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22 de ago. de 2012

uma ideologia poderosa




A Boitempo traz o clássico da teoria social contemporânea O poder da ideologia, de István Mészáros, um dos principais pensadores marxistas da atualidade. Com edição cuidadosa, o livro possui nova tradução para o português feita por Paulo Cezar Castanheira e uma introdução inédita[...].







este é um trecho da apresentação da obra de mészáros no site da boitempo editorial, aqui.

por outro lado, the power of ideology fora publicado pela extinta editora ensaio em 1996, com tradução de magda lopes.






















parece-me um caso bastante semelhante ao que ocorreu com outro livro de mészáros, em duas edições no brasil: marx: a teoria da alienação, em tradução de waltensir dutra e supervisão editorial de leandro konder, pela zahar, e a teoria da alienação de marx, em pretensa tradução em nome de isa tavares, pela boitempo, que apresentei aqui.*
* vale dizer que, no caso da teoria da alienação, a editora reconheceu a pertinência de meus apontamentos e declarou ter interrompido a distribuição da obra irregular e ter encomendado nova tradução (aqui).

digo que o caso me parece semelhante, pois a impressão que se tem durante a leitura de o poder da ideologia nas duas edições é que a da boitempo teria tomado como base de seu texto a tradução publicada pela ensaio, seguindo o padrão daquilo que já se sugeriu chamar de "tradução parafraseada":

  1. frases inteiras praticamente idênticas;
  2. diferença de termos no nível lexical mais simples;
  3. estruturação formal e sintática com alto grau de identidade;
  4. alguns vezos em comum;
  5. diferenças difíceis de explicar a não ser como "falha de revisão"
seguem-se alguns exemplos: 

em nome de magda lopes (ensaio, 1996)
A grande dificuldade é que os obstáculos a superar se erguem sobre as bases objetivas de determinações materiais contraditórias que se opõem a qualquer um que tente interferir com os ditames materiais de sua lógica. Dizer que, "no fim, os homens terão o que merecem" implica a intervenção de uma justiça divina muito peculiar e autodestrutiva, pois a esmagadora maioria dos homens é de um modo ou de outro privada do poder de tomar decisões, e por isso realmente não "merecem" o que lhes acontece em consequência das decisões de uma pequena minoria: uma circunstância que transforma em seu absoluto oposto a própria noção de "justiça divina". (p. 287) 

em nome de paulo cezar castanheira (boitempo, 2004)
A grande dificuldade é que os obstáculos a superar se erguem sobre as bases objetivas de determinações materiais contraditórias que se opõem a qualquer um que tente interferir com os ditames materiais de sua lógica. Dizer que, "no fim, os homens terão o que merecem" implica a intervenção de uma justiça divina muito peculiar e autodestrutiva, pois a esmagadora maioria dos homens é de um modo ou de outro privada do poder de tomar decisões, e por isso realmente não "merecem" o que lhes acontece por causa das decisões de uma pequena minoria: uma circunstância que transforma em seu absoluto oposto a [] noção de "justiça divina". (p. 282)

em nome de magda lopes (ensaio, 1996)
Entretanto, o problema é que as implicações óbvias e altamente perturbadoras de tais observações minam as expectativas esperançosas de Marx quanto à "última forma possível" de um poder de estado separado e independente da sociedade. Enquanto existir a base social da divisão sistemática e hierárquica do trabalho - e enquanto ela puder se renovar e fortalecer em conjunto com a transformação dos corpos sociais da "sociedade civil", em escala sempre crescente e rumo a uma integração global - uma reestruturação correspondente das formas de estado, em prol da continuação do domínio de classe (tanto internamente quanto no plano das relações interestatais), não pode ser negada ao sistema estabelecido. Por isso, ainda hoje estamos muito distantes da "última forma" do estado capitalista e de seu domínio de classe; quanto mais na época em que Marx escreveu as linhas citadas de sua defesa da Comuna. (p. 362)

em nome de paulo cezar castanheira (boitempo, 2004)
O problema, entretanto, é que as implicações óbvias e altamente perturbadoras de tais observações abalam as expectativas esperançosas de Marx quanto à "última forma possível" de um poder de Estado separado e independente da sociedade. Enquanto existir a base social da divisão sistemática e hierárquica do trabalho - e enquanto ela puder se renovar e fortalecer em conjunto com a transformação em curso dos corpos sociais da "sociedade civil", em escala sempre crescente e rumo a uma integração global -, uma reestruturação correspondente das formas de  Estado, em prol da continuação do domínio de classe (tanto internamente quanto no plano das relações interestatais), não pode ser negada ao sistema estabelecido.Assim, ainda hoje estamos muito distantes da "última forma" do Estado capitalista e de seu domínio de classe; quanto mais na época em que Marx escreveu as linhas citadas em defesa da Comuna. (p. 342)

em nome de magda lopes (ensaio, 1996)
Mais uma vez, a analogia com a vislumbrada superação e definhamento das várias instituições repressivas do estado estava diretamente associada à avaliação do futuro da ideologia. Assim como seria inconcebível sair "fora" da superestrutura jurídica e política estabelecida e "abolir" o estado a partir do ponto de vista imaginário do absoluto voluntarismo (tal como os anarquistas concebiam a tarefa), do mesmo modo a superação última da ideologia - a consequência prática inevitável das sociedades de classe - só poderia ser concebida sob a forma da eliminação progressiva das causas dos conflitos antagônicos que os indivíduos, membros das classes, tinham de "resolver pela luta" nas circunstâncias históricas prevalecentes. (p. 519)

em nome de paulo cezar castanheira (boitempo, 2004)
De novo, a analogia com a vislumbrada superação e definhamento das várias instituições repressivas do estado estava diretamente associada à avaliação do futuro da ideologia. Assim como seria inconcebível sair "fora" da superestrutura jurídica e política estabelecida e "abolir" o estado a partir do ponto de vista imaginário do absoluto voluntarismo (tal como os anarquistas encaravam a tarefa), também a superação última da ideologia - a consequência prática inevitável das sociedades de classe - só poderia ser concebida sob a forma da eliminação progressiva das causas dos conflitos antagônicos que os indivíduos, membros das classes, tinham de "resolver pela luta" nas circunstâncias históricas prevalecentes. (p. 469)

logo na sequência, um detalhe interessante:

em nome de magda lopes (ensaio, 1996)
Em outras palavras, a compreensão marxista - oposta ao voluntarismo - de que o "definhamento" do estado teria de ocorrer através da reestruturação radical de suas instituições e da transferência progressiva de suas múltiplas funções para os indivíduos sociais: os "produtores associados", fez com que a mesma consideração das restrições objetivas se impusesse também na atitude assumida em relação à ideologia em geral. (p. 519-20)

em nome de paulo cezar castanheira (boitempo, 2004)
Em outras palavras, a compreensão marxista - oposta ao voluntarismo - de que o "definhamento" do estado teria de ocorrer pela reestruturação radical de suas instituições e da transferência progressiva de suas múltiplas funções para os indivíduos sociais: os "produtores associados", fez com que a mesma consideração das restrições objetivas se impusesse também na atitude assumida em relação à ideologia em geral. (p. 469)

ninguém há de imaginar que mészáros estivesse se referindo a uma reestruturação da transferência progressiva de funções, como consta na edição da boitempo. parece mais plausível supor que, ao se substituir "através da" por "pela", tenha-se esquecido de aplicar a mesma substituição na sequência da frase, com  "e pela transferência progressiva etc.".   

um pequenino erro de tradução, mas que não deixa de ser curioso ao se repetir nas duas edições: "Para tornar as coisas ainda mais desconcertantes [...] Feyerabend reivindica em nome do mesmo espírito 'leigo' [sic] a separação da ciência e do estado" (ensaio, p. 62, nota; boitempo, p. 97, nota): trata-se, evidentemente, de espírito "laico".




em o poder da ideologia na edição da boitempo, repete-se um detalhe que já surgira em considerações sobre o marxismo ocidental/ nas trilhas do materialismo histórico, de perry anderson, que comentei aqui (cujas irregularidades de tradução, cabe dizer, também foram admitidas pela editora).

trata-se da menção "Copyright © 1996 da 1a. edição brasileira: Editora Ensaio" na página de créditos. 


não sabemos o que a editora ensaio haveria de pensar da referência (sabemos, por exemplo, que a brasiliense, posta diante de situação semelhante, manifestou sua estranheza), visto que a ensaio encerrou suas atividades faz um bom tempo. de qualquer forma, volta-me, mesmo um tanto absurda, uma hipótese: teria a boitempo julgado que, mencionando um antigo copirraite de uma editora extinta, estaria conferindo legitimidade à sua "nova tradução"? 

seja como for, a referida editora comunicou em nota recente que havia dado por encerrado o processo de apuração interna para eliminar qualquer vestígio de irregularidade em seu catálogo (ver aqui). no entanto, o poder da ideologia parece lhe ter escapado à atenção, pois, tal como o supracitado ensaio "as antinomias de gramsci", de perry anderson, essa obra de mészaros não é mencionada em lugar algum da referida nota. em vista do empenho que a editora tem dedicado a apurar alguns problemas em suas publicações, quero crer que se disporá também a avaliar o caso acima exposto. e por tão mais forte razão porque, no caso de paulo cez[s]ar castanheira, tradutor de muitas obras e não só para a boitempo, a editora poderia eventualmente correr o risco de vir a manchar o nome de um profissional atuante e conhecido no meio.

20 de ago. de 2012

a difusão das antinomias

como comentei aqui, um dos grandes problemas em obras espúrias, sobretudo quando são livros de estudo, de pesquisa, debate e reflexão, dentro e fora do ambiente universitário, é que acabam adquirindo uma difusão, uma propagação quase exponencial. consultadas e citadas em artigos, ensaios, dissertações, teses; indicadas em bibliografias e programas de cursos; presentes em bibliotecas de instituições de ensino públicas e privadas; muitas vezes oferecidas ou adquiridas em licitações e pregões públicos para escolas e bibliotecas, tais obras ganham uma credibilidade que não lhes cabe e uma permanência ao longo das décadas que dificilmente se extirpa com a mera retirada dos exemplares disponíveis no circuito de distribuição. já comentei inúmeras vezes este problema, e na tag nas escolas vê-se claramente a dimensão que ele adquire. 

sobre o importante texto de perry anderson sobre "as antinomias de gramsci", que comentei aqui, seguem alguns exemplos de sua difusão entre acervos de bibliotecas, programas de curso e artigos de reflexão e estudo:

www.acessa.com/gramsci/?id=454&page=visualizar
de L Ramos - Citado por 6 - Artigos relacionados
ANDERSON, Perry. As antinomias de Gramsci. In: ______. Afinidades seletivas. São Paulo: Boitempo, 2002. 

amigosenff.org.br/.../Campanha%202011%20Biblioteca%20da%20E... Formato do arquivo: Microsoft Word - Visualização rápida
Rio de Janeiro, DP&A Editora, 2002. 
ANDERSON, P. “As antinomias de Gramsci”
. In:ANDERSON, PERRY. Afinidades Seletivas. São Paulo: Boitempo, 2002.

www.unifesp.br/prograd/portal/index.php?option=com...Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
Bibliografia Complementar: 
ANDERSON, P. “As antinomias de Gramsci”. In:ANDERSON, PERRY. Afinidades Seletivas. São. Paulo: Boitempo, 2002.

disciplinas.stoa.usp.br/pluginfile.../Hegemonia%20e%20Direito.pdf Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
4 
ANDERSON, Perry. As antinomias de Gramsci. Afinidades eletivas. Tradução de. Paulo Castanheira. São Paulo: Boitempo, 2002. p. 26 e ss. 

[PDF] Título do Artigo: Joseph Schumpeter e a Democracia Inglesawww.sumarios.org/sites/default/files/pdfs/64585_7311.PDF Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
de RT Souza - Artigos relacionados
Estado de Exceção. São Paulo, 
Boitempo, 2004. ANDERSON, Perry. As Antinomias de Gramsci. In: Afinidades Eletivas. São Paulo,. Boitempo, 2002.

9. Referências bibliográficas

www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/6617/6617_10.PDF ANDERSON, Perry. Balanço do neoliberalismo. ... As antinomias de Gramsci. In: ______. Afinidades seletivas. São. Paulo: Boitempo, 2002. 

[PDF] Trotsky para Gramscianos: www.unicamp.br/cemarx/.../comunicações/GT1/gt1m4c2.pdf Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
de CZF de Sena Júnior - Artigos relacionados
6 
Perry Anderson. ... Anderson já exercitou uma comparação em “Antinomias de Gramsci”. In: ------------------. Afinidades seletivas. São Paulo: Boitempo, 2002

[PDF] A condição assalariada do jornalista - Rede de Estudos do Trabalho www.estudosdotrabalho.org/.../Andreia_Souza_Carvalho_A_condica... Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
A regra do jogo. São Paulo, Companhia das Letras, 1988. 
ANDERSON, Perry. As antinomias de Gramsci, In: Afinidades Seletivas. São Paulo, boitempo, 2002.

[PDF] Educação Jurídica Social www.uff.br/ppgsd/dissertacoes/marcos_silva2008.pdf Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat 3 Deve ser destacada a crítica ao pensamento de Gramsci feita por Perry Anderson(ANDERSON, 2002:13 a. 100), sob o título de “As Antinomias de Gramsci”.

[PDF] “Acá lo que cambió todo fue la privatización…” Aproximación ... revista-theomai.unq.edu.ar/.../ArtSoul.pdf - Traduzir esta página Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
de J Soul - Artigos relacionados
del concepto de hegemonía y sus implicancias, como 
Perry Anderson ...... (1976)
: As antinomias de Gramsci en Afinidades Seletivas. Ed. Boitempo. Sao Paulo.

Cuadernos de antropología social - Procesos hegemónicos y ...

www.scielo.org.ar/scielo.php?pid=S1850... - Traduzir esta página de J Soul - 2009 - Artigos relacionados
Anderson, Perry (2002). As antinomias de Gramsci. Afinidades Seletivas . Sao Paulo: Ed. Boitempo. (edición original de 1976) [ Links ]

[PDF] PROGRAMA DE COMPONENTES CURRICULARES www.facom.ufba.br/.../COM106-COMUNICAÇÃO-E-CULTURA-... Formato do arquivo: PDF/Adobe Acrobat - Visualização rápida
ANDERSON, Perry. “As antinomias de Gramsci” in ANDERSON, Perry. Afinidades Seletivas, São Paulo, Boitempo Editorial, 2002

 

embora a editora boitempo já tenha dado por encerrado seu processo de apuração de qualquer vestígio de irregularidade em seu catálogo (aqui), espero que ela reconsidere sua decisão e dedique o mesmo empenho em apurar também as possíveis irregularidades de tradução nessa obra tão importante de perry anderson.

19 de ago. de 2012

afinidades tradutivas



em 2002, a boitempo editorial publicou uma coletânea de ensaios de perry anderson reunidos sob o título de afinidades seletivas. a tradução vem atribuída a paulo césar castanheira, ressalvado apenas um dos ensaios: "agradecemos à fundação editora unesp a cessão do ensaio 'as afinidades de norberto bobbio', traduzido por raul fiker e publicado em zona de compromisso" (p. 11, "nota da edição").

entre os onze autores tratados por anderson nos textos reunidos em afinidades seletivas, cabe a gramsci o mais extenso, intitulado "as antinomias de gramsci" (p. 13-100). este mesmo ensaio saiu pela editora joruês em 1986, em tradução de juarez guimarães e felix sanchez, numa coletânea chamada a estratégia revolucionária na atualidade, da série crítica marxista.



seguem-se alguns trechos extraídos das duas edições, a título comparativo. o texto como um todo, nas duas traduções (ou melhor, naquilo que aparenta ser uma só tradução), segue o mesmo padrão de identidade abaixo ilustrado.

em nome de juarez guimarães e felix sanchez (joruês, 1986)
Nos dias de hoje, nenhum pensador marxista posterior ao período clássico é tão universalmente respeitado no Ocidente como Antonio Gramsci. Nem há algum conceito tão livre ou diversamente invocado entre as forças de esquerda do que [sic] o de hegemonia, que ele tornou de uso corrente. A reputação de Gramsci, localizada e marginal fora de sua Itália de origem no início dos anos sessenta, transformou-o, uma década após, numa celebridade mundial. A homenagem ao seu trabalho realizado na prisão - trinta anos após a primeira publicação de seus Cadernos do Cárcere - está sendo, afinal, intensamente prestada. A ignorância sobre o seu pensamento ou a escassez de estudos sobre ele deixaram de ser obstáculos à sua difusão. (p. 7)

em nome de paulo césar castanheira (boitempo, 2002)
Nos dias de hoje, nenhum pensador marxista posterior ao período clássico é tão universalmente respeitado no Ocidente como Antonio Gramsci. Nem há algum conceito tão livre ou diversamente invocado entre as forças de esquerda do que [sic] o de hegemonia, que ele tornou de uso corrente. A reputação de Gramsci, localizada e marginal fora de sua Itália de origem no início dos anos 1960, transformou-o, uma década após, numa celebridade mundial. A homenagem ao seu trabalho realizado na prisão - trinta anos após a primeira publicação de seus Quaderni del carcere - está sendo, afinal, intensamente prestada. A ignorância sobre o seu pensamento ou a escassez de estudos sobre ele deixaram de ser obstáculos à sua difusão. (p. 15)

mesmo um erro palmar como "conceito tão livre ... do que" (em vez de "tão livre... quanto") foi mantido nas duas edições, além de alguns errinhos em relação ao original, como "a reputação de gramsci ... transformou-o numa celebridade mundial", em vez de "transformou-se em fama mundial", ou o uso de "intensamente" para fully, além de detalhes como o mesmo torneio de frase no final do trecho citado. segue o trechinho correspondente no original:
Today, no Marxist thinker after the classical epoch is so universally respected in the West as Antonio Gramsci. Nor is any term so freely or diversely invoked on the Left as that of hegemony, to which he gave currency. Gramsci’s reputation, still local and marginal outside his native Italy in the early sixties, has a decade later become a world-wide fame. The homage due to his enterprise in prison is now— thirty years after the first publication of his notebooks—finally and fully being paid. Lack of knowledge, or paucity of discussion, have ceased to be obstacles to the diffusion of his thought. 
chamo a atenção para esses detalhes, pois parecem indicar que a tradução de guimarães e sanchez não chegou a passar por uma revisão mais detida, à diferença de outros casos anteriormente apontados.

em nome de juarez guimarães e felix sanchez (joruês, 1986)
O próprio Gramsci estava, na verdade, bastante consciente da necessidade de uma cuidadosa distinção das formas históricas sucessivas do "consentimento" pelos explorados à sua exploração e de uma diferenciação analítica de seus componentes a cada momento. Ele criticou justamente a Croce por afirmar em sua História da liberdade que todas as ideologias antecedentes ao liberalismo eram da "mesma indistinta e árida cor, isentas de desenvolvimento ou conflito" - e sublinhava a especialidade do refúgio da religião sobre as massas a Nápoles dos Bourbons, o poderoso apelo ao sentimento nacional que a sucedeu na Itália e, ao mesmo tempo, a possibilidade de combinações populares das duas. (p. 30)

em nome de paulo césar castanheira (boitempo, 2002)
O próprio Gramsci estava, na verdade, bastante consciente da necessidade de uma cuidadosa distinção das formas históricas sucessivas do "consentimento" pelos explorados à sua exploração e de uma diferenciação analítica de seus componentes a cada momento. Ele criticou justamente a Croce por afirmar em sua História da liberdade que todas as ideologias antecedentes ao liberalismo eram da "mesma indistinta e árida cor, isentas de desenvolvimento ou conflito" - e sublinhava a especialidade do refúgio da religião sobre as massas a Nápoles dos Bourbons, o poderoso apelo ao sentimento nacional que a sucedeu na Itália e, ao mesmo tempo, a possibilidade de combinações populares das duas. (p. 44)

neste trecho, além da pura identidade, destaca-se a manutenção de um surpreendente "a especialidade do refúgio da religião sobre as massas" para o original "the specificity of the hold of religion on the masses" ["a especificidade do domínio da religião sobre as massas"].

em nome de juarez guimarães e felix sanchez (joruês, 1986)
Pois o debate no seio da social-democracia alemã teve uma sequela reveladora na social-democracia russa. Poucas semanas depois, Martov escreveu um artigo na Die Neue Zeit sobre O debate prussiano e a experiência russa. Aprovando calorosamente o conjunto das teses de Kautsky, Martov argumentou que a Rússia realmente estava longe de escapar às lições que elas [sic] podiam ser extraídas. Não deveria ser permitida a Rosa Luxemburgo utilizar a revolução de 1905 como um trunfo contra a política oficial do SPD na Alemanha. Sua análise da revolução não deveria ser admitida pelos socialistas ocidentais, em nome do privilegium odiosum que fazia da Rússia um caso excepcional. A experiência russa era agora no fundamental semelhante, em todos os sentidos, à experiência europeia em seu conjunto. Onde ela se desviou do padrão, em 1905, terminou em desastre. A mistura de greves econômicas e políticas exaltadas por Rosa Luxemburgo era mais uma fraqueza do que uma força do proletariado russo. O levantamento [sic] de Moscou foi o resultado calamitoso de um movimento lançado "artificialmente" para um "enfrentamento decisivo" com o Estado. (p. 63)

em nome de paulo césar castanheira (boitempo, 2002)
Pois o debate no seio da socialdemocracia alemã teve uma sequela reveladora na socialdemocracia russa. Poucas semanas depois, Martov escreveu um artigo no Die Neue Zeit sobre "O debate prussiano e a experiência russa". Aprovando calorosamente o conjunto das teses de Kautsky, Martov argumentou que a Rússia realmente estava longe de escapar às lições que elas [sic] podiam ser extraídas. Não deveria ser permitido a Rosa Luxemburgo utilizar a revolução de 1905 como um trunfo contra a política oficial do SPD na Alemanha. Sua análise da revolução não deveria ser admitida pelos socialistas ocidentais, em nome do privilegium odiosum que fazia da Rússia um caso excepcional. A experiência russa era agora no fundamental semelhante, em todos os sentidos, à experiência europeia em seu conjunto. Onde ela se desviou do padrão, em 1905, terminou em desastre. A mistura de greves econômicas e políticas exaltadas por Rosa Luxemburgo era mais uma fraqueza do que uma força do proletariado russo. O levantamento [sic] de Moscou foi o resultado calamitoso de um movimento lançado "artificialmente" para um "enfrentamento decisivo" com o Estado. (p. 85)

em nome de juarez guimarães e felix sanchez (joruês, 1986)
Os debates clássicos, por isso, ainda continuam a ser, em vários aspectos, o mais avançado limite de referência que possuímos hoje. Não é assim um mero arcaísmo relembrar as controvérsias estratégicas que ocorreram quatro ou cinco décadas antes. Reapropriá-las [sic] é, pelo contrário, um passo na direção de uma discussão marxista na esperança - necessariamente modesta - [sic] que ela tome uma "forma inicial" de teoria correta para hoje. Regis Debray falou, em um parágrafo famoso, da dificuldade permanente de ser contemporâneo como [sic] o nosso presente. Na Europa, ao menos, temos ainda de ser contemporâneos com o nosso passado. (p. 74)

em nome de paulo césar castanheira (boitempo, 2002)
Os debates clássicos, por isso, ainda continuam a ser, em vários aspectos, o mais avançado limite de referência que possuímos hoje. Não é assim um mero arcaísmo relembrar as controvérsias estratégicas que ocorreram quatro ou cinco décadas antes. Reapropriá-las [sic] é, pelo contrário, um passo na direção de uma discussão marxista na esperança - necessariamente modesta - [sic] que ela tome uma "forma inicial" de teoria correta para hoje. Regis Debray falou, em um parágrafo famoso, da dificuldade permanente de ser contemporâneo como [sic] o nosso presente. Na Europa, ao menos, temos ainda de ser contemporâneos com o nosso passado. (p. 100)

em nota recente, a editora boitempo comunicou que dava por encerrado o processo de auditoria interna a fim de eliminar qualquer vestígio de irregularidade em seu catálogo (ver aqui). no entanto, o ensaio "as antinomias de gramsci" parece ter escapado a seu crivo, pois não é mencionado na referida nota. em vista do empenho que a editora tem dedicado a apurar alguns problemas apontados em suas publicações, quero crer que se disporá também a avaliar o caso acima exposto. 

sobre os outros problemas apontados em seu catálogo, ver aqui.

adendo: paulo césar castanheira, até onde consigo entender, é um tradutor sério e respeitado, com boas referências, por exemplo, na editora revan. tem diversas traduções publicadas por diversas editoras, e não conheço nada que o desabone como pessoa e como profissional.

se seu nome aparece atribuído a algumas pretensas traduções publicadas pela boitempo editorial, eu jamais suporia nem jamais me permitiria supor que tenha sido ele o responsável por tais irregularidades. ademais, suas relações profissionais com a editora não me dizem respeito e sou da opinião de que elas não vêm ao caso. o que vem ao caso é a fidedignidade dos créditos, a veracidade das informações sobre a autoria dos textos traduzidos, a integridade intelectual da obra ofertada ao público leitor: todos esses quesitos são sempre e inapelavelmente de responsabilidade da casa editorial que a publica. em vista disso, acrescentei nas especificações dos nomes nos trechos exemplificativos a expressão "em nome de", e passarei a adotar este procedimento em todos os cotejos que eventualmente eu vier a apresentar neste blog.

3 de jun. de 2012

a mera menção num livro qualquer à existência de edições anteriores da mesma obra não significa nada em termos de sua composição efetiva. assim, por exemplo, temos que: 

  • a boitempo editorial, no volume em que publicou minha tradução de in the tracks of the historical materialism, de perry anderson, atribuindo-a a "isa tavares", em 2004, menciona na página de créditos que a primeira edição desse ensaio saíra em 1984 pela editora brasiliense. 
  • da mesma forma, em a teoria da alienação em marx, de istván mészáros, com tradução em nome da mesma "isa tavares", em 2006, a boitempo editorial também menciona na página de créditos que a primeira edição em português fora publicada pela zahar em 1981.
  • no caso de afinidades seletivas, de perry anderson, e especificamente sobre o ensaio "as antinomias de gramsci", de tradução atribuída a paulo césar castanheira, em 2002, a boitempo editorial menciona em nota de edição que o referido ensaio fora publicado pela editora joruês em 1986.

nada disso informa que as traduções publicadas pela boitempo teriam sido extraídas das edições anteriores citadas, com ou sem autorização de seus autores. tais menções indicam apenas que alguma tradução da mesma obra original fora publicada anteriormente por alguma editora brasileira.


nos três exemplos acima citados, a boitempo admitiu que usara as traduções anteriores sem dar os respectivos créditos de tradução. a editora divulgou uma nota (aqui) anunciando suas providências em relação aos dois casos em nome de "isa tavares". quanto ao terceiro caso, a editora sustentou em outra nota (aqui) que, embora a atribuição dos créditos não correspondesse à real autoria da tradução, a veracidade de tais créditos estaria garantida porque "há permissão expressa dos tradutores originais do ensaio 'as antinomias de gramsci' para que a editora procedesse dessa forma" e "o direito autoral interessa apenas àqueles que o negociam". já comentei aqui a diferença irredutível entre os direitos patrimoniais e os direitos extrapatrimoniais que fazem parte de uma obra e também já manifestei minha incerteza sobre a validade jurídica de uma negociação envolvendo a renúncia a um direito de personalidade que, em princípio e até onde consigo entender, é irrenunciável, intransferível e inextinguível.

quanto às afirmações de que "a fidedignidade dos créditos reside nessa relação profissional, que ... não [me] diz respeito" e de ser duvidosa "a intenção de quem julga obras que não lhe dizem respeito", também já comentei aqui que, e mais uma vez até onde consigo entender, a legislação que protege os direitos civis do consumidor me autoriza plenamente a querer ter informações claras e corretas sobre a integridade do produto livro.

não aceito as insinuações e acusações da editora boitempo contra mim e reitero o que afirmei antes e ilustrei aqui: a tradução do ensaio "as antinomias de gramsci" publicada pela editora boitempo em 2002, atribuindo sua autoria a paulo césar castanheira, é essencialmente idêntica à tradução em nome de juarez guimarães e felix sanchez que saiu pela editora joruês em 1986, e nenhum acordo entre quaisquer partes pode alterar este fato.