felipe, o livro foi traduzido pelo Wilson, que lhe pediu para acertar algumas palavras e dar a forma final no texto. É o que eu sei". e insistiu: "Para mim, é muito difícil pensar que ele [Borges] possa ter feito isso".

pois é, difícil ou não, aparentemente foi o que ele fez ou pediu que o sobrinho fizesse. passaram-se sete anos desde o lançamento do livro e cinco anos desde o desmascaramento da fraude. a editora não recolheu a edição, e mantém em seu site a divulgação da obra espúria.

veja a matéria sobre este plágio na folha de s.paulo ou no jornal opção.

3 de set. de 2009

a saga da mala herba, nas livrarias

o caso do oblomov em tradução de francisco inácio peixoto, plagiado na edição da germinal em nome de juliana borges, foi amplamente divulgado na imprensa alguns atrás.
no entanto continua em circulação, à venda nas prestimosas livrarias que, por lei, são solidariamente responsáveis pelo delito:

- americanas
- cultura
- siciliano
- galileu galilei
- submarino
- saraiva
- horus

imagem: hall of shame

quem, eeeeu?


"Segundo a jornalista Vera Lúcia Rodrigues[...], Juliana e Gabriela não têm relação com Oblomov nem com qualquer outro livro da Germinal."
ou
"Além de utilizar o nome da filha Juliana como tradutora, Wilson Hilário Borges pôs outra filha, Gabriela, como editora de 'Oblomov'. Segundo Vera Lúcia Rodrigues, as duas nunca tiveram ligação com a Germinal."

segundo o site do grupo vervi, vera lúcia rodrigues é a responsável pela editora germinal, e portanto deve saber do que está falando. então, se juliana borges não tem e jamais teve qualquer ligação com a editora, o que significa:

- ladrões na noite, de arthur koestler
- chegada e partida, de arthur koestler
- a vítima, de saul bellow
- morte na família, de james agee
- o escravo, de isaac b. singer
- oblomov, de goncharov
- o nobre senhor kingsblood, de sinclair lewis,
além de dezenas de citações de suas supostas traduções para a germinal em resenhas, blogs, sites de livrarias e sebos?

que me desculpe a sra. vera lúcia rodrigues, mas parece evidente que juliana borges guarda incontestável relação com oblomov e várias outras obras publicadas pela germinal. quando menos por um fato muito singelo: é seu nome que consta, preto no branco, na autoria dessas traduções. e aí como fica? quem, afinal, traduziu esses livros?

imagem: smoke screen

2 de set. de 2009

germinildo goncharov: as vítimas

sobre o caso de oblomov, com o plágio de tradução assinado por juliana borges e publicado pela editora germinal: nunca é demais lembrar que o saqueado foi francisco inácio peixoto, um dos principais nomes do modernismo brasileiro. além de poeta, tradutor e cofundador da revista verde, foi grande fomentador da arte e arquitetura modernista.



reforçando um ponto em que insisto aqui no nãogostodeplágio: uma das consequências mais nefastas dessa ladroagem editorial é o apagamento da história de nossa tradução literária, com o concomitante cultivo da ignorância e da desmemória. vitimado o legítimo tradutor, vitimados todos nós leitores.

imagem: capa da revista verde (ano 1, n. 1, 1927)

1 de set. de 2009

germinaldo oblomov

em 2001, a editora germinal publica o clássico romance de ivan goncharov, oblomov, com os créditos de tradução atribuídos a juliana borges, filha do dono da editora, wilson hilário borges.

I.
o lançamento é divulgado pela revista veja, em 31 de outubro de 2001, na resenha "o não-ser e o nada", assinada pelo jornalista antônio gonçalves filho, que curiosamente anuncia: "É uma boa notícia tê-lo de volta às livrarias brasileiras, numa edição honesta, ainda que um pouco descuidada na revisão (tradução de Juliana Borges; Germinal; 551 páginas; 49 reais)".

mas atentos jardineiros se apercebem de matos estranhos, e tentam de várias maneiras identificar a espécie a que pertencem. e assim se inicia o desmascaramento da fraude germinada.

II.
em 20 de janeiro de 2002, o crítico literário josé maria cançado publica na folha de s.paulo uma resenha saudando a publicação, com o título "a legião da desistência".

nesta resenha, josé maria cançado comenta: "[a] tradução nesta edição é pateticamente ruim, com um acúmulo inacreditável de erros gramaticais, de vírgulas estúpidas, embora se deva dizer que vale assim mesmo a leitura, tal é indestrutível a grandeza do romance".

III.
em 2003, o jornalista arthur danton escreve um artigo chamado "Oblomov, obra-prima assassinada pela edição", publicado no site todapalavra:

"A publicação no Brasil de Oblomov, romance do russo Ivan Gontcharov — uma das obras-primas da literatura ocidental —, pela Germinal Editora (SP), pode ser considerada, por suas vicissitudes, um caso editorial para lá de curioso. [...] Em artigo sobre o livro publicado no ano passado, na Folha de S. Paulo, o jornalista José Maria Cançado reclama da tradução, para ele muito ruim.
"Bom, começa por aí o tal caso curioso. Pois o fato é que a tradução, ao contrário, parece ser de alta qualidade! Verte para o português, com clareza e elegância estilística, os muitos climas, moods e nuances da longa e envolvente narrativa (552 páginas). [...]
"Mas o problema da publicação do romance no Brasil está exatamente em ter sido mal editado. Ao perceber a quantidade absurda de erros gramaticais e de todo tipo, tive a paciência de contá-los. Há nada menos que 270 incorreções, o que deve ser algum recorde. Incluindo erros de digitação, inversão de letras, repetição de palavras, além da ausência de crases que esvaziam de sentido o texto. Nestes 270 não estão incluídos os muitos erros de pontuação: vírgulas, principalmente elas, uma torrente, desde as simplesmente desnecessárias até as incorretas, que corrompem o sentido da frase. Devido à péssima revisão (ou à não-revisão), encontram-se, aqui e ali, pérolas como ‘obserdantes’, ‘prenúncias’, ‘cantinelas’, ‘protestades’, ‘luzídia’, ‘ressumiavam’.
"O dado curioso é que o elegante texto da tradutora (Juliana Borges), quase assassinado pela digitação aloprada, contém vários arcaísmos, principalmente formas verbais antigas: ‘falseam’, ‘fôste’, ‘fôra’, ‘lêste’, ‘instrues’. Ou seja, parece que se está diante da recuperação de um texto produzido há anos. Fico curioso em conhecer a história da publicação deste livro no Brasil... " *

* esses trechos de arthur danton foram extraídos da matéria "crime sem castigo" no jornal opção; ver abaixo, item V.

IV.
em 21 de novembro de 2004, o jornalista euler de frança belém, do jornal opção de goiânia, comenta em "oblomovismo editorial", a respeito da edição da germinal: "Um professor, especialista em literatura, me diz que a tradução é muito parecida com a versão da Editora Cruzeiro, publicada há várias décadas. Como não tenho a edição da Cruzeiro, para comparar, não posso opinar. Aceito informações objetivas."

V.
em 28 de novembro de 2004, o mesmo jornalista publica um extenso artigo sobre oblomov na edição da germinal, com o título "Crime sem Castigo", já com elementos suficientes para usar com toda a segurança o subtítulo "Escritor russo é vítima de fraude editorial no Brasil".
transcrevo alguns trechos do artigo de euler de frança belém:

"Uma professora me alertou que a 'nova' edição era/é, na verdade, plágio da tradução do modernista Francisco Inácio Peixoto. Publiquei uma nota na coluna Imprensa e sugeri que algum leitor me apresentasse provas. Na semana passada, um professor da Universidade Federal de Goiás entregou-me uma cópia da tradução do escritor que fundou a revista Verde e pude compará-la com a versão da Germinal. Antes de examinar a fraude, mostrando que as duas traduções são idênticas do começo ao fim, cito parte de um artigo ('Oblomov, obra-prima assassinada pela edição') do jornalista Arthur Danton, publicado no site Todapalavra, que, competente e perspicaz, chega perto de descobrir o crime cometido pela Germinal e pela tradutora Juliana Borges, se este nome não for invenção da editora."

prossegue euler da frança belém:

"Na dúvida, Arthur Danton não afirma, mas sugere: 'Parece que se está diante da recuperação de um texto produzido há anos'. Ele está certo, embora não tenha ido mais longe na sua crítica certeira. Comparando as 'duas' traduções descobre-se que, na verdade, a Germinal tão-somente copiou a versão da Cruzeiro e mudou o nome do tradutor. Curiosamente, o jornalista mineiro José Maria Cançado, biógrafo do modernista Carlos Drummond de Andrade, não percebeu a fraude. [...] Arthur Danton percebe, ao contrário de José Maria Cançado, a fluência e a elegância da tradução, apesar de a tradução ser indireta. Francisco Inácio Peixoto, escritor, era ligado aos modernistas mineiros e encomendou projetos para Oscar Niemeyer já no início da década de 40, antes de Juscelino Kubitschek. Não era, pois, néscio."

a matéria de euler apresenta as capas da cruzeiro e da germinal, e estampa os cotejos do início e do fim da obra em ambas as edições:


e conclui: "A Germinal abala sua reputação e seu belo nome".

VI.
em 11 de dezembro do mesmo ano (2004), o jornalista luiz fernando vianna publica na folha de s.paulo uma extensa matéria sobre o plágio da germinal, com o título "editora plagia edição antiga de clássico" (link para assinantes fsp ou uol; ou ver aqui).

transcrevo alguns trechos da matéria de luiz fernando vianna:

"Só há uma edição disponível no Brasil de Oblomov, um dos maiores clássicos da literatura russa. Pois essa edição é repleta de erros e a tradução do romance de Ivan Alexandrovitch Gontcharov (1812-1891) é um plágio absoluto. Publicado em 2001 pela pequena Germinal (não confundir com a Edições Germinal), o livro é uma cópia da tradução feita pelo poeta mineiro Francisco Inácio Peixoto (1909-1986) e publicada em 1966 pela Edições O Cruzeiro. [...]

"A Folha teve acesso aos livros de 1966 e 2001. O plágio vai da primeira à última página. Não houve qualquer preocupação em disfarçar a cópia [...]

"Dos sete filhos do poeta [Francisco Inácio Peixoto], cinco estão vivos. A família buscará reparação na Justiça.
"A 'tradução' da Germinal é assinada por Juliana Borges. A edição, por Gabriela Borges. Elas são filhas do advogado, sociólogo e jornalista Wilson Hilário Borges, morto em 20 de março de 2002, aos 62 anos.

"Segundo a jornalista Vera Lúcia Rodrigues, 49, que diz ter vivido 22 anos com Borges sem se casar no papel, Juliana e Gabriela não têm relação com Oblomov nem com qualquer outro livro da Germinal."

VII.

em 29 de março de 2006, também na revista veja, o jornalista jerônimo teixeira, num artigo chamado "os ladrões criativos", cita de passagem que "Há dois anos, descobriu-se que a tradução de Oblomov, do russo Ivan Gontcharov, publicada pela editora paulista Germinal, não era de Juliana Borges (filha do dono da editora), como informava o crédito. Era uma cópia da tradução de Francisco Inácio Peixoto publicada em 1966".

[os negritos nas citações são meus - db]

28 de ago. de 2009

tiririca, guanxuma, grama-seda

dou aqui continuidade ao tema levantado em mala herba.

a germinal é uma pequena editora, criada em 1997 pelo advogado, sociólogo e jornalista wilson hilário borges em sociedade com a jornalista vera lúcia rodrigues. wilson hilário borges faleceu em 2002, e a germinal continua suas atividades sob a responsabilidade da referida jornalista.

o catálogo da germinal cadastrado na fbn consta de 33 títulos, entre eles quinze obras traduzidas. são elas, com os respectivos nomes que assinam as traduções:

arthur koestler, ladrões na noite (juliana borges)
arthur koestler, o iogue e o comissário (não descobri)
arthur koestler, chegada e partida (juliana borges)
saul bellow, a vítima (juliana borges)
james agee, morte na família (juliana borges)
isaac b. singer, o escravo (juliana borges)
gustave glotz, história econômica da grécia (vera lúcia rodrigues)
ivan goncharov, oblomov (juliana borges)
ignazio silone, a semente sob a neve (wilson hilário borges)
sinclair lewis, o nobre senhor kingsblood (juliana borges)
hermann broch, os sonâmbulos (wilson hilário borges)
g. k. chesterton, o homem que foi quinta-feira (vera lúcia rodrigues)
d. h. lawrence, mulheres apaixonadas (felipe padula borges)
fenimore cooper, o último dos moicanos (vera lúcia rodrigues)
gustave flaubert, salambô (não descobri)
luigi pirandello, a excluída (wilson hilário borges)

como se vê, a equipe de tradução é de perfil familiar: além de wilson hilário borges, assinam as traduções sua filha juliana borges, sua companheira vera lúcia rodrigues e seu sobrinho felipe padula borges.

de acordo com o site da empresa, atualmente o catálogo da germinal conta com apenas 25 títulos, entre eles 12 das obras de tradução acima citadas.




o escândalo dos plágios de tradução praticados pela germinal veio à tona em 2004, pelo jornal opção de goiânia e a folha de s.paulo.


imagem: http://writista.wordpress.com/