26 de nov de 2010

coleção folha, descartes I

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por desencargo de consciência, fui ver o descartes da coleção folha: discurso sobre o método, tradução de norberto de paula lima, e princípios da filosofia, tradução de torrieri guimarães, ambas licenciadas da editora hemus.


quanto ao discurso sobre o método, fiquei surpresa com a quantidade de erros de revisão, de construções trôpegas e frases sem sentido: "criei um método que, parece-me, proporcionou-me os meios para o gradativo aumento de meu conhecimento, e a levá-lo, gradualmente, ao máximo de grau que a mediocridade de meu espírito e a breve duração de minha vida lhe permitiu atingir"; "os que caminham muito vagarosamente podem adiantar muito mais ... do que os que correm"; "a memória tão dilatada e tão presente quanto a muitos outros"; "os exercícios com que nos entrelinhamos na escola", "o que apelidam com tão lindo nome não e senão insensibilidade"; "sempre houveram funcionários"; "ficar-se-á conhecendo que trabalhando"; "não se deveu o fato a excelência de suas leis cada qual por si mesma, muitas de cujas leis eram bem estranhas"; "as ciências dos livros, ao menos as cujas razões são apenas prováveis"; "essas longas cadeias ... deu-me motivo" etc.

não entendi como uma frase tão simples em francês como "les peuples qui, ... ne s’étant civilisés que peu à peu" foi traduzida como "os povos que, ... apenas se tendo civilizado há pouco" [seria "aos poucos"].

ou "Que si mon ouvrage m'ayant assez plu, je vous en fais voir ici le modèle, ce n'est pas, pour cela, que je veuille conseiller à personne de l'imiter" como "Por estar contente de meu trabalho, pretendo ter aqui o modelo, não quero dizer que vá aconselhar alguém a imitá-lo" ["pois se, tendo minha obra me agradado bastante, mostro-vos aqui seu modelo, nem por isso pretendo aconselhar ninguém a imitá-lo"].

ou "la pluralité des voix" como "a pluralidade dos votos" [em vez de "pluralidade das vozes", isto é, das opiniões].

ou "En quoi je ne vous paroîtrai peut-être pas être fort vain, si vous considérez que..." como "E isso não parecerá, talvez, em excesso inútil, se for considerado que..." ["Nisso não vos parecerei talvez demasiado vaidoso, se considerardes que..."]

ou "fazer estoque de arquitetos" em vez de "providenciar arquitetos"; "trocar com cuidado a planta" em vez de "desenhar cuidadosamente a planta"; "nós mesmos fazermos exercícios de arquitetura" para "nós mesmos sermos os construtores"...

estranhei um pouco que, numa obra que faz rigorosa distinção entre opinião e conhecimento, croyance fosse a certa altura traduzido por "entendimento", além de algumas outras diluições conceituais, um "parlapatice" que parece um tanto deslocado no contexto, um certo atropelo nos tempos verbais e o uso um tanto repetitivo do verbo "achar" para um amplo leque: penser, juger, considérer, trouver, être, rencontrer...

quem estiver lendo o discurso do método pela primeira vez terá de fazer, penso eu, um certo esforço para acompanhar o texto de descartes, e não só pelas dificuldades intrínsecas da obra.

quanto aos princípios de filosofia, cuja tradução em nome de torrieri guimarães me surpreendeu por outra ordem de razões, talvez eu comente em outro post.

de qualquer forma, fiquei com pena, pois a folha (ou a empresa que organizou a coleção para a folha) dispunha de outras opções para licenciar uma tradução mais confiável do discurso do método, por exemplo de jacó guinsburg e bento prado jr., de maria ermantina galvão, de paulo neves. provavelmente a folha estaria zelando melhor por seu histórico de boas coleções, e demonstraria maior apreço por seus leitores.
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4 comentários:

  1. Denise,
    Tomando emprestada uma construção que li outro dia, num livro também traduzido do francês: Aparentemente, essa edição resultou em um não importa o quê!
    Abraço,
    Luis

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  2. Jander26.11.10

    Confesso que, para quem gosta e conhece livros com boas traduções, ter um livro desse em casa é uma sensação de ter sido enganado. Tenho a edição de Descartes e de Platão do fantasmático Corvisieri. Simplesmente não consigo nem começar a ler essas traduções; simplesmente porque a cada parágrafo me lembro que fui enganado pela editora e por quem deveria zelar pelo conhecimento e sua transmissão.
    Quero me livrar deles. Como? Os sebos são espertos e parecem não querer trocá-los pelas traduções antigas. As bibliotecas municipais não merecem tal entulho cultural. O que fazer? Talvez deixar aqui mesmo, a fim de que me lembre que todo pensador, todo leitor deve procurar as suas informações por si mesmo, desconfiando, cruzando informações e, infelizmente, desconfiando de nossas próprias instituições. Não me furto a pensar que a questão plágio/tradução mal feita/edição enganadora seja um traço profundo de nossa decadência cultural. A 'Folha de São Paulo' simplesmente deveria ter retirado de circulação essa coleção, pois só uns 3 ou 4 livros se salvam. Mas já estava tudo pronto para vender, e, se não fosse por aqui, nem um pio teria sido dado. E mais uma vez os sebos, as bibliotecas e a cultura terão que lidar com mais essa desfaçatez de um país que vem exigindo tão pouco das coisas do espírito.
    Desculpe o desabafo, mas às vezes é revoltante desejar tão pouco para o próximo e só visar o dinheiro e o lucro.
    abraços,
    Jander.

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  3. Prezada Denise Bottmann, e você nem comentou o Kant! Acho que vou fazê-lo. Abraços, Pádua.

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  4. HAHAHAHAHA
    ¿Que esperar qdo um jornal publica livros de filosofia? E pô, ¿que pretende, senão ganhar circulação de seu jornal entre o povaréu q ainda nem jornal lê? Tou dizendo: a solução pro Brasil é um Ministério das Traduções.

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