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7 de set. de 2017

artigo sobre crime e castigo

americana, 1930 - capa de di cavalcanti


neste último número dos cadernos de tradução da ufsc, saiu meu artigo sobre as bizarras circunvoluções em que, durante mais de oitenta anos, esteve metido o pobre do "crime e castigo" de dostoiévski no brasil. disponível aqui.


25 de jun. de 2016

quantos crimes não desvendados!

a chegada de crime e castigo de dostoiévski ao brasil é um mistério.

brito broca, em sua introdução a crime e castigo na famosa tradução de rosário fusco (1949), cita lá que a primeira tradução da obra havia saído pela livraria castilho no começo dos anos 1920. a tradução, diz broca, era de fernão neves (pseudônimo de fernando nery, o mesmo que traduzira recordações da casa dos mortos, lançado em 1917 pela mesma castilho).

acontece que essa afirmação de brito broca é a única, unicíssima referência a tal tradução que encontrei em todos esses anos. estou quase desanimando e começando a achar que broca, passadas quase três décadas, foi é traído por sua memória.

aí, em 1930 sai crime e castigo - esse sai mesmo, comprovadamente - pela editora americana com tradução em nome de um improvável "ivan petrovitch", com projeto gráfico da capa feito por di cavalcanti.



bom, a americana é aquela mesma que publicou um irmãos karamazov em tradução de outro igualmente improvável "raul rizinsky", que veio a se revelar depois como pseudônimo que a editora impingiu ao tradutor, ninguém menos que leôncio basbaum. veja aqui.

em vista disso, não me parece absurdo supor que aquele tal "ivan petrovitch" fosse também mera invenção da casa para dar uma aura russificada à tradução. agora, quem seria, não faço ideia (imagino que não basbaum, porque sua primeira tradução para a americana - o irmãos de "rizinsky" - saiu em 1931, enquanto o crime de "petrovitch" sai em 1930).

anúncio em o correio da manhã, 29/10/1930

bom, que seja. pelo menos é fato comprovado que em 1930 sai essa tradução de crime e castigo, que não sabemos quem fez, pois é difícil acreditar nesse "ivan petrovitch".

ainda em 1931, a americana encerra a parte de literatura e seu catálogo literário é adquirido pela waissman, reis & cia., a qual por sua vez, a partir de 1934, passa a responder pelo nome de guanabara (ou guanabara koogan). com a aquisição do catálogo, ela passa a relançar títulos anteriores da americana, que agora são seus. crime e castigo sai em 1936, sem "petrovitch" nenhum e constando apenas "tradução revista por elias davidovich".

aí, também em 1936, a pongetti lança um crime e castigo com tradução em nome de um "j. jobinsky", revista por aurélio pinheiro. isso é meio esquisito. a pongetti e a guanabara tinham uma rivalidade meio bizarra, em que a pongetti vivia correndo atrás de publicar as mesmas coisas que a guanabara e inclusive garfando várias traduções dela, e esse seu lançamento me parece muita coincidência. bom, em 38 ou 39 aurélio pinheiro morre; em 1939, a pongetti lança uma segunda edição desse crime e castigo de jobinsky/pinheiro.

aí, em 1943 a mesma pongetti lança mais uma edição, mas agora - e com destaque na capa - como "tradução revista por marques rebelo". some qualquer referência a um tradutor qualquer que seja, inventado ou não, e a obra tem lá suas reedições durante uns bons anos, "revista por marques rebelo".

então, em 1960 sai mais uma edição da mesma pongetti, agora como "tradução revista por luiz cláudio de castro".

depois a pongetti fecha, seu catálogo vai para a ediouro, que relança crime e castigo nessa dita tradução revista e com um dito cotejo com o original russo de luiz cláudio de castro, e lá a obra permanece até hoje.

mas, quando a coleção biblioteca da folha publica uma edição dessa obra, em 1998, luiz cláudio de castro passa a constar na capa como se fosse o autor da tradução.

e assim ficamos sem saber, nessa sucessão de nomes arrussados e traduções revistas, quem terá sido de fato o tradutor "ivan petrovitch" que lançou aquela que me sinto propensa a considerar - em que pese a afirmação de brito broca - a primeira tradução de crime e castigo no brasil.

atualização: ah, santa ingenuidade! que tradução de "jobinsky" que nada! cópia pura e simples da tradução lusitana de câmara lima, de 1901.

veja aqui.

3 de jan. de 2016

zweig, ninitch e medeiros e albuquerque


gosto do formato de crônica ou de estudo de caso bem condensado ("micro-história", diriam alguns) porque certos episódios históricos parecem constituir nós ou entrelaçamentos resultantes de convergências muito singulares. e gosto desse trabalho de destrinçamento dos fios que, reunindo-se intempestivamente ou inesperadamente, formaram aquela ocorrência histórica (aquele "acontecimento", diriam alguns).

o nó que atualmente ando querendo destrinçar parece quase apenas um fait divers, um pequeno fato avulso, pertencente ao capítulo das curiosas insignificâncias. e é o seguinte: medeiros e albuquerque assinou com seu nome algumas traduções de stefan zweig feitas por zoran ninitch.

este é o "fato". mas, se pararmos para pensar e tentarmos entender essa bizarrice, veremos que o pano de fundo é complicado, são muitas as perguntas e muitos os fatores envolvidos nessa simples ocorrência.

quem são os agentes ativos e passivos envolvidos nisso? medeiros e albuquerque e zoran ninitch, evidentemente, mas também stefan zweig, abraão koogan e a editora guanabara, e, conforme avançamos, também elias davidovich, gastão pereira da silva, odilon gallotti, freud, aurélio pinheiro, flores & mano, atlântida, unitas, calvino, pongetti. por que medeiros? por que ninitch? desde quando? a partir de que condições? com que finalidade? quais as consequências?

resumindo: por que traduções de zweig feitas por ninitch são publicadas como da lavra de ninguém menos que o grande defensor dos direitos autorais no brasil, que deu seu nome à primeira lei referente ao tema, contemplando especificamente também as obras de tradução, qual seja, a "Lei Medeiros e Albuquerque"? o que leva um insigne membro da academia brasileira de letras, importante parlamentar, autor expressivo, a participar desse embuste? o que aconteceu, em suma?

e quanto mais tento entender, mais intrincado parece ser este nó, mais interesses parecem estar envolvidos, mais atritos e conflitos parecem se enfrentar, mais circunstâncias pessoais, econômicas e ideológicas parecem se entrecruzar.


18 de out. de 2015

mulher de trinta anos, uma hipótese promissora

um dos casos mais interessantes e engraçados em nossa história tradutória é, provavelmente, o percurso centenário d'a mulher de trinta anos, de balzac.

aqui exponho o que por ora é apenas uma hipótese de trabalho, qual seja, a tradução de luiz cardoso, publicada em 1906 pela guimarães de lisboa, teria sido usada no brasil pelas seguintes casas editoriais:
1. h. garnier em sua edição de 1914; reedição em 1922 pela livraria garnier, anônima 
2. civilização brasileira em 1931; reedição em 1937 em sua collecção S.I.P., idem
3. irmãos pongetti em 1943, como "tradução revista por marques rebelo"
4. brand com licenciamento da pongetti em 1945, idem
5. clube do livro em 1947, anônima
6. novo mundo em c.1954, idem
7. edições de ouro desde os anos 1960, chegando à atual ediouro, agora atribuindo-a diretamente a marques rebelo
8. clube do livro em 1988, agora atribuindo-a a josé maria machado
9. nova cultural na coleção imortais da literatura em 1995, atribuindo-a a "enrico corvisieri"*
10. nova cultural na coleção obras-primas em 2003, atribuindo-a a "gisele donat soares"*
11. saraiva de  bolso em 2013, atribuindo-a diretamente a marques rebelo
* nomes fictícios






para as relações de proximidade entre garnier, clube do livro e nova cultural (em suas duas edições com atribuições distintas), já disponho de alguns elementos interessantes. encomendei hoje um exemplar da guimarães, um da civilização e um da pongetti.

tenho já uma sub-hipótese à primeira vista quase escalafobética, mas com alguma plausibilidade, sobre o tipo das possíveis relações entre a edição da guimarães e a da garnier e até sobre a identidade do responsável por tais relações. mas vou preferir reunir dados mais concretos antes de aprofundá-la.

apenas para encerrar, vale lembrar que a martin claret, numa de suas costumeiras imposturas, preferiu garfar a tradução d'a mulher de trinta anos feita por casimiro fernandes e wilson lousada (bem como as notas e trechos do prefácio de paulo rónai), atribuindo-a ao indefectível pietro nassetti - vide aqui.

17 de out. de 2015

xavier de maistre / marques rebelo, II

recentemente, chamou-me a atenção o comentário de um leitor sobre o livro de xavier de maistre, voyage autour de mon chambre, traduzido como viagem à roda do meu quarto, com tradução atribuída a marques rebelo, que lhe pareceu similar à tradução lusitana de josé fernandes costa. expus o caso aqui,

na ocasião, comentei que, apesar de várias contrafações cometidas por rebelo na coleção "as 100 obras-primas da literatura universal", que ele coordenava e dirigia para a editora irmãos pongetti nos anos 1940, "eu não tinha notícia de nenhuma tradução assinada diretamente por marques rebelo que, na verdade, consistisse em tradução alheia". 

fiquei de apurar melhor o caso. 

sim, o leitor tem razão: a tradução de viagem à roda do meu quarto, seguido de expedição notura à roda do meu quarto, de xavier de maistre, publicada pela pongetti em 1944 é, de fato, da lavra de fernandes costa, publicada em portugal em 1888 pela editora david corazzi, com apenas parcas e mínimas alterações.




todavia, a autoria da tradução não vem atribuída a marques rebelo. a edição não menciona o nome do tradutor, e informa somente que é uma "tradução revista por marques rebelo". poderíamos dizer que se trata provavelmente de uma contrafação, mas não de uma impostura.





ora, ocorre que em 1965 a tecnoprint, em sua coleção "clássicos de bolso" das edições de ouro, reeditou essa obra atribuindo a tradução diretamente a marques rebelo. muitas vezes a tecnoprint (e futura ediouro), ao reeditar obras dos catálogos de editoras extintas como a pongetti, preservava as informações da editora anterior, mas há também alguns casos em que essas suas reedições acabam substituindo a menção "tradução revista por fulano" por "tradução de fulano". esse volume das edições de ouro parece não ter conhecido grande sucesso, pois, até onde sei, não voltou a ser reeditado.

em 1989, certamente baseando-se na edição da tecnoprint, a estação liberdade voltou a republicar a tradução lusitana revista por marques rebelo diretamente atribuída a este último. a edição da estação liberdade pelo visto teve mais êxito do que a da tecnoprint, com nova edição em 2008.





resumindo: 
1. pelo que pude apurar depois de vários cotejos entre a edição da corazzi de 1888, a da pongetti de 1944, a do clube do livro de 1945 e a da estação liberdade de 1989, trata-se da mesma tradução lusitana oitocentista de fernandes costa, com, repito, paucíssimas alterações aqui e ali em suas edições brasileiras. 
2. a atribuição incorreta se iniciou em 1965, na tecnoprint, por alguma razão que desconheço, mais provavelmente por algum lapso de atenção do que por qualquer intuito criminoso. esse erro transitou para a estação liberdade, que, decerto tomando a atribuição na edição da tecnoprint por lícita e válida, reproduziu-a em suas edições posteriores.




a propósito ainda do destino da tradução de fernandes costa in terra brasilis: em 1946, dois anos depois do lançamento da pongetti, o clube do livro também lançou o mesmo texto. não traz qualquer menção ou crédito de tradução e segue fielmente a tradução portuguesa, apenas atualizando a ortografia.






agradeço a saulo von randow jr. pelo importante material de cotejo que gentilmente me enviou.

20 de set. de 2015

xavier de maistre / marques rebelo

um leitor deste blog fez um comentário interessante, que muito me surpreendeu, aqui.

e por que me surpreendeu? porque, de modo geral, todas as apropriações de traduções alheias feitas pela editora pongetti, apresentando-as sem o nome do tradutor, vinham com a menção de "revista por marques rebelo". para ver os vários casos relacionados que apontei neste blog, consulte os marcadores "marques rebelo" e "pongetti".

todavia, eu não tinha notícia de nenhuma tradução assinada diretamente por marques rebelo que, na verdade, consistisse em tradução alheia.

apresentar uma tradução anônima como "revista por marques rebelo" e apresentar uma tradução como sendo da lavra "de marques rebelo" são coisas muito diferentes: embora ambas ilícitas, a primeira prática recai sob a rubrica de contrafação, reprodução da obra traduzida sem autorização do tradutor e/ou da editora que detém os direitos sobre ela, bem como de lesão aos direitos morais de paternidade e integridade da obra; a segunda recai sob a rubrica de plágio mesmo, furto intelectual, bem mais grave do que a contrafação, pois a legítima autoria da tradução não se mantém meramente anônima, mas é apropriada por outrem.

todos os casos de irregularidades de tradução que constatei na pongetti fazem parte da coleção criada, organizada e dirigida pelo próprio marques rebelo, chamada "As 100 Obras-Primas da Literatura Universal" - várias, como apontei em outras postagens, constam como "revistas por marques rebelo"; outras foram traduzidas por diversas pessoas, por encomenda da pongetti e indicação do coordenador da coleção, e algumas delas constam como traduzidas por ele próprio.

esse caso da viagem à roda do meu quarto merece análise detalhada, pois, como disse, em se comprovando eventual apropriação da tradução de josé fernandes costa por marques rebelo, os problemas referentes a seus procedimentos como organizador, coordenador e tradutor adquiririam outra envergadura, e toda a sua obra tradutória, antes, durante e depois de seu período na pongetti, demandaria uma ampla pesquisa e a realização de numerosos cotejos, para apurar sua fidedignidade.

 josé fernandes costa, ed. david corazzi, 1888

marques rebelo, pongetti, 1944

reedição pela estação liberdade, 1989, 
sem dúvida alguma lesada em sua boa fé

vale ainda notar que o clube do livro publicou em 1946 uma tradução anônima, que apresenta todos os vezos lusitanos em sua linguagem, com pdf disponível aqui. fiz uma comparação entre vários trechos da tradução em nome de marques rebelo e da tradução anônima publicada pelo clube do livro, e posso asseverar que se trata da mesma tradução. não pude ainda empreender um cotejo direto pela dificuldade em encontrar, de momento, um exemplar da tradução de fernandes costa.


[atualização em 17/10/2015: aqui se encontram os resultados da análise feita.]

abaixo segue uma listagem (incompleta) em verbete da wikipédia sobre marques rebelo, sem especificar o que é o quê:*

Tradução / revisão
Ana Karênina, Leon Tolstói (1948)
As aventuras de um cão de circo, Jack London
A divina comédia, Dante Alighieri
A flecha de ouro, Joseph Conrad
A filha do capitão, A. S. Pushkin
A lenda de uma quinta senhorial, Selma Lagerlöf (1943)
A metamorfose, Franz Kafka
A morte de Ivan Ilitch; Senhores e Servos, Leon Tolstói
A mulher de trinta anos, Honoré de Balzac
A volta de Vivanti, Sydnei Horler (1942)
Cinco semanas num balão, Júlio Verne
Contos, Bret Harte
Crime e Castigo, F. P. Dostoiévski (1946)
Do amor, Stendhal (1936)
Eugênia Grandet, Honoré de Balzac (1944)
Hiba, Leon Tolstói
História cômica, Anatole France (1941)
Histórias, Bret Harte
Ida Elisabeth, Sigrid Undset (1944)
Ivanhoé, Walter Scott (1943)
Lazarillo de Tormes, anônimo do século XVI
Mediterrâneo: nascer do sol, Panait Strait (1944)
Nicolau II, o prisioneiro da púrpura, Mohammed Essad-Bey (1937)
Novas aventuras dos caçadores de tesouros, Edith Nesbit Bland
Os caçadores de tesouros, Edith Nesbit Bland
O estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde; Markheim, Robert Louis Stevenson
O grande ditador, H. G. Wells (1943)
Os inocentes, Henry James
O mágico de Oz, Frank Baum
O mundo em transe, Leopold Schwarzchild [1943?]
O processo, Franz Kafka
Os inocentes, Henry James
O lírio vermelho, Anatole France [1955?]
O passageiro clandestino, Edgar A. Poe
O triste noivado de Adam Bede, George Eliot (1946)
Os últimos dias da Pompéia, Bulwer-Lytton
Passageiro clandestino, ou Arthur Gordom Pym, Edgar Alan Poe
Regina, Lamartine (1944)
Rômolo", George Eliot (1946)
Salambô, Gustave Flaubert (1942)
Tiquinho, Alphonse Daudet
Um aconchego de solteirão, Honoré de Balzac
Uma vida, Guy de Maupassant
Viagem à roda do meu quarto, seguido de Expedição noturna à roda de meu quarto, Xavier de Maistre
Vidas ilustres, Hendrik Willem Van Loon
Werther, Goethe [1948?]

* essa listagem foi removida do verbete em 2013, com a seguinte justificativa: (Removida a seção "Tradução / revisão" [...] pela impossibilidade de comprovar a autoria do escritor relativamente a "traduções".) 

para o original de xavier de maistre, voyage autour de ma chambre, ver aqui.


8 de ago. de 2015

da americana à martin claret, passando pela pongetti e pelas edições de ouro

mais uma breve comparação entre "ivan petrovitch"/"irina wisnik" e "luiz cláudio de castro":

Compreendia agora que passara o tempo de sofrer passivamente, e das lamentações que nada resolvem; agora cumpria fazer fosse o que fosse, o mais depressa possível. Era necessário tomar desde já uma resolução qualquer ou...
“Ou renunciar à vida!”, exclamou ele subitamente, “aceitar, de uma vez por todas, o destino como ele é, sufocar todas as aspirações, abdicar definitivamente ao direito de ser livre, de viver, de amar!" 
Compreendia agora que passara o tempo das lamentações que nada remediam e que, em vez de increpar a sua imprudência, cumpria-lhe fazer qualquer coisa o mais depressa possível. Era necessário tomar desde já uma resolução qualquer ou...
“Ou renunciar à vida!”, exclamou subitamente, “aceitar, duma vez para sempre, o destino como ele é, abafar todas as aspirações, abdicar definitivamente ao direito de ser livre, de viver, de amar!"

resumindo minha hipótese: em 1930, saiu pela ed. americana uma tradução de crime e castigo em nome de um improbabilíssimo "ivan petrovitch", que já em 1931 some do horizonte. em 1936, a pongetti lança algo que supostamente seria uma nova tradução, em nome de jorge jobinski. "ivan petrovitch" ressurge em 2002 pela editora claret, com uma tal "irina wisnik". minha hipótese é que a tradução de 1930 pela americana foi republicada em 1936 pela pongetti sob outro nome e que ela tem circulado faz mais de oitenta anos entre várias editoras, com um monte de gente mexendo no texto (desde aurélio pinheiro e marques rebelo até luiz cláudio de castro, que acabou sendo erigido em 1998 como seu tradutor).

ver também aqui

11 de fev. de 2014

ainda marques rebelo e suas sapequices

devo a marcelo jacques de moraes a indicação dessa matéria publicada pelo diário da noite em 04 de agosto de 1943, disponível na hemeroteca digital de nossa biblioteca nacional. sobre outras falcatruas da pongetti e marques rebelo, ver aqui e aqui.

quanto a essa edição d' a lenda de uma quinta senhorial, já aqui eu aventara essa possibilidade, agora mais do que sobejamente demonstrada e comprovada, com a denúncia de seu legítimo tradutor, araújo ribeiro.



um dos graves problemas dessas contrafações da pongetti é que várias dessas obras transitaram posteriormente para o catálogo da tecnoprint/ediouro, e em diversos casos a tradução garfada e "revista por marques rebelo" passou a ser apresentada como "tradução DE marques rebelo"...


2 de jun. de 2013

zoran ninitch, V, e uma sugestão de pesquisa

zoran ninitch, nosso amigo tradutor iugoslavo de que já falamos algumas vezes (veja aqui), traduziu várias coisas de stefan zweig no começo dos anos 1930.

hoje quero comentar uma "coincidência" envolvendo duas delas: uma noite fantastica, pela editora pallas (c.1932), e ocaso de um coração, pela machado & ninitch (1934).



ninitch tinha um colaborador em sua microeditora machado & ninitch: o tradutor aurélio pinheiro.

por outro lado, a editora pongetti, nos anos 1940, era relativamente useira e vezeira em pegar traduções publicadas por outras editoras, como fez algumas vezes com traduções de elias davidovich publicadas pela guanabara(veja aqui).

assim, quando vejo um volume contendo ocaso de um coração e uma noite fantastica, publicado pela pongetti em 1941, dando como tradutor aurélio pinheiro - aliás, falecido em 1938 -, começo a sentir aquela insuportável coceira que apenas um batalhão de pulgas atrás da orelha consegue provocar.

infelizmente não localizei imagem de capa dessa edição da pongetti (aliás reeditada em 1950), mas encontra-se facilmente em sebos, no google books e em nossa biblioteca nacional.

atualização em 05/08/2015 - localizei uma imagem de capa da referida edição da pongetti:



21 de jul. de 2012

la rabouilleuse luso-brasileira

mesmo a tradução de um título marca a identidade de seu autor e até por lei tem direito a ser respeitada. talvez gomes da silveira et al. não soubessem disso quando, em 1951, utilizaram na edição da globo:



o título criado por beldemónio, cuja tradução saíra desde 1887:



com várias reedições pela portuguesa guimarães:



ou teriam tomado o título ao indefectível "k. d'avellar", o ser de ficção que a garnier brasileira gostava de usar como pretenso tradutor de suas cópias de traduções portuguesas?



Autor:Balzac, Honoré de, 1799-1850.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Um conchêgo de solteirão;
Imprenta:Rio de Janeiro, Livr. Garnier. 
Descrição física:385 p.
Notas:Registro Pré-MARC
Entradas secundárias:Avellar, K.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 
Classificação Dewey:
Edição:
843
Indicação do Catálogo:843/B198ra7

e que, aliás, foi parar na pongetti em 1968, numa edição que traz apenas o crédito de "tradução revista por marques rebelo":



qualquer que tenha sido a fonte - a tradução portuguesa legítima ou sua contrafação brasileira na garnier -, o que parece inegável é que o título de beldemónio - e tão peculiar para la rabouilleuse - teve e continua a ter longa vida entre nós.

sobre k. d'avellar e as sapequices tradutórias da garnier, ver aqui.
sobre marques rebelo e as sapequices tradutórias da pongetti, ver aqui.

atualização em 11/08/2012: alexandre barbosa de souza bem lembra que "Rónai fala, em A tradução vivida (p. 127), que La Rabouilleuse tinha sido, de fato, traduzido em Portugal com o título da primeira versão em folhetim, Un ménage de garçon, daí o Conchego do solteirão; e que o tradutor da Globo de Porto Alegre seguiu o mesmo título, como era de praxe [na época]".

3 de jun. de 2012

os preferidos de clarice

na primeira entrevista de clarice lispector, que saiu na diretrizes em 30 de outubro de 1941, perguntaram-lhe a certa altura:
Quais os melhores livros da literatura universal, na sua opinião?
e ela respondeu:
Humilhados e Ofendidos, Crime e Castigo, de Dostoievski, Sem Olhos em Gaza, do
Huxley, Mediterrâneo, de Panait Istrati, e as obras de Anatole France em geral. 




se ela leu istrati em tradução, certamente não terá sido a que vem assinada por marques rebelo, que só sai pela pongetti em 1944.







terá sido a tradução de heitor moniz, que saiu pela guanabara em 1936.

Autor:Istrait, Panait, 1884-1935.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Mediterraneo.
Imprenta:Rio [de Janeiro], Ed. Guanabara, 1936. 
Descrição física:172 p.
Notas:Registro Pré-MARC
Entradas secundárias:Moniz, Heitor, 1903- trad.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 

como a pongetti gostava de usar traduções alheias, inclusive da própria guanabara, sapecando-lhes uma "revisão" de marques rebelo ou de araújo alves ou outros, não sei se aqui também não terá sido o mesmo caso.

sobre as sapecadas da pongetti, ver aqui.

balzac: sugestão para um tcc

prossigamos com essa difícil arqueologia da tradução no brasil.



em 1943, sai pela irmãos pongetti uma "tradução revista por marques rebelo", porém sem os créditos de autoria. esse lançamento da pongetti teve várias reedições (aqui, a imagem é da edição de 1945).

décadas depois, a ediouro publica a mulher de trinta anos dando marques rebelo como autor da tradução.










em vista do histórico da pongetti com suas "traduções revistas" por marques rebelo, como alertou elias davidovitch aqui, considero que, se algum docente propusesse como tema de trabalho a seus alunos não só compulsar as duas edições acima apresentadas, mas também cotejá-las com a tradução de 1914, pela garnier, e sobretudo com a de 1937, pela civilização brasileira, teríamos um bom serviço prestado à nossa memória tradutória.



ainda a propósito d' a mulher de trinta anos, vejam-se também os cotejos das traduções espúrias da nova cultural (aqui) e da martin claret (aqui).

31 de mai. de 2012

marques rebelo e a pongetti II

não tenho o menor gosto em ficar remexendo em lixo. o que me interessa é tentar entender e reconstituir o processo e o papel da tradução no brasil, sobretudo no século XX. o problema é que, nisso, a gente acaba encontrando um monte de fraudes e entulhos, que tem de ficar revirando até desencrostar esses parasitas e chegar às traduções legítimas, que acabaram sendo sugadas e esquecidas.

na listagem das traduções "revistas" por marques rebelo, encontrei uma selma lagerlöf (que aprecio muito, confesso que mais pela aura que a cerca do que pelos seus textos, os quais mal conheço): a lenda de uma quinta senhorial, pela pongetti, 1943.



tentando localizar a tradução de origem, vejo que a cia. brasil lançou em 1937 uma tradução feita por araújo ribeiro, com o mesmo título. parece-me mais do que provável que tenha sido ela a tradução garfada pela pongetti. encontrei referências em alguns sebos e consta num site sueco dedicado à obra de selma lagerlöf a seguinte ficha, aqui:


Lagerlöf, Selma: En herrgårdssägen.

A lenda de uma quinta senhorial / trad. directa e integral dos originaes suecos de Araujo Ribeiro

Lagerlöf, Selma, 1858-1940 (författare)
Ribeiro, Araujo (översättare)
Rio, 1937
Portugisiska 187 s., 1 portr.
Serie: Collecção "Scandinavia"
  • Bok

agora, que seja uma tradução directa dos originaes suecos até me surpreendeu; como é difícil reconstituir nosso acervo tradutório e quantas surpresas não nos reserva ele!

bem, por ora ficamos sabendo a que (ou de onde) muito provavelmente veio a tal da "tradução revista" que saiu pela pongetti.

sobre os procedimentos da editora e os préstimos de seus revisores, ver também marques rebelo e a pongetti, aqui.

marques rebelo e a pongetti

vale a pena transcrever o que declarou dr. elias davidovitch em depoimento a sieni campos, a respeito de alguns procedimentos que marques rebelo, jornalista, escritor, dito tradutor e imortal da ABL, e a editora pongetti impingiram a traduções de sua autoria, que haviam sido publicadas anteriormente em outras editoras. a matéria completa, cuja cópia me foi gentilmente fornecida por ivo barroso, está no post elias davidovitch, aqui.
Começaram a surgir edições de traduções minhas escritas assim: "Tradução revista por Marques Rebelo". Quando interroguei Marques Rebelo sobre isso, ele respondeu: "Faço isso para ganhar a vida". A revisão consistia em substituir algumas palavras do primeiro parágrafo, menos ainda no segundo e provavelmente pensar: "Ninguém vai ter paciência de cotejar mais adiante". Quando Rogério Pongetti fez isso pela primeira vez, em Werther, eu liguei e ele disse: "Eu não sabia. Tenho trabalho pra lhe dar". No segundo livro liguei de novo e ele voltou a me enganar: "Estou cheio de trabalho para você". No terceiro livro, eu disse: "Você não pode tirar meu nome. Vou processar você só para mostrar quem tem razão". É claro que ele perdeu. Parece que foi o primeiro caso de tradutor que reivindicava direito autoral. Ele perdeu em segunda instância, e apelou; perdeu no Supremo; e assim se firmou jurisprudência, porque até então não havia jurisprudência a respeito.
werther de goethe que davidovitch menciona fora traduzido por ele (por interposição do francês), numa edição que saiu em 1932 pela editora guanabara, tradução esta que, dez anos depois, em 1942, foi parar ilicitamente na pongetti, em sua coleção "as 100 obras-primas da literatura universal", "revista" por marques rebelo, com algumas reedições posteriores.

Autor:Goethe, Johann Wolfgang von, 1749-1832.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Werther, seguido do estudo de Sainte - Beuve.
Imprenta:Rio, Ed. Guanabara, 1932. 
Descrição física:212 p.
Notas:Registro Pré-MARC
Entradas secundárias:Davidovich, Elias trad.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes 


a propósito desses procedimentos de marques rebelo e da pongetti, eu havia comentado o caso de uma obra de flaubert, que transcrevo abaixo. a íntegra se encontra em gustave flaubert no brasil, aqui.
em 1942, aparece uma salambô com "tradução revista" por marques rebelo. no jargão editorial, isso costuma significar o uso de alguma tradução anterior, geralmente portuguesa e ainda mais geralmente não especificada. e aí a dificuldade, mas não a impossibilidade, é descobrir qual foi a tradução utilizada como base. deixo a tarefa aos flaubertianos de carteirinha. de qualquer forma, essa "tradução revista" ainda continua em viçosa circulação, pela ediouro. 
 
curiosamente, a mesma editora guanabara que publicara em 1932 a tradução de davidovitch garfada pela pongetti em 1942, simplesmente sapecando-lhe a "revisão" de marques rebelo, publicara também no mesmo ano de 1932 uma tradução de salambô (desconheço o nome de seu autor).

Autor:Flaubert, Gustave, 1821-1880.clique aqui para ver as obras deste autor no Catálogo de Autoridades de Nomes
Título / Barra de autoria:Salambô (romance).
Imprenta:Rio, Ed. guanabara, 1932. 


pelo depoimento do dr. elias davidovitch, ficamos sabendo que a pongetti nem se dava ao trabalho de pinçar traduções do além-mar: bastava-lhe atravessar algumas ruas cariocas e pegar as dos vizinhos. a essas alturas, eu não me admiraria muito se tivesse sido este o caso também com salambô.