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29 de nov. de 2010

coleção folha, descartes II

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em coleção folha, descartes I, comentei minha surpresa quanto à [falta de] qualidade da tradução do discurso sobre o método, de norberto de paula lima, licenciada pela editora hemus para a coleção folha "livros que mudaram o mundo".

além do discurso sobre o método, o volume de descartes nesta coleção traz princípios de filosofia, em tradução de torrieri guimarães, também licenciada pela hemus para a coleção folha.


a tradução de princípios de filosofia não é tão trôpega, mal revista e truncada como a do discurso sobre o método de norberto de paula lima. é verdade que não se destaca pela clareza nem é propriamente bonita ou contextualizada - traz um "estapafúrdias" para um simples "extravagantes", p.ex. [II, art. 7] -, mas à primeira vista não seria letal.

no entanto, não me pareceu muito justificável encontrar, no primeiro artigo do texto (I, 1), plusieurs jugements ... nous préviennent de telle sorte como "diversos juízos ... de tal modo nos fazem confiantes", numa solução não muito evidente, e não sei até que ponto correta. aliás, este deslize eu também conhecia na tradução de alberto ferreira, pela portuguesa guimarães editores, dos anos 60: "vários juízos ... de tal maneira nos tornam confiantes".

outra passagem de tradução que me pareceu injustificável foi I, 3. aqui transcrevo o trecho original para mostrar melhor a questão (destacada em negrito):

en ce qui regarde la conduite de notre vie nous sommes obligés de suivre bien souvent des opinions qui ne sont que vraisemblables, à cause que les occasions d’agir en nos affaires se passeraient presque toujours avant que nous pussions nous délivrer de tous nos doutes; et lorsqu’il s’en rencontre plusieurs de telles sur un même sujet, ... la raison veut que nous en choisissions une, et qu’après l’avoir choisie nous la suivions constamment, de même que si nous l’avions jugée très certaine. 
... em tudo quanto diz respeito à orientação de nossa existência, encontramo-nos, muitas vezes, obrigados a seguir opiniões somente verossímeis, visto que as oportunidades de agir nos negócios passariam em geral antes que pudéssemos nos livrar de todas as dúvidas. E quando se acham diversas dessas oportunidades de agir a propósito de um mesmo tema, ... a razão requer que façamos a escolha de uma delas e que, depois de feita a escolha, a sigamos com firmeza como se a tivéssemos considerado muito certa. 
 sem dúvida isso indica uma certa insuficiência de torrieri guimarães no entendimento da língua e do próprio argumento de descartes.* por outro lado, o próprio alberto ferreira caíra no mesmo engano cerca de cinquenta anos atrás:
... em tudo aquilo que respeita à orientação da nossa vida, nos achamos, muitas vezes, forçados a seguiropiniões apenas verosímeis, dado que as ocasiões de agir nos negócios se escoariam quase sempre antes de nos libertarmos de todas as dúvidas. E quando se encontram várias dessas ocasiões de agiracerca de um mesmo assunto ... a razão exige que escolhamos uma delas e que, após tê-la escolhido, a sigamos firmemente como se a tivéssemos julgado certíssima.
[secundariamente, note-se uma inflexão interessante, em que se passa de constamment para "firmemente" e "com firmeza".]

descartes continua (I, 4): Mais, d’autant que nous n’avons point maintenant d’autre dessein que de vaquer à la recherche de la vérité, nous douterons en premier lieu... ele tinha dito logo antes: na condução de nossos afazeres, a gente não tem tempo de ficar avaliando todas as opiniões, a gente escolhe uma delas e manda bala. mas aqui (quer dizer, filosofando) nosso único objetivo é buscar a verdade, sem precisar sair correndo para atender à pressão do momento e se baseando numa opinião meio duvidosa; então não faz mal levar o maior tempo para ficar pensando, avaliando, duvidando etc. - ou seja: "mas, dado que [visto que] agora não temos nenhum outro desígnio a não ser nos dedicar à busca da verdade etc." - simples, claro, evidente, não?


torrieri guimarães nos dá: "contudo, a fim de que outro propósito agora não nos ocupe, senão aquele de nos entregarmos à pesquisa da verdade, etc." - tsc, tsc... aliás, alberto ferreira também já tinha nos dado: "mas, para queoutro desígnio agora nos não ocupe a não ser o de nos aplicarmos à investigação da verdade, etc."


pois, retomando a cadeia argumentativa, descartes tinha dito que não ia se pôr a duvidar sem mais de tudo e de todos, e sim apenas quando começasse a contemplar a verdade pra valer: "je n’entends point que nous nous servions d’une façon de douter si générale, sinon lorsque nous commençons à nous appliquer à la contemplation de la vérité" (ainda em I, 3). entendre - e mesmo "entender" em português - também significa "intentar", "tencionar", "ter a intenção de".

alberto ferreira: "de modo nenhum entendo eu que nos sirvamos de forma tão geral de duvidar, etc."; torrieri: "de nenhum modo compreendo que nos sirvamos desse modo tão generalizado de duvidar, etc." 

ou: recevoir en notre croyance (I, 6); "receber, em nossa convicção" (a. ferreira); "receber, em nossa convicção" (torrieri)


ou: nous ne saurions nous empêcher de croire que cette conclusion: Je pense, donc je suis, ne soit vraie (I, 7); "não poderíamos impedir-nos de acreditar que esta inferência EU PENSO, LOGO EXISTO, não seja verdadeira" (a. ferreira); "não poderíamos obstar-nos de crer que esta inferência EU PENSO, LOGO EXISTO, não seja exata" (torrieri).

um exemplo final (III, 12): Ceux qui n’ont pas philosophé par ordre ont eu d’autres opinions sur ce sujet, parce qu’ils n’ont jamais distingué assez soigneusement leur âme... foi inexplicavelmente [in]vertido como "Os que filosofaram por ordem, colocaram outras opiniões a respeito deste assunto, razão pela qual jamais distinguiram, com suficiente cuidado, a sua alma", ademais invertendo também a relação causal expressa em parce que. diga-se de passagem que alberto ferreira também incide nesse surpreendente equívoco: "Aqueles que filosofaram por ordem, formularam outras opiniões sobre este assunto pelo que nunca distinguiram, com bastante cuidado, a sua alma".



resumindo: o vocabulário usado nas duas traduções apresenta várias diferenças; alberto ferreira tenta manter um registro próximo ao do original; torrieri parece se afastar com maior frequência, mesmo em termos simples (nous empêcher = obstar-nos, p.ex.), preferindo se mover num registro mais, digamos, empolado. o que chama a atenção são os erros ou desvios do original que aparecem nas duas traduções. não digo que torrieri guimarães tenha copiado literalmente alberto ferreira, mas não me parece muito provável que o mesmo tipo de estruturação sintática, os mesmos erros e inflexões similares se repitam em duas traduções diferentes. 

ao mostrar alguns dentre vários exemplos de equívocos presentes na tradução de torrieri, meu intuito é sustentar que, mesmo que fosse legítimo e normal recorrer a traduções anteriores (no caso, a de alberto ferreira), supostamente procurando amparo em sua autoridade, nem por isso tais erros deixariam de ser erros capazes de comprometer gravemente a leitura e o bom entendimento do texto de descartes.


fica, de novo, uma chamada para o grupo folha: os leitores merecem mais.


atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.

28 de set. de 2010

descartes, discurso do método

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um presente de jacó guinsburg e família de bento prado jr.
aos leitores

em decorrência de um alarmante caso de plágio/contrafação na coleção os pensadores, pela nova cultural,  da obra de descartes, discurso do método em tradução de jacó guinsburg e bento prado jr., os detentores dos direitos gentilmente autorizaram a disponibilização da tradução legítima na internet. o arquivo em pdf se encontra em:

http://www.scribd.com/doc/14893702/Descartes-Discurso-do-Metodo-trad-Jaco-Guinsburg-e-Bento-Prado-Jr-com-notas-de-Gerard-Lebrun-publicacao-autorizada-pelos-detentores-dos-direitos

imagem: mathematicianspicutres.org
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22 de set. de 2009

rideel, livros tirados de catálogo

cerca de um mês e meio atrás, o diretor comercial da editora rideel me informou que, em vista das irregularidades de seu catálogo apresentadas no nãogostodeplágio, a empresa tinha decidido retirar de catálogo e circulação não só os livros aqui denunciados, mas também todos os demais que integravam a coleção biblioteca clássica e a coleção sherlock holmes, além de três títulos da coleção o melhor de shakespeare. comentei a notícia em bons ventos.

constam neste blog sete cotejos de traduções publicadas pela rideel, em nome de heloísa da graça burat(t)i, que são visíveis apropriações da obra de outros tradutores:

- von ihering, a luta pelo direito
- nietzsche, ecce homo
- nietzsche, acerca da verdade e da mentira
- nietzsche, o anticristo
- savigny, metodologia jurídica
- campanella, a cidade do sol
- th. more, utopia

além dos sete títulos cotejados, a editora rideel, segundo comunicado oral do sr. mario amadio, teve por bem retirar de catálogo e circulação as obras que integram:

BIBLIOTECA CLÁSSICA (28 títulos)

BIBLIOTECA SHERLOCK HOLMES (12 títulos)


BIBLIOTECA O MELHOR DE SHAKESPEARE (3 títulos)

tais publicações se estendem de 2003 a 2009, com número variável de reedições. perante a iniciativa da editora rideel em excluir tais obras de seu catálogo, sinto-me autorizada a relacioná-las no rol dos livros a ser evitados, como medida de simples precaução em defesa do leitor.

este post foi atualizado em 25 de abril de 2009, retirando os títulos individuais de cada coleção. ver rideel, retratação. as imagens de capa das 48 obras retiradas de catálogo se encontram aqui.

imagem: http://www.desciclo.pedia.ws/

15/12/2012: veja aqui uma atualização.

12 de set. de 2009

Esta semana vai ser uma farra líterotradutória na Casa das Rosas.
(de 14 a 18 de setembro - destaco a programação do II Encontro de Tradutores)

A tradução de obras francesas no Brasil


15/09, das 10,00 às 20,00 h (com intervalos):
- Conferência de abertura, “Henri Meschonnic et la poétique du traduire”, Gérard Dessons (Univ. Paris VIII)
- Mesa-redonda 1: “Tradução, história e sociedade”, Edgard de Assis Carvalho (PUC/SP); Marie-Hélène Catherine Torres (UFSC); Marta Pragana Dantas (UFPB); Márcia Arbex (UFMG) - Mesa-redonda 2: “Tradução e desconstrução”, Paula Glenadel (UFF), Élida Ferreira (UESC); Olivia Niemeyer Santos (doutoranda: Unicamp); Álvaro Faleiros (USP)
- Conferência 1: “A gramática contrastiva do francês e do português”, Mário Laranjeira (USP/Mackenzie)
- Mesa-redonda 3: “Traduzir prosas do mundo”, Ana Maria de Alencar (UFRJ), Cláudia Faveri (UFSC), Germana H. Pereira de Sousa (UnB), Ana Cláudia Romano Ribeiro (doutoranda: Unicamp)
- Mesa-redonda 4: “Traduzir poemas”, Marcos Siscar (Unesp); Júlio Castañon Guimarães (Fundação Casa de Rui Barbosa); Ivone Benedetti (tradutora literária); Ricardo Meirelles (doutorando: USP)
- Conferência 2: “Traduzir Roubaud: da memória à amnésia”, Inês Oseki-Depré (Univ. Aix-en-Provence)

16/09, das 10,00 às 16,30 h (com intervalos):
- Conferência 3: “Perspectives du Centre International de Traduction Littéraire”, Claude Bleton, ex-diretor do CITL
- Mesa-redonda 5: “A edição do livro francês no Brasil”, A. Bojadsen (Estação Liberdade); P. Wermeck (Cosac Naify); A. Martins Fontes (Martins Fontes)
- Mesa-redonda 6: “Traduzir psicanálise”, Viviane Veras (Unicamp); Patricia Reuillard (UFRGS); Márcia Valéria Martinez de Aguiar (doutoranda: USP); Alain Mouzat (USP)
- Mesa-redonda 7: “Tradução, discurso e subjetividade”, Marcelo Jacques Moraes (UFRJ), Roberto Leiser Baronas (UFSCar); Márcio Venício Barbosa (UFRN)
- Mesa-redonda 8: “Traduzir documentos”, Adriana Tommasini (ATPIESP); Rosiléa Pizarro Carnelós (trad. pública e dra. em Linguística/USP); Adriana Zavaglia (USP)
- Conferência 4: “Traduzir Aimé Césaire: diálogo de culturas na torre de Babel”, Lilian Pestre de Almeida (UFF)

A conferência de encerramento deste ciclo será no dia 18 às 17,30, “A presença francesa na cultura filosófica uspiana”, Paulo Arantes (USP).

torço para que dr. paulo arantes lembre os descalabros de plágios editoriais que têm saqueado uma parte dessa presença francesa na cultura filosófica uspiana. e.g.: descartes, o discurso do método, meditações, paixões da alma, objeções e respostas, na tradução do saudoso bento prado jr. e jacob guinsburg, com as notas de gérard lebrun.

e em 19 de setembro marcelo tápia fala sobre Guilherme de Almeida, tradutor de poesia francesa.

agradeço o toque de virna teixeira.

imagem: logotipo

3 de jun. de 2009

providências rideelianas

constatei no site da editora rideel que o catálogo de suas obras de filosofia agora está vazio. se se fizer uma pesquisa, o resultado obtido é "Total: 0". até poucos dias atrás, podia-se pedir detalhamento de cada obra e até a foto em destaque de cada capa.

na relação de autores, ainda constam os nomes de platão, descartes, hegel, nietzsche, hobbes, maquiavel, campanella etc., que compunham o catálogo de obras filosóficas da rideel - mas a pesquisa em "confira outras obras deste autor" também resulta em "Total: 0".

isso parece indicar que a editora resolveu dar uma espiada mais atenta nesses seus títulos.

da lista de obras cadastradas no isbn/fbn com tradução em nome de "heloísa da graça burati" (com um "t"), o site da editora rideel manteve três obras de shakespeare, a megera domada, as alegres comadres de windsor e medida por medida. não conheço esses shakespeares da rideel, mas até fiquei meio curiosa em ver essas traduções.

22 Publicações encontradas, distribuídas em 1 página
ISBN TÍTULO
85-339-0723-0 ECCE HOME
85-339-0724-9 UTOPIA
85-339-0725-7 O BANQUETE
85-339-0726-5 ALEM DO BEM E DO MAL
85-339-0727-3 A ARTE DA GUERRA
85-339-0728-1 O NASCIMENTO DA TRAGEDIA
85-339-0729-X INTRODUÇÃO A HISTORIA DA FILOSOFIA
85-339-0742-7 A MEGERA DOMADA
85-339-0743-5 AS ALEGRES COMADRES DE WINDSOR
85-339-0744-3 MEDIDA POR MEDIDA
85-339-0730-3 PRINCIPIOS DA FILOSOFIA
85-339-0731-1 HUMANO DEMASIADO HUMANO
85-339-0732-X A CIENCIA GAIA
85-339-0733-8 ASSIM FALAVA ZARATUSTRA
85-339-0734-6 A REPUBLICA
85-339-0720-6 ACERCA DA VERDADE E DA MENTIRA / O ANTICRISTO
85-339-0760-5 LEVIATÃ
85-339-0769-9 A CIDADE ANTIGA
85-339-0773-7 A LUTA PELO DIREITO
85-339-0774-5 METODOLOGIA JURÍDICA
85-339-0776-1 TEORIA SIMPLIFICADA DE POSSE
978-85-339-0938-0 PRINCÍPIOS DA FILOSOFIA

quanto às obras aqui cotejadas, a luta pelo direito, de rudolf von ihering [veja aqui] agora consta como esgotada nas principais livrarias com acervo online. isso parece indicar que o livro não está mais em circulação. por outro lado, o volume que traz acerca da verdade e da mentira [veja aqui] e o anticristo [veja aqui], de nietzsche, na pretensa tradução que a editora atribui a "heloísa da graça burati", ainda continua à venda em diversas livrarias, por exemplo na fnac.

seria bom se a editora rideel se dispusesse a regularizar rapidamente seu catálogo. fico torcendo para que a referida editora normalize tudo o mais breve possível, retire realmente os exemplares espúrios de circulação e dê alguma satisfação aos leitores que confiaram em suas edições.

imagem: forum 0937, google images

4 de mai. de 2009

o discurso do método para download

a partir de hoje temos disponível para download gratuito na internet o discurso do método de descartes na tradução de jacó guinsburg e bento prado jr., com notas de gérard lebrun, em arquivo digitalizado por eduardo baioni e reprodução gentilmente autorizada pelos detentores dos direitos de tradução.

para acompanhar o histórico deste caso, vejam-se aufklärung digital II e a aufklärung digital , com as autorizações e com os links que remetem a todo o histórico do caso: contexto e descrição da fraude, cotejos entre a tradução legítima e a pseudotradução de "enrico corvisieri", informe sobre retirada de catálogo da edição espúria da editora nova cultural, posição do portal do mec etc.

agora começa o trabalho de distribuição da obra para ser colocada nos sites de ebooks e bibliotecas virtuais. por ora está disponível no scribd (pdf) e no 4shared (rtf). será preciosa a colaboração de todos que puderem divulgar.

imagem: matisse, guache recortado, google images

1 de abr. de 2009

meus complexos

não sou uma grande tradutora, longe disso. entre paradas e retomadas, acho que tenho uns dezesseis anos no ofício e uns sessenta livros traduzidos. embora trabalhe bastante, sei que sou uma anta tosca e limitada, e quase incapaz de fazer traduções literárias.

acredito no ideário iluminista do autoaperfeiçoamento. tenho como ideal de praticante do ofício aquele tradutor capaz de trafegar entre literatura em prosa e verso, teatro, filosofia, ciência política, história, em alemão, espanhol, grego, inglês, persa, italiano, russo, latim, francês, alemão, português, e terminar uma bela tradução a cada quinze dias. pietro nassetti, da editora martin claret, é a encarnação deste meu ideal.

após estudar longamente seu trabalho, concluí que se tratava de um ideal inatingível e que teria de eleger outro modelo para me guiar na vida. acho importante manter a desenvoltura e a flexibilidade intelectual, mesmo em sacrifício da agilidade. assim, pensei que podia aspirar a uma carreira como a de jean melville ou de alex marins, também martin-claretianos, contentando-me em traduzir alguma bela obra em, digamos, um mês.

também estudei o trabalho de ambos. não sei se serei capaz de me aproximar algum dia de tais exemplos. começo a sentir um grande complexo de inferioridade e muita insegurança em minhas atividades. penso em abandonar a área e ficar varrendo o terraço de casa. mas não posso ceder à autopiedade, devo aceitar as coisas como elas são, e creio que, sendo mais modesta, posso me contentar em ter como modelo uma figura menos polivalente, menos profícua, mas mesmo assim capaz de despertar uma vontade de emulação.

pois já não seria um bom começo ter em sua biografia tradutória uma listagem assim?

campanella, a cidade do sol
conan doyle, a caixa macabra e outras histórias
conan doyle, a face amarela e outras histórias
conan doyle, a morte do chantagista e outras histórias
conan doyle, as nódoas de sangue e outras histórias
conan doyle, o arpoador maldito e outras histórias
conan doyle, o cão dos baskervilles
conan doyle, o detetive agonizante e outras histórias
conan doyle, o signo dos quatro
conan doyle, o último adeus e outras histórias
conan doyle, o vale do terror
conan doyle, os sete mistérios
conan doyle, um estudo em vermelho
descartes, princípios da filosofia
erasmo de roterdã, elogio da loucura
fustel de coulanges, a cidade antiga
hegel, introdução à história da filosofia
hobbes, leviatã
ihering, a luta pelo direito
ihering, teoria simplificada de posse
jim wheeler, o poder do pensamento inovador
linda sonntag, kama sutra
linda sonntag, sexo sensacional
linda sonntag, técnicas sexuais
maquiavel, a arte da guerra
maquiavel, o príncipe
nietzsche, a gaia ciência
nietzsche, além do bem e do mal
nietzsche, assim falou zaratustra
nietzsche, ecce homo
nietzsche, humano, demasiado humano
nietzsche, o anticristo
nietzsche, o nascimento da tragédia
peg pickering, como administrar conflitos
platão, a república
platão, fédon
platão, o banquete
savigny, metodologia jurídica
shakespeare, a megera domada
shakespeare, as alegres comadres de windsor
shakespeare, medida por medida
susan mumford, massagem sensual
thomas morus, utopia

também autora de alemão - guia de bolso, pela editora rideel, heloísa da graça burati restaura-me as esperanças, soergue meu ânimo - em breve vou me dedicar à sua obra tradutória para avaliar se poderei ser uma discípula à sua altura.

imagens: www.scriptorium.sk; images google, carmen miranda

25 de mar. de 2009

aufklärung digital II

ontem veio a posição do sr. jacó guinsburg liberando gentilmente a tradução de o discurso do método de descartes, para ser digitalizada e disponibilizada online. a gentil autorização da família de bento prado jr. está em aufklärung digital I, onde se encontram também todos os links para esse caso. para quem não acompanhou, trata-se resumidamente de substituir a infame fraude de o discurso do método na coleção "os pensadores" da nova cultural, em nome de "enrico corvisieri", disponível para download em todas as bibliotecas virtuais do país.


possa o bom exemplo vingar.

imagem: matisse, guache recortado, jazz, n. 18, flickr

17 de mar. de 2009

a aufklärung digital

fazendo jus à aura esclarecida e democrática que sempre cercou o intelectual bento prado jr., sua família, com extrema gentileza e desprendimento, atendeu à solicitação feita em "uma boa e digna troca".

os familiares autorizaram, na parte que lhes toca, a digitalização e disponibilização em ebook para download gratuito na internet de o discurso do método de descartes na consagrada tradução de jacó guinsburg e bento prado jr. - naturalmente, em se tratando de uma tradução a quatro mãos, agora cabe aguardar a decisão do cotradutor sr. jacó guinsburg.

acompanhe aqui, em ordem cronológica, a triste novela dessa fraude cometida pela nova (in)cultural, na coleção "os pensadores", adulterando a famosa tradução de jacó guinsburg e bento prado jr. e atribuindo-a ao fantasmagórico "enrico corvisieri": 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8.

imagem: matisse, nautikkon.blogspot.com

atualização: o prof.guinsburg também autorizou gentilmente a disponibilização gratuita do arquivo em pdf. encontra-se em: http://www.scribd.com/doc/14893702/Descartes-Discurso-do-Metodo-trad-Jaco-Guinsburg-e-Bento-Prado-Jr-com-notas-de-Gerard-Lebrun-publicacao-autorizada-pelos-detentores-dos-direitos
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12 de mar. de 2009

discurso do método 4

uma das poucas vozes da academia que se manifestaram publicamente:

"mal se podia na época, se bem me lembro, recorrer às traduções em língua portuguesa. [...] foi nesse contexto que surgiu a coleção 'os pensadores', então publicada pela abril cultural. o projeto visionário de josé américo pessanha consistia em trazer ao público brasileiro, de maneira ampla e acessível, escritos filosóficos significativos, precedidos de estudos introdutórios à obra de seus autores. zelar pela escolha dos textos e pelo rigor e qualidade das traduções eram pontos inquestionáveis. [...]
"a coleção 'os pensadores' tornou-se referência. é bem verdade que alterações se produziram à medida que sucediam as edições: suprimiram textos que compunham volumes, dividiram volumes em partes. interesses comerciais. algo estupefaciente estava ainda por ocorrer. ao deparar-me recentemente com uma das últimas edições do volume descartes, percebi, atônita, que tinha nas mãos outro livro.67 inteiramente transformado, nele substituíram por outra a tradução de bento prado júnior e jacó guinsburg; suprimiram a introdução de gilles-gaston granger e as notas de gérard lebrun. custa crer que um projeto tão bem cuidado e tão bem sucedido venha sendo dessa forma desmantelado."
67. descartes, discurso do método, as paixões da alma, meditações, trad. enrico corvisieri, são paulo, nova cultural, 2000 (coleção "os pensadores").

scarlett marton, a irrecusável busca de sentido, ateliê editorial, 2004, pp. 64-65.

embora a profa. scarlett tenha sido caridosa em chamar o copidesque corvisieriano de "outra" tradução, o que vale é sua expressão de repúdio.

se as dezenas de filósofos e correlatos uspianos, unespianos e unicampianos que torcem o nariz a essas pseudotraduções tomassem alguma iniciativa para além das quatro paredes da academia, certamente prestariam um bom serviço à sociedade. podem começar, por exemplo, solicitando ao mec que retire de seu portal de domínio público o tripudio à memória de bento prado. o coordenador do portal se chama marco antonio rodrigues, seu endereço eletrônico é dompub@mec.gov.br e o telefone é (61) 2104-8100.
eu, de minha parte, já escrevi.

retificação em 13/03: a atual coordenadora do portal é dalvanisa luiz. e-mail e telefone continuam os mesmos.

imagem: portas-lapsos.zip.net; negrito meu na citação.

11 de mar. de 2009

o discurso do método 2

em “o trabalhão de plagiar”, citei alguns procedimentos habituais em plágios, montagens e adulterações de tradução.

um dos procedimentos mais eficientes para disfarçar a tradução de base usada em algumas fraudes editoriais é o que eu chamaria de “copidesque cerrado”. toma-se a tradução previamente existente e alteram-se exaustivamente os termos, trocando-os por sinônimos. há aí embutidos pelo menos três pressupostos: a. a tradução é correta e fiel ao original; b. as palavras são unívocas, e portanto a substituição por sinônimos igualmente unívocos não constitui problema; c. estruturas gramaticais são universais.

a meu ver, é nesse tipo de procedimento que se enquadra o caso de o discurso do método na coleção “os pensadores” da editora nova cultural, nas edições a partir de 1999 com tradução atribuída a enrico corvisieri. à primeira vista, as diferenças podem dar a impressão de que se trata de uma tradução de direito próprio.* quando reafloram os eventuais erros da tradução de base, as mudanças de pontuação e periodização das frases em relação à obra original, a sintaxe própria adotada na tradução de base e, ainda, quando surgem os deslizes com o uso de “sinônimos” descabidos, evidencia-se o padrão de apropriação utilizado.

para expor esse padrão, apresento também o original em francês, a título de acompanhamento. abaixo de cada trecho segue-se primeiro a tradução de jacó guinsburg e bento prado jr., e depois o texto de enrico corvisieri.

Les plus grandes âmes sont capables des plus grands vices aussi bien que des plus grandes vertus; et ceux qui ne marchent que fort lentement peuvent avancer beaucoup davantage, s'ils suivent toujours le droit chemin, que ne font ceux qui courent et qui s'en éloignent.
Pour moi, je n'ai jamais présumé que mon esprit fût en rien plus parfait que ceux du commun; même j'ai souvent souhaité d'avoir la pensée aussi prompte, ou l'imagination aussi nette et distincte, ou la mémoire aussi ample ou aussi présente, que quelques autres. Et je ne sache point de qualités que celles-ci qui servent à la perfection de l'esprit; car pour la raison, ou le sens, d'autant qu'elle est la seule chose qui nous rend hommes et nous distingue des bêtes, je veux croire qu'elle est tout entière en un chacun; et suivre en ceci l'opinion commune des philosophes, qui disent qu'il n'y a du plus et du moins qu'entre les accidents, et non point entre les formes ou natures des individus d'une même espèce.
Mais je ne craindrai pas de dire que je pense avoir eu beaucoup d'heur de m'être rencontré dès ma jeunesse en certains chemins qui m'ont conduit à des considérations et des maximes dont j'ai formé une méthode, par laquelle il me semble que j'ai moyen d'augmenter par degrés ma connoissance, et de l'élever peu à peu au plus haut point auquel la médiocrité de mon esprit et la courte durée de ma vie lui pourront permettre d'atteindre. Car j'en ai déjà recueilli de tels fruits, qu'encore qu'au jugement que je fais de moi-même je tâche toujours de pencher vers le côté de la défiance plutôt que vers celui de la présomption, et que, regardant d'un oeil de philosophe les diverses actions et entreprises de tous les hommes, il n'y en ait quasi aucune qui ne me semble vaine et inutile, je ne laisse pas de recevoir une extrême satisfaction du progrès que je pense avoir déjà fait en la recherche de la vérité, et de concevoir de telles espérances pour l'avenir, que si, entre les occupations des hommes, purement hommes, il y en a quelqu'une qui soit solidement bonne et importante, j'ose croire que c'est celle que j'ai choisie.

As maiores almas são capazes dos maiores vícios, tanto quanto das maiores virtudes, e os que só andam muito lentamente podem avançar muito mais, se seguirem sempre pelo caminho reto, do que aqueles que correm e dele se afastam.
Quanto a mim, jamais presumi que meu espírito fosse em nada mais perfeito do que os do comum; amiúde desejei mesmo ter o pensamento tão rápido, ou a imaginação tão nítida e distinta, ou a memória tão ampla ou tão presente, quanto alguns outros. E não sei de quaisquer outras qualidades, exceto as que servem à perfeição do espírito; pois, quanto à razão ou ao senso, posto que é a única coisa que nos torna homens e nos distingue dos animais, quero crer que existe inteiramente em cada um, e seguir nisso a opinião comum dos filósofos, que dizem não existir mais nem menos senão entre os acidentes, e não entre as formas ou naturezas dos indivíduos de uma mesma espécie.
Mas não temerei dizer que penso ter tido muita felicidade de me haver encontrado, desde a juventude, em certos caminhos, que me conduziram a considerações e máximas, de que formei um método, pelo qual me parece que eu tenha meio de aumentar gradualmente meu conhecimento, e de alçá-lo, pouco a pouco, ao mais alto ponto, a que a mediocridade de meu espírito e a curta duração de minha vida lhe permitam atingir [eliminação do "poderão"]. Pois já colhi dele tais frutos que, embora no juízo que faço de mim próprio eu procure pender mais para o lado da desconfiança do que para o da presunção, e que,* mirando com um olhar de filósofo as diversas ações e empreendimentos de todos os homens, não haja quase nenhum que não me pareça vão e inútil, não deixo de obter extrema satisfação do progresso que penso já ter feito na busca da verdade e de conceber tais esperanças para o futuro que, se entre as ocupações dos homens puramente homens existe alguma que seja solidamente boa e importante, ouso crer que é aquela que escolhi. *[tendo optado por "embora", este segundo "que", que no original pertence à locução "encore que", aqui perde seu sentido ou cria o sentido equivocado de ser a continuação da frase "tais frutos que..."]

As maiores almas são capazes dos maiores vícios, como também das maiores virtudes, e os que só andam muito devagar podem avançar bem mais, se continuarem sempre pelo caminho reto, do que aqueles que correm e dele se afastam.
Quanto a mim, nunca supus que meu espírito fosse em nada mais perfeito do que os dos outros; com freqüência desejei [] ter o pensamento tão rápido, ou a imaginação tão clara e diferente, ou a memória tão abrangente ou tão pronta, quanto alguns outros. E desconheço quaisquer outras qualidades, afora as que servem para o aperfeiçoamento do espírito; pois, quanto à razão ou ao senso, posto que é a única coisa que nos torna homens e nos diferencia dos animais, acredito que existe totalmente em cada um, acompanhando nisso a opinião geral dos filósofos, que afirmam não existir mais nem menos senão entre os acidentes, e não entre as formas ou naturezas dos indivíduos de uma mesma espécie.
Mas não recearei dizer que julgo ter tido muita felicidade de me haver encontrado, a partir da juventude, em determinados caminhos, que me levaram a considerações e máximas, das quais formei um método, pelo qual me parece que eu consiga aumentar de forma gradativa meu conhecimento, e de elevá-lo, pouco a pouco, ao mais alto nível, a que a mediocridade de meu espírito e a breve duração de minha vida lhe permitam alcançar. [note-se que foi mantida a não de todo correta virgulação introduzida na tradução de base] [repete-se a eliminação do "poderão"] Pois já colhi dele tais frutos que, apesar de no juízo que faço de mim próprio eu procure inclinar-me mais para o lado da desconfiança do que para o da presunção, e que, observando com um olhar de filósofo as variadas ações e empreendimentos de todos os homens, não exista quase nenhum que não me pareça fútil e inútil, não deixo de lograr extraordinária satisfação do progresso que creio já ter feito na procura da verdade e de conceber tais esperanças para o futuro que, se entre as ocupações dos homens puramente homens existe alguma que seja solidamente boa e importante, atrevo-me a acreditar que é aquela que escolhi. [uma frase absurda: "apesar de ... eu procure"; mantém o problema do "que" solto]

[...] J'ai été nourri aux lettres dès mon enfance; et, pour ce qu'on me persuadoit que par leur moyen on pouvoit acquérir une connaissance claire et assurée de tout ce qui est utile à la vie, j'avois un extrême désir de les apprendre.

[...] Fui nutrido nas letras desde a infância, e por me haver persuadido de que, por meio delas, se podia adquirir um conhecimento claro e seguro de tudo o que é útil à vida, sentia extraordinário desejo de aprendê-las.

[...] Fui instruído nas letras desde a infância, e por me haver convencido de que, por intermédio delas, poder-se-ia adquirir um conhecimento claro e seguro de tudo o que é útil à vida, sentia extraordinário desejo de aprendê-las.

Je ne laissois pas toutefois d'estimer les exercices auxquels on s'occupe dans les écoles. Je savois que les langues qu'on y apprend sont nécessaires pour l'intelligence des livres anciens; que la gentillesse des fables réveille l'esprit; que les actions mémorables des histoires le relèvent, et qu'étant lues avec discrétion elles aident à former le jugement; que la lecture de tous les bons livres est comme une conversation avec les plus honnêtes gens des siècles passés, qui en ont été les auteurs, et même une conversation étudiée en laquelle ils ne nous découvrent que les meilleures de leurs pensées; que l'éloquence a des forces et des beautés incomparables; que la poésie a des délicatesses et des douceurs très ravissantes; que les mathématiques ont des inventions très subtiles, et qui peuvent beaucoup servir tant à contenter les curieux qu'à faciliter tous les arts et diminuer le travail des hommes; que les écrits qui traitent des moeurs contiennent plusieurs enseignements et plusieurs exhortations à la vertu qui sont fort utiles; que la théologie enseigne à gagner le ciel; que la philosophie donne moyen de parler vraisemblablement de toutes choses, et se faire admirer des moins savants; que la jurisprudence, la médecine et les autres sciences apportent des honneurs et des richesses à ceux qui les cultivent; et enfin qu'il est bon de les avoir toutes examinées, même les plus superstitieuses et les plus fausses, afin de connoître leur juste valeur et se garder d'en être trompé.

Não deixava, todavia, de estimar os exercícios com os quais se ocupam nas escolas. Sabia que as línguas que nelas se aprendem são necessárias ao entendimento dos livros antigos; que a gentileza das fábulas desperta o espírito; que as ações memoráveis das histórias o alevantam, e que, sendo lidas com discrição, ajudam a formar o juízo; que a leitura de todos os bons livros é qual uma conversação com as pessoas mais qualificadas dos séculos passados, que foram seus autores, e até uma conversação premeditada, na qual eles nos revelam tao-somente os melhores de seus pensamentos; que a eloquência tem forças e belezas incomparáveis; que a poesia tem delicadezas e doçuras muito encantadoras; que as Matemáticas têm invenções muito sutis, e que podem servir muito, tanto para contentar os curiosos quanto para facilitar todas as artes e diminuir o trabalho dos homens; que os escritos que tratam dos costumes contêm muitos ensinamentos e muitas exortações à virtude que são muito úteis; que a Teologia ensina a ganhar o céu; que a Filosofia dá meio de falar com verossimilhança de todas as coisas e de se fazer admirar pelos menos eruditos; que a Jurisprudência, a Medicina e as outras ciências trazem honras e riquezas àqueles que as cultivam; e, enfim, que é bom tê-las examinado a todas, mesmo as mais supersticiosas e as mais falsas, a fim de conhecer-lhes o justo valor e evitar ser por elas enganado.

Apesar disso, não deixava de apreciar os exercícios com os quais se ocupam nas escolas. Sabia que as línguas que nelas se aprendem são necessárias ao entendimento dos livros antigos; que a gentileza das fábulas estimula o espírito; que as realizações notáveis das histórias o fazem crescer, e que, sendo lidas com discrição, ajudam a formar o juízo; que a leitura de todos os bons livros é igual a uma conversação com as pessoas mais qualificadas dos séculos passados, que foram seus autores, e até uma conversação premeditada, na qual eles nos revelam apenas seus melhores [] pensamentos; que a eloqüência possui forças e belezas incomparáveis; que a poesia tem delicadezas e ternuras deveras encantadoras; que as matemáticas têm invenções bastante sutis, e que podem servir muito, tanto para satisfazer os curiosos quanto para facilitar todas as artes e reduzir o trabalho dos homens; que os escritos que tratam dos costumes contêm muitos ensinamentos e muitos estímulos à virtude que são muito úteis; que a teologia ensina a ganhar o céu; que a filosofia ensina a falar com coerência de todas as coisas e de se fazer admirar pelos que possuem menos erudição; que a jurisprudência, a medicina e as outras ciências proporcionam honras e riquezas àqueles que as cultivam; e, enfim, que é bom havê-las examinado a todas, até mesmo as mais eivadas de superstição e as mais falsas, a fim de conhecer-lhes o exato valor e evitar ser por elas enganado.

C'est pourquoi je ne saurois aucunement approuver ces humeurs brouillonnes et inquiètes, qui, n'étant appelées ni par leur naissance ni par leur fortune au maniement des affaires publiques, ne laissent pas d'y faire toujours en idée quelque nouvelle réformation; et si je pensois qu'il y eût la moindre chose en cet écrit par laquelle on me pût soupçonner de cette folie, je serois très marri de souffrir qu'il fût publié. [brouillon: agitado, desordenado, confuso etc.*]
* sou alertada de que brouillon também comporta a acepção de "perturbador". em todo caso, duvido que o sr. enrico corvisieri fosse capaz de chegar sozinho a ela.

Eis por que não poderia de forma alguma aprovar esses temperamentos perturbadores e inquietos que, não sendo chamados, nem pelo nascimento, nem pela fortuna, ao manejo dos negócios públicos, não deixam de neles praticar sempre, em idéia, alguma nova reforma. E se eu pensasse haver neste escrito a menor coisa que pudesse tornar-me suspeito de tal loucura, ficaria muito pesaroso de ter aceito publicá-lo.

Aqui está o motivo pelo qual eu não poderia de maneira alguma aprovar esses temperamentos perturbadores e inquietos que, não sendo chamados, nem pelo nascimento, nem pela fortuna, à administração dos negócios públicos, não deixam de neles realizar sempre, em teoria, alguma nova reforma. E se eu pensasse haver neste escrito a menor coisa que pudesse tornar-me suspeito de tal loucura, ficaria muito pesaroso de ter concordado em publicá-lo.
[aliás, a trajetória de souffrir (um "permitir" muito passivo) até concordar é curiosa.]

é interessante notar que, de modo geral, a tradução de base é bastante literal. já a suposta tradução de enrico corvisieri afasta-se sistematicamente das soluções mais simples e óbvias. esse afastamento sistemático do original em francês é outra boa indicação do copidesque realizado, por ocorrer em passagens muito claras e diretas, onde menos se esperariam soluções tortuosas e indiretas.

Comme en effet j'ose dire que l'exacte observation de ce peu de préceptes que j'avois choisis me donna telle facilité à démêler toutes les questions auxquelles ces deux sciences s'étendent, qu'en deux ou trois mois que j'employai à les examiner, ayant commencé par les plus simples et plus générales, et chaque vérité que je trouvois étant une règle qui me servoit après à en trouver d'autres, non seulement je vins à bout de plusieurs que j'avois jugées autrefois très difficiles, mais il me sembla aussi vers la fin que je pouvois déterminer, en celles même que j'ignorois, par quels moyens et jusqu'où il étoit possible de les résoudre. En quoi je ne vous paroîtrai peut-être pas être fort vain, si vous considérez que, n'y ayant qu'une vérité de chaque chose, quiconque la trouve en sait autant qu'on en peut savoir; et que, par exemple, un enfant instruit en l'arithmétique, ayant fait une addition suivant ses règles, se peut assurer d'avoir trouvé, touchant la somme qu'il examinoit, tout ce que l'esprit humain sauroit trouver: car enfin la méthode, qui enseigne à suivre le vrai ordre, et à dénombrer exactement toutes les circonstances de ce qu'on cherche, contient tout ce qui donne de la certitude aux règles d'arithmétique.

E como, efetivamente, ouso dizer que a exata observação desses poucos preceitos que eu escolhera me deu tal facilidade de deslindar todas as questões às quais se estendem essas duas ciências que, nos dois ou três meses que empreguei em examiná-las, tendo começado pelas mais simples e mais gerais, e constituindo cada verdade que eu achava uma regra que me servia em seguida para achar outras, não só consegui resolver muitas que julgava antes muito difíceis, como me pareceu também, perto do fim, que podia determinar, mesmo naquelas que ignorava, por quais meios e até onde seria possível resolvê-las. No que não vos parecerei talvez muito vaidoso, se considerardes que, havendo apenas uma verdade de cada coisa, todo aquele que a encontrar sabe a seu respeito tanto quanto se pode saber; e que, por exemplo, uma criança instruída na aritmética, que tenha efetuado uma adição segundo as regras, pode estar certa de ter achado, quanto à soma que examinava, tudo o que o espírito humano poderia achar. Pois, enfim, o método que ensina a seguir a verdadeira ordem e a enumerar exatamente todas as circunstâncias daquilo que se procura contém tudo quanto dá certeza às regras da aritmética.

E já que, com efeito, atrevo-me a dizer que a exata observação desses poucos preceitos que eu escolhera me deu tal facilidade de desenredar todas as questões às quais se estendem essas duas ciências que, nos dois ou três meses que levei para analisá-las, havendo iniciado pelas mais simples e mais gerais, e compondo cada verdade que eu encontrava uma regra que me servia depois para encontrar outras, não apenas consegui resolver muitas que antes considerava muito difíceis, como me pareceu também, próximo ao fim, que podia determinar, até mesmo naquelas que ignorava, por quais meios e até onde seria possível resolvê-las. No que, talvez, não vos afigurarei muito vaidoso, se considerardes que, existindo somente uma verdade de cada coisa, [] aquele que a encontrar conhece a seu respeito tanto quanto se pode conhecer; e que, por exemplo, uma criança instruída na aritmética, que haja realizado uma adição de acordo com as regras, pode ter certeza de haver encontrado, no que concerne à soma que analisava, tudo o que o espírito humano poderia encontrar. Pois, enfim, o método que ensina a seguir a verdadeira ordem e a enumerar exatamente todas as circunstâncias daquilo que se procura contém tudo quanto dá certeza às regras da aritmética.
[os "dénombrements" da quarta regra do método estão traduzidos corretamente por "enumerações" na tradução de base e copidescados erroneamente por "relações". aqui, quando o copidesque mantém "enumerar", que é o correto, perde a remissão direta ao quarto preceito e anula a coesão conceitual interna. outro despropósito conceitual no caso de descartes é empregar o verbo "compor", que remete ao método compositivo das matemáticas, para "constituir", no francês um simples "ser"; "analisar" para "examiner" e como suposto sinônimo de "examinar"; também não creio que trocar "saber" por "conhecer" seja totalmente isento de consequências, numa obra que pretende estabelecer os fundamentos do conhecimento.]

negrito: substituição por sinônimos
azul: erro ou problema na tradução de base reproduzido no copidesque
vermelho: erro ou problema no copidesque
verde: erro ou confusão de conceito no copidesque

edições usadas:
discours de la méthode, project gutenberg
discurso do método, trad. jacó guinsburg e bento prado jr., difel, 2a. ed., 1973
discurso do método, "trad." enrico corvisieri, domínio público MEC

* Plagiarism is an imitation of a product for the purpose of economic exploitation. It is made either with slavish accuracy or with minute changes. Especially perfidious are more significant changes made so skilfully that the casual observer interprets them into a visual perception of the appearance of the original.

10 de mar. de 2009

o discurso do método 1

existem várias traduções brasileiras de o discurso do método, de descartes: jacó guinsburg com bento prado jr. (difel, abril), joão cruz costa (ediouro), maria ermantina galvão (martins fontes), elza moreira marcelina (ática/unb), paulo neves (lpm).*

* pietro nassetti, que assina pelo abutre martin claret, não conta.

a tradução que acabou se tornando a mais consagrada é a de jacó guinsburg e bento prado jr., com introdução de gilles-gaston granger, prefácio e notas de gérard lebrun, no volume chamado obra escolhida, pela clássicos garnier (difel, 1a. ed. 1962).

esta tradução foi publicada também na coleção "os pensadores", da abril cultural, em incontáveis reedições. com a extinção da abril cultural, o catálogo foi para a nova cultural, onde a mesma tradução de jacó guinsburg e bento prado jr. continuou a ser reeditada até 1996.

em 1999, o discurso do método na coleção "os pensadores" da nova cultural passa por uma misteriosa transformação, e surge em cena o suposto tradutor "enrico corvisieri".

"enrico corvisieri" vinha assinando curiosas metamorfoses tradutórias na nova cultural desde 1995: os irmãos karamázovi, suave é a noite, o retrato de dorian gray, a mulher de trinta anos, apologia de sócrates.

que um e-group de jovens do yahoo tenha disponibilizado a fraude para download gratuito, espalhando por todos os sites de e-books, é mero acidente de percurso. foram apenas, digamos, "inocentes úteis".

mas agora que o MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, no site do DOMÍNIO PÚBLICO DO GOVERNO, disponibilize a obra sem o menor critério de discernimento, é de uma irresponsabilidade sem tamanho.

imagem: primaryconcern.org

fraude em domínio público

o nãogostodeplágio premiou o MEC por disponibilizar em seu site de obras em domínio público o discurso do método de descartes, na pretensa tradução de enrico corvisieri, assim consagrando oficialmente a fraude.

esse infeliz arquivo para download teve origem na iniciativa de um e-group chamado acrópolis, que resolveu distribuir para meio mundo o dito arquivo, com a condição de receberem os créditos de digitalização e a divulgação de seu endereço no yahoo.*

com isso, essa pseudotradução de enrico corvisieri de o discurso do método está presente em todos os sites que disponibilizam e-books: domínio público do mec; cultvox; universidade federal de santa catarina; ateus; virtualbooks; ebookcult; livros para todos; ebooksbrasil; centro de filosofia ; maxbook; fae centro universitário; 4shared; scribd e dezenas de outros.

não critico bibliotecas virtuais, pelo contrário. o que me alarma é que a fraude intelectual agora atingiu um novo patamar, ainda por cima com chancela oficial do ministério da educação. sr. richard civita, dona janice florido, sr. eliel silveira cunha e, last but not least, o fantasmagórico enrico corvisieri devem estar se fartando de rir.

* até onde entendo, o e-group acrópolis é uma meninada dinâmica. mas, vendo algumas discussões deles, fico com a impressão de que plágio, não-plágio, filosofia, não-filosofia, "idéias claras e distintas" ou "idéias claras e diferentes", devem lhes parecer abstrusas bizantinices absolutamente tediosas e irrelevantes. por exemplo: http://br.groups.yahoo.com/group/Acropolis_/message/76766

imagem: rebelart.net

6 de mar. de 2009

e o prêmio vai para...

... o discurso do método de descartes disponível no site do domínio público do mec. ganhou de lavada e recebe a estatueta do plagiarius.

assim é que, com ruidosos aplausos, o país consagra oficialmente a fraude, sob a égide e a chancela do ministério da educação.

a própria nova cultural, de livre e espontânea vontade, já havia tirado a obra de circulação e eliminou esse volume de sua coleção "os pensadores" [veja aqui]. a tradução vem assinada por aquele fantasma de tantos outros carnavais inculturais, enrico corvisieri.

é uma novela comprida, que vai dar um certo pano pra manga. está na fila, e espero apresentá-la ainda este mês.

imagem: www.ikh-niederbayern.de

11 de fev. de 2009

o contexto II

continuando.

I. sobre os autores e a ordem das obras
os quarenta autores publicados na coleção os pensadores da nova cultural (2004-2005) foram selecionados entre os 114 autores da coleção original da abril cultural.

na programação inicial da nc, que previa apenas 20 volumes, os autores foram escolhidos entre os 58 autores dos 35 volumes iniciais da coleção da abril cultural (sem contar os pré-socráticos, que são quinze). o critério de ordenamento é claramente cronológico, e segue o mesmo recorte temporal da coleção de 1972-75. claro que sempre se pode indagar dos critérios empregados para incluir uns e excluir outros, mas não é disso que se trata.

com a ampliação do projeto para 40 volumes, fica evidente que, a partir do vigésimo-primeiro volume, teve-se por bem abandonar o critério de ordenamento cronológico. mas não consegui discernir com clareza qual teria sido o critério que veio a substituí-lo: rousseau de cambulhada entre pavlov e husserl, santo anselmo se sucedendo a heidegger, a coleção se encerrando com os pré-socráticos seguidos de montesquieu.

II. sobre os títulos
quanto ao conteúdo propriamente dito das obras, não comparei todas elas. mas, até onde vi, corresponde ao das edições selecionadas entre a coleção original - salvo as seguintes exceções:

- platão
a. abril cultural:
diálogos: o banquete, fédon, sofista, político
b. nova cultural:
diálogos: eutífron, apologia de sócrates*, críton, fédon
* cabe notar que há a repetição da apologia, que já estava no volume 1 (sócrates) da nova cultural

- platão II
a. abril cultural:
----
b. nova cultural:
a república (a título de brinde, acompanhando platão I)

- aristóteles
a. abril cultural:
(vol. I) tópicos, dos argumentos sofísticos; (vol. II) metafísica. ética a nicômaco, poética
b. nova cultural:
poética, organon, política, constituição de atenas (volume único)

III. sobre as traduções
quanto às traduções usadas pela abril cultural, várias foram publicadas sob licença de outras editoras, devidamente creditadas, e muitas outras foram feitas expressamente para a coleção, idem.

comparei a lista das traduções dos títulos comuns às duas coleções. em sua maioria, são as mesmas, mas com uma ressalva: em casos de traduções licenciadas de outras editoras, não há qualquer menção à licença e tampouco a seus nomes como detentoras dos direitos de publicação (em outros termos, se não for simples desleixo, essa omissão parece talvez indicar contrafação ou reprodução não-autorizada). já nos casos das traduções feitas para a antiga coleção da abril cultural, consta "direitos exclusivos sobre as traduções deste volume: editora nova cultural ltda."
eu disse acima: "em sua maioria, são as mesmas". as exceções são as seguintes:

- sócrates
a. abril cultural:
platão, defesa de sócrates (jaime bruna)
xenofonte, ditos e feitos memoráveis de sócrates (líbero rangel de andrade)
xenofonte, apologia de sócrates (líbero rangel de andrade)
b. nova cultural:
platão, apologia de sócrates (enrico corvisieri)
xenofonte, ditos e feitos memoráveis de sócrates (mirtes coscodai)
xenofonte, apologia de sócrates (ambíguo: consta mirtes coscodai na página de rosto e não consta no começo da obra)

- aristóteles
a. abril cultural:
poética (eudoro de souza)
b. nova cultural:
poética (baby abrão)

- maquiavel
a. abril cultural:
o príncipe (lívio xavier)
escritos políticos (lívio xavier)
b. nova cultural:
o príncipe (olívia bauduh)
escritos políticos (olívia bauduh)

- descartes
a. abril cultural:
discurso do método (jacó guinsburg e bento prado jr.)
meditações (jacó guinsburg e bento prado jr.)
paixões da alma (jacó guinsburg e bento prado jr.)
b. nova cultural:
discurso do método (enrico corvisieri)
meditações (enrico corvisieri)
paixões da alma (enrico corvisieri)

- pascal
a. abril cultural:
pensamentos (sérgio milliet)
b. nova cultural:
pensamentos (olívia bauduh)

IV. sobre as traduções dos títulos novos
quanto às sete obras que não constavam na coleção da abril cultural, e foram introduzidas na coleção da nova cultural, as respectivas traduções são de:

platão, eutífron: ambíguo - enrico corvisieri/ não consta
platão, críton: ambíguo - enrico corvisieri/ não consta
platão, fédon: ambíguo - enrico corvisieri/ não consta
platão, a república: enrico corvisieri
aristóteles, organon: pinharanda gomes
aristóteles, política: baby abrão e therezinha deutsch
aristóteles, constituição de atenas: therezinha deutsch

V. resumindo
há, portanto, 17 obras publicadas na coleção os pensadores da nova cultural que não constavam ou constavam em outras traduções na coleção original da abril cultural.

entre as traduções dessas 17 obras:
- pinharanda gomes é um estudioso português, cuja tradução do organon teve sua primeira edição em 1985, pela guimarães. aparentemente a nova cultural teria comprado os direitos da guimarães, pois afirma ser a detentora dos "direitos exclusivos sobre as traduções deste volume" de aristóteles. mas tenho algumas dúvidas, e acharia mais provável que se trate de uma contrafação, visto que organon de pinharanda gomes continua ativo no catálogo da guimarães.
- 12/16 obras aparecem em novas traduções.
- 4/0 obras não mencionam os créditos de tradução.

sobre elas pretendo me debruçar um pouco nos próximos dias.

imagem: lugardoconhecimento.wordpress.com

o contexto I

o lançamento da coleção os pensadores da abril cultural começou em 1972 e se estendeu até 1975, num projeto de grande fôlego coordenado por josé américo pessanha. a coleção contou com o trabalho de acompanhamento, consultoria, seleção e tradução de dezenas e dezenas de intelectuais do mais alto nível. foi uma iniciativa muito importante, que marcou época, introduzindo no brasil autores, obras e excertos de obras do pensamento até então indisponíveis no país. tornaram-se de fato livros de imensa utilidade para o ensino nas mais diversas áreas de graduação e para quem queria se enfronhar um pouco em filosofia, teoria econômica, teoria política, antropologia, lógica, psicologia, psicanálise, teoria da linguagem etc. a coleção era composta por 52 volumes, com textos de 114 pensadores no total (pois diversos volumes traziam textos de dois ou mais pensadores), com apresentação em ordem cronológica. teve inúmeras reedições, e muitos textos realmente se tornaram obras de referência.

após a extinção da abril cultural, a nova cultural não interrompeu a publicação dos títulos herdados na partilha, reeditando-os à medida que iam se esgotando. mas, neste processo, foram se registrando várias mudanças em relação a os pensadores originais: no escopo, na abrangência temática, na quantidade de obras ou excertos de cada pensador, na apresentação, na qualidade técnica, material e editorial. em suma, foi se tornando um fantasma pálido do projeto inicial. no final dos anos 1990, a coleção da nova cultural começou rapidamente a perder credibilidade nos meios acadêmicos e entre os aficionados de obras do pensamento.

em 2004, veio a iniciativa da nova cultural em "relançar" a coleção com grande campanha de marketing e propaganda. de início, a coleção se resumiria a 20 volumes e 20 pensadores, além de uma obra adicional chamada história da filosofia. devido ao sucesso alcançado, a editora decidiu ampliar a coleção para 40 volumes, acrescentando mais outra obra chamada grandes filósofos, totalizando 42 volumes.

a coleção os pensadores da nova cultural estava a cargo da coordenadora editorial janice florido e do editor eliel silveira cunha, os mesmos de triste memória que em 2002-2003 tinham estado à frente da infeliz coleção obras-primas. com a diferença, porém, que desta feita não havia o patrocínio da suzano celulose.

projeto inicial de lançamento em 2004:
1. Sócrates
2. Platão
3. Aristóteles
4. Santo Agostinho
5. São Tomás de Aquino
Volume extra: História da filosofia
6. Maquiavel
7. Thomas More
8. Galileu
9. Montaigne
10. Thomas Hobbes
11. Descartes
12. Espinosa
13. Leibniz
14. Hume
15. Kant
16. Hegel
17. Schopenhauer
18. Comte
19. Nietzsche
20. Marx

os que vieram a se acrescentar à coleção foram:
21. Freud
22. Bacon
23. Heidegger
24. Santo Anselmo
25. John Locke
26. Montaigne II
27. Pascal
28.Vico
29. Berkeley
30. Pavlov
Volume extra: Grandes Filósofos
31. Rousseau
32. Husserl
33. Diderot
34. Newton
35. Bergson
36. Rousseau II
37. Adorno
38. Abelardo
39. Pré-Socráticos
40. Montesquieu

se alguém se interessar pelo conteúdo da coleção original de os pensadores pela abril cultural, veja aqui.

imagem: domenico ghirlandaio, são jerônimo em seu gabinete

12 de jan. de 2009

ementas / utilidade pública


como eu estava dizendo, é o professor que ensina.

seguem-se alguns exemplos de ementas de curso para graduação e pós-graduação, de norte a sul do país. são recentíssimos: 2008 e 2009.

como a revelação escandalosa dos plágios da martin claret, com repercussão nacional, ocorreu em outubro/novembro de 2007, não dá para alegar desconhecimento.

[para ver os programas completos, clique nos respectivos links]

Disciplina: PGL 3123 – Tópicos Especiais de Leitura
Período: 2º semestre 2008 Roteiro de leituras dos textos clássicos [...] PLATÃO. A República. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo. Editora Martin. Claret 2007 ________ Apologia de Sócrates. Tradução de Jean Melville. São Paulo. Editora Martin. Claret 2003 ________ Fedro. Tradução de Alex Marins. São Paulo. Editora Martin. Claret 2007

PLANO DE ENSINO 2008 2.2 VII – BIBLIOGRAFIA BÁSICA [...] PLATÃO. A República. São Paulo: Martin Claret, 2001. ARISTÓTELES. Ética à Nicômaco. São Paulo: Martin Claret, 2001

Ementas BIBLIOGRAFIA – APROVEITAMENTO DE ESTUDOS (1º Período) FILOSOFIA ANTIGA – CH 60h/a [...]PLATÃO. A República. Livro 7º. São Paulo. Martin Claret, 2001.

Disciplina - Listagem de Ementa/Programa 2008/2 [...]MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2001

PLANO DE ENSINO 2008/02 IHERING, Rudolf Von. A luta pelo direito. São Paulo: Martin Claret, 2001. LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo. São Paulo: Martin Claret, 2002. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do partido comunista. São Paulo, Martin Claret, 2000. [...] ROSSEAU, Jean-Jacques. Do contrato social. São Paulo: Martin Claret, 2001 [...] WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Martin Claret, 2001.

Cód.: IMS03912 Teoria Social EMENTA 2008/01 [...]WEBER, Max ([1904-5] 2001) - A ética protestante e o espírito do capitalismo, São Paulo, Editora Martin Claret

PROGRAMA DA DISCIPLINA 2008/01 BIBLIOGRAFIA [...]WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 13. ed. São Paulo: Editora Martin Claret, 2001.

ÉTICA EMPRESARIAL EMENTA 2008 Bibliografia básica: [...]PLATÃO. A república. São Paulo: Martin Claret, 2002 (curiosamente o link deixou de abrir: em todo caso: é unifra, pós-graduação em finanças, disciplina de ética empresarial)

FILOSOFIA POLÍTICA EMENTA 2008 Bibliografia Básica [...]HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo: Martin Claret, 2002 (coleção Obra prima de cada autor). LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo. São Paulo: Martin Claret, 2005 (coleção Obra prima de cada autor). MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo: Martin Claret, 2003 (coleção Obra prima de cada autor).

Módulo II: DIREITOS FUNDAMENTAIS JUNHO 2008 REFERÊNCIAS Bibliográficas MONTESQUIEU. Do Espírito das Leis, Tradução: Jean Melville. São Paulo: Martin Claret, 2005.

PLANO DE ENSINO 2008/01 Bibliografia Básica [...]DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martin Claret, 2006 [...] MARX, Karl; ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Martin Claret, 2004

EMENTA BIBLIOGRAFIA BÁSICA [...]ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Martin Claret, 2002

PROGRAMA PÓS-GRADUAÇÃO FILOSOFIA UNB 2009/2010 ÉTICA IV. Bibliografia básica: AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Martin Claret, 2003. [...] PROVAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS 5. Bibliografia: [...] Aristóteles. Ética a Nicômaco. Tradução Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret Editora, 2001.

PLANO DE CURSO 2008/01 Disciplina: Literatura Latina 9. BIBLIOGRAFIA: BÁSICA ARISTOTELES. A arte poética. São Paulo, Martin Claret: s/d [...]EURIPEDES. Alceste, Electra e Hipólito. São Paulo, Martin Clarte; s/d [...]HOMERO. Ilíada. São Paulo, Martin Claret: s/d HOMERO. Odisséia. São Paulo, Martin Claret: s/d OVIDIUS. A arte de amar. São Paulo, Martin Claret: s/d ________. Metamorfoses. São Paulo, Martin Claret: s/d [...]PETRONIO. Satiricon. São Paulo.,Martin Claret: s/d PLATÃO. Fedro. São Paulo, Martin Claret: s/d PLATÃO. A república. São Paulo, Martin Claret: s/d [...]SÓFOCLES. Édipo rei e Antígona. São Paulo, Martin Claret: s/d VERGILIUS. Eneida. São Paulo, Martin Claret: s/d

ADEQUAÇÃO DO PROJETO PEDAGÓGICO aprovado em set/2007 para implantação 2008 FILOSOFIA E EDUCAÇÃO Bibliografia Básica [...]MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. SP:Martin Claret, 2002. Bibliografia Complementar ARISTÓTELES. Política. SP: Martin Claret, 2002. [...]DESCARTES, René Discurso do Método. SP: Martin Claret, 2002. [...]MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. SP: Martin Claret, 2002. KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. SP: Martin Claret, 2002 PLATÃO. Apologia de Sócrates. SP: Martin Claret, 2002. [...]WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. SP:Martin Claret, 2002.

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGÜÍSTICA APLICADA E ESTUDOS DA LINGUAGEM - LAEL 2009/01 Argumentação e Produção de Conhecimento Ementa [...] SPINOZA, Baruch de. Ética: demonstrada à maneira dos geômetras. Trad. Jaena Melville. São Paulo: Martin Claret

PLANO DE ENSINO 2008/01 I – IDENTIFICAÇÃO DA DISCIPLINA VIII – BIBLIOGRAFIA [...] DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. Coleção a obra prima de cada autor. São Paulo: Martin Claret, 2007.

PROJETO DIDÁTICO-PEDAGÓGICO DO CURSO DE DIREITO FILOSOFIA DO DIREITO B I B L I O G R A F I A B Á S I C A: [...]KANT, Immanuel. Metafísica dos Costumes. Martin Claret, 2004. LOCKE, John. II Tratado Sobre o Governo. Martin Claret, 2003. PLATÃO. Apologia de Sócrates. Martin Claret, 2001. ________. A República. Martin Claret, 2001. ROUSSEAU, Jean-Jaques. Do Contrato Social. Martin Claret, 2003

1º Semestre de 2009 Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social – PPGAS, UFAM. Linha 3: - A Dinâmica da Cidade e o Fenômeno Urbano [...] De Coulanges, F. A Cidade Antiga. São Paulo, Ed. Martin Claret, Ltda, 2006

USP Escola de Comunicações e Artes Artes Cênicas 2008 Disciplina: CAC0237 - História do Teatro II Bibliografia ARISTÓETELES Poética. São Paulo: Martin Claret, 2004. [sic]

INSTRUÇÕES ESPECÍFICAS QUE REGULAMENTAM O CONCURSO PÚBLICO PARA PROFESSOR ADJUNTO OU ASSISTENTE Bibliografia:[...] Max Weber. Ética prostetante e o espírito do capitalismo. Coleção os pensadores. Martin Claret, 2001 [sic]

Programa da Disciplina 2008 Bibliografia [...]DURKHEIM, Emile. As regras do método sociológico. Traduzido por Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2002. (Coleção obra-prima de cada autor).

CURSO: LETRAS DISCIPLINA: TEORIA DA LITERATURA 2008/1 e 2 BIBLIOGRAFIA BÁSICA ARISTÓTELES. Poética. São Paulo: Martin Claret, 2003

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO Bibliografia:[...]HOBBES, Thomas. Leviatã – Ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. (tradução de Alex Marins). São Paulo: Editora Martin Claret, 2002

HISTÓRIA ANTIGA 2009 (anual) Referências Fontes impressas: EPICURO. Pensamentos. São Paulo: Martin Claret, 2005. MARCO AURÉLIO. Meditações. São Paulo: Martin Claret, 2005. OVÍDIO. A arte de amar. São Paulo: Martin Claret, 2003.

Doutorado em Administração de Empresas Epistemologia Bibliografia Básica: DESCARTES, R. Discurso do método. São Paulo. Martin Claret, 2002.

Plano de Ensino Consolidado NOCOES GERAIS DE DIREITO 2008/2 Bibliografia 12. MONTESQUIEU, C. L. de S. Do espírito das Leis. Trad. de J. Melville. São Paulo: Martin Claret, 2003. [...] 23. ROUSSEAU, J.-J. Do contrato social: ou princípios do direito político. Trad. de P. Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2003. 24. ROUSSEAU, J.-J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Trad. de A. Marins. São Paulo: Martin Claret, 2006.

Sociologia das Organizações Ementa Bibliografia [...] WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Martin Claret, 2001.

Disciplina Ciência Política 2008/02 Bibliografia Complementar [...]ARISTÓTELES. Política: São Paulo: Martin Claret, 2004 [...]ROUSSEAU. Jean Jacques. Do contrato social. São Paulo: Martin Claret, 2003.

Curso de Ciências Econômicas Disciplina Política 2008/1 Bibliografia Básica [...] 3. LOCKE, JOHN. Segundo tratado sobre o governo. São Paulo: Ed. Martin Claret, 2002

Direito 2008/2 bibliografia complementar ROUSSEAU, Jean Jacques. Do contrato social. São Paulo: Martin Claret, 2003.

Disciplina Empreendedorismo: Teoria e Prática Bibliografia WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo. Martin Claret. 1ª Edição

sinceramente não entendo, pois a claret é notória fraudadora e delinquente editorial; professor tem responsabilidade social e moral pelo que ensina; a maioria dos títulos indicados é de facílimo acesso, em edições idôneas, muitas delas inclusive mais baratas do que a infeliz claret (o grande argumento falacioso que tantos repetem). então por quê?

imagem: www.absolutmartunis.blogspot.com